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GERAL => O que é o espiritismo => Reencarnação => Tópico iniciado por: *Leni* em 27 de Dezembro de 2008, 15:40

Título: Capítulo I - O Crítico.
Enviado por: *Leni* em 27 de Dezembro de 2008, 15:40


O que é o Espiritismo. Capítulo I - O Crítico
PEQUENA CONFERÊNCIA ESPÍRITA
PRIMEIRO DIÁLOGO: O CRÍTICO

Visitante - Digo-lhe, senhor, que minha razão se recusa a admitir a realidade dos fenómenos extraordinários atribuídos aos Espíritos que, estou persuadido, existem apenas na imaginação. Entretanto, temos que nos inclinar ante à evidência; e isso eu faria se tivesse provas incontestáveis. Venho, pois, solicitar de sua bondade a permissão para assistir, não desejando tornar-me indiscreto, pelo menos a uma ou duas experiências que me convencessem, se isso for possível.
R-  Allan Kardec. - Caro senhor: se a sua razão se recusa a admitir o que nós consideramos fatos irrecusáveis, é que o senhor considera a sua razão superior à de todas as outras pessoas que não participam de suas opiniões. Não duvido absolutamente de seus méritos e nem tenho a pretensão de alçar minha inteligência acima da sua. Admita, pois, que eu esteja errado, pois é a razão quem lhe fala, e paremos por aqui.

V. - Entretanto, se o senhor chegasse a convencer-me, a mim que sou conhecido como um antagonista de suas ideias, isso constituiria um milagre favorabilíssimo à sua causa.
R-  A.K. - Lamento-o; mas não possuo o dom de fazer milagres. O senhor pensa que uma ou duas sessões serão suficientes para o convencer? Isso seria, efetivamente, um verdadeiro prodígio. Foi-me preciso mais de um ano de trabalhos para me convencer a mim mesmo, o que pode provar que, se hoje creio, a isso não cheguei levianamente. Ademais, não organizo sessões; e, ao que parece, o senhor se engana quanto ao objetivo de nossas reuniões, de vez que não fazemos experiências tendo em vista satisfazer à curiosidade de quem quer que seja.

V. - Quer dizer, então, que não se importa de fazer prosélitos?
R-  A.K. - Por que, pois, desejaria eu fazer do senhor um prosélito, quando o senhor mesmo não deseja sê-lo? Não forço quaisquer convicções. Quando encontro pessoas sinceramente desejosas de se instruírem e que me dão o prazer de solicitar esclarecimentos, torna-se-me uma satisfação e um dever responder-lhes nos limites de meus conhecimentos. Quanto aos antagonistas, porém, que como o senhor têm convicções arraigadas, não dou um passo para os desviar, mesmo porque o número dos que encontro bem preparados é considerável; e isso me dispensa de perder tempo com os que não o estão. A convicção virá, cedo ou tarde, pela força mesma das coisas; e os mais incrédulos serão arrastados pela correnteza. Neste momento, uns partidários a mais ou a menos não pesam na balança. Eis porque jamais serei visto preocupado em atrair às nossas ideias aqueles que têm tão boas razões, quanto o senhor, para se distanciarem delas.

V. - Há, não obstante, mais interesse em me convencer do que o senhor imagina. Permita que eu me explique com franqueza e prometa não se ofender com minhas palavras. Eis as minhas ideias sobre a coisa em si, e não sobre a quem me dirijo. É óbvio que posso respeitar a pessoa sem participar das suas opiniões.
R-  A.K.- O Espiritismo ensinou-me a dar pouco valor às mesquinhas suscetibilidades do amor próprio, a não me ofender com palavras. Se as suas ultrapassarem os limites da urbanidade e das conveniências, concluirei, apenas, que o senhor é um homem mal educado: só isso. Quanto a mim, prefiro deixar nas pessoas os seus defeitos, a partilhar deles. Observe, só por isso, que o Espiritismo, afinal de contas, serve para alguma coisa. Repito-lhe, senhor: não tenho absolutamente a pretensão de o fazer participar de minhas opiniões. Respeito a sua, se for sincera, assim como desejo que respeitem a minha. Mas, considerando o Espiritismo um sonho absurdo, naturalmente, ao se encaminhar para minha casa, o senhor dizia de si para si: "Vamos ver esse louco!" Confesse-o francamente: não me zangarei por isso. Todos os espíritas são loucos; isso é coisa convencional. Pois muito bem! O senhor considera tudo isso como uma doença mental e eu sinto um certo escrúpulo, confirmando seu juízo, e me espanto de que, com tal pensamento, tivesse vindo adquirir uma convicção que o incluiria no número dos loucos. Estando persuadido, de antemão, da impossibilidade de ser convencido, o senhor deu um passo inútil, pois só tem por finalidade satisfazer uma curiosidade. Sejamos breves, pois; eu lhe peço. Não tenho tempo a perder em conversas sem objetivo.

