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GERAL => Mensagens de Ânimo => Tópico iniciado por: Det's me!... em 31 de Agosto de 2007, 13:14

Título: Projecto de Vida - Reforma Íntima sem Martírio-Wanderley Oliveira/E. Dufaux
Enviado por: Det's me!... em 31 de Agosto de 2007, 13:14
Muita Paz!

Projeto de Vida

“O amor aos bens terrenos constitui um dos mais fortes óbices ao vosso adiantamento
moral e espiritual. Pelo apego à posse de tais bens, destruís as vossas faculdades de
amar, com as aplicardes todas às coisas materiais. “Lacordaire –
(Constantina, 1863)

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Cap.XVI – item 14


Materialismo é o estado íntimo que estabelece a rotina mental da esmagadora maioria das mentes no plano físico, focando os interesses humanos, exclusivamente, naquilo que fera os cinco sentidos. Posturas e noções culturais se desenvolvem a partir desse estado levando a criatura a adotar o mundo das sensações corporais como sendo a única realidade.

O materialismo tem como base efetiva o sentimento de segurança e bem-estar, expresso comumente por vínculos de apego e posse. Os reflexos mais conhecidos desses vínculos afetivos com a vida material são a dependência e o medo, respectivamente.

Em essência, o interesse central de todo materialismo é tornar a vida uma permanência, manter para sempre o elo com todas as criações objetivas que lhe “pertençam”, sejam coisas ou pessoas. Contudo, a vida é regida pelo Lei da Impermanência. Tudo é transformação e crescimento. Algumas palavras que asseguram uma linha moral condizente com essa Lei são: maleabilidade, incerteza, relativização, diversidade, ecletismo, pluralismo, alteridade, desprendimento, fraternidade, amor.

A volta do homem à vida corporal tem por objetivo o seu melhoramento, o engrandecimento de seus conceitos ainda tão reduzidos pela ótica das ilusões terrenas. Compreender que é um binômio corpo-alma, que tem um destino, a perfeição, e que a vida na Terra é um aprendizado são as lições que lhe permitirão romper com os estreitos limites da visão materialista.
Semelhantes conquistas interiores exigem preparo e devotamento a fim de consolidarem- se como valores morais, capazes de levá-lo a cultivar projetos
enobrecedores com os quais possa, pouco a pouco, renovar seus hábitos de
vida.

Muito esforço será pedido para o desenvolvimento dessas qualidades espirituais no coração humano.


Uma semana na Terra é composta por dez mil e oitenta minutos. Tomando por base noventa minutos como o tempo habitual de uma atividade espiritual voltada para a aquisição de noções elevadas, e ainda levando em conta que raramente alguém ultrapassa o limite de duas ou três reuniões semanais, encontramos um coeficiente de no máximo duzentos e setenta minutos de preparo para implementação da renovação mental, ou seja, pouco menos de três por cento do volume de tempo de uma semana inteira. São nesses momentos que se angaria forças para interromper a rotina mental do homem comum.
Por isso necessitamos tanto das tarefas espíritas para fixar valores, desenvolver
novos hábitos e alimentar a mente de novas forças, tendo em vista a
espiritualizaçã o a qual todos devemos buscar em favor da felicidade e da paz.

A superação da rotina materialista exige esforço, mas também metas, ideais, comprometimento.

Por isso a melhora espiritual não pode circunscrever- se a práticas religiosas ou a momentos de estudo e oração. Imperioso será assumirmos o compromisso de mudança e elevação conosco mesmo, senão tais iniciativas podem reduzir-se facilmente a experiências passageiras de adesão superficial, sem raízes profundas nas matrizes do sentimento.

A reforma íntima solicita fazer de nossas vidas um projeto. Um projeto de cumplicidade e amor!

