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GERAL => Psicologia & Espiritismo => Tópico iniciado por: Aldebaran em 06 de Outubro de 2009, 05:23

Título: O Anticristo: Friedrich Nietzsche e Jesus de Nazaré
Enviado por: Aldebaran em 06 de Outubro de 2009, 05:23
Olá queridos confrades,
Abri esse tópico para falar dessa obra de cunho psicológico que interpreta a psicologia de Jesus de Nazaré. O título é polêmico, e Nietzsche é impiedoso na sua crítica ao Cristianismo após Jesus, sobretudo quando diz que "o único cristão morreu na cruz", em O Anticristo.
Nietzsche conta a história de Israel, de como esse povo tinha um deus simbólico, que representava o seu estado de poder, de riquezas, de felicidade. Quando Israel é invadida e dominada, então se constrói a idéia de um salvador que virá futuramente (na verdade os judeus reinterpretam a vinda do salvador) para restaurar o Reino de Israel. Nietsche nos fala que, Jesus de Nazaré foi interpretado como esse Salvador, e esse mal, prosseguiu no Cristianismo após Jesus, a começar pelo corrompimento da  psicologia de Jesus pelos próprios discípulos. (Essa questão é discutida por Emmanuel, que irá dizer que Marcos e Lucas, deram origem à tradição farisaica da qual erigiu suas bases a igreja romana).
Mas vamos em frente. A seguir, Nietzsche traça o "perfil psicológico" do salvador - mas nega todos os conceitos do "além". Para Nietzsche, Jesus foi um grande simbolista (O reino dos céus está dentro de vós), e veio ensinar à humanidade, como se libertar da superproteção das instituições, principalmente as religiosas (Vide a querela com os fariseus no Evangelho de João). Essa questão da superproteção, foi reinterpretada e trabalhada pelo psicoterapeuta norte-americano em seu livro “O homem à procura de si mesmo”, aonde ele diz que, a primeira tentativa do ser humano de se libertar da superproteção dos pais é aos 3 anos de idade, quando a criança se reconhece como um ser com individualidade própria. A segunda, seria  a adolescência,  quando o jovem vai se impor contra as normas estabelecidas pelos pais e pela sociedade.
Pois bem. Nietzsche, argumenta em “O Anticristo”, que a tarefa de Jesus foi justamente a de ensinar o ser humano a ser libertar da superproteção das instituições humanas (daí a cesar o que é de cesar) e das opiniões, nomeadamente da opinião pública (“o vosso poder é bem mesquinho se comparado à grandeza do Reino de meu Pai”; “mestre, vede que pedras! – te digo, Pedro, não ficará pedra sobre pedra”).
Nietzsche com isso desconstrói a idéia – bem urdida pelos  seguidores do farisaísmo – do salvador que veio para redimir os pecados da humanidade. Para Nietzsche, a Boa-nova é atemporal:  não existe um ontem, nem um amanhã para a realização do Reino de Deus. E Nietzsche reconhece que o Reino de Deus é um estado de espírito e não um local geográfico (cf. O Céu e o Inferno). O Reino de Deus é um “aqui e agora”, é a vivência de Jesus que mostra o que é o Reino de Deus: “não odeia ninguém, não se revolta contra as instituições – apenas as nega – não tem nenhum desejo de vingança contra aqueles que detém o poder em todas as suas formas de manifestação. Jesus cultiva a paz interior: aquela serenidade, aquela negação do poder e da opinião pública, que nós espíritas conhecemos como “apego às coisas materiais”. Mas Jesus faz isso, nega tudo isso sem se revoltar,  sem ter em seu coração o ressentimento,  aquilo que Niezstche chamará em “Assim Falava Zaratustra” de “o ódio impotente”, ou seja, aquele ódio contra as fraquezas da natureza humana: Jesus não odeia aqueles que possuem essas “fraquezas” (os que estão no poder), ao contrário, as nega.
Bom, mas quem é o anticristo para Nietzsche afinal?? É Paulo. Diz Nietzsche: Paulo  negou a Jesus quando não soube interpretar a sua Boa-nova. Para Nietzsche, Paulo é portador da má nova: cria conceitos do além, da punição nos pós-mortem (“os fornicadores  não entrarão no Reino dos céus”), coisa que para Nietzsche, Jesus nunca sustentou. È lógico que Nietzsche seleciona trechos em que pode fazer uso de argumentos “ad hoc” em sua defesa, ao dizer que os próprios discípulos não entenderam a Boa-nova. Porque, - diz Nietzsche – “então veio aquela dúvida cruel: “porque o salvador não voltou para nos salvar?”, ou seja, continuava a retumbar a idéia do salvador que iria restaurar o Reino de Israel contra o poder dos césares.
Paulo é o anticristo para  Nietzsche: nega toda a efetividade do mundo material, e cria a idéia de recompensa e punição no “pós-mortem”.
É aí que começa o fanatismo, em que nós espíritas gostamos de dizer “eu sou do bem” – era exatamente o que os fariseus diziam, e que Jesus veio combater.
Coube a Nietzsche, portanto, traçar o perfil psicológico de Jesus, mostrando que a felicidade é um aqui e agora (cf. com “Alcíone” de Emmanuel), e ao psicoterapeuta Rollo May contribuir para  a Psicologia existencial – humanista, colocando Nietzsche, como um profeta da modernidade.
Nietzsche e Rollo May vêm nos mostrar que Jesus é o grande exemplo de libertação da supervalorização das coisas materiais em todas as suas instâncias, como o poder, a idéia de ter muitos amigos (superproteção), a idéia de família (“quem são meus irmãos e minha mãe? Meus irmãos e minha mãe são estes – apontando o dedo para a multidão – que praticam os meus ensinamentos), essa “célula social imprescindível’, preconizada por Divaldo Franco (é lógico que Divaldo se refere à família como um grupo necessário ao reajuste de desafetos do passado, onde muitas vezes se reúnem Espíritos devedores  entre si).
A Psicologia de Jesus, pois, se encontra hoje nas clínicas de psicoterapia, colocadas lá a partir dos psicoterapeutas que leram Nietzsche, e este por sua vez, soube ver em Jesus o Além-homem, o “espírito-livre”, e esse, é na minha opinião também, o maior legado de Jesus à posteridade.

