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GERAL => Outros Temas => Livros Espíritas => Tópico iniciado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:29

Título: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:29
NOSSO LAR

Novo amigo

Os prefácios, em geral, apresentam autores, exaltando-lhes o mérito e Comentando-lhes a personalidade.
Aqui, porém, a situação é diferente.
Embalde os companheiros encarnados procurariam o médico André Luiz nos catálogos da convenção.
Por vezes, o anonimato é filho do legítimo entendimento e do verdadeiro amor.

Para redimirmos o passado escabroso, modificam-se tabelas da nomenclatura usual na reencarnação.
Funciona o esquecimento temporário como bênção da Divina Misericórdia.
André precisou, igualmente, cerrar a cortina sobre si mesmo.

É por isso que não podemos apresentar o médico terrestre e autor humano, mas sim o novo amigo e irmão na eternidade.
Por trazer valiosas impressões aos companheiros do mundo, necessitou despojar-se de todas as convenções, inclusive a do próprio nome, para não ferir corações amados, envolvidos ainda nos velhos mantos da ilusão.

Os que colhem as espigas maduras, não devem ofender os que plantam a distância, nem perturbar a lavoura verde, ainda em flor.
Reconhecemos que este livro não é único.
Outras entidades já comentaram as condições da vida, além-túmulo...

Entretanto, de há muito desejamos trazer ao nosso círculo espiritual alguém que possa transmitir a outrem o valor da experiência própria, com todos os detalhes possíveis à legítima compreensão da ordem que preside o esforço dos desencarnados laboriosos e bem-intencionados, nas esferas invisíveis ao olhar humano, embora intimamente ligadas ao planeta.

Certamente que numerosos amigos sorrirão ao contato de determinadas passagens das narrativas.
O inabitual, entretanto, causa surpresa em todos os tempos.
Quem não sorriria, na Terra, anos atrás, quando se lhe falasse da aviação, da eletricidade, da radiofonia?

A surpresa, a perplexidade e a dúvida são de todos os aprendizes que ainda não passaram pela lição.
É mais que natural, é justíssimo.
Não comentaríamos, desse modo, qualquer impressão alheia.
Todo leitor precisa analisar o que lê.

Reportamo-nos, pois, tão somente ao objetivo essencial do trabalho.
O Espiritismo ganha expressão numérica.
Milhares de criaturas interessam-se pelos seus trabalhos, modalidades, experiências.
Nesse campo imenso de novidades, todavia, não deve o homem descurar de si mesmo.
Não basta investigar fenômenos, aderir verbalmente, melhorar a estatística, doutrinar consciências alheias, fazer proselitismo e conquistar favores da opinião, por mais respeitável que seja, no plano físico.

É indispensável cogitar do conhecimento de nossos infinitos potenciais, aplicando-os, por nossa vez, nos serviços do bem.
O homem terrestre não é um deserdado.
É filho de Deus, em trabalho construtivo, envergando a roupagem da carne; aluno de escola benemérita, onde precisa aprender a elevar-se.

A luta humana é a sua oportunidade, a sua ferramenta, o seu livro.
O intercâmbio com o invisível é um movimento sagrado, em função restauradora do Cristianismo puro; que ninguém, todavia, se descuide das necessidades próprias, no lugar que ocupa pela vontade do Senhor.

André Luiz vem contar a você, leitor amigo, que a maior surpresa da morte carnal é a de nos colocar face a face com a própria consciência, onde edificamos o céu, estacionamos no purgatório ou nos precipitamos no abismo infernal; vem lembrar que a Terra é oficina sagrada e que ninguém a menosprezará, sem conhecer o preço do terrível engano a que submeteu o próprio coração.

Guarde a experiência dele no livro d'alma.
Ela diz bem alto que não basta à criatura apegar-se à existência humana, mas precisa saber aproveitá-la dignamente; que os passos do cristão, em qualquer escola religiosa, devem dirigir-se verdadeiramente ao Cristo, e que, em nosso campo doutrinário, precisamos, em verdade, do “Espiritismo” e do “Espiritualismo”, mas, muito mais, de “Espiritualidade”.

Emmanuel

Pedro Leopoldo, 3 de outubro de 1943

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:31
NOSSO LAR

Mensagem de André Luiz

A vida não cessa.

A vida é fonte eterna e a morte é jogo escuro das ilusões.
O grande rio tem seu trajeto, antes do mar imenso.
Copiando-lhe a expressão, a alma percorre igualmente caminhos variados e etapas diversas, também recebe afluentes de conhecimentos, aqui e ali, avoluma-se em expressão e purifica-se em qualidade, antes de encontrar o Oceano Eterno da Sabedoria.

Cerrar os olhos carnais constitui operação demasiadamente simples.
Permutar a roupagem física não decide o problema fundamental da iluminação, como a troca de vestidos nada tem que ver com as soluções profundas do destino e do ser.

Oh!
Caminhos das almas, misteriosos caminhos do coração!
É mister percorrer-vos, antes de tentar a suprema equação da Vida Eterna!
É indispensável viver o vosso drama, conhecer-vos detalhe a detalhe, no longo processo do aperfeiçoamento espiritual! ...

Seria extremamente infantil a crença de que o simples "baixar do pano" resolvesse transcendentes questões do Infinito.
Uma existência é um ato.
Um corpo – uma veste.
Um século – um dia.
Um serviço – uma experiência.
Um triunfo – uma aquisição.
Uma morte – um sopro renovador.

Quantas existências, quantos corpos, quantos séculos, quantos serviços, quantos triunfos, quantas mortes necessitamos ainda?
E o letrado em filosofia religiosa fala de deliberações finais e posições definitivas!

Ai!
Por toda parte, os cultos em doutrina e os analfabetos do espírito!
É preciso muito esforço do homem para ingressar na academia do Evangelho do Cristo, ingresso que se verifica, quase sempre, de estranha maneira ele só, na companhia do Mestre, efetuando o curso difícil, recebendo lições sem cátedras visíveis e ouvindo vastas dissertações sem palavras articuladas.
Muito longa, portanto, nossa jornada laboriosa.
Nosso esforço pobre quer traduzir apenas uma ideia dessa verdade fundamental.

Grato, pois, meus amigos!
Manifestamo-nos, junto a vós outros, no anonimato que obedece à caridade fraternal.
A existência humana apresenta grande maioria de vasos frágeis, que não podem conter ainda toda a verdade.
Aliás, não nos interessaria, agora, senão a experiência profunda, com os seus valores coletivos.
Não atormentaremos alguém com a ideia da eternidade.
Que os vasos se fortaleçam, em primeiro lugar.
Forneceremos, somente, algumas ligeiras notícias ao espírito sequioso dos nossos irmãos na senda de realização espiritual, e que compreendem conosco que “o espírito sopra onde quer”.

E, agora, amigos, que meus agradecimentos se calem no papel, recolhendo-se ao grande silêncio da simpatia e da gratidão.
Atração e reconhecimento, amor e júbilo moram na alma.
Crede que guardarei semelhantes valores comigo, a vosso respeito, no santuário do coração. Que o Senhor nos abençoe.

André Luiz

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:32
NOSSO LAR

1 - Nas Zonas Inferiores

Eu guardava a impressão de haver perdido a idéia de tempo.
A noção de espaço esvaíra-se-me de há muito.
Estava convicto de não mais pertencer ao número dos encarnados no mundo e, no entanto, meus pulmões respiravam a longos haustos.
Desde quando me tornara joguete de forças irresistíveis?
Impossível esclarecer.
Sentia-me, na verdade, amargurado duende nas grades escuras do horror.
Cabelos eriçados, coração aos saltos, medo terrível senhoreando-me, muita vez gritei como louco, implorei piedade e clamei contra o doloroso desânimo que me subjugava o espírito; mas, quando o silêncio implacável não me absorvia a voz estentórica, lamentos mais comovedores que os meus respondiam-me aos clamores.
Outras vezes gargalhadas sinistras rasgavam a quietude ambiente.
Algum companheiro desconhecido estaria, a meu ver, prisioneiro da loucura.
Formas diabólicas, rostos alvares, expressões animalescas surgiam, de quando em quando, agravando-me o assombro.
A paisagem, quando não totalmente escura, parecia banhada de luz alvacenta, como que amortalhada em neblina espessa, que os raios de Sol aquecessem de muito longe. E a estranha viagem prosseguia...
Com que fim?
Quem o poderia dizer?
Apenas sabia que fugia sempre...
O medo me impelia de roldão.
Onde o lar, a esposa, os filhos?
Perdera toda a noção de rumo.
O receio do ignoto e o pavor da treva absorviam-me todas as faculdades de raciocínio, logo que me desprendera dos últimos laços físicos, em pleno sepulcro!
Atormentava-me a consciência: preferiria a ausência total da razão, o não-ser.
De início, as lágrimas lavavam-me incessantemente o rosto e apenas, em minutos raros, felicitava-me a bênção do sono.
Interrompia-se, porém, bruscamente, a sensação de alívio.
Seres monstruosos acordavam-me, irônicos; era imprescindível fugir deles.
Reconhecia, agora, a esfera diferente a erguer-se da poalha do mundo e, todavia, era tarde.
Pensamentos angustiosos atritavam-me o cérebro.
Mal delineava projetos de solução, incidentes numerosos impeliam-me a considerações estonteantes.
Em momento algum, o problema religioso surgiu tão profundo a meus olhos.
Os princípios puramente filosóficos, políticos e científicos, figuravam-se-me agora extremamente secundários para a vida humana.
Significavam, a meu ver, valioso patrimônio nos planos da Terra, mas urgia reconhecer que a humanidade não se constitui de gerações transitórias e sim de Espíritos eternos, a caminho de gloriosa destinação.
Verificava que alguma coisa permanece acima de toda cogitação meramente intelectual.
Esse algo é a fé, manifestação divina ao homem.
Semelhante análise surgia, contudo, tardiamente.
De fato, conhecia as letras do Velho Testamento e muita vez folheara o Evangelho; entretanto, era forçoso reconhecer que nunca procurara as letras sagradas com a luz do coração. Identificava-as através da crítica de escritores menos afeitos ao sentimento e à consciência, ou em pleno desacordo com as verdades essenciais.
Noutras ocasiões, interpretava-as com o sacerdócio organizado, sem sair jamais do círculo de contradições, onde estacionara voluntariamente.
Em verdade, não fora um criminoso, no meu próprio conceito.
A filosofia do imediatismo, porém, absorvera-me.
A existência terrestre, que a morte transformara, não fora assinalada de lances diferentes da craveira comum.
Filho de pais talvez excessivamente generosos, conquistaram meus títulos universitários sem maior sacrifício, compartilhara os vícios da mocidade do meu tempo, organizara o lar, conseguira filhos, perseguira situações estáveis que garantissem a tranquilidade econômica do meu grupo familiar, mas, examinando atentamente a mim mesmo, algo me fazia experimentar a noção de tempo perdido, com a silenciosa acusação da consciência.
Habitara a Terra, gozara-lhe os bens, colhera as bênçãos da vida, mas não lhe retribuíra ceitil do débito enorme.
Tivera pais, cuja generosidade e sacrifícios por mim nunca avaliei; esposa e filhos que prendera, ferozmente, nas teias rijas do egoísmo destruidor.
Possuíra um lar que fechei a todos os que palmilhavam o deserto da angústia.
Deliciara-me com os júbilos da família, esquecido de estender essa bênção divina à imensa família humana, surdo a comezinhos deveres de fraternidade.
Enfim, como a flor de estufa, não suportava agora o clima das realidades eternas.
Não desenvolvera os germes divinos que o Senhor da Vida colocara em minh'alma.
Sufocara-os, criminosamente, no desejo incontido de bem estar.
Não adestrara órgãos para a vida nova.
Era justo, pois, que aí despertasse à maneira de aleijado que, restituído ao rio infinito da eternidade, não pudesse acompanhar senão compulsoriamente a carreira incessante das águas; ou como mendigo infeliz, que, exausto em pleno deserto, perambula à mercê de impetuosos tufões.
Oh! Amigos da Terra!
Quantos de vós podereis evitar o caminho da amargura com o preparo dos campos interiores do coração?
Acendei vossas luzes antes de atravessar a grande sombra.
Buscai a verdade, antes que a verdade vos surpreenda. Suai agora para não chorardes depois.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:33
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2 Clarêncio

“Suicida! Suicida! Criminoso! Infame!” gritos assim, cercavam-me de todos os lados.
Onde estão os sicários de coração empedernido?
Por vezes, enxergava-os de relance, escorregadios na treva espessa e, quando meu desespero atingia o auge, atacava-os, mobilizando extremas energias.
Em vão, porém, esmurrava o ar nos paroxismos da cólera.
Gargalhadas sarcásticas feriam-me os ouvidos, enquanto os vultos negros desapareciam na sombra.
Para quem apelar?
Torturava-me a fome, a sede me escaldava.
Comezinhos fenômenos da experiência material patenteavam sê-me aos olhos.
Crescera-me a barba, a roupa começava a romper-se com os esforços da resistência, na região desconhecida.
A circunstância mais dolorosa, no entanto, não é o terrível abandono a que me sentia votado, mas o assédio incessante de forças perversas que me assomavam nos caminhos ermos e obscuros.
Irritavam-me, aniquilavam-me a possibilidade de concatenar ideias.
Desejava ponderar maduramente a situação, esquadrinhar razões e estabelecer novas diretrizes ao pensamento, mas aquelas vozes, aqueles lamentos misturados de acusações nominais, desnorteavam-me irremediavelmente.
– Que buscas, infeliz!
Aonde vais, suicida?
Tais objurgatórias, incessantemente repetidas, perturbavam-me o coração.
Infeliz, sim; mas, suicida?
Nunca!
Essas encrespações, a meu ver, não eram procedentes.
Eu havia deixado o corpo físico a contragosto.
Recordava meu porfiado duelo com a morte.
Ainda julgava ouvir os últimos pareceres médicos, enunciados na Casa de Saúde; lembrava a assistência desvelada que tivera, os curativos dolorosos que experimentara nos dias longos que se seguiram à delicada operação dos intestinos.
Sentia, no curso dessas reminiscências, o contato do termômetro, o pique desagradável da agulha de injeções e, por fim, a última cena que precedera o grande sono: minha esposa ainda jovem e os três filhos contemplando-me, no terror da eterna separação.
Depois... O despertar na paisagem úmida e escura e a grande caminhada que parecia sem-fim.
Por que a pecha de suicídio, quando fora compelido a abandonar a casa, a família e o doce convívio dos meus?
O homem mais forte conhecerá limites à resistência emocional.
Firme e resoluto a princípio, comecei por entregar-me a longos períodos de desânimo e, longe de prosseguir na fortaleza moral, por ignorar o próprio fim, senti que as lágrimas longamente represadas visitavam-me com mais frequência, extravasando do coração.
A quem recorrer?
Por maior que fosse a cultura intelectual trazida do mundo, não poderia alterar, agora, a realidade da vida.
Meus conhecimentos, ante o infinito, semelhavam-se a pequenas bolhas de sabão levadas ao vento impetuoso que transforma as paisagens.
Eu era alguma coisa que o tufão da verdade carreava para muito longe.
Entretanto, a situação não modificava a outra realidade do meu ser essencial.
Perguntando a mim mesmo se não enlouquecera, encontrava a consciência vigilante, esclarecendo-me que continuava a ser eu mesmo, com o sentimento e a cultura colhidos na experiência material.
Persistiam as necessidades fisiológicas, sem modificação.
Castigava-me a fome todas as fibras e, nada obstante, o abatimento progressivo não me fazia cair definitivamente em absoluta exaustão.
De quando em quando, deparavam sê-me verduras que me pareciam agrestes, em torno de humildes filetes d'água a que me atirava sequioso.
Devorava as folhas desconhecidas, colava os lábios à nascente turva, enquanto me permitiam as forças irresistíveis, a impelirem-me para frente.
Muita vez suguei a lama da estrada, recordei o antigo pão de cada dia, vertendo copioso pranto.
Não raro, era imprescindível ocultar-me das enormes manadas de seres animalescos, que passavam em bando, quais feras insaciáveis.
Eram quadros de estarrecer!
Acentuava-se o desalento.
Foi quando comecei a recordar que deveria existir um Autor da Vida, fosse onde fosse.
Essa ideia confortou-me.
Eu, que detestara as religiões no mundo, experimentava agora a necessidade de conforto místico.
Médico extremamente arraigado ao negativismo da minha geração, impunha-se-me atitude renovadora.
Tornava-se imprescindível confessar a falência do amor-próprio, a que me consagrara orgulhoso.
E, quando as energias me faltaram de todo, quando me senti absolutamente colado ao lodo da Terra, sem forças para reerguer-me, pedi ao Supremo Autor da Natureza me estendesse mãos paternais, em tão amargurosa emergência.
Quanto tempo durou a rogativa?
Quantas horas consagrei à súplica, de mãos postas, imitando a criança aflita?
Apenas sei que a chuva das lágrimas me lavou o rosto; que todos os meus sentimentos se concentraram na prece dolorosa.
Estaria, então, completamente esquecido?
Não era, igualmente, filho de Deus, embora não cogitasse de conhecer-lhe a atividade sublime quando engolfado nas vaidades da experiência humana?
Por que não me perdoaria o Eterno Pai, quando providenciava ninho às aves inconscientes e protegia, bondoso, a flor tenra dos campos agrestes?
Ah! É preciso haver sofrido muito, para entender todas as misteriosas belezas da oração; é necessário haver conhecido o remorso, a humilhação, a extrema desventura, para tomar com eficácia o sublime elixir de esperança.
Foi nesse instante que as neblinas espessas se dissiparam e alguém surgiu, emissário dos Céus.
Um velhinho simpático me sorriu paternalmente. Inclinou-se, fixou nos meus os grandes olhos lúcidos, e falou:
– Coragem, meu filho! O Senhor não te desampara.
Amargurado pranto banhava-me a alma toda. Emocionado, quis traduzir meu júbilo, comentar a consolação que me chegava, mas, reunindo todas as forças que me restavam, pude apenas inquirir:
– Quem sois, generoso emissário de Deus?
O inesperado benfeitor sorriu bondoso e respondeu:
– Chama-me Clarêncio, sou apenas teu irmão.
E, percebendo o meu esgotamento, acrescentou:
– Agora, permanece calmo e silencioso.
É preciso descansar para reaver energias.
Em seguida, chamou dois companheiros que guardavam atitude de servos desvelados e ordenou:
– Prestemos ao nosso amigo os socorros de emergência.
Alvo lençol foi estendido ali mesmo, à guisa de maca improvisada, aprestando-se ambos os cooperadores a transportarem-me, generosamente.
Quando me alçavam, cuidadosos, Clarêncio meditou um instante e esclareceu, como quem recorda inadiável obrigação:
– Vamos sem demora.
Preciso atingir “Nosso Lar” com a presteza possível.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:35
NOSSO LAR

3 A Oração Coletiva

Embora transportado à maneira de ferido comum, lobriguei o quadro confortante que se desdobrava à minha vista.
Clarêncio, que se apoiava num cajado de substância luminosa, deteve-se à frente de grande porta encravada em altos muros, cobertos de trepadeiras floridas e graciosas.
Tateando um ponto da muralha, fez-se longa abertura, através da qual penetramos, silenciosos.
Branda claridade inundava ali todas as coisas.
Ao longe, gracioso foco de luz dava a idéia de um pôr do sol em tardes primaveris.
A medida que avançávamos, conseguia identificar preciosas construções, situadas em extensos jardins.
Ao sinal de Clarêncio, os condutores depuseram, devagarzinho, a maca improvisada.
A meus olhos surgiu, então, a porta acolhedora de alvo edifício, à feição de grande hospital terreno.
Dois jovens, envergando túnicas de níveo linho, acorreram pressurosos ao chamado de meu benfeitor, e quando me acomodavam num leito de emergência, para me conduzirem cuidadosamente ao interior, ouvi o generoso ancião recomendar, carinhoso:
– Guardem nosso tutelado no pavilhão da direita.
Esperam agora por mim.
Amanhã cedo voltarei a vê-lo.
Enderecei-lhe um olhar de gratidão, ao mesmo tempo em que era conduzido a confortável aposento de amplas proporções, ricamente mobilhado, onde me ofereceram leito acolhedor.
Envolvendo os dois enfermeiros na vibração do meu reconhecimento, esforcei-me por lhes dirigir a palavra, conseguindo dizer por fim:
– Amigos, por quem sois, explicai-me em que novo mundo me encontro... De que estrela me vem, agora, esta luz confortadora e brilhante?
Um deles afagou-me a fronte, como se fora conhecido pessoal de longo tempo e acentuou:
– Estamos nas esferas espirituais vizinhas da Terra, e o Sol que nos ilumina neste momento é o mesmo que nos vivificava o corpo físico.
Aqui, entretanto, nossa percepção visual é muito mais rica.
A estrela que o Senhor acendeu para os nossos trabalhos terrestres é mais preciosa e bela do que a supomos quando no círculo carnal.
Nosso Sol é a divina matriz da vida e a claridade que irradia provém do Autor da Criação.
Meu ego, como que absorvido em onda de infinito respeito, fixou a luz branda que invadia o quarto, através das janelas, e perdi-me no curso de profundas cogitações.
Recordei, então, que nunca fixara o Sol, nos dias terrestres, meditando na imensurável bondade d’Aquele que no-lo concede para o caminho eterno da vida.
Semelhava-me assim ao cego venturoso, que abre os olhos para a Natureza sublime, depois de longos séculos de escuridão.
A essa altura, serviram-me caldo reconfortante, seguido de água muito fresca, que me pareceu portadora de fluidos divinos.
Aquela reduzida porção de líquido reanimava-me inesperadamente.
Não saberia dizer que espécie de sopa era aquela; se alimentação sedativa, se remédio salutar.
Novas energias amparavam-me a alma, profundas comoções vibravam-me no espírito.
Minha maior emoção, todavia, reservava-se para instantes depois.
Mal não saíra da consoladora surpresa, divina melodia penetrou quarto adentro, parecendo suave colméia de sons a caminho das esferas superiores.
Aquelas notas de maravilhosa harmonia atravessavam-me o coração.
Ante meu olhar indagador, o enfermeiro, que permanecia ao lado, esclareceu, bondoso:
– É chegado o crepúsculo em “Nosso Lar”. Em todos os núcleos desta colônia de trabalho, consagrada ao Cristo, há ligação direta com as preces da Governadoria.
E enquanto a música embalsamava o ambiente, despediu-se, atencioso:
– Agora, fique em paz.
Voltarei logo após a oração.
Empolgou-me ansiedade súbita.
– Não poderei acompanhar-vos? – perguntei, suplicante.
– Está ainda fraco – esclareceu, gentil –, todavia, caso sinta-se disposto...
Aquela melodia renovava-me as energias profundas.
Levantei-me vencendo dificuldades e agarrei-me ao braço fraternal que se me estendia.
Seguindo vacilante, cheguei a enorme salão, onde numerosa assembléia meditava em silêncio, profundamente recolhida.
Da abóbada cheia de claridade brilhante, pendiam delicadas e flóreas guirlandas, que vinham do teto à base, formando radiosos símbolos de Espiritualidade Superior.
Ninguém parecia dar conta da minha presença, ao passo que mal dissimulava eu a surpresa inexcedível.
Todos os circunstantes, atentos, pareciam aguardar alguma coisa.
Contendo a custo numerosas indagações que me esfervilhavam na mente, notei que ao fundo, em tela gigantesca, desenhava-se prodigioso quadro de luz quase feérica.
Obedecendo a processos adiantados de televisão, surgiu o cenário de templo maravilhoso.
Sentado em lugar de destaque, um ancião coroado de luz fixava o Alto, em atitude de prece, envergando alva túnica de irradiações resplandecentes.
Em plano inferior, setenta e duas figuras pareciam acompanhá-lo em respeitoso silêncio.
Altamente surpreendido, reparei Clarêncio participando da assembléia, entre os que cercavam o velhinho refulgente.
Apertei o braço do enfermeiro amigo e, compreendendo ele que minhas perguntas não se fariam esperar, esclareceu em voz baixa, que mais se assemelhava a leve sopro:
– Conserve-se tranqüilo.
Todas as residências e instituições de “Nosso Lar” estão orando com o Governador, através da audição e visão a distância.
Louvemos o Coração Invisível do Céu.
Mal terminara a explicação, as setenta e duas figuras começaram a cantar harmonioso hino, repleto de indefinível beleza.
A fisionomia de Clarêncio, no círculo dos veneráveis companheiros, figurou-se-me tocada de mais intensa luz.
O cântico celeste constituía-se de notas angelicais, de sublimado reconhecimento.
Pairavam no recinto misteriosas vibrações de paz e de alegria e, quando as notas argentinas fizeram delicioso staccato, desenhou-se ao longe, em plano elevado, um coração maravilhosamente azul, com estrias douradas.
Cariciosa música, em seguida, respondia aos louvores, procedente talvez de esferas distantes.
Foi aí que abundante chuva de flores azuis se derramou sobre nós; mas, se fixávamos os miosótis celestiais, não conseguíamos detê-los nas mãos.
As corolas minúsculas desfaziam-se de leve, ao tocar-nos a fronte, experimentando eu, por minha vez, singular renovação de energias ao contato das pétalas fluídicas que me balsamizavam o coração.
Terminada a sublime oração, regressei ao aposento de enfermo, amparado pelo amigo que me atendia de perto.
Entretanto, não era mais o doente grave de horas antes.
A primeira prece coletiva, em “Nosso Lar”, operara em mim completa transformação.
Conforto inesperado envolvia-me a alma.
Pela primeira vez, depois de anos consecutivos de sofrimento, o pobre coração, saudoso e atormentado, à maneira de cálice muito tempo vazio, enchera-se de novo das gotas generosas do licor da esperança.
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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:36
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4 O Médico Espiritual

No dia imediato, após reparador e profundo repouso, experimentei a bênção radiosa do Sol amigo, qual suave mensagem ao coração.
Claridade reconfortante atravessava ampla janela, inundando o recinto de cariciosa luz.
Sentia-me outro.
Energias novas tocavam-me o íntimo.
Tinha a impressão de sorver a alegria da vida, a longos haustos.
Na alma, apenas um ponto sombrio – a saudade do lar, o apego à família que ficara distante.
Numerosas interrogações pairavam-me na mente, mas tão grande era a sensação de alívio que eu sossegava o espírito, longe de qualquer interpelação.
Quis levantar-me, gozar o espetáculo da Natureza cheia de brisas e de luz, mas não o consegui e concluí que, sem a cooperação magnética do enfermeiro, tornava-se-me impossível deixar o leito.
Não voltara a mim das surpresas consecutivas, quando se abriu a porta e vi entrar Clarêncio acompanhado por simpático desconhecido.
Cumprimentaram-me, atenciosos, desejando-me paz.
Meu benfeitor da véspera indagou do meu estado geral.
Acorreu o enfermeiro, prestando informações.
Sorridente, o velhinho amigo apresentou-me o companheiro.
Tratava-se, disse, do irmão Henrique de Luna, do Serviço de Assistência Médica da colônia espiritual.
Trajado de branco, traços fisionômicos irradiando enorme simpatia, Henrique auscultou-me demoradamente, sorriu e explicou:
– É de lamentar que tenha vindo pelo suicídio.
Enquanto Clarêncio permanecia sereno, senti que singular assomo de revolta me borbulhava no íntimo.
Suicídio?
Recordei as acusações dos seres perversos das sombras.
Não obstante o cabedal de gratidão que começava a acumular, não calei a incriminação.
– Creio haja engano – asseverei, melindrado –, meu regresso do mundo não teve essa causa.
Lutei mais de quarenta dias, na Casa de Saúde, tentando vencer a morte.
Sofri duas operações graves, devido a oclusão intestinal...
– Sim – esclareceu o médico, demonstrando a mesma serenidade superior –, mas a oclusão radicava-se em causas profundas.
Talvez o amigo não tenha ponderado bastante.
O organismo espiritual apresenta em si mesmo a história completa das ações praticadas no mundo.
E inclinando-se, atencioso, indicava determinados pontos do meu corpo:
– Vejamos a zona intestinal – exclamou – A oclusão derivava e elementos cancerosos, e estes, por sua vez, de algumas leviandades do meu estimado irmão, no campo da sífilis.
A moléstia talvez não assumisse características tão graves, se o seu procedimento mental no planeta estivesse enquadrado nos princípios da fraternidade e da temperança.
Entretanto, seu modo especial de conviver, muita vez exasperado e sombrio, captava destruidoras vibrações naqueles que o ouviam.
Nunca imaginou que a cólera fosse manancial de forças negativas para nós mesmos?
A ausência de autodomínio, a inadvertência no trato com os semelhantes, aos quais muitas vezes ofendeu sem refletir, conduziam-no frequentemente à esfera dos seres doentes e inferiores.
Tal circunstância agravou, de muito, o seu estado físico.
Depois de longa pausa, em que me examinava atentamente, continuou:
– Já observou, meu amigo, que seu fígado foi maltratado pela sua própria ação; que os rins foram esquecidos, com terrível menosprezo às dádivas sagradas?
Singular desapontamento invadira-me o coração.
Parecendo desconhecer a angústia que me oprimia, continuava o médico, esclarecendo:
– Os órgãos do corpo somático possuem incalculáveis reservas, segundo os desígnios do Senhor.
O meu amigo, no entanto, iludiu excelentes oportunidades, desperdiçando patrimônios preciosos da experiência física.
A longa tarefa, que lhe foi confiada pelos Maiores da Espiritualidade Superior, foi reduzida a meras tentativas de trabalho que não se consumou.
Todo o aparelho gástrico foi destruído à custa de excessos de alimentação e bebidas alcoólicas, aparentemente sem importância.
Devorou-lhe a sífilis energias essenciais.
Como vê, o suicídio é incontestável.
Meditei nos problemas dos caminhos humanos, refletindo nas oportunidades perdidas.
Na vida humana, conseguia ajustar numerosas máscaras ao rosto, talhando-as conforme as situações.
Aliás, não poderia supor, noutro tempo, que me seriam pedidas contas de episódios simples, que costumava considerar como fatos sem maior significação.
Conceituara, até ali, os erros humanos, segundo os preceitos da criminologia.
Todo acontecimento insignificante, estranho aos códigos, entraria na relação de fenômenos naturais. Deparava-se-me, porém, agora, outro sistema de verificação das faltas cometidas.
Não me defrontavam tribunais de tortura, nem me surpreendiam abismos infernais; contudo, benfeitores sorridentes comentavam-me as fraquezas como quem cuida de uma criança desorientada, longe das vistas paternas.
Aquele interesse espontâneo, no entanto, feria-me a vaidade de homem.
Talvez que, visitado por figuras diabólicas a me torturarem, de tridente nas mãos, encontrasse forças para tornar a derrota menos amarga.
Todavia, a bondade exuberante de Clarêncio, a inflexão de ternura do médico, a calma fraternal do enfermeiro, penetravam-me fundo o espírito.
Não me dilacerava o desejo de reação; doía-me a vergonha.
E chorei.
Rosto entre as mãos, qual menino contrariado e infeliz, pus-me a soluçar com a dor que me parecia irremediável.
Não havia como discordar.
Henrique de Luna falava com sobejas razões.
Por fim, abafando os impulsos vaidosos, reconheci a extensão de minhas leviandades de outros tempos.
A falsa noção da dignidade pessoal cedia terreno à justiça.
Perante minha visão espiritual só existia, agora, uma realidade torturante: era verdadeiramente um suicida, perdera o ensejo precioso da experiência humana, não passava de náufrago a quem se recolhia por caridade.
Foi então que o generoso Clarêncio, sentando-se no leito, a meu lado, afagou-me paternalmente os cabelos e falou comovido:
– Oh, Meu filho!
Não te lastimes tanto.
Busquei-te atendendo à intercessão dos que te amam, dos planos mais altos.
Tuas lágrimas atingem seus corações.
Não desejas ser grato, mantendo-te tranquilo no exame das próprias faltas?
Na verdade, tua posição é a do suicida inconsciente; mas é necessário reconhecer que centenas de criaturas se ausentam diariamente da Terra, nas mesmas condições.
Acalma-te, pois.
Aproveita os tesouros do arrependimento, guarda a bênção do remorso, embora tardio, sem esquecer que a aflição não resolve problemas.
Confia no Senhor e em nossa dedicação fraternal.
Sossega a alma perturbada, porque muitos de nós outros já perambulamos igualmente nos teus caminhos.
Ante a generosidade que transbordava dessas palavras, mergulhei a cabeça em seu colo paternal e chorei longamente.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Janeiro de 2019, 12:49
NOSSO LAR

5 Recebendo Assistência

– É você o tutelado de Clarêncio?
A pergunta vinha de um jovem de singular e doce expressão.
Grande bolsa pendente da mão, como quem conduzia apetrechos de assistência, endereçava-me ele sorriso acolhedor.
Ao meu sinal afirmativo, mostrou-se à vontade e, maneiras fraternas, acentuou:
– Sou Lísias, seu irmão.
Meu diretor, o assistente Henrique de Luna, designou-me para servi-lo, enquanto precisar tratamento.
– É enfermeiro? – indaguei.
– Sou visitador dos serviços de saúde.
Nessa qualidade, não só coopero na enfermagem, como também assinalo necessidades de socorro, ou providências que se refiram a enfermos recém-chegados.
Notando-me a surpresa, explicou:
– Nas minhas condições há numerosos servidores em “Nosso Lar”.
O amigo ingressou agora na colônia e, naturalmente, ignora a amplitude dos nossos trabalhos.
Para fazer uma ideia, basta lembrar que apenas aqui, na seção em que se encontra, existem mais de mil doentes espirituais, e note que este é um dos menores edifícios do nosso parque hospitalar.
– Tudo isso é maravilhoso! – exclamei.
Adivinhando que minhas observações iam descambar para o elogio espontâneo, Lísias levantou-se da poltrona a que se recolhera e começou a auscultar-me, atento, impedindo-me o agradecimento verbal.
– A zona dos seus intestinos apresenta lesões sérias com vestígios muito exatos do câncer; a região do fígado revela dilacerações; a dos rins demonstra característicos de esgotamento prematuro.
Sorrindo, bondoso, acrescentou:
– Sabe o irmão o que significa isso?
– Sim – repliquei, o médico esclareceu ontem, explicando que devo esses distúrbios a mim mesmo...
Reconhecendo o acanhamento da confissão reticenciosa, apressou-se a consolar:
– Na turma de oitenta enfermos a que devo assistência diária, cinqüenta e sete se encontram nas suas condições.
E talvez ignore que existem, por aqui, os mutilados.
Já pensou nisso?
Sabe que o homem imprevidente, que gastou os olhos no mal, aqui comparece de órbitas vazias?
Que o malfeitor, interessado em utilizar o dom da locomoção fácil nos atos criminosos, experimenta a desolação da paralisia, quando não é recolhido absolutamente sem pernas?
Que os pobres obsidiados nas aberrações sexuais costumam chegar em extrema loucura?
Identificando-me a perplexidade natural, prosseguiu:
– “Nosso Lar” não é estância de Espíritos propriamente vitoriosos, se conferirmos ao termo sua razoável acepção.
Somos felizes, porque temos trabalho; e a alegria habita cada recanto da colônia, porque o Senhor não nos retirou o pão abençoado do serviço.
Aproveitando a pausa mais longa, exclamei sensibilizado:
– Continue, meu amigo, esclareça-me.
Sinto-me aliviado e tranquilo.
Não será esta região um departamento celestial dos eleitos?
Lísias sorriu e explicou:
– Recordemos o antigo ensinamento que se refere a muitos chamados e poucos escolhidos na Terra.
E vagueando o olhar no horizonte longínquo, como a fixar experiências de si mesmo no painel das recordações mais íntimas, acentuou:
– As religiões, no planeta, convocam as criaturas ao banquete celestial.
Em sã consciência, ninguém que se tenha aproximado, um dia, da noção de Deus, pode alegar ignorância nesse particular.
Incontável é o número dos chamados, meu amigo; mas, onde os que atendem ao chamado?
Com raras exceções, a massa humana prefere aceder a outro gênero de convites.
Gasta-se a possibilidade nos desvios do bem, agrava-se o capricho de cada um, elimina-se o corpo físico a golpes de irreflexão.
Resultado: milhares de criaturas retiram-se diariamente da esfera da carne em doloroso estado de incompreensão.
Multidões sem conta erram em todas as direções nos círculos imediatos à crosta planetária, constituídas de loucos, doentes e ignorantes.
Notando-me a admiração, interrogou:
– Acreditaria, porventura, que a morte do corpo nos conduziria a planos de milagres?
Somos compelidos a trabalho áspero, a serviços pesados e não basta isso.
Se temos débitos no planeta, por mais alto que ascendamos, é imprescindível voltar, para retificar, lavando o rosto no suor do mundo, desatando algemas de ódio e substituindo-as por laços sagrados de amor.
Não seria justo impor a outrem a tarefa de mondar o campo que semeamos de espinhos, com as próprias mãos.
Abanando a cabeça, acrescentava:
– Caso dos muitos chamados, meu caro.
O Senhor não esquece homem algum; todavia, raríssimos homens o recordam.
Acabrunhado com a lembrança dos próprios erros, diante de tão grandes noções de responsabilidade individual, objetei:
– Como fui perverso!
Contudo, antes que me alongasse noutras exclamações, o visitador colocou a destra carinhosa em meus lábios, murmurando:
– Cale-se!
Meditemos no trabalho a fazer.
No arrependimento verdadeiro é preciso saber falar, para construir de novo.
Em seguida, aplicou-me passes magnéticos, atenciosamente.
Fazendo os curativos na zona intestinal, esclareceu:
– Não observa o tratamento especializado da zona cancerosa?
Pois note bem: toda medicina honesta é serviço de amor, atividade de socorro justo; mas o trabalho de cura é peculiar a cada Espírito.
Meu irmão será tratado carinhosamente, sentir-se-á forte como nos tempos mais belos da sua juventude terrena, trabalhará muito e, creio, será um dos melhores colaboradores em “Nosso Lar”; entretanto, a causa dos seus males persistirá em si mesmo, até que se desfaça dos germes de perversão da saúde divina, que agregou ao seu corpo sutil pelo descuido moral e pelo desejo de gozar mais que os outros.
A carne terrestre, onde abusamos, é também o campo bendito onde conseguimos realizar frutuosos labores de cura radical, quando permanecemos atentos ao dever justo.
Meditei os conceitos, ponderei a bondade divina e, na exaltação da sensibilidade, chorei copiosamente.
Lísias, contudo, terminou o tratamento do dia, com serenidade, e falou:
– Quando as lágrimas não se originam da revolta, sempre constituem remédio depurador.
Chore, meu amigo.
Desabafe o coração.
E abençoemos aquelas beneméritas organizações microscópicas que são as células de carne na Terra.
Tão humildes e tão preciosas, tão detestadas e tão sublimes pelo espírito de serviço.
Sem elas, que nos oferecem templo à retificação, quantos milênios gastaríamos na ignorância?
Assim falando, afagou-me carinhosamente a fronte abatida e despediu-se com um ósculo de amor.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Janeiro de 2019, 12:50
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6 Precioso Aviso

No dia imediato, após a oração do crepúsculo, Clarêncio me procurou em companhia do atencioso visitador.
Fisionomia a irradiar generosidade, perguntou, abraçando-me:
– Como vai? Melhorzinho?
Esbocei o gesto do enfermo que se vê acariciado na Terra, amolecendo as fibras emotivas.
No mundo, às vezes, o carinho fraterno é mal interpretado.
Obedecendo ao velho vício, comecei a explicar-me, enquanto os dois benfeitores se sentavam comodamente a meu lado:
– Não posso negar que esteja melhor; entretanto, sofro intensamente.
Muitas dores na zona intestinal, estranhas sensações de angústia no coração.
Nunca supus fosse capaz de tamanha resistência, meu amigo.
Ah! Como tem sido pesada a minha cruz!...
Agora que posso concatenar idéias, creio que a dor me aniquilou todas as forças disponíveis...
Clarêncio ouvia, atencioso, demonstrando grande interesse pelas minhas lamentações, sem o menor gesto que denunciasse o propósito de intervir no assunto.
Encorajado com essa atitude, continuei:
– Além do mais, meus sofrimentos morais são enormes e inexprimíveis.
Amainada a tormenta exterior com os socorros recebidos, volto agora às tempestades íntimas.
Que terá sido feito de minha esposa, de meus filhos?
Teria o meu primogênito conseguido progredir, segundo meu velho ideal?
E as filhinhas?
Minha desventurada Zélia muitas vezes afirmou que morreria de saudades, se um dia eu lhe faltasse.
Admirável esposa!
Ainda lhe sinto as lágrimas dos momentos derradeiros.
Não sei desde quando vivo o pesadelo da distância...
Continuadas dilacerações roubaram-me a noção do tempo.
Onde estará minha pobre companheira?
Chorando junto às cinzas do meu corpo, ou nalgum recanto escuro das regiões da morte?
Oh! Minha dor é muito amarga!
Que terrível destino o do homem penhorado no devotamento à família!
Creio que raras criaturas terão padecido tanto quanto eu!...
No planeta, vicissitudes, desenganos, doenças, incompreensões e amarguras, abafando escassas notas de alegria; depois, os sofrimentos da morte do corpo...
Em seguida, martirizações no além-túmulo!
Que será, então, a vida?
Sucessivo desenrolar de misérias e lágrimas?
Não haverá recurso à semeadura da paz?
Por mais que deseje firmar-me no otimismo, sinto que a noção de infelicidade me bloqueia o espírito, como terrível cárcere do coração.
Que desventurado destino, generoso benfeitor!.
Chegado a essa altura, o vendaval da queixa me conduzira o barco mental ao oceano largo das lágrimas.
Clarêncio, contudo, levantou-se sereno e falou sem afetação:
– Meu amigo, deseja você, de fato, a cura espiritual?
Ao meu gesto afirmativo, continuou:
– Aprenda, então, a não falar excessivamente de si mesmo, nem comente a própria dor.
Lamentação denota enfermidade mental e enfermidade de curso laborioso e tratamento difícil.
É indispensável criar pensamentos novos e disciplinar os lábios.
Somente conseguiremos equilíbrio, abrindo o coração ao Sol da Divindade.
Classificar o esforço necessário de imposição esmagadora, enxergar padecimentos onde há luta edificante, sói identificar indesejável cegueira d'alma.
Quanto mais utilize o verbo por dilatar considerações dolorosas, no círculo da personalidade, mais duros se tornarão os laços que o prendem a lembranças mesquinhas.
O mesmo Pai que vela por sua pessoa, oferecendo-lhe teto generoso, nesta casa, atenderá aos seus parentes terrestres.
Deve mos ter nosso agrupamento familiar como sagrada construção, mas sem esquecer que nossas famílias são seções da Família universal, sob a Direção Divina.
Estaremos a seu lado para resolver dificuldades presentes e estruturar projetos de futuro, mas não dispomos do tempo para voltar a zonas estéreis de lamentação.
Além disso, temos, nesta colônia, o compromisso de aceitar o trabalho mais áspero como bênção de realização, considerando que a Providência desborda amor, enquanto nós vivemos onerados de dívidas.
Se deseja permanecer nesta casa de assistência, aprenda a pensar com justeza.
Nesse ínterim, secaram-se-me o pranto e, chamado a brios pelo generoso instrutor, assumi diversa atitude, embora envergonhado da minha fraqueza.
– Não disputava você, na carne – prosseguiu Clarêncio, bondoso –, as vantagens naturais, decorrentes das boas situações?
Não estimava a obtenção de recursos lícitos, ansioso de estender benefícios aos entes amados?
Não se interessava pelas remunerações justas, pelas expressões de conforto, com possibilidades de atender à família?
Aqui, o programa não é diferente.
Apenas divergem os detalhes.
Nos círculos carnais, a convenção e a garantia monetária; aqui, o trabalho e as aquisições definitivas do espírito imortal.
Dor, para nós, significa possibilidade de enriquecer a alma; a luta constitui caminho para a divina realização.
Compreendeu a diferença?
As almas débeis, ante o serviço, deitam-se para se queixarem aos que passam; as fortes, porém, recebem o serviço como patrimônio sagrado, na movimentação do qual se preparam, a caminho da perfeição.
Ninguém lhe condena a saudade justa, nem pretende estancar sua fonte de sentimentos sublimes.
Acresce notar, todavia, que o pranto da desesperação não edifica o bem.
Se ama, em verdade, a família terrena, é preciso bom ânimo para lhe ser útil.
Fez-se longa pausa.
A palavra de Clarêncio levantara-me para elucubrações mais sadias.
Enquanto meditava a sabedoria da valiosa advertência, meu benfeitor, qual o pai que esquece a leviandade dos filhos para recomeçar serenamente a lição, tornou a perguntar com um belo sorriso:
– Então, como passa?
Melhor?
Contente por me sentir desculpado, à maneira da criança que deseja aprender, respondi, confortado:
– Vou bem melhor, para melhor compreender a Vontade Divina.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Janeiro de 2019, 12:52
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7 Explicações de Lísias

Repetiram-se as visitas periódicas de Clarêncio e a atenção diária de Lísias.
À medida que procurava habituar-me aos deveres novos, sensações de desafogo me aliviavam o coração.
Diminuíram as dores e os impedimentos de locomoção fácil.
Notava, porém, que, a recordações mais fortes dos fenômenos físicos, me voltavam a angústia, o receio do desconhecido, a mágoa da inadaptação.
Apesar de tudo, encontrava mais segurança dentro de mim.
Deleitava-me, agora, contemplando os horizontes vastos, debruçado às janelas espaçosas. Impressionavam-me, sobretudo, os aspectos da Natureza.
Quase tudo, melhorada cópia da Terra.
Cores mais harmônicas, substâncias mais delicadas.
Forrava-se o solo de vegetação.
Grandes árvores, pomares fartos e jardins deliciosos.
Desenhavam-se montes coroados de luz, em continuidade à planície onde a colônia repousava.
Todos os departamentos apareciam cultivados com esmero.
A pequena distância, alteavam-se graciosos edifícios.
Alinhavam-se a espaços regulares, exibindo formas diversas.
Nenhum sem flores à entrada, destacando-se algumas casinhas encantadoras, cercadas por muros de hera, onde rosas diferentes desabrochavam, aqui e ali, adornando o verde de cambiantes variados.
Aves de plumagens policromas cruzavam os ares e, de quando em quando, pousavam agrupadas nas torres muito alvas, a se erguerem retilíneas, lembrando lírios gigantescos, rumo ao céu.
Das janelas largas, observava, curioso, o movimento do parque.
Extremamente surpreendido, identificava animais domésticos, entre as árvores frondosas, enfileiradas ao fundo.
Nas minhas lutas introspectivas, perdia-me em indagações de toda sorte.
Não conseguia atinar com a multiplicidade de formas análogas às do planeta, considerando a circunstância de me encontrar numa esfera propriamente espiritual.
Lísias, o companheiro amável de todos os dias, não regateava explicações.
A morte do corpo não conduz o homem a situações miraculosas, dizia.
Todo processo evolutivo implica gradação.
Há regiões múltiplas para os desencarnados, como existem planos inúmeros e surpreendentes para as criaturas envolvidas de carne terrestre.
Almas e sentimentos, formas e coisas, obedecem a princípios de desenvolvimento natural e hierarquia justa.
Preocupava-me, todavia, permanecer ali, num parque de saúde, havia muitas semanas, sem a visita sequer de um conhecido do mundo.
Afinal, não fora eu a única pessoa do meu círculo a decifrar o enigma da sepultura.
Meus pais me haviam antecipado na grande jornada.
Amigos vários, noutro tempo, me haviam precedido.
Por que, então, não apareciam naquele quarto de enfermidade espiritual, para conforto do meu coração dolorido?
Bastariam alguns momentos de consolação.
Um dia, não pude conter-me e perguntei ao solícito visitador:
– Meu caro Lísias, acha possível, aqui, o encontro com aqueles que nos antecederam na morte do corpo físico?
– Como não? Pensa que está esquecido? ...
– Sim. Por que não me visitam? Na Terra, sempre contei com a abnegação maternal.
Minha mãe, entretanto, até agora não deu sinal de vida.
Meu pai, igualmente, fez a grande viagem; três anos antes do meu trespasse.
– Pois note – esclareceu Lísias –, sua mãe o tem ajudado dia e noite, desde a crise que antecipou sua vinda.
Quando se acamou para abandonar o casulo terrestre, duplicou-se o interesse maternal a seu respeito.
Talvez não saiba ainda que sua permanência nas esferas inferiores durou mais de oito anos consecutivos.
Ela jamais desanimou. Intercedeu, muitas vezes, em “Nosso Lar”, a seu favor.
Rogou os bons ofícios de Clarêncio, que começou a visitá-lo frequentemente, até que o médico da Terra, vaidoso, se afastasse um tanto, a fim de surgir o filho dos Céus.
Compreendeu?
Eu tinha os olhos úmidos.
Ignorava o número de anos que me distanciavam da gleba terrestre.
Desejei conhecer os processos de proteção imperceptível, mas não consegui.
Minhas cordas vocais estavam entorpecidas, com o nó de lágrimas represadas no coração.
– No dia em que você orou com tanta alma – prosseguiu o enfermeiro visitador
–, quando compreendeu que tudo no Universo pertence ao Pai Sublime, seu pranto era diferente.
Não sabe que há chuvas que destroem e chuvas que criam?
Lágrimas há também, assim.
É lógico que o Senhor não espera por nossas rogativas para nos amar; no entanto, é indispensável nos colocarmos em determinada posição receptiva, a fim de compreender-lhe a infinita bondade.
Um espelho enfuscado não reflete a luz.
Desse modo, o Pai não precisa de nossas penitências, mas convenhamos que as penitências prestam ótimos serviços a nós mesmos.
Entendeu?
Clarêncio não teve dificuldade em localizá-lo, atendendo aos apelos de sua carinhosa genitora da Terra; você, porém, demorou muito a encontrar Clarêncio.
E quando sua mãezinha soube que o filho havia rasgado os véus escuros com o auxílio da oração, chorou de alegria, segundo me contaram...
– E onde está minha mãe? – exclamei, por fim.
Se me é permitido, quero vê-la, abraçá-la, ajoelhar-me a seus pés!
– Não vive em “Nosso Lar” – esclareceu Lísias –, habita esferas mais altas, onde trabalha não somente por você.
Observando meu desapontamento, acrescentou, fraterno:
– Virá vê-lo, por certo, antes mesmo do que pensamos.
Quando alguém deseja algo ardentemente, já se encontra a caminho da realização.
Tem você, nesse particular, a lição do próprio caso.
Anos a fio rolou, como pluma, albergando o medo, as tristezas e desilusões; mas, quando mentalizou firmemente a necessidade de receber o auxílio divino, dilatou o padrão vibratório da mente e alcançou visão e socorro.
Olhos brilhantes, encorajado pelo esclarecimento recebido, exclamei, resoluto:
– Desejarei, então, com todas as minhas forças... Ela virá... Ela virá...
Lísias sorriu com inteligência e, como quem previne, generoso, afirmou ao despedir-se:
– Convém não esquecer, contudo, que a realização nobre exige três requisitos fundamentais, a saber: primeiro, desejar; segundo, saber desejar; e, terceiro, merecer, ou, por outros termos, vontade ativa, trabalho persistente e merecimento justo.
O visitador ganhou a porta de saída, sorridente, enquanto eu me detinha silencioso, a meditar no extenso programa formulado em tão poucas palavras.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Janeiro de 2019, 11:45
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8 Organização de Serviços

Decorridas algumas semanas de tratamento ativo, saí, pela primeira vez, em companhia de Lísias.
Impressionou-me o espetáculo das ruas.
Vastas avenidas, enfeitadas de árvores frondosas.
Ar puro, atmosfera de profunda tranqüilidade espiritual.
Não havia, porém, qualquer sinal de inércia ou de ociosidade, porque as vias públicas estavam repletas.
Entidades numerosas iam e vinham.
Algumas pareciam situar a mente em lugares distantes, mas outras me dirigiam olhares acolhedores.
Incumbia-se o companheiro de orientar-me em face das surpresas que surgiam ininterruptas. Percebendo-me as íntimas conjeturas, esclareceu solícito:
– Estamos no local do Ministério do Auxílio.
Tudo o que vemos, edifícios, casas residenciais, representa instituições e abrigos adequados à tarefa de nossa jurisdição.
Orientadores, operários e outros serviçais da missão residem aqui.
Nesta zona, atende-se a doentes, ouvem-se rogativas, selecionam-se preces, preparam-se reencarnações terrenas, organizam-se turmas de socorro aos habitantes do Umbral, ou aos que choram na Terra, estudam-se soluções para todos os processos que se prendem ao sofrimento.
– Há, então, em “Nosso Lar”, um Ministério do Auxílio? – perguntei.
– Como não? Nossos serviços são distribuídos numa organização que se aperfeiçoa dia a dia, sob a orientação dos que nos presidem os destinos.
Fixando em mim os olhos lúcidos, prosseguiu:
– Não tem visto, nos atos da prece, nosso Governador Espiritual cercado de setenta e dois colaboradores?
Pois são os Ministros de “Nosso Lar”.
A colônia, que é essencialmente de trabalho e realização, divide-se em seis Ministérios, orientados, cada qual, por doze Ministros.
Temos os Ministérios da Regeneração, do Auxílio, da Comunicação, do Esclarecimento, da Elevação e da União Divina.
Os quatro primeiros nos aproximam das esferas terrestres, os dois últimos nos ligam ao plano superior, visto que a nossa cidade espiritual é zona de transição.
Os serviços mais grosseiros localizam-se no Ministério da Regeneração, os mais sublimes no da União Divina.
Clarêncio, o nosso chefe amigo, é um dos Ministros do Auxílio.
Valendo-me da pausa natural, exclamei, comovido:
– Oh! Nunca imaginei a possibilidade de organizações tão completas, depois da morte do corpo físico!...
– Sim – esclareceu Lísias –, o véu da ilusão é muito denso nos círculos carnais.
O homem vulgar ignora que toda manifestação procede do plano superior.
A natureza agreste transforma-se em jardim, quando orientada pela mente do homem, e o pensamento humano, selvagem na criatura primitiva, transforma-se em potencial criador, quando inspirado pelas mentes que funcionam nas esferas mais altas.
Nenhuma organização útil se materializa na crosta terrena, sem que seus raios iniciais partam de cima.
– Mas “Nosso Lar” terá igualmente uma história, como as grandes cidades planetárias?
– Sem dúvida.
Os planos vizinhos da esfera terráquea possuem, igualmente, natureza específica.
“Nosso Lar” é antiga fundação de portugueses distintos, desencarnados no Brasil, no século XVI.
A princípio, enorme e exaustiva foi a luta, segundo consta em nossos arquivos no Ministério do Esclarecimento.
Há substâncias ásperas nas zonas invisíveis à Terra, tal como nas regiões que se caracterizam pela matéria grosseira.
Aqui também existem enormes extensões de potencial inferior, como há, no planeta, grandes tratos de natureza rude e incivilizada.
Os trabalhos primordiais foram desanimadores, mesmo para os Espíritos fortes.
Onde se congregam hoje vibrações delicadas e nobres, edifícios de fino lavor, misturavam-se as notas primitivas dos silvícolas do país e as construções infantis de suas mentes rudimentares.
Os fundadores não desanimaram, porém.
Prosseguiram na obra, copiando o esforço dos europeus que chegavam à esfera material, apenas com a diferença de que, por lá, se empregava a violência, a guerra, a escravidão, e, aqui, o serviço perseverante, a solidariedade fraterna, o amor espiritual.
A essa altura, atingíramos uma praça de maravilhosos contornos, ostentando extensos jardins.
No centro da praça, erguia-se um palácio de magnificente beleza, encabeçado de torres soberanas, que se perdiam no céu.
– Os fundadores da colônia começaram o esforço, partindo daqui, onde se localiza a Governadoria – disse o visitador.
Apontando o palácio, continuou:
– Temos, nesta praça, o ponto de convergência dos seis ministérios a que me referi.
Todos começam da Governadoria, estendendo-se em forma triangular.
E, respeitoso, comentou: – Ali vive o nosso abnegado orientador.
Nos trabalhos administrativos, utiliza ele a colaboração de três mil funcionários; entretanto, é ele o trabalhador mais infatigável e mais fiel que todos nós reunidos.
Os Ministros costumam excursionar noutras esferas, renovando energias e valorizando conhecimentos; nós outros gozamos entretenimentos habituais, mas o Governador nunca dispõe de tempo para isso.
Faz questão que descansemos, obriga-nos a férias periódicas, ao passo que, ele mesmo, quase nunca repousa, mesmo no que concerne às horas de sono.
Parece-me que a glória dele é o serviço perene.
Basta lembrar que estou aqui há quarenta anos e, com exceção das assembléias referentes às preces coletivas, raramente o tenho visto em festividades públicas.
Seu pensamento, porém, abrange todos os círculos de serviço, sua assistência carinhosa a tudo e a todos atinge.
Depois de longa pausa, o enfermeiro amigo acentuou:
– Não faz muito, comemorou-se o 114º aniversário da sua magnânima direção.
Calara-se Lísias, evidenciando comovida reverência, enquanto eu a seu lado contemplava, respeitoso e embevecido, as torres maravilhosas que pareciam cindir o firmamento...

