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GERAL => O que é o espiritismo => Reencarnação => Tópico iniciado por: *Leni* em 27 de Dezembro de 2008, 15:35

Título: Capítulo I - O Crítico e o Cético
Enviado por: *Leni* em 27 de Dezembro de 2008, 15:35



V. - Coisa nenhuma, naturalmente.
R-  A.K. - Eis aqui, então, charlatães de uma espécie singular e que reabilitarão este nome. Até o presente não se tinha visto ainda charlatães desinteressados. Se um certo pândego de mau gosto divertiu-se certa feita e ocasionalmente, com essas manifestações, seguir-se-á daí, forçosamente, que todas as outras pessoas sejam embusteiras? Ademais, a troco de quê tornar-se-iam cúmplices de uma mistificação? Para divertir a sociedade, dirá o senhor. Admito que uma vez se preste alguém a um brinquedo. Mas se uma brincadeira se prolonga por meses e anos é que, penso eu, o mistificador está sendo mistificado. É concebível que, pelo simples prazer de fazer os outros acreditarem numa coisa que sabe ser falsa, se imobilize uma pessoa horas inteiras, sobre uma mesa? O prazer não pagaria o trabalho.

       Antes de concluir pela fraude, é preciso, de início, perguntar-se a si mesmo que interesse pode haver na trapaça. Ora, o senhor concordará que existem posições sociais que excluem toda suposição de embuste; pessoas cujo caráter, por si só, constitui garantia de probidade.

       Coisa diversa seria se se tratasse de uma especulação, pois a ganância é má conselheira. Admitindo-se, porém, que neste último caso uma manobra fraudulenta seja positivamente constatada, o fato nada prova contra a realidade do princípio. Basta levar-se em conta que tudo é passível de abuso. Porque se vendem vinhos falsificados, não se pode concluir que não exista vinho verdadeiro. O Espiritismo não é mais responsável pêlos atos daqueles que abusam de seu nome, explorando-o, do que a ciência médica o é pêlos atos dos charlatães que impingem drogas, ou a religião pêlos atos dos sacerdotes que abusam de seu ministério.

       O Espiritismo, por ser coisa recente, e por sua própria natureza, presta-se aos abusos. Ele, porém, forneceu os meios de os reconhecer, deixando claramente definido o seu verdadeiro caráter, negando toda solidariedade aos que o exploram ou o desviam do seu objetivo exclusivamente moral, para o transformar em ofício, em instrumento de adivinhação ou de fúteis investigadores.

       Uma vez que o próprio Espiritismo traça os limites em que se fecha, define o que prescreve e o que não prescreve, o que pode fazer e o que não pode fazer, o que está ou não está em suas atribuições, o que aceita e o que repudia, errados estão os que não se dão ao trabalho de estudá-lo e o julgam pelas aparências, pois, topando saltimbancos disfarçados em espíritas, para atraírem os transeuntes, dirão gravemente: "Eis o que é o Espiritismo".

       Afinal de contas, sobre quem recai o ridículo? Não é sobre o saltimbanco, que está no seu ofício, nem sobre o Espiritismo, cuja doutrina teórica desmente semelhantes asserções, mas exatamente sobre os críticos pretensiosos, que falam daquilo que não sabem ou que, sabendo, adulteram a verdade. Os que atribuem ao Espiritismo o que é contrário à sua própria essência, ou o fazem por ignorância ou intencionalmente. No primeiro caso existe leviandade; no segundo existe má fé. Neste último caso agem como certos historiadores que adulteram os fatos históricos no interesse de um partido político ou de uma opinião. Com o emprego de semelhantes meios, amiúde o partido se desacredita e não atinge o seu objetivo.

       Note bem, senhor, que eu não pretendo que a crítica deva, necessariamente aprovar nossas ideias, mesmo depois de as ter estudado. Não nos revoltamos absolutamente contar os que não pensam como nós. Aquilo que se nos torna evidente pode não se afigurar tal a outras pessoas. Cada um julga as coisas do seu ponto de vista; do fato mais positivo nem todos deduzem idênticas consequências. Se, por exemplo, um pintor põe no seu quadro um cavalo branco, alguém poderá dizer que produz um mau efeito e que um cavalo preto ficaria muito melhor. Seria erro, entretanto, dizer que, sendo preto, o cavalo é branco. É o que faz a maior parte dos nossos adversários.