V. - Podemos nos iludir e nos enganar, sem que por isso sejamos loucos!
R-  A.K. - Fale sem rodeios. O senhor insinua, como tantos outros, que isto é uma novidade de curta duração. Mas é preciso convir que uma novidade, que em alguns anos fez milhões de prosélitos em todos os países, que conta, entre seus adeptos, sábios de toda ordem, que se difunde de preferência entre as classes cultas, é uma singular mania digna de ser examinada.

V. - Tenho minhas ideias a respeito, é certo; mas não são tão firmes que não possam ser sacrificadas à evidência. Disse-lhe que o senhor teria um certo interesse em convencer-me. Confesso que tenho em vista publicar um livro no qual me proponho demonstrar, ex professo, aquilo que considero um erro. Como esse livro deverá ter grande alcance e, ao que suponho, abrir uma brecha no Espiritismo, não o publicaria se chegasse a ser convencido.
R-  A.K. - Eu me sentiria desolado, senhor, se o privasse dos benefícios de um livro que deve ter tamanha transcendência. Aliás, não tenho interesse em sustar-lhe a publicação. Muito pelo contrário, auguro-lhe uma grande popularidade, principalmente porque o mesmo nos servirá de prospecto e de anúncio. O que é atacado, via de regra, desperta a atenção. Inúmeras pessoas desejam conhecer os prós e os contras e a crítica as leva a conhecer, por si mesmas, coisas que não supunham existissem na questão. É assim que, muitas vezes, e sem querer, faz-se reclame do que se tinha em mente combater. A questão dos Espíritos é, por outro lado, cheia de palpitantes interesses; aguça a curiosidade a tal ponto, que basta chamar a atenção, para provocar o desejo de aprofundá-la (Nos tempos que se seguiram a este diálogo, escrito em 1859, a experiência demonstrou de sobejo a justeza da afirmativa).

V. - Dessa maneira a crítica, na sua opinião, é inútil. A opinião pública não vale nada?
R-  A.K. - Não considero a crítica como expressão da opinião pública, mas como opinião pessoal, passível de engano. Consulte a história e observe quantas obras primas sofreram críticas, quando de seu lançamento; entretanto, não deixaram de ser autênticas obras primas. Se uma coisa for má, todos os elogios possíveis não chegarão a torná-la boa. Se o Espiritismo é um erro, destruir-se-á por si mesmo; se é uma verdade, todas as diatribes imagináveis não o transformarão em mentira. Seu livro será uma apreciação pessoal, o seu ponto de vista: — a verdadeira opinião pública decidirá se é exato. Para isso desejarão ver a coisa em si. E se mais tarde reconhecerem que ouve engano da sua parte, seu livro tornar-se-á tão ridículo, quanto os outros que foram publicados, não há muito tempo, contra a teoria da circulação do sangue, da vacina, etc.

       Eu me esquecia, entretanto, de que o senhor vai tratar a questão ex professo, o que equivale a dizer que a estudou sob todos os aspectos; que já viu tudo o que se pode ver; leu tudo o que foi escrito sobre a matéria; analisou e comparou as diferentes opiniões; que esteve nas mais favoráveis condições de observação própria; que dedicou ao assunto suas vigílias durante anos inteiros; numa palavra: que não negligenciou absolutamente nada para chegar à constatação da verdade. Sou levado a acreditar que tal se tenha dado porque o senhor é um homem sensato, e, também, porque só os que passaram por tudo isso têm direito de dizer que falam com conhecimento de causa.

