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CODIFICAÇÃO => O Céu e o Inferno => Tópico iniciado por: *Leni* em 26 de Janeiro de 2009, 19:00

Título: Cap IX - Os Demônios III
Enviado por: *Leni* em 26 de Janeiro de 2009, 19:00




Céu e Inferno

Cap IX - Os Demônios III

Origem da crença nos Demônios

14 — Segundo esta doutrina, uma parte dos demônios fica somente no inferno enquanto a outra erra em liberdade, intrometendo-se em tudo que se passa neste mundo, divertindo-se em praticar o mal, e isso até o fim do mundo, cuja data indeterminada não chegará provavelmente tão cedo. Mas por que essa diversidade? São estes menos culpados? Seguramente não. A menos que se revezem nos seus papéis, o que parece resultar desta passagem: "Enquanto uns permanecem na sua morada tenebrosa e servem de instrumento à justiça divina contra as almas infortunadas que seduziram".

Suas funções consistem, pois, em atormentar as almas que seduziram. Assim, não estão encarregados de punir as que são culpadas de faltas livre e involuntariamente cometidas, mas aquelas que cairam pelas suas próprias provocações. São, ao mesmo tempo, a causa da falta, e o instrumento do castigo. E, coisa que a justiça humana por mais imperfeita não admitiria, a vítima que sucumbe por fraqueza, na ocasião preparada para isso, é punida tão severamente como o agente provocador que empregou contra ela a artimanha e a astúcia. A punição é até mais severa, porque ela vai ao inferno ao deixar a Terra, para dali nunca mais sair, sofrendo sem trégua nem perdão pela eternidade, enquanto aquele que foi a causa da sua queda goza de uma dilação de prazo, em liberdade até o fim do mundo! A justiça de Deus não seria então mais perfeita que a dos homens?

15 — Isso não é tudo. "Deus permite que eles ocupem ainda um lugar na criação, nas relações que devem ter com os homens e das quais abusam da maneira mais perniciosa." Deus poderia ignorar que eles iam abusar da liberdade que lhes concedia? Então porque a concedeu? Foi pois em conhecimento de causa que deixou as suas criaturas à mercê dos demônios, sabendo, em virtude da sua infinita presciência, que elas sucumbiriam e teriam a mesma sorte dos tentadores.

Não tinham elas a sua própria fraqueza, sem a necessidade de que fossem excitadas ao mal por um inimigo tanto mais perigoso, quanto invisível? Ainda se o castigo fosse apenas temporário e o culpado pudesse salvar-se pela reparação! Mas não: ele é condenado pela eternidade. Seu arrependimento, seu retorno ao bem, suas lamentações, tudo é sem valor.

Os demônios são assim agentes provocadores predestinados a recrutar almas para o inferno, e isso com a permissão de Deus, que sabia, ao criar essas almas, a sorte que lhes estava reservada. Que se diria, aqui na Terra, de um juiz que usasse semelhantes meios para encher as prisões? Estranha idéia que nos dão da Divindade de um Deus cujos atributos essenciais são a soberana justiça e a soberana bondade!

E é em nome de Jesus Cristo, daquele que só pregou o amor, a caridade e o perdão, que se ensinam semelhantes doutrinas! Houve um tempo em que esses absurdos passavam despercebidos. Não podiam ser compreendidos, não chocavam os sentimentos. O homem, arcado ao jugo do despotismo, submetia a sua razão de maneira cega, ou melhor, abdicava da razão. Mas hoje a hora da emancipação já soou. Ele compreende a justiça e deseja tê-la durante a sua vida e após a sua morte. Eis porque ele clama: isso não é assim, não pode ser assim ou Deus não é Deus!

16 — O castigo segue por toda a parte esses seres decaídos e malvistos, que levam sempre consigo o seu próprio inferno: eles não têm paz nem repouso; as próprias doçuras da esperança foram transformadas para eles em amarguras. A esperança lhes é odiosa. A mão de Deus os feriu no ato mesmo do pecado e a sua vontade se obstinou no mal. Tornados perversos, não querem mais deixar de sê-lo e o são para sempre.

Após o pecado eles são o que o homem é depois da morte. A reabilitação dos que caíram é pois impossível. Sua perda é sem reparação e eles perseveram no seu orgulho face a face com Deus, no seu ódio contra Cristo, na sua inveja da humanidade.