Este breve e obscuro “trailler” de O Anticristo deve ter algum objetivo aqui não é mesmo? – vocês que estão lendo agora se perguntam...

Sim, tem o objetivo de mostrar o nosso fanatismo espírita. Por que nós temos a necessidade de ficar dizendo “eu sou do bem”, “eu vou à casa da sopa alimentar as crianças e gasto a minha gasolina, e não exijo nada em troca”. Somos acaso uma espécie de “novos fariseus”??
Em Assim Falava Zaratustra Nietzsche irá dizer que o maior dos males é o sentimento de vingança, o ressentimento, o “ódio impotente”, e por isso, todos nós crentes, das variadas confissões religiosas, temos a necessidade de dizer que estamos fazendo o bem, para apontar para a evidência mal escondida dos que “estão fazendo o mal”, e com  isso, construímos, de maneira bem urdida, a túnica que encobre as nossas chagas morais, no dizer de irmão Rosália e outros Espíritos no ESSE. É Isso que Nietzsche vem nos mostrar! É isso que Nietzsche vem desvelar para nós, a saber que foi isso que Jesus  combateu: sempre vemos Jesus ao lado dos chamados “pecadores” (quando diz ao cobrador de impostos: “o que fazes  aí, não sabes que hoje me hospedarei em tua casa?”; “os sãos não precisam de médicos”).

Queridos confrades: Jesus é o grande libertador, que, com o seu exemplo, nos  mostra que a nossa maior riqueza e a nossa maior caridade, é auscultar o nosso íntimo para saber retirar de lá o potencial latente que cabe a nós desenvolver e cultivar (“Vede essa semente de mostarda: ela é a menor das sementes, mas quando germina, se torna uma árvore tão portentosa de modo que as aves do céu vêm fazer ninhos em seus ramos”; “homem de pouca fé! Por que duvidaste?” etc etc ....)
Jesus não veio salvar ninguém, e ensinou que não DEVEMOS  TER CONVICÇÕES ADVINDAS DA OPINIÃO PÚBLICA, mas  que a única convicção real, é o Reino de Deus que está dentro de nós (semente de mostarda) e que cabe a nós fazê-la vicejar. Este, o sentido da Boa-nova para Friedrich Nietzsche.

E então? Alguém aqui tem medo de O Anticristo? Por que, quando eu li a notável obra do senhor Léon  Denis “O problema do ser, do destino e da dor”, ele diz no prefácio que o estado de angústia e falta de auto-conhecimento da juventude francesa, era devido a pensadores como Nietzsche.
Nietzsche é um profeta. Viveu a mensagem de Jesus, e veio mostrar que o Reino de Deus não está circunscrito a nenhum templo religioso, e nem tampouco às casas de caridade.