       Que pensaria de um homem que se erigisse em crítico de obra literária, sem conhecer literatura; de um quadro, sem ter estudado pintura? É princípio elementar de lógica que o crítico deve conhecer, não superficialmente, mas a fundo, aquilo que comenta. De outra maneira, sua opinião se torna destituída de valor. Para combater um cálculo, é preciso opor-se-lhe outro cálculo; mas para isso é preciso saber calcular. O crítico não pode limitar-se a dizer que determinada coisa é boa ou má. É mister que justifique sua opinião por uma demonstração clara e categórica, baseada nos próprios princípios da arte ou da ciência. E como poderá fazê-lo se ignorar esses princípios? Poderia o senhor apreciar as qualidades e os defeitos de uma máquina, se não sabe mecânica? Não! Pois muito bem! Sua opinião sobre o Espiritismo, desde que o senhor o desconhecesse, não teria maior valor que a opinião emitida sobre a máquina. Seria a cada instante apanhado em flagrante delito de ignorância, pois os que estudaram a matéria veriam imediatamente que o senhor estava alheio à questão e daí concluíram que o senhor não tem responsabilidade, ou que age de má fé. Num e outro caso estaria exposto a receber desmentidos pouco lisongeiros ao seu amor próprio.

V. - Precisamente para evitar esse risco vim pedir-lhe que me permita assistir a algumas experiências.
R-  A.K. - E o senhor pensa que só isso basta para falar ex professo do Espiritismo? Como poderia compreender essas experiências, julgá-las à luz da razão, se não estudou os princípios que lhes servem de base? Como poderia apreciar o resultado satisfatório de ensaios metalúrgicos, por exemplo, se não conhecesse a metalurgia a fundo? Permita-me dizer-lhe, senhor, que seu projeto é absolutamente idêntico ao de quem, ignorando Matemática e Astronomia, se dirigisse a um desses chefes de observatório, dizendo: "Senhor, desejo escrever um livro sobre Astronomia, provando que o vosso sistema é falso. Como, porém, ignoro os rudimentos dessa ciência, deixai que por uma ou duas vezes eu olhe através dos vossos telescópios; isso me bastará para ficar sabendo tanto quanto vós".

       Apenas por extensão, a palavra crítica pode ser considerada sinónimo de censura. Em sua acepção própria e segundo a etimologia, o termo crítica significa julgar, apreciar. A crítica pode, pois, ser aprobativa ou desaprobativa. Fazer a crítica de um livro não é necessariamente condená-lo. Aquele que empreende essa tarefa não deve fazê-lo com ideias preconcebidas. Se, porém, antes de abrir o livro, já o condena mentalmente, o exame feito não pode ser considerado imparcial.
Em semelhante caso enquadram-se em maioria as pessoas que falam do Espiritismo. Só pelo nome formam uma opinião, e procedem como o juiz que proferisse uma sentença sem se dar ao trabalho de examinar os autos do processo. Disso tem resultado que o julgamento descamba para a farsa e, em vez de persuadir, provoca riso. Quanto aos que levaram o estudo da questão a sério, em sua maioria mudaram de opinião; e mais de um adversário tornou-se partidário, ao constatar que se tratava de coisa inteiramente diversa do que julgava.

V. - O senhor fala do exame de livros, em geral. Acredita que seja materialmente possível a um jornalista, ler e estudar todos os que lhe passam pelas mãos, sobretudo quando tratam de teorias novas, que demandariam de sua parte uma verificação aprofundada? Equivaleria a exigir de um impressor que lesse todas as obras saídas de seus prelos.
R-  A.K. - A tão criterioso raciocínio não tenho mais nada a responder senão que, quando não se tem tempo para fazer uma coisa conscienciosamente, é melhor não se meter com ela. É preferível fazer-se uma só boa, do que dez más.

V. -Não pense, entretanto, que minha opinião seja fruto de leviandade. Vi mesas girarem, ouvi pancadas, observei pessoas que escreviam, conforme asseguravam, sob influência dos Espíritos. Mas estou convencido de que havia charlatanismo nisso tudo.
A.K. - E quanto o senhor pagou para apreciar tudo isso?

Continua na parte a seguir...