Não tendo podido conquistar a glória do céu, pelo excesso de suas ambições, procuram estabelecer o seu império na Terra e dela afastar o reino de Deus. O Verbo feito carne cumpriu, apesar deles, os seus desígnios para a salvação e a glória da humanidade. Empregam, pois, todos os seus meios para levar à perdição às almas resgatadas. A astúcia e a importunação, a mentira e a sedução são utilizadas para as conduzir ao mal e à ruína completa.

Com tais inimigos, a vida do homem, desde o berço até o túmulo, não pode ser, desgraçadamente, senão uma luta perpétua, porque eles são poderosos e infatigáveis.

Esses inimigos, com efeito, são os mesmos que, depois de introduzirem o mal no mundo, cobriram a Terra com as trevas espessas do erro e do vício. São os que, durante muitos séculos, fizeram adorar-se como deuses reinando como senhores sobre os povos da Antigüidade. São, enfim os que ainda exercem o seu império tirânico sobre as regiões idólatras, fomentando a desordem e o escândalo até mesmo no seio das sociedades cristãs.

Para se compreender todos os recursos de que eles dispõem para o serviço da sua maldade, basta notar que eles nada perderam das prodigiosas faculdades, que são o apanágio da natureza angélica. Sem dúvida, o futuro e sobretudo a ordem sobrenatural tem mistérios que Deus se reserva e que eles não podem descobrir. Mas a sua inteligência é muito superior à nossa, porque eles percebem num simples olhar os efeitos ainda nas suas causas, e as causas nos seus efeitos. Essa penetração lhes permite anunciar com antecedência acontecimentos que escapam às nossas conjeturas. A diversidade e a distância dos lugares desaparecem diante da sua agilidade. Mais rápidos que o raio, mais instantâneos que os pensamentos, eles se encontram quase ao mesmo tempo sobre diversos pontos do globo e podem descrever de longe os acontecimentos que testemunham na mesma hora em que eles se verificam.

As leis gerais pelas quais Deus rege e governa o universo não estão ao seu sabor: eles não podem interrogá-las, nem portanto predizer ou operar verdadeiros milagres, mas possuem a arte de imitar e falsificar as obras divinas dentro de certos limites. Sabem quais os fenômenos que resultam da combinação dos elementos e predizem com segurança os resultados de combinações naturais como os das combinações que podem fazer por si mesmos. Daí esses oráculos numerosos, os vaticínios extraordinários de que os livros sagrados e profanos nos guardaram a lembrança e que serviram de base e de alimento para todas as superstições.

A sua substância simples e imaterial escapa aos nossos olhos. Eles estão ao nosso lado sem que os percebamos; tocam a nossa alma sem tocar os nossos ouvidos; cremos obedecer ao nosso próprio pensamento, quando estamos sofrendo as suas tentações e a sua funesta influência. Ao contrário disso, as nossas disposições são conhecidas por eles, através das impressões que nos fazem sentir, o que lhes permite nos atacarem, em geral pelo nosso lado mais fraco. Para nos seduzirem com mais segurança costumam apresentar-nos idéias e sugestões de acordo com as nossas tendências. Modificam a sua atitude segundo as circunstâncias e de acordo com os traços característicos de cada temperamento. Mas as suas armas favoritas são a mentira e a hipocrisia.

17 — O castigo, dizem, os segue por toda parte. Não têm mais nem paz nem repouso. Isso não destrói a observação referente ao descanso dos que não estão no inferno, descanso tanto menos justificado, quanto, estando de fora praticam ainda muito maior mal. Sem dúvida, eles não são felizes como os anjos bons, mas seria contada a liberdade de que gozam? Se eles não têm a felicidade moral que a virtude proporciona, são entretanto menos infelizes que os seus cúmplices que se acham nas chamas. Além disso o malvado sempre desfruta uma espécie de prazer ao praticar o mal com toda a liberdade. Pergunte-se a um criminoso se para ele tanto faz estar na prisão ou percorrer os campos cometendo os seus crimes à vontade. A situação é exatamente a mesma?

O remorso, dizem, o persegue sem tréguas nem piedade. Mas se esquecem de que o remorso é precursor imediato do arrependimento, quando já não é o próprio arrependimento. Dizem: "Tornando-se perversos, eles não querem mais deixar esse caminho e o seguem para sempre." Mas então, se eles não querem deixar de ser perversos, é que não sofrem remorsos. Se tivessem o menor pesar, cessariam de praticar o mal e clamariam pelo perdão. Assim, o remorso não é um castigo para eles.