Projeto de vida é o outro nome da “religião íntima”, a “religião da atitude”., do comprometimento. Sem isso, como esperar que a simples freqüência aos serviços do bem, na fileiras da caridade e da instrução, sejam suficientes para renovar a nossa personalidade construída em milênios de repetição no “amor” aos bens terrenos?

continua ........
Título: Re: Projecto de Vida - Reforma Íntima sem Martírio-Wanderley Oliveira/E. Dufaux
Enviado por: Det's me!... em 31 de Agosto de 2007, 13:18
.........continuação

E um projeto de mudança espiritual não será tarefa infantil de traçar metas imediatistas de fácil alcance para causar-nos a sensação de que aprimoramos com rapidez, mas sim o resultado do esforço pessoal em sacrificar-se por ideais que motivem o nosso progresso e que, a um só tempo, constituam a segurança contra o desânimo e a invigilância. Ideais esses que se apresentam sempre à nossa caminhada como convites da Divina Providência para que possamos sair do “lugar comum” à maioria das criaturas. Razão pela qual sempre encontraremos obstáculos e pedregais nas sendas da renovação espiritual.

Isso porque aquele que realmente se eleva não deixa de causar mudança no meio onde estagia, atraindo para si todas as reações favoráveis e desfavoráveis aos ideais de ascensão. Isso faz parte de todo processo de
espiritualização.

Não há como não haver de ascensão. Isso faz parte de todo processo de espiritualização. Não há como não haver reações que, por fim, algumas vezes, ser sinais de que nos encontramos em boa direção...


Cumplicidade e comprometimento são as palavras de ordem no desafio do
autoburilamento.

Evitemos, assim, confundir a simples adesão a práticas doutrinárias ou ainda o acúmulo de cultura espiritual como sendo iluminação e adiantamento, quando nada mais são que estímulos valorosos para o crescimento.

Lembremos que só terão valor real, na nossa libertação, se deles soubermos extrair a parte essencial que nos compete interiorizar no fortalecimento de nosso projeto de vida no bem.


Lacordaire é muito lúcido ao afirmar que destruímos as faculdades de amar quando as reduzimos aos bens materiais.

O cultivo da paixão ao adiantamento espiritual é a solução para todos os problemas da humanidade terrena, e o único caminho para um mundo melhor. Quando aprendemos isso, verificamos que a existência, mesmo que salpicada de problemas e dores, tem luz e vida porque plantamos na intimidade a semente imperecível do idealismo superior, o qual ninguém pode nos roubar.



Livro: Reforma Íntima sem Martírio

Wanderley S.de Oliveira – Ermance Dufaux

Abraceijos  :-*
Título: Re: Projecto de Vida - Reforma Íntima sem Martírio-Wanderley Oliveira/E. Dufaux
Enviado por: Ana Ang em 02 de Setembro de 2007, 20:28


Olá, querido amigo Luís :)

Obrigada por compartilhar!

Interessei-me por este livro após conversar com uma amiga (obrigada a ti, querida :))

Deixo mais um trechinho:


Dores do Martírio

"Não consiste a virtude em assumirdes severo e lúgubre aspecto, em repelires os prazeres que as vossas condições humanas vos permitem. Não imagineis, portanto, que, para viverdes em comunicação constante conosco, para viverdes sob as vistas do Senhor, seja preciso vos cilicieis e cubrais de cinzas."
Um Espírito Protetor. (Bordéus, 1863)

No capítulo do crescimento espiritual torna-se essencial distinguir o que são as dores do crescimento e as dores do martírio. Não existe reforma íntima sem sofrer, mas martírio é uma forma de autopunição, são “penitências psicológicas” que nos impomos como se com isso estivéssemos melhorando.

Em razão do complexo de inferioridade que assola expressiva parcela das almas na Terra, e cientes de que semelhante vivência psicológica deve-se ao nosso voluntário “afastamento de Deus”, ao longo das etapas evolutivas, fazendo-nos sentir inseguros e impotentes, hoje criamos as “capas mentais” para nos sentirmos minimamente bem e levar avante o desejo de existir e viver. Essas capas são as estruturas do “eu ideal” que nos leva a crer sermos mais do que realmente somos, uma defesa contra as mazelas que não queremos aceitar em nós mesmos.