       Em suma, cada qual é perfeitamente livre de aprovar ou desaprovar os princípios do Espiritismo, de deduzir deles as consequências boas ou más que lhe aprouverem. Mas a consciência impõe um dever a todo crítico honesto: o dever de não dizer o contrário daquilo que realmente é. Ora, para isso, a primeira condição é calar sobre o que ignora.

V. - Eu lhe peço para voltarmos às suas mesas que se movem e falam. Não poderia acontecer que fossem preparadas de antemão?
R-  A.K. - É sempre a questão de boa fé, à qual já dei resposta. Quando um embuste for averiguado, eu o chamarei para seu exame. Se encontrar fatos constatados, de fraude, de charlatanismo, de exploração ou de abuso de confiança, entregarei os culpados ao seu açoite, declarando-lhes antes que não lhes tomarei a defesa, pois o Espiritismo verdadeiro será o primeiro a repudiá-los, porque acusar os abusos é ajudar a evitá-los e prestar um serviço à doutrina. Mas generalizar semelhantes acusações, lançar sobre um certo número de pessoas respeitáveis a pecha que merecem determinados indivíduos isolados é um abuso e, de certo modo, uma calúnia.

       Admitindo, como o senhor supõe, que as mesas estivessem preparadas, fora preciso um mecanismo assaz engenhoso para executar movimentos e ruidos tão variados. Como, então não se conhece ainda o nome do hábil artífice que os confecciona?

       Ele deveria, entretanto, desfrutar de uma grande celebridade, visto que seus aparelhos estão espalhados pelas cinco partes do mundo. É preciso também convir que o processo é terrivelmente engenhoso, uma vez que pode adaptar-se à primeira mesa que se tenha à mão, sem que fiquem quaisquer traços exteriores. Por que será que, desde Tertuliano, que já andava às voltas com as mesas girantes e falantes, até a atualidade, jamais alguém conseguiu vê-lo ou descrevê-lo?

V. - Nisso o senhor se engana. Um célebre cirurgião constatou que certas pessoas podem, pela contração de um músculo da perna, produzir um ruído semelhante ao que se atribui à mesa. Daí ele conclui que os médiuns divertem-se à custa da credulidade.
R-  A.K. - Então, se é um estalido do músculo não é a mesa que está preparada. Se cada um explica esse pretenso embuste à sua maneira, isso constitui a prova mais evidente de que desconhecem a verdadeira causa.

Respeito a competência desse eminente facultativo, mas a aplicação, às mesas falantes, do fato assinalado por ele, apresenta-se-me com certas dificuldades. Primeiramente, acho singular que essa faculdade, até o presente excepcional e observada como um caso patológico, tenha-se tornado subitamente tão comum. Depois, é preciso ter-se uma renitente vontade de mistificar, para ficar castanho-lando um músculo durante duas ou três horas seguidas, sem que isso resulte dor e cansaço. Afora isso, não posso compreender como é que o referido músculo entra em contato com portas e paredes, nas quais se fazem ouvir os golpes. Minha quarta razão, finalmente, é que é necessário emprestar a esse músculo uma propriedade maravilhosa, qual a de pôr em movimento uma mesa pesada, suspendê-la, abri-la, fechá-la, mante-la no ar sem ponto de apoio e, por fim, despedaçá-la deixando-a cair. Certamente ninguém desconfiava que esse músculo possuísse tanta força. (Revue Spirite, Junho de 1859, pág. 141: Lê muscle craqueur).