18 — "Eles estão após o pecado como o homem após a morte. A reabilitação. dos que cairam é pois impossível." De onde vem essa impossibilidade? Não se compreende que decorra da semelhança de situação com a do homem após a morte, proposição que, aliás, não é bastante clara. Essa impossibilidade virá da sua própria vontade ou da vontade de Deus? Se for da sua vontade, denota extrema perversidade, um endurecimento absoluto no mal. Nesse caso, não se compreende que seres tão essencialmente maus tenham jamais podido estar entre os anjos virtuosos e que, durante o tempo infinito que passaram entre eles, não tenham deixado perceber nenhum sinal de sua maldade natural. Se for da vontade de Deus, ainda menos se compreende que lhes possa ser dado, como castigo, a impossibilidade de voltar ao bem, após a prática da primeira falta. O Evangelho não ensina nada semelhante.

19 — "Sua perda, acrescenta, é desde então irremediável e eles perseveram no seu orgulho face a face com Deus." De que lhes serviria não perseverar desde que todo o arrependimento é inútil ? Se tivessem a esperança de uma reabilitação, a qualquer preço que fosse, o bem poderia ser alguma coisa para eles, enquanto dessa maneira não é nada. Se perseveram no mal é porque a porta da esperança foi fechada para eles. E porque Deus a fechou? Para se vingar da ofensa que lhe fizeram ao faltarem com a submissão. Assim, para vingar o seu ressentimento contra alguns culpados, Deus prefere vê-los, não somente sofrer, mas continuarem a praticar o mal em lugar do bem, induzindo ao mal e lançando à perdição eterna todas as criaturas do gênero humano, quando bastaria um simples ato de clemência para evitar tamanho desastre, um desastre já predeterminado desde toda a eternidade?

Seria, por acaso, esse ato de clemência uma graça pura e simples, que pudesse reverter em encorajamento ao mal? Não, mas um perdão condicional, subordinado a um futuro e sincero retorno ao bem. Em lugar de uma palavra de esperança e misericórdia, fizeram Deus dizer: pereça toda a raça humana, ante a minha vingança! E admiram-se que com uma tal doutrina haja incrédulos e ateus! Foi assim que Jesus nos apresentou o seu Pai? Ele que nos fez do esquecimento e do perdão das ofensas uma lei expressa, que nos ensinou a pagar o mal com o bem, que colocou o amor pelos inimigos no primeiro lugar entre as virtudes que devem nos conduzir ao céu, quereria então que os homens fossem mais justos, melhores, mais compassivos que o próprio Deus?

Os demônios segundo o Espiritismo

20 — Segundo o Espiritismo, nem os anjos nem os demônios são seres à parte: a criação dos seres inteligentes é una. Ligados a corpos materiais, esses seres constituem a humanidade que povoa a Terra e os outros planetas habitados; sem esses corpos, constitui o mundo espiritual ou dos Espíritos, que povoam os espaços. Deus os criou perfectíveis, dando-lhes por objetivo a perfeição com uma conseqüente felicidade, mas não lhes deu a perfeição. Deus quiz que eles devessem a perfeição ao seu esforço pessoal, a fim de que tivessem o seu próprio mérito. Desde o instante da sua formação eles começam a progredir, seja através da encarnação, seja no estado espiritual. Chegados ao apogeu, tornam-se Espíritos puros ou anjos, segundo a denominação vulgar. Dessa maneira, desde o embrião do ser inteligente até o anjo, há uma cadeia contínua em que cada elo representa um grau de progresso.

Disso resulta que existem espíritos em todos os graus de adiantamento moral e intelectual, segundo os quais eles se encontram no alto, em baixo ou no meio da escala. Há espíritos, portanto, em todos os graus de saber e de ignorância, de bondade e de maldade. Nas camadas inferiores há os que são ainda profundamente inclinados ao mal e nele se comprazem. Podem chamá-los demônios, se o quizerem porque são capazes de todas as maldades atribuídas a estes. Se o Espiritismo não lhes dá esse nome é para não ligá-los à idéia de seres distintos da humanidade, de uma natureza essencialmente perversa, destinada eternamente ao mal e incapazes de progredir para o bem.