Já pensaram,  meus queridos confrades, o que seria de nós, espíritas, se não houvessem  os pobres???

Se você tem medo de O Anticristo, leia Assim Falava Zaratustra, para entender quem foi Jesus.

Lógico que o Espiritismo não cita Nietzsche, pois  que é um autor materialista e niilista. Mas quanto a desvelar a psicologia de Jesus de Nazaré, Nietzsche nos faz ver POR QUE JESUS É O MESTRE! ..

Muita paz meus queridos confrades!

“O Reino dos céus consiste em fazer calar os vossos  ódios e as vossas discórdias para que a obra do senhor se realize dentro de vós”

Abraços,

Aldebaran (Renato)
Título: Re: O Anticristo: Friedrich Nietzsche e Jesus de Nazaré
Enviado por: Aldebaran em 06 de Outubro de 2009, 16:08
Algumas correções:
O Psicólogo norte-americano citado é Rollo May, e seu livro é "O Homem à Procura de si mesmo".
Me esqueci também da bibliografia utilizada.
"O Anticristo", "Assim Falava Zaratustra", ambos de Friedrich Nietzsche
"O Céu e o Inferno", Allan Kardec
os 4 Evangelhos, Bíblia
"Psicoterapia e sentido da vida: fundamentos  da Logoterapia", Viktor E. Frankl
"O Problema do Ser, do Destino e da Dor", Lèon Denis
"O Evangelho Segundo o Espiritismo", Allan Kardec
"Paulo e Estevão" Emmanuel/Chico
"Ave! Cristo". Emmanuel/Chico
"Alcíone", Emmanuel/Chico
"Cristianismo e Espiritismo" Léon Denis"
"Emmanuel: dissertações mediúnicas sobre importantes questões que preocupam a humanidade", Emmanuel/Chico
Tem uns erros de português e digitação no texto, mas agora estou sem tempo para editar pessoal.

Abraços

Renato
Título: Re: O Anticristo: Friedrich Nietzsche e Jesus de Nazaré
Enviado por: Felipe Melo em 07 de Dezembro de 2010, 21:20
Muito bom esse post, nem acredito que serei o primeiro a fazer um comentário. No meu entendimento, o texto lembra que fazer o bem e a caridade, apenas para diminuir o próximo e encher-se de orgulho, apenas trás atraso e perda de própósito para o movimento espírita.

Penso que as obras de filósofos materialistas e principalmente, os niilistas, que nos "servem" de opositores, muitas vezes não nos opõem quanto ao "fundo" em suas idéias, trás apenas ideias de "forma" agnóstico, de algúem que, quanto ao interior, muito queria se espiritualizar, acreditar numa religião,  mas sua razão repele de todas as formas, as explicações "cristãs" e compreende de alguma maneira, os ensinamentos morais do Cristo, que é o que verdadeiramente importa, se assim obrar correspondentemente, poderá negar Cristo em suas palavras mas nunca em seu coração.

O Espiritismo, segundo o próprio Allan Kardec, veio justamente para dar um impulso a fé, e eu concluo que assim, faz com que a razão das pessoas mais adiantadas intelectualmente, e com uma sede real e benefica pelo desenvolvimento da moralidade, compreendam a religião e se espiritualizem. Fico curioso para saber o que Nietzsche acharia da codificação espírita. Certamente posso afirmar, que pessoas que a razão repele a fé religiosa, mas que mesmo assim, trabalham para esclarescer seus irmãos, estão a poucos passos para se tornarem verdadeiramente cristãos, basta vencer sua própria vaidade e conhecer algo novo. Realmente, até hoje as diversas instituições cristãs, não explicam bem a bíblia e a história de cristo, isso quando a interpretação não é falha, para modificar isso veio então o Espiritismo.

Assim, a razão de que qualquer pessoa com um senso crítico mais elevado filtrará esse pensamento e concluirá que Deus não existe, e Nietzsche não disse isso, engraçado que ele fala que Deus está morto, justamente dando uma idéias de que houve Deus em algum momento em seu pensamento. Pena que ele não conheceu o espiritismo, pelo menos que eu saiba, seria interessante ler suas considerações.

Abraços,

Felipe