       O célebre cirurgião de que o senhor fala terá estudado o fenómeno da tiptologia naqueles que o produzem? Não! Observou um efeito fisiológico anormal em certos indivíduos que jamais se ocuparam com as mesas girantes, efeito esse que tem certa analogia com os ruídos nelas produzidos e, sern maior exame, concluiu, com toda a autoridade da sua ciência, que todas as pessoas que fazem as mesas falar devem ter a propriedade de fazer estalar o músculo curto-perônio e que não passam de embusteiros, quer sejam príncipes quer operários; quer recebam pagamento, quer não o recebam. Terá entretanto, ao menos, estudado o fenómeno da tiptologia em todas as suas fases? Terá verificado se, com o auxílio do estalido muscular, é possível produzir todos os efeitos tiptológicos? Não, é lógico; pois de outro modo ter-se-ia convencido da insuficiência do processo. Mas isso não o impediu de apresentar, de proclamar sua descoberta em pleno Instituto. Para um homem de ciência não será um julgamento demasiado apressado? E quem ainda pensa assim, hoje em dia? Confesso que se tivesse de sofrer uma intervenção cirúrgica, hesitaria bastante em confiar nesse especialista, temeroso de que diagnosticasse o meu caso com tão minguada perspicácia.

       Já que esse juízo parece ser uma das autoridades sobre as quais o senhor se apoia para abrir uma brecha no Espiritismo, fico inteirado da força dos outros argumentos que apresentará, caso não os tenha buscado em fontes mais autorizadas.

V. - O senhor não negará, entretanto, que as mesas girantes já saíram de moda. Durante certo tempo fizeram furor: hoje delas ninguém se ocupa. Por que, se se trata de coisa tão séria?
R-  A. K. - Porque as mesas girantes foram o ponto de partida de uma coisa mais séria ainda. Delas saiu toda uma ciência, toda uma doutrina filosófica, do maior interesse para os pensadores. Quando estes esgotaram a fonte de observações das mesas em movimento, delas não se ocuparam mais. Para as pessoas fúteis, que não se importam em aprofundar as coisas, o fenómeno era um passatempo, um divertimento que abandonaram quando se aborreceram dele. Essas pessoas são um ponto morto na ciência. O período de curiosidade teve o seu tempo. Sucede-o o da observação. O Espiritismo passou então ao domínio de indivíduos criteriosos, que nele não encontraram motivo de divertimento, mas de instrução. Também essas pessoas, que o consideram coisa séria, não se prestam a quaisquer experiências visando satisfazer à curiosidade e, menos ainda, destinadas à observação de pessoas movidas por intenções hostis. Como eles próprios não se divertem, não procuram divertir os outros. Eu pertenço a esse número.

V. - Entretanto, só a experiência pode convencer mesmo aqueles que de começo eram movidos pela curiosidade. Se o senhor trabalha exclusivamente em presença de pessoas convictas, permita que lhe diga que faz prédica a convertidos.
R-  A.K. - Uma coisa é estar convencido e outra estar disposto a ser convencido. A estes últimos é que me dedico e não aos que julgam rebaixar sua capacidade de raciocínio, vindo escutar o que classificam de fantasias. Com estes não me preocupo, absolutamente. Quanto aos que dizem ter o mais sincero desejo de se esclarecerem, a melhor maneira que têm de o provar é demonstrar perseverança. Reconhecemo-los, não pelo desejo de assistir a uma ou duas sessões, mas pelo desejo sincero de trabalhar.

       A convicção só se adquire com o tempo, através de uma série de observações feitas com zelo todo especial. Os fenómenos espíritas diferem essencialmente dos que se nos apresentam nas ciências exatas: não se produzem à vontade do experimentador. É preciso colhê-los quando se apresentam. Só observando muito e longamente, se descobre a infinidade de provas que escapam à primeira vista, principalmente quando não se está familiarizado com as condições em que se podem dar, e se as sondarmos com espírito de prevenção. Para o observador agudo e constante, as provas abundam: uma palavra, um fato aparentemente sem significação podem constituir um raio de luz, uma confirmação. Para o observador superficial ou adventício, para o que é movido por simples curiosidade, nada seria. Eis porque não me presto às experiências cujo resultado não pode ser assegurado.

