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GERAL => Outros Temas => Artigos Espíritas => Tópico iniciado por: jose da silva de jesus em 08 de Agosto de 2019, 20:42

Título: Bem aventurados os justos
Enviado por: jose da silva de jesus em 08 de Agosto de 2019, 20:42






Bem aventurados os justos

A humanidade superou há um bom tempo as ideias de supremacia racial e as ideias sobre castas superiores. Apesar de muitos espíritos ainda estarem apegados a ideias elitistas, estas ideias não são mais aceitas sob o argumento de que existam raças ou pessoas de sangue superior, as diferenças e privilégios agora precisam ser justificados pela meritocracia, o que, sem dúvida, já é uma evolução importante.

Vivemos então a era da suposta meritocracia e muitas pessoas acreditam no discurso mérito, acreditam seriamente que existem oportunidades iguais para todos e só não chegam aos mais altos postos sociais aqueles que não correm atrás.

Em relação à evolução espiritual, não temos dúvida. Para os espíritas, a meritocracia em relação à evolução da condição espiritual é plena e indiscutível. Os espíritos só melhoram sua condição espiritual, sua sintonia vibratória e se aproximam da felicidade, por meio do mérito moral, pelo saldo positivo do bem que praticam e pela eliminação de seus vícios e falhas de caráter. Mas para o espiritismo isto não tem relação alguma com a meritocracia das posições sociais no mundo material. A reencarnação na pobreza ou na riqueza podem ser, em ambos os casos, um teste ou até parte de uma missão.

Mas para aqueles que acreditam no ideal da meritocracia das condições materiais em nossa sociedade atual, a expressão mais comum hoje deste ideal é a figura do empregado que se transforma em empregador. Sair da posição subalterna e se transformar em empresário é o símbolo mais comum de reconhecimento do mérito. O empregador sai da condição subalterna e passa ele mesmo então a empregar outras pessoas, que supostamente ainda não tiveram seu mérito testado e reconhecido pela sociedade. Esta é uma ideia quase que universal em todo ramo de atividade, basta uma pessoa desempenhar bem qualquer função e logo é bombardeada de conselhos de amigos para que transforme sua atividade em um negócio empresarial com vários empregados, com comentários do tipo “você poderia ganhar dinheiro com isso”, “deveria abrir uma empresa”.
 
Mas se este ideal de meritocracia das condições materiais fosse verdadeiro, como é que espíritos imperfeitos como nós poderiam ter criado um mundo justo e guiado pelo mérito?
Não faz sentido, sabemos que não somos perfeitos, sabemos que as sociedades que vivemos são um reflexo dessa nossa imperfeição, uma prova disso é a forma como observamos espantados as sociedades do passado, com todos os seus absurdos e suas injustiças e percebemos que elas só podem ter sido criadas por espíritos mais atrasados. Reconhecemos que existe uma relação entre os defeitos de uma sociedade e a imperfeição de seus habitantes, por isso sabemos que não é plausível que nós tenhamos criado uma sociedade plenamente justa.

As formas antigas de injustiça eram aceitas com naturalidade no passado por espíritos menos evoluídos do que nós, de forma semelhante, as formas atuais de injustiça que são aceitas hoje por nós, espíritos ainda distantes da perfeição, serão também rejeitadas pelos espíritos do futuro. Portanto, podemos ter certeza de que o que aceitamos hoje como normal está ainda longe do ideal de perfeição e justiça. Claro que exceções existem, pessoas que sobem ou descem na nossa pirâmide social de acordo com o próprio mérito, mas no nível atual de evolução em que nos encontramos, a justiça social é exceção e a injustiça infelizmente ainda é a regra.

Em épocas passadas, em outros sistemas sociais também injustos, pessoas eram escravizadas, mas existiam também formas de escapar da escravidão. Escravos poderiam ser libertados por seus donos por gratidão destes, ou poderiam comprar sua própria liberdade juntando dinheiro e pagando o preço considerado justo no mercado. Estes escravos libertos então podiam se tornar eles mesmos proprietários de terra e até mesmo possuir escravos, um salto da condição de escravizado para a de escravizador. Este era o ideal de mérito daquelas sociedades escravocratas, mas será que este suposto mérito entre escravizados e seus senhores torna a escravidão aceitável ou justa? Para nós é óbvio que não, mas para a imensa maioria das pessoas daquela época sim, a escravidão e a liberdade eram supostamente baseadas no mérito individual.

De forma bem similar, a divisão social rígida existente no feudalismo entre senhores feudais e servos também poderia ser quebrada de algumas maneiras. Um vassalo que encontrasse um grande tesouro enterrado (costume comum em tempos antigos); ou um líder guerrilheiro que conquista sua liberdade e se torna senhor de um território; ou um servo próximo da realeza que é agraciado com títulos e terras, todos estes poderiam ascender da condição de servo à de senhor e passar então a sujeitar seus irmãos a todos os tipos de abuso naturais de um sistema feudal. Estas formas de ascensão social eram consideradas o sistema mérito daqueles tempos medievais. É fácil para os espíritos dos tempos atuais rejeitarem estas divisões sociais arbitrárias e as supostas formas de meritocracia e ascensão social, mas elas eram aceitas pelos espíritos da época que raramente as questionavam.

Nos tempos atuais, a ascensão da condição de empregado para a de empresário é a forma de mérito socialmente aceita. Passando da condição de explorado para a de explorador de mão de obra, o antigo empregado rejeita a indignidade e a injustiça do valor do salário de um trabalhador de nível subalterno. Mas ele não rejeita a vida mais confortável e cheia de supérfluos que é possível agora que ele mesmo se tornou um empregador e passou a remunerar trabalhadores (seus empregados) com valor igual ao que costumava receber, valor que ele considerava insuficiente e indigno.

Mas sejam quais forem os ideais de mérito de cada época, a injustiça será sempre injustiça, mesmo que seja aceita pela maioria das pessoas. Aquele que usa o sistema e as normas vigentes, não apenas para se libertar da opressão feudal, da escravidão ou da exploração econômica, mas para ele mesmo se tornar senhor de escravos, de feudos ou patrão de trabalhadores miseráveis, está fazendo uso das injustiças socialmente aceitas e contrariando o ideal cristão de justiça. O abuso de um sistema injusto, para conseguir ascensão social disfarçada de mérito, é uma prova de que o espírito não está espiritualmente preparado para viver em uma sociedade melhor e que mais cedo ou mais tarde terá que experimentar novamente a condição de explorado, para então finalmente aprender a rejeitar toda injustiça.

Em todas as épocas teremos a nossa consciência e nosso livre arbítrio, nossa evolução espiritual, esta sim puramente baseada no mérito, será atestada pela forma como aceitamos ou como rejeitamos todas as injustiças, sejam elas consideradas legais ou ilegais de acordo com as normas vigentes em cada época.

Mas, ao contrário das leis humanas que mudam sempre, podemos confiar na lei cristã e no ideal de amor ao próximo que não mudam nunca. Quem guia sua conduta pelo evangelho, não precisa esconder seus atos e nem precisa tentar encontrar nas leis humanas imperfeitas do momento, uma justificativa que alivie a sua consciência pesada. Trate ao próximo nas relações econômicas e sociais da mesma forma como gostaria de ser tratado e com certeza, mais breve do que imagina, Deus lhe pagará com a mesma moeda.