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Janeiro de 2019, 11:47
NOSSO LAR

9 Problema de Alimentação

Enlevado na visão dos jardins prodigiosos, pedi ao dedicado enfermeiro para descansar alguns minutos num banco próximo.
Lísias anuiu de bom grado.
Agradável sensação de paz me felicitava o espírito.
Caprichosos repuxos de água colorida ziguezagueavam no ar, formando figuras encantadoras.
– Quem observa esta colmeia imensa de serviço – ponderei – é induzido a examinar numerosos problemas.
E o abastecimento?
Não tenho notícia de um Ministério da Economia...
– Antigamente – explicou o paciente interlocutor – os serviços dessa natureza assumiam feição mais destacada.
Deliberou, porém, o atual Governador atenuar todas as expressões de vida que nos recordassem os fenômenos puramente materiais.
As atividades de abastecimento ficaram, assim, reduzidas a simples serviço de distribuição, sob o controle direto da Governadoria.
Aliás, a providência constitui medida das mais benéficas.
Rezam os anais que a colônia, há um século, lutava com extremas dificuldades para adaptar os habitantes às leis da simplicidade.
Muitos recém-chegados ao “Nosso Lar” duplicavam exigências.
Queriam mesas lautas, bebidas excitantes, dilatando velhos vícios terrenos.
Apenas o Ministério da União Divina ficou imune de tais abusos, pelas características que lhe são próprias; no entanto, os demais viviam sobrecarregados de angustiosos problemas dessa ordem.
O Governador atual, todavia, não poupou esforços.
Tão logo assumiu obrigações administrativas, adotou providências justas.
Antigos missionários, daqui, puseram-me ao corrente de curiosos acontecimentos.
Disseram-me que, a pedido da Governadoria, vieram duzentos instrutores de uma esfera muito elevada, a fim de espalharem novos conhecimentos, relativos à ciência da respiração e da absorção de princípios vitais da atmosfera.
Realizaram-se assembleias numerosas.
Alguns colaboradores técnicos de “Nosso Lar” manifestavam-se contrários, alegando que a cidade é de transição e que não seria justo, nem possível, desambientar imediatamente os homens desencarnados, mediante exigências desse teor, sem grave perigo para suas organizações espirituais.
O Governador, contudo, não desanimou.
Prosseguiram as reuniões, providências e atividades, durante trinta anos consecutivos.
Algumas entidades eminentes chegaram a formular protestos de caráter público, reclamando. Por mais de dez vezes, o Ministério do Auxílio esteve superlotado de enfermos, onde se confessavam vítimas do novo sistema de alimentação deficiente.
Nesses períodos, os opositores da redução multiplicavam acusações.
O Governador, porém, jamais castigou alguém.
Convocava os adversários da medida a palácio e expunha-lhes, paternalmente, os projetos e finalidades do regime; destacava a superioridade dos métodos de espiritualização, facilitava aos mais rebeldes inimigos do novo processo variadas excursões de estudo, em planos mais elevados que o nosso, ganhando, assim, maior número de adeptos.
Ante pausa mais longa, reclamei, interessado: – Continue, por favor, meu caro Lísias.
Como terminou a luta edificante?
– Depois de vinte e um anos de perseverantes demonstrações, por parte da Governadoria, aderiu o Ministério da Elevação, passando a abastecer-se apenas do indispensável.
O mesmo não aconteceu com o Ministério do Esclarecimento, que demorou muito a assumir compromisso, em vista dos numerosos Espíritos dedicados às ciências matemáticas, que ali trabalham.
Eram eles os mais teimosos adversários.
Mecanizados nos processos de proteínas e carboidratos, imprescindíveis aos veículos físicos, não cediam terreno nas concepções correspondentes daqui.
Semanalmente, enviavam ao Governador longas observações e advertências, repletas de análises e numerações, atingindo, por vezes, a imprudência.
O velho governante, contudo, nunca agiu por si só.
Requisitou assistência de nobres mentores, que nos orientam através do Ministério da União
Divina, e jamais deixou o menor boletim de esclarecimento sem exame minucioso.
Enquanto argumentavam os cientistas e a Governadoria contemporizava, formaram-se perigosos distúrbios no antigo Departamento de Regeneração, hoje transformado em Ministério.
Encorajados pela rebeldia dos cooperadores do Esclarecimento, os Espíritos menos elevados que ali se recolhiam entregaram-se a condenáveis manifestações.
Tudo isso provocou enormes cisões nos órgãos coletivos de “Nosso Lar”, dando ensejo a perigoso assalto das multidões obscuras do Umbral, que tentaram invadir a cidade, aproveitando brechas nos serviços de Regeneração, onde grande número de colaboradores entretinha certo intercâmbio clandestino, em virtude dos vícios de alimentação.
Dado o alarme, o Governador não se perturbou.
Terríveis ameaças pairavam sobre todos.
Ele, porém, solicitou audiência ao Ministério da União Divina e, depois de ouvir o nosso mais alto Conselho, mandou fechar provisoriamente o Ministério da Comunicação, determinou funcionassem todos os calabouços da Regeneração, para isolamento dos recalcitrantes, advertiu o Ministério do Esclarecimento, cujas impertinências suportou mais de trinta anos consecutivos, proibiu temporariamente os auxílios às regiões inferiores e, pela primeira vez na sua administração, mandou ligar as baterias elétricas das muralhas da cidade, para emissão de dardos magnéticos a serviço da defesa comum.
Não houve combate, nem ofensiva da colônia, mas resistência resoluta.
Por mais de seis meses, os serviços de alimentação, em “Nosso Lar”, foram reduzidos à inalação de princípios vitais da atmosfera, através da respiração, e água misturada a elementos solares, elétricos e magnéticos.
A colônia ficou, então, sabendo o que vem a ser a indignação do espírito manso e justo.
Findo o período mais agudo, a Governadoria estava vitoriosa.
O próprio Ministério do Esclarecimento reconheceu o erro e cooperou nos trabalhos de reajustamento.
Houve, nesse comenos, regozijo público e dizem que, em meio da alegria geral, o Governador chorou sensibilizado, declarando que a compreensão geral constituía o verdadeiro prêmio ao seu coração.
A cidade voltou ao movimento normal.
O antigo Departamento da Regeneração foi convertido em Ministério.
Desde então, só existe maior suprimento de substâncias alimentícias que lembram a Terra, nos Ministérios da Regeneração e do Auxílio, onde há sempre grande número de necessitados.
Nos demais há somente o indispensável, isto é, todo o serviço de alimentação obedece a inexcedível sobriedade.
Presentemente, todos reconhecem que a suposta impertinência do Governador representou medida de elevado alcance para nossa libertação espiritual.
Reduziu-se a expressão física e surgiu maravilhoso coeficiente de espiritualidade.
Lísias silenciou e eu me entreguei a profundos pensamentos sobre a grande lição.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Janeiro de 2019, 11:43
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10 No Bosque das Águas

Dado o meu interesse crescente pelos processos de alimentação, Lísias convidou:
– Vamos ao grande reservatório da colônia.
Lá observará coisas interessantes.
Verá que a água é quase tudo em nossa estância de transição.
Curiosíssimo, acompanhei o enfermeiro sem vacilar.
Chegados a extenso ângulo da praça, o generoso amigo acrescentou:
– Esperemos o aeróbus .
Mal me refazia da surpresa, quando surgiu grande carro, suspenso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de passageiros.
Ao descer até nós, à maneira de um elevador terrestre, examinei-o com atenção.
Não era máquina conhecida na Terra.
Constituída de material muito flexível, tinha enorme comprimento, parecendo ligada a fios invisíveis, em virtude do grande número de antenas na tolda.
Mais tarde, confirmei minhas suposições, visitando as grandes oficinas do Serviço de Trânsito e Transporte.
Lísias não me deu tempo a indagações.
Aboletados convenientemente no recinto confortável, seguimos Silenciosos.
Experimentava a timidez natural do homem desambientado, entre desconhecidos.
A velocidade era tanta que não permitia fixar os detalhes das construções escalonadas no extenso percurso.
A distância não era pequena, porque só depois de quarenta minutos, incluindo ligeiras paradas de três em três quilômetros, me convidou Lísias a descer, sorridente e calmo.
Deslumbrou-me o panorama de belezas sublimes.
O bosque, em floração maravilhosa, embalsamava o vento fresco de inebriante perfume.
Tudo em prodígio de cores e luzes cariciosas.
Entre margens bordadas de grama viçosa, toda esmaltada de azulíneas flores, deslizava um rio de grandes proporções.
A corrente rolava tranquila, mas tão cristalina que parecia tonalizada em matiz celeste, em vista dos reflexos do firmamento.
Estradas largas cortavam a verdura da paisagem.
Plantadas a espaços regulares, árvores frondosas ofereciam sombra amiga, à maneira de pousos deliciosos, na claridade do Sol confortador.
Bancos de caprichosos formatos convidavam ao descanso.
Notando o meu deslumbramento, Lísias explicou:
– Estamos no Bosque das Águas.
Temos aqui uma das mais belas regiões de “Nosso Lar”.
Trata-se de um dos locais prediletos para as excursões, dos amantes, que aqui vêm tecer as mais lindas promessas de amor e fidelidade, para as experiências da Terra.
A observação ensejava considerações muito interessantes, mas Lísias não me deu azo a perguntas nesse particular.
Indicando um edifício de enormes proporções, esclareceu:
– Ali é o grande reservatório da colônia.
Todo o volume do Rio Azul, que temos à vista, é absorvido em caixas imensas de distribuição.
As águas que servem a todas as atividades da colônia partem daqui.
Em seguida, reúnem-se novamente, abaixo dos serviços da Regeneração, e voltam a constituir o rio, que prossegue o curso normal, rumo ao grande oceano de substâncias invisíveis para a Terra.
Percebendo-me a indagação íntima, acrescentou:
– Com efeito, a água aqui tem outra densidade.
Muito mais tênue, pura, quase fluídica.
Notando as magníficas construções que me fronteavam, interroguei:
– A que Ministério está afeto o serviço de distribuição?
– Imagine – elucidou Lísias – que este é um dos raros serviços materiais do Ministério da União Divina!
– Que diz? – perguntei, ignorando como conciliar uma e outra coisa.
O visitador sorriu e obtemperou prazenteiro:
– Na Terra quase ninguém cogita seriamente de conhecer a importância da água.
Em “Nosso Lar”, contudo, outros são os conhecimentos.
Nos círculos religiosos do planeta, ensinam que o Senhor criou as águas.
Ora, é lógico que todo serviço criado precisa de energias e braços para ser convenientemente mantido.
Nesta cidade espiritual, aprendemos a agradecer ao Pai e aos seus divinos colaboradores semelhante dádiva.
Conhecendo-a mais intimamente, sabemos que a água é veículo dos mais poderosos para os fluidos de qualquer natureza.
Aqui, ela é empregada sobretudo como alimento e remédio.
Há repartições no Ministério do Auxílio absolutamente consagradas à manipulação de água pura, com certos princípios suscetíveis de serem captados na luz do Sol e no magnetismo espiritual.
Na maioria das regiões da extensa colônia, o sistema de alimentação tem aí suas bases.
Acontece, porém, que só os Ministros da União Divina são detentores do maior padrão de Espiritualidade Superior, entre nós, cabendo-lhes a magnetização geral das águas do Rio Azul, a fim de que sirvam a todos os habitantes de “Nosso Lar”, com a pureza imprescindível.
Fazem eles o serviço inicial de limpeza e os institutos realizam trabalhos específicos, no suprimento de substâncias alimentares e curativas.
Quando os diversos fios da corrente se reúnem de novo, no ponto longínquo, oposto a este bosque, ausenta-se o rio de nossa zona, conduzindo em seu seio nossas qualidades espirituais.
Eu estava embevecido com as explicações.
– No planeta – objetei –, jamais recebi elucidações desta natureza.
– O homem é desatento, há muitos séculos – tornou Lísias –; o mar equilibra-lhe a moradia planetária, o elemento aquoso fornece-lhe o corpo físico, a chuva dá-lhe o pão, o rio organiza-lhe a cidade, a presença da água oferece-lhe a bênção do lar e do serviço; entretanto, ele sempre se julga o absoluto dominador do mundo, esquecendo que é filho do Altíssimo, antes de qualquer consideração.
Virá tempo, contudo, em que copiará nossos serviços, encarecendo a importância dessa dádiva do Senhor.
Compreenderá, então, que a água, como fluido criador, absorve, em cada lar, as características mentais de seus moradores.
A água, no mundo, meu amigo, não somente carreia os resíduos dos corpos, mas também as expressões de nossa vida mental.
Será nociva nas mãos perversas, útil nas mãos generosas e, quando em movimento, sua corrente não só espalhará bênção de vida, mas constituirá igualmente um veículo da Providência Divina, absorvendo amarguras, ódios e ansiedades dos homens, lavando-lhes a casa material e purificando-lhes a atmosfera íntima.
Calou-se o interlocutor em atitude reverente, enquanto meus olhos fixavam a corrente tranquila a despertar-me sublimes pensamentos.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Janeiro de 2019, 11:44
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11 Notícias do Plano

Desejaria meu generoso companheiro facultar-me observações diferentes, nos diversos bairros da colônia, mas obrigações imperiosas chamavam-no ao posto.
– Terá você ocasião de conhecer as diversas regiões dos nossos serviços – exclamou bondosamente – pois, conforme vê, os Ministérios do “Nosso Lar” são enormes células de trabalho ativo.
Nem mesmo alguns dias de estudo oferecem ensejo à visão detalhada de um só deles.
Não lhe faltará oportunidade, porém.
Ainda que me não seja possível acompanhá-lo, Clarêncio tem poderes para obter-lhe ingresso fácil em qualquer dependência.
Voltamos ao ponto de passagem do aeróbus, que não se fez esperar.
Agora, sentia-me quase à vontade.
A presença de muitos passageiros não me constrangia.
A experiência anterior fizera-me benefícios enormes.
Esfervilhava-me o cérebro de úteis indagações.
Interessado em resolvê-las, aproveitei o minuto para valer-me do companheiro, quando possível.
– Lísias, amigo – perguntei –, poderá informar-me se todas as colônias espirituais são idênticas a esta? Os mesmos processos, as mesmas características?
– De modo algum. Se nas esferas materiais, cada região e cada estabelecimento revelam traços peculiares, imagine a multiplicidade de condições em nossos planos.
Aqui, tal como na Terra, as criaturas se identificam pelas fontes comuns de origem e pela grandeza dos fins que devem atingir; mas importa considerar que cada colônia, como cada entidade, permanece em degraus diferentes na grande ascensão.
Todas as experiências de grupo diversificam-se entre si e “Nosso Lar” constitui uma experiência coletiva dessa natureza.
Segundo nossos arquivos, muitas vezes os que nos antecederam buscaram inspiração nos trabalhos de abnegados trabalhadores de outras esferas; em compensação, outros agrupamentos buscam o nosso concurso para outras colônias em formação.
Cada organização, todavia, apresenta particularidades essenciais.
Observando que o intervalo se fazia mais longo, interroguei:
– Partiu daqui a interessante formação de Ministérios?
– Sim, os missionários da criação de “Nosso Lar” visitaram os serviços de “Alvorada Nova”, uma das colônias espirituais mais importantes que nos circunvizinham e ali encontraram a divisão por departamentos.
Adotaram o processo, mas substituíram a palavra departamento por Ministério, com exceção dos serviços regeneradores, que, somente com o Governador atual, conseguiram elevação.
Assim procederam, considerando que a organização em Ministérios é mais expressiva, como definição de espiritualidade.
– Muito bem! – acrescentei.
– E não é tudo – prosseguiu o enfermeiro, atencioso –, a instituição é eminentemente rigorosa, no que concerne à ordem e à hierarquia.
Nenhuma condição de destaque é concedida aqui a título de favor.
Somente quatro entidades conseguiram ingressar, com responsabilidade definida, no curso de dez anos, no Ministério da União Divina.
Em geral, todos nós, decorrido longo estágio de serviço e aprendizado, voltamos a reencarnar, para atividades de aperfeiçoamento.
Enquanto eu ouvia essas informações, justamente curioso, Lísias continuava:
– Quando os recém-chegados das zonas inferiores do Umbral se revelam aptos a receber cooperação fraterna, demoram no Ministério do Auxílio; quando, porém, se mostram refratários, são encaminhados ao Ministério da Regeneração.
Se revelam proveito, com o correr do tempo são admitidos aos trabalhos de Auxílio, Comunicação e Esclarecimento, a fim de se prepararem, com eficiência, para futuras tarefas planetárias.
Somente alguns conseguem atividade prolongada no Ministério da Elevação e raríssimos, em cada dez anos, os que alcançam intimidade nos trabalhos da União Divina.
E não suponha que os testemunhos sejam vagas expressões de atividade idealista.
Já não estamos na esfera do globo, onde o desencarnado é promovido compulsoriamente a fantasma.
Vivemos em círculo de demonstrações ativas.
As tarefas de Auxílio são laboriosas e complicadas, os deveres no Ministério da Regeneração constituem testemunhos pesadíssimos, os trabalhos na Comunicação exigem alta noção da responsabilidade individual, os campos do Esclarecimento requisitam grande capacidade de trabalho e valores intelectuais profundos, o Ministério da Elevação pede renúncia e iluminação, as atividades da União Divina requerem conhecimento justo e sincera aplicação do amor universal.
A Governadoria, por sua vez, é sede movimentada de todos os assuntos administrativos, numerosos serviços de controle direto, como, por exemplo, o de alimentação, distribuição de energias elétricas, trânsito, transporte e outros.
Aqui, em verdade, a lei do descanso é rigorosamente observada, para que determinados servidores não fiquem mais sobrecarregados que outros; mas a lei do trabalho é também rigorosamente cumprida.
No que concerne ao repouso, a única exceção é o próprio Governador, que nunca aproveita o que lhe toca, nesse terreno.
– Mas, nunca se ausenta ele do palácio? – interroguei.
– Somente nas ocasiões que o bem público o exige.
A não ser em obediência a esse imperativo, o Governador vai semanalmente ao Ministério da Regeneração, que representa a zona de “Nosso Lar” onde há maior número de perturbações, dada a sintonia de muitos dos seus abrigados com os irmãos do Umbral.
Numerosas multidões de Espíritos desviados ali se encontram recolhidas.
Aproveita ele, pois, as tardes de domingo, depois de orar com a cidade no Grande Templo da Governadoria, para cooperar com os Ministros da Regeneração, atendendo-lhes os difíceis problemas de trabalho.
Nesse mister, priva-se, às vezes, de alegrias sagradas, amparando a desorientados e sofredores.
Deixara-nos o aeróbus nas vizinhanças do hospital, onde me aguardava o aposento confortador.
Em plena via pública, ouviam-se, tal qual observara à saída, belas melodias atravessando o ar.
Notando-me a expressão indagadora, Lísias explicou fraternalmente:
– Essas músicas procedem das oficinas onde trabalham os habitantes de “Nosso Lar”.
Após consecutivas observações, reconheceu a Governadoria que a música intensifica o rendimento do serviço, em todos os setores de esforço construtivo.
Desde então, ninguém trabalha em “Nosso Lar”, sem esse estimulo de alegria.
Nesse ínterim, porém, chegáramos à Portaria.
Atencioso enfermeiro adiantou-se e notificou:
– Irmão Lísias, chamam-no ao pavilhão da direita para serviço urgente.
O companheiro afastou-se, calmo, enquanto eu me recolhia ao aposento particular, repleto de indagações íntimas.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Janeiro de 2019, 23:07
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12 O Umbral

Após receber tão valiosas elucidações, aguçava-se-me o desejo de intensificar a aquisição de conhecimentos relativos a diversos problemas que a palavra de Lísias sugeria.
As referências a Espíritos do Umbral mordiam-me a curiosidade.
A ausência de preparação religiosa, no mundo, dá motivo a dolorosas perturbações.
Que seria o Umbral?
Conhecia, apenas, a idéia do inferno e do purgatório, através dos sermões ouvidos nas cerimônias católico-romanas a que assistira, obedecendo a preceitos protocolares.
Desse Umbral, porém, nunca tivera notícias.
Ao primeiro encontro com o generoso visitador, minhas perguntas não se fizeram esperar.
Lísias ouviu-me, atencioso, e replicou:
– Ora, ora, pois você andou detido por lá tanto tempo e não conhece a região?
Recordei os sofrimentos passados, experimentando arrepios de horror.
– O Umbral – continuou ele, solícito – começa na crosta terrestre.
É a zona obscura de quantos no mundo não se resolveram a atravessar as portas dos deveres sagrados, a fim de cumpri-los, demorando-se no vale da indecisão ou no pântano dos erros numerosos.
Quando o Espírito reencarna, promete cumprir o programa de serviços do Pai; entretanto, ao recapitular experiências no planeta, é muito difícil fazê-lo, para só procurar o que lhe satisfaça ao egoísmo.
Assim é que mantidos são o mesmo ódio aos adversários e a mesma paixão pelos amigos.
Mas, nem o ódio é justiça, nem a paixão é amor.
Tudo o que excede, sem aproveitamento, prejudica a economia da vida.
Pois bem: todas as multidões de desequilibrados permanecem nas regiões nevoentas, que se seguem aos fluidos carnais.
O dever cumprido é uma porta que atravessamos no Infinito, rumo ao continente sagrado da união com o Senhor.
É natural, portanto, que o homem esquivo à obrigação justa, tenha essa bênção indefinidamente adiada.
Notando-me a dificuldade para apreender todo o conteúdo do ensinamento, com vistas à minha quase total ignorância dos princípios espirituais, Lísias procurou tornar a lição mais clara:
– Imagine que cada um de nós, renascendo no planeta, somos portadores de um fato sujo, para lavar no tanque da vida humana.
Essa roupa imunda é o corpo causal, tecido por nossas mãos, nas experiências anteriores.
Compartilhando, de novo, as bênçãos da oportunidade terrestre, esquecemos, porém, o objetivo essencial, e, ao invés de nos purificarmos pelo esforço da lavagem, manchamo-nos ainda mais, contraindo novos laços e encarcerando-nos a nós mesmos em verdadeira escravidão.
Ora, se ao voltarmos ao mundo procurávamos um meio de fugir à sujidade, pelo desacordo de nossa situação com o meio elevado, como regressar a esse mesmo ambiente luminoso, em piores condições?
O Umbral funciona, portanto, como região destinada a esgotamento de resíduos mentais; uma espécie de zona purgatorial, onde se queima a prestações o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu por atacado, menosprezando o sublime ensejo de uma existência terrena.
A imagem não podia ser mais clara, mais convincente.
Não havia como disfarçar minha justa admiração.
Compreendendo o efeito benéfico que me traziam aqueles esclarecimentos, Lísias continuou:
– O Umbral é região de profundo interesse para quem esteja na Terra.
Concentra-se, aí, tudo o que não tem finalidade para a vida superior.
E note você que a Providência Divina agiu sabiamente, permitindo se criasse tal departamento em torno do planeta.
Há legiões compactas de almas irresolutas e ignorantes, que não são suficientemente perversas para serem enviadas a colônias de reparação mais dolorosa, nem bastante nobres para serem conduzidas a planos de elevação.
Representam fileiras de habitantes do Umbral, companheiros imediatos dos homens encarnados, separados deles apenas por leis vibratórias.
Não é de estranhar, portanto, que semelhantes lugares se caracterizem por grandes perturbações.
Lá vivem, agrupam-se, os revoltados de toda espécie.
Formam, igualmente, núcleos invisíveis de notável poder, pela concentração das tendências e desejos gerais.
Muita gente da Terra não recorda que se desespera quando o carteiro não vem, quando o comboio não aparece?
Pois o Umbral está repleto de desesperados.
Por não encontrarem o Senhor à disposição dos seus caprichos, após a morte do corpo físico, e, sentindo que a coroa da vida eterna é a glória intransferível dos que trabalham com o Pai, essas criaturas se revelam e demoram em mesquinhas edificações.
“Nosso Lar” tem uma sociedade espiritual, mas esses núcleos possuem infelizes, malfeitores e vagabundos de várias categorias.
É zona de verdugos e vítimas, de exploradores e explorados.
Valendo-me da pausa, que se fizera espontânea, exclamei, impressionado:
– Como explicar? Então não há por lá defesa, organização?
Sorriu o interlocutor, esclarecendo:
– Organização é atributo dos Espíritos organizados.
Que quer você?
A zona inferior a que nos referimos é qual a casa onde não há pão: todos gritam e ninguém tem razão.
O viajante distraído perde o comboio, o agricultor que não semeou não pode colher.
Uma certeza, porém, posso dar-lhe: não obstante as sombras e angústias do Umbral, nunca faltou lá a proteção divina.
Cada Espírito lá permanece o tempo que se faça necessário.
Para isso, meu amigo, permitiu o Senhor se erigissem muitas colônias como esta, consagradas ao trabalho e ao socorro espiritual.
– Creio, então – observei –, que essa esfera se mistura quase com a esfera dos homens.
– Sim – confirmou o dedicado amigo –, e é nessa zona que se os fios invisíveis que ligam as mentes humanas entre si.
O plano está repleto de desencarnados e de formas-pensamento dos encarnados, porque, em verdade, todo Espírito, esteja onde estiver, é um núcleo irradiante de forças que criam, transformam ou destroem, exteriorizadas em vibrações que a ciência terrestre presentemente não pode compreender.
Quem pensa, está fazendo alguma coisa alhures.
E é pelo pensamento que os homens encontram no Umbral os companheiros que afinam com as tendências de cada um.
Toda alma é um ímã poderoso.
Há uma extensa humanidade invisível, que se segue à humanidade visível.
As missões mais laboriosas do Ministério do Auxílio são constituídas por abnegados servidores, no Umbral, porque se a tarefa dos bombeiros nas grandes cidades terrenas é difícil, pelas labaredas e ondas de fumo que os defrontam, os missionários do Umbral encontram fluidos pesadíssimos emitidos, sem cessar, por milhares de mentes desequilibradas, na prática do mal, ou terrivelmente flageladas nos sofrimentos retificadores.
É necessário muita coragem e muita renúncia para ajudar a quem nada compreende do auxílio que se lhe oferece. Interrompera-se Lísias.
Sumamente impressionado, exclamei:
– Ah! Como desejo trabalhar junto dessas legiões de infelizes, levando-lhes o pão espiritual do esclarecimento!
O enfermeiro amigo fixou-me bondosamente e, depois de meditar em silêncio, por largos instantes, acentuou, ao despedir-se:
– Será que você se sente com o preparo indispensável a semelhante serviço?
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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Janeiro de 2019, 23:08
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13 No Gabinete do Ministro

Com as melhoras crescentes, surgia a necessidade de movimentação e trabalho.
Decorrido tanto tempo, esgotados anos difíceis de luta, volvia-me o interesse pelos afazeres que enchem o dia útil de todo homem normal, no mundo.
Incontestável que havia perdido excelentes oportunidades na Terra; que muitas falhas me assinalavam o caminho.
Agora, porém, recordava os quinze anos de clínica, sentindo um certo “vazio” no coração.
Identificava-me a mim mesmo, como vigoroso agricultor em pleno campo, de mãos atadas e impossibilitado de atacar o trabalho.
Cercado de enfermos, não podia aproximar-me, como noutros tempos, reunindo em mim o amigo, o médico e o pesquisador.
Ouvindo gemidos incessantes nos apartamentos contíguos, não me era lícito nem mesmo a função de enfermeiro e colaborador nos casos de socorro urgente.
Claro que não me faltava desejo.
Minha posição ali, contudo, era assaz humilde para me atrever.
Os médicos espirituais eram detentores de técnica diferente.
No planeta, sabia que meu direito de intervir começava nos livros conhecidos e nos títulos conquistados; mas, naquele ambiente novo, a medicina começava no coração, exteriorizando-se em amor e cuidado fraternal.
Qualquer enfermeiro, dos mais simples, em “Nosso Lar”, tinha conhecimentos e possibilidades muito superiores à minha ciência.
Inexequível, portanto, qualquer tentativa de trabalho espontâneo, por constituir, a meu ver, invasão de seara alheia.
No apuro de tais dificuldades, Lísias era o amigo indicado às minhas confidências de irmão.
Interpelado, esclareceu:
– Por que não pedir o socorro de Clarêncio?
Atendê-lo-á por certo.
Peça-lhe conselhos.
Ele pergunta sempre por sua pessoa e tudo fará a seu favor.
Animou-me grande esperança.
Consultaria o Ministro do Auxílio. Iniciando, contudo, as providências, fui informado de que o generoso benfeitor somente poderia atender na manhã seguinte, no gabinete particular.
Esperei ansioso o momento oportuno.
No dia imediato, muito cedo, procurei o local indicado.
Qual não foi, porém, minha surpresa vendo que três pessoas lá estavam aguardando Clarêncio, em identidade de circunstâncias!
O delicado Ministro do Auxílio chegara muito antes de nós e atendia a assuntos mais importantes que a recepção de visitas e solicitações.
Terminado o serviço urgente, começou a chamar-nos, dois a dois.
Impressionou-me tal processo de audiência.
Soube, porém, mais tarde, que ele aproveitava esse método para que os pareceres fornecidos a qualquer interessado servissem igualmente a outros, assim atendendo a necessidades de ordem geral, ganhando tempo e proveito.
Decorridos muitos minutos, chegou-me a vez.
Penetrei no gabinete em companhia de uma senhora idosa, que seria ouvida em primeiro lugar, por ordem de precedência.
O Ministro recebeu-nos, cordial, deixando-nos à vontade para discorrer.
– Nobre Clarêncio – começou a companheira desconhecida –, venho pedir seus bons ofícios a favor de meus dois filhos.
Ah! Já não tolero tantas saudades e estou informada de que ambos vivem exaustos e sobrecarregados de infortúnios, no ambiente terrestre.
Reconheço que os desígnios do Pai são justos e amorosos; no entanto, sou mãe!
Não consigo subtrair-me ao peso da angústia!...
E a pobre criatura se desfez, ali mesmo, em copioso pranto.
O Ministro, dirigindo-lhe um olhar de fraternidade, embora conservando intacta a energia pessoal, respondeu, bondoso:
– Mas, se a irmã reconhece que os desígnios do Pai são justos e santos, que me cabe fazer?
– Desejava – replicou, aflita – que me concedesse recursos para protegê-los eu mesma, nas esferas do globo!...
– Ah! Minha amiga – disse o benfeitor amorável – só no espírito de humildade e de trabalho é possível a nós outros proteger alguém.
Que me diz de um pai terrestre que desejasse ajudar os filhinhos, mantendo-se em absoluta quietação no conforto do lar?
O Pai criou o serviço e a cooperação como leis que ninguém pode trair sem prejuízo próprio. Nada lhe diz a consciência, neste sentido?
Quantos bônus-horas poderá apresentar em benefício de sua pretensão?
A interpelada respondeu, hesitante:
– Trezentos e quatro.
– É de lamentar – elucidou Clarêncio, sorrindo –, pois aqui se hospeda, há mais de seis anos, e apenas deu à colônia, até hoje, trezentos e quatro horas de trabalho.
Entretanto, logo que se restabeleceu das lutas sofridas em região inferior, ofereci-lhe atividade louvável na Turma de vigilância, do Ministério da Comunicação...
– Mas aquilo por lá era serviço intolerável – atalhou a interlocutora –, uma luta incessante contra entidades malfazejas. Era natural que não me adaptasse.
Clarêncio continuou, imperturbável:
– Coloquei-a, depois, entre os Irmãos da Suportação, nas tarefas regeneradoras.
– Pior! – exclamou a senhora – Aqueles apartamentos andam repletos de pessoas imundas. Palavrões, indecências, miséria.
– Reconhecendo suas dificuldades – esclareceu o Ministro –, enviei-a a cooperar na Enfermagem dos Perturbados.
– Mas quem os tolerará, senão os santos? – inquiriu a pedinte rebelde – fiz o possível; entretanto, aquela multidão de almas desviadas assombra a qualquer!
– Não ficaram aí meus esforços – replicou o benfeitor sem se perturbar –, localizei-a nos Gabinetes de Investigações e Pesquisas do Ministério do Esclarecimento e, contudo, talvez enfadada com as minhas providências, a irmã se recolheu, deliberadamente, aos Campos de Repouso.
– Era, também, impossível continuar ali – disse a impertinente –, só encontrei experiências exaustivas, fluidos estranhos, chefes ásperos.
– Pois note, minha amiga – esclareceu o devotado e seguro orientador – o trabalho e a humildade são as duas margens do caminho do auxílio.
Para ajudarmos alguém, precisamos de irmãos que se façam cooperadores, amigos, protetores e servos nossos.
Antes de amparar os que amamos, é indispensável estabelecer correntes de simpatia.
Sem a cooperação é impossível atender com eficiência.
O camponês que cultiva a terra alcança a gratidão dos que saboreiam os frutos.
O operário que entende os chefes exigentes, executando-lhes as determinações, representa o sustentáculo do lar, em que o Senhor o colocou.
O servidor que obedece, construindo, conquista os superiores, companheiros e interessados no serviço.
E nenhum administrador intermediário poderá ser útil aos que ama, se não souber servir e obedecer nobremente.
Fira-se o coração, experimente-se a dificuldade, mas, que saiba cada qual que o serviço útil pertence, acima de tudo, ao Doador Universal.
Depois de pequena pausa, continuou:
– Que fará, pois, na Terra se não aprendeu ainda a suportar coisa alguma?
Não duvido da sua dedicação aos filhos queridos, mas importa notar que haveria de comparecer por lá, como mãe paralítica, incapaz de prestar socorro justo.
Para que qualquer de nós alcance a alegria de auxiliar os amados, faz-se necessária a interferência de muitos a quem tenhamos ajudado, por nossa vez.
Os que não cooperam não recebem cooperação.
Isso é da lei eterna.
E se minha irmã nada acumulou de seu para dar, é justo que procure a contribuição amorosa dos outros.
Mas, como receber a colaboração imprescindível, se ainda não semeou, nem mesmo a simples simpatia?
Volte aos Campos de Repouso, onde se abrigou ultimamente, e reflita.
Examinaremos depois o assunto com a devida atenção.
Sentou-se a mãe inquieta, enxugando lágrimas copiosas.
Em seguida, o Ministro fitou-me compassivamente e falou:
– Aproxime-se, meu amigo!
Levantei-me, hesitante, para conversar.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Janeiro de 2019, 00:08
NOSSO LAR

14 Elucidações de Clarêncio

Pulsava-me precipite o coração, fazendo-me lembrar o aprendiz bisonho, diante de examinadores rigorosos.
Vendo aquela mulher em lágrimas e ponderando a energia serena do Ministro do Auxílio, tremia dentro de mim mesmo, arrependido de haver provocado aquela audiência.
Não seria melhor calar, aprendendo a esperar deliberações superiores?
Não seria presunção descabida pedir atribuições de médico naquela casa, onde permanecia como enfermo?
A sinceridade de Clarêncio, para com a irmã que me antecedera, despertara-me raciocínios novos.
Quis desistir, renunciar ao desejo da véspera e voltar ao aposento, mas, era impossível.
O Ministro do Auxílio, como se adivinhasse meus propósitos mais íntimos, exclamou em tom firme:
– Pronto a ouvi-lo.
Ia solicitar instintivamente qualquer serviço médico em “Nosso Lar”, embora a indecisão que me dominava; entretanto, a consciência me advertia:
Por que referir-se a serviço especializado?
Não seria repetir os erros humanos, dentro dos quais a vaidade não tolera outro gênero de atividade senão o correspondente aos preconceitos dos títulos nobiliárquicos, ou acadêmicos?
Esta ideia equilibrava-me a tempo.
Bastante confundido, falei:
– Tomei a liberdade de vir até aqui, rogar seus bons ofícios para que me reintegre no trabalho.
Ando saudoso dos meus misteres, agora que a generosidade do “Nosso Lar” me reconduziu à bênção da harmonia orgânica.
Qualquer trabalho útil me interessa, desde que me afaste da inação.
Clarêncio fitou-me longamente, como a identificar-me as intenções mais íntimas.
– Já sei.
Verbalmente pede qualquer gênero de tarefa; mas, no fundo, sente falta dos seus clientes, do seu gabinete, da paisagem de serviço com que o Senhor honrou sua personalidade na Terra.
Até aí, as palavras dele eram jatos de conforto e esperança, que eu recebia no coração, com gestos confirmativos.
Depois de uma pausa mais longa, porém, o Ministro prosseguiu:
– Convém notar, todavia, que às vezes o Pai nos honra com a Sua confiança e nós desvirtuamos os verdadeiros títulos de serviço.
Você foi médico na Terra, cercado de todas as facilidades, no capítulo dos estudos.
Nunca soube o preço de um livro, porque seus pais, generosos, lhe custeavam todas as despesas.
Logo depois de graduado, começou a receber proventos compensadores, não teve sequer as dificuldades do médico pobre, compelido a mobilizar relações afetivas para fazer clínica.
Prosperou tão rapidamente que transformou facilidades conquistadas em carreira para a morte prematura do corpo.
Enquanto moço e sadio, cometeu numerosos abusos, dentro do quadro de trabalho a que Jesus o conduziu.
Ante aquele olhar firme e bondoso ao mesmo tempo, estranha perturbação apossara-se de mim.
Respeitosamente, ponderei:
– Reconheço a procedência das observações, mas, se possível, estimaria obter meios de resgatar meus débitos, consagrando-me sinceramente aos enfermos deste parque hospitalar.
– Impulso muito nobre – disse Clarêncio sem austeridade –, contudo, é preciso convir que toda tarefa na Terra, no campo das profissões, é convite do Pai para que o homem penetre os templos divinos do trabalho.
O título, para nós, é simplesmente uma ficha; mas, no mundo, costuma representar uma porta aberta a todos os disparates.
Com essa ficha, o homem fica habilitado a aprender nobremente e a servir ao Senhor, no quadro de Seus divinos serviços no planeta.
Tal princípio é aplicável a todas as atividades terrestres, excluída a convenção dos setores nos quais se desdobrem.
Meu irmão recebeu uma ficha de médico.
Penetrou o templo da Medicina, mas sua ação, lá dentro, não se verificou em normas que me autorizem a endossar seus atuais desejos.
Como transformá-lo, de um momento para outro, em médico de Espíritos enfermos, quando fez questão de circunscrever observações exclusivamente à esfera do corpo físico?
Não nego sua capacidade de excelente fisiologista, mas o campo da vida é muito extenso.
Que me diz de um botânico que alinhasse definições apenas com o exame das cascas secas de algumas árvores?
Grande número de médicos, na Terra, prefere apenas a conclusão matemática diante dos serviços de anatomia.
Concordemos que a Matemática é respeitável, mas não é a única ciência do Universo.
Como reconhece agora, o médico não pode estacionar em diagnósticos e terminologias.
Há que penetrar a alma, sondar-lhe as profundezas.
Muitos profissionais da Medicina, no planeta, são prisioneiros das salas acadêmicas, porque a vaidade lhes roubou a chave do cárcere.
Raros conseguem atravessar o pântano dos interesses inferiores, sobrepor-se a preconceitos comuns e, para essas exceções, reservam-se as zombarias do mundo e o escárnio dos companheiros.
Fiquei atônito.
Não conhecia tais noções de responsabilidade profissional.
Assombrava-me a interpretação do título acadêmico, reduzido à ficha de ingresso em zonas de trabalho para cooperação ativa com o Senhor Supremo.
Incapaz de intervir, aguardei que o Ministro do Auxílio retomasse o fio das elucidações.
– Conforme deduz – continuou ele –, não se preparou convenientemente para os nossos serviços aqui.
– Generoso benfeitor – atrevi-me a dizer –, compreendo a lição e curvo-me à evidência.
E, fazendo esforço por conter as lágrimas, pedi, humilde:
– Submeto-me a qualquer trabalho, nesta colônia de realização e paz.
Com um profundo olhar de simpatia, respondeu:
– Meu amigo, não possuo apenas verdades amargas.
Tenho igualmente a palavra de estímulo.
Não pode ainda ser médico em “Nosso Lar”, mas poderá assumir o cargo de aprendiz, oportunamente.
Sua posição atual não é das melhores; entretanto, é confortadora, pelas intercessões chegadas ao Ministério do Auxílio, a seu favor.
– Minha mãe? – perguntei, inebriado de alegria.
– Sim – esclareceu o Ministro –, sua mãe e outros amigos, no coração dos quais você plantou a semente da simpatia.
Logo após sua vinda, pedi ao Ministério do Esclarecimento providenciasse a obtenção de suas notas, que examinei atentamente.
Muita imprevidência, numerosos abusos e muita irreflexão, mas, nos quinze anos de sua clínica, também proporcionou receituário gratuito a mais de seis mil necessitados.
Na maioria das vezes, praticou esses atos meritórios, absolutamente por troça; mas, presentemente, pode verificar que, mesmo por troça, o verdadeiro bem espalha bênçãos em nossos caminhos.
Desses beneficiados, quinze não o esqueceram e têm enviado, até aqui, veementes apelos a seu favor.
Devo esclarecer, no entanto, que mesmo o bem que proporcionou aos indiferentes surge aqui a seu favor.
Concluindo, a sorrir, as elucidações surpreendentes, Clarêncio acentuou:
– Aprenderá lições novas em “Nosso Lar” e, depois de experiências úteis, cooperará eficientemente conosco, preparando-se para o futuro infinito.
Sentia-me radiante.
Pela primeira vez, chorei de alegria na colônia.
Oh! Quem poderá entender, na Terra, semelhante júbilo?
Por vezes, é preciso se cale o coração no grandiloquente silêncio divino.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 20 de Janeiro de 2019, 13:18
NOSSO LAR
15 A Visita Materna

Atento às recomendações de Clarêncio, procurava reconstituir energias para recomeçar o aprendizado.
Noutro tempo, talvez me sentisse ofendido com as observações aparentemente tão ríspidas; mas, naquelas circunstâncias, lembrava meus erros antigos e sentia-me confortado.
Os fluidos carnais compelem a alma a profundas sonolências.
Em verdade, apenas agora reconhecia que a experiência humana, em hipótese alguma, poderia ser levada à conta de brincadeira.
A importância da encarnação na Terra surgia-me aos olhos, evidenciando grandezas até então ignoradas.
Considerando as oportunidades perdidas, reconhecia não merecer a hospitalidade de “Nosso Lar”.
Clarêncio tinha dobradas razões para falar-me com aquela franqueza.
Passei dias entregue a profundas reflexões sobre a vida.
No íntimo, grande ansiedade de rever o lar terreno.
Abstinha-me, porém, de pedir novas concessões.
Os benfeitores do Ministério do Auxílio eram excessivamente generosos para comigo.
Adivinhavam-me os pensamentos.
Se até ali não me haviam proporcionado satisfação espontânea a semelhante desejo, é que tal propósito não seria oportuno.
Calava-me, então, resignado e algo triste.
Lísias fazia o possível por alegrar-me com os seus pareceres consoladores.
Eu estava, porém, nessa fase de recolhimento inexprimível, em que o homem é chamado para dentro de si mesmo, pela consciência profunda.
Um dia, contudo, o bondoso visitador penetrou, radiante, no meu apartamento, exclamando:
– Adivinhe quem chegou à sua procura!
Aquela fisionomia alegre, aqueles olhos brilhantes de Lísias, não me enganavam.
– Minha mãe! – respondi, confiante.
Olhos arregalados de alegria, vi minha mãe entrar de braços estendidos.
– Filho! Meu filho!
Vem a mim, querido meu!
Não posso dizer o que se passou então.
Senti-me criança, como no tempo em que brincava à chuva, pés descalços, na areia do jardim.
Abracei-me a ela carinhoso, chorando de júbilo, experimentando os mais sagrados transportes da ventura espiritual.
Beijei-a repetidas vezes, apertei-a nos braços, misturei minhas lágrimas com as suas lágrimas e não sei quanto tempo estivemos juntos, abraçados. Afinal, foi ela quem me despertou do enlevo recomendando:
– Vamos, filho, não te emociones tanto assim!
A alegria também, quando excessiva, costuma castigar o coração.
E em vez de carregar minha adorada velhinha nos braços, como fazia na Terra, nos derradeiros tempos de sua romagem por lá, foi ela quem me enxugou o pranto copioso, conduzindo-me ao divã.
– Estás ainda fraco, filhinho.
Não desperdices energias.
Sentei-me a seu lado e ela, cuidadosamente, ajeitou-me a fronte cansada, em seus joelhos, afagando-me de leve, confortando-me à luz de santas recordações.
Senti-me, então, o mais venturoso dos homens.
Guardava a impressão de haver o barco de minha esperança ancorado em porto mais seguro.
A presença maternal constituía infinito reconforto ao meu coração.
Aqueles minutos davam-me a ideia de um sonho tecido em trama de felicidade indizível.
Qual menino que procura detalhes, fixava-lhe as vestes, cópia perfeita de um dos seus velhos trajos caseiros.
Notando-lhe o vestido escuro, as meias de lã, a mantilha azul, contemplei a cabeça pequenina, aureolada a fios de neve, as rugas do rosto, o olhar doce e calmo de todos os dias.
Mãos trêmulas de contentamento, acariciava lhe as mãos queridas, sem conseguir articular uma frase.
Minha mãe, todavia, mais forte que eu, falou com serenidade:
– Nunca saberemos agradecer a Deus tamanhas dádivas.
O Pai jamais nos esquece, meu filho.
Que longo tempo de separação!
Não julgues, porém, que me houvesse esquecido.
Às vezes, a Providência separa os corações, temporariamente, para que aprendamos o amor divino.
Identificando-lhe a ternura de todos os tempos, senti que se me reavivavam as chagas terrenas.
Oh! Como é difícil alijar resíduos trazidos da Terra!
Como pesa a imperfeição acumulada em séculos sucessivos!
Quantas vezes ouvira conselhos salutares de Clarêncio, observações fraternais de Lísias, para renunciar às lamentações; mas, ao carinho maternal, como que se reabriam velhas feridas.
Do pranto de alegria passei às lágrimas de angústia, relembrando exacerbadamente os trâmites terrestres.
Não conseguia atinar que a visita não era para satisfação dos meus caprichos e sim preciosa bênção de acréscimo da misericórdia divina.
Copiando antigas exigências, concluí erroneamente que minha genitora deveria continuar como repositório de minhas queixas e males sem-fim.
Na Terra, quase sempre, as mães não passam de escravas, no conceito dos filhos.
Raros lhes entendem a dedicação antes de as perder.
Na mesma falsa concepção de outros tempos, descambei para o terreno das confidências dolorosas.
Minha mãe ouviu-me calada, deixando transparecer inexprimível melancolia.
Olhos úmidos, aconchegando-me de quando em quando mais estreitamente ao coração, falou, carinhosa:
– Oh! Filho, não ignoro as instruções que o nosso generoso Clarêncio te ministrou.
Não te queixes.
Agradeçamos ao Pai a bênção desta reaproximação.
Sintamo-nos agora numa escola diferente, onde aprendemos a ser filhos Senhor.
Na posição de mãe terrestre, nem sempre consegui orientar-te como convinha.
Também eu trabalho, pois, reajustando o coração.
Tuas lágrimas fazem-me voltar à paisagem dos sentimentos humanos.
Alguma coisa tenta operar o retrocesso de minh’alma.
Quero dar razão aos teus lamentos, erigir-te um trono, qual se foras a melhor criatura do Universo; mas essa atitude, presentemente, não se coaduna com as novas lições da vida.
Esses gestos são perdoáveis nas esferas da carne; aqui, porém, filho meu, é indispensável atender, antes de tudo, ao Senhor.
Não és o único homem desencarnado a reparar os próprios erros, nem sou a única mãe a sentir-se distante dos entes amados.
Nossa dor, portanto, não nos edifica pelos prantos que vertemos, ou pelas feridas que sangram em nós, mas pela porta de luz que nos oferece ao espírito, a fim de sermos mais compreensivos e mais humanos.
Lágrimas e úlceras constituem o processo de bendita extensão dos nossos mais puros sentimentos.
Depois de longa pausa, em que a consciência profunda me advertia solene, minha mãe prosseguiu:
– Se é possível aproveitar estes minutos rápidos, em expansões de amor, por que desviá-los para a sombra das lamentações?
Regozijemo-nos, filho, e trabalhemos incessantemente.
Modifica a atitude mental.
Conforta-me tua confiança em meu carinho, experimento sublime felicidade em tua ternura filial, mas não posso retroceder nas minhas experiências.
Amemo-nos, agora, com o grande e sagrado amor divino.
Aquelas palavras benditas me despertaram.
Guardava a impressão de fluidos vigorosos que partiam do sentimento materno, vitalizando-me o coração.
Minha mãe me contemplava desvanecida, mostrando belo sorriso.
Ergui-me, respeitoso, e beijei-a na fronte, sentindo-a mais amorosa e mais bela que nunca.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 24 de Janeiro de 2019, 08:25
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16 Confidências

Consolou-me a palavra maternal, reorganizando-me as energias interiores.
Minha mãe comentava o serviço como se fora uma bênção às dores e dificuldades, levando-as a crédito de alegrias e lições sublimes.
Inesperado e inexprimível contentamento banhava-me o espírito.
Aqueles conceitos alimentavam-me de estranho modo.
Sentia-me outro, mais alegre, animado e feliz.
– Oh! Minha mãe! – exclamei comovido – Deve ser maravilhosa a esfera da sua habitação!
Que sublimes contemplações espirituais, que ventura!
Ela esboçou um sorriso significativo e obtemperou:
– A esfera elevada, meu filho, requer, sempre, mais trabalho, maior abnegação.
Não suponhas que tua mãe permaneça em visões beatificas, a distância dos deveres justos.
Devo fazer-te sentir, no entanto, que minhas palavras não representam qualquer nota de tristeza, na situação em que me encontro.
É antes revelação de responsabilidade necessária.
Desde que voltei da Terra, tenho trabalhado intensamente pela nossa renovação espiritual.
Muitas entidades, desencarnando, permanecem agarradas ao lar terrestre, a pretexto de muito amarem os que demoram no mundo carnal.
Ensinaram-me aqui, todavia, que o verdadeiro amor, para transbordar em benefícios, precisa trabalhar sempre.
Desde minha vinda, então, procuro esforçar-me por conquistar o direito de ajudar aqueles que tanto amamos.
– E meu pai? – perguntei – Onde está? Por que não veio com a senhora?
Minha mãe estampou singular expressão no rosto e respondeu:
– Ah! Teu pai! Teu pai! ...
Há doze anos que está numa zona de trevas compactas, no Umbral.
Na Terra, sempre nos parecera fiel às tradições da família, arraigado ao cavalheirismo do alto comércio, a cujos quadros pertenceu até ao fim da existência, e ao fervor do culto externo, em matéria religiosa; mas, no fundo, era fraco e mantinha ligações clandestinas, fora do nosso lar.
Duas delas estavam mentalmente ligadas a vasta rede de entidades maléficas, e, tão logo desencarnou o meu pobre Laerte, a passagem no Umbral lhe foi muito amarga, porque as desventuradas criaturas, a quem fizera muitas promessas, aguardavam-no ansiosas, prendendo-o de novo nas teias da ilusão.
A princípio, ele quis reagir, esforçando-se por encontrar-me, mas não pôde compreender que após a morte do corpo físico a alma se encontra tal qual vive intrinsecamente.
Laerte, portanto, não percebeu minha presença espiritual, nem a assistência desvelada de outros amigos nossos.
Tendo gasto muitos anos a fingir, viciara a visão espiritual, restringira o padrão vibratório, e o resultado foi achar-se tão só na companhia das relações que cultivara irrefletidamente, pela mente e pelo coração.
Os princípios da família e o amor ao nosso nome ocuparam algum tempo o seu espírito.
De algum modo, lutou, repelindo as tentações; mas caiu afinal, novamente enredado na sombra, por falta de perseverança no bom e reto pensamento.
Muitíssimo impressionado, perguntei:
– Não há, porém, meios de subtraí-lo a tais abjeções?
– Ah! Meu filho – elucidou a palavra materna –, eu o visito frequentemente.
Ele, porém, não me percebe.
Seu potencial vibratório é ainda muito baixo.
Tento atraí-lo ao bom caminho, pela inspiração, mas apenas consigo arrancar-lhe algumas lágrimas de arrependimento, de quando em quando, sem obter resoluções sérias.
As infelizes, das quais se tornou prisioneiro, retiram-no às minhas sugestões.
Venho trabalhando intensamente, anos a fio.
Solicitei o amparo de amigos em cinco núcleos diversos, de atividade espiritual mais elevada, inclusive aqui em “Nosso Lar”.
Certa vez, Clarêncio quase conseguiu atraí-lo ao Ministério da Regeneração, mas debalde.
Não é possível acender luz em candeia sem óleo e sem pavio...
Precisamos da adesão mental de Laerte, para conseguir levantá-lo e abrir-lhe a visão espiritual.
No entanto, o pobrezinho permanece inativo em si mesmo, entre a indiferença e a revolta.
Depois de longa pausa, suspirou, continuando:
– Talvez não saibas ainda que tuas irmãs Clara e Priscila vivem hoje igualmente no Umbral, agarradas à crosta da Terra.
Sou compelida a atender às necessidades de todos.
Meu único auxílio direto repousava na cooperação afetuosa de tua irmã Luísa, aquela que partiu quando eras pequenino.
Luísa esperou-me aqui muitos anos, foi meu braço forte nos trabalhos ásperos de amparo à família terrena.
Ultimamente, contudo, depois de lutar corajosa, a meu lado, em benefício de teu pai, de ti e das irmãs, tão grande é a perturbação dos nossos familiares, ainda na Terra, que voltou a semana passada, a fim de reencarnar entre eles, num gesto heroico de sublime renúncia. Espero, pois, que te restabeleças breve, para que possamos desdobrar atividades no bem.
Assombravam-me as informações referentes a meu pai.
Que espécie de lutas seriam as dele?
Não parecia sincero praticante dos preceitos religiosos, não comungava todos os domingos?
Enlevado com a dedicação maternal, perguntei:
– A senhora, entretanto, auxilia o papai, não obstante a ligação dele com essas mulheres infames?
– Não as classifiques assim; – ponderou minha mãe – dize, antes, meu filho, nossas irmãs doentes, ignorantes ou infelizes.
São filhas de nosso Pai, igualmente.
Não tenho feito intercessões apenas por Laerte, mas por elas também, e estou convencida de haver encontrado recursos para atraí-los todos ao meu coração.
Espantou-me a grande manifestação de renúncia.
Pensei subitamente em minha família direta.
Senti o velho apego à esposa e aos filhos queridos.
Perante Clarêncio e Lísias, deliberava sempre recalcar sentimentos e calar indagações; mas o olhar materno encorajava-me.
Alguma coisa me fazia sentir que minha mãe não se demoraria muito tempo a meu lado.
Aproveitando o minuto que corria célere, interroguei:
– A senhora, que tem acompanhado o papai devotadamente, nada poderá informar relativamente a Zélia e às crianças?
Aguardo, ansioso, o instante de voltar a casa, a fim de auxiliá-los.
Oh! Minhas imensas saudades devem ser igualmente compartilhadas por eles!
Como deve sofrer minha desventurada esposa com esta separação! ...
Minha mãe esboçou um sorriso triste e acrescentou:
– Tenho visitado meus netos periodicamente.
Vão bem.
E, depois de meditar alguns instantes, acentuou:
– Não deves, porém, inquietar-te com o problema de auxílio à família.
Prepara-te, em primeiro lugar, para que sejamos bem sucedidos; há questões que precisamos entregar ao Senhor, em pensamento, antes de trabalhar na solução que elas requerem.
Quis insistir no assunto para colher pormenores, mas minha mãe não reincidiu nele, esquivando-se, delicada.
A palestra estendeu-se ainda longa, envolvendo-me em sublime conforto.
Mais tarde, ela despediu-se.
Curioso por saber como vivia até ali, pedi permissão para acompanha-la.
Afagou-me então, carinhosa, e disse:
– Não venhas, meu filho.
Esperam-me com urgência no Ministério da Comunicação, onde serei munida de recursos fluídicos para a jornada de regresso, nos gabinetes transformatórios.
Além disso, preciso ainda avistar-me com o Ministro Célio, para agradecer a oportunidade desta visita.
E, deixando-me n'alma duradoura impressão de felicidade, beijou-me e partiu.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 27 de Janeiro de 2019, 14:12
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17 Em Casa de Lísias

Não se passaram muitos dias, após a inesperada visita de minha mãe, quando Lísias me veio buscar, a chamado do Ministro Clarêncio.
Segui-o, surpreso.
Recebido amavelmente pelo magnânimo benfeitor, esperava-lhe as ordens com enorme prazer.
– Meu amigo – disse, afável –, doravante está autorizado a fazer observações nos diversos setores de nossos serviços, com exceção dos Ministérios de natureza superior.
Henrique de Luna deu por terminado seu tratamento, na semana última, e é justo, agora, aproveite o tempo observando e aprendendo.
Olhei para Lísias, como irmão que devia participar da minha felicidade indizível, naquele instante.
O enfermeiro correspondeu-me ao olhar com intenso júbilo.
Não cabia em mim de contente.
Era o início de vida nova.
De alguma sorte, poderia trabalhar, ingressando em escolas diferentes.
Clarêncio, que parecia perceber minha intraduzível ventura, acentuou:
– Tornando-se dispensável sua permanência no parque hospitalar, examinarei atentamente a possibilidade de sua localização em ambiente novo.
Consultarei alguma de nossas instituições...
Lísias, porém, cortou-lhe a palavra, exclamando:
– Se possível, estimaria recebê-lo em nossa casa, enquanto perdurar o curso de observações; lá, minha mãe o trataria como filho.
Fitei o visitador num transporte de alegria.
Clarêncio, por sua vez, também lhe endereçou um olhar de aprovação, murmurando:
– Muito bem, Lísias! Jesus alegra-se conosco, sempre que recebemos um amigo no coração.
Abracei o prestativo enfermeiro, sem poder traduzir meu agradecimento.
A alegria às vezes nos emudece. – Guarde este documento – disse-me o atencioso Ministro do Auxílio, entregando-me pequena caderneta –, com ele, poderá ingressar nos Ministérios da Regeneração, do Auxílio, da Comunicação e do Esclarecimento, durante um ano.
Decorrido esse tempo, veremos o que será possível fazer relativamente aos seus desejos.
Instrua-se, meu caro.
Não perca tempo.
O interstício das experiências carnais deve ser bem aproveitado.
Lísias deu-me o braço e saí, enlevado de prazer.
Passados minutos,  eis-nos à porta de graciosa construção, cercada de colorido jardim.
– É aqui – exclamou o delicado companheiro.
E, com expressão carinhosa, acrescentou:
– O nosso lar, dentro de “Nosso Lar”.
Ao tinido brando da campainha no interior, surgiu à porta simpática matrona.
– Mãe! Mãe!... – gritou o enfermeiro, apresentando-me alegremente – este é o irmão que prometi trazer-te.
– Seja bem-vindo, amigo! – exclamou a senhora, nobremente – Esta casa é sua.
E abraçando-me:
– Soube que sua mamãe não vive aqui.
Nesse caso, terá em mim uma irmã, com funções maternais.
Não sabia como agradecer a generosa hospitalidade.
Ia ensaiar algumas frases, para demonstrar minha comoção e reconhecimento, mas a nobre matrona, revelando singular bom humor, adiantou-se, adivinhando-me os pensamentos:
– Está proibido de falar em agradecimentos.
Não o faça.
Obrigar-me-ia a lembrar, de repente, muitas frases convencionais da Terra...
Rimo-nos todos e murmurei, comovido:
– Que o Senhor  traduza meu agradecimento a todos em renovadas bênçãos de alegria e paz.
Entramos.
Ambiente simples e acolhedor.
Móveis quase idênticos aos terrestres; objetos em geral, demonstrando pequeninas variantes.
Quadros de sublime significação espiritual, um piano de notáveis proporções, descansando sobre ele grande harpa talhada em linhas nobres e delicadas.
Identificando-me a curiosidade, Lísias falou, prazenteiro:
– Como vê, depois do sepulcro não encontrou ainda os anjos harpistas; mas aí temos uma harpa esperando por nós mesmos.
– Oh! Lísias – atalhou a palavra materna, carinhosa –, não faças ironia.
Não te recordas como o Ministério da União Divina recebeu o pessoal da Elevação, no ano passado, quando passaram por aqui alguns embaixadores da Harmonia?
– Sim, mamãe; mas quero apenas dizer que os harpistas existem, e precisamos criar audição espiritual, para ouvi-los, esforçando-nos, por nossa vez, no aprendizado das coisas divinas.
Em seguida aos conceitos obrigatórios de apresentação, com que relacionei minha procedência, vim a saber que a família de Lísias vivera em antiga cidade do Estado do Rio de Janeiro; que sua mãe chamava-se Laura e que, em casa, tinha consigo duas irmãs, Iolanda e Judite.
Respirava-se, ali, doce e reconfortante intimidade.
Não conseguia disfarçar meu contentamento e enorme alegria.
Aquele primeiro contato com a organização doméstica na colônia, enlevava-me.
A hospitalidade, cheia de ternura, arrancava-me ao espírito notas de profunda emoção.
Em face do tiroteio de perguntas, Iolanda exibiu-me livros maravilhosos.
Notando-me o interesse, a dona da casa advertiu:
– Temos em “Nosso Lar”, no que concerne à literatura, uma enorme vantagem; é que os escritores de má-fé, os que estimam o veneno psicológico, são conduzidos imediatamente para as zonas obscuras do Umbral.
Por aqui não se equilibram, nem mesmo no Ministério da Regeneração, enquanto perseveram em semelhante estado d’alma.
Não pude deixar de sorrir, continuando a observar os primores da arte fotográfica, nas páginas sob meus olhos.
Em seguida, chamou-me Lísias para ver algumas dependências da casa, demorando-me na Sala de Banho, cujas instalações interessantes me maravilharam.
Tudo simples, mas confortável.
Não voltara a mim da admiração que me empolgava, quando a senhora Laura convidou à oração.
Sentamo-nos, silenciosos, em torno de grande mesa.
Ligado um grande aparelho, fez-se ouvir música suave.
Era o louvor do momento crepuscular.
Surgiu, ao fundo, o mesmo quadro prodigioso da Governadoria, que eu nunca me cansava de contemplar todas as tardes, no parque hospitalar.
Naquele momento, porém, sentia-me dominado de profunda e misteriosa alegria.
E vendo o coração azul desenhado ao longe, senti que minh’alma se ajoelhava no templo interior, em sublimes transportes de júbilo e reconhecimento.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 01 de Fevereiro de 2019, 12:20
NOSSO LAR
18 Amor, Alimento das Almas

Terminada a oração, chamou-nos à mesa a dona da casa, servindo caldo reconfortante e frutas perfumadas, que mais pareciam concentrados de fluidos deliciosos.
Eminentemente surpreendido, ouvi a senhora Laura observar com graça:
– Afinal, nossas refeições aqui são muito mais agradáveis que na Terra.
Há residências, em “Nosso Lar”, que as dispensam quase por completo;  mas, nas zonas do Ministério do Auxílio, não podemos prescindir dos concentrados fluídicos, tendo em vista os serviços pesados que as circunstâncias impõem.
Despendemos grande quantidade de energias.
É necessário renovar provisões de força.
– Isso, porém – ponderou uma das jovens –, não quer dizer que somente nós, os funcionários do Auxílio e da Regeneração, vivamos a depender de alimentos.
Todos os Ministérios, inclusive o da União Divina, não os dispensam, diferindo apenas a feição substancial.
Na Comunicação e no Esclarecimento há enorme dispêndio de frutos.
Na Elevação o consumo de sucos e concentrados não é reduzido e, na União Divina, os fenômenos de alimentação atingem o inimaginável.
Meu olhar indagador ia de Lísias para a Senhora Laura, ansioso de explicações imediatas.
Sorriam todos da minha natural perplexidade, mas a mãe de Lísias veio ao encontro dos meus desejos, explicando:
– Nosso irmão talvez ainda ignore que o maior sustentáculo das criaturas é justamente o amor.
De quando em quando, recebemos em “Nosso Lar” grandes comissões de instrutores, que ministram ensinamentos relativos à nutrição espiritual.
Todo sistema de alimentação, nas variadas esferas da vida, tem no amor a base profunda.
O alimento físico, mesmo aqui, propriamente considerado, é simples problema de materialidade transitória, como no caso dos veículos terrestres, necessitados de colaboração da graxa e do óleo.
A alma, em si, apenas se nutre de amor.
Quanto mais nos elevarmos no plano evolutivo da Criação, mais extensamente conheceremos essa verdade.
Não lhe parece que o amor divino seja o cibo do Universo?
Tais elucidações confortavam-me sobremaneira.
Percebendo-me a satisfação íntima, Lísias interveio, acentuando:
– Tudo se equilibra no amor infinito de Deus e, quanto mais evolvido o ser criado, mais sutil o processo de alimentação.
O verme, no subsolo do planeta, nutre-se essencialmente de terra.
O grande animal colhe na planta os elementos de manutenção, a exemplo da criança sugando o seio materno.
O homem colhe o fruto do vegetal, transforma-o segundo a exigência do paladar que lhe é próprio e serve-se dele à mesa do lar.
Nós outros, criaturas desencarnadas, necessitamos de substâncias suculentas, tendentes à condição fluídica, e o processo será cada vez mais delicado, à medida que se intensifique a ascensão individual.
– Não esqueçamos, todavia, a questão dos veículos – acrescentou a senhora Laura –, porque, no fundo, o verme, o animal, o homem e nós dependemos absolutamente do amor.
Todos nos movemos nele e sem ele não teríamos existência.
 – É extraordinário! – aduzi, comovido.
– Não se lembra do ensino evangélico do “amai-vos uns aos outros”? – prosseguiu a mãe de Lísias atenciosa – Jesus não preceituou esses princípios objetivando tão somente os casos de caridade, nos quais todos aprenderemos, mais dia menos dia, que a prática do bem constitui simples dever.
Aconselhava-nos, igualmente, a nos alimentarmos uns aos outros, no campo da fraternidade e da simpatia.
O homem encarnado saberá, mais tarde, que a conversação amiga, o gesto afetuoso, a bondade recíproca, a confiança mútua, a luz da compreensão, o interesse fraternal – patrimônios que se derivam naturalmente do amor profundo – constituem sólidos alimentos para a vida em si.
Reencarnados na Terra, experimentamos grandes limitações; voltando para cá, entretanto, reconhecemos que toda a estabilidade da alegria é problema de alimentação puramente espiritual.
Formam-se lares, vilas, cidades e nações em obediência a imperativos tais.
Recordei instintivamente as teorias do sexo, largamente divulgadas no mundo; mas, adivinhando-me talvez os pensamentos, a senhora Laura sentenciou:
– E ninguém diga que o fenômeno é simplesmente sexual.
O sexo é manifestação sagrada desse amor universal e divino, mas é apenas uma expressão isolada do potencial infinito.
Entre os casais mais espiritualizados, o carinho e a confiança, a dedicação e o entendimento mútuos permanecem muito acima da união física, reduzida, entre eles, a realização transitória.
A permuta magnética é o fator que estabelece ritmo necessário à manifestação da harmonia.
Para que se alimente a ventura, basta a presença e, às vezes, apenas a compreensão. Valendo-se da pausa, Judite acrescentou:
– Aprendemos em “Nosso Lar” que a vida terrestre se equilibra no amor, sem que a maior parte dos homens se aperceba.
Almas gêmeas, almas irmãs, almas afins, constituem pares e grupos numerosos.
Unindo-se umas às outras, amparando-se mutuamente, conseguem equilíbrio no plano de redenção.
Quando, porém, faltam companheiros, a criatura menos forte costuma sucumbir em meio da jornada.
 – Como vê, meu amigo – objetou Lísias contente –, ainda aqui é possível relembrar o Evangelho do Cristo.
“Nem só de pão vive o homem”.
Antes, porém, de se alinharem novas considerações, tiniu a campainha fortemente.
Levantou-se o enfermeiro para atender.
Dois rapazes de fino trato entraram na sala.
– Aqui tem – disse Lísias, dirigindo-se a mim gentilmente – nossos irmãos Polidoro e Estácio, companheiros de serviço no Ministério do Esclarecimento.
Saudações, abraços, alegria.
Decorridos momentos, a senhora Laura falou sorridente:
– Todos vocês trabalharam muito hoje.
Utilizaram o dia com proveito.
Não estraguem o programa afetivo, por nossa causa.
Não esqueçam a excursão ao Campo da Música.
Notando a preocupação de Lísias, advertiu a palavra materna:
– Vai, meu filho.
Não faças Lascínia esperar tanto.
 Nosso irmão ficará em minha companhia, até que te possa acompanhar nesses entretenimentos.
– Não se incomode por mim – exclamei, instintivamente.
A senhora Laura, porém, esboçou amável sorriso e respondeu:
– Não poderei compartilhar das alegrias do Campo, ainda hoje.
Temos em casa minha neta convalescente, que voltou da Terra há poucos dias.
Saíram todos, em meio do júbilo geral.
A dona da casa, fechando a porta, voltou-se para mim e explicou sorridente:
– Vão em busca do alimento a que nos referíamos.
Os laços afetivos, aqui, são mais belos e mais fortes.
O amor, meu amigo, é o pão divino das almas, o pábulo sublime dos corações.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Fevereiro de 2019, 11:53
NOSSO LAR
19 A Jovem Desencarnada

– Sua neta não vem à mesa para as refeições? – perguntei à dona da casa, ensaiando palestra mais íntima.
 – Por enquanto, alimenta-se a sós – esclareceu dona Laura –, a tolinha continua nervosa, abatida.
Aqui, não trazemos à mesa qualquer pessoa que se manifeste perturbada ou desgostosa.
A neurastenia e a inquietação emitem fluidos pesados e venenosos, que se misturam automaticamente às substâncias alimentares.
Minha neta demorou-se no Umbral quinze dias, em forte sonolência, assistida por nós.
Deveria ingressar nos pavilhões hospitalares, mas, afinal, veio submeter-se aos meus cuidados diretos.
Manifestei desejo de visitar a recém-chegada do planeta.
Seria muito interessante ouvi-la.
Há quanto tempo estava sem notícias diretas da existência comum?
A senhora Laura não se fez rogada quando lhe dei a conhecer meu desejo.
Demandamos um quarto confortável e muito amplo.
Uma jovem muito pálida repousava em cômoda poltrona.
Surpreendeu-se vivamente ao ver-me. – Este amigo, Eloísa – explicou a genitora de Lísias, indicando-me –, é um irmão nosso que voltou da esfera física, há pouco tempo.
A moça fitou-me curiosa, embora os olhos perdidos nas fundas olheiras traduzissem grande esforço para concentrar atenção.
Cumprimentou-me, esboçando vago sorriso, dando-me eu a conhecer, por minha vez.
– Deve estar cansada – observei.
Antes, porém, que ela respondesse, adiantou-se a senhora Laura, procurando subtraí-la a esforços sobre posse fatigantes:
– Eloísa tem estado inquieta, aflita.
Em parte, justifica-se.
A tuberculose foi longa e deixou-lhe traços profundos; entretanto, não se pode prescindir, a tempo algum, do otimismo e da coragem.
Vi a jovem arregalar os olhos muito negros, como a reter o pranto, mas em vão.
O tórax começou a arfar-lhe violentamente e, colando o lenço ao rosto, não conseguia conter os soluços angustiosos.
– Tolinha! – disse a meiga senhora abraçando-a – É necessário reagir contra isso.
Estas impressões são os resultados da educação religiosa deficiente, nada mais.
Sabes que tua mãe não se demorará e que não podes contar com a fidelidade do noivo, que, de modo algum, está preparado a te oferecer uma sincera dedicação espiritual na Terra.
Ele ainda está longe do espírito sublime do amor iluminado.
Naturalmente, desposará outra e deves habituar-te a esta convicção.
Nem seria justo exigir-lhe a vinda brusca.
Sorrindo maternalmente, a senhora Laura acrescentou:
– Admitamos que viesse, forçando a lei.
Não seria mais duro o sofrimento?
Não pagarias caro a cooperação que houvesses desenvolvido nesse particular?
Não te faltarão amizades carinhosas, nem colaboração fraternal, para que te equilibres aqui.
E se amas, de fato, o rapaz, deves procurar harmonia para beneficiá-lo mais tarde.
Além disso, tua mãe não tarda a chegar.
Penalizou-me o pranto copioso da jovem.
Procurei estabelecer novo rumo à conversação, tentando subtraí-la à crise de lágrimas. – Donde vem você, Eloísa? – interroguei.
A mãe de Lísias, agora calada, parecia igualmente desejosa de vê-la desembaraçar-se.
Após longos instantes em que enxugava os olhos lacrimosos, a moça respondeu:
– Do Rio de Janeiro.
– Mas não deve chorar assim – objetei.
Você é muito feliz.
Desencarnou há poucos dias, está com os seus parentes e não conheceu tempestades na grande viagem...
Ela pareceu reanimar-se, falando mais calma:
– Não imagina, porém, quanto tenho sofrido.
Oito meses de luta com a tuberculose, não obstante os tratamentos... 
A mágoa de haver transmitido a moléstia a minha carinhosa mãe...
Além disso, o que padeceu por minha causa o pobre noivo, é inenarrável...
– Ora, ora, não diga isso observou a senhora Laura a sorrir.
Na Terra temos sempre a ilusão de que não há dor maior que a nossa.
Pura cegueira: há milhões de criaturas afrontando situações verdadeiramente cruéis, comparadas às nossas experiências.
– Arnaldo, porém, vovó, ficou sem consolo, desesperado.
Tudo isso dá que pensar acentuou contrafeita.
 – E acreditas sinceramente nessa impressão?
– perguntou a matrona com inflexão de carinho.
Observei teu ex-noivo, diversas vezes, no curso da tua enfermidade.
Era natural que ele se comovesse tanto, vendo-te o corpo reduzido a frangalhos; mas não está preparado para compreender um sentimento puro.
Reconfortar-se-á muito depressa.
Amor iluminado não é para qualquer criatura humana.
Conserva, portanto, o teu otimismo.
Poderás auxiliá-lo, sem dúvida, muitas vezes, mas no que concerne à união conjugal, quando puderes excursionar às esferas do planeta, em nossa companhia, já o encontrarás casado com outra.
Admirado por minha vez, notei a surpresa dolorosa de Eloísa.
Não sabia a convalescente como portar-se ante a serenidade e o bom senso da avó.
– Será possível?
A genitora de Lísias esboçou um gesto extremamente carinhoso e falou:
– Não sejas teimosa, nem tentes desmentir-me.
Vendo que a enferma parecia tomar a atitude íntima de quem deseja provas, a senhora Laura insistiu, muito meiga:
– Não te recordas da Maria da Luz, a colega que te levava flores todos os domingos?
Pois nota: quando o médico anunciou, em caráter confidencial, a impossibilidade de restabelecer-te o corpo físico, Arnaldo, embora muito magoado, começou a envolvê-la em vibrações mentais diferentes.
Agora que aqui estás, não demorarão muito as resoluções novas.
 – Ah! Que horror, vovó!
– Horror, por quê?
É preciso te habituares a considerar as necessidades alheias.
Teu noivo é homem comum, não está alertado para as belezas sublimes do amor espiritual. Não podes operar milagres nele, por muito que o ames.
A descoberta de si mesmo é apanágio de cada um.
Arnaldo conhecerá mais tarde a beleza do teu idealismo; mas, por agora, é preciso entregá-lo às experiências de que necessita.
– Não me conformo! – clamou a jovem, chorando – Justamente Maria da Luz, a amiga que sempre julguei fidelíssima.
A senhora Laura, todavia, sorriu e falou, cautelosa:
– Não será, porém, mais agradável confiá-lo aos cuidados de uma criatura irmã?
 Maria da Luz será sempre tua amiga espiritual, ao passo que outra mulher talvez te dificultasse, mais tarde, o acesso ao coração dele.
Eu estava eminentemente surpreendido.
Eloísa prorrompera em soluços.
A bondosa senhora percebeu-me a intranquilidade e, no propósito talvez de orientar tanto a neta quanto a mim, esclareceu sensatamente:
– Sei a causa do teu pranto, filhinha: nasce da terra inculta do nosso milenário egoísmo, da nossa renitente vaidade humana.
Entretanto, a vovó não te fala para ferir, mas para acordar.
Enquanto Eloísa chorava, a mãe de Lísias convidou-me novamente à sala de estar, considerando que a doente necessitava de repouso.
Ao sentarmo-nos, falou em tom confidencial:
– Minha neta chegou profundamente fatigada.
Prendeu o coração, demasiadamente, nas teias do amor-próprio.
A rigor, o lugar dela seria em qualquer dos nossos hospitais; entretanto, o Assistente Couceiro julgou melhor situá-la junto ao nosso carinho.
Isso, aliás, é muito do meu agrado, porque minha querida Teresa, sua mãe, está a chegar.
Um pouco de paciência e atingiremos a solução justa.
Questão de tempo e serenidade.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Fevereiro de 2019, 20:09
NOSSO LAR
20 Noções de Lar

Desejando colher valores educativos que fluíam naturalmente da palestra da senhora Laura, perguntei, curioso:
– Desempenhando tantos deveres, a senhora ainda tem atribuições fora de casa?
– Sim; vivemos numa cidade de transição; no entanto, as finalidades da colônia residem no trabalho e no aprendizado.
As almas femininas, aqui, assumem numerosas obrigações, preparando-se para voltar ao planeta ou para ascender a esferas mais altas.
– Mas a organização doméstica, em “Nosso Lar”, é idêntica à da Terra?
A interlocutora esboçou uma fácies muito significativa e acrescentou:
– O lar terrestre é que, de há muito, se esforça por copiar nosso instituto doméstico; mas os cônjuges por lá, com raras exceções, estão ainda a moldar o terreno dos sentimentos, invadido pelas ervas amargosas da vaidade pessoal e povoado de monstros do ciúme e do egoísmo.
Quando regressei do planeta, pela última vez, trazia, como é natural, profundas ilusões.
Coincidiu, porém, que, na minha crise de orgulho ferido, fui levada a ouvir um grande instrutor, no Ministério do Esclarecimento.
Desde esse dia, nova corrente de ideias me penetrou o espírito.
– Não poderia dizer-me algo das lições recebidas? – indaguei com interesse.
– O orientador, muito versado em matemática – prosseguiu ela –, fez-nos sentir que o lar é como se fora um ângulo reto nas linhas do plano da evolução divina.
A reta vertical é o sentimento feminino, envolvido nas inspirações criadoras da vida.
A reta horizontal é o sentimento masculino, em marcha de realizações no campo do progresso comum.
O lar é o sagrado vértice onde o homem e a mulher se encontram para o entendimento indispensável.
É templo, onde as criaturas devem unir-se espiritual antes que corporalmente.
Há na Terra, agora, grande número de estudiosos das questões sociais, que aventam várias medidas e clamam pela regeneração da vida doméstica.
Alguns chegam a asseverar que a instituição da família humana está ameaçada.
Importa considerar, entretanto, que, a rigor, o lar é conquista sublime que os homens vão realizando vagarosamente.
Onde, nas esferas do globo, o verdadeiro instituto doméstico, baseado na harmonia justa, com os direitos e deveres legitimamente partilhados?
Na maioria, os casais terrestres passam as horas sagradas do dia vivendo a indiferença ou o egoísmo feroz.
Quando o marido permanece calmo, a mulher parece desesperada; quando a esposa se cala, humilde, o companheiro tiraniza.
Nem a consorte se decide a animar o esposo, na linha horizontal de seus trabalhos temporais, nem o marido se resolve a segui-la no voo divino de ternura e sentimento, rumo aos planos superiores da Criação.
Dissimulam em sociedade e, na vida íntima, um faz viagens mentais de longa distância, quando o outro comenta o serviço que lhe seja peculiar.
Se a mulher fala nos filhinhos, o marido excursiona através dos negócios; se o companheiro examina qualquer dificuldade do trabalho, que lhe diz respeito, a mente da esposa volta ao gabinete da modista.
É claro que, em tais circunstâncias, o ângulo divino não está devidamente traçado.
Duas linhas divergentes tentam, em vão, formar o vértice sublime, a fim de construírem um degrau na escada grandiosa da vida eterna.
Esses conceitos calavam-me fundo e, sumamente impressionado, observei:
– Senhora Laura, essas definições suscitam um mundo de pensamentos novos.
Ah! Se conhecêssemos tudo isso lá na Terra!...
 – Questão de experiência, meu amigo – replicou a nobre matrona –, o homem e a mulher aprenderão no sofrimento e na luta.
Por enquanto, raros conhecem que o lar é instituição essencialmente divina e que se deve viver, dentro de suas portas, com todo o coração e com toda a alma.
Enquanto as criaturas vulgares atravessam a florida região do noivado, procuram-se mobilizando os máximos recursos do espírito, e daí o dizer-se que todos os seres são belos quando estão verdadeiramente amando.
O assunto mais trivial assume singular encanto nas palestras mais fúteis.
O homem e a mulher comparecem aí, na integração de suas forças sublimes.
Mas logo que recebem a bênção nupcial, a maioria atravessa os véus do desejo e cai nos braços dos velhos monstros que tiranizam corações.
Não há concessões recíprocas.
Não há tolerância e, por vezes, nem mesmo fraternidade.
E apaga-se a beleza luminosa do amor, quando os cônjuges perdem a camaradagem e o gosto de conversar.
Daí em diante, os mais educados respeitam-se; os mais rudes mal se suportam.
Não se entendem.
Perguntas e respostas são formuladas em vocábulos breves.
Por mais que se unam os corpos, vivem as mentes separadas, operando em rumos opostos.
– Tudo isso é a pura verdade! – aduzi comovido. –
 Que fazer, porém, meu amigo? – replicou a bondosa senhora – Na fase atual evolutiva do planeta, existem na esfera carnal raríssimas uniões de almas gêmeas, reduzidos matrimônios de almas irmãs ou afins, e esmagadora porcentagem de ligações de resgate.
O maior número de casais humanos é constituído de verdadeiros forçados, sob algemas.
Procurando retomar o fio das considerações sugeridas por minha pergunta inicial, continuou a genitora de Lísias:
– As almas femininas não podem permanecer inativas aqui.
É preciso aprender a ser mãe, esposa, missionária, irmã.
A tarefa da mulher, no lar, não pode circunscrever-se a umas tantas lágrimas de piedade ociosa e a muitos anos de servidão.
É claro que o movimento coevo do feminismo desesperado constituí abominável ação contra as verdadeiras atribuições do espírito feminino.
A mulher não pode ir ao duelo com os homens, através de escritórios e gabinetes, onde se reserva atividade justa ao espírito masculino.
Nossa colônia, porém, ensina que existem nobres serviços de extensão do lar, para as mulheres.
A enfermagem, o ensino, a indústria do fio, a informação, os serviços de paciência, representam atividades assaz expressivas.
O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências, e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem.
Dentro de casa, a inspiração; fora dela, a atividade.
Uma não viverá sem a outra.
Como sustentar-se o rio sem a fonte, e como espalhar-se a água da fonte sem o leito do rio?
Não pude deixar de sorrir, ouvindo a interrogação.
A mãe de Lísias, depois de longo intervalo, continuou:
– Quando o Ministério do Auxílio me confia crianças ao lar, minhas horas de serviço são contadas em dobro, o que lhe pode dar ideia da importância do serviço maternal no plano terreno.
Entretanto, quando isso não acontece, tenho meus deveres diuturnos nos trabalhos de enfermagem, com a semana de quarenta e oito horas de tarefa.
Todos trabalham em nossa casa.
A não ser minha neta convalescente, não temos qualquer pessoa da família em zonas de repouso.
Oito horas de atividade no interesse coletivo, diariamente, é programa fácil a todos.
Sentir-me-ia envergonhada se não o executasse também.
Interrompeu-se a interlocutora por alguns momentos, enquanto me perdia em vastas considerações...

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 18 de Fevereiro de 2019, 15:03
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21 Continuando a palestra

– A palestra, senhora Laura – exclamei com interesse –, sugere numerosas interrogações, relevar-me-á a curiosidade, o abuso...
– Não diga isso – retrucou, bondosa –, pergunte sempre.
Não estou em condições de ensinar; todavia, é sempre fácil informar.
Rimo-nos da observação e indaguei em seguida:
– Como se encara o problema da propriedade na colônia?
Esta casa, por exemplo, pertence-lhe?
Ela sorriu e esclareceu:
– Tal como se dá na Terra, a propriedade aqui é relativa.
Nossas aquisições são feitas à base de horas de trabalho.
O bônus-hora, no fundo, é o nosso dinheiro.
Quaisquer utilidades são adquiridas com esses cupons, obtidos por nós mesmos, a custa de esforço e dedicação.
As construções em geral representam patrimônio comum, sob controle da Governadoria; cada família espiritual, porém, pode conquistar um lar (nunca mais que um), apresentando trinta mil bônus-hora, o que se pode conseguir com algum tempo de serviço.
Nossa morada foi conquistada pelo trabalho perseverante de meu esposo, que veio para a esfera espiritual muito antes de mim.
Dezoito anos estivemos separados pelos laços físicos, mas sempre unidos pelos elos espirituais.
Ricardo, porém, não descansou.
Recolhido ao “Nosso Lar”, depois de certo período de extremas perturbações, compreendeu imediatamente a necessidade do esforço ativo, preparando-nos um ninho para o futuro. Quando cheguei, estreamos a habitação que ele organizara com esmero, acentuando-se nossa ventura.
Desde então, meu esposo ministrou-me conhecimentos novos.
Minhas lutas na viuvez haviam sido intensas.
Muito moça ainda, com os filhos tenros, tive de enfrentar serviços rudes.
A custa de testemunhos difíceis, proporcionei aos rebentos de nossa união os valores educativos, de que eu podia dispor, habituando-os, porém, muito cedo, aos trabalhos árduos.
Compreendi, depois, que a existência laboriosa me livrara das indecisões e angústias do Umbral, por colocar-me a coberto de muitas e perigosas tentações.
O suor do corpo ou a preocupação justa, nos campos de atividade honesta, constituem valiosos recursos para a elevação e defesa da alma.
Reencontrar Ricardo, tecer novo ninho de afetos, representava o céu para mim.
Durante anos consecutivos, vivemos a vida de perene ventura, trabalhando por nossa evolução, unindo-nos cada vez mais e cooperando no progresso efetivo dos que nos são afins.
Com o correr do tempo, Lísias, Iolanda e Judite reuniram-se a nós, aumentando nossa felicidade.
Após ligeiro intervalo, em que parecia meditar, minha interlocutora prosseguiu em tom grave: – Mas a esfera do globo nos esperava.
Se o presente estava cheio de alegria, o passado chamava a contas, para que o futuro se harmonizasse com a lei eterna.
Não podíamos pagar à Terra com bônus-hora e sim com o suor honrado, fruto de trabalhos.
Dada a nossa boa-vontade, aclarava-se-nos a visão, relativamente ao pretérito doloroso.
A lei do ritmo exigia, então, nossa volta.
Aquelas afirmativas causavam-me viva impressão.
Era a primeira vez que se feria tão fundo aos meus ouvidos, na colônia, o assunto referente a encarnações pregressas.
– Senhora Laura – exclamei, interrompendo-a –, permita, por obséquio, um aparte.
Perdoe a curiosidade; no entanto, até agora, ainda não pude conhecer mais detidamente o que se relaciona com o meu passado espiritual.
Não estou isento dos laços físicos?
Não atravessei o rio da morte?
A senhora recordou o passado, logo após sua vinda, ou esperou o concurso do tempo?
– Esperei-o – replicou, sorridente –; antes de tudo, é indispensável nos despojarmos das impressões físicas.
As escamas da inferioridade são muito fortes.
É preciso grande equilíbrio para podermos recordar, edificando.
Em geral, todos temos erros clamorosos, nos ciclos da vida eterna.
Quem lembra o crime cometido costuma considerar-se o mais desventurado do Universo; e quem recorda o crime de que foi vítima, considera-se em conta de infeliz, do mesmo modo.
Portanto, somente a alma muito segura de si recebe tais atributos como realização espontânea.
As demais são devidamente controladas no domínio das reminiscências e, se tentam burlar esse dispositivo da lei, não raro tendem ao desequilíbrio e à loucura.
– Mas a senhora recordou o passado de maneira natural? – perguntei.
– Explico-me – respondeu bondosamente –; quando se me aclarou a visão interior, as lembranças vagas me causavam perturbações de vulto.
Coincidiu que meu marido partilhava o mesmo estado d’alma.
Resolvemos ambos consultar o assistente Longobardo.
Esse amigo, depois de minucioso exame das nossas impressões, nos encaminhou aos magnetizadores do Ministério do Esclarecimento.
Recebidos com carinho, tivemos acesso em primeiro lugar à Seção do Arquivo, onde todos nós temos anotações particulares.
Aconselharam-nos os técnicos daquele Ministério a ler nossas próprias memórias, durante dois anos, sem prejuízo de nossa tarefa do Auxílio, abrangendo o período de três séculos.
O chefe do serviço de Recordações não nos permitiu a leitura de fases anteriores, declarando-nos incapazes de suportar as lembranças correspondentes a outras épocas.
– E bastou a leitura para que se sentisse na posse das reminiscências? – atalhei, curioso.
– Não.
A leitura apenas informa.
Depois de longo período de meditação para esclarecimento próprio, e como surpresas indescritíveis, fomos submetidos a determinadas operações psíquicas, a fim de penetrar os domínios emocionais das recordações.
Os Espíritos técnicos no assunto nos aplicaram passes no cérebro, despertando certas energias adormecidas...
Ricardo e eu ficamos, então, senhores de trezentos anos de memória integral.
Compreendemos, então, quão grande é ainda o nosso débito para com as organizações do planeta!...
– E onde está nosso irmão Ricardo? Como estimaria conhecê-lo!... – exclamei sob forte impressão.
A genitora de Lísias meneou significativamente a cabeça e murmurou:
– Em vista de nossas observações referentes ao passado, combinamos novo encontro nas esferas da crosta.
Temos trabalho, muito trabalho, na Terra.
Desse modo, Ricardo partiu há três anos.
Quanto a mim, seguirei dentro de breves dias.
Aguardo apenas a chegada de Teresa, para deixá-la junto aos nossos.
E de olhar vago, como se a mente estivesse muito longe, ao lado da filha ainda retida na Terra, a senhora Laura acentuou:
– A mãe de Eloísa não tardará.
A passagem dela através do Umbral será somente de algumas horas, em vista dos seus profundos sacrifícios, desde a infância.
Pelo muito que sofreu não precisará dos tratamentos da Regeneração.
Poderei, portanto, transmitir-lhe minhas obrigações no Auxílio e partir sossegada.
O Senhor não nos esquecerá.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier

Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Fevereiro de 2019, 11:20
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22 O Bônus-Hora

Notando que a senhora Laura entristecera subitamente ao recordar o marido, modifiquei o rumo da palestra, interrogando:
– Que me diz do bônus-hora? Trata-se de algum metal amoedado?
Minha interlocutora perdeu o aspecto cismativo, a que se recolhera, e replicou, atenciosa:
– Não é propriamente moeda, mas ficha de serviço individual, funcionando como valor aquisitivo.
– Aquisitivo? – perguntei abruptamente.
– Explico-me – respondeu a bondosa senhora –; em “Nosso Lar” a produção de vestuário e alimentação elementares pertence a todos em comum.
Há serviços centrais de distribuição na Governadoria e departamentos do mesmo trabalho nos Ministérios.
O celeiro fundamental é propriedade coletiva.
Ante meu gesto silencioso de espanto, acentuou:
– Todos cooperam no engrandecimento do patrimônio comum e dele vivem.
Os que trabalham, porém, adquirem direitos justos.
Cada habitante de “Nosso Lar” recebe provisões de pão e roupa, no que se refere ao estritamente necessário; mas os que se esforçam na obtenção do bônus-hora conseguem certas prerrogativas na comunidade social.
O Espírito que ainda não trabalha, poderá ser abrigado aqui; no entanto, os que cooperem podem ter casa própria.
O ocioso vestirá, sem dúvida; mas o operário dedicado vestirá o que melhor lhe pareça; compreendeu?
Os inativos podem permanecer nos campos de repouso, ou nos parques de tratamento, favorecidos pela intercessão de amigos; entretanto, as almas operosas conquistam o bônus-hora e podem gozar a companhia de irmãos queridos, nos lugares consagrados ao entretenimento, ou o contato de orientadores sábios, nas diversas escolas dos Ministérios em geral.
Precisamos conhecer o preço de cada nota de melhoria e elevação.
Cada um de nós, os que trabalhamos, deve dar, no mínimo, oito horas de serviço útil, nas vinte e quatro de que o dia se constitui.
Os programas de trabalho, porém, são numerosos e a Governadoria permite quatro horas de esforço extraordinário, aos que desejem colaborar no trabalho comum, de boa-vontade.
Desse modo, há muita gente que consegue setenta e dois bônus-hora, por semana, sem falar dos serviços sacrificiais, cuja remuneração é duplicada e, às vezes, triplicada.
– Mas, é esse o único título de remuneração? – perguntei.
– Sim, é o padrão de pagamento a todos os colaboradores da colônia, não só na administração, como também na obediência.
Lembrando as organizações terrestres, indaguei, espantado:
– Todavia, como conciliar semelhante padrão com a natureza do serviço?
O administrador ganhará oito bônus-hora na atividade normal do dia, e o operário do transporte receberá a mesma coisa?
Não é o trabalho do primeiro mais elevado que o do segundo?
A senhora sorriu à pergunta e explicou:
– Tudo é relativo.
Se, na orientação ou na subalternidade, o trabalho é de sacrifício pessoal, a expressão remunerativa é justamente multiplicada.
Examinando, porém, mais detidamente a sua pergunta, precisamos, antes de mais nada, esquecer determinados prejuízos da Terra.
A natureza do serviço é problema dos mais importantes; contudo, na própria esfera da crosta é que o assunto apresenta solução mais difícil.
A maioria dos homens encarnados está simplesmente ensaiando o espírito de serviço e aprendendo a trabalhar nos diversos setores da vida humana.
Por isso mesmo, é imprescindível fixar as remunerações terrestres com maior atenção.
Todo o ganho externo do mundo é lucro transitório.
Vemos trabalhadores obcecados pela questão de ganhar, transmitindo fortunas vultosas à inconsciência e à dissipação; outros amontoam expressões bancárias que lhes servem de martírio pessoal e de ruína à família.
Por outro lado, é indispensável considerar que setenta por cento dos administradores terrenos não pesam os deveres morais que lhes competem e que a mesma porcentagem pode ser adjudicada a quantos foram chamados à subordinação.
Vivem, quase todos, a confessar ausência do impulso vocacional, recebendo embora os proventos comuns aos cargos que ocupam.
Governos e empresas pagam a médicos que se entregam à exploração de interesses outros e a operários que matam o tempo.
Onde, aí, a natureza de serviço?
Há técnicos de indústria econômica que nunca prezaram integralmente a obrigação que lhes assiste e valem-se de leis magnânimas, à maneira de moscas venenosas no pão sagrado, exigindo abonos, facilidades e aposentadorias.
Creia, porém, que todos pagarão muito caro a displicência.
Parece ainda distante o tempo em que os institutos sociais poderão determinar a qualidade de serviço dos homens, porque, para o plano espiritual superior, não se especificará teor de trabalho, sem a consideração dos valores morais despendidos.
Essas palavras despertavam-me para concepções novas.
Percebendo-me a sede de instrução, a interlocutora continuou:
– O verdadeiro ganho da criatura é de natureza espiritual e o bônus-hora, em nossa organização, modifica-se em valor substancial, segundo a natureza dos nossos serviços.
No Ministério da Regeneração, temos o Bônus-hora-Regeneração; no Ministério do Esclarecimento, o Bônus-hora-Esclarecimento, e assim por diante.
Ora, examinando o provento espiritual, é razoável que a documentação de trabalho revele a essência do serviço.
As aquisições fundamentais constituem-se de experiência, educação, enriquecimento de bênçãos divinas, extensão de possibilidades.
Nesse prisma, os fatores assiduidade e dedicação representam, aqui, quase tudo.
Em geral, em nossa cidade de transição, a maioria prepara-se com vistas à necessidade de regresso aos círculos carnais.
Examinando esse princípio, é natural que o homem que empregou cinco mil horas, em serviços regeneradores, tenha efetuado esforço sublime, a benefício de si mesmo; o que despendeu seis mil horas de atividade, no Ministério do Esclarecimento, estará mais sábio.
Poderemos gastar os bônus-hora conquistados; entretanto, é mais valioso ainda o registro individual da contagem de tempo de serviço útil, que nos confere direito a preciosos títulos.
Semelhantes instruções interessavam-me profundamente.
– Poderemos, porém, gastar nossos bônus-hora a favor dos amigos?
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Fevereiro de 2019, 11:21
– indaguei curioso.
– Perfeitamente – disse ela –; poderemos repartir as bênçãos de nosso esforço com quem nos aprouver.
Isto é direito inalienável do trabalhador fiel.
Contam-se por milhares as pessoas favorecidas em “Nosso Lar”, pela movimentação da amizade e do estímulo fraternal.
A essa altura, a genitora de Lísias sorriu e observou:
– Quanto maior a contagem do nosso tempo de trabalho, maiores intercessões podemos fazer.
Compreendemos, aqui, que nada existe sem preço e que para receber é indispensável dar alguma coisa.
Pedir, portanto, é ocorrência muito significativa na existência de cada um.
Somente poderão rogar providências e dispensar obséquio os portadores de títulos adequados, entendeu?
– E o problema da herança? – inquiri de repente.
– Não temos aqui demasiadas complicações – respondeu a senhora Laura, sorrindo.
– Vejamos, por exemplo, o meu caso.
Aproxima-se o tempo do meu regresso aos planos da crosta.
Tenho comigo três mil Bônus-hora-Auxílio, no meu quadro de economia pessoal.
Não posso legá-los a minha filha que está a chegar, por que esses valores serão revertidos ao patrimônio comum, permanecendo minha família apenas com o direito de herança ao lar; no entanto, minha ficha de serviço autoriza-me a interceder por ela e preparar-lhe aqui trabalho e concurso amigo, assegurando-me, igualmente, o valioso auxílio das organizações de nossa colônia espiritual, durante minha permanência nos círculos carnais.
Nesse cômputo, deixo de referir-me ao lucro maravilhoso que adquiri no capítulo da experiência, nos anos de cooperação no Ministério do Auxílio.
Volto à Terra, investida de valores mais altos e demonstrando qualidades mais nobres de preparação ao êxito desejado.
Ia prorromper em exclamações admirativas, referentes ao processo simples de ganhar, aproveitar, cooperar e servir, confrontando aquelas soluções com os princípios imperantes no planeta, mas um brando burburinho aproximou-se da casa.
Antes que pudesse emitir qualquer observação, a senhora Laura murmurou, satisfeita:
– Nossos queridos estão de volta.
E levantou-se para atender.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 02 de Março de 2019, 18:59
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23 Saber Ouvir

Intimamente, lamentei a interrupção da palestra.
Os esclarecimentos da senhora Laura fortaleciam-me o coração.
Lísias entrou em casa visivelmente satisfeito.
– Olá! Ainda não se recolheu? – perguntou, sorridente.
E, enquanto os jovens se despediam, convidava-me, solícito:
– Venha ao jardim, pois ainda não viu o luar destes sítios.
A dona da casa entrava em conversação com as filhas, enquanto acompanhando Lísias fui aos canteiros em flor.
O espetáculo apresentava-se soberbo!
Habituado à reclusão hospitalar, entre grandes árvores, ainda não conhecia o quadro maravilhoso que a noite clara apresentava, ali, nos vastos quarteirões do Ministério do Auxílio.
Glicínias de prodigiosa beleza enfeitavam a paisagem.
Lírios de neve, matizados de ligeiro azul ao fundo do cálice, pareciam taças, de caricioso aroma.
Respirei a longos haustos, sentindo que ondas de energia nova me penetravam o ser.
Ao longe, as torres da Governadoria mostravam belos efeitos de luz.
Deslumbrado, não conseguia emitir impressões.
Esforçando-me para exteriorizar a admiração que me invadia a alma, falei comovidamente:
 – Nunca presenciei tamanha paz! Que noite!...
O companheiro sorriu e acentuou:
– Há compromisso entre todos os habitantes equilibrados da colônia, no sentido de não se emitirem pensamentos contrários ao bem.
Dessa arte, o esforço da maioria se transforma numa prece quase perene.
Dai nascerem as vibrações de paz que observamos.
Após enlevar-me na contemplação do quadro prodigioso, como se estivesse bebendo a luz e a calma da noite, voltamos ao interior, onde Lísias se aproximou de pequeno aparelho postado na sala, à maneira de nossos receptores radiofônicos.
Aguçou-se-me a curiosidade.
Que iríamos ouvir? Mensagens da Terra?
Vindo ao encontro de minhas interrogações íntimas, o amigo esclareceu:
– Não ouviremos vozes do planeta.
Nossas transmissões baseiam-se em forças vibratórias mais sutis que as da esfera da crosta.
– Mas não há recurso – indaguei – para recolher as emissões terrestres?
– Sem dúvida que temos elementos para fazê-lo, em todos os Ministérios; entretanto, no ambiente doméstico o problema de nossa atualidade é essencial.
A programação do serviço necessário, as notas da Espiritualidade Superior e os ensinamentos elevados vivem, agora, para nós outros, muito acima de qualquer cogitação terrestre.
A observação era justa; mas, habituado ao apego doméstico, inquiri, de pronto:
– Será tanto assim?
E  os parentes que ficaram a distância? Nossos pais, nossos filhos?
– Já esperava essa pergunta:
Nos círculos terrestres somos levados, muitas vezes, a viciar as situações.
A hipertrofia do sentimento é mal comum de quase todos nós.
Somos, por lá, velhos prisioneiros da condição exclusivista.
Em família, isolamo-nos frequentemente no cadinho do sangue e esquecemos o resto das obrigações.
Vivemos distraídos dos verdadeiros princípios de fraternidade.
Ensinamo-los a todo mundo, mas, em geral, chegado o momento do testemunho, somos solidários apenas com os nossos.
Aqui, porém, meu amigo, a medalha da vida apresenta a outra face.
É preciso curar nossas velhas enfermidades e sanar injustiças.
No início da colônia, todas as moradias, ao que sabemos, ligavam-se com os núcleos de evolução terrestre.
Ninguém suportava a ausência de notícias da parentela comum.
Do Ministério da Regeneração ao da Elevação, vivia-se em constante guerra nervosa.
Boatos assustadores perturbavam as atividades em geral.
Mas, precisamente há dois séculos, um dos generosos Ministros da União Divina compelia a Governadoria a melhorar a situação.
O ex-governador era talvez demasiadamente tolerante.
A bondade desviada provoca indisciplinas e quedas.
E, de quando em quando, as notícias dos afeiçoados terrestres punham muitas famílias em polvorosa.
Os desastres coletivos no mundo, quando interessassem algumas entidades em “Nosso Lar”, eram aqui verdadeiras calamidades públicas.
Segundo nosso arquivo, a cidade era mais um departamento do Umbral, que propriamente zona de refazimento e instrução.
Amparado pela União Divina, o Governador proibiu o intercâmbio generalizado.
Houve luta.
Mas o Ministro generoso, que incrementou a medida, valeu-se do ensinamento de Jesus que manda os mortos enterrarem seus mortos e a inovação se tornou vitoriosa em pouco tempo.
– Entretanto – objetei –, seria interessante colher notícias dos nossos amados em trânsito na Terra.
Não daria isso mais tranquilidade à alma?
Lísias, que permanecia junto ao receptor, sem ligá-lo, como interessado em me fornecer explicações mais amplas, acrescentou:
– Observe a si mesmo, a fim de ver se valeria a pena.
Está preparado, por exemplo, para manter a precisa serenidade, esperando com fé e agindo com os preceitos divinos, em sabendo que um filho de seu coração está caluniado ou caluniando?
Se alguém o informasse, agora, de que um dos seus irmãos consanguíneos foi hoje encarcerado como criminoso, teria bastante força para conservar-se tranquilo?
Sorri, desapontado.
– Não devemos procurar notícias dos planos inferiores – prosseguiu, solícito – senão para levar auxílios justos.
Convenhamos, porém, que a criatura alguma auxiliará com justiça, experimentando desequilíbrios do sentimento e do raciocínio.
Por isso, é indispensável a preparação conveniente, antes de novos contatos com os parentes terrenos.
Se eles oferecessem campo adequado ao amor espiritual, o intercâmbio seria desejável; mas esmagadora porcentagem de encarnados não alcançou, ainda, nem mesmo o domínio próprio e vive às tontas, nos altos e baixos das flutuações de ordem material.
Precisamos, embora as dificuldades sentimentais, evitar a queda nos círculos vibratórios inferiores.
Contudo, evidenciando minha teimosia caprichosa, indaguei:
– Mas, Lísias, você que tem um amigo encarnado, qual seu pai, não gostaria de comunicar-se com ele?
– Sem dúvida – respondeu bondosamente –, quando merecemos essa alegria, visitamo-lo em sua nova forma, verificando-se o mesmo, quando se trata de qualquer expressão de intercâmbio entre ele e nós.
Não devemos esquecer, entretanto, que somos criaturas falíveis.
Necessitamos, pois, recorrer aos órgãos competentes, que determinem a oportunidade ou o merecimento exigidos.
Para esse fim, temos o Ministério da Comunicação.
Acresce notar que, da esfera superior, é possível descer à inferior com mais facilidade.
Existem, contudo, certas leis que mandam compreender devidamente os que se encontram nas zonas mais baixas.
É tão importante saber falar como saber ouvir.
“Nosso Lar” vivia em perturbações porque, não sabendo ouvir, não podia auxiliar com êxito e a colônia transformava-se, frequentemente, em campo de confusão.
Calei-me vencido pelo argumento ponderoso.
E, enquanto me conservava em silêncio, o enfermeiro amigo abriu o controle de recepção sob meus olhos curiosos.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Março de 2019, 10:50
NOSSO LAR
24 O Impressionante Apelo

Ligado o receptor, suave melodia derramou-se no ambiente, embalando-nos em harmoniosa sonoridade, vendo-se no espelho da televisão a figura do locutor, no gabinete de trabalho.
Daí a instantes, começou ele a falar:
– Emissora do Posto Dois, de “Moradia”.
Continuamos a irradiar o apelo da colônia, em benefício da paz na Terra.
Concitamos os colaboradores de bom ânimo a congregar energias no serviço de preservação do equilíbrio moral nas esferas do globo.
Ajudai-nos, quantos puderem ceder algumas horas de cooperação nas zonas de trabalho que ligam as forças obscuras do Umbral à mente humana.
Negras falanges da ignorância, depois de espalharem os fachos incendiários da guerra na Ásia, cercam as nações europeias, impulsionando-as a novos crimes.
Nosso núcleo, junto aos demais que se consagram ao trabalho de higiene espiritual, nos círculos mais próximos da crosta, denuncia esses movimentos dos poderes concentrados do mal, pedindo concurso fraterno e auxílio possível.
Lembrai-vos de que a paz necessita de trabalhadores de defesa!
Colaborai conosco na medida de vossas forças!...
Há serviço para todos, desde os campos da crosta às nossas portas! ...
Que o Senhor nos abençoe.
Interrompeu-se a voz, ouvindo-se divina música, novamente.
A inflexão do estranho convite abalara-me as fibras mais íntimas.
Veio Lísias em meu socorro, explicando:
– Estamos ouvindo “Moradia”, velha colônia de serviços muito ligada às zonas inferiores.
Como sabe, estamos em agosto de 1939.
Seus últimos sofrimentos pessoais não lhe deram tempo para ponderar sobre a angustiosa situação do mundo, mas posso afiançar que as nações do planeta se encontram na iminência de tremendas batalhas.
– Que diz? – indaguei, aterrado – pois não bastou o sangue da última grande guerra?
Lísias sorriu, fixando em mim os olhos brilhantes e profundos, como a lastimar em silêncio a gravidade da hora humana.
Pela primeira vez o enfermeiro amigo não me respondeu.
Seu mutismo constrangera-me.
Assombrava-me, sobretudo, a imensidade dos serviços espirituais nos planos de vida nova a que me recolhera.
Pois havia cidades de espíritos generosos, suplicando socorro e cooperação?
Apresentara-se a voz do locutor com entonação de verdadeiro S.O.S..
Vira-lhe a fisionomia abatida, no espelho da televisão.
Demonstrava ansiedade profunda nos olhos inquietos.
E a linguagem?
Ouvira-lhe nitidamente o idioma português, claro e correto.
Julgava que todas as colônias espirituais se intercomunicassem pelas vibrações do pensamento.
Havia, ainda ali, tão grande dificuldade no capítulo do intercâmbio?
Identificando-me as perplexidades, Lísias esclareceu:
– Estamos ainda muito longe das regiões ideais da mente pura.
Tal como na Terra, os que se afinam perfeitamente entre si podem permutar pensamentos, sem as barreiras idiomáticas; mas, de modo geral, não podemos prescindir da forma, no lato sentido da expressão.
Nosso campo de lutas é imensurável.
A humanidade terrestre, constituída de milhões de seres, une-se à humanidade invisível do planeta, que integra muitos bilhões de criaturas.
Não seria, portanto, possível atingir as zonas aperfeiçoadas, logo após a morte do corpo físico.
Os patrimônios nacionais e linguísticos remanescem ainda aqui, condicionados à fronteiras psíquicas.
Nos mais diversos setores de nossa atividade espiritual existe elevado número de Espíritos libertos de todas as limitações, mas insta considerar que a regra é sofrer-se dessas restrições. Nada enganará o princípio de sequência, imperante nas leis evolutivas.
Nesse ínterim, interrompia-se a música, voltando o locutor:
– Emissora do Posto Dois, de “Moradia”. Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra.
Nevoeiros pesados amontoam-se ao longo dos céus da Europa.
Forças tenebrosas do Umbral penetram em todas as direções, respondendo ao apelo das tendências mesquinhas do homem.
Há muitos benfeitores devotados, lutando com sacrifícios em favor da concórdia internacional, nos gabinetes políticos.
Alguns governos, no entanto, se encontram excessivamente centralizados, oferecendo escassas possibilidades à colaboração de natureza espiritual.
Sem órgãos de ponderação e conselho desapaixonado, caminham esses países para uma guerra de grandes proporções.
Oh! Irmãos muito amados, dos núcleos superiores, auxiliemos a preservação da tranquilidade humana!...
Defendamos os séculos de experiência de numerosas pátrias-mães da Civilização Ocidental!... Que o Senhor nos abençoe.
Calou-se o locutor e voltaram as cariciosas melodias.
O enfermeiro permaneceu em silêncio, que não ousei interromper.
Após cinco minutos de harmonia repousante, a mesma voz se fez novamente ouvir:
– Emissora do Posto Dois, de “Moradia”.
Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra.
Companheiros e irmãos, invoquemos o amparo das poderosas Fraternidades da Luz, que presidem aos destinos da América!
Cooperai conosco na salvação de milenários patrimônios da evolução terrestre!
Marchemos em socorro das coletividades indefesas, amparemos os corações maternais sufocados de angústia!
Nossas energias estão empenhadas em vigoroso duelo com as legiões da ignorância.
Quanto estiver ao vosso alcance, vinde em nosso auxílio!
Somos a parte invisível da humanidade terrestre, e muitos de nós volveremos aos fluidos carnais para resgatar prístinos erros.
A humanidade encarnada é igualmente nossa família.
Unamo-nos numa só vibração.
Contra o assédio das trevas, acendamos a luz; contra a guerra do mal, movimentemos a resistência do bem.
Rios de sangue e lágrimas ameaçam os campos das comunidades europeias.
Proclamemos a necessidade do trabalho construtivo, dilatemos nossa fé...
Que o Senhor nos abençoe.
A essa altura, desligou Lísias o aparelho e vi-o enxugar discretamente uma lágrima, que seus olhos não conseguiam conter.
Num gesto expressivo, falou, comovido:
– Grandes abnegados, os irmãos de “Moradia”!
Tudo inútil, porém – acentuou, triste, depois de ligeira pausa –, a humanidade terrestre pagará, em dias próximos, terríveis tributos de sofrimento.
– Não há, todavia, recurso para conjurar a tremenda catástrofe? – perguntei, sensibilizado.
– Infelizmente acrescentou Lísias em tom grave e doloroso – a situação geral é muito crítica.
Para atender às solicitações de “Moradia” e de outros núcleos que funcionam nas vizinhanças do Umbral, reunimos aqui numerosas assembleias, mas o Ministério da União Divina esclareceu que a humanidade carnal, como personalidade coletiva, está nas condições do homem insaciável que devorou excesso de substâncias no banquete comum.
A crise orgânica é inevitável.
Nutriram-se várias nações de orgulho criminoso, vaidade e egoísmo feroz.
Experimentam, agora, a necessidade de expelir os venenos letais.
Demonstrando, entretanto, o propósito de não prosseguir no amarguroso assunto, Lísias convidou-me a recolher.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 17 de Março de 2019, 10:08
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25 Generoso Alvitre

No dia imediato, muito cedo, fiz leve refeição em companhia de Lísias e familiares.
Antes que os filhos se despedissem, rumo ao trabalho do Auxílio, a senhora Laura encorajou-me o espírito hesitante, dizendo, bem-humorada:
– Já lhe arranjei companhia para hoje.
Nosso amigo Rafael, funcionário da Regeneração, passará por aqui, a meu pedido.
Poderá aceitar-lhe a companhia em direção ao novo Ministério.
Rafael é antiga relação de nossa família e apresentá-lo-á, em meu nome, ao Ministro Genésio. Não poderia explicar o contentamento que me dominou a alma.
Estava radiante.
Agradeci, comovido, sem encontrar palavras que definissem meu júbilo.
Lísias, por sua vez, demonstrou grande alegria.
Abraçou-me efusivamente antes de sair, sensibilizando-me o coração.
Ao beijar o filho, a senhora Laura recomendou:
– Você, Lísias, avise ao Ministro Clarêncio que comparecerei ao expediente, logo que entregue nosso amigo aos cuidados de Rafael.
Comovidíssimo, eu não conseguia agradecer tamanha dedicação.
Ficando a sós, a desvelada genitora do meu amigo dirigiu-me a palavra carinhosa:
– Meu irmão, permita-me algumas indicações para os seus novos caminhos.
Creio que a colaboração maternal sempre vale alguma coisa e, já que sua mãezinha não reside em “Nosso Lar”, reivindico a satisfação de orientá-lo neste momento.
– Gratíssimo – respondi, sensibilizado –; nunca saberei traduzir meu reconhecimento à sua atenção.
Sorriu a bondosa senhora, acrescentando:
– Estou informada de que pediu trabalho há algum tempo...
– Sim, sim... – esclareci, relembrando as elucidações de Clarêncio.
– Sei, igualmente, que não o obteve de pronto, recebendo, mais tarde, a necessária autorização para visitar os Ministérios que nos ligam mais fortemente à Terra.
Esboçando significativa expressão fisionômica, a boa senhora acrescentou:
– É justamente neste sentido que lhe ofereço minhas sugestões humildes.
Falo com o direito de experiência maior.
Detendo, agora, essa autorização, abandone, quanto lhe seja possível, os propósitos de mera curiosidade.
Não deseje personificar a mariposa, de lâmpada em lâmpada.
Sei que seu espírito de pesquisa intelectual é muito forte.
Médico estudioso, apaixonado de novidades e enigmas, ser-lhe-á muito fácil deslizar na posição nova.
Não esqueça que poderá obter valores mais preciosos e dignos que a simples análise das coisas.
A curiosidade, mesmo sadia, pode ser zona mental muito interessante, mas perigosa, por vezes.
Dentro dela, o espírito desassombrado e leal consegue movimentar-se em atividades nobilitantes; mas os indecisos e inexperientes podem conhecer dores amargas, sem proveito para ninguém.
Clarêncio ofereceu-lhe ingresso nos Ministérios, começando pela Regeneração.
Pois bem: não se limite a observar.
Ao invés de albergar a curiosidade, medite no trabalho e atire-se a ele na primeira ocasião que se ofereça.
Surgindo ensejo nas tarefas da Regeneração, não se preocupe em alcançar o espetáculo dos serviços nos demais Ministérios.
Aprenda a construir o seu círculo de simpatias e não olvide que o espírito de investigação deve manifestar-se após o espírito de serviço.
Pesquisar atividades alheias, sem testemunhos no bem, pode ser criminoso atrevimento.
Muitos fracassos, nas edificações do mundo, originam-se de semelhante anomalia.
Todos querem observar, raros se dispõem a realizar.
Somente o trabalho digno confere ao Espírito o merecimento indispensável a quaisquer direitos novos.
O Ministério da Regeneração está repleto de lutas pesadas, localizando-se ali a região mais baixa de nossa colônia espiritual.
Saem de lá todas as turmas destinadas aos serviços mais árduos.
Não se considere, porém, humilhado por atender às tarefas humildes.
Lembro-lhe que em todas as nossas esferas, desde o planeta até os núcleos mais elevados das zonas superiores, em nos referindo à Terra, o Maior Trabalhador é o próprio Cristo e que Ele não desdenhou o serrote pesado de uma carpintaria.
O Ministro Clarêncio autorizou-o, gentilmente, a conhecer, visitar e analisar; mas pode, como servidor de bom senso, converter observações em tarefa útil.
É possível receber alguém dos que administram, quando peça determinado gênero de atividade reservada, com justiça, aos que muito hão lutado e sofrido no capítulo da especialização; mas ninguém se recusará a aceitar o concurso do espírito de boa-vontade, que ama o trabalho pelo prazer de servir.
Meus olhos estavam úmidos.
Aquelas palavras, pronunciadas com meiguice maternal, caíam-me no coração como bálsamo precioso.
Poucas vezes sentira na vida tanto interesse fraternal pela minha sorte.
Semelhante conselho calava-me no fundo d’alma e, como se desejasse temperar com amor os criteriosos conceitos, a senhora Laura acrescentou com inflexão carinhosa:
– A ciência de recomeçar é das mais nobres que nosso espírito pode aprender.
São muito raros os que a compreendem nas esferas da crosta.
Temos escassos exemplos humanos, nesse sentido.
Lembremos, contudo, o de Paulo de Tarso, Doutor do Sinédrio, esperança de uma raça, pela cultura e pela mocidade, alvo de geral atenção em Jerusalém, que voltou, um dia, ao deserto para recomeçar a experiência humana, como tecelão rústico e pobre.
Não pude mais.
Tomei-lhe as mãos, como filho agradecido, e cobrias do pranto jubiloso que me inundava o coração.
A genitora de Lísias, agora de olhos fixos no horizonte, murmurou:
– Muito grata, meu irmão.
Creio que você não veio a esta casa atendendo ao mecanismo da casualidade.
Estamos todos entrelaçados em teia de amizade secular.
Brevemente voltarei ao círculo da carne; entretanto, continuaremos sempre unidos pelo coração.
Espero vê-lo animado e feliz, antes de minha partida.
Faça desta casa a sua habitação.
Trabalhe e anime-se, confiando em Deus.
Levantei os olhos rasos d’água, fixei-lhe a expressão carinhosa, experimentei a felicidade que nasce dos afetos puros e tive impressão de conhecer minha interlocutora, de velhos tempos, embora tentasse, debalde, identificar-lhe o carinho nas reminiscências mais distantes.
Quis beijá-la muitas vezes, com o enternecimento filial do coração, mas, nesse instante, alguém bateu à porta.
Fitou-me a senhora Laura, mostrando indefinível ternura maternal e falou:
– É Rafael que vem buscá-lo.
Vá, meu amigo, pensando em Jesus.
Trabalhe para o bem dos outros, para que possa encontrar seu próprio bem.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Março de 2019, 13:27
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26 Novas Perspectivas

Ponderando as sugestões carinhosas e sábias da mãe de Lísias, acompanhei Rafael, convicto de que iria, não às visitas de observações, mas ao aprendizado e serviço útil.
Anotava, surpreso, os magníficos aspectos da nova região, rumo ao local onde me aguardava o Ministro Genésio; contudo, seguia Rafael, em silêncio, estranho agora ao prazer das muitas indagações.
Em compensação, experimentava novo gênero de atividade mental.
Dava-me todo à oração, pedindo a Jesus me auxiliasse nos caminhos novos, a fim de que me não faltasse trabalho e forças para realizá-lo.
Antigamente avesso às manifestações da prece, agora a utilizava como valioso ponto de referência sentimental aos propósitos de serviço.
O próprio Rafael, de quando em vez, lançava-me curioso olhar, como se não devesse esperar tal atitude de minha parte.
Deixou-nos o aeróbus à frente de espaçoso edifício.
Descemos, calados.
Em poucos minutos, achava-me diante do respeitável Genésio, um velhinho simpático, cujo semblante revelava, entretanto, singular energia.
Rafael apresentou-me fraternalmente:
 – Ah! Sim disse o generoso Ministro –, é o nosso irmão André?
– Para servi-lo – respondi.
– Tenho notificação de Laura, referente à sua vinda.
Fique à vontade.
Nesse ínterim, o companheiro aproximou-se respeitosamente e despediu-se, abraçando-me em seguida.
Rafael era esperado com urgência no setor de tarefas a seu cargo.
Fixando em mim os olhos muito lúcidos, Genésio começou a dizer:
– Clarêncio falou-me a seu respeito, com interesse.
Quase sempre recebemos pessoal do Ministério do Auxílio, em visita de observações que, na sua maior parte, redundam em estágios de serviço.
Compreendi a sutil alusão e obtemperei:
– Este o meu maior desejo.
Tenho mesmo suplicado às Forças Divinas que me ajudem o espírito frágil, permitindo seja convertida a minha permanência, neste Ministério, em estação de aprendizado.
Genésio parecia comovido com as minhas palavras e, valendo-me das inspirações que me inclinavam à humildade, roguei, de olhos úmidos:
– Senhor Ministro, compreendo agora que minha passagem pelo Ministério do Auxílio se verificou por efeito da graça misericordiosa do Altíssimo, talvez devido a constante intercessão de minha devotada e santa mãe.
Noto, porém, que somente venho recebendo benefícios, sem nada produzir de útil.
Certo, meu lugar é aqui, nas atividades regeneradoras.
Se possível, faça, por obséquio, seja transformada a concessão de visitar em possibilidade de servir.
Compreendo hoje, mais que nunca, a necessidade de regenerar meus próprios valores.
Perdi muito tempo na vaidade inútil, fiz enormes gastos de energia na ridícula adoração de mim mesmo!...
Satisfeito, notava ele, no fundo de meu coração, a sinceridade viva.
Quando eu recorrera ao Ministro Clarêncio, não estava ainda bastante consciente do que pedia.
Queria serviço, mas talvez não desejasse servir.
Não entendia o valor do tempo, nem enxergava as bênçãos santificantes da oportunidade.
No fundo, era o desejo de continuar a ser o que tinha sido até então – o médico orgulhoso e respeitado, cego nas pretensões descabidas do egotismo em que vivia, encarcerado nas opiniões próprias.
No entanto, agora, diante do que vira e ouvira, compreendendo a responsabilidade de cada filho de Deus na obra infinita da Criação, punha nos lábios quanto possuía de melhor.
Era sincero, enfim.
Não me preocupava o gênero de tarefa, procurava o conteúdo sublime do espírito de serviço.
O velhinho fitou-me, surpreendido, e perguntou:
– É mesmo você o ex-médico?
– Sim... – murmurei, acanhado.
Genésio calou por momentos, como buscando resolução para o caso, dizendo, então:
– Louvo seus propósitos e peço igualmente ao Senhor o conserve nessa posição digna.
E, como que preocupado em levantar-me o ânimo e acender-me no espírito novas esperanças, acentuou:
– Quando o discípulo está preparado, o Pai envia o instrutor.
O mesmo se dá, relativamente ao trabalho.
Quando o servidor está pronto, o serviço aparece.
O meu amigo tem recebido enormes recursos da Providência.
Está bem disposto à colaboração, compreende a responsabilidade, aceita o dever.
Tal atitude é sumamente favorável à concretização dos seus desejos.
Nos círculos carnais, costumamos felicitar um homem quando ele atinge prosperidade financeira ou excelente figuração externa; entretanto, aqui a situação é diferente.
Estima-se a compreensão, o esforço próprio, a humildade sincera.
Identificando-me a ansiedade, concluiu:
– É possível obter ocupações justas.
Por enquanto, porém, é preferível que visite, observe, examine.
E logo, ligando-se ao gabinete próximo, falou em voz alta:
– Solicito a presença de Tobias, antes que se dirija às Câmaras de Retificação.
Não se passaram muitos minutos e assomou à porta um senhor de maneiras desembaraçadas.
– Tobias – explicou Genésio, atencioso –, aqui tem um amigo que vem do Ministério do Auxílio, em tarefa de observação.
Creio de muito proveito para ele o contato com as atividades das câmaras retificadoras.
Estendi-lhe a mão, enquanto o desconhecido correspondia, afirmando, gentil:
– Às suas ordens.
– Conduza-o – prosseguiu o ministro, evidenciando grande bondade –. André precisa integrar-se no conhecimento mais íntimo de nossas tarefas.
Faculte-lhe toda oportunidade de que possamos dispor.
Prontificou-se Tobias, revelando a maior boa-vontade.
– Estou de caminho – acrescentou ele, bem-humorado –, se deseja acompanhar-me...
– Perfeitamente – respondi, satisfeito.
O Ministro Genésio abraçou-me, comovido, com palavras de animação.
Segui Tobias resolutamente.
Atravessamos largos quarteirões, onde numerosos edifícios me pareceram colmeias de serviço intenso.
Percebendo-me a silenciosa indagação, o novo amigo esclareceu:
– Temos aqui as grandes fábricas de “Nosso Lar”.
A preparação de sucos, de tecidos e artefatos em geral, dá trabalho a mais de cem mil criaturas, que se regeneram e se iluminam ao mesmo tempo.
Daí a momentos, penetramos num edifício de aspecto nobre.
Servidores numerosos iam e vinham.
Depois de extensos corredores, deparou-se-nos vastíssima escadaria, comunicando com os pavimentos inferiores.
– Desçamos – disse Tobias em tom grave.
E notando minha estranheza, explicou, solícito:
– As Câmaras de Retificação estão localizadas nas vizinhanças do Umbral.
Os necessitados que aí se reúnem não toleram as luzes, nem a atmosfera de cima, nos primeiros tempos de moradia em “Nosso Lar”.

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NOSSO LAR –
1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 31 de Março de 2019, 13:31
NOSSO LAR
27 O Trabalho, Enfim

Nunca poderia imaginar o quadro que se desenhava agora aos meus olhos.
Não era bem o hospital de sangue, nem o instituto de tratamento normal da saúde orgânica.
Era uma série de câmaras vastas, ligadas entre si e repletas de verdadeiros despojos humanos.
Singular vozerio pairava no ar.
Gemidos, soluços, frases dolorosas pronunciadas a esmo...
Rostos escaveirados, mãos esqueléticas, fácies monstruosas deixavam transparecer terrível miséria espiritual.
Tão angustiosas foram minhas primeiras impressões que procurei os recursos da prece para não fraquejar.
Tobias, imperturbável, chamou velha servidora, que acudiu atenciosamente:
– Vejo poucos auxiliares – disse admirado –, que aconteceu?
– O Ministro Flácus – esclareceu a velhinha em tom respeitoso determinou que a maioria acompanhasse os Samaritanos para os serviços de hoje, nas regiões do Umbral.
– Há que multiplicar energias – tornou ele sereno –, não temos tempo a perder.
– Irmão Tobias!... Irmão Tobias!... Por caridade! – gritou um ancião, gesticulando, agarrado ao leito, à maneira de louco
– Estou a sufocar! Isto é mil vezes pior que a morte na Terra... Socorro! Socorro! Quero sair, sair!... Quero ar, muito ar!
Tobias aproximou-se, examinou-o com atenção e perguntou:
– Por que teria o Ribeiro piorado tanto?
– Experimentou uma crise de grandes proporções, explicou a serva – e o Assistente Gonçalves esclareceu que a carga de pensamentos sombrios, emitidos pelos parentes encarnados, era a causa fundamental desse agravo de perturbação.
Visto achar-se ainda muito fraco e sem ter acumulado força mental suficiente para desprender-se dos laços mais fortes do mundo, o pobre não tem resistido, como seria de desejar.
Enquanto o generoso Tobias acariciava a fronte do enfermo, a serviçal prosseguia esclarecendo:
– Hoje, muito cedo, ele se ausentou sem consentimento nosso, a correr desabaladamente.
Gritava que lhe exigiam a presença no lar, que não podia esquecer a esposa e os filhos chorosos; que era crueldade retê-lo aqui, distante do lar.
Lourenço e Hermes esforçaram-se por fazê-lo voltar ao leito, mas foi impossível.
Deliberei, então, aplicar alguns passes de prostração.
Subtrai-lhe as forças e a motilidade, em benefício dele mesmo.
– Fez muito bem – acentuou Tobias, pensativo –, vou pedir providências contra a atitude da família.
É preciso que ela receba maior bagagem de preocupações, para que nos deixe o Ribeiro em paz.
Fixei o doente procurando identificar-lhe a expressão íntima, verificando a legítima expressão de um dementado.
Ele chamara Tobias como a criança que conhece o benfeitor, mas acusava profundo alheamento de quanto se dizia a seu respeito.
Notando-me a admiração, o novo orientador explicou:
– O pobrezinho permanece na fase de pesadelo, em que a alma pouco mais vê e ouve que as aflições próprias.
O homem, meu caro, encontra na vida real o que amontoou para si mesmo.
Nosso Ribeiro deixou-se empolgar por numerosas ilusões.
Eu quis indagar da origem dos seus padecimentos, conhecer-lhes a procedência e o histórico da situação; entretanto, recordei as criteriosas ponderações da mãe de Lísias, relativas à curiosidade, e calei.
Tobias dirigiu ao enfermo generosas palavras de otimismo e esperança.
Prometeu que iria providenciar recurso a melhoras, que mantivesse calma em benefício próprio e que não se aborrecesse por estar preso à cama.
Ribeiro, muito trêmulo, rosto ceráceo, esboçou um sorriso muito triste e agradeceu com lágrimas.
Seguimos através de numerosas filas de camas bem cuidadas, sentindo a desagradável exalação ambiente, oriunda, como vim a saber mais tarde, das emanações mentais dos que ali se congregavam, com as dolorosas impressões da morte física e, muita vez, sob o império de baixos pensamentos.
– Reservam-se estas câmaras – explicou o companheiro bondosamente – apenas a entidades de natureza masculina.
– Tobias! Tobias... Estou morrendo à fome e sede! – bradava um estagiário.
– Socorro, irmão!... – gritava outro.
– Por amor de Deus!... Não suporto mais!... – exclamava ainda outro.
Coração alanceado ante o sofrimento de tantas criaturas, não contive a interrogação penosa:
– Meu amigo, como é triste a reunião de tantos sofredores e torturados!
Por que este quadro angustioso?
Tobias respondeu sem se perturbar:
– Não devemos observar aqui somente dor e desolação.
Lembre, meu irmão, que estes doentes estão atendidos, que já se retiraram do Umbral, onde tantas armadilhas aguardam os imprevidentes, descuidosos de si mesmos.
Nestes pavilhões, pelo menos, já se preparam para o serviço regenerador.
Quanto às lágrimas que vertem, recordemos que devem a si mesmos esses padecimentos.
A vida do homem estará centralizada onde centralize ele o próprio coração.
E depois de uma pausa, em que parecia surdo a tantos clamores, acentuou:
– São contrabandistas na vida eterna.
– Como assim? – atalhei, interessado.
O interlocutor sorriu e respondeu em voz firme:
– Acreditavam que as mercadorias propriamente terrestres teriam o mesmo valor nos planos do Espírito.
Supunham que o prazer criminoso, o poder do dinheiro, a revolta contra a lei e a imposição dos caprichos atravessariam as fronteiras do túmulo e vigorariam aqui também, oferecendo-lhes ensejos a disparates novos.
Foram negociantes imprevidentes.
Esqueceram de cambiar as posses materiais em créditos espirituais.
Não aprenderam as mais simples operações de câmbio no mundo.
Quando iam a Londres, trocavam contos de réis por libras esterlinas; entretanto, nem com a certeza matemática da morte carnal se animaram a adquirir os valores da espiritualidade.
Agora... Que fazer?
Temos os milionários das sensações físicas transformados em mendigos da alma. Realíssimo!
Tobias não podia ser mais lógico.
Meu novo instrutor, após distribuir conforto e esclarecimento a granel, conduziu-me a vasta câmara anexa, em forma de grande enfermaria, notificando:
– Vejamos alguns dos infelizes semimortos.
Narcisa, a servidora, acompanhava-nos, solícita.
Abriu-se a porta e quase cambaleei ante a surpresa angustiosa.
Trinta e dois homens de semblante patibular permaneciam inertes em leitos muito baixos, evidenciando apenas leves movimentos de respiração.
Fazendo gesto significativo com o indicador, Tobias esclareceu:
– Estes sofredores padecem um sono mais pesado que outros de nossos irmãos ignorantes.
Chamamos-lhes crentes negativos.
Ao invés de aceitarem o Senhor, eram vassalos intransigentes do egoísmo; ao invés de crerem na vida, no movimento, no trabalho, admitiam somente o nada, a imobilidade e a vitória do crime.
Converteram a experiência humana em constante preparação para um grande sono e, como não tinham qualquer ideia do bem, a serviço da coletividade, não há outro recurso senão dormirem longos anos, em pesadelos sinistros.
Não conseguia externar meu espanto.
Muito cuidadoso, Tobias começou a aplicar passes de fortalecimento, sob meus olhos atônitos.
Finda a operação nos dois primeiros, começaram ambos a expelir negra substância pela boca, espécie de vômito escuro e viscoso, com terríveis emanações cadavéricas.
– São fluidos venenosos que segregam – explicou Tobias, muito calmo.
Narcisa fazia o possível por atender prontamente à tarefa de limpeza, mas debalde. Grande número deles deixava escapar a mesma substância negra e fétida.
Foi então, que, instintivamente, me agarrei aos petrechos de higiene e lancei-me ao trabalho com ardor.
A servidora parecia contente com o auxílio humilde do novo irmão, ao passo que Tobias me dispensava olhares satisfeitos e agradecidos.
O serviço continuou por todo o dia, custando-me abençoado suor, e nenhum amigo do mundo poderia avaliar a alegria sublime do médico que recomeçava a educação de si mesmo, na enfermagem rudimentar.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Abril de 2019, 12:02
NOSSO LAR
28 Em Serviço

Encerrada a prece coletiva, ao crepúsculo, Tobias ligou o receptor, a fim de ouvir os Samaritanos em atividade no Umbral.
Justamente curioso, vim a saber que as turmas de operações dessa natureza se comunicavam com as retaguardas de tarefa, em horas convencionais.
Sentia-me algo cansado pelos intensos esforços despendidos, mas o coração entoava hinos de alegria interior.
Recebera a ventura do trabalho, afinal.
E o espírito de serviço fornece tônicos de misterioso vigor.
Estabelecido o contato elétrico, o pequenino aparelho, sob meus olhos, começou a transmitir o recado, depois de alguns minutos de espera:
– Samaritanos ao Ministério da Regeneração!...
Samaritanos ao Ministério da Regeneração!...
Muito trabalho nos abismos da sombra.
Foi possível deslocar grande multidão de infelizes, sequestrando às trevas espirituais vinte e nove irmãos.
Vinte e dois em desequilíbrio mental e sete em completa inanição psíquica.
Nossas turmas estão organizando o transporte...
Chegaremos alguns minutos depois da meia-noite...
Pedimos providenciar...
Notando que Narcisa e Tobias se entreolhavam fundamente admirados, tão logo silenciou a estranha voz, não pude conter a pergunta que me desbordava dos lábios:
– Como assim?
Por que esse transporte em massa?
Não são todos Espíritos?
Tobias sorriu e explicou:
– O irmão esquece que não chegou ao Ministério do Auxílio de outro modo.
Conheço o episódio de sua vinda.
É preciso recordar, sempre, que a Natureza não dá saltos e que, na Terra, ou nos círculos do Umbral, estamos revestidos de fluidos pesadíssimos.
São aves e têm asas, tanto o avestruz como a andorinha; entretanto, o primeiro apenas subirá às alturas se transportado, enquanto a segunda corta, célere, as vastas regiões do céu.
E deixando perceber que o momento não comportava divagações, dirigiu-se a Narcisa, ponderando:
– É muito grande a leva desta noite.
Precisamos tomar providências imediatas.
– Serão necessários muitos leitos! – murmurou a serva algo pesarosa.
– Não se aflija – respondeu Tobias resoluto –, alojaremos os perturbados no Pavilhão 7 e os enfraquecidos na Câmara 33.
Em seguida, levou a destra à fronte, como a ponderar algo muito sério, e exclamou:
– Resolveremos facilmente a questão da hospitalidade; o mesmo, porém, não se dará no concernente à assistência.
Nossos auxiliares mais fortes foram requisitados para garantir os serviços da Comunicação nas esferas da Crosta, em vista das nuvens de treva que ora envolvem o mundo dos encarnados.
Precisamos de pessoal de serviço noturno, porquanto os operários em função com os Samaritanos chegarão extremamente fatigados.
– Ofereço-me, com prazer, para o que possa aproveitar – exclamei espontaneamente.
Tobias endereçou-me um olhar de profunda simpatia, mesclada de gratidão, fazendo-me experimentar cariciosa alegria íntima.
– Mas está resolvido a permanecer nas Câmaras, durante a noite?
– perguntou, admirado.
– Outros não fazem o mesmo? – indaguei por minha vez – sinto-me disposto e forte, preciso recuperar o tempo perdido.
Abraçou-me o generoso amigo, acrescentando:
– Pois bem, aceito confiante a colaboração.
Narcisa e os demais companheiros ficarão também de guarda.
Além do mais, mandarei Venâncio e Salústio, dois irmãos de minha confiança.
Não posso permanecer aqui, de plantão noturno, em vista de compromissos anteriores; no entanto, caso necessário, você ou algum dos nossos me comunicará qualquer ocorrência de maior gravidade.
Traçarei o plano dos trabalhos, facilitando quanto possível a execução.
E descortinou-se campo enorme de providências.
Enquanto cinco servidores operavam em companhia de Narcisa, preparando roupa adequada e petrechos de enfermagem, eu e Tobias movíamos pesado material no Pavilhão 7 e na Câmara 33.
Não poderia explicar o que se passava comigo.
Apesar da fadiga dos braços, experimentava júbilo inexcedível no coração.
Na oficina, onde a maioria procura o trabalho, entendendo-lhe o sublime valor, servir constitui alegria suprema.
Não pensava, francamente, na compensação dos bônus-hora, nas recompensas imediatas que me pudessem advir do esforço; contudo, minha satisfação era profunda, reconhecendo que poderia comparecer feliz e honrado, perante minha mãe e os benfeitores que havia encontrado no Ministério do Auxílio.
Ao despedir-se, Tobias voltou a abraçar-me e falou:
– Desejo a vocês muita paz de Jesus, boa noite e serviço útil.
Amanhã, às oito horas, você poderá descansar.
O máximo de trabalho, cada dia, é de doze horas, mas estamos em circunstâncias especiais.
Respondi que as determinações me enchiam de sincero contentamento.
A sós com o grande número de enfermeiros, passei a interessar-me pelos doentes, com mais carinho.
Dentre as figuras de auxiliares presentes, impressionou-me a bondade espontânea de Narcisa, que atendia a todos, maternalmente.
Atraído pela sua generosidade, busquei aproximar-me com interesse.
Não foi difícil alcançar o prazer de sua conversação carinhosa e simples.
A velhinha amável semelhava-se a um livro sublime de bondade e sabedoria.
– Mas, a irmã aqui trabalha há muito? – perguntei, a certa altura da palestra amistosa.
– Sim, permaneço nas Câmaras de Retificação, em serviço ativo, há seis anos e alguns meses; entretanto, ainda me faltam mais de três anos para realizar meus desejos.
Ante a silenciosa indagação do meu olhar, falou Narcisa amavelmente:
– Preciso um endosso muito sério.
– Que quer dizer com isso? – perguntei interessado.
– Preciso encontrar alguns espíritos amados, na Terra, para serviços de elevação em conjunto.
Por muito tempo, em razão de meus desvios passados, roguei, em vão, a possibilidade necessária aos meus fins.
Vivia perturbada, aflita.
Aconselharam-me, porém, recorrer a Ministra Veneranda, e nossa benfeitora da Regeneração prometeu que endossaria meus propósitos no Ministério do Auxílio, mas exigiu dez anos consecutivos de trabalho aqui, para que eu possa corrigir certos desequilíbrios do sentimento.
No primeiro instante, quis recusar, considerando demasiada a exigência; depois, reconheci que ela estava com a razão.
Afinal, o conselho não visava a interesses dela e sim ao meu próprio benefício.
E ganhei muito, aceitando-lhe o parecer.
Sinto-me mais equilibrada e mais humana e, creio, viverei com dignidade espiritual minha futura experiência na Terra. Ia manifestar profunda admiração, mas um dos enfermos próximos gritou:
– Narcisa! Narcisa!
Não me cabia reter, por mera curiosidade pessoal, aquela irmã dedicada, transformada em mãe espiritual dos sofredores.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Abril de 2019, 14:04
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29 A Visão de Francisco

Enquanto Narcisa consolava o doente aflito, fui informado de que me chamavam ao aparelho de comunicações urbanas.
Era a senhora Laura que pedia notícias.
De fato, esquecera-me de avisá-la sobre as deliberações de serviço noturno.
Pedi desculpas à minha benfeitora e forneci rápido relatório verbal da nova situação.
Através do fio, a genitora de Lísias parecia exultar, compartilhando meu justo contentamento.
Ao termo de nossa ligeira conversa, disse, bondosa:
– Muito bem, meu filho!
Apaixone-se pelo seu trabalho, embriague-se de serviço útil.
Somente assim, atenderemos à nossa edificação eterna.
Lembre, porém, que esta casa também lhe pertence.
Aquelas palavras encheram-me de nobres estímulos.
Regressando ao contato direto com os enfermos, notei Narcisa a lutar heroicamente por acalmar um rapaz que revelava singulares distúrbios.
Procurei ajudá-la.
O pobrezinho, de olhos perdidos no espaço, gritava, espantadiço:
– Acuda-me, por amor de Deus! Tenho medo, medo!...
 E, olhar esgazeado dos que experimentam profundas sensações de pavor, acentuava:
– Irmã Narcisa, lá vem “ele”, o monstro!
Sinto os vermes novamente!
“Ele!” “Ele!”... Livre-me “Dele” irmã! Não quero, não quero!...
– Calma, Francisco – pedia a companheira dos infortunados
_ Você vai libertar-se, ganhar muita serenidade e alegria, mas depende do seu esforço.
Faça de conta que a sua mente é uma esponja embebida em vinagre.
É necessário expelir a substância azeda.
Ajudá-lo-ei a fazê-lo, mas o trabalho mais intenso cabe a você mesmo.
O doente mostrava boa-vontade, acalmava-se enquanto ouvia os conceitos carinhosos, mas volvia à mesma palidez de antes, prorrompendo em novas exclamações.
– Mas, irmã, repare bem... “ele” não me deixa.
Já voltou a atormentar-me! Veja, veja!...
– Estou vendo-o, Francisco – respondia ela, cordata –, mas é indispensável que você me ajude a expulsá-lo.
– Este fantasma diabólico!... – acrescentava a chorar como criança, provocando compaixão.
– Confie em Jesus e esqueça o monstro – dizia a irmã dos infelizes, piedosamente –, vamos ao passe.
O fantasma fugirá de nós.
E aplicou-lhe fluidos salutares e reconfortadores, que Francisco agradeceu, manifestando imensa alegria no olhar.
– Agora – disse ele, finda a operação magnética –, estou mais tranquilo.
Narcisa ajeitou-lhe os travesseiros, mandou que uma serva lhe trouxesse água magnetizada.
Aquela exemplificação da enfermeira edificava-me.
O bem, como o mal, em toda parte estabelece misterioso contágio.
Observando-me o sincero desejo de aprender, Narcisa aproximou-se mais, mostrando-se disposta a iniciar-me nos sublimes segredos do serviço.
– A quem se refere o doente? – indaguei, impressionado.
Está, porventura, assediado por alguma sombra invisível ao meu olhar?
A velha servidora das Câmaras de Retificação sorriu carinhosamente e falou: –
 Trata-se do seu próprio cadáver.
– Que me diz? – tornei, espantado.
– O pobrezinho era excessivamente apegado ao corpo físico e veio para a esfera espiritual após um desastre, oriundo de pura imprudência.
Esteve, durante muitos dias, ao lado dos despojos, em pleno sepulcro, sem se conformar com situação diversa.
Queria firmemente levantar o corpo hirto, tal o império da ilusão em que vivera e, nesse triste esforço, gastou muito tempo.
Amedrontava-se com a ideia de enfrentar o desconhecido e não conseguia acumular nem mesmo alguns átomos de desapego às sensações físicas.
Não valeram socorros das esferas mais altas, porque fechava a zona mental a todo pensamento relativo à vida eterna.
Por fim, os vermes fizeram-lhe experimentar tamanhos padecimentos que o pobre se afastou do túmulo, tomado de horror.
Começou, então, a peregrinar nas zonas inferiores do Umbral; no entanto, os que lhe foram pais na Terra possuem aqui grandes créditos espirituais e rogaram sua internação na colônia.
Trouxeram-no os Samaritanos, quase à força.
Seu estado, contudo, é ainda tão grave que não poderá ausentar-se, tão cedo, das Câmaras de Retificação.
O amigo, que lhe foi genitor na carne, está presentemente em arriscada missão, distante de “Nosso Lar”.
– E vem visitar o doente? – perguntei.
 – Já veio duas vezes e experimentei grande comoção, observando-lhe o sofrimento, discreto.
Tamanha é a perturbação do rapaz, que não reconheceu o pai generoso e dedicado.
Gritava, aflito, mostrando a demência dolorosa.
O genitor, que veio vê-lo em companhia do Ministro Pádua, do Ministério da Comunicação, pareceu muito superior à condição humana, enquanto se encontrava com o nobre amigo que obtivera hospitalidade para o filho infeliz.
Demoraram-se bastante, comentando a situação espiritual dos recém-chegados dos círculos carnais.
Mas, quando o Ministro Pádua se retirou, compelido por circunstâncias de serviço, o pai do rapaz me pediu lhe perdoasse o gesto humano e ajoelhou-se diante do enfermo.
Tomou-lhe as mãos, ansioso, como se estivesse a transmitir vigorosos fluidos vitais, e beijou-lhe a face, chorando copiosamente.
Não pude conter as lágrimas e retirei-me, deixando-os a sós.
Não sei o que se passou, em seguida, entre ambos; mas notei que Francisco, esse dia, melhorou bastante.
A demência total reduziu-se a crises que são, agora, cada vez mais espaçadas.
– Como tudo isso comove! – exclamei sob forte impressão.
Entretanto, como pode a imagem do cadáver persegui-lo?
– A visão de Francisco – esclareceu a velhinha, atenciosa –, é o pesadelo de muitos Espíritos depois da morte carnal.
Apegam-se demasiadamente ao corpo, não enxergam outra coisa, nem vivem senão dele e para ele, votando-lhe Verdadeiro culto, e, vindo o sopro renovador, não o abandonam.
Repelem quaisquer ideias de espiritualidade e lutam desesperadamente pelo conservar.
Surgem, no entanto, os vermes vorazes e os expulsam.
A essa altura, horrorizam-se do corpo e adotam nova atitude extremista.
A visão do cadáver, porém, como forte criação mental deles mesmos, atormenta-os no imo da alma.
Sobrevêm perturbações e crises, mais ou menos longas, e muito sofrem até à eliminação integral do seu fantasma.
Notando-me a comoção, Narcisa acrescentou:
– Graças ao Pai, venho aproveitando bastante, nestes últimos anos de serviço.
Ah! Como é profundo o sono espiritual da maioria de nossos irmãos na carne!
Isto, porém, deve preocupar-nos, mas não deve ferir-nos.
A crisálida cola-se à matéria inerte, mas a borboleta alçará o voo; a semente é quase imperceptível e, no entanto, o carvalho será um gigante.
A flor morta volve à terra, mas o perfume vive no céu.
Todo embrião de vida parece dormir.
Não devemos esquecer estas lições.
E Narcisa calou-se, sem que me atrevesse a interromper-lhe o silêncio.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Abril de 2019, 12:11
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30 Herança e Eutanásia

Ainda não voltara a mim da profunda surpresa, quando Salústio se aproximou, informando a Narcisa:
– Nossa irmã Paulina deseja ver o pai enfermo, no Pavilhão 5.
Antes de atender, julguei razoável consultá-la, porque o doente continua em crise muito aguda.
Mostrando gestos de bondade que lhe eram característicos, Narcisa acentuou:
– Mande-a entrar sem demora.
Ela tem permissão da Ministra, visto estar consagrando o tempo disponível em tarefa de reconciliação dos familiares.
Enquanto o mensageiro se despedia, apressado, a enfermeira bondosa acrescentava, dirigindo-se a mim:
– Você verá que filha dedicada!
Não decorrera um minuto e Paulina estava diante de nós, esbelta e linda.
Trajava uma túnica muito leve, tecida em seda luminosa.
Angelical beleza caracterizava-lhe os traços fisionômicos, mas os olhos denunciavam extrema preocupação.
Narcisa apresentou-a delicadamente e, sentindo talvez que poderia confiar na minha presença, perguntou, algo inquieta:
– E papai, minha amiga?
– Um pouco melhor – esclareceu a enfermeira –, no entanto, ainda acusa desequilíbrios fortes.
– É lamentável – retrucou a jovem –, nem ele, nem os outros cedem no estado mental a que se recolheram.
Sempre o mesmo ódio e a mesma displicência.
Narcisa nos convidou a acompanhá-la e, minutos após, tinha diante de mim um velho de fisionomia desagradável.
Olhar duro, cabeleira desgrenhada, rugas profundas, lábios retraídos, inspirava mais piedade que simpatia.
Procurei, contudo, vencer as vibrações inferiores que me dominaram, a fim de observar, acima do sofredor, o irmão espiritual.
Desapareceu a impressão de repugnância, aclarando-se-me os raciocínios.
Apliquei a lição a mim mesmo.
Como teria chegado, por minha vez, ao Ministério do Auxílio?
Deveria ser horrível meu semblante de desesperado.
Quando examinamos a desventura de alguém, lembrando as próprias eficiências, há sempre asilo para o amor fraterno, no coração.
O velho enfermo não teve uma palavra de ternura para a filha que o saudou carinhosa.
Através do olhar, que evidenciava aspereza e revolta, semelhava-se a uma fera humana enjaulada.
– Papai, o senhor sente-se melhor? – perguntou com extremo carinho filial.
– Ai!... Ai!... – gritou o doente em voz estentórica
– Não posso esquecer o infame, não posso descansar o pensamento...
Ainda o vejo a meu lado, ministrando-me o veneno mortal!...
– Não diga isso, papai – pediu a moça delicadamente –, lembre-se de que Edelberto entrou em nossa casa como filho, enviado por Deus.
– Meu filho? – gritou o infeliz – Nunca! Nunca!...
É criminoso sem perdão, filho do inferno!...
Paulina falava, agora, com os olhos rasos d’água.
– Ouçamos, papai, a lição de Jesus, que recomenda nos amemos uns aos outros.
Atravessamos experiências consanguíneas, na Terra, para adquirir o verdadeiro amor espiritual.
Aliás, é indispensável reconhecer que só existe um Pai realmente eterno, que é Deus; mas o Senhor da Vida nos permite a paternidade ou a maternidade no mundo, a fim de aprendermos a fraternidade sem mácula.
Nossos lares terrestres são cadinhos de purificação dos sentimentos ou templos de união sublime, a caminho da solidariedade universal.
Muito lutamos e padecemos, até adquirir o verdadeiro título de irmão.
Somos todos uma só família, na Criação, sob a bênção providencial de um Pai único.
Ouvindo-lhe a voz muito meiga, o doente se pôs a chorar convulsivamente.
– Perdoe Edelberto, papai!
Procure sentir nele, não o filho leviano, mas o irmão necessitado de esclarecimento.
Estive em nossa casa, ainda hoje, lá observando extremas perturbações.
Daqui, deste leito, o senhor envolve todos os nossos em fluidos de amargura e incompreensão e eles lhe fazem o mesmo por idêntico modo.
O pensamento, em vibrações sutis, alcança o alvo, por mais distante que esteja.
A permuta de ódio e desentendimento causa ruína e sofrimento nas almas.
Mamãe recolheu-se, faz alguns dias, ao hospício, ralada de angústia.
Amália e Cacilda entraram em luta judicial com Edelberto e Agenor, em virtude dos grandes patrimônios materiais que o senhor ajuntou nas esferas da carne.
Um quadro terrível, cujas sombras poderiam diminuir, se sua mente vigorosa não estivesse mergulhada em propósitos de vingança.
Aqui, vemo-lo em estado grave; na Terra, mamãe louca e os filhos perturbados, odiando-se entre si.
Em meio de tantas mentes desequilibradas, uma fortuna de um milhão e quinhentos mil cruzeiros.
E que vale isso, se não há um átomo de felicidade para ninguém?
– Mas eu leguei enorme patrimônio à família – atalhou o infeliz, rancorosamente –, desejando o bem-estar de todos...
Paulina não o deixou terminar, retomando a palavra:
– Nem sempre sabemos interpretar o que seja benefício, no capítulo da riqueza transitória.
Se o senhor assegurasse o futuro dos nossos, garantindo-lhes a tranquilidade moral e o trabalho honesto, seu esforço seria de valiosa previdência; mas, às vezes, papai, costumamos amealhar o dinheiro por espírito de vaidade e ambição.
Querendo viver acima dos outros, não nos lembramos disso, senão nas expressões externas da vida.
São raros os que se preocupam em ajuntar conhecimentos nobres, qualidades de tolerância, luzes de humildade, bênçãos de compreensão.
Impomos a outrem os nossos caprichos, afastamo-nos dos serviços do Pai, esquecemos a lapidação do nosso espírito.
Ninguém nasce no planeta simplesmente para acumular moedas nos cofres ou valores nos bancos.
É natural que a vida humana peça o concurso da previdência e é justo que não prescinda da contribuição de mordomos fiéis, que saibam administrar com sabedoria; mas ninguém será mordomo do Pai com avareza e propósitos de dominação.
Tal gênero de vida arruinou nossa casa.
Debalde, noutro tempo, busquei levar socorro espiritual ao ambiente doméstico.
Enquanto o senhor e mamãe se sacrificavam por aumentar haveres, Amália e Cacilda esqueceram o serviço útil e, como preguiçosas da banalidade social, encontraram ociosos que as desposaram, visando a vantagens financeiras.
Agenor repudiou o estudo sério, entregando-se a más companhias.
Edelberto conquistou o título de médico, alheando-se por completo da Medicina e exercendo-a tão somente de longe em longe à maneira do trabalhador que visita o serviço por curiosidade.
Todos arruinaram belas possibilidades espirituais, distraídos pelo dinheiro fácil e apegados à ideia de herança.
O enfermo tomou uma expressão de pavor e acrescentou:
– Maldito Edelberto! Filho criminoso e ingrato!
Matou-me sem piedade, quando ainda necessitava regularizar minhas disposições testamentárias! Malvado!... Malvado!...
– Cale-se, papai!
Tenha compaixão de seu filho, perdoe e esqueça!...
 O velho, porém, continuou a praguejar em voz alta.
A jovem preparava-se para discutir, mas Narcisa endereçou-lhe significativo olhar, chamando Salústio para socorrer o doente em crise.
Calou-se Paulina, acariciando a fronte paterna e contendo, a custo, as lágrimas.
Daí a instante, retirava-me em companhia de ambas, sob forte impressão.
As duas amigas trocaram confidências, ainda por alguns minutos, despedindo-se Paulina a evidenciar muita generosidade nas frases gentis, mas muita tristeza no olhar afogado em justa preocupação.
Voltando à intimidade, Narcisa disse, bondosa:
– Os casos de herança, em regra, são extremamente complicados.
Com raras exceções, acarretam enorme peso a legadores e legatários.
Neste caso, porém, vemos não só isso, mas também a eutanásia.
A ambição do dinheiro criou, em toda a família de Paulina, esquisitices e desavenças.
Pais avarentos possuem filhos esbanjadores.
Fui a casa de nossa amiga, quando o irmão, o Edelberto, médico de aparência distinta, empregou, no genitor quase moribundo, a chamada “morte suave”.
Esforçamo-nos por o evitar, mas foi tudo em vão.
O pobre rapaz desejava, de fato, apressar o desenlace, por questões de ordem financeira, e aí temos agora a imprevidência e o resultado o ódio e a moléstia.
E com expressivo gesto, Narcisa rematou:
– Deus criou seres e céus, mas nós costumamos transformar-nos em Espíritos diabólicos, criando nossos infernos individuais.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 02 de Maio de 2019, 13:06
NOSSO LAR
31 Vampiro

Eram vinte e uma horas.
Ainda não havíamos descansado, senão em momentos de palestra rápida, necessária à solução de problemas espirituais.
Aqui, um doente pedia alívio; ali, outro necessitava passes de reconforto.
Quando fomos atender a dois enfermos, no Pavilhão 11, escutei gritaria próxima.
Fiz instintivo movimento de aproximação, mas Narcisa deteve-me, atenciosa:
– Não prossiga – disse –; localizam-se ali os desequilibrados do sexo.
O quadro seria extremamente doloroso para seus olhos.
Guarde essa emoção para mais tarde.
Não insisti.
Entretanto, fervilhavam-se no cérebro mil interrogações.
Abrira-se um mundo novo à minha pesquisa intelectual.
Era indispensável recordar o conselho da genitora de Lísias, a cada momento, para não me desviar da obrigação justa.
Logo após às vinte e uma horas, chegou alguém dos fundos do enorme parque.
Era um homenzinho de semblante singular, evidenciando a condição de trabalhador humilde.
Narcisa recebeu-o com gentileza, perguntando:
– Que há, Justino?
Qual é a sua mensagem?
O operário, que integrava o corpo de sentinelas das Câmaras de Retificação, respondeu, aflito:
– Venho participar que uma infeliz mulher está pedindo socorro, no grande portão que dá para os campos de cultura.
Creio tenha passado despercebida aos vigilantes das primeiras linhas.
– E por que não a atendeu? – interrogou a enfermeira.
O servidor fez um gesto de escrúpulo e explicou:
– Segundo as ordens que nos regem, não pude fazê-lo, porque a pobrezinha está rodeada de pontos negros.
– Que me diz? – revidou Narcisa, assustada.
– Sim, senhora. – Então, o caso é muito grave.
Curioso, segui a enfermeira, através do campo enluarado.
A distância não era pequena.
Lado a lado, via-se o arvoredo tranquilo do parque muito extenso, agitado pelo vento caricioso.
Havíamos percorrido mais de um quilômetro, quando atingimos a grande cancela a que se referira o trabalhador.
Deparou-se-nos, então, a miserável figura da mulher que implorava socorro do outro lado.
Nada vi, senão o vulto da infeliz, coberta de andrajos, rosto horrendo e pernas em chaga viva; mas Narcisa parecia divisar outros detalhes, imperceptíveis ao meu olhar, dado o assombro que estampou na fisionomia, ordinariamente calma.
– Filhos de Deus – bradou a mendiga ao avistar-nos –, dai-me abrigo à alma cansada!
Onde está o paraíso dos eleitos, para que eu possa fruir a paz desejada.
Aquela voz lamuriosa sensibilizava-me o coração.
Narcisa, por sua vez, mostrava-se comovida, mas falou em tom confidencial:
– Não está vendo os pontos negros?
– Não – respondi.
– Sua visão espiritual ainda não está suficientemente educada.
E, depois de ligeira pausa, continuou:
– Se estivesse em minhas mãos, abriria imediatamente a nossa porta; mas, quando se trata de criaturas nestas condições, nada posso resolver por mim mesma.
Preciso recorrer ao Vigilante-Chefe, em serviço.
Assim dizendo, aproximou-se da infeliz e informou, em tom fraterno:
– Faça o obséquio de esperar alguns minutos.
Voltamos apressadamente ao interior.
Pela primeira vez, entrei em contato com o diretor das sentinelas das Câmaras de Retificação.
Narcisa apresentou-me e notificou-lhe a ocorrência.
Ele esboçou um gesto significativo e ajuntou:
– Fez muito bem, comunicando-me o fato.
Vamos até lá.
Dirigimo-nos os três para o local indicado.
Chegados à cancela, o Irmão Paulo, orientador dos vigilantes, examinou atentamente a recém-chegada do Umbral, e disse:
– Esta mulher, por enquanto, não pode receber nosso socorro.
Trata-se de um dos mais fortes vampiros que tenho visto até hoje.
É preciso entregá-la à própria sorte.
Senti-me escandalizado.
Não seria faltar aos deveres cristãos abandonar aquela sofredora ao azar do caminho?
Narcisa, que me pareceu compartilhar da mesma impressão, adiantou-se suplicante:
– Mas, Irmão Paulo, não há um meio de acolhermos essa miserável criatura nas Câmaras?
– Permitir essa providência – esclareceu ele –, seria trair minha função de vigilante.
E indicando a mendiga que esperava a decisão, a gritar impaciente, exclamou para a enfermeira:
– Já notou, Narcisa, alguma coisa além dos pontos negros?
Agora, era minha instrutora de serviço que respondia negativamente.
– Pois vejo mais – respondeu o Vigilante-Chefe.
Baixando o tom de voz, recomendou:
– Conte as manchas pretas.
Narcisa fixou o olhar na infeliz e respondeu, após alguns instantes:
– Cinquenta e oito.
O Irmão Paulo, com a paciência dos que sabem esclarecer com amor, explicou:
– Esses pontos escuros representam cinquenta e oito crianças assassinadas ao nascerem.
Em cada mancha vejo a imagem mental de uma criancinha aniquilada, umas por golpes esmagadores, outras por asfixia.
Essa desventurada criatura foi profissional de ginecologia.
A pretexto de aliviar consciências alheias, entregava-se a crimes nefandos, explorando a infelicidade de jovens inexperientes.
A situação dela é pior que a dos suicidas e homicidas, que, por vezes, apresentam atenuantes de vulto.
Recordei, assombrado, os processos da medicina, em que muitas vezes enxergara, de perto, a necessidade da eliminação de nascituros para salvar o organismo materno, nas ocasiões perigosas; mas, lendo-me o pensamento, o Irmão Paulo acrescentou:
– Não falo aqui de providências legítimas, que constituem aspectos das provações redentoras, refiro-me ao crime de assassinar os que começam a trajetória na experiência terrestre, com o direito sublime da vida.
Demonstrando a sensibilidade das almas nobres, Narcisa rogou:
– Irmão Paulo, também eu já errei muito no passado.
Atendamos a esta desventurada.
Se me permite, eu lhe dispensarei cuidados especiais.
– Reconheço, minha amiga – respondeu o diretor da vigilância, impressionando pela sinceridade –, que todos somos Espíritos endividados; entretanto, temos a nosso favor o reconhecimento das próprias fraquezas e a boa-vontade de resgatar nossos débitos; mas esta criatura, por agora, nada deseja senão perturbar quem trabalha.
Os que trazem os sentimentos calejados na hipocrisia emitem forças destrutivas.
Para que nos serve aqui um serviço de vigilância?
E, sorrindo expressivamente, exclamou:
– Busquemos a prova.
O Vigilante-Chefe aproximou-se, então, da pedinte e perguntou:
– Que deseja a irmã, do nosso concurso fraterno?
– Socorro! Socorro! Socorro!... – respondeu lacrimosa.
– Mas, minha amiga – ponderou acertadamente –, é preciso sabermos aceitar o sofrimento retificador.
Por que razão tantas vezes cortou a vida a entezinhos frágeis, que iam à luta com a permissão de Deus?
Ouvindo-o, inquieta, ela exibiu terrível carantonha de ódio e bradou:
– Quem me atribui essa infâmia?
Minha consciência está tranquila, canalha!...
Empreguei a existência auxiliando a maternidade na Terra.
Fui caridosa e crente, boa e pura...
– Não é isso que se observa na fotografia viva dos seus pensamentos e atos.
Creio que a irmã ainda não recebeu, nem mesmo o benefício do remorso.
Quando abrir sua alma às bênçãos de Deus, reconhecendo as necessidades próprias, então, volte até aqui.
Irada, respondeu a interlocutora:
– Demônio! Feiticeiro! Sequaz de Satã!...
Não voltarei jamais!...
Estou esperando o céu que me prometeram e que espero encontrar.
Assumindo atitude ainda mais firme, falou o Vigilante-Chefe com autoridade:
– Faça, então, o favor de retirar-se.
Não temos aqui o céu que deseja.
Estamos numa casa de trabalho, onde os doentes reconhecem o seu mal e tentam curar-se, junto de servidores de boa-vontade.
A mendiga objetou atrevidamente:
– Não lhe pedi remédio, nem serviço.
Estou procurando o paraíso que fiz por merecer, praticando boas obras.
E, endereçando-nos dardejante olhar de extrema cólera, perdeu o aspecto de enferma ambulante, retirando-se a passo firme, como quem permanece absolutamente senhor de si.
Acompanhou-a o Irmão Paulo com o olhar, durante longos minutos, e, voltando-se para nós, acrescentou:
– Observaram o Vampiro?
Exibe a condição de criminosa e declara-se inocente; é profundamente má e afirma-se boa e pura; sofre desesperadamente e alega tranquilidade; criou um inferno para si própria e assevera que está procurando o céu.
Ante o silêncio com que lhe ouvíamos a lição, o Vigilante-Chefe rematou:
– É imprescindível tomar cuidado com as boas ou más aparências.
Naturalmente, a infeliz será atendida alhures pela Bondade Divina, mas, por princípio de caridade legítima, na posição em que me encontro, não lhe poderia abrir nossas portas.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 05 de Maio de 2019, 18:47
NOSSO LAR
32 Notícias de Veneranda

Agora, que penetrara o parque banhado de luz, experimentava singular fascinação.
Aquelas árvores acolhedoras, aquelas viventes sementeiras reclamavam-me a todo o momento.
De maneira indireta, provocava explicações de Narcisa, enunciando perguntas veladas.
– No grande parque – dizia ela – não há somente caminhos para o Umbral ou apenas cultura de vegetação destinada aos sucos alimentícios.
A Ministra Veneranda criou planos excelentes para os nossos processos educativos.
E observando-me a curiosidade sadia, continuou esclarecendo:
– Trata-se dos “salões verdes” para serviço de educação.
Entre as grandes fileiras das árvores, há recintos de maravilhosos contornos para as conferências dos Ministros da Regeneração; outros para Ministros visitantes e estudiosos em geral, reservando-se, porém, um de assinalada beleza, para as conversações do Governador, quando ele se digna de vir até nós.
Periodicamente, as árvores eretas se cobrem de flores, dando ideia de pequenas torres coloridas, cheias de encantos naturais.
Temos, assim, no firmamento, o teto acolhedor, com as bênçãos do Sol ou das estrelas distantes.
– Devem ser prodigiosos esses palácios da natureza – acrescentei.
– Sem dúvida prosseguiu a enfermeira, entusiasticamente –, o projeto da Ministra despertou, segundo me informaram, aplausos francos em toda a colônia.
Soube que tal se dera, havia precisamente quarenta anos.
Iniciou-se, então, a campanha do “salão natural”.
Todos os Ministérios pediram cooperação, inclusive o da União Divina, que solicitou o concurso de Veneranda na organização de recintos dessa ordem, no Bosque das Águas.
Surgiram deliciosos recantos em toda parte.
Os mais interessantes, todavia, a meu ver, são os que se instituíram nas escolas.
Variam nas formas e dimensões.
Nos parques de educação do Esclarecimento, instalou a Ministra um verdadeiro castelo de vegetação, em forma de estrela, dentro do qual se abrigam cinco numerosas classes de aprendizados e cinco instrutores diferentes.
No centro, funciona enorme aparelho destinado a demonstrações pela imagem, à maneira do cinematógrafo terrestre, com o qual é possível levar a efeito cinco projeções variadas, simultaneamente.
Essa iniciativa melhorou consideravelmente a cidade, unindo no mesmo esforço o serviço proveitoso à utilidade prática e à beleza espiritual.
Valendo-me da pausa natural, interpelei:
– E o mobiliário dos salões? Tal como dos grandes recintos terrenos?
Narcisa sorriu e acentuou:
– Há diferença.
A Ministra ideou os quadros evangélicos do tempo que assinalou a passagem do Cristo pelo mundo e sugeriu recursos da própria natureza.
Cada “salão natural” tem bancos e poltronas esculturados na substância do solo, forrados de relva envolente e macia.
Isso imprime formosura e disposições características.
Disse a organizadora que seria justo lembrar as preleções do Mestre, em plena praia, quando de suas divinas excursões junto ao Tiberíades, e dessa recordação surgiu o empreendimento do “mobiliário natural”.
A conservação exige cuidados permanentes, mas a beleza dos quadros representa vasta compensação.
A essa altura, interrompeu-se a bondosa enfermeira, mas, identificando-me o interesse silencioso, prosseguiu:
– O mais belo recinto do nosso Ministério é o destinado às palestras do Governador.
A Ministra Veneranda descobriu que ele sempre estimou as paisagens de gosto helênico, mais antigo, e decorou o salão a traços especiais, formados em pequenos canais de água fresca, pontes graciosas, lagos minúsculos, palanquins de arvoredo e frondejante vegetação.
Cada mês do ano mostra cores diferentes, em razão das flores que se vão modificando em espécie, de trinta a trinta dias.
A Ministra reserva o mais lindo aspecto para o mês de dezembro, em comemoração ao Natal de Jesus, quando a cidade recebe os mais formosos pensamentos e as mais vigorosas promessas dos nossos companheiros encarnados na Terra e envia, por sua vez, ardentes afirmações de esperança e serviço às esferas superiores, em homenagem ao Mestre dos mestres.
Esse salão é nota de júbilo para os nossos Ministérios.
Talvez já saiba que o Governador aqui vem, quase que semanalmente, aos domingos.
Ali permanece longas horas, conferenciando com os Ministros da Regeneração, conversando com os trabalhadores, oferecendo sugestões valiosas, examinando nossas vizinhanças com o Umbral, recebendo nossos votos e visitas, e confortando enfermos convalescentes.
À noitinha, quando pode demorar-se, ouve música e assiste a números de arte, executados por jovens e crianças dos nossos educandários.
A maioria dos forasteiros, que se hospedam em “Nosso Lar”, costuma vir até aqui só no propósito de conhecer esse “palácio natural”, que acomoda confortavelmente mais de trinta mil pessoas.
Ouvindo os interessantes informes, eu experimentava um misto de alegria e curiosidade.
– O salão da Ministra Veneranda – continuou Narcisa, animadamente – é também esplêndido recinto, cuja conservação nos merece especial carinho.
Todo o nosso préstimo será pouco para retribuir as dedicações dessa abnegada serva de Nosso Senhor.
Grande número de benefícios, neste Ministério, foram por ela criados para atender aos mais infelizes.
Sua tradição de trabalho, em “Nosso Lar”, é considerada pela Governadoria como das mais dignas.
É a entidade com maior número de horas de serviço na colônia e a figura mais antiga do Governo e do Ministério, em geral.
Permanece em tarefa ativa, nesta cidade, há mais de duzentos anos.
Impressionado com as informações, adiantei:
– Como deve ser respeitável essa benfeitora!...
– Você diz muito bem – atalhou Narcisa, com reverência –, é criatura das mais elevadas de nossa colônia espiritual.
Os onze Ministros, que com ela atuam na Regeneração, ouvem-na antes de tomar qualquer providência de vulto.
Em numerosos processos, a Governadoria se socorre dos seus pareceres.
Com exceção do Governador, a Ministra Veneranda é a única entidade, em “Nosso Lar”, que já viu Jesus nas Esferas Resplandecentes, mas nunca comentou esse fato de sua vida espiritual e esquiva-se à menor informação a tal respeito.
Além disso, há outra nota interessante, relativamente a ela.
Um dia, há quatro anos, “Nosso Lar” amanheceu em festa.
As Fraternidades da Luz, que regem os destinos cristãos da América, homenagearam Veneranda conferindo-lhe a medalha do Mérito de Serviço, a primeira entidade da colônia que conseguiu, até hoje, semelhante triunfo, apresentando um milhão de horas de trabalho útil, sem interromper, sem reclamar e sem esmorecer.
Generosa comissão veio trazer a honrosa mercê, mas em meio do júbilo geral, reunidos a Governadoria, os Ministérios e a multidão, na praça maior, a Ministra Veneranda apenas chorou em silêncio.
Entregou, em seguida, o troféu aos arquivos da cidade, afirmando que não o merecia e transmitindo-o à personalidade coletiva da colônia, apesar dos protestos do Governador.
Desistiu de todas as homenagens festivas com que se pretendia comemorar, mais tarde, o acontecimento, jamais comentando a honrosa conquista.
– Extraordinária mulher! – disse eu – por que não se encaminharia a esferas mais altas?
Narcisa baixou o tom de voz e declarou:
– Intimamente, ela vive em zonas muito superiores à nossa e permanece em “Nosso Lar” por espírito de amor e sacrifício.
Soube que essa benfeitora sublime vem trabalhando, há mais de mil anos, pelo grupo de corações bem-amados que demoram na Terra, e espera com paciência.
– Como poderei conhecê-la? – perguntei, impressionado.
Narcisa, que parecia alegrar-se com o meu interesse, explicou, satisfeita:
– Amanhã, à tardinha, após as preces, a Ministra virá ao salão, a fim de esclarecer alguns aprendizes sobre o pensamento.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 17 de Maio de 2019, 12:49
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33 Curiosas Observações

Poucos minutos antes de meia-noite, Narcisa permitiu minha ida ao grande portão das Câmaras.
Os Samaritanos deviam estar nas vizinhanças.
Era imprescindível observar-lhes a volta, para tomar providências.
Com que emoção tornei ao caminho cercado de árvores frondosas e acolhedoras!
Aqui, troncos que recordavam o carvalho vetusto da Terra; além, folhas caprichosas lembrando a acácia e o pinheiro.
Aquele ar embalsamado figurava-se-me uma bênção.
Nas Câmaras, apesar das janelas amplas, não experimentara tamanha impressão de bem-estar.
Assim caminhava, silencioso, sob as frondes carinhosas.
Ventos frescos agitavam-nas de manso, envolvendo-me em sensações de repouso.
Sentindo-me só, ponderei os acontecimentos que me sobrevieram, desde o primeiro encontro com o Ministro Clarêncio.
Onde estaria a paragem de sonho?
Na Terra, ou naquela colônia espiritual?
Que teria sucedido a Zélia e aos filhinhos?
Por que razão me prestavam ali tão grande esclarecimentos sobre as mais variadas questões da vida, omitindo, contudo, qualquer notícia pertinente ao meu antigo lar?
Minha própria mãe me aconselhara o silêncio, abstendo-se de qualquer informação direta.
Tudo indicava a necessidade de esquecer os problemas carnais, no sentido de renovar-me intrinsecamente, e, no entanto, penetrando os recessos do ser, encontrava a saudade viva dos meus.
Desejava ardentemente rever a esposa muito amada, receber de novo o beijo dos filhinhos...
Por que decisões do destino estávamos agora separados, como se eu fosse um náufrago em praia desconhecida?
Simultaneamente, ideias generosas confortavam-me o íntimo.
Não era eu o náufrago abandonado.
Se minha experiência podia classificar-se como naufrágio, não devia o desastre senão a mim mesmo.
Agora que observava em “Nosso Lar” vibrações novas de trabalho intenso e construtivo, admirava-me de haver perdido tanto tempo no mundo em frioleiras de toda sorte.
Em verdade, muito amara a companheira de lutas e, sem dúvida, dispensara aos filhinhos ternuras incessantes; mas, examinando desapaixonadamente minha situação de esposo e pai, reconhecia que nada criara de sólido e útil no espírito dos meus familiares.
Tarde verificava esse descuido.
Quem atravessa um campo sem organizar sementeira necessária ao pão e sem proteger a fonte que sacia a sede, não pode voltar com a intenção de abastecer-se.
Tais pensamentos instalavam-se-me no cérebro com veemência irritante.
Ao deixar os círculos carnais, encontrara as penúrias da incompreensão.
E que teria sucedido à esposa e aos filhinhos, deslocados da estabilidade doméstica para as sombras da viuvez e da orfandade?
Inútil interrogação.
O vento calmo parecia sussurrar concepções grandiosas, como que desejoso de me despertar a mente para estados mais altos.
Torturavam-me as inquirições internas, mas, prendendo-me então aos imperativos do dever justo, aproximei-me da grande cancela, investigando além, através dos campos de cultura.
Tudo luar e serenidade, céu sublime e beleza silenciosa!
Extasiando-me na contemplação do quadro, demorei alguns minutos entre a admiração e a prece.
Instantes depois, divisei ao longe dois vultos enormes que me impressionaram vivamente. Pareciam dois homens de substância indefinível, semilumi
nosa. Dos pés e dos braços pendiam filamentos estranhos, e da cabeça como que se escapava um longo fio de singulares proporções.
Tive a impressão de identificar dois autênticos fantasmas.
Não suportei.
Cabelos eriçados, voltei apressadamente ao interior.
Inquieto e amedrontado, expus a Narcisa a ocorrência, notando que ela mal continha o riso.
– Ora essa, meu amigo – disse, por fim, mostrando bom humor –, não reconheceu aquelas personagens?
Fundamente desapontado, nada consegui responder, mas Narcisa continuou:
– Também eu, por minha vez, experimentei a mesma surpresa, em outros tempos.
Aqueles são os nossos próprios irmãos da Terra.
Trata-se de poderosos Espíritos que vivem na carne em missão redentora e podem, como nobres iniciados da Eterna Sabedoria, abandonar o veículo corpóreo, transitando livremente em nossos planos.
Os filamentos e fios que observou são singularidades que os diferenciam de nós outros.
Não se arreceie, portanto.
Os encarnados, que conseguem atingir estas paragens, são criaturas extraordinariamente espiritualizadas, apesar de obscuras ou humildes na Terra.
E, encorajando-me bondosamente, acentuou:
– Vamos até lá.
Temos quarenta minutos depois de meia-noite.
Os Samaritanos não podem tardar.
Satisfeito, voltei com ela ao grande portão.
Lobrigava-se, ainda, a enorme distância, os dois vultos que se afastavam de “Nosso Lar”, tranquilamente.
A enfermeira contemplou-os, fez um gesto expressivo de reverência e exclamou:
– Estão envolvidos em claridade azul.
Devem ser dois mensageiros muito elevados na esfera carnal, em tarefa que não podemos conhecer.
Ali estivemos, minutos longos, parados na contemplação dos campos silenciosos.
Em dado momento, porém, a bondosa amiga indicou um ponto escuro no horizonte enluarado, e observou:
– Lá vêm eles!
Identifiquei a caravana que avançava em nossa direção, sob a claridade branda do céu.
De repente, ouvi o ladrar de cães, a grande distância.
– Que é isso? – interroguei, assombrado.
– Os cães – disse Narcisa – são auxiliares preciosos nas regiões obscuras do Umbral, onde não estacionam somente os homens desencarnados, mas também verdadeiros monstros, que não cabe agora descrever.
A enfermeira, em voz ativa, chamou os servos distantes, enviando um deles ao interior, transmitindo avisos.
Fixei atentamente o grupo estranho que se aproximava devagarinho.
Seis grandes carros, formato diligência, precedidos de matilhas de cães alegres e bulhentos, eram tirados por animais que, mesmo de longe, me pareceram iguais aos muares terrestres.
Mas a nota mais interessante era os grandes bandos de aves, de corpo volumoso, que voavam a curta distância, acima dos carros, produzindo ruídos singulares.
Dirigi-me, incontinenti, a Narcisa, perguntando:
– Onde está o aeróbus?
Não seria possível utilizá-lo no Umbral?
Dizendo-me que não, indaguei das razões.
Sempre atenciosa, a enfermeira explicou:
– Questão de densidade da matéria.
Pode você figurar um exemplo com a água e o ar.
O avião que fende a atmosfera do planeta não pode fazer o mesmo na massa equórea. Poderíamos construir determinadas máquinas como o submarino; mas, por espírito de compaixão pelos que sofrem, os núcleos espirituais superiores preferem aplicar aparelhos de transição.
Além disso, em muitos casos, não se pode prescindir da colaboração dos animais.
– Como assim? – perguntei, surpreso.
– Os cães facilitam o trabalho, os muares suportam cargas pacientemente e fornecem calor nas zonas onde se faça necessário; e aquelas aves – acrescentou, indicando-as no espaço –, que denominamos íbis viajores, são excelentes auxiliares dos Samaritanos, por devorarem as formas mentais odiosas e perversas, entrando em luta franca com as trevas umbralinas.
Vinha, agora, mais próxima a caravana.
Narcisa fixou-me com bondosa atenção, rematando:
– Mas, no momento, o dever não comporta minudências informativas.
Poderá colher valiosas lições sobre os animais, não aqui, mas no Ministério do Esclarecimento, onde se localizam os parques de estudo e experimentação.
E distribuindo ordens de serviço, aqui e acolá, preparava-se para receber novos doentes do espírito.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 22 de Julho de 2019, 19:29
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34 Os Recém-Chegados do Umbral

Estacaram as matilhas de cães ao nosso lado, conduzidas por trabalhadores de pulso firme.
Daí a minutos, estávamos todos enfrentando os enormes corredores de ingresso às Câmaras de Retificação.
Servidores movimentavam-se apressados.
Alguns doentes eram levados ao interior, sob amparo forte.
Não somente Narcisa, Salústio e outros companheiros se lançavam à lide, cheios de amor fraternal, mas também os Samaritanos mobilizavam todas as energias no afã de socorrer.
Alguns enfermos portavam-se com humildade e resignação; outros, todavia, reclamavam em altas vozes.
Atacando igualmente o serviço, notei que uma velhota procurava descer do último carro, com muita dificuldade.
Observando-me perto, exclamou, espantada:
– Tenha piedade, meu filho! Ajude-me por amor de Deus!...
Aproximei-me com interesse.
– Cruzes! Credo! – continuou benzendo-se – graças à Providência Divina, afastei-me do purgatório...
Ah!
Que malditos demônios lá me torturavam!
Que inferno!
Mas os Anjos do Senhor sempre chegaram.
Ajudei-a a descer, tomado de extrema curiosidade.
Pela primeira vez, ouvia referências ao inferno e ao purgatório, partidas de uma boca que me parecia calma e ajuizada.
Talvez obedecendo mais à malícia que me era peculiar, interroguei:
– Vem, assim, de tão longe?
Falando desse modo, afetei ares de profundo interesse fraternal, como costumava fazer na Terra, olvidando por completo, naquele instante, as sábias recomendações da mãe de Lísias.
A pobre criatura, percebendo o meu interesse, começou a explicar-se:
– De grande distância.
Fui, na Terra, meu filho, mulher de muito bons costumes; fiz muita caridade, rezei incessantemente como sincera devota.
Mas, quem pode com as artes de Satanás?
Ao sair do mundo, vi-me cercada de seres monstruosos, que me arrebataram em verdadeiro torvelinho.
A princípio implorei a proteção dos Arcanjos Celestes.
Os Espíritos diabólicos, entretanto, conservaram-me enclausurada.
Mas eu não perdia a esperança de ser libertada, de um momento para outro, porque deixei uns dinheiros para celebração de missas mensais por meu descanso.
Atendendo ao impulso vicioso de perseguir assuntos que nada tinham que ver comigo, insisti:
– Como são interessantes as suas observações!
Mas não procurou saber as razões de sua demora naquelas paragens?
– Absolutamente não. – respondeu, persignando-se – Como lhe disse, enquanto estive na Terra, fiz o possível por ser uma boa religiosa.
Sabe o senhor que ninguém está livre de pecar.
Meus escravos provocavam rixas e contendas e, embora a fortuna me proporcionasse vida calma, de quando em quando era necessário aplicar disciplinas.
Os leitores eram excessivamente escrupulosos e eu não podia hesitar nas ordens de cada dia.
Não raro algum negro morria no tronco para escarmento geral; outras vezes, era obrigada a vender as mães cativas, separando-as dos filhos, por questões de harmonia doméstica.
Nessas ocasiões, sentia morder-me a consciência, mas confessava-me todos os meses, quando o padre Amâncio visitava a fazenda e, depois da comunhão, estava livre dessas faltas veniais, porque, recebendo a absolvição no confessionário e ingerindo a sagrada partícula, estava novamente em dia com todos os meus deveres para com o mundo e com Deus.
A essa altura, escandalizado com a exposição, comecei a doutrinar:
– Minha irmã, essa razão de paz espiritual era falsa.
Os escravos eram igualmente nossos irmãos.
Perante o Pai Eterno, os filhinhos dos servos são iguais aos dos senhores.
Ouvindo-me, ela bateu o pé autoritariamente e falou, irritada:
– Isso é que não!
Escravo é escravo.
Se assim não fora, a religião nos ensinaria o contrário.
Pois se havia cativos em casa de bispos, quanto mais em nossas fazendas?
Quem haveria de plantar a terra, senão eles?
E creia que sempre lhes concedi minhas senzalas como verdadeira honra!...
Em minha fazenda nunca vieram ao terreiro das visitas, senão para cumprir minhas ordens.
Padre Amâncio, nosso virtuoso sacerdote, disse-me na confissão que os africanos são os piores entes do mundo, nascidos exclusivamente para servirem a Deus no cativeiro.
Pensa, então, que me poderia encher de escrúpulos no trato com essa espécie de criaturas?
Não tenha dúvida; os escravos são seres perversos, filhos de Satã!
Chego a admirar-me da paciência com que tolerei essa gente na Terra.
E devo declarar que saí quase inesperadamente do corpo, por me haver chocado a determinação da Princesa, libertando esses bandidos.
Decorreram muitos anos, mas lembro-me perfeitamente.
Achava-me adoentada havia muitos dias e, quando padre Amâncio trouxe a nova da cidade, piorei de súbito.
Como poderíamos ficar no mundo, vendo esses criminosos em liberdade?
Certo, eles desejariam escravizar-nos por sua vez, e a servir a gente dessa laia, não seria melhor morrer?
Recordo que me confessei com dificuldade, recebi as palavras de conforto do nosso sacerdote, mas parece que os demônios são também africanos e viviam à espreita, sendo eu obrigada a sofrer-lhes a presença até hoje...
– E quando veio? – perguntei.
– Em maio de 1888.
Experimentei estranha sensação de espanto.
A interlocutora fixou o olhar embaciado no horizonte e falou:
– É possível que meus sobrinhos tenham esquecido de pagar as missas; entretanto, deixei a disposição em testamento.
Ia responder, convocando-lhe os raciocínios à zona superior, fornecendo-lhe ideias novas de fraternidade e fé, mas Narcisa aproximou-se e disse-me, bondosa:
– André, meu amigo, você esqueceu que estamos providenciando alívio a doentes e perturbados?
Que proveito lhe advém de semelhantes informações?
Os dementes falam de maneira incessante e quem os ouve, gastando interesse espiritual, pode não estar menos louco.
Aquelas palavras foram ditas com tanta bondade que corei de vergonha, sem coragem de a elas responder.
– Não se impressione – exclamou a enfermeira delicadamente –, atendamos aos irmãos perturbados.
– Mas, a senhora é de opinião que estou nesse número?
– perguntou a velhota, melindrada.
Narcisa, porém, demonstrando suas excelentes qualidades de psicóloga, tomou expressão de fraternidade carinhosa e exclamou:
– Não, minha amiga, não digo isso; creio, porém, que deve estar muito cansada; seu esforço purgatorial foi muito longo...
– Justamente, justamente – esclareceu a recém-chegada do Umbral –, não imagina o que tenho sofrido, torturada pelos demônios...
A pobre criatura ia continuar repetindo a mesma história, mas Narcisa, ensinando-me como proceder em tais circunstâncias, atalhou:
– Não comente o mal.
Já sei tudo que lhe ocorreu de amargo e doloroso.
Descanse, pensando que vou atendê-la.
E, no mesmo instante, dirigiu-se a um dos auxiliares, sem afetação:
– Você, Zenóbio, vá ao departamento feminino e chame Nemésia, em meu nome, para que conduza mais uma irmã aos leitos de tratamento.

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NOSSO LAR –
1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 22 de Julho de 2019, 19:30
NOSSO LAR
35 Encontro Singular

Guardavam-se petrechos da excursão e recolhiam-se animais de serviço, quando a voz de alguém se fez ouvir carinhosamente, a meu lado:
– André! Você aqui? Muito bem! Que agradável surpresa!...
Voltei-me surpreendido e reconheci, no Samaritano que assim falava, o velho Silveira, pessoa de meu conhecimento, a quem meu pai, como negociante inflexível, despojara, um dia, de todos os bens.
Justo acanhamento dominou-me, então.
Quis cumprimentá-lo, corresponder ao gesto afetuoso, mas a lembrança do passado paralisava-me de súbito.
Não podia fingir naquele ambiente novo, onde a sinceridade transparecia de todos os semblantes.
Foi o próprio Silveira que, compreendendo a situação, veio em meu socorro, acrescentando:
– Francamente, ignorava que você tivesse deixado o corpo e estava longe de pensar que o encontraria em “Nosso Lar”.
Identificando-lhe a amabilidade espontânea, abracei-o comovido, murmurando palavras de reconhecimento.
Quis ensaiar algumas explicações relativamente ao passado, mas não o consegui.
No fundo, eu desejava pedir desculpas pelo procedimento de meu pai,
Levando-o ao extremo de uma falência desastrosa.
Naquele instante, eu revia mentalmente o clichê do pretérito.
A memória exibia, de novo, o quadro vivo.
Parecia-me ouvir ainda a senhora Silveira, quando foi a nossa casa, suplicante, esclarecer a situação.
O marido estava acamado, havia muito, agravando-se-lhes a penúria com a enfermidade de dois filhinhos.
As necessidades não eram reduzidas e os tratamentos exigiam soma considerável.
A pobrezinha chorava, levando o lenço aos olhos.
Pedia mora, implorava concessões justas.
Humilhava-se, dirigindo olhares doridos à minha mãe, como a rogar entendimento e socorro no coração de outra mulher.
Recordei que minha mãe intercedeu, atenciosa, e pediu a meu pai esquecesse os documentos assinados, abstendo-se de qualquer ação judicial.
Meu genitor, porém, habituado a transações de vulto e favorecido pela sorte, não podia compreender a condição do retalhista.
Manteve-se irredutível.
Declarou que lamentava as ocorrências, que ajudaria o cliente e amigo, de outro modo, frisando, porém, que, no tocante aos débitos reconhecidos, não via outra alternativa que a de cumprir religiosamente os dispositivos legais.
Não podia, afirmava, quebrar as normas e precedentes do seu estabelecimento comercial.
As promissórias teriam efeito legal.
E consolava a esposa aflita, comentando a situação de outros clientes que, a seu ver, se encontravam em piores condições que o Silveira.
Lembrei os olhares de simpatia que minha mãe lançou à desventurada postulante afogada em lágrimas.
Meu pai guardara profunda indiferença a todas as súplicas e, quando a pobre mulher se despediu, repreendeu minha mãe austeramente, proibindo-lhe qualquer intromissão na esfera dos negócios comerciais.
A pobre família houve de arcar com a ruína financeira completa.
Relembrava, perfeitamente, o instante em que o próprio piano da senhorita Silveira foi retirado da residência para satisfazer às últimas exigências do credor implacável.
Queria desculpar-me e todavia não encontrava frases justas, porque, na ocasião, também encorajara meu pai a consumar o iníquo atentado; considerava minha mãe excessivamente sentimentalista e induzira-o a prosseguir na ação, até ao fim.
Muito jovem ainda, a vaidade apossara-se de mim.
Não queria saber se outros sofriam, não conseguia enxergar as necessidades alheias.
Via, apenas, os direitos de minha casa, nada mais.
E, nesse ponto, tinha sido inexorável.
Inútil qualquer argumentação materna.
Derrotados na luta, os Silveiras haviam procurado recanto humilde no Interior, amargando o desastre financeiro em extrema penúria.
Nunca mais tivera noticias daquela família, que, certo, nos devia odiar.
Essas reminiscências alinhavam-se-me no cérebro com a rapidez de segundos.
Num momento, reconstituíra todo o passado de sombras.
E enquanto mal dissimulava o desapontamento, o Silveira, sorrindo, chamava-me à realidade:
– Tem visitado o “velho”?
Aquela pergunta, a evidenciar espontâneo carinho, aumentava o meu pejo.
Esclareci que, apesar do imenso desejo, não conseguira ainda tal satisfação.
Silveira identificou-me o constrangimento e apiedando-se, talvez, do meu estado íntimo, procurou afastar-se.
Abraçou-me cavalheirescamente e voltou ao trabalho ativo.
Muito desconcertado, procurei Narcisa, ansioso de conselhos.
Expuslhe a ocorrência, detalhando os sucessos terrenos.
Ela ouviu-me com paciência e observou carinhosamente:
– Não estranhe o fato.
Vi-me, há tempos, nas mesmas condições.
Já tive a felicidade de encontrar por aqui o maior número das pessoas que ofendi no mundo.
Sei, hoje, que isso é uma bênção do Senhor, que nos renova a oportunidade de restabelecer a simpatia interrompida, recompondo os elos quebrados, da corrente espiritual.
E, tornando-se mais categórica no ensinamento, perguntou:
– Aproveitou, você, o belo ensejo?
– Que quer dizer? – indaguei.
– Desculpou-se com o Silveira?
Olhe que é grande felicidade reconhecer os próprios erros.
Já que você pode examinar-se a si mesmo com bastante luz de entendimento, identificando-se como antigo ofensor, não perca a oportunidade de se fazer amigo.
Vá, meu caro, e abrace-o de outra maneira.
Aproveite o momento,porque o Silveira é ocupadíssimo e talvez não se ofereça tão cedo outra oportunidade.
Notando-me a indecisão, Narcisa acrescentou:
– Não tema insucessos.
Toda vez que oferecemos raciocínio e sentimento ao bem, Jesus nos concede quanto se faça necessário ao êxito.
Tome a iniciativa.
Empreender ações dignas, quaisquer que sejam, representa honra legítima para a alma.
Recorde o Evangelho e vá buscar o tesouro da reconciliação.
Não mais vacilei.
Corri ao encontro de Silveira e falei-lhe abertamente, rogando perdoasse, a meu pai e a mim, as ofensas e os erros cometidos.
– Você compreende... – acentuei –, nós estávamos cegos.
Em tal estado, nada conseguíamos vislumbrar, senão o interesse próprio.
Quando o dinheiro se alia à vaidade, Silveira, dificilmente pode o homem afastar-se do mau caminho.
Silveira, comovidíssimo, não me deixou terminar:
– Ora, André, quem haverá isento de faltas?
Acaso, poderia você acreditar que vivi isento de erros?
Além disso, seu pai foi meu verdadeiro instrutor.
Devemos-lhe, meus filhos e eu, abençoadas lições de esforço pessoal.
Sem aquela atitude enérgica que nos subtraiu as possibilidades materiais, que seria de nós no tocante ao progresso do espírito?
Renovamos, aqui, todos os velhos conceitos da vida humana.
Nossos adversários não são propriamente inimigos e, sim, benfeitores.
Não se entregue a lembranças tristes.
Trabalhemos com o Senhor, reconhecendo o infinito da vida.
E fixando, emocionado, os meus olhos úmidos, afagou-me paternalmente e rematou:
– Não perca tempo com isso.
Breve, quero ter a satisfação de visitar seu pai, junto de você.
Abracei-o, então, em silêncio, experimentando alegria nova em minh’alma.
Pareceu-me que, num dos escaninhos escuros do coração, se me acendera divina luz para sempre.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 22 de Julho de 2019, 19:31
NOSSO LAR
36 O Sonho

Prosseguiram os serviços, incessantemente.
Enfermos exigindo cuidado, perturbados reclamando dedicação.
Ao cair da noite, já me sentia integrado no mecanismo dos passes, aplicando-os aos necessitados de toda sorte.
Pela manhã, regressou Tobias às Câmaras e, mais por generosidade que por outro motivo, estimulou-me com palavras animadoras.
– Muito bem, André! – exclamou ele, contente – vou recomendá-lo ao Ministro Genésio e, pelos serviços iniciais, receberá bônus em dobro.
Ensaiava palavras de reconhecimento, quando a senhora Laura e Lísias chegaram e me abraçaram.
– Sentimo-nos profundamente satisfeitos – disse a generosa senhora, sorrindo,
– acompanhei-o em espírito, durante a noite, e sua estreia no trabalho é motivo de justa alegria em nosso círculo doméstico.
Disputei a satisfação de levar a notícia ao Ministro Clarêncio, que me recomendou cumprimentasse a você em nome dele.
Trocaram observações afetuosas com Tobias e Narcisa.
Pediram-me relatório verbal de impressões e eu não cabia em mim de contente.
Minhas alegrias sublimes, porém, reservavam-se para depois.
Nada obstante o convite amável da genitora de Lísias para que voltasse a casa por descansar, Tobias pôs à minha disposição um apartamento de repouso, ao lado das Câmaras de Retificação, e aconselhou-me algum descanso.
De fato, sentia grande necessidade do sono.
Narcisa preparou-me o leito com desvelos de irmã.
Recolhido ao quarto confortável e espaçoso, orei ao Senhor da Vida agradecendo-lhe a bênção de ter sido útil.
A “proveitosa fadiga” dos que cumprem o dever não me deu ensejo a qualquer vigília desagradável.
Daí a instantes, sensações de leveza invadiram-me a alma toda e tive a impressão de ser arrebatado em pequenino barco, rumando a regiões desconhecidas.
Para onde me dirigia?
Impossível responder.
A meu lado, um homem silencioso sustinha o leme.
E qual criança que não pode enumerar nem definir as belezas do caminho, deixava-me conduzir sem exclamações de qualquer natureza, extasiado embora com as magnificências da paisagem.
Parecia-me que a embarcação seguia célere, não obstante os movimentos de ascensão.
Decorridos minutos, vi-me à frente de um porto maravilhoso, onde alguém me chamou com especial carinho:
– André!... André!...
Desembarquei com precipitação verdadeiramente infantil.
Reconheceria aquela voz entre milhares.
Num momento, abraçava minha mãe em transbordamentos de júbilo.
Fui conduzido, então, por ela, a prodigioso bosque, onde as flores eram dotadas de singular propriedade – a de reter a luz, revelando a festa permanente do perfume e da cor.
Tapetes dourados e luminosos estendiam-se, dessa maneira, sob as grandes árvores sussurrantes ao vento.
Minhas impressões de felicidade e paz eram inexcedíveis.
O sonho não era propriamente qual se verifica na Terra.
Eu sabia, perfeitamente, que deixara o veículo inferior no apartamento das Câmaras de Retificação, em “Nosso Lar”, e tinha absoluta consciência daquela movimentação em plano diverso.
Minhas noções de espaço e tempo eram exatas.
A riqueza de emoções, por sua vez, afirmava-se cada vez mais intensa.
Após dirigir-me sagrados incentivos espirituais, minha mãe esclareceu bondosamente:
– Muito roguei a Jesus me permitisse a sublime satisfação de ter-te a meu lado, no teu primeiro dia de serviço útil.
Como vês, meu filho, o trabalho é tônico divino para o coração.
Numerosos companheiros nossos, após deixarem a Terra, demoram em atitudes contraproducentes, aguardando milagres que jamais se verificarão.
Reduzem-se, desse modo, formosas capacidades a simples expressões parasitárias.
Alguns se dizem desencorajados pela solidão, outros, como sucedia na Terra, declaram-se em desacordo com o meio a que foram chamados para servir ao Senhor.
É indispensável, André, converter toda a oportunidade da vida em motivo de atenção a Deus.
Nos círculos inferiores, meu filho, o prato de sopa ao faminto, o bálsamo ao leproso, o gesto de amor ao desiludido, são serviços divinos que nunca ficarão deslembrados na Casa de Nosso Pai; aqui, igualmente, o olhar de compreensão ao culpado, a promessa evangélica aos que vivem no desespero, a esperança ao aflito, constituem bênçãos de trabalho espiritual, que o Senhor observa e registra a nosso favor...
A fisionomia de minha genitora estava mais bela que nunca.
Seus olhos de madona pareciam irradiar luminosidade sublime, suas mãos transmitiam-me, nos gestos de ternura, fluidos criadores de energias novas, a par de caridosas emoções.
– O Evangelho de Jesus, meu André – continuou amorosamente –, lembra-nos que há maior alegria em dar que em receber.
Aprendamos a concretizar semelhante princípio, no esforço diário a que formos conduzidos pela nossa própria felicidade.
Dá sempre, filho meu.
Sobretudo, jamais esqueças dar de ti mesmo, em tolerância construtiva, em amor fraternal e divina compreensão.
A prática do bem exterior é um ensinamento e um apelo, para que cheguemos à prática do bem interior.
Jesus deu mais de si para o engrandecimento dos homens, que todos os milionários da Terra congregados no serviço, sublime embora, da caridade material.
Não te envergonhes de amparar os chaguentos e esclarecer os loucos que penetrem as Câmaras de Retificação, onde identifiquei, espiritualmente, teus serviços, à noite passada.
Trabalha, meu filho, fazendo o bem.
Em todas as nossas colônias espirituais, como nas esferas do globo, vivem almas inquietas, ansiosas de novidades e distração.
Sempre que possas, porém, olvida o entretenimento e busca o serviço útil.
Assim como eu, indigente como sou, posso ver, em espírito, teus esforços em “Nosso Lar” e seguir as mágoas de teu pai nas zonas umbralinas, Deus nos vê e acompanha a todos, desde o mais lúcido embaixador de sua bondade, aos últimos seres da Criação, muito abaixo dos vermes da Terra.
Minha mãe fez uma pausa, que desejei aproveitar para dizer alguma coisa, mas não pude.
Lágrimas de emoção embargavam-me a voz.
Ela endereçou-me carinhoso olhar, compreendendo a situação e continuou:
– Conhecemos, aqui, na maioria das colônias espirituais, a remuneração de serviço do bônus-hora.
Nossa base de compensação une dois fatores essenciais.
O bônus representa a possibilidade de receber alguma coisa de nossos irmãos em luta, ou de remunerar alguém que se encontre em nossas realizações; mas o critério quanto ao valor da hora pertence exclusivamente a Deus.
Na bonificação exterior pode haver muitos erros de nossa personalidade falível, considerando nossa posição de criaturas em labores de evolução, como acontece na Terra; mas, no concernente ao conteúdo espiritual da hora, há correspondência direta entre o Servidor e as Forças Divinas da Criação.
É por isso, André, que nossas atividades experimentais, no progresso comum, a partir da esfera carnal, sofrem contínuas modificações todos os dias.
Tabelas, quadros, pagamentos, são modalidades de experimentação dos administradores, a que o Senhor concedeu a oportunidade de cooperar nas Obras Divinas da Vida, assim como concede à criatura o privilégio de ser pai ou mãe, por algum tempo, na Terra e noutros mundos.
Todo administrador sincero é cioso dos serviços que lhe competem; todo pai consciente está cheio de amor desvelado.
Deus também, meu filho, é Administrador vigilante e Pai devotadíssimo.
A ninguém esquece e reserva-se o direito de entender-se com o trabalhador, quanto ao verdadeiro proveito no tempo de serviço.
Toda compensação exterior afeta a personalidade em experiência; mas, todo valor de tempo interessa à personalidade eterna, aquela que permanecerá sempre em nossos círculos de vida, em marcha para a glória de Deus.
É por essa razão que o Altíssimo concede sabedoria ao que gasta tempo em aprender e dá mais vida e mais alegria aos que sabem renunciar!...
Minha mãe calou-se enquanto eu enxugava os olhos.
Foi então que ela me tomou nos braços, acariciando-me desveladamente.
Qual o menino que adormece após a lição, perdi a consciência de mim mesmo, para despertar mais tarde nas Câmaras de Retificação, experimentando vigorosas sensações de alegria.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 28 de Agosto de 2019, 15:58
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37 A Preleção da Ministra

No curso de trabalhos do dia imediato, grande era o meu interesse pela conferência da Ministra Veneranda.
Ciente de que necessitaria permissão, entendi-me com Tobias a respeito.
– Essas aulas – disse ele – são ouvidas somente pelos Espíritos sinceramente interessados.
Os instrutores, aqui, não podem perder tempo.
Fica você, desse modo, autorizado a comparecer com os ouvintes que se contam por centenas, entre servidores e abrigados dos Ministérios da Regeneração e do Auxílio.
Num gesto afetuoso de estímulo, rematou:
– Desejo-lhe excelente proveito.
Transcorreu o novo dia em serviço ativo.
O contato de minha mãe, suas belas observações relativas à prática do bem, enchiam-me o espírito de sublime conforto.
A princípio, logo após o despertar, aqueles esclarecimentos sobre o bônus-hora me haviam suscitado certas interrogações de vulto.
Como poderia estar a compensação da hora afeta a Deus?
Não era atribuição do administrador espiritual, ou humano, a contagem do tempo?
Tobias, porém, esclarecera-me a inteligência faminta de luz.
Aos administradores, em geral, impende a obrigação de contar o tempo de serviços, sendo justo, igualmente, instituírem elementos de respeito e consideração ao mérito do trabalhador; mas, quanto ao valor essencial do aproveitamento justo, só mesmo as Forças Divinas podem determinar com exatidão.
Há servidores que, depois de quarenta anos de atividade especial, dela se retiram com a mesma insipiência da primeira hora, provando que gastaram tempo sem empregar dedicação espiritual, assim como existem homens que, atingindo cem anos de existência, dela saem com a mesma ignorância da idade infantil.
Tanto é precioso o conceito de sua mamãe – disse Tobias – que basta lembrar as horas dos homens bons e dos maus.
Nos primeiros, transformam-se em celeiros de bênçãos do Eterno;
Nos segundos, em látegos de tormento e remorso, como se fossem entes malditos.
Cada filho acerta contas com o Pai, conforme o emprego da oportunidade, ou segundo suas obras.
Essa contribuição de esclarecimento auxiliou-me a ponderar o valor do tempo, em todos os sentidos.
Chegada a hora destinada à preleção da Ministra, que se realizou após a oração vespertina, dirigi-me, em companhia de Narcisa e Salústio, para o grande salão em plena natureza.
Verdadeira maravilha o recinto verde, onde grandes bancos de relva nos acolheram confortadoramente.
Flores variadas, brilhando à luz de belos candelabros, exalavam delicado perfume.
Calculei a assistência em mais de mil pessoas.
Na disposição comum da grande assembleia, notei que vinte entidades se assentavam em local destacado entre nós outros e a eminência florida onde se via a poltrona da instrutora.
A uma pergunta minha, Narcisa explicou:
– Estamos na assembleia de ouvintes.
Aqueles irmãos, que se conservam em lugar de realce, são os mais adiantados na matéria de hoje, companheiros que podem interpelar a Ministra.
Adquiriram esse direito pela aplicação ao assunto, condição que poderemos alcançar também, por nossa vez.
– Não pode você figurar entre eles? – indaguei.
– Não.
Por enquanto, posso sentar-me ali somente nas noites que a instrutora verse o tratamento dos Espíritos perturbados.
Há, porém, irmãos que ali permanecem no trato de várias teses, conforme a cultura já adquirida.
– Muito curioso o processo – aduzi.
– O Governador – prosseguiu a enfermeira explicando – determinou essa medida, nas aulas e palestras de todos os Ministros, a fim de que os trabalhos não se convertessem em desregramento da opinião pessoal, sem base justa, com grave perda de tempo para o conjunto.
Quaisquer dúvidas, quaisquer pontos de vista, verdadeiramente úteis, poderão ser esclarecidos ou aproveitados, mas, tendo em vista o momento adequado.
Mal acabara de falar e eis que a Ministra Veneranda penetrou no recinto em companhia de duas senhoras de porte distinto, que Narcisa informou serem Ministras da Comunicação.
Veneranda espalhou, com a simples presença, enorme alegria em todos os semblantes.
Não mostrava a fisionomia de uma velha, o que contrastava com o nome;
Sim, o semblante de nobre senhora na idade madura, cheia de simplicidade, sem afetação.
Depois de palestrar ligeiramente com os vinte companheiros, como a informar-se das necessidades dominantes na assembleia em geral, com relação ao tema da noite, começou por dizer:
– Como sempre, não posso aproveitar a nossa reunião para discursos de longa tiragem verbal, mas aqui estou para conversar com vocês, relacionando algumas observações sobre o pensamento.
“Encontram-se, entre nós, no momento, algumas centenas de ouvintes que se surpreendem com a nossa esfera cheia de formas análogas às do planeta.
Não haviam aprendido que o pensamento é a linguagem universal?
Não foram informados de que a criação mental é quase tudo em nossa vida?
São numerosos os irmãos que formulam semelhantes perguntas.
Todavia, encontraram aqui a habitação, o utensílio e a linguagem terrestres.
Esta realidade, contudo, não deve causar surpresa a ninguém.
Não podemos esquecer que temos vivido, até agora (referindo-nos à existência humana), em velhos círculos de antagonismo vibratório.
O pensamento é a base das relações espirituais dos seres entre si, mas não olvidemos que somos milhões de almas dentro do Universo, algo insubmissas ainda às leis universais.
Não somos, por enquanto, comparáveis aos irmãos mais velhos e mais sábios, próximos do Divino, mas milhões de entidades a viverem nos caprichosos mundos inferiores do nosso eu.
Os grandes instrutores da humanidade carnal ensinam princípios divinos, expõem verdades eternas e profundas, nos círculos do globo.
Em geral, porém, nas atividades terrenas, recebemos notícias dessas leis sem nos submetermos a elas e tomamos conhecimento dessas verdades sem lhes consagrarmos nossas vidas.
“Será crível que, somente por admitir o poder do pensamento, ficasse o homem liberto de toda a condição inferior?
Impossível!
“Uma existência secular, na carne terrestre, representa período demasiadamente curto para aspirarmos à posição de cooperadores essencialmente divinos.
Informamo-nos a respeito da força mental no aprendizado mundano, mas esquecemos que toda a nossa energia, nesse particular, tem sido empregada por nós, em milênios sucessivos, nas criações mentais destrutivas ou prejudiciais a nós mesmos.
“Somos admitidos aos cursos de espiritualização nas diversas escolas religiosas do mundo, mas com frequência agimos exclusivamente no terreno das afirmativas verbais.
Ninguém, todavia, atenderá ao dever apenas com palavras.
Ensina a Bíblia que o próprio Senhor da Vida não estacionou no Verbo e continuou o trabalho criativo na Ação.
“Todos sabemos que o pensamento é força essencial, mas não admitimos nossa milenária viciação no desvio dessa força.
“Ora, é coisa sabida que um homem é obrigado a alimentar os próprios filhos;
Nas mesmas condições, cada espírito é compelido a manter e nutrir as criações que lhe são peculiares.
Uma ideia criminosa produzirá gerações mentais da mesma natureza;
Um princípio elevado obedecerá à mesma lei.
Recorramos a símbolo mais simples.
Após elevar-se às alturas, a água volta purificada, veiculando vigorosos fluidos vitais, no orvalho protetor ou na chuva benéfica; conservemo-la com os detritos da terra e fá-la-emos habitação de micróbios destruidores.
“O pensamento é força viva, em toda parte;
É atmosfera criadora que envolve o Pai e os filhos, a Causa e os Efeitos, no Lar Universal.
Nele, transformam-se homens em anjos, a caminho do céu ou se fazem gênios diabólicos, a caminho do inferno.
“Apreendem vocês a importância disso?
Certo, nas mentes evolvidas, entre os desencarnados e encarnados, basta o intercâmbio mental sem necessidade das formas e é justo destacar que o pensamento em si é a base de todas as mensagens silenciosas da ideia, nos maravilhosos planos da intuição, entre os seres de toda espécie.
Dentro desse princípio, o espírito que haja vivido exclusivamente em França poderá comunicar-se no Brasil, pensamento a pensamento, prescindindo de forma verbalista especial, que, nesse caso, será sempre a do receptor;
Mas isso também exige a afinidade pura.
Não estamos, porém, nas esferas de absoluta pureza mental, onde todas as criaturas têm afinidades entre si.
Afinamo-nos uns com os outros, em núcleos insulados, e somos compelidos a prosseguir nas construções transitórias da Terra, a fim de regressar aos círculos planetários com maior bagagem evolutiva.
“Nosso Lar, portanto, como cidade espiritual de transição, é uma bênção a nós concedida por acréscimo de misericórdia, para que alguns poucos se preparem à ascensão e para que a maioria volte à Terra em serviços redentores.
Compreendamos a grandiosidade das leis do pensamento e submetamo-nos a elas, desde hoje”.
Depois de longa pausa, a Ministra sorriu para o auditório e perguntou:
– Quem deseja aproveitar?
Logo após, suave música encheu o recinto de cariciosas melodias.
Veneranda conversou ainda por muito tempo, revelando amor e compreensão, delicadeza e sabedoria.
Sem qualquer solenidade nos gestos para evidenciar o término da conversação, findou a palestra com uma pergunta graciosa.
Quando vi os companheiros levantarem-se para as despedidas, ao som da música habitual, indaguei de Narcisa, surpreendido:
– Que é isso?
Acabou a reunião?
A enfermeira bondosa esclareceu, sorridente:
– A Ministra Veneranda é sempre assim.
Finaliza a conversação em meio do nosso maior interesse.
Ela costuma afirmar que as preleções evangélicas começaram com Jesus, mas ninguém pode saber quando e como terminarão.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 28 de Agosto de 2019, 16:00
NOSSO LAR
38 O Caso Tobias

No terceiro dia de trabalho, alegrou-me Tobias com agradável surpresa.
Findo o serviço, ao entardecer, de vez que outros se incumbiram da assistência noturna, fui fraternalmente levado à residência dele, onde me aguardavam belos momentos de alegria e aprendizado.
Logo de entrada, apresentou-me duas senhoras, uma já idosa e outra bordejando a madureza. Esclareceu que esta era sua esposa e aquela, irmã.
Luciana e Hilda, afáveis e delicadas, primaram em gentilezas.
Reunidos na formosa biblioteca de Tobias, examinamos volumes maravilhosos na encadernação e no conteúdo espiritual.
A senhora Hilda convidou-me a visitar o jardim, para que pudesse observar, de perto, alguns caramanchões de caprichosos formatos.
Cada casa, em "Nosso Lar", parecia especializar-se na cultura de determinadas flores.
Em casa de Lísias, as glicínias e os lírios contavam-se por centenas;
Na residência de Tobias, as hortênsias inumeráveis desabrochavam nos verdes lençóis de violetas.
Belos caramanchões de árvores delicadas, recordando o bambu ainda novo, apresentavam no alto uma trepadeira interessante, cuja especialidade é unir frondes diversas, à guisa de enormes laços floridos, na verde cabeleira das árvores, formando gracioso teto.
Não sabia traduzir minha admiração.
Embalsamava-se a atmosfera de inebriante perfume.
Comentávamos a beleza da paisagem geral, vista daquele ângulo do Ministério da Regeneração, quando Luciana nos chamou ao interior, para leve refeição.
Encantado com o ambiente simples, cheio de notas de fraternidade sincera, não sabia como agradecer ao generoso anfitrião.
A certa altura da palestra amável, Tobias acrescentou, sorridente:
– O meu amigo, a bem dizer, é ainda novato em nosso Ministério e talvez desconheça o meu caso familiar.
Sorriam ao mesmo tempo as duas senhoras; e, observando-me a silenciosa interpelação, o dono da casa continuou:
– Aliás, temos numerosos núcleos nas mesmas condições.
Imagine que fui casado duas vezes... E, indicando as companheiras de sala, prosseguiu num gesto de bom humor:
– Creio nada precisar esclarecer quanto às esposas.
– Ah! sim - murmurei extremamente confundido -, quer dizer que as senhoras Hilda e Luciana compartilharam das suas experiências na Terra...
– Isso mesmo - respondeu tranqüilo.
Nesse ínterim, a senhora Hilda tomou a palavra, dirigindo-se a mim:
– Desculpe o nosso Tobias, irmão André.
Ele está sempre disposto a falar do passado, quando nos encontramos com alguma visita de recém-chegados da Terra.
– Pois não será motivo de júbilo - aduziu Tobias bem humorado -, vencer o monstro do ciúme inferior, conquistando, pelo menos, alguma expressão de fraternidade real?
– De fato - objetei -, o problema interessa profundamente a todos nós.
Há milhões de pessoas, nos círculos do planeta, em estado de segundas núpcias.
Como resolver tão alta questão afetiva, considerando a espiritualidade eterna?
Sabemos que a morte do corpo apenas transforma sem destruir.
Os laços da alma prosseguem, através do Infinito.
Como proceder?
Condenar o homem ou a mulher que se casaram mais de uma vez?
Encontraríamos, porém, milhões de criaturas nessas condições.
Muitas vezes já lembrei, com interesse, a passagem evangélica em que o Mestre nos promete a vida dos anjos, quando se referiu ao casamento na Eternidade.
– Forçoso é reconhecer, todavia, com toda a nossa veneração ao Senhor - atalhou o anfitrião, bondoso -, que ainda não nos achamos na esfera dos anjos e, sim, dos homens desencarnados.
– Mas, como solucionar aqui semelhante situação? - perguntei.
Tobias sorriu e considerou:
– Muito simplesmente;
Reconhecemos que entre o irracional e o homem há enorme série gradativa de posições.
Assim, também, entre nós outros, o caminho até o anjo representa imensa distância a percorrer.
Ora, como podemos aspirar à companhia de seres angélicos, se ainda não somos nem mesmo fraternos uns com os outros?
Claro que existem caminheiros de ânimo forte, que se revelam superiores a todos os obstáculos da senda, por supremo esforço da vontade;
Mas a maioria não prescinde de pontes ou do socorro de guardiães caridosos.
Em vista dessa verdade, os casos dessa natureza são resolvidos nos alicerces da fraternidade legítima, reconhecendo-se que o verdadeiro casamento é de almas e essa união ninguém poderá quebrantar.
Nesse instante, Luciana, que se mantinha silenciosa, interveio, acrescentando:
– Convém explicar, todavia, que tudo isso, felicidade e compreensão, devemos ao espírito de amor e renúncia de nossa Hilda.
A senhora Tobias, no entanto, demonstrando humildade digna, acentuou:
– Calem-se.
Nada de qualidades que não possuo.
Buscarei sumariar nossa história, a fim de que nosso hóspede conheça meu doloroso aprendizado.
E continuou, depois de fixar um gesto de narradora amável:
– Tobias e eu nos casamos na Terra, quando ainda muito jovens, em obediência a sagradas afinidades espirituais.
Creio desnecessário descrever a felicidade de duas almas que se unem e se amam verdadeiramente no matrimônio.
A morte, porém, que parecia enciumada de nossa ventura, subtraiu-me do mundo, por ocasião do nascimento do segundo filhinho.
Nosso tormento foi, então, indescritível.
Tobias chorava sem remédio, ao passo que eu me via sem forças para sufocar a própria angústia.
Pesados dias de Umbral abateram-se sobre mim.
Não tive remédio senão continuar agarrada ao marido e ao casal de filhinhos, surda a todo esclarecimento que os amigos espirituais me enviavam, por intuição.
Queria lutar, como a galinha ao lado dos pintainhos.
Reconhecia que o esposo necessitava reorganizar o ambiente doméstico, que os pequeninos reclamavam assistência maternal.
Tornava-se a situação francamente insuportável.
Minha cunhada solteira não tolerava as crianças e a cozinheira apenas fingia dedicação.
Duas amas jovens pautavam toda a conduta pessoal pela insensatez.
Não pôde Tobias adiar a solução justa e, decorrido um ano da nova situação, desposou Luciana, contrariando meus caprichos.
Ah! se soubesse como me revoltei!
Semelhava-me a uma loba ferida.
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 28 de Agosto de 2019, 16:01
Minha ignorância deu até para lutar com a pobrezinha, tentando aniquilá-la.
Foi aí que Jesus me concedeu a visita providencial de minha avó materna, desencarnada havia muitos anos.
Chegou ela como quem nada desejava, enchendo-me de surpresa, sentou-se a meu lado, pôs-me em seguida ao colo, como noutro tempo, e perguntou-me lacrimosa:
- "Que é isso, minha neta?
Que papel é o seu na vida?
Você é leoa ou alma consciente de Deus?
Pois nossa irmã Luciana serve de mãe a seus filhos, funciona como criada de sua casa, é jardineira do seu jardim, suporta a bílis do seu marido e não pode assumir o lugar provisório de companheira de lutas, ao lado dele?
É assim que o seu coração agradece os benefícios divinos e remunera aqueles que o servem?
Quer você uma escrava e despreza uma irmã?
Hilda! Hilda! onde está a religião do Crucificado que você aprendeu?
Oh! minha pobre neta, minha pobre!..."
Abracei-me, então, em lágrimas, com a velhinha santa e abandonei o antigo ambiente doméstico, vindo em companhia dela para os serviços de "Nosso Lar".
Desde essa época, tive em Luciana mais uma filha.
Trabalhei, então, intensamente.
Consagrei-me ao estudo sério, ao melhoramento moral de mim mesma, busquei ajudar a todos, sem distinção, em nosso antigo lar terrestre.
Constituiu Tobias uma família nova, que passou a me pertencer, igualmente, pelos sagrados laços espirituais.
Mais tarde, voltou ele, reunindo-se a mim, acompanhado de Luciana, que veio também ter conosco para nossa completa alegria.
E aí tem, meu amigo, a nossa história...
Luciana, contudo, tomou a palavra e observou:
– Não disse ela, porém, quanto se tem sacrificado, ensinando-me com exemplos. –
Que dizes, filha? - perguntou a senhora Tobias, acariciando-lhe a destra.
Luciana sorriu e ajuntou:
– Mas, graças a Jesus e a ela, aprendi que há casamento de amor, de fraternidade, de provação, de dever, e, no dia em que Hilda me beijou, perdoando-me, senti que meu coração se libertara desse monstro que é o ciúme inferior.
O matrimônio espiritual realiza-se, alma com alma, representando os demais, simples conciliações indispensáveis à solução de necessidades ou processos retificadores, embora todos sejam sagrados.
– E assim construímos nosso novo lar, na base da fraternidade legítima - acrescentou o dono da casa.
Aproveitando o ligeiro silêncio que se fizera, indaguei:
– Mas como se processa o casamento aqui?
– Pela combinação vibratória - esclareceu Tobias, atencioso -, ou então, para ser mais explícito -, pela afinidade máxima ou completa.
Incapaz de sopitar a curiosidade, esqueci a lição de bom-tom e interroguei:
– Mas, qual a posição de nossa irmã Luciana neste caso?
Antes, porém, que os cônjuges espirituais respondessem, foi a própria interessada que explicou:
– Quando desposei Tobias, viúvo, já devia estar certa de que, com todas as probabilidades, meu casamento seria uma união fraternal, acima de tudo.
Foi o que me custou a compreender.
Aliás, é lógico que, se os consortes padecem inquietação, desentendimento, tristeza, estão unidos fisicamente, mas não integrados no matrimônio espiritual.
Queria perguntar mais alguma coisa; entretanto, não encontrava palavras que revelassem ausência de impertinente indiscrição.
A senhora Hilda, contudo, compreendeu-me o pensamento e explicou:
– Fique tranqüilo.
Luciana está em pleno noivado espiritual.
Seu nobre companheiro de muitas etapas terrenas precedeu-a há alguns anos, regressando ao círculo carnal.
No ano próximo, ela seguirá igualmente ao seu encontro.
Creio que o momento feliz será em São Paulo.
Sorrimos todos alegremente.
Nesse instante, Tobias foi chamado à pressa, para atender a um caso grave nas Câmaras de Retificação
Era preciso, desse modo, encerrar a palestra.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 28 de Agosto de 2019, 16:02
NOSSO LAR
39 OUVINDO D. LAURA

A história de Tobias havia me impressionado muito.
Aquela família formada com base em novos conceitos de união fraterna não me saía da cabeça.
Afinal de contas, eu também me sentia dono do lar físico e imaginava como seria difícil para mim uma situação como essa.
Será que eu teria coragem de agir como Tobias?
Reconhecia que não.
No meu entender, não seria capaz de colocar Zélia nessa situação, nem poderia aceitar que ela me impusesse algo assim.
Aqueles comentários na casa de Tobias me torturavam.
Não conseguia achar explicações razoáveis que me deixassem satisfeito.
Fiquei tão preocupado que, no dia seguinte, resolvi visitar Lisias durante uma folga, para poder pedir explicações a D. Laura, em quem tinha muita confiança.
Fui recebido com muita alegria e esperei o momento adequado em que pudesse ouvir a mãe de Lísias com calma e tranquilidade.
Depois que os jovens saíram para os seus passeios, contei à boa amiga, muito constrangido, o problema que me incomodava.
Ela sorriu, como quem tem muita experiência de vida, e foi dizendo:
- Você fez muito bem em vir conversar comigo.
Todo problema que nos torture fica mais fácil de ser resolvido quando podemos contar com os amigos.
E, depois de rápida pausa, continuou:
- O caso Tobias é apenas um dos muitos que temos aqui e em outras colônias que se caracterizam por pensamentos elevados.
- Mas, isso nos choca os sentimentos, não é verdade? – respondi interessado.
- Quando nos prendemos aos pontos de vista puramente humanos, essas coisas podem até nos escandalizar.
No entanto, André, é necessário que agora consideremos, antes de tudo, os princípios espirituais.
Para isso, precisamos nos lembrar da sequência lógica que há no processo evolutivo.
Se levamos um bom tempo para sair da animalidade, é natural que essa animalidade não desapareça de uma hora para outra.
Levamos muitos séculos para sair dos planos inferiores.
O sexo é uma faculdade divina que demoramos muito para entender.
Não será fácil para você, no momento, captar o sentido elevado da família que visitou ontem.
Entretanto, a felicidade ali é muito grande, pela atmosfera de compreensão que se criou entre eles.
Nem todos conseguem substituir elos de sombra por laços de luz em tão pouco tempo.
- Mas isso é regra geral? – perguntei.
– Todo homem e toda mulher que tenham se casado mais de uma vez, reconstroem o lar aqui, em companhia de todos os cônjuges com quem conviveram?
Fazendo um gesto de paciência, ela explicou:
- Não seja tão radical.
Vamos devagar.
Muita gente pode ter carinho e não ter compreensão.
Não esqueça que nossas construções vibratórias são muito mais fortes que as materiais.
O caso Tobias é um caso de vitória da fraternidade verdadeira, por parte dos três interessados.
Quem não se adaptar à lei de fraternidade e compreensão, logicamente não conseguirá o mesmo.
As regiões escuras do Umbral estão cheias de entidades que não resistiram a provas como essa.
Enquanto odiarem, funcionam como agulhas magnéticas agitadas pelas correntes mais antagônicas.
Enquanto não entenderem a verdade, sofrerão com a mentira e, portanto, não poderão passar a planos superiores.
São muitas as criaturas que sofrem muito tempo, sem qualquer alívio espiritual, só por se recusarem a praticar a fraternidade legítima.
- E o que acontece então?
– perguntei, aproveitando a pausa de D. Laura
– Se não podem ir aos planos de aprendizado superior, onde ficam os espíritos que estão nessa situação?
- Depois de sofrerem muito com as imagens mentais que criam para si mesmos - respondeu a mãe de Lísias – voltam para fazer no corpo físico o que não conseguiram fazer fora dele.
Deus permite que, reencarnados, esqueçam o passado e recebam, como parentes, aqueles que repudiaram deliberadamente por ódio ou incompreensão.
Por aí vemos o quanto é oportuna a recomendação de Jesus para que nos reconciliemos com os adversários o quanto antes.
Esse conselho, interessa, antes de mais nada, a nós mesmos.
Devemos segui-lo pelo nosso próprio bem.
Quem sabe aproveitar bem o tempo, quando desencarna, mesmo que ainda precise voltar ao plano físico, pode alcançar sublime paz de consciência, reencarnando com menos preocupações depois.
Há muitos espíritos que perdem séculos tentando desfazer antagonismos e antipatias na vida terrena e refazendo-se depois de desencarnarem.
O problema do perdão com Jesus, André, é muito sério.
Não se resolve em conversas.
Dizer que perdoamos é só uma questão de palavras, mas aquele que perdoa realmente, precisa movimentar pesados compromissos de outras vidas dentro de si mesmo.
A essa altura, D. Laura se calou, como quem precisasse pensar na profundidade do que foi dito.
Aproveitando a deixa, comentei: -
O casamento é muito sagrado para mim.
D. Laura não se surpreendeu com minhas palavras e respondeu:
- Nossa conversa não interessa aos espíritos mais animalizados.
Mas para nós, que entendemos a necessidade de crescimento, é necessário notar que, não só o casamento é sagrado, como também toda experiência que envolva sexo, porque afeta profundamente a vida da alma.
Ouvindo aquela observação, não consegui deixar de ficar vermelho, lembrando meu passado de homem comum.
Minha mulher havia sido um objeto sagrado para mim, que eu colocava à frente de todas as outras afeições.
No entanto, ao ouvir a mãe de Lísias, pensei nas palavras antigas do Velho Testamento: “
- não cobiçarás a casa do próximo, não cobiçarás a mulher do próximo, nem o servo, nem a serva, nem o jumento, nem o boi, nem coisa alguma que lhe pertença”.
Num instante, deixei de estranhar o caso Tobias.
E D. Laura, percebendo minha confusão íntima, continuou:
- Onde todo mundo tem que consertar alguma coisa, deve haver muita compreensão e muito respeito à bondade de Deus, que nos dá tantas oportunidades de correção.
Para o espírito que já alcançou alguma luz, toda experiência sexual é muito importante.
É por isso que o entendimento fraterno deve vir antes de qualquer trabalho de redenção.
Há pouco tempo ouvi um grande instrutor do Ministério da Elevação afirmar que, se pudesse, iria se materializar no mundo físico para dizer aos religiosos em geral que toda caridade, para ser divina, precisa se apoiar na fraternidade.
Nesse momento, a dona da casa me convidou para visitar Eloísa, que ainda estava de repouso, dando a entender que não queria explicar outros detalhes sobre o assunto.
E, depois de ver como a jovem recém-desencarnada já estava melhor, voltei às Câmaras de Retificação, completamente envolvido em meus pensamentos.
Já não me preocupava mais com a situação de Tobias, nem com as atitudes de Hilda e Luciana.
Estava mais interessado na importante questão da fraternidade humana

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 28 de Agosto de 2019, 16:03
NOSSO LAR
40 QUEM PLANTA, COLHE

Eu não sabia explicar porque queria tanto visitar o departamento feminino das Câmaras de Retificação.
Comentei o meu desejo com Narcisa e ela se dispôs a me ajudar.
- Quando Deus nos chama para um determinado lugar, - disse com bondade – é porque alguma tarefa nos espera lá.
Na vida, cada situação tem uma finalidade definida...
Não se esqueça disso quando fizer visitas aparentemente casuais.
Se os nossos pensamentos estiverem focados no bem, não é difícil identificar as sugestões divinas.
No mesmo dia, a enfermeira foi comigo procurar Nemésia, grande colaboradora daquele setor.
Não foi difícil encontrá-la.
Em filas de leitos muito brancos e bem cuidados, estavam mulheres que mais pareciam trapos humanos.
Aqui e ali, ouviam-se gemidos terríveis.
Mais adiante, palavras de angústia profunda.
Nemésia, que demonstrava a mesma generosidade de Narcisa, falou com bondade:
- Você já deve estar acostumado com este quadro.
No departamento masculino, a situação é praticamente a mesma.
E fazendo um gesto para a colega, disse:
- Narcisa, por favor, acompanhe André e mostre-lhe os serviços que achar mais interessantes para o seu aprendizado.
Fiquem à vontade.
Minha amiga e eu falávamos da vaidade humana sempre voltada para os prazeres físicos, fazendo comentários e observações, quando chegamos ao Pavilhão 7.
Ali estavam algumas dezenas de mulheres, em leitos separados por distância regular, um a um.
Estava observando o rosto das doentes, quando percebi alguém que me chamou a atenção.
Quem seria aquela mulher amargurada, de aparência especial?
Tinha o rosto prematuramente envelhecido e os lábios contraídos numa expressão de ironia e resignação.
Os olhos, embaçados e tristes, estavam defeituosos.
Com a memória agitada e o coração apertado, logo localizei-a no passado.
Era Elisa.
Aquela mesma Elisa que conheci ainda jovem.
Estava diferente por causa do sofrimento, mas não havia qualquer dúvida.
Lembrei, perfeitamente, o dia em que ela, humilde, foi à nossa casa com uma antiga amiga de minha mãe, que aceitou suas recomendações e a contratou para o serviço doméstico.
No começo, nada de anormal.
Depois, intimidade excessiva, de quem abusa da própria autoridade em relação à condição humilde de outra pessoa.
Elisa me pareceu muito leviana e, quando estava sozinha comigo, comentava descaradamente certas aventuras da sua mocidade, piorando nossa situação.
Lembrei também o dia em que minha mãe me chamou para dar alguns conselhos.
Aquela intimidade, não pegava bem – dizia ela.
Era justo que tratássemos a empregada com carinho e respeito, mas era melhor manter uma certa distância.
Mesmo assim, fui irresponsável e levei muito longe nossa amizade.
Muito envergonhada, Elisa saiu de nossa casa, sem coragem de me acusar de nada.
O tempo passou, reduzindo o fato a acontecimento passageiro em minha mente.
No entanto, o episódio continuava vivo.
Na minha frente, Elisa estava agora vencida e humilhada!
Por onde será que andou a pobre criatura, levada tão jovem a sofrimentos tão grandes?
De onde vinha?
Ah!... Dessa vez não era o Silveira, para que eu pudesse dividir o erro com meu pai.
A dívida agora era só minha.
Cheguei a tremer de tanta vergonha daquelas lembranças, mas, como um menino ansioso por ser desculpado pelos erros cometidos, procurei Narcisa para pedir ajuda.
Eu mesmo me admirava da confiança que sentia naquelas santas mulheres.
Talvez nunca tivesse coragem de pedir ao Ministro Clarêncio as explicações que havia pedido à mãe de Lísias e, provavelmente, tomaria outra atitude naquele momento se fosse Tobias que estivesse comigo.
Considerando que toda mulher generosa e cristã é mãe, fui até a enfermeira, com mais confiança do que nunca.
Pela forma como me olhou, creio que Narcisa já tinha entendido tudo.
Comecei a falar, fazendo força para não chorar, mas, no meio da história, minha amiga falou: Não precisa continuar.
Já imagino como terminou a história.
Não se entregue a pensamentos negativos.
Sei como você está se sentindo, por experiência própria.
No entanto, se Deus permitiu que você reencontrasse essa moça, é porque acha que você já tem condições de resgatar a dívida.
Vendo que eu continuava indeciso, completou:
- Não tenha medo.
Aproxime-se dela e reconforte-a.
Todos nós, André, encontramos, em nosso caminho, os frutos do bem ou do mal que tivermos plantado.
Isso é certo, é realidade universal.
Situações como esta têm me feito muito bem.
Bem aventurados os devedores que já têm condições de pagar.
E percebendo que eu estava decidido a fazer o que fosse necessário para acertar as contas, acentuou:
- Vamos, mas não deixe que ela saiba quem você é, por enquanto.
Faça isso depois de ajudá-la efetivamente.
Isso não será difícil, já que ainda sofre de cegueira temporária.
Pelas características de sua aura, pode-se ver uma mãe fracassada e uma mulher de ninguém.
Aproximamo-nos e eu tomei a iniciativa de consolá-la.
Elisa se apresentou, dizendo o próprio nome e, espontaneamente, dando-nos outras informações sobre o seu caso.
Havia chegado às Câmaras de Retificação havia três meses.
Querendo me castigar na frente de Narcisa, para que a lição se gravasse em meu espírito para sempre, perguntei:
- E qual é a sua história, Elisa?
Você deve ter sofrido muito...
Sentindo carinho em minha pergunta, sorriu e, muito conformada, desabafou:
- Para que lembrar de coisas tão tristes?
- As experiências difíceis sempre nos ensinam algo.
– respondi A infeliz, demonstrando profunda mudança íntima, pensou por algum tempo e, como quem organiza ideias, falou:
- Minha vida foi a de todas as mulheres irresponsáveis que trocam o trabalho honesto pela ilusão venenosa.
Filha de um lar muito pobre, ainda jovem arrumei emprego na casa de um rico comerciante, onde a vida me impôs profundas transformações.
Ele tinha um filho, tão jovem quanto eu.
Depois de nos tornarmos íntimos, quando já não adiantava qualquer reação de minha parte, esqueci que o trabalho é bênção de Deus para aqueles que amam a vida sadia, por mais que tenham errado, e me deixei levar por experiências dolorosas, que nem preciso comentar. Conheci, de perto, o prazer, o luxo, o conforto material e, em seguida, o horror a mim mesma, a sífilis, o hospital, o abandono de todos, as tremendas desilusões que terminaram com a cegueira e a morte física.
Fiquei muito tempo andando sem rumo em total desespero, até que um dia, tanto pedi o socorro da Virgem de Nazaré, que mensageiros do bem me recolheram em seu nome, trazendo-me para esta casa abençoada.
Muito comovido e chorando, perguntei:
- E ele? Como se chama o rapaz que a tornou tão infeliz?
Ouvi-a, então, dizer o meu nome e o dos meus pais.
- E você o odeia? – perguntei, envergonhado.
Ela sorriu com tristeza e respondeu:
- Antes eu o odiava profundamente, amaldiçoando seu nome, mas Nemésia me transformou.
Para odiá-lo, tenho que odiar a mim também.
No meu caso, a culpa deve ser dividida.
Portanto, não posso recriminar ninguém.
Aquela humildade me emocionou.
Peguei sua mão e, sem conseguir evitar, uma lágrima de arrependimento e remorso caiu.
- Ouça, minha amiga,
- falei emocionado
– eu também me chamo André e preciso ajudá-la.
De hoje em diante, conte sempre comigo.
- E a sua voz – disse ela, ingenuamente – parece a dele.
- Pois é… - continuei, comovido
– Até hoje não tenho exatamente uma família em “Nosso Lar”, mas você será minha irmã do coração.
Conte com a minha dedicação de amigo.
Em seu rosto vi, então, um grande sorriso que parecia uma enorme luz:
- Muito obrigada!
– disse, enxugando as lágrimas
– Há muitos anos ninguém fala comigo dessa maneira, nesse tom familiar, como amigo sincero!...
Que Jesus o abençoe.
Nesse instante, quando já não podia mais conter o choro, Narcisa pegou minhas mãos e repetiu:
- Que Jesus o abençoe.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Setembro de 2019, 11:06
NOSSO LAR
41 Convocados à Luta

Nos primeiros dias de setembro de 1939, "Nosso Lar" sofreu, igualmente, o choque por que passaram diversas colônias espirituais, ligadas à civilização americana.
Era a guerra europeia, tão destruidora nos círculos da carne, quão perturbadora no plano do espírito.
Entidades numerosas comentavam os empreendimentos bélicos em perspectiva, sem disfarçarem o imenso terror de que se possuíam.
Sabia-se, desde muito, que as Grandes Fraternidades do Oriente suportavam as vibrações antagônicas da nação japonesa, experimentando dificuldades de vulto.
Anotavam-se, porém, agora, fatos curiosos de alto padrão educativo.
Assim como os nobres círculos espirituais da velha Ásia lutavam em silêncio, preparava-se "Nosso Lar" para o mesmo gênero de serviço.
Além de valiosas recomendações, no campo da fraternidade e da simpatia, determinou o Governador tivéssemos cuidado na esfera do pensamento, preservando-nos de qualquer inclinação menos digna, de ordem sentimental.
Reconheci que os Espíritos superiores, nessas circunstâncias, passam a considerar as nações agressoras não como inimigas, mas como desordeiras e cuja atividade criminosa é imprescindível reprimir. –
Infelizes dos povos que se embriaguem com o vinho do mal - disse-me Salústio -; ainda que consigam vitórias temporárias, elas servirão somente para lhes agravar a ruína, acentuando-lhes as derrotas fatais.
Quando um país toma a iniciativa da guerra, encabeça a desordem da Casa do Pai, e pagará um preço terrível.
Observei, então, que as zonas superiores da vida se voltam em defesa justa, contra os empreendimentos da ignorância e da sombra, congregados para a anarquia e, consequentemente, para a destruição.
Esclareceram-me os colegas de trabalho que, nos acontecimentos dessa natureza, os países agressores convertem-se, naturalmente, em núcleos poderosos de centralização das forças do mal.
Sem se precatarem dos perigos imensos, esses povos, com exceção dos espíritos nobres e sábios que lhes integram os quadros de serviço, embriagam-se ao contato dos elementos de perversão, que invocam das camadas sombrias.
Coletividades operosas convertem-se em autômatos do crime.
Legiões infernais precipitam-se sobre grandes oficinas do progresso comum, transformando-as em campos de perversidade e horror.
Mas, enquanto os bandos escuros se apoderam da mente dos agressores, os agrupamentos espirituais da vida nobre movimentam-se em auxílio dos agredidos.
Se devemos lastimar a criatura em oposição à lei do bem, com mais propriedade devemos lamentar o povo que olvidou a justiça.
Logo após os primeiros dias que assinalaram as primeiras bombas na terra polonesa, encontrava-me, ao entardecer, nas Câmaras de Retificação, junto de Tobias e Narcisa, quando inesquecível clarim se fez ouvir por mais de um quarto de hora.
Profunda emoção nos invadira a todos.
É a convocação superior aos serviços de socorro a Terra - explicou-me Narcisa, bondosamente.
– Temos o sinal de que a guerra prosseguirá, com terríveis tormentos para o espírito humano - exclamou Tobias, inquieto -, embora a distância, toda a vida psíquica americana teve na Europa a sua origem.
Teremos grande trabalho em preservar o Novo Mundo.
A clarinada fazia-se ouvir com modulações estranhas e imponentes.
Notei que profundo silêncio caiu sobre todo o Ministério da Regeneração.
Atento à minha atitude de angustiosa expectativa, Tobias informou:
– Quando soa o clarim de alerta, em nome do Senhor, precisamos fazer calar os ruídos de baixo, para que o apelo se grave em nossos corações.
Quando o misterioso instrumento desferiu a última nota, fomos ao grande parque, a fim de observar o céu.
Profundamente comovido, vi inúmeros pontos luminosos, parecendo pequenos focos resplandecentes e longínquos, a librarem-se no firmamento.
– Esse clarim - disse Tobias igualmente emocionado - é utilizado por espíritos vigilantes, de elevada expressão hierárquica.
Regressando ao interior das Câmaras, tive a atenção atraída para enormes rumores provenientes das zonas mais altas da colônia, onde se localizavam as vias públicas.
Tobias confiou a Narcisa certas atividades de importância junto aos enfermos e convidou-me a sair, para observar o movimento popular.
Chegados aos pavimentos superiores, de onde nos poderíamos encaminhar à Praça da Governadoria, notamos intenso movimento em todos os setores.
Identificando-me o espanto natural, o companheiro explicou:
– Estes grupos enormes dirigem-se ao Ministério da Comunicação, à procura de notícias.
O clarim que acaba de soar, só vem até nós em circunstâncias muito graves.
Todos sabemos que se trata da guerra, mas é possível que a Comunicação nos forneça algum detalhe essencial.
Observe os transeuntes.
Ao nosso lado, vinham dois senhores e quatro senhoras, em conversação animada.
– Imagine - dizia uma - o que será de nós no Auxílio.
Há muitos meses consecutivos, o movimento de súplicas tem sido extraordinário.
Experimentamos justa dificuldade para atender a todos os deveres.
– E nós, com a Regeneração? - objetava o cavalheiro mais idoso – os serviços prosseguem consideravelmente aumentados.
No meu setor, a vigilância contra as vibrações umbralinas reclama esforços incessantes.
Estou avaliando o que virá sobre nós...
Tobias segurou-me o braço, de leve, e exclamou:
– Adiantemo-nos um pouco.
Ouçamos o que dizem outros grupos.
Aproximando-nos de dois homens, ouvi um deles perguntando:
– Será crível que a calamidade nos atinja a todos?
O interpelado, que parecia portador de grande equilíbrio espiritual, replicou, sereno:
– De qualquer modo, não vejo motivo para precipitações.
A única novidade é o acréscimo de serviço que, no fundo, constituirá uma bênção.
Quanto ao mais, tudo é natural, a meu ver.
A doença é mestra da saúde, o desastre dá ponderação.
A China está sob a metralha, há muito tempo, e não mostrou você, ainda, qualquer demonstração de assombro.
– Mas agora - objetou o companheiro, desapontado - parece que serei compelido a modificar meu programa de trabalho.
O outro sorriu e ponderou:
– Helvécio, Helvécio, esqueçamos o "meu programa" para pensar em "nossos programas".
Atendendo a novo gesto de Tobias, que me reclamava atenção, observei três senhoras que iam na mesma direção à nossa esquerda, verificando que o pitoresco não faltava, igualmente ali, naquele crepúsculo de inquietação.
– A questão impressiona-me sobremaneira - dizia a mais moça -, porque Everardo não deve regressar do mundo agora.
– Mas a guerra - disse uma das companheiras -, ao que parece, não alcançará a Península.
Portugal está muito longe do teatro dos acontecimentos.
– Entretanto - indagou a outra componente do trio -, por que semelhante preocupação?
Se Everardo viesse, que aconteceria?
– Receio - esclareceu a mais jovem - que ele me procure na qualidade de esposa.
Não o poderia suportar.
É muito ignorante e, de modo algum, me submeteria a novas crueldades.
– Tola que és! - comentou a companheira - olvidaste que Everardo será barrado pelo Umbral, ou coisa pior?
Tobias, sorrindo, informou:
– Ela teme a libertação de um marido imprudente e perverso.
Decorridos longos minutos, em que observávamos a multidão espiritual, atingimos o Ministério da Comunicação, detendo-nos ante os enormes edifícios consagrados ao trabalho informativo.
Milhares de entidades acotovelavam-se, aflitivamente.
Todos queriam informações e esclarecimentos. Impossível, porém, um acordo geral. Extremamente surpreendido com o vozerio enorme, vi que alguém subira a uma sacada de grande altura, reclamando a atenção popular.
Era um velho de aspecto imponente, anunciando que, dentro de dez minutos, far-se-ia ouvir um apelo do Governador.
– É o Ministro Esperidião informou Tobias, atendendo-me a curiosidade.
Serenado o barulho, daí a momentos ouviu-se a voz do próprio Governador, através de numerosos alto-falantes:
– "Irmãos de "Nosso Lar", não vos entregueis a distúrbios do pensamento ou da palavra.
A aflição não constrói, a ansiedade não edifica.
Saibamos ser dignos do clarim do Senhor, atendendo-Lhe a Vontade Divina no trabalho silencioso, em nossos postos."
Aquela voz clara e veemente, de quem falava com autoridade e amor, operou singular efeito na multidão.
No curto espaço de uma hora, toda a colônia regressava à serenidade habitual.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Setembro de 2019, 11:07
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42 A Palavra do Governador

Para o domingo imediato à visita do clarim, prometeu o Governador a realização do culto evangélico no Ministério da Regeneração.
O objetivo essencial da medida, esclareceu Narcisa, seria a preparação de novas escolas de assistência no Auxílio e núcleos de adestramento na Regeneração.
– Precisamos organizar - dizia ela - determinados elementos para o serviço hospitalar urgente, embora o conflito se tenha manifestado tão longe, bem como exercícios adequados contra o medo.
– Contra o medo? - acrescentei, admirado.
– Como não? - objetou a enfermeira, atenciosa. - Talvez estranhe, como acontece a muita gente, a elevada porcentagem de existências humanas estranguladas simplesmente pelas vibrações destrutivas do terror, que é tão contagioso como qualquer moléstia de perigosa propagação.
Classificamos o medo como dos piores inimigos da criatura, por alojar-se na cidadela da alma, atacando as forças mais profundas.
Observando-me a estranheza, continuou:
– Não tenha dúvida.
A Governadoria, nas atuais emergências, coloca o treinamento contra o medo muito acima das próprias lições de enfermagem.
A calma é garantia do êxito.
Mais tarde, compreenderá tais imperativos de serviço.
Não encontrei argumento de contestação para retrucar.
Na véspera do grande acontecimento, tive a honra de integrar o quadro de cooperadores numerosos, no trabalho de limpeza e ornamentação natural do grande salão consagrado ao chefe maior da colônia.
Experimentava, então, ansiedade justa.
Ia ver, pela primeira vez, a meu lado, o nobre condutor que merecia a veneração geral.
Não me sentia sozinho em semelhante expectativa, porque havia inúmeros companheiros nas minhas condições.
Tive a impressão de que toda a vida social do nosso Ministério convergiu para o grande salão natural, desde o raiar de domingo, quando verdadeiras caravanas de todos os departamentos regeneradores chegavam ao local.
O Grande Coro do Templo da Governadoria, aliando-se aos meninos cantores das escolas do Esclarecimento, iniciou a festividade com o maravilhoso hino intitulado
"Sempre Contigo, Senhor Jesus",
Cantado por duas mil vozes ao mesmo tempo.
Outras melodias de beleza singular encheram a amplidão.
O murmúrio doce do vento, canalizado em vagas de perfume, parecia responder às harmonias suaves.
Havia permissão geral de ingresso ao enorme recinto verde, para todos os servidores da Regeneração, porque, conforme o programa estabelecido, o culto evangélico era dedicado especialmente a eles, comparecendo os demais Ministérios, por numerosas delegações.
Pela primeira vez, tive à frente dos olhos alguns cooperadores dos Ministérios da Elevação e União Divina, que me pareceram vestidos em brilhantes claridades.
A festividade excedia a tudo que eu pudesse sonhar em beleza e deslumbramento.
Instrumentos musicais de sublime poder vibratório embalavam de melodias a paisagem odorante.
Às dez horas, chegou o Governador acompanhado pelos doze Ministros da Regeneração.
Nunca esquecerei o vulto nobre e imponente daquele ancião de cabelos de neve, que parecia estampar na fisionomia, ao mesmo tempo, a sabedoria do velho e a energia do moço;
A ternura do santo e a serenidade do administrador consciencioso e justo.
Alto, magro, envergando uma túnica muito alva, olhos penetrantes e maravilhosamente lúcidos, apoiava-se num bordão, embora caminhasse com aprumo juvenil.
Satisfazendo-me a curiosidade, Salústio informou:
– O Governador sempre estimou as atitudes patriarcais, considerando que se deve administrar com amor paterno.
Sentando-se ele na tribuna suprema, levantaram-se as vozes infantis, seguidas de harpas caridosas, entoando o hino
"A Ti, Senhor, Nossas Vidas".
O velhinho enérgico e amorável passeou o olhar pela assembleia compacta, constituída de milhares de assistentes.
Em seguida, abriu um livro luminoso que o companheiro me informou ser o Evangelho de Nosso Senhor Jesus-Cristo.
Folheou-o atento e, depois, leu em voz pausada:
– "E ouvíreis falar de guerras e de rumores de guerras;
Olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim.”
- Palavras do Mestre em Mateus, capítulo 24, versículo 6.
Volume de voz consideravelmente aumentado pelas vibrações elétricas, o chefe da cidade orou comovidamente, invocando as bênçãos do Cristo, saudando, em seguida, os representantes da União Divina, da Elevação, do Esclarecimento, da Comunicação e do Auxílio, dirigindo-se, com especial atenção, a todos os colaboradores dos trabalhos de nosso Ministério.
Impossível descrever a entonação doce e enérgica, amorosa e convincente, daquela voz inesquecível, bem como traduzir no papel humano as considerações divinas do comentário evangélico, vazado em profundo sentimento de veneração pelas coisas sagradas.
Finalizando, em meio de respeitoso silêncio, dirigiu-se o Governador, de maneira particular, aos servidores da Regeneração, exclamando, mais ou menos nestes termos:
– É para vós, irmãos meus, cujos labores se aproximam das atividades terrestres, com mais propriedade, que dirijo meu apelo pessoal, muito esperando da vossa nobre dedicação.
Elevemos ao máximo nosso padrão de coragem e de espírito de serviço.
Quando as forças da sombra agravam as dificuldades das esferas inferiores, é imprescindível acender novas luzes que dissipem, na Terra, as trevas densas.
Consagrei o culto de hoje a todos os servidores deste Ministério, votando-lhes de modo particular a confiança do meu coração.
Não me dirijo, pois, neste momento, aos nossos irmãos cujas mentes já funcionam em zonas mais altas da vida, mas a vós outros, que trazeis nas sandálias da recordação os sinais da poeira do mundo, para exalçar a tarefa gigantesca.
"Nosso Lar" precisa de trinta mil servidores adestrados no serviço defensivo, trinta mil trabalhadores que não meçam necessidade de repouso, nem conveniências pessoais, enquanto perdurar nossa batalha com as forças desencadeadas do crime e da ignorância.
Haverá serviço para todos, nas regiões de limite vibratório, entre nós e os planos inferiores, porque não podemos esperar o adversário em nossa morada espiritual.
Nas organizações coletivas, é forçoso considerar a medicina preventiva como medida primordial na preservação da paz interna.
Somos, em "Nosso Lar", mais de um milhão de criaturas devotadas aos desígnios superiores e ao melhoramento moral de nós mesmos.
Seria caridade permitir a invasão de vários milhões de espíritos desordeiros?
Não podemos, portanto, hesitar no que se refere à defesa do bem.
Sei que muitos de vós recordais, neste instante, o Grande Crucificado.
Sim, Jesus entregou-se à turba de amotinados e criminosos, por amor à redenção de todos nós, mas não entregou o mundo à desordem e ao aniquilamento.
Todos devemos estar prontos para o sacrifício individual, mas não podemos entregar nossa morada aos malfeitores.
Lógico que a nossa tarefa essencial é de confraternização e paz, de amor e alívio aos que sofrem;
Claro que interpretaremos todo mal como desperdício de energia, e todo crime como enfermidade d’alma;
Entretanto,
"Nosso Lar', é um patrimônio divino, que precisamos defender com todas as energias do coração.
Quem não sabe preservar, não é digno de usufruir.
Preparemos, pois, legiões de trabalhadores que operem esclarecendo e consolando, na Terra, no Umbral e nas Trevas, em missões de amor fraternal;
Mas precisamos organizar, neste Ministério, antes de tudo, uma legião especial de defesa, que nos garanta as realizações espirituais, em nossas fronteiras vibratórias.
Assim continuou a discorrer, por longo tempo, encarecendo providências de caráter fundamental, tecendo considerações que jamais conseguiria aqui descrever.
Ultimando os comentários, repetiu a leitura do versículo de Mateus, invocando, de novo, as bênçãos de Jesus e as energias dos ouvintes, para que nenhum de nós recebesse dádivas em vão.
Comovido e deslumbrado, ouvi as crianças entoarem o hino que a Ministra Veneranda intitulara
"A Grande Jerusalém".
O Governador desceu da tribuna sob vibrações de imensa esperança e foi então que brisas cariciosas começaram a soprar sobre as árvores, trazendo, talvez de muito longe, pétalas de rosas diferentes, em maravilhoso azul, que se desfaziam, de leve, ao tocar nossas frontes, enchendo-nos o coração de intenso júbilo.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Setembro de 2019, 11:09
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43 Em Conversação

O Ministério da Regeneração continuou cheio de expressões festivas, não obstante se haver retirado o Governador ao seu círculo mais íntimo.
Comentavam-se os acontecimentos.
Centenas de companheiros se ofereciam para os trabalhos árduos da defensiva, assim correspondendo ao apelo do grande chefe espiritual.
Procurei Tobias, para consultá-lo sobre a possibilidade do meu aproveitamento, mas o generoso irmão sorriu da minha ingenuidade e falou:
– André, você está começando agora uma tarefa nova.
Não se precipite, solicitando acréscimo de responsabilidade.
Haverá serviço para todos, disse-nos, ainda agora, o Governador.
Não se esqueça de que as nossas Câmaras de Retificação constituem núcleos de esforço ativo, dia e noite.
Não se aflija.
Recorde que trinta mil servidores vão ser convocados para a vigilância permanente.
Destarte, na retaguarda, serão muito grandes os claros a preencher.
Identificando-me o desapontamento, o bondoso companheiro, bem-humorado, acentuou depois de ligeira pausa:
– Contente-se com a matrícula na escola contra o medo.
Creia que isso lhe fará enorme bem.
Nesse ínterim, recebi grande abraço de Lísias, que integrara, na festa, a deputação do Ministério do Auxílio.
Com a licença de Tobias, retirei-me em companhia de Lísias para gozar de palestra mais íntima. – Conhece você - indagou ele –
O Ministro Benevenuto, aqui na Regeneração, o mesmo que chegou anteontem da Polônia.
– Não tenho esse prazer.
– Vamos ao seu encontro - replicou Lísias, envolvendo-me nas vibrações do seu imenso carinho fraterno -, há muito que tenho a honra de incluí-lo no círculo das minhas relações pessoais.
Daí a momentos, estávamos no grande recinto verde, consagrado aos trabalhos desse Ministro da Regeneração, que eu apenas conhecia de vista.
Numerosos grupos de visitantes permutavam ideias sob a copa das grandes árvores.
Lísias conduziu-me ao núcleo maior, onde Benevenuto trocava impressões com diversos amigos, apresentando-me com generosas palavras.
O Ministro acolheu-me, cortês, admitindo-me na sua roda com extrema bondade.
A conversação continuou nos rumos naturais e notei que se discutia a situação da esfera terrestre.
– Muito doloroso o quadro que vimos - comentava Benevenuto em tom grave -; habituados ao serviço da paz na América, nenhum de nós imaginava o que fosse o trabalho de socorro espiritual nos campos da Polônia.
Tudo obscuro, tudo difícil.
Não se podem, ali, esperar claridades de fé nos agressores, tampouco na maioria das vítimas, que se entregam totalmente a pavorosas impressões.
Os encarnados não nos ajudam, apenas consomem nossas forças.
Desde o começo do meu Ministério, nunca vi tamanhos sofrimentos coletivos.
– E a comissão demorou-se muito por lá? - perguntou um dos companheiros com interesse.
– Todo o tempo disponível - ajuntou o Ministro.
O chefe da expedição, nosso colega do Auxílio, julgou conveniente permanecermos exclusivamente atidos à tarefa, para enriquecermos observações e melhor aproveitar a experiência.
Com efeito, as condições não poderiam ser melhores.
Acredito que nossa posição está muito distante da extraordinária capacidade de resistência dos abnegados servidores espirituais que ali se encontram de serviço.
Todas as tarefas de assistência imediata funcionam perfeitamente, a despeito do ar asfixiante, saturado de vibrações destruidoras.
O campo de batalha, invisível aos nossos irmãos terrestres, é verdadeiro inferno de indescritíveis proporções.
Nunca, como na guerra, evidencia o espírito humano a condição de alma decaída, apresentando características essencialmente diabólicas.
Vi homens inteligentes e instruídos localizarem, com minuciosa atenção, determinados setores de atividade pacífica, para o a que chamam "impactos diretos”.
Bombas de alto poder explosivo destroem edifícios pacientemente edificados.
Aos fluidos venenosos da metralha, casam-se as emanações pestilentas do ódio e tornam quase impossível qualquer auxílio.
O que mais nos contristou, porém, foi a triste condição dos militares agressores, quando algum deles abandonava as vestes carnais, compelido pelas circunstâncias.
Dominados, na maioria, por forças tenebrosas, fugiam dos Espíritos missionários, chamando-lhes a todos "fantasmas da cruz".
– E não eram recolhidos para esclarecimento justo? - inquiriu alguém, interrompendo o narrador.
Benevenuto esboçou um gesto significativo e respondeu:
– Será sempre possível atender aos loucos pacíficos, no lar;
Mas que remédio se reservará aos loucos furiosos, senão o hospício?
Não havia outro recurso para tais criaturas, senão deixá-las nos precipícios das trevas, onde serão naturalmente compelidas a reajustar-se, dando ensejo a pensamentos dignos.
É razoável, portanto, que as missões de auxílio recolham apenas os predispostos a receber o socorro elevado.
Os espetáculos entrevistos foram, portanto, demasiadamente dolorosos, por muitas razões.
Valendo-se de ligeiro intervalo, outro companheiro opinou:
– É quase incrível que a Europa, com tantos patrimônios culturais, se tenha abalançado a semelhante calamidade.
– Falta de preparação religiosa, meus amigos - definiu o Ministro com expressiva inflexão de voz -, não basta ao homem a inteligência apurada, é-lhe necessário iluminar raciocínios para a vida eterna.
As igrejas são sempre santas em seus fundamentos e o sacerdócio será sempre divino, quando cuide essencialmente da Verdade de Deus;
Mas o sacerdócio político jamais atenderá a sede espiritual da civilização.
Sem o sopro divino, as personalidades religiosas poderão inspirar respeito e admiração, não, porém, a fé e a confiança.
– Mas, o Espiritismo? - perguntou abruptamente um dos circunstantes.
Não surgiram as primeiras florações doutrinárias na América e na Europa, há mais de cinqüenta anos?
Não continua esse movimento novo a serviço das verdades eternas?
Benevenuto sorriu, esboçou um gesto extremamente significativo e acrescentou:
– O Espiritismo é a nossa grande esperança e, por todos os títulos, é o Consolador da humanidade encarnada;
Mas a nossa marcha é ainda muito lenta.
Trata-se de uma dádiva sublime, para a qual a maioria dos homens ainda não possuí "olhos de ver".
Esmagadora porcentagem dos aprendizes novos aproxima-se dessa fonte divina a copiar antigos vícios religiosos.
Querem receber proveitos, mas não se dispõem a dar coisa alguma de si mesmos.
Invocam a verdade, mas não caminham ao encontro dela.
Enquanto muitos estudiosos reduzem os médiuns a cobaias humanas, numerosos crentes procedem à maneira de certos enfermos que, embora curados, creem mais na doença que na saúde, e nunca utilizam os próprios pés.
Enfim, procuram-se, por lá, os espíritos materializados para o fenomenismo passageiro, ao passo que nós outros vivemos à procura de homens espiritualizados para o trabalho sério.
O trocadilho arrancou expressões de bom humor geral, acrescentando o Ministro, gravemente:
– Nossos serviços são astronômicos.
Não esqueçamos, porém, que todo homem é semente da divindade.
Ataquemos a execução de nossos deveres com esperança e otimismo, e estejamos sempre convictos de que, se bem fizermos a nossa parte, podemos permanecer em paz, porque o Senhor fará o resto.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Outubro de 2019, 11:07
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44 As Trevas

Enriquecendo as alegrias da reunião, Lísias deu-me a conhecer novos valores da sua cultura e sensibilidade.
Dedilhando com maestria as cordas da cítara, fez-nos lembrar velhas canções e melodias da Terra.
Dia verdadeiramente maravilhoso!
Sucediam-se júbilos espirituais, como se estivéssemos em pleno paraíso.
Quando me vi a sós com o bondoso enfermeiro do Auxílio, procurei transmitir-lhe minhas sublimes impressões.
– Não tenha dúvida - disse, sorrindo -, quando nos reunimos àqueles a quem amamos, ocorre algo de confortador e construtivo em nosso íntimo.
É o alimento do amor, André.
Quando numerosas almas se congregam no círculo de tal ou qual atividade, seus pensamentos se entrelaçam, formando núcleos de força viva, através dos quais cada um recebe seu quinhão de alegria ou sofrimento, da vibração geral.
É por essa razão que, no planeta, o problema do ambiente é sempre fator ponderável no caminho de cada homem.
Cada criatura viverá daquilo que cultiva.
Quem se oferece diariamente à tristeza, nela se movimentará;
Quem enaltece a enfermidade, sofrer-lhe-á o dano.
Observando-me a estranheza, concluiu:
– Não há nisto mistério.
É lei da vida, tanto nos esforços do bem, como nos movimentos do mal.
Das reuniões de fraternidade, de esperança, de amor e de alegria, sairemos com a fraternidade, a esperança, o amor e a alegria de todos;
Mas, de toda assembléia de tendências inferiores, em que predominam o egoísmo, a vaidade ou o crime, sairemos envenenados com as vibrações destrutivas desses sentimentos.
– Tem razão - exclamei, comovido -;
Vejo nisso, igualmente, os princípios que regem a vida nos lares humanos.
Quando há compreensão recíproca, vivemos na antecâmara da ventura celeste e, se permanecemos em desentendimento e maldade, temos o inferno vivo.
Lísias teve uma expressão de bom humor, confirmando a sorrir.
Foi, então, que me lembrei de interpelá-lo sobre uma coisa que, de algumas horas, me torturava a mente.
Referira-se o Governador, quando nos dirigiu a palavra, aos círculos da Terra, do Umbral e das Trevas, mas, francamente, não tinha eu, até então, qualquer notícia deste último plano.
Não seria região trevosa o próprio Umbral, onde vivera, por minha vez, em sombras densas, durante anos consecutivos?
Não via, nas Câmaras, numerosos desequilibrados e doentes de toda espécie, procedentes das zonas umbralinas?
Recordando que Lísias me dera esclarecimentos tão valiosos da minha própria situação, no início da minha experiência em "Nosso Lar", confiei-lhe minhas dúvidas íntimas, expondo-lhe a perplexidade em que me encontrava.
Ele esboçou uma fisionomia bastante significativa, e falou:
– Chamamos Trevas às regiões mais inferiores que conhecemos.
Considere as criaturas como itinerantes da vida.
Alguns poucos seguem resolutos, visando ao objetivo essencial da jornada.
São os espíritos nobilíssimos, que descobriram a essência divina em si mesmos, marchando para o alvo sublime, sem vacilações.
A maioria, no entanto, estaciona.
Temos então a multidão de almas que demoram séculos e séculos, recapitulando experiências.
Os primeiros seguem por linhas retas.
Os segundos caminham descrevendo grandes curvas.
Nessa movimentação, repetindo marchas e refazendo velhos esforços, ficam à mercê de inúmeras vicissitudes.
Assim é que muitos costumam perder-se em plena floresta da vida, perturbados no labirinto que tracejam para os próprios pés.
Classificam-se, aí, os milhões de seres que perambulam no Umbral.
Outros, preferindo caminhar às escuras, pela preocupação egoística que os absorve, costumam cair em precipícios, estacionando no fundo do abismo por tempo indeterminado.
Compreendeu?
As elucidações não poderiam ser mais claras.
Sensibilizado, porém, com a extensão e complexidade do assunto, ponderei:
– Entretanto, que me diz dessas quedas?
Verificam-se apenas na Terra?
Somente os encarnados são suscetíveis de precipitação no despenhadeiro?
Lísias pensou um minuto e respondeu:
– Sua observação é oportuna.
Em qualquer lugar, o espírito pode precipitar-se nas furnas do mal, salientando-se, porém, que nas esferas superiores as defesas são mais fortes, imprimindo-se, conseqüentemente, mais intensidade de culpa na falta cometida.
– Entretanto - objetei -,
A queda sempre me pareceu impossível nas regiões estranhas ao corpo terreno.
O ambiente divino, o conhecimento da verdade, o auxílio superior figuravam-se-me antídotos infalíveis ao veneno da vaidade e da tentação.
O companheiro sorriu e esclareceu:
– O problema da tentação é mais complexo.
As paisagens do planeta terrestre estão cheias de ambiente divino, conhecimento da verdade e auxílio superior.
Não são poucos os que compartem, ali, de batalhas destruidoras entre as árvores acolhedoras e os campos primaveris;
Muitos cometem homicídios ao luar, insensíveis à profunda sugestão das estrelas;
Outros exploram os mais fracos, ouvindo elevadas revelações da verdade superior.
Não faltam, na Terra, paisagens e expressões essencialmente divinas.
As palavras do enfermeiro calavam-me fundo no espírito.
De fato, em geral, os guerreiros estimam a destruição na primavera e no estio, quando a Natureza estende no solo e no firmamento maravilhas de cor, perfume e luz;
Os latrocínios e homicídios são praticados, de preferência, à noite, quando a Lua e as estrelas enchem o planeta de poesia divina.
A maioria dos verdugos da Humanidade constitui-se de homens eminentemente cultos, que desprezam a inspiração divina.
Renovando minha concepção referente à queda espiritual, acrescentei:
– Contudo, Lísias, poderá você dar-me uma idéia da localização dessa zona de Trevas?
Se o Umbral está ligado à mente humana, onde ficará semelhante lugar de sofrimento e pavor?
– Há esferas de vida em toda parte - disse ele, solícito -,
O vácuo sempre há de ser mera imagem literária.
Em tudo há energias viventes e cada espécie de seres funciona em determinada zona da vida.
Depois de pequeno intervalo, em que me pareceu meditar profundamente, continuou:
– Naturalmente, como aconteceu a nós outros, você situou como região de existência, além da morte do corpo, apenas os círculos a se iniciarem da superfície do globo para cima, esquecido do nível para baixo.
A vida, contudo, palpita na profundeza dos mares e no âmago da terra.
Além disso, há princípios de gravitação para o espírito, como se dá com os corpos materiais.
A Terra não é somente o campo que podemos ferir ou menosprezar, a nosso bel-prazer.
É organização viva, possuidora de certas leis que nos escravizarão ou libertarão, segundo nossas obras.
É claro que a alma esmagada de culpas não poderá subir à tona do lago maravilhoso da vida.
Resumindo, devo lembrar que as aves livres ascendem às alturas;
As que se embaraçam no cipoal sentem-se tolhidas no vôo e as que se prendem a peso considerável são meras escravas do desconhecido.
Percebe?
Lísias, porém, não precisaria fazer-me esta pergunta.
Avaliei, de pronto, o quadro imenso de lutas purificadoras, a desenhar-se ante meus olhos espirituais, nas zonas mais baixas da existência.
Como alguém que precisa ponderar bastante, para exprimir-se, o companheiro pensou, pensou... e concluiu:
– Qual acontece a nós outros, que trazemos em nosso íntimo o superior e o inferior, também o planeta traz em si expressões altas e baixas, com que corrige o culpado e dá passagem ao triunfador para a vida eterna.
Você sabe, como médico humano, que há elementos no cérebro do homem que lhe presidem o senso diretivo.
Hoje, porém, reconhece que esses elementos não são propriamente físicos e sim espirituais, na essência.
Quem estime viver exclusivamente nas sombras, embotará o sentido divino da direção.
Não será demais, portanto, que se precipite nas Trevas, porque o abismo atrai o abismo e cada um de nós chegará ao local para onde esteja dirigindo os próprios passos

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Outubro de 2019, 11:09
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45 No Campo da Música

À tardinha, Lísias convidou-me para acompanhá-lo ao Campo da Música.
– É preciso distrair-se um pouco, André! - disse ele, gentil.
Vendo-me relutante, acentuou:
– Falarei a Tobias.
A própria Narcisa consagrou o dia de hoje ao descanso.
Vamos! Eu, porém, observava em mim mesmo singular fenômeno.
Não obstante a escassez dos meus dias de serviço, já dedicava grande amor àquelas Câmaras.
As visitas diárias do Ministro Genésio, a companhia de Narcisa, a inspiração de Tobias, a camaradagem dos companheiros, tudo isso me falava particularmente ao espírito.
Narcisa, Salústio e eu aproveitávamos todos os instantes de folga para melhorar o interior, aqui e ali, suavizando a situação dos enfermos, que estimávamos de todo o coração, como se fossem nossos filhos.
Considerando a nova posição em que me encontrava, acerquei-me de Tobias, a quem o enfermeiro do Auxílio dirigiu a palavra com respeitosa intimidade.
Recebendo a solicitação, meu iniciador no trabalho anuiu, satisfeito:
– Ótimo programa! André precisa conhecer o Campo da Música.
E, abraçando-me:
– Não hesite.
Aproveite! Volte à noite, quando quiser.
Todos os nossos serviços estão convenientemente atendidos.
Acompanhei Lísias, reconhecidamente.
Atingindo-lhe a residência, no Ministério do Auxílio, tive a satisfação de rever a senhora Laura e informar-me quanto ao regresso da abnegada mãe de Eloísa, que deveria regressar do planeta, na próxima semana.
A casa estava repleta de contentamento.
Havia mais beleza no interior doméstico, novas disposições no jardim.
Despedindo-nos, a dona da casa me abraçou e falou, bem humorada:
– Então, doravante, a cidade terá mais um freqüentador para o Campo da Música!
Tome cuidado com o coração!...
Quanto a mim, ainda ficarei hoje em casa.
Vingar-me-ei de vocês, porém, muito breve!
Não me demorarei a buscar meu alimento na Terra!...
Em meio da geral alegria, ganhamos a via pública.
As jovens faziam-se acompanhar de Polidoro e Estácio, com quem palestravam animadamente.
Lísias, a meu lado, logo que deixamos o aeróbus numa das praças do Ministério da Elevação, disse carinhoso:
– Finalmente, vai você conhecer minha noiva, a quem tenho falado muitas vezes a seu respeito.
– É curioso - observei, intrigado - encontrarmos noivados, também por aqui...
– Como não?
Vive o amor sublime no corpo mortal, ou na alma eterna?
Lá, no círculo terrestre, meu caro, o amor é uma espécie de ouro abafado nas pedras brutas.
Tanto o misturam os homens com as necessidades, os desejos e estados inferiores, que raramente se diferenciará a ganga do precioso metal.
A observação era lógica.
Reconhecendo o efeito benéfico da explicação, prosseguiu:
– O noivado é muito mais belo na espiritualidade.
Não existem véus de ilusão a obscurecer-nos o olhar.
Somos o que somos.
Lascínia e eu já fracassamos muitas vezes nas experiências materiais.
Devo confessar que quase todos os desastres do pretérito tiveram origem na minha imprevidência e absoluta falta de auto- domínio.
A liberdade que as leis sociais do planeta conferem ao sexo masculino, ainda não foi devidamente compreendida por nós outros.
Raramente algum de nós a utiliza no mundo em serviço de espiritualização.
Amiúde, convertemo-la em resvaladouro para a animalidade.
As mulheres, ao contrário, têm tido, até agora, a seu favor, as disciplinas mais rigorosas.
Na existência passageira, sofrem-nos a tirania e suportam o peso das nossas imposições;
Aqui, porém, verificamos o reajustamento dos valores.
Só é verdadeiramente livre quem aprende a obedecer.
Parece paradoxo e, todavia, é a expressão da verdade.
– Contudo - indaguei -, tem você em mira novos planos para os círculos carnais?
– Nem podia ser de outro modo - explicou ele, pressuroso -, necessito enriquecer o patrimônio das experiências e, além disso, minhas dívidas para com o planeta são ainda enormes.
Lascínia e eu fundaremos aqui, dentro em breve, nossa casinha de felicidade, crendo que voltaremos à Terra precisamente daqui a uns trinta anos.
Havíamos alcançado as cercanias do Campo da Música.
Luzes de indescritível beleza banhavam extenso parque, onde se ostentavam encantamentos de verdadeiro conto de fadas.
Fontes luminosas traçavam quadros surpreendentes:
Um espetáculo absolutamente novo para mim.
Antes que pudesse manifestar minha profunda admiração, Lísias recomendou bem-humorado:
– Lascínia sempre se faz acompanhar de duas irmãs, às quais, espero faça você as honras de cavalheiro.
– Mas, Lísias... - respondi, reticencioso, considerando minha antiga posição conjugal
- você deve compreender que estou ligado a Zélia.
O enfermeiro amigo, nesse instante, riu a valer, acrescentando:
– Era o que faltava!
Ninguém quer ferir seus sentimentos de fidelidade.
Não creio, no entanto, que a união esponsalícia deva trazer o esquecimento da vida social.
Não sabe mais ser o irmão de alguém, André?
Ri-me, desconcertado, e nada pude replicar.
Nesse momento, atingimos a faixa de entrada, onde Lísias pagou gentilmente o ingresso.
Notei, ali mesmo, grande grupo de passeantes, em torno de gracioso coreto, onde um corpo orquestral de reduzidas figuras executava música ligeira.
Caminhos marginados de flores desenhavam-se à nossa frente, dando acesso ao interior do parque, em várias direções.
Observando minha admiração pelas canções que se ouviam, o companheiro explicou:
– Nas extremidades do Campo, temos certas manifestações que atendem ao gosto pessoal de cada grupo dos que ainda não podem entender a arte sublime;
Mas, no centro, temos a música universal e divina, a arte santificada, por excelência.
Com efeito, depois de atravessarmos alamedas risonhas, onde cada flor parecia possuir seu reinado particular, comecei a ouvir maravilhosa harmonia dominando o céu.
Na Terra, há pequenos grupos para o culto da música fina e multidões para a música regional.
Ali, contudo, verificava-se o contrário.
O centro do campo estava repleto.
Eu havia presenciado numerosas agregações de gente, na colônia, extasiara-me ante a reunião que o nosso Ministério consagrara ao Governador, mas o que via agora excedia a tudo que me deslumbrara até então.
A nata de "Nosso Lar" apresentava-se em magnífica forma.
Não era luxo, nem excesso de qualquer natureza, o que proporcionava tanto brilho ao quadro maravilhoso.
Era a expressão natural de tudo, a simplicidade confundida com a beleza, a arte pura e a vida sem artifícios.
O elemento feminino aparecia na paisagem, revelando extremo apuro de gosto individual, sem desperdício de adornos e sem trair a simplicidade divina.
Grandes árvores, diferentes das que se conhecem na Terra, guarnecem belos recintos, iluminados e acolhedores.
Não somente os pares afetuosos demoravam nas estradas floridas.
Grupos de senhoras e cavalheiros entretinham-se em animada conversação, valiosa e construtiva.
Não obstante sentir-me sinceramente humilhado pela minha insignificância ante aquela aglomeração seletíssima, experimentava a mensagem silenciosa, de simpatia, no olhar de quantos me defrontavam.
Ouvia frases soltas, relativamente aos círculos carnais, e, contudo, em nenhuma palestra notei o mais ligeiro laivo de malícia ou de acusação aos homens.
Discutia-se o amor, a cultura intelectual, a pesquisa científica, a filosofia edificante, mas todos os comentários tendiam à esfera elevada do auxílio mútuo, sem qualquer atrito de opinião. Observei que, ali, o mais sábio restringia as vibrações de seu poder intelectual, ao passo que os menos instruídos elevavam, quanto possível, a capacidade de compreensão para absorver as dádivas do conhecimento superior.
Em palestras numerosas, recolhia referências a Jesus e ao Evangelho e, no entanto, o que mais me impressionava era a nota de alegria reinante em todas as conversações.
Ninguém recordava o Mestre com as vibrações negativas da tristeza inútil ou do injustificável desalento;
Jesus era lembrado por todos como supremo orientador das organizações terrenas, visíveis e invisíveis, cheio de compreensão e bondade, mas também consciente da energia e da vigilância necessárias à preservação da ordem e da justiça.
Aquela sociedade otimista encantava-me.
Diante dos olhos, tinha concretizadas as esperanças de grande número dos pensadores verdadeiramente nobres, na Terra.
Grandemente maravilhado com a música sublime, ouvi Lísias dizer:
– Nossos orientadores, em harmonia, absorvem raios de inspiração nos planos mais altos e os grandes compositores terrestres são, por vezes, trazidos às esferas como a nossa, onde recebem algumas expressões melódicas, transmitindo-as, por sua vez, aos ouvidos humanos, adornando os temas recebidos com o gênio que possuem.
O Universo, André, está cheio de beleza e sublimidade.
O facho resplendente e eterno da vida procede originariamente de Deus.
O enfermeiro do Auxílio, todavia, não pôde continuar.
Fôramos defrontados por gracioso grupo.
Lascínia e as irmãs haviam chegado e era preciso atender aos imperativos da confraternização.

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NOSSO LAR –
1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Outubro de 2019, 11:13
NOSSO LAR
46 Sacrifício de Mulher

Um ano se passou em trabalhos construtivos, com imensa alegria para mim.
Aprendera a ser útil, encontrara o prazer do serviço, experimentando crescente júbilo e confiança.
Até ali, não voltara ao lar terrestre, apesar do imenso desejo que me espicaçava o coração.
Às vezes, intentava pedir concessões, nesse particular, mas alguma coisa me tolhia.
Não recebera auxílio adequado, não contava, ali, com o carinho e apreço de todos os companheiros?
Reconhecia, portanto, que, se houvesse proveito, de há muito teria sido encaminhado ao velho ambiente doméstico.
Cumpria, pois, aguardar a palavra de ordem.
Além disso, não obstante desdobrar atividades na Regeneração, o Ministro Clarêncio continuava a responsabilizar-se pela minha permanência na colônia.
A senhora Laura e o próprio Tobias não se cansavam de me lembrar esse fato.
Por diversas vezes tinha defrontado o generoso Ministro do Auxílio e, no entanto, mantinha-se ele sempre silencioso sobre o assunto.
Aliás, Clarêncio nunca modificava a atitude reservada, no desempenho das obrigações concernentes à sua autoridade.
Apenas pelo Natal, quando me encontrara nos festejos da Elevação, tocara levemente no assunto, adivinhando-me as saudades da esposa e dos filhinhos.
Comentara as alegrias da noite e asseverara não andar longe o dia em que me acompanharia ao ninho familiar.
Agradeci, comovidamente, esperando, cheio de bom ânimo.
Entretanto, atingíramos setembro de 1940, sem que visse a realização de meus desejos.
Confortava-me, porém, a certeza de haver preenchido todo o meu tempo nas Câmaras de Retificação, com serviço útil.
Não descansara.
Nossas tarefas prosseguiam sempre, sem solução de continuidade.
Habituara-me a cuidar dos enfermos, a interpretar-lhes os pensamentos.
Não perdia de vista a pobre Elisa, encaminhando-a, de maneira indireta, a melhores tentames.
À medida, porém, que se consolidava meu equilíbrio emocional, intensificava-se-me a ansiedade de rever os meus.
A saudade doía fundo.
Em compensação, de longe em longe era visitado por minha mãe, que nunca me abandonou à própria sorte, embora permanecesse em círculos mais altos.
A última vez que nos avistáramos, ela me disse que tencionava cientificar-me de projetos novos.
Aquela atitude maternal de suave conformação nos sofrimentos morais que lhe feriam a alma sensível, comovera-me profundamente.
Que novas resoluções teria tomado?
Intrigado, esperei-lhe a visita, ansioso de conhecer-lhe os planos.
Com efeito, nos primeiros dias de setembro de 1940, minha mãe veio às Câmaras e, depois das saudações carinhosas, comunicou-me o propósito de voltar à Terra.
Em tom afetuoso, explicou o projeto.
Mas, surpreendido e discordando de semelhante decisão, protestei:
– Não concordo.
Voltar a senhora à carne?
Por quê?
Internar-se, de novo, no caminho escuro, sem necessidade imediata?
Mostrando nobre expressão de serenidade, minha mãe ponderou:
– Não consideras a angustiosa condição de teu pai, meu filho?
Há muitos anos trabalho para reerguê-lo e meus esforços têm sido improfícuos.
Laerte é hoje um céptico de coração envenenado.
Não poderia persistir em semelhante posição, sob pena de mergulhar em abismos mais fundos.
Que fazer, André?
Terias coragem de revê-lo em tal situação, esquivando-te ao socorro justo?
– Não - respondi, impressionado -; trabalharia por auxiliá-lo;
Mas a senhora poderá ajudá-lo mesmo daqui.
– Não duvido.
No entanto, os espíritos que amam, verdadeiramente, não se limitam a estender as mãos de longe.
De que nos valeria toda a riqueza material, se não pudéssemos estendê-la aos entes amados?
Poderíamos, acaso, residir num palácio relegando os filhinhos à intempérie?
Não posso ficar a distância.
Já que poderei contar contigo aqui, doravante reunir-me-ei a Luísa a fim de auxiliar teu pai a reencontrar o caminho certo.
Pensei, pensei, e redargüi:
– Insistiria, no entanto, com a senhora.
Não haverá meios de evitar essa contingência?
– Não.
Não seria possível.
Estudei detidamente o assunto.
Meus superiores hierárquicos foram acordes no conselho.
Não posso trazer o inferior para o superior, mas posso fazer o contrário.
Que me resta, senão isso?
Não devo hesitar um minuto.
Tenho em ti o amparo do futuro.
Não te percas, pois, meu filho, e auxilia tua mãe, quando puderes transitar entre as esferas que nos separam da crosta.
Entrementes, zela por tuas irmãs, que talvez ainda se encontrem nas sombras do Umbral, em trabalho ativo de purgação.
Estarei novamente no mundo, em breves dias, onde me encontrarei com Laerte para os serviços que o Pai nos confiar.
– Mas - indaguei - como se encontra ele com a senhora?
Em espírito?
– Não - disse minha mãe com significativa expressão fisionômica.
Com a colaboração de alguns amigos, localizei-o na Terra, a semana passada, preparando-lhe a reencarnação imediata sem que ele nos identificasse o auxílio direto.
Quis fugir das mulheres que ainda o subjugam, talvez com razão, e aproveitamos essa disposição, para jungi-lo à nova situação carnal.
– Mas isso é possível?
E a liberdade individual?
Minha mãe sorriu, algo triste, e obtemperou:
– Há reencarnações que funcionam como drásticos.
Ainda que o doente não se sinta corajoso, existem amigos que o ajudam a sorver o remédio santo, embora muito amargo.
Relativamente à liberdade irrestrita, a alma pode invocar esse direito somente quando compreenda o dever e o pratique.
Quanto ao mais, é indispensável reconhecer que o devedor é escravo do compromisso assumido.
Deus criou o livre-arbítrio, nós criamos a fatalidade.
É preciso quebrar, portanto, as algemas que fundimos para nós mesmos.
Enquanto me perdia em graves pensamentos, continuou ela, retomando as anteriores observações:
– As infelizes irmãs que o perseguem, entretanto, não o abandonam e, não fosse a Proteção Divina por intermédio de nossos guardas espirituais, talvez lhe subtraíssem a oportunidade da nova reencarnação.
– Deus meu! - exclamei.
- Será então possível?
Estamos à mercê do mal até esse ponto?
Simples joguetes em mãos dos inimigos?
– Essas interrogações, meu filho - esclareceu minha genitora, muito calma -,
Devem pairar em nossos corações e em nossos lábios, antes de contrairmos qualquer débito e antes de transformarmos irmãos em adversários para o caminho.
Não tomes empréstimos à maldade...
– E essas mulheres? - indaguei.
Que será feito dessas infelizes?
Minha mãe sorriu e respondeu:
– Serão minhas filhas daqui a alguns anos.
É preciso não esqueceres que irei ao mundo em auxílio de teu pai.
Ninguém ajuda eficientemente, intensificando as forças contrárias, como não se pode apagar na Terra um incêndio com petróleo.
É indispensável amar, André!
Os que descreem perdem o rumo verdadeiro, peregrinando pelo deserto;
Os que erram se desviam da estrada real, mergulhando no pântano.
Teu pai é hoje um céptico e essas pobres irmãs suportam pesados fardos na lama da ignorância e da ilusão.
Em futuro não distante, colocarei todos eles em meu regaço materno, realizando minha nova experiência.
E, olhos brilhantes e úmidos, como se estivesse a contemplar horizontes do porvir, rematou:
– E mais tarde... quem sabe?
Talvez regresse a "Nosso Lar", cercada de outros afetos sacrossantos, para uma grande festividade de alegria, amor e união...
Identificando-lhe o espírito de renúncia, ajoelhei-me e beijei-lhe as mãos.
Desde aquela hora, minha mãe não era apenas minha mãe.
Era muito mais que isso.
Era a mensageira do Amparo, que sabia converter verdugos em filhos do seu coração, para que eles retomassem o caminho dos filhos de Deus.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Outubro de 2019, 11:14
NOSSO LAR
47 A Volta de Laura

Não só minha mãe se preparava para regressar aos círculos terrenos.
Também a senhora Laura encontrava-se em vésperas do grande cometimento.
Avisado por alguns companheiros, aderi à demonstração de simpatia e apreço que diversos funcionários, particularmente do Auxílio e da Regeneração, iam prestar à nobre matrona, por motivo de sua volta às experiências humanas.
Realizou-se a homenagem afetuosa na noite em que o Departamento de Contas lhe entregou a notificação do tempo global de serviço na colônia.
Não é possível traduzir, em letras comuns, a significação espiritual da festa íntima.
Povoava-se a encantadora residência de melodias e luzes.
As flores pareciam mais belas.
Numerosas famílias foram saudar a companheira, prestes a regressar.
Os visitantes, na maioria, cumprimentavam-na, carinhosos, ausentando-se, sem maiores delongas;
No entanto, os amigos mais íntimos lá permaneceram até alta noite.
Tive, assim, ocasião de ouvir observações curiosas e sábias.
A senhora Laura me pareceu mais circunspecta, mais grave.
Notava-se-lhe o esforço para acompanhar a corrente de otimismo geral.
Repleta a sala de estar, a genitora de Lísias explicava ao representante do Departamento:
– Creio não me demorar mais que dois dias.
Terminaram as aplicações do Serviço de Preparação, do Esclarecimento.
E, com um olhar algo triste, concluía:
– Como vê, estou pronta.
O interlocutor tomou expressão de sincera fraternidade e acrescentou, estimulando-a:
– Espero, entretanto, que se encontre animada para a luta.
É uma glória seguir para o mundo, nas suas condições.
Milhares e milhares de horas de serviço a seu favor, perante a comunidade de mais de um milhão de companheiros.
Além disso, os filhinhos constituirão seu belo estímulo à retaguarda.
– Tudo isso me reconforta - exclamou a dona da casa, sem disfarçar a preocupação íntima -, mas devemos compreender que a reencarnação é sempre uma tentativa de magna importância.
Reconheço que meu esposo me precedeu no enorme esforço e que os filhos amados serão meus amigos de todo instante; contudo...
– Ora essa! não se deixe levar por conjeturas - atalhou o Ministro Genésio -, precisamos confiar na Proteção Divina e em nós mesmos.
O manancial da Providência é inesgotável.
É preciso quebrar os óculos escuros que nos apresentam a paisagem física como exílio amarguroso.
Não pense em possibilidades de fracasso;
Mentalize, sim, as probabilidades de êxito.
Além do mais, é justo confiar alguma coisa em nós outros, seus amigos, que não estaremos tão longe, no tocante à "distância vibratória”.
Pense na alegria de auxiliar antigas afeições, pondere na glória imensa de ser útil.
Sorriu a senhora Laura, parecendo mais encorajada, e asseverou:
– Tenho solicitado o socorro espiritual de todos os companheiros, a fim de manter-me vigilante nas lições aqui recebidas.
Bem sei que a Terra está cheia da grandeza divina.
Basta recordar que o nosso sol é o mesmo que alimenta os homens;
No entanto, meu caro Ministro, tenho receio daquele olvido temporário em que nos precipitamos.
Sinto-me qual enferma que se curou de numerosas feridas...
Em verdade, as úlceras não mais me apoquentam, mas conservo as cicatrizes.
Bastaria um leve arranhão, para voltar a enfermidade.
O Ministro esboçou o gesto de quem compreendia o sentido da alegação e revidou:
– Não ignoro o que representam as sombras do campo inferior, mas é indispensável coragem e caminhar para diante.
Ajudala-emos a trabalhar muito mais no bem dos outros, que na satisfação de si mesma.
O grande perigo, ainda e sempre, é a demora nas tentações complexas do egoísmo.
– Aqui - tornou a interlocutora sensatamente -, contamos com as vibrações espirituais da maioria dos habitantes educados, quase todos, nas luzes do Evangelho Redentor;
E ainda que velhas fraquezas subam á tona de nossos pensamentos, encontramos defesa natural no próprio ambiente.
Na Terra, porém, nossa boa intenção é como se fora bruxuleante luz num mar imenso de forças agressivas.
– Não diga isso - atalhou o generoso Ministro -, não dê tamanha importância às influências das zonas inferiores.
Seria armar o inimigo para que nos torturasse.
O campo das idéias é igualmente campo de luta.
Toda luz que acendermos, de fato, na Terra, lá ficará para sempre, porque a ventania das paixões humanas jamais apagará uma só das luzes de Deus.
A senhora pareceu agora ver tudo mais claro, em face dos conceitos ouvidos; mudou radicalmente a atitude mental e falou, cobrando novo alento:
– Estou convencida, agora, de que sua visita é providencial.
Precisava levantar energias.
Faltava-me essa exortação.
É verdade: nossa zona mental é campo de batalha incessante.
É preciso aniquilar o mal e a treva dentro de nós mesmos, surpreendê-los no reduto a que se recolhem, sem lhes dar a importância que exigem.
Sim, agora compreendo.
Genésio sorriu satisfeito e acrescentou:
– Dentro do nosso mundo individual, cada idéia é como se fora uma entidade à parte...
É necessário pensar nisso.
Nutrindo os elementos do bem, progredirão eles para nossa felicidade, constituirão nossos exércitos de defesa; todavia, alimentar quaisquer elementos do mal é construir base segura para os nossos inimigos verdugos.
A essa altura, o funcionário das Contas observou:
– E não podemos esquecer que Laura volta à Terra com extraordinários créditos espirituais.
Ainda hoje, o Gabinete da Governadoria forneceu uma nota ao Ministério do Auxílio, recomendando aos cooperadores técnicos da Reencarnação o máximo cuidado no trato com os ascendentes biológicos que vão entrar em função para constituir o novo organismo de nossa irmã.
– Ah! é verdade - disse ela -, pedi essa providência para que não me encontre demasiadamente sujeita à lei da hereditariedade.
Tenho tido grande preocupação, relativamente ao sangue.
– Repare - disse o interlocutor, solícito - que o seu mérito em "Nosso Lar" é bem grande, porquanto o próprio Governador determinou medidas diretas.
– Não se preocupe, portanto, minha amiga - exclamou o Ministro Genésio, sorridente -, terá ao seu lado inúmeros irmãos e companheiros a colaborarem no seu bem-estar.
– Graças a Deus! - disse a senhora Laura, confortada - faltava-me ouvi-lo, faltava-me ouvi-lo...
Lísias e as irmãs, às quais se unia agora a simpática e generosa Teresa, manifestaram alegria sincera. – Minha mãe precisava esquecer as preocupações - comentou o abnegado enfermeiro do Auxílio -; afinal de contas, não ficaremos aqui a dormir.
– Têm razão - aduziu a dona da casa -;
Cultivarei a esperança, confiarei no Senhor e em todos vocês.
Em seguida, os comentários voltaram ao plano da confiança e do otimismo.
Ninguém comentou a volta à Terra, senão como bendita oportunidade de recapitular e aprender, para o bem.
Ao despedir-me, alta noite, a senhora Laura disse-me em tom maternal:
– Amanhã à noite, André, espero igualmente por você.
Faremos pequena reunião íntima.
O Ministério da Comunicação prometeu-nos a visita de meu esposo.
Embora se encontre nos laços físicos, Ricardo será trazido até aqui, com o auxílio fraternal de companheiros nossos.
Além disso, amanhã estarei a despedir-me.
Não falte.
Agradeci, comovidamente, esforçando-me por ocultar as lágrimas das saudades prematuras que me despontavam no coração.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 27 de Outubro de 2019, 23:25
NOSSO LAR
48 Culto Familiar

Talvez que a praticantes do Espiritismo não fosse tão surpreendente a reunião a que compareci, em casa de Lísias.
Aos meus olhos, porém, o quadro era inédito e interessante.
Na espaçosa sala de estar, reunia-se pequena assembléia de pouco mais de trinta pessoas.
A disposição dos móveis era a mais simples.
Enfileiravam-se poltronas confortáveis, doze a doze diante do estrado, onde o Ministro Clarêncio assumira posição de diretor, cercando-se da senhora Laura e dos filhos.
A distância de quatro metros, aproximadamente, havia um grande globo cristalino, da altura de dois metros presumíveis, envolvido, na parte inferior, em longa série de fios que se ligavam a pequeno aparelho, idêntico aos nossos alto-falantes.
Numerosas indagações me bailavam no cérebro.
Na sala extensa, cada qual tomara lugar adequado, mas observava conversações fraternas em todos os grupos.
Achando-me ao lado de Nícolas, antigo servidor do Ministério do Auxílio e íntimo da família de Lísias, ousei perguntar alguma coisa.
O companheiro não se fez rogado e esclareceu:
– Estamos prontos; contudo, aguardamos a ordem da Comunicação.
Nosso irmão Ricardo está na fase da infância terrestre e não lhe será difícil desprender-se dos elos físicos, mais fortes, por alguns instantes.
– Mas virá ele até aqui? - indaguei.
– Como não? - revidou o interlocutor.
- Nem todos os encarnados se agrilhoam ao solo da Terra.
Como os pombos-correio que vivem, por vezes, longo tempo de serviço, entre duas regiões, espíritos há que vivem por lá entre dois mundos.
E, indicando o aparelho à nossa frente, informou:
– Ali está a câmara que no-lo apresentará.
– Por que o globo cristalino? - perguntei, curioso.
- Não poderia manifestar-se sem ele?
– É preciso lembrar - disse Nícolas, atenciosamente - que a nossa emotividade emite forças suscetíveis de perturbar.
Aquela pequena câmara cristalina é constituída de material isolante.
Nossas energias mentais não poderão atravessá-la.
Nesse instante, foi Lísias chamado ao fone por funcionários da Comunicação.
Era chegado o momento.
Poder-se-ia começar o trabalho culminante da reunião.
Verifiquei, no relógio de parede, que estávamos com quarenta minutos depois da meia-noite.
Notando-me o olhar interrogativo, disse Nícolas em voz baixa:
– Somente agora há bastante paz no recente lar de Ricardo, lá na Terra.
Naturalmente, a casa descansa, os pais dormem, e ele, em a nova fase, não permanece inteiramente junto ao berço...
Não lhe foi possível continuar.
O Ministro Clarêncio, levantando-se, pediu homogeneidade de pensamentos e verdadeira fusão de sentimentos.
Fez-se grande quietude e Clarêncio disse comovedora e singela prece.
Em seguida, Lísias se fez ouvir na cítara harmoniosa, enchendo o ambiente de profundas vibrações de paz e encantamento.
Logo após, Clarêncio tomou novamente a palavra:
– Irmão - disse -, enviemos, agora, a Ricardo a nossa mensagem de amor.
Observei, então, com surpresa, que as filhas e a neta da senhora Laura, acompanhadas de Lísias, abandonavam o estrado, tomando posição junto dos instrumentos musicais.
Judite, Iolanda e Lísias se encarregaram, respectivamente, do piano, da harpa e da cítara, ao lado de Teresa e Eloísa, que integravam o gracioso coro familiar.
As cordas afinadas casaram os ecos de branda melodia e a música elevou-se, cariciosa e divina, semelhante a gorjeio celeste.
Sentia-me arrebatado a esferas sublimes do pensamento, quando vozes argentinas embalaram o interior.
Lísias e as irmãs cantavam maravilhosa canção, composta por eles mesmos.
Muito difícil frasear humanamente as estrofes significativas, cheias de espiritualidade e beleza, mas tentarei fazê-lo para demonstrar a riqueza das afeições nos planos de vida que se estendem para além da morte:

Pai querido, enquanto a noite
Traz a benção do repouso,
Recebe, pai carinhoso,
Nosso afeto e devoção!...
Enquanto as estrelas cantam
Na luz que as empalidece,
Vem unir à nossa prece
A voz do teu coração.

Não te perturbes na estrada
De sombras do esquecimento,
Não te doa o sofrimento,
Jamais te firas no mal.
Não temas a dor terrestre,
Recorda a nossa aliança,
Conserva a flor da esperança
Para a ventura imortal.

Enquanto dormes no mundo,
Nossas almas acordadas
Relembram as alvoradas
Desta vida superior;
Aguarda o porvir risonho,
Espera por nós que, um dia,
Volveremos à alegria
Do jardim do teu amor.

Vem a nós, pai generoso,
Volta à paz do nosso ninho,
Torna às luzes do caminho,
Inda que seja a sonhar;
Esquece, um minuto, a Terra
E vem sorver da água pura
De consolo e de ternura
Das fontes de "Nosso Lar".

Nossa casa não te olvida
O sacrifício, a bondade,
A sublime claridade
De tuas lições no bem;
Atravessa a sombra espessa,
Vence, pai, a carne estranha,
Sobe ao cume da montanha,
Vem conosco orar também.

Às derradeiras notas da bela composição, notei que o globo se cobria, interiormente, de substância leitoso-acinzentada, apresentando, logo em seguida, a figura simpática de um homem na idade madura.
Era Ricardo.
Impossível descrever a sagrada emoção da família, dirigindo-lhe amorosas saudações.
O recém-chegado, após falar particularmente à companheira e aos filhos, fixou o olhar amigo em nós outros, pedindo fosse repetida a suave canção filial, que ouviu banhado em lágrimas.
Quando se calaram as últimas notas, falou comovidamente:
– Oh! meus filhos, como é grande a bondade de Jesus, que nos aureolou o culto doméstico do Evangelho com as supremas alegrias desta noite!
Nesta sala temos procurado, juntos, o caminho das esferas superiores; muitas vezes recebemos o pão espiritual da vida e é, ainda aqui, que nos reencontramos para o estímulo santo.
Como sou feliz!
A senhora Laura chorava discretamente.
Lísias e as irmãs tinham os olhos marejados de pranto.
Percebi que o recém-chegado não falava com espontaneidade e não podia dispor de muito tempo entre nós.
Possivelmente, todos ali mantinham análoga impressão, porque vi Judite abraçar-se ao globo cristalino, ouvindo-a exclamar carinhosamente:
– Pai querido, diga o que precisa de nós, esclareça em que poderemos ser úteis ao seu abnegado coração!
Observei, então, que Ricardo pousou o olhar profundo na senhora Laura e murmurou:
– Sua mãe virá ter comigo, em breve, filhinha!
Mais tarde, virão vocês, igualmente!
Que mais eu poderia desejar, para ser feliz, senão rogar ao Mestre que nos abençoe para sempre?
Todos chorávamos, enternecidos.
Quando o globo começou a apresentar, de novo, os mesmos tons acinzentados, ouvi Ricardo exclamando, quase a despedida:
– Ah! filhos meus, alguma coisa tenho a pedir-lhes do fundo de minh’alma!
Roguem ao Senhor para que eu nunca disponha de facilidades na Terra, a fim de que a luz da gratidão e do entendimento permaneça viva em meu espírito!...
Aquele pedido inesperado me sensibilizou e surpreendeu ao mesmo tempo.
Ricardo endereçou a todos saudações carinhosas e a cortina de substância cinzenta cobriu toda a câmara, que, em seguida, voltou ao aspecto normal.
O Ministro Clarêncio orou com sentimento e a sessão foi encerrada, deixando-nos imersos em alegria indescritível.
Dirigi-me ao estrado para abraçar a senhora Laura, exprimindo-lhe de viva voz minha profunda impressão e reconhecimento, quando alguém me atalhou os passos quase junto à dona da casa, que se ocupava a atender às numerosas felicitações dos amigos presentes.
Era Clarêncio, que me falou em tom amável:
– André, amanhã acompanharei nossa irmã Laura à esfera carnal.
Se lhe apraz, poderá vir conosco para visitar sua família.
Não podia ser maior a surpresa.
Profunda sensação de alegria me empolgou, mas lembrei instintivamente o serviço das Câmaras.
Adivinhando-me, porém, o pensamento, o generoso Ministro voltou a dizer:
– Você tem regular quantidade de horas de trabalho extraordinário a seu favor.
Não será difícil a Genésio conceder-lhe uma semana de ausência, depois do primeiro ano de cooperação ativa.
Possuído de júbilo intenso, agradeci, chorando e rindo ao mesmo tempo. Ia, enfim, rever a esposa e os filhos amados.

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NOSSO LAR –
1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 27 de Outubro de 2019, 23:27
NOSSO LAR
49 Regressando à Casa

Imitando a criança que se conduz pelos passos dos benfeitores, cheguei à minha cidade, com a sensação indescritível do viajante que torna ao berço natal depois de longa ausência.
Sim, a paisagem não se modificara de maneira sensível.
As velhas árvores do bairro, o mar, o mesmo céu, o mesmo perfume errante.
Embriagado de alegria, não mais notei a expressão fisionômica da senhora Laura, que denunciava extrema preocupação, e despedi-me da pequena caravana, que seguiria adiante.
Clarêncio abraçou-me e falou:
– Você tem uma semana ao seu dispor.
Passarei aqui diariamente para revê-lo, atento aos cuidados que devo consagrar aos problemas da reencarnação de nossa irmã.
Se quiser ir a "Nosso Lar", aproveitará minha companhia.
Passe bem, André!
Último adeus à dedicada mãe de Lísias e me vi só, respirando o ar de outros tempos, a longos haustos.
Não me demorei a examinar pormenores.
Atravessei celeremente algumas ruas, a caminho de casa.
O coração me batia descompassado, à medida que me aproximava do grande portão de entrada.
O vento, como outrora, sussurrava carícias no arvoredo do pequeno parque.
Desabrochavam azáleas e rosas, saudando a luz primaveril.
Em frente ao pórtico, ostentava-se, garbosa, a palmeira que, com Zélia, eu havia plantado no primeiro aniversário de casamento.
Ébrio de felicidade, avancei para o interior.
Tudo, porém, denotava diferenças enormes.
Onde estariam os velhos móveis de jacarandá?
E o grande retrato onde, com a esposa e os filhinhos, formávamos gracioso grupo?
Alguma coisa me oprimia ansiosamente.
Que teria acontecido?
Comecei a cambalear de emoção.
Dirigi-me à sala de jantar, onde vi a filhinha mais nova, transformada em jovem casadoura.
E, quase no mesmo instante, vi Zélia que saía do quarto, acompanhando um cavalheiro que me pareceu médico, à primeira vista.
Gritei minha alegria com toda a força dos pulmões, mas as palavras pareciam reboar pela casa sem atingir os ouvidos dos circunstantes.
Compreendi a situação e calei-me, desapontado.
Abracei-me à companheira, com o carinho da minha saudade imensa, mas Zélia parecia totalmente insensível ao meu gesto de amor.
Muito atenta, perguntou ao cavalheiro alguma coisa que não pude compreender de pronto.
O interlocutor, baixando a voz, respondeu, respeitoso:
– Só amanhã poderei diagnosticar seguramente, porque a pneumonia se apresenta muito complicada, em virtude da hipertensão.
Todo o cuidado é pouco, o Dr. Ernesto reclama absoluto repouso.
Quem seria aquele Dr. Ernesto?
Perdia-me num mar de indagações, quando ouvi minha esposa suplicar, ansiosa:
– Mas, doutor, salve-o, por caridade!
Peço-lhe!
Oh! não suportaria uma segunda viuvez.
Zélia chorava e torcia as mãos, demonstrando imensa angústia.
Um corisco não me fulminaria com tamanha violência.
Outro homem se apossara do meu lar.
A esposa me esquecera.
A casa não mais me pertencia.
Valia a pena de ter esperado tanto para colher semelhantes desilusões?
Corri ao meu quarto, verificando que outro mobiliário existia na alcova espaçosa.
No leito, estava um homem de idade madura, evidenciando melindroso estado de saúde.
Ao lado dele, três figuras negras iam e vinham, mostrando-se interessadas em lhe agravar os padecimentos.
De pronto, tive ímpetos de odiar o intruso com todas as forças, mas já não era eu o mesmo homem de outros tempos.
O Senhor me havia chamado aos ensinamentos do amor, da fraternidade e do perdão.
Verifiquei que o doente estava cercado de entidades inferiores, devotadas ao mal;
Entretanto, não consegui auxiliá-lo imediatamente.
Assentei-me, decepcionado e acabrunhado, vendo Zélia entrar no aposento e dele sair, várias vezes, acariciando o enfermo com a ternura que me coubera noutros tempos, e, depois de algumas horas de amarga observação e meditação, voltei, cambaleante, à sala de jantar, onde encontrei as filhas conversando.
Sucediam-se as surpresas.
A mais velha casara-se e tinha ao colo o filhinho.
E meu filho?
Onde estaria ele?
Zélia instruiu convenientemente uma velha enfermeira e veio palestrar, mais calmamente, com as filhas.
– Vim vê-los, mamãe - exclamou a primogênita -,
Não só para colher notícias do Dr. Ernesto, como também porque, hoje, singulares saudades do papai me atormentam o coração.
Desde cedo, não sei por que penso tanto nele.
É uma coisa que não sei bem definir...
Não terminou.
Lágrimas abundantes borbotavam-lhe dos olhos.
Zélia, com imensa surpresa para mim, dirigiu-se à filha autoritariamente:
– Ora essa!
Era o que nos faltava!...
Aflitíssima como estou, tolerar as suas perturbações.
Que passadismo é esse, minha filha?
Já proibi a vocês, terminantemente, qualquer alusão, nesta casa, a seu pai.
Não sabe que isso desgosta o Ernesto?
Já vendi tudo quanto nos recordava aqui o passado morto;
Modifiquei o aspecto das próprias paredes, e você não me pode ajudar nisso?
A filha mais jovem interveio, acrescentando:
– Desde que a pobre mana começou a se interessar pelo maldito Espiritismo, vive com essas tolices na cachola.
Onde já se viu tal disparate?
Essa história dos mortos voltarem é o cúmulo dos absurdos.
A outra, embora continuasse chorando, falou com dificuldade:
– Não estou traduzindo convicções religiosas.
Então é crime sentir saudades de papai?
Vocês também não amam, não têm sentimento?
Se papai estivesse conosco, seu único filho varão não andaria, mamãe, a praticar por aí tantas loucuras.
– Ora, ora - tornou Zélia, nervosa e enfadada -, cada qual tem a sorte que Deus lhe dá.
Não se esqueça de que André está morto.
Não me venha com lamúrias e lágrimas pelo passado irremediável.
Aproximei-me da filha chorosa e estanquei-lhe o pranto, murmurando palavras de encorajamento e consolação, que ela não registrou auditiva, mas subjetivamente, sob a feição de pensamentos confortadores.
Afinal, via-me em face de singular conjuntura!
Compreendia, agora, o motivo pelo qual meus verdadeiros amigos haviam procrastinado, tanto, o meu retorno ao lar terreno.
Angústias e decepções sucediam-se de tropel.
Minha casa pareceu-me, então, um patrimônio que os ladrões e os vermes haviam transformado.
Nem haveres, nem títulos, nem afetos!
Somente uma filha ali estava de sentinela ao meu velho e sincero amor.
Nem os longos anos de sofrimento, nos primeiros dias de além-túmulo, me haviam proporcionado lágrimas tão amargas.
Chegou a noite e voltou o dia, encontrando-me na mesma situação de perplexidade, a ouvir conceitos e a surpreender atitudes que nunca poderia ter suspeitado.
À tardinha, Clarêncio passou, oferecendo-me o cordial da sua palavra amiga e reta.
Percebendo meu abatimento, disse, solícito:
– Compreendo suas mágoas e rejubilo-me pela ótima oportunidade deste testemunho.
Não tenho diretrizes novas.
Qualquer conselho de minha parte, portanto, seria intempestivo.
Apenas, meu caro, não posso esquecer que aquela recomendação de Jesus para que amemos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, opera sempre, quando seguida, verdadeiros milagres de felicidade e compreensão, em nossos caminhos.
Agradeci, sensibilizado, e pedi que me não desamparasse com o necessário auxílio.
Clarêncio sorriu e despediu-se.
Então, em face da realidade, absolutamente só no testemunho, comecei a ponderar o alcance da recomendação evangélica e refleti com mais serenidade.
Afinal de contas, por que condenar o procedimento de Zélia?
E se fosse eu o viúvo na Terra?
Teria, acaso, suportado a prolongada solidão?
Não teria recorrido a mil pretextos para justificar novo consórcio?
E o pobre enfermo?
Como e por que odiá-lo?
Não era também meu irmão na Casa de Nosso Pai?
Não estaria o lar, talvez, em piores condições, se Zélia não lhe houvesse aceitado a aliança afetiva?
Preciso era, pois, lutar contra o egoísmo feroz. Jesus conduzira-me a outras fontes.
Não podia proceder como homem da Terra.
Minha família não era, apenas, uma esposa e três filhos na Terra.
Era, sim, constituída de centenas de enfermos nas Câmaras de Retificação e estendia-se, agora, à comunidade universal.
Dominado de novos pensamentos, senti que a linfa do verdadeiro amor começava a brotar das feridas benéficas que a realidade me abrira no coração.

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NOSSO LAR –
1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Novembro de 2019, 15:03
NOSSO LAR
50 Cidadão de “Nosso Lar”

Na segunda noite, sentia-me cansadíssimo.
Começava a compreender o valor do alimento espiritual, através do amor e do entendimento recíprocos.
Em "Nosso Lar", atravessava dias vários de serviço ativo, sem alimentação comum, no treinamento de elevação a que muitos de nós se consagravam.
Bastava-me a presença dos amigos queridos, as manifestações de afeto, a absorção de elementos puros através do ar e da água, mas ali não encontrava senão escuro campo de batalha, onde os entes amados se convertiam em verdugos.
As meditações preciosas que a palavra de Clarêncio me sugerira davam-me certa calma ao coração.
Compreendia, finalmente, as necessidades humanas.
Não era proprietário de Zélia, mas seu irmão e amigo.
Não era dono de meus filhos e, sim, companheiros de luta e realização.
Recordei que a senhora Laura, certa feita, me afirmara que toda criatura, no testemunho, deve proceder como a abelha, acercando-se das flores da vida, que são as almas nobres, no campo das lembranças, extraindo de cada uma a substância dos bons exemplos, para adquirir o mel da sabedoria.
Apliquei ao meu caso o proveitoso conselho e comecei recordando minha mãe.
Não se sacrificara ela por meu pai, a ponto de adotar mulheres infelizes como filhas do coração?
"Nosso Lar" estava repleto de exemplos edificantes.
A Ministra Veneranda trabalhava séculos sucessivos pelo grupo espiritual que lhe estava mais particularmente ligado ao coração.
Narcisa sacrificava-se nas Câmaras para obter endosso espiritual, de regresso ao mundo, em tarefa de auxílio.
A senhora Hilda vencera o dragão do ciúme inferior.
E a expressão de fraternidade dos demais amigos da colônia?
Clarêncio me acolhera com devotamento de pai, a mãe de Lísias me recebera como filho, Tobias como irmão.
Cada companheiro de minhas novas lutas me oferecia algo de útil à construção mental diferente, que se erguia, célere, no meu espírito.
Procurei abstrair-me das considerações aparentemente ingratas que ouvia no ambiente doméstico e deliberei colocar acima de tudo o amor divino e, acima de todos os meus sentimentos pessoais, as justas necessidades dos meus semelhantes.
No meu cansaço, procurei o apartamento do enfermo, cujo estado se agravava de momento a momento.
Zélia amparava-lhe a fronte e dizia, banhada em lágrimas:
– Ernesto, Ernesto, tem pena de mim, querido!
Não me deixes só!
Que será de mim se me faltares?
O doente acariciava-lhe as mãos e respondia com imenso afeto, apesar da forte dispnéia.
Roguei ao Senhor energias necessárias para manter a compreensão imprescindível e passei a interpretar os cônjuges como se fossem meus irmãos.
Reconheci que Zélia e Ernesto se amavam intensamente.
E, se de fato me sentia companheiro fraternal de ambos, devia auxiliá-los com os recursos ao meu alcance.
Iniciei o trabalho procurando esclarecer os espíritos infelizes que se mantinham em estreita ligação com o enfermo.
Minhas dificuldades, porém, eram enormes.
Sentia-me abatidíssimo.
Nessa emergência, lembrei certa lição de Tobias, quando me dissera:
- "aqui, em 'Nosso Lar', nem todos necessitam do aeróbus para se locomoverem, porque os habitantes mais elevados da colônia dispõem do poder de volitação;
E nem todos precisam de aparelhos de comunicação para conversar a distância, por se manterem, entre si, num plano de perfeita sintonia de pensamentos.
Os que se encontrem afinados desse modo, podem dispor, à vontade, do processo de conversação mental, apesar da distância".
Lembrei quanto me seria útil a colaboração de Narcisa e experimentei.
Concentrei-me em fervorosa oração ao Pai e, nas vibrações da prece, dirigi-me a Narcisa encarecendo socorro.
Contava-lhe, em pensamento, minha experiência dolorosa, comunicava-lhe meus propósitos de auxílio e insistia para que me não desamparasse.
Aconteceu, então, o que não poderia esperar.
Passados vinte minutos, mais ou menos, quando ainda não havia retirado a mente da rogativa, alguém me tocou de leve no ombro.
Era Narcisa que atendia, sorrindo:
– Ouvi seu apelo, meu amigo, e vim ao seu encontro.
Não cabia em mim de contentamento.
A mensageira do bem fixou o quadro, compreendeu a gravidade do momento e acrescentou:
– Não temos tempo a perder.
Antes de tudo, aplicou passes de reconforto ao doente, isolando-o das formas escuras, que se afastaram como por encanto.
Em seguida, convidou-me com decisão:
– Vamos à Natureza.
Acompanhei-a sem hesitação e ela, notando-me a estranheza, acentuou:
– Não só o homem pode receber fluidos e emiti-los.
As forças naturais fazem o mesmo, nos reinos diversos em que se subdividem.
Para o caso do nosso enfermo, precisamos das árvores.
Elas nos auxiliarão eficazmente.
Admirado da lição nova, segui-a, silencioso.
Chegados ao local onde se alinhavam enormes frondes, Narcisa chamou alguém, com expressões que eu não podia compreender.
Daí a momentos, oito entidades espirituais atendiam-lhe ao apelo.
Imensamente surpreendido, vi-a indagar da existência de mangueiras e eucaliptos.
Devidamente informada pelos amigos, que me eram totalmente estranhos, a enfermeira explicou:
– São servidores comuns do reino vegetal, os irmãos que nos atenderam.
E, à vista da minha surpresa, rematou:
– Como vê, nada existe de inútil na Casa de Nosso Pai.
Em toda parte, se há quem necessite aprender, há quem ensine; e onde aparece a dificuldade, surge a Providência.
O único desventurado, na obra divina, é o espírito imprevidente, que se condenou às trevas da maldade.
Narcisa manipulou, em poucos instantes, certa substância com as emanações do eucalipto e da mangueira e, durante toda a noite, aplicamos o remédio ao enfermo, através da respiração comum e da absorção pelos poros.
O enfermo experimentou melhoras sensíveis.
Pela manhã, cedo, o médico observou, extremamente surpreendido:
– Verificou-se esta noite extraordinária reação!
Verdadeiro milagre da Natureza!
Zélia estava radiante.
Encheu-se a casa de alegria nova.
Por minha vez, experimentava grande júbilo n’alma.
Profundo alento e belas esperanças revigoravam-me o ser.
Reconhecia, eu mesmo, que vigorosos laços de inferioridade se haviam rompido dentro de mim, para sempre.
Nesse dia, voltei a "Nosso Lar" em companhia de Narcisa e, pela primeira vez, experimentei a capacidade de volitação.
Num momento, ganhávamos grandes distâncias.
A bandeira da alegria desfraldara-se em meu íntimo.
Comunicando à enfermeira generosa minha impressão de leveza, ouvi-a esclarecer:
– Em "Nosso Lar", grande parte dos companheiros poderia dispensar o aeróbus e transportar-se, à vontade, nas áreas de nosso domínio vibratório;
Mas, visto a maioria não ter adquirido essa faculdade, todos se abstêm de exercê-la em nossas vias públicas.
Essa abstenção, todavia, não impede que utilizemos o processo longe da cidade, quando é preciso ganhar distância e tempo.
Nova compreensão e novos júbilos me enriqueciam o espírito.
Instruído por Narcisa, ia da casa terrestre à cidade espiritual e vice-versa, sem dificuldade de vulto, intensificando o tratamento de Ernesto, cujas melhoras se firmaram, francas e rápidas.
Clarêncio visitava-me, diariamente, mostrando-se satisfeito com o meu trabalho.
Ao fim da semana, chegara ao termo de minha primeira licença nos serviços das Câmaras de Retificação.
A alegria tornara aos cônjuges, que passei a estimar como irmãos.
Era preciso, pois, regressar aos deveres justos.
À luz dormente e cariciosa do crepúsculo, tomei o caminho de "Nosso Lar", totalmente modificado.
Naqueles rápidos sete dias, aprendera preciosas lições práticas no culto vivo da compreensão e da fraternidade legítimas.
A tarde sublime enchia-me de magnos pensamentos.
Como é grande a Providência Divina! - dizia, a monologar intimamente.
Com que sabedoria dispõe o Senhor todos os trabalhos e situações da vida!
Com que amor atende a toda a Criação!
Algo, porém, me arrancou da meditação a que me recolhera.
Mais de duzentos companheiros vinham ao meu encontro.
Todos me saudavam, generosos e acolhedores, Lísias, Lascínia, Narcisa, Silveira, Tobias, Salústio e numerosos cooperadores das Câmaras ali estavam.
Não sabia que atitude assumir, colhido, assim, de surpresa.
Foi, então, que o Ministro Clarêncio, surgindo à frente de todos, adiantou-se, estendeu-me a destra e falou:
– Até hoje, André, você era meu pupilo na cidade;
Mas, doravante, em nome da Governadoria, declaro-o cidadão de "Nosso Lar".
Por que tamanha magnanimidade se meu triunfo era tão pequenino?
Não conseguia reter as lágrimas de emoção que me embargavam a voz.
E, considerando a grandeza da Bondade Divina, atirei-me aos braços paternais de Clarêncio, a chorar de gratidão e de alegria.

--- Fim ---
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NOSSO LAR –
1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Novembro de 2019, 15:04
OS MENSAGEIROS
Os Mensageiros

Lendo este livro, que relaciona algumas experiências de mensageiros espirituais, certamente muitos leitores concluirão, com os velhos conceitos da filosofia, que
“tudo está no cérebro do homem”,
em virtude da materialidade relativa das paisagens, observações, serviços e acontecimentos.
Forçoso é reconhecer, todavia, que o cérebro é o aparelho da razão e que o homem desencarnado, pela simples circunstância da morte física, não penetrou os domínios angélicos, permanecendo diante da própria consciência, lutando por iluminar o raciocínio e preparando-se para a continuidade do aperfeiçoamento noutro campo vibratório.
Ninguém pode trair as leis evolutivas.
Se um chimpanzé, guindado a um palácio, encontrasse recursos para escrever aos seus irmãos de fase evolucionária, quase não encontraria diferenças fundamentais para relacionar, ante o senso dos semelhantes.
Daria notícias de uma vida animal aperfeiçoada e talvez a única zona inacessível às suas possibilidades de definição estivesse justamente na auréola da razão que envolve o espírito humano.
Quanto às formas de vida, a mudança não seria profundamente sensível.
Os pelos rústicos encontram sucessão nas casimiras e sedas modernas.
A Natureza que cerca o ninho agreste é a mesma que fornece estabilidade à moradia do homem.
A furna ter-se-ia transformado na edificação de pedra.
O prado verde liga-se ao jardim civilizado.
A continuação da espécie apresenta fenômenos quase idênticos.
A lei da herança continua, com ligeiras modificações.
A nutrição demonstra os mesmos trâmites.
A união de família consanguínea revela os mesmos traços fortes.
O chimpanzé, desse modo, somente encontraria dificuldade para enumerar os problemas do trabalho, da responsabilidade, da memória enobrecida, do sentimento purificado, da edificação espiritual, enfim, relativa à conquista da razão.
Em vista disso, não se justifica a estranheza dos que leem as mensagens do teor das que André Luís endereça aos estudiosos devotados à construção espiritual de si mesmos.
O homem vulgar costuma estimar as expectativas ansiosas, à espera de acontecimentos espetaculares, esquecido de que a Natureza não se perturba para satisfazer a pontos de vista da criatura.
A morte física não é salto do desequilíbrio, é passo da evolução, simplesmente.
À maneira do macaco, que encontra no ambiente humano uma vida animal enobrecida, o homem que, após a morte física, mereceu o ingresso nos círculos elevados do Invisível, encontra uma vida humana sublimada.
Naturalmente, grande número de problemas, referentes à Espiritualidade Superior, aí espera a criatura, desafiando-lhe o conhecimento para a ascensão sublime aos domínios iluminados da vida,
O progresso não sofre estacionamento e a alma caminha, incessantemente, atraída pela Luz Imortal.
No entanto, o que nos leva a grafar este prefácio singelo, não é a conclusão filosófica, mas a necessidade de evidenciar a santa oportunidade de trabalho do leitor amigo, nos dias que correm.
Felizes os que buscarem na revelação nova o lugar de serviço que lhes compete, na Terra, consoante a Vontade de Deus.
O Espiritismo cristão não oferece ao homem tão somente o campo de pesquisa e consulta, no qual raros estudiosos conseguem caminhar dignamente,
Mas,
Muito mais que isso, revela a oficina de renovação, onde cada consciência de aprendiz deve procurar sua justa integração com a vida mais alta,
Pelo esforço interior, pela disciplina de si mesma, pelo auto-aperfeiçoamento.
Não falta concurso divino ao trabalhador de boa vontade.
E quem observar o nobre serviço de um Aniceto, reconhecerá que não é fácil prestar assistência espiritual aos homens.
Trazer a colaboração fraterna dos planos superiores aos Espíritos encarnados não é obra mecânica, enquadrada em princípios de menor esforço.
Claro, portanto, que, para recebê-la, não poderá o homem fugir aos mesmos imperativos.
É indispensável lavar o vaso do coração para receber a “água viva”, abandonar envoltórios inferiores, para vestir os “trajes nupciais” da luz eterna.
Entregamos, pois, ao leitor amigo, as novas páginas de André Luiz, satisfeitos por cumprir um dever.
Constituem o relatório incompleto de uma semana de trabalho espiritual dos mensageiros do Bem, junto aos homens e, acima de tudo,
Mostram a figura de um emissário consciente e benfeitor generoso em Aniceto,
Destacando as necessidades de ordem moral no quadro de serviço dos que se consagram às atividades nobres da fé.
Se procuras, amigo, a luz espiritual;
Se a animalidade já te cansou o coração, lembra-te de que, em Espiritualismo, a investigação conduzirá sempre ao Infinito,
Tanto no que se refere ao campo infinitesimal, como à esfera dos astros distantes,
E que só a transformação de ti mesmo, à luz da Espiritualidade Superior, te facultará acesso da fontes da Vida Divina.
E, sobretudo, recorda que as mensagens edificantes do Além não se destinam apenas à expressão emocional,
Mas, acima de tudo, ao teu senso de filho de Deus,
Para que faças o inventário de tuas próprias realizações
E te integres, de fato, na responsabilidade de viver diante do Senhor.

EMMANUEL
Pedro Leopoldo, 26 de fevereiro de 1944.
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OS MENSAGEIROS –
2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Novembro de 2019, 15:05
OS MENSAGEIROS
1 Renovação

Desligando-me dos laços inferiores que me prendiam às atividades terrestres, elevado entendimento felicitou-me o espírito.
Semelhante libertação, contudo, não se fizera espontânea.
Sabia, no fundo, quanto me custara abandonar a paisagem doméstica, suportar a incompreensão da esposa e a divergência dos filhos amados.
Guardava a certeza de que amigos espirituais, abnegados e poderosos, me haviam auxiliado a alma pobre e imperfeita, na grande transição.
Antes, a inquietude relativa à companheira torturava-me incessantemente o coração;
Mas, agora, vendo-a profundamente identificada com o segundo marido, não via recurso outro que procurar diferentes motivos de interesse.
Foi assim que, eminentemente surpreendido, observei minha própria transformação, no curso dos acontecimentos.
Experimentava o júbilo da descoberta de mim mesmo.
Dantes, vivia à feição do caramujo, segregado na concha, impermeável aos grandiosos espetáculos da Natureza, rastejando no lodo.
Agora, entretanto, convencia-me de que a dor agira em minha construção mental, à maneira do alvião pesado, cujos golpes eu não entendera de pronto.
O alvião quebrara a concha de antigas viciações do sentimento.
Libertara-me.
Expusera-me o organismo espiritual ao sol da Bondade Infinita.
E comecei a ver mais alto, alcançando longa distância.
Pela primeira vez, cataloguei adversários na categoria de benfeitores.
Comecei a frequentar, de novo, o ninho da família terrestre, não mais como senhor do círculo doméstico, mas como operário que ama o trabalho da oficina que a vida lhe designou.
Não mais procurei, na esposa do mundo, a companheira que não pudera compreender-me e sim a irmã a quem deveria auxiliar, quanto estivesse em minhas forças.
Abstive-me de encarar o segundo marido como intruso que modificara meus propósitos, para ver apenas o irmão que necessitava o concurso de minhas experiências.
Não voltei a considerar os filhos propriedade minha e sim companheiros muito caros, aos quais me competia estender os benefícios do conhecimento novo, amparando-os espiritualmente na medida de minhas possibilidades.
Compelido a destruir meus castelos de exclusivismo injusto, senti que outro amor se instalava em minhalma.
Órfão de afetos terrenos e conformado com os desígnios superiores que me haviam traçado diverso rumo ao destino, comecei a ouvir o apelo profundo e divino da Consciência Universal.
Somente agora, percebia quão distanciado vivera das leis sublimes que regem a evolução das criaturas.
A Natureza recebia-me com transportes de amor.
Suas vozes, agora, eram muito mais altas que as dos meus interesses isolados.
Conquistava, pouco a pouco, o júbilo de escutar-lhe os ensinamentos misteriosos no grande silêncio das coisas.
Os elementos mais simples adquiriam, a meus olhos, extraordinária significação.
A colônia espiritual, que me abrigara generosamente, revelava novas expressões de indefinível beleza.
O rumor das asas de um pássaro, o sussurro do vento e a luz do Sol pareciam dirigir-se à minhalma, enchendo-me o pensamento de prodigiosa harmonia.
A vida espiritual, inexprimível e bela, abrira-me os pórticos resplandecentes.
Até então, vivera em “Nosso Lar” como hóspede enfermo de um palácio brilhante, tão extremamente preocupado comigo mesmo, que me tornara incapaz de anotar deslumbramentos e maravilhas.
A conversação espiritualizante tornara-se-me indispensável.
Aprazia-me, antigamente, torturar a própria alma com as reminiscências da Terra.
Estimava as narrativas dramáticas de certos companheiros de luta, lembrando o meu caso pessoal e embriagando-me nas perspectivas de me agarrar, novamente, à parentela do mundo, valendo-me de laços inferiores.
Mas agora... perdera totalmente a paixão pelos assuntos de ordem menos digna.
As próprias descrições dos enfermos, nas Câmaras de Retificação, figuravam-se-me desprovidas de maior interesse.
Não mais desejava informar-me da procedência dos infelizes, não indagava de suas aventuras nas zonas mais baixas.
Buscava irmãos necessitados.
Desejava saber em que lhes poderia ser útil.
Identificando essa profunda transformação, falou-me Narcisa certo dia:
– André, meu amigo, você vem fazendo a renovação mental.
Em tais períodos, extremas dificuldades espirituais nos assaltam o coração.
Lembre-se da meditação no Evangelho de Jesus.
Sei que você experimenta intraduzível alegria ao contacto da harmonia universal, após o abandono de suas criações caprichosas, mas reconheço que, ao lado das rosas do júbilo, defrontando os novos caminhos que se descerram para sua esperança, há espinhos de tédio nas margens das velhas estradas inferiores que você vai deixando para trás.
Seu coração é uma taça iluminada aos raios do alvorecer divino, mas vazia dos sentimentos do mundo, que a encheram por séculos consecutivos.
Não poderia, eu mesmo, formular tão exata definição do meu estado espiritual.
Narcisa tinha razão.
Suprema alegria inundava-me o espírito, ao lado de incomensurável sensação de tédio, quanto às situações da natureza inferior.
Sentia-me liberto de pesados grilhões, porém, não mais possuía o lar, a esposa, os filhos amados.
Regressava frequentemente ao círculo doméstico e aí trabalhava pelo bem de todos, mas sem qualquer estimulo.
Minha devotada amiga acertara.
Meu coração era bem um cálice luminoso, porém, vazio.
A definição comovera-me.
Vendo-me as lágrimas silenciosas, Narcisa acentuou:
– Encha sua taça nas águas eternas daquele que é o Doador Divino.
Além disso, André, todos nós somos portadores da planta do Cristo, na terra do coração.
Em períodos como o que você atravessa, há mais facilidade para nos desenvolvermos com êxito, se soubermos aproveitar as oportunidades.
Enquanto o espírito do homem se engolfa apenas em cálculos e raciocínios, o Evangelho de Jesus não lhe parece mais que repositório de ensinamentos comuns;
Mas, quando se lhe despertam os sentimentos superiores, verifica que as lições do Mestre têm vida própria e revelam expressões desconhecidas da sua inteligência, à medida que se esforça na edificação de si mesmo, como instrumento do Pai.
Quando crescemos para o Senhor, seus ensinos crescem igualmente aos nossos olhos.
Vamos fazer o bem, meu caro!
Encha seu cálice com o bálsamo do amor divino.
Já que você pressente os raios da alvorada nova, caminhe confiante para o dia!...
E, conhecendo meu temperamento de homem, amante do serviço movimentado, acrescentou, generosa:
– Você tem trabalhado bastante aqui nas Câmaras, onde me preparo, por minha vez, considerando o futuro próximo, na carne.
Não poderei, portanto, acompanhá-lo, mas creio deve você aproveitar os novos cursos de serviço, instalados no Ministério da Comunicação.
Muitos companheiros nossos habilitam-se a prestar concurso na Terra, nos campos visíveis e invisíveis ao homem, acompanhados, todos eles, por nobres instrutores.
Poderia você conhecer experiências novas, aprender muito e cooperar com excelente ação individual.
Por que não tenta?
Antes que pudesse agradecer o alvitre valioso, Narcisa foi chamada ao interior das Câmaras, a serviço, deixando-me dominado por esperanças diferentes de quantas abrigara até então, relativamente às minhas tarefas.

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OS MENSAGEIROS –
2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Novembro de 2019, 11:38
OS MENSAGEIROS
II - Aniceto

II - Aniceto

Comunicando meus novos propósitos a Tobias, verifiquei a satisfação que lhe transpareceu do olhar.
— Fique tranquilo — disse, bondoso — você possui a quantidade necessária de horas de trabalho para justificar o pedido.
Temos, por nossa vez, grande número de colegas na Comunicação.
Não será difícil localizá-lo com instrutores amigos.
Conhece o nosso estimado Aniceto?
— Não tenho esse prazer.
— É antigo companheiro de serviço — continuou informando, amável — e esteve conosco na Regeneração, algum tempo.
Em seguida, devotou-se à tarefas sacrificiais no Ministério do Auxílio e, hoje, é Instrutor competente na Comunicação, aonde vem prestando concurso respeitável.
Conversarei, a respeito, com o Ministro Genésio.
Não tenha dúvidas.
Seu desejo, André, é muito nobre aos nossos olhos.
O prestimoso companheiro deixou-me num mar de contentamento indefinível.
Comecei a compreender o valor do trabalho.
A amizade de Narcisa e Tobias era tesouro de inapreciável grandeza, que o espírito de serviço me havia descortinado ao coração.
Novo setor de luta desdobrar-se-ia a minha frente.
Não deveria perder a oportunidade. “Nosso Lar” estava cheio de entidades ansiosas por aquisições dessa natureza.
Não seria justo entregar-me, de boa vontade, ao novo aprendizado?
Além disso, certo da minha volta à carne, em futuro talvez não distante, a providência constituiria realização de profundo interesse ao meu aproveitamento geral.
Misteriosa alegria dominava-me todo, sublimada esperança iluminava-me os sentimentos.
Aquele desejo ardente de colaborar em benefício dos outros, que Narcisa me acendera no íntimo, parecia encher, agora, a taça vazia do meu coração.
Trabalharia, sim.
Conheceria a satisfação dos cooperadores anônimos da felicidade alheia.
Procuraria a prodigiosa luz da fraternidade, através do serviço às criaturas.
À noite, fui procurado por Tobias, sempre generoso, trazendo-me a confortadora aquiescência do Ministro Genésio.
Com sorrisos afetuosos, convidou-me a acompanhá-lo.
Conduzir-me-ia à presença de Aniceto, para conversarmos relativamente ao assunto.
Emocionadíssimo segui para a residência da nova personagem que se ligaria fundamente à minha vida espiritual.
Aniceto, ao contrário de Tobias, não se consorciara em “Nosso Lar”.
Vivia ao lado de cinco amigos que lhe foram discípulos na Terra, em edifício confortável, encravado entre árvores frondosas e tranquilas, que pareciam postas ali para protegerem extenso e maravilhoso roseiral.
Recebeu-nos com extrema gentileza, o que me causou excelente impressão.
Aparentava ele a calma refletida do homem que chegou à idade madura, sem fantasias da mocidade inexperiente.
Embora lhe transparecesse muita energia no rosto, revelava o otimismo sadio do coração cheio de ideais sacrossantos.
Muito sereno, recebeu todas as alegações do meu benfeitor, dirigindo-me, de quando em vez, olhares amistosos e indagadores.
Tobias falou longamente, comentando minha posição de ex-médico no plano terráqueo, agora em reajustamento de valores no plano espiritual.
Depois de examinar-me com atenção, o orientador aduziu:
— Não há o que embargar, meu prezado Tobias.
No entanto, é preciso reconhecer que a solução depende do candidato.
Sabe você que estamos aqui na Instituição do Homem Novo.
— André está pronto e disposto — adiantou o amigo, carinhosamente.
Aniceto fixou em mim o olhar penetrante e advertiu:
— Nosso serviço é variado e rigoroso.
O departamento de trabalho, afeto à nossa responsabilidade, aceita somente os cooperadores interessados na descoberta da felicidade de servir, comprometemo-nos, mutuamente, a calar toda espécie de reclamação.
Ninguém exige expressão nominal nas obras úteis realizadas, e todos respondem por qualquer erro cometido.
Achamo-nos, aqui, num curso de extinção das velhas vaidades pessoais, trazidas do mundo carnal.
Dentro do mecanismo hierárquico de nossas obrigações, interessamo-nos tão somente pelo bem divino.
Consideramos que toda possibilidade construtiva vem de nosso Pai e esta convicção nos auxilia a esquecer as exigências descaídas de nossa personalidade inferior.
Identificando-me a surpresa, Aniceto esboçou um gesto significativo e continuou:
— Nos trabalhos de emergência, destinados à preparação de colaboradores ativos, tenho um quadro suplementar de auxiliares, constante de cinquenta lugares para aprendizes.
No momento, disponho de três vagas.
Há intensa atividade de instrução, necessária a Servidores que cooperarão em socorros urgentes, na Terra.
Orientadores há que se fazem acompanhar, nos serviços da crosta, por todo o pessoal em aprendizado, mas eu adoto processo diferente.
Costumo dividir a classe em grupos especializados, de acordo com a profissão familiar aos estudantes, para melhor aproveitamento no preparo e na prática.
Tenho, presentemente, um sacerdote católico-romano, um médico, seis engenheiros, quatro professores, quatro enfermeiras, dois pintores, onze irmãs especializadas em trabalhos domésticos e dezoito operários diversos.
Em “Nosso Lar”, a ação que nos compete é desdobrada de maneira coletiva;
Mas, nos dias de aplicação na crosta terrestre, não me faço seguido de todos.
Naturalmente, não se negará ao engenheiro, ou ao operário, o ensejo de aquisição de conhecimentos outros, que transcendem a paisagem de realizações que lhes cabem;
Mas, tais manifestações devem constar do quadro de esforços espontâneos, no tempo vasto que cada qual aufere para descanso e entretenimento.
Considerando, pois, o serviço atual, temos interesse em aproveitar as horas no limite máximo, não só em benefício dos que necessitam de nosso concurso fraternal, como também a favor de nós mesmos, no que toca à eficiência.
Ponderei, admirado, o curioso processo, enquanto o orientador fazia longa pausa.
Após mergulhar toda a atenção em mim, como se desejasse perceber o efeito de suas palavras, Aniceto continuou:
— Este método não visa apenas a criar obrigações para os outros.
Aqui, como na Terra, quem alcança a melhor porção, nas aulas e demonstrações, não é propriamente o discípulo e sim o instrutor, que enriquece observações e intensifica experiências.
Quando o Ministro Espiridião me chamou a exercer o cargo, aceitei-o sob a condição de não perder tempo na melhoria e educação de mim mesmo.
Desse modo, não preciso alongar-me noutras considerações.
Creio haver dito o bastante.
Se está, portanto, disposto, não posso recusar-me a aceitá-lo.
— Compreendo seus nobres programas — respondi, comovido
— Será honra para mim a possibilidade de acompanhá-lo e receber suas determinações de serviço.
Aniceto esboçou a expressão fisionômica de quem atinge a solução, desejada, e concluiu:
— Pois bem;
Poderá começar amanhã.
E, dirigindo-se a Tobias, acrescentou:
— Encaminhe o nosso amigo, amanhã cedo, ao Centro de Mensageiros.
Lá estaremos em estudo ativo e providência para que André seja bonificado pelas tabelas da Comunicação.
Agradecemos, satisfeitos e, logo em seguida a Tobias despedi-me, alimentando novas esperanças.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Novembro de 2019, 11:40
OS MENSAGEIROS
3 No Centro de Mensageiros

No dia seguinte, após ouvir longas ponderações de Narcisa, demandei o Centro de Mensageiros, no Ministério da Comunicação.
Acompanhava-me o prestimoso Tobias, não obstante os imensos trabalhos que lhe ocupavam o círculo pessoal.
Deslumbrado, atingi a série de majestosos edifícios de que se compõe a sede da instituição.
Julguei encontrar algumas universidades reunidas, tal a enorme extensão deles.
Pátios amplos, povoados de arvoredo e jardins, convidavam a sublimes meditações.
Tobias arrancou-me do encantamento, exclamando:
– O Centro é muito vasto.
Atividades complexas são desempenhadas neste departamento de nossa colônia espiritual.
Não creia esteja resumida a instituição nos edifícios sob nossos olhos.
Temos, nesta parte, tão somente a administração central e alguns pavilhões destinados ao ensino e à preparação em geral.
– Mas esta organização imensa restringe-se ao movimento de transmissão de mensagens? – perguntei, curioso.
O companheiro sorriu significativamente e esclareceu:
– Não suponha se encontre aqui localizado o serviço de correio, simplesmente.
O Centro prepara entidades a fim de que se transformem em cartas vivas de socorro e auxílio aos que sofrem no Umbral, na Crosta e nas Trevas.
Acreditaria, porventura, que tanto trabalho se destinasse apenas a mera movimentação de noticiário?
Amplie suas vistas.
Este serviço é a cópia de quantos se vêm fazendo nas mais diversas cidades espirituais dos planos superiores.
Preparam-se aqui numerosos companheiros para a difusão de esperanças e consolos, instruções e avisos, nos diversos setores da evolução planetária.
Não me refiro tão só a emissários invisíveis.
Organizamos turmas compactas de aprendizes para a reencarnação.
Médiuns e doutrinadores saem daqui às centenas, anualmente.
Tarefeiros do conforto espiritual encaminham-se para os círculos carnais, em quantidade considerável, habilitados pelo nosso Centro de Mensageiros.
– Que me diz? – interroguei, surpreso.
– Segundo seus informes, os trabalhos de esclarecimento espiritual devem estar muitíssimos adiantados no mundo!...
Fixou Tobias expressão singular, sorriu tranquilamente e explicou:
– Você não ponderou, todavia, meu caro André, que essa preparação não constitui, ainda, a realização propriamente dita.
Saem milhares de mensageiros aptos para o Serviço, mas são muito raros os que triunfam.
Alguns conseguem execução parcial da tarefa, outros muitos fracassam de todo.
O serviço legítimo não é fantasia.
É esforço sem o qual a obra não pode aparecer nem prevalecer.
Longas fileiras de médiuns e doutrinadores para o mundo carnal partem daqui, com as necessárias instruções, porque os benfeitores da Espiritualidade Superior, para intensificarem a redenção humana, precisam de renúncia e de altruísmo.
Quando os mensageiros se esquecem do espírito missionário e da dedicação aos semelhantes, costumam transformar-se em instrumentos inúteis.
Há médiuns e mediunidade, doutrinadores e doutrina, como existem a enxada e os trabalhadores.
Pode a enxada ser excelente, mas, se falta espírito de serviço no cultivador, o ganho da enxada será inevitavelmente a ferrugem.
Assim acontece com as faculdades psíquicas e com os grandes conhecimentos.
A expressão mediúnica pode ser riquíssima;
Entretanto, se o dono não consegue olhar além dos interesses próprios, fracassará fatalmente na tarefa que lhe foi conferida.
Acredite, meu caro, que todo trabalho construtivo tem as batalhas que lhe dizem respeito.
São muito escassos os servidores que toleram as dificuldades e reveses das linhas de frente.
Esmagadora percentagem permanece a distância do fogo forte.
Trabalhadores sem conta recuam quando a tarefa abre oportunidades mais valiosas.
Algo impressionado, considerei:
– Isto me surpreende sobremaneira.
Não supunha fossem preparados, aqui, determinados mensageiros para a vida carnal.
– Ah! meu amigo – falou Tobias sorridente –, poderia você admitir que as obras do bem estivessem circunscritas a simples operações automáticas?
Nossa visão, na Terra, costuma viciar-se no círculo dos cultos externos, na atividade religiosa.
Cremos, por lá, resolver todos os problemas pela atitude suplicante.
Entretanto, a genuflexão não soluciona questões fundamentais do espírito, nem a mera adoração à Divindade constitui a máxima edificação.
Em verdade, todo ato de humildade e amor é respeitável e santo, e, incontestavelmente, o Senhor nos concederá suas bênçãos;
No entanto, é imprescindível considerar que a manutenção e limpeza do vaso, para recolhê-las, é dever que nos assiste.
Não preparamos, pois, neste Centro, simples postalistas, mas espíritos que se transformem em cartas vivas de Jesus para a Humanidade encarnada.
Pelo menos, este é o programa de nossa administração espiritual...
Calei, emocionado, ponderando a grandeza dos ensinamentos.
Meu companheiro, após longa pausa, prosseguiu observando:
– Raros triunfam, porque quase todos estamos ainda ligados a extenso pretérito de erros criminosos, que nos deformaram a personalidade.
Em cada novo ciclo de empreendimentos carnais, acreditamos muito mais em nossas tendências inferiores do passado, que nas possibilidades divinas do presente, complicando sempre o futuro.
É desse modo que prosseguimos, por lá, agarrados ao mal e esquecidos do bem, chegando, por vezes, ao disparate de interpretar dificuldades como punições, quando todo obstáculo traduz oportunidade verdadeiramente preciosa aos que já tenham “olhos de ver”.
A essa altura, alcançamos enorme recinto.
Centenas de entidades penetravam no vasto edifício, cujas escadarias galgamos em animada conversação.
Os aspectos do maravilhoso átrio impressionavam pela imponente beleza.
Espécies de flores, até então desconhecidas para mim, adornavam colunatas, espalhando cores vivas e delicioso perfume.
Quebrando-me o enlevo, Tobias explicou:
– As diversas turmas de aprendizes encaminham-se às aulas.
Procuremos Aniceto no departamento de instrutores.
Atravessamos galerias vastíssimas, sempre defrontados por verdadeiras multidões de entidades que buscavam as aulas, em palestras vibrantes.
Em pequeno grupo que parecia manter conversação muito discreta, encontramos o generoso amigo da véspera, que nos abraçou sorridente e calmo.
– Muito bem! – disse, alegre e bondoso – esperava o novo aluno, desde a manhãzinha.
E em virtude de Tobias alegar muita pressa, o nobre instrutor explicou:
– Doravante, André ficará aos meus cuidados.
Volte tranquilo.
Despedi-me do companheiro, comovidamente.
Notando-me o natural acanhamento, Aniceto determinou a um auxiliar de serviço:
– Chame o Vicente em meu nome.
E, voltando-se para mim, esclareceu:
– Até agora, Vicente é o meu único aprendiz médico.
Vocês ficarão juntos, em vista da afinidade profissional.
Não haviam decorrido três minutos e tínhamos Vicente diante de nós.
– Vicente – falou Aniceto sem afetação –, André Luiz é nosso novo colaborador.
Foi também médico nas esferas carnais.
Creio, pois, que ambos se encontrarão à vontade, partilhando a mesma