V. - Mas, enfim, tudo quer um princípio. Que pode fazer o estreante que não sabe nada, que não viu coisa nenhuma e que deseja esclarecer-se, se o senhor lhe nega os meios?
R-  A.K. - Faço uma distinção considerável entre o incrédulo por ignorância e o incrédulo sistemático. Quando vejo disposições favoráveis em alguém, nada me custa esclarecê-lo. Pessoas há, entretanto, em quem o desejo de instruir-se é apenas uma falsa aparência. Com esses, a gente perde tempo porque, se não encontrarem imediatamente aquilo que parecem procurar, e que, muito provavelmente, os aborreceria se encontrassem, o pouco que vêem é sempre insuficiente para lhes destruir as prevenções. Julgam mal o que viram e aí encontram motivos para caçoadas. Donde se conclui que é um contra-senso fornecer esses motivos. Direi ao que tiver o desejo de instruir-se: "Não se pode fazer um curso de Espiritismo experimental como se faz um curso de Física ou de Química, pois a ninguém é dado provocar os fenómenos à vontade. Além disso, as inteligências que são os seus agentes muitas vezes frustram nossas previsões. Os que, acidentalmente, poderá ver, não apresentam continuidade nem a necessária ligação, e seriam pouco inteligíveis para o senhor. Instrua-se primeiro pela teoria. Leia as obras que tratam dessa ciência e medite. Nelas encontrará os princípios fundamentais, a descrição de todos os fenómenos. O senhor compreenderá sua possibilidade pela explicação dada e pela descrição de inumeráveis fenómenos espontâneos de que, muito possivelmente, mais de uma vez foi testemunha involuntária, e que lhe retornarão à memória. Irá assim se inteirando de todas as dificuldades que ocasionalmente se lhe podem apresentar e adquirirá uma convicção moral preliminar. Então, quando se lhe apresentarem as circunstâncias de ver ou de operar por si mesmo, saberá agir, qualquer que seja a ordem em que os fatos se apresentem, visto já nada mais lhe ser estranho".

       Senhores: eis o que aconselho a todo aquele que desejar instruir-se; e, pela resposta, fácil me é conhecer se o move alguma coisa mais que simples curiosidade.

O que é o Espiritismo. Capítulo I - O CÉTICO
PEQUENA CONFERÊNCIA ESPÍRITA
SEGUNDO DIÁLOGO: O CÉTICO:

Visitante. - Compreendo, senhor, a utilidade do estudo preparatório de que acaba de falar. Quanto à minha predisposição pessoal, dir-lhe-ei que não sou partidário nem inimigo do Espiritismo. Por si mesmo, porém, o assunto desperta-me o mais alto interesse. No círculo de minhas relações contam-se partidários e detratores. Neste particular tenho ouvido os mais contraditórios argumentos. Desejaria submeter ao seu pronunciamento algumas das objeções feitas em minha presença e que me parecem dotadas de certo fundamento, pelo menos para mim, pois reconheço minha ignorância.
R-  Allan Kardec. - Respondo com satisfação às perguntas que me são dirigidas, quando feitas com lealdade e sem segundas intenções; mas não me julgo capaz de responder a todas. O Espiritismo é uma ciência que acaba de nascer, da qual muito resta a aprender ainda. Seria muita presunção minha pretender solucionar todas as dificuldades. Só posso falar do que sei.

       O Espiritismo prende-se a todos os ramos da Filosofia, da Metafísica, da Psicologia e Moral: é um campo imenso que não podemos percorrer em poucas horas. O senhor compreende, pois, que me seria materialmente impossível repetir de viva voz, e a cada pessoa em particular o que tenho escrito a respeito da matéria, para o público em geral. Por outra parte, na leitura séria e preparatória encontrar-se-á resposta à maior parte dessas questões. Essa leitura, aliás, tem a dupla vantagem de evitar repetições desnecessárias e comprovar um real desejo de instruir-se. Se, depois disso, ainda restarem dúvidas ou pontos obscuros, nossa explicação tornar-se-á mais fácil, porque então contaremos com um certo apoio, e não perderemos tempo insistindo sobre os princípios elementares da doutrina. Se o senhor me permite, limitar-nos-emos, até nova ordem, a determinadas questões de ordem geral.

V. - Muito bem. Eu peço que me chame à ordem sempre que eu as ultrapassar.

Livraria Allan Kardec Editora