21 — Segundo a doutrina da Igreja, os demônios foram criados bons e se tornaram maus por sua desobediência: são os anjos decaídos, que tentaram colocar-se em lugar de Deus no alto da escala e dela caíram. Segundo o Espiritismo, são espíritos imperfeitos mas que terão de melhorar-se; encontram-se ainda embaixo da escala, mas subirão.

Os que, por sua apatia, sua negligência, sua obstinação e má vontade permanecem por mais tempo nos planos inferiores, sofrem as conseqüências dessa situação e o hábito do mal lhes torna mais difícil sairem dali. Mas chega o tempo em que se cansam dessa existência penosa e dos sofrimentos que nela enfrentam. É então que, comparando sua situação à dos bons Espíritos, compreendem que o seu interesse está na prática do bem e procuram melhorar-se. Mas o fazem de sua própria vontade, sem serem constrangidos a isso.

Eles estão submetidos à lei do progresso em virtude da sua própria aptidão para progredir, mas não podem progredir contra a sua própria vontade. Deus lhes concede incessantemente os meios de progredir, mas eles são livres de os aproveitar ou não. Se o progresso fosse obrigatório, eles não teriam mérito algum, e Deus quer que eles tenham o mérito de seus esforços. Ele não eleva ninguém por meio de privilégio, mas o primeiro lugar está sempre aberto a todos e ninguém chega a ele sem os próprios esforços. Os anjos mais elevados conquistaram o seu grau como os outros, passando pela rota comum.

22 — Chegados a um certo grau de evolução, os Espíritos recebem missões que estão em relação com seu adiantamento. Cumprem todas aquelas que são atribuídas aos anjos das diversas ordens. Como Deus tem sempre criado, desde toda a eternidade, também de toda a eternidade se encontram espíritos em condições de satisfazer a todas as necessidades do governo universal. Uma só espécie de seres inteligentes, submetidos à lei do progresso, é pois suficiente. Essa unidade da criação, tendo todos o mesmo ponto de partida, o mesmo caminho a seguir e elevando-se pelo seu mérito, corresponde bem melhor à justiça de Deus que a criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas de dons naturais que representariam outros tantos privilégios.

23 — A doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos demônios e das almas, não admitindo a lei do progresso e considerando os seres, não obstante, em diversos graus, nos leva à conclusão de que eles são o produto de diversas criações especiais. Ela faz assim, de Deus, um Pai parcial, concedendo tudo a alguns de seus filhos, enquanto impõe a outros o mais rude trabalho.

Não é de se admirar que durante muito tempo os homens nada tenham visto de chocante nessas preferências, pois que eles também procediam assim com seus próprios filhos através do direito da primogenitura e dos privilégios de nascença. Poderiam eles pensar que erravam mais do que Deus? Mas hoje as idéias se ampliaram e eles vêem as coisas com mais clareza, têm noções mais precisas de justiça e as desejam para si mesmos. Se não encontram sempre essa justiça na Terra, esperam pelo menos encontrá-la no céu. Eis porque toda doutrina cuja justiça divina não lhes seja apresentada na sua maior pureza repugna-lhes a razão.(40)

(40) Não houve modificações fundamentais na Teologia Católica no tocante a essas questões. Se Teilhar de Chardin admite, na sua revolução teológica, que a alma condenada fica em tempo de espera, não é expulsa do "pleroma", o mesmo não acontece na doutrina oficial. O Catecismo Holandês avançou um pouco, mas o parecer da Comissão Cardinalícia, assinado por Monsenhor Mascarenhas Roxo, é taxativo a respeito: "Em resumo as almas que não necessitam de purificação entram na posse imediata da vida eterna, como presença "face a face" com a Trindade (a visão beatífica). Aquelas que necessitam de purificação devem cumpri-Ia no purgatório. As que são afetadas por pecado grave ou mortal sofrem imediatamente a condenação eterna do inferno." — O relator acentua que o Catecismo não nega nem põe em dúvida "nada disso", mas adverte que "a ressurreição final será no fim da História", o que vale dizer, no fim do mundo, quando se dará a "parusia ou segunda vinda do Senhor". Porque isso o Catecismo pôs em dúvida. A crítica de Kardec, portanto, permanece válida. (N. do T.)

Livraria Allan Kardec Editora.