A melhoria íntima autêntica ocorrer pelo processo de conscientização e não pelas decorrentes de cobranças e conflitos interiores, que instalam “circuitos fechados” e pane na vida mental.

Sem dúvida, todos sofremos para crescer, martírio, no entanto, é o excesso que nasce da incapacidade de gerir com equilíbrio o mundo emotivo, assumindo proporções e facetas diversificadas conforme o temperamento e as necessidades de cada qual. Não o confundamos também com sacrifício – ato que ocasiona dores intensas com objetivo de alcançar alguma meta ou superar alguma dificuldade.

O que define a condição psíquica de martirizar-se é o fato de se crer no desenvolvimento de qualidades que, de fato, não estão sendo trabalhadas na intimidade. São as dores impostas a nós mesmos pelas atitudes de desamor, quando acreditamos no “eu ideal” e negamos ou fugimos do “eu real”.

Quase sempre as dores do martírio decorrem de não querermos experimentar as dores do crescimento. Um exemplo típico é quando somos convocados a examinar certa imperfeição apontada por alguém e, entre a dor da auto-avaliação e a dor da negação, preferimos a segunda, a qual integra a lista das “dores-excesso”.

Dentre as formas autopunitivas mais comuns, destacamos a maneira pela qual reagimos a nossos erros tem sido um canal de acesso a infinitas dimensões expiatórias. Muitos corações transformam o erro e a insatisfação com suas experiências em quedas lamentáveis e irrecuperáveis, quando a escola da vida é um gesto de sabedoria e complacência convidando-nos sempre a reerguer e recomeçar, perante todos os insucessos do caminho.

Quando digo assim: “não posso mais falhar” será mais difícil a conquista de si. Dessa forma começamos a conhecer os grandes inimigos do auto-amor no nosso íntimo. Um deles é o perfeccionismo – uma das fontes de martírio que costuma dizimar a energia de muitos aprendizes da espiritualização. Querendo se transformar, partem para um processo de auto-inaceitação e de auto-reprovação muito cruéis, inclinando-se para a
condenação. A questão não é de lutar contra nós, e sim conquistar essa parte enferma, recuperá-la, e isso jamais conseguiremos se não aprendermos a amar esse nosso “lado doentio”.

Essa forma inadequada de reagir a nossos erros abre porta para muitas conseqüências graves, e às vezes maiores que o próprio erro em si, tais como: estado íntimo de desconforto e desassossego quase permanente, torturante sensação de perda de controle sobre a existência, baixa tolerância à frustração, ansiedade de origem ignorada, medos incontroláveis de situações irreais, irritações sem motivos claros, angústia perante o porvir com aflição e sofrimento por antecipação, excesso de imaginação ante fatos corriqueiros da vida descrença no esforço de mudança e nas tarefas doutrinárias, mau humor, decisões infelizes no clima emotivo de confusão
mental, intenso desgaste energético decorrente de conflitos, desânimo – são algumas dores do martírio. Quando permanecem prolongadamente, esses estados psicológicos configuram uma auto-obsessão que pode atingir o campo o vampirismo e de ilimitadas doenças físicas.

(continua...)  
Título: Re: Projecto de Vida - Reforma Íntima sem Martírio-Wanderley Oliveira/E. Dufaux
Enviado por: Ana Ang em 02 de Setembro de 2007, 20:33


Poder-se-ia indagar a origem mais profunda de tantas lutas e teríamos que vagar por um leque de alternativas tão amplo quanto são as individualidades. Todavia, para nossos propósitos desse momento, convém-nos refletir sobre uma das mais pertinentes atitudes que têm levado os discípulos espíritas aos sofrimentos voluntários com seu processo de interiorização. Sejamos claros e sem subterfúgios para o nosso bem. O culto à dor tornou-se uma cultura nos ambientes espíritas. Condicionou-se a idéias de que sofrer é sinônimo de crescer, de que sofrer é resgatar, quitar.

Portanto, passou-se a compreender a “dor-punitiva” como instrumento de libertação, quando, em verdade, somente a dor que educa liberta. Há criaturas dotadas de largas fatias de conhecimento espiritual sofrendo intensamente, mas que continuam orgulhosas, insensatas, hostis e rebeldes.

Não é a intensidade da dor que educa, e sim o esforço de aprender amenizá-las.

O espírita costuma “neuronizar” a proposta da reforma íntima. É a “neurose de santificação”, um modo imaturo de agir em razão da ausência de noções mais profundas sobre a sua verdadeira realidade espiritual.

Constatamos que existe muita impaciência com a reforma íntima devido à angústia causada ao espírito devido ao contato com sua verdadeira condição diante do Universo. Creia-se assim para si, através de mecanismos mentais, as “virtudes de adorno” ou “compensações artificiais” a fim de sentir-se valorizado perante a consciência e o próximo. São os esconderijos psíquicos nos quais quase sempre enfurnamos para não tomarmos contato com a “verdade pessoal”...

Essa neurotização da virtude gera um sistema de vida cheio de hábitos e condutas rígidas, a título de seguir orientações da doutrina . Adota-se procedimentos que não são sentidos e “triturados” pela arte de pensar. Isso nos desaproxima ainda mais da autêntica mudança e passamos então a nos preocupar com o que não devemos fazer, esquecendo o que devíamos estar fazendo. Certamente esse caminho gera martírio e ônus para a vida mental.

Existem muitas dores naturais no crescimento espiritual que estabelecem um processo crônico de pressão psicológica, entretanto, diferem muito da autoflagelação, porque elas impulsionam e fazem parte da grande batalha pela promoção de todos nós. Observa-se, inclusive, que alguns corações sinceros, inseridos no esforço auto-educativo, experimentam essa “silenciosa expiação”, mas, por desconhecerem os percalços do trabalho renovador, terminam por desistirem de prosseguir e atolam-se no desânimo.

Acreditam-se piores quando constatam semelhantes quadros de dor psicológica e deduzem que, ao invés de progredirem, estão em plena derrocada. Diga-se de passagem, não são poucos os quadros com essas características que temos observado no seio do movimento doutrinário.

Freqüentemente existe um trio de sicários da alma que a chicoteiam durante as etapas do amadurecimento, são eles: baixa auto-estima, culpa e medo de errar. Apesar de serem sofrimentos psíquicos, funcionam como emuladores do progresso quando nos habilitamos para gerenciá-los. Assim, a culpa transforma-se em auto-aferição da conduta e freio contra novas quedas, a baixa auto-estima converte-se em capacidade de descobrir valores e o medo de errar promove-se a valoroso arquivo de experiências e desapego de padrões.

Face ao exposto, indaguemos sobre quais seriam as medidas que deveriam ser implementadas nos núcleos educativos do Espiritismo, em favor da melhor compreensão dos roteiros de transformação interior. Aprofundemos debates entre dirigentes sobre quais iniciativas poderiam ser facilitadas ao novéis trabalhadores, em favor de um aprendizado sem os torturantes conflitos originados da crueldade aplicada a nós mesmos, quando não somos criativos o bastante para lidar com nossa sombra e tombamos em martírios inúteis.

Reforma íntima deve ser considerada como melhoria em nós mesmos e não a anulação de uma parte de nós considerada ruim. Uma proposta de aperfeiçoamento gradativo cujo objetivo maior é a nossa felicidade.

Quem está na reforma interior tem um referencial fundamental para se auto-analisar ao longo da caminhada educativa, um termômetro das almas que se aprimoram; inevitavelmente, quem se renova alcança a maior conquista das pessoas livres: o prazer de viver.