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GERAL => Outros Temas => Tópico iniciado por: SimonB em 30 de Novembro de 2020, 17:04

Título: A ortodoxia no meio espírita
Enviado por: SimonB em 30 de Novembro de 2020, 17:04
Em diálogos sobre assuntos doutrinários, é comum ouvir alguns espíritas afirmar que “Não está na codificação, então, não é Espiritismo”, ou ainda, “Kardec disse nada a respeito”, revelando assim uma sútil mas infeliz tendência à ortodoxia1. Sem dúvida, a concordância entre os ensinos dos Espíritos é de fundamental importância no desenvolvimento da doutrina, mas poucos se dão conta de que uma postura excessivamente ortodoxa não condiz com as orientações do próprio codificador.

Em A Gênese, Kardec afirma que a revelação espírita “é e só pode ser essencialmente progressiva como todas as ciências de observação.”2 Em evidente alerta contra a tendência do ser humano em cristalizar ou dogmatizar conceitos ou sistemas, Kardec prossegue, afirmando que “O Espiritismo não se assenta, pois em princípio absoluto senão no que seja demonstrado com evidência, ou o que ressalta logicamente da observação.”2

Resultante de um atavismo ainda bastante enraizado em correntes religiosas do passado, alguns estudiosos e expositores da Doutrina Espírita tomam a pretensiosa postura de ‘doutores’ em Espiritismo, decorando e repetindo trechos da codificação como se fossem verdades inatacáveis, usando precisamente a conduta ortodoxa que Kardec repudiava nos representantes da Igreja. Reproduzindo os infelizes erros do passado, alguns espíritas vão até o extremo de anatemizar qualquer Espírito que ‘ousa’ acrescentar novos conceitos, ou ainda cometer a ‘blasfêmia’ de sugerir a ampliação ou revisão de um ponto doutrinário.

Prevendo tal distorção ideológica e metodológica no entendimento espírita, Kardec adverte, ainda em A Gênese, que “É assim que os Espíritos procederam com o Espiritismo; é porque seu ensinamento é gradual; só abordam questões à medida que os princípios sobre os quais elas devam se apoiar estejam suficientemente elaborados e que a opinião esteja madura para se lhes assimilar.”2 É justamente neste contexto que seria reservado para os próximos séculos a abordagem de vários temas que não figuram na codificação, ou aparecem de forma embrionária.

Ele não somente alerta sobre atitudes ortodoxas, mas convida o estudioso espírita a “ler tudo o que se ache escrito sobre a matéria, ou, pelo menos, o que haja de principal, não se limitando a um único autor.”3  Desta forma, os espíritas clamando que “Espiritismo é só a codificação” estão em contradição direta com o seu autor, que sabiamente declara que “(...) não temos a pretensão ridícula de ser o único a dispensar a luz.”3

As observações de Kardec em relação ao ensino dos Espíritos de maneira alguma reduz o valor sublime da codificação, que sempre foi e sempre será a fundação sólida do grande edifício do conhecimento espírita. É evidente que ele tinha como critérios de avaliação um patamar muito mais prudente, quase empírico, que ele denominou o Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE). É também no seu caráter ponderado e meticuloso que se mostra a grandeza deste homem, que com sábia humildade, atribuiu o mérito da codificação aos Espíritos.

Em momento algum Kardec sugere que o estudioso espírita deve aceitar qualquer conceito ou ideia, por mais conceituado e renomado seja o autor ou médium. A postura correta do espírita perante os constantes e inevitáveis desenvolvimentos da revelação espírita, é a de prudência, critério e bom senso, sem os atavismos da ortodoxia ou do dogmatismo, que ainda encontram solo fértil no meio espírita.

A título de conclusão, convidamos o leitor a refletir se não seria um tanto ingênuo acreditar que a complexidade da Vida, do Universo e de Deus pudesse caber dentro de cinco volumes.

Simon Baush

Referencias
1‘Que aceita como única e verdadeira uma ideologia, regra ou doutrina religiosa; dogmatismo.’ - Dicionário Online de Português
2KARDEC, Allan, A Gênese – Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo (1868), Capítulo 1, item 55.
3KARDEC, Allan, O Livro dos Médiuns (1861), Capítulo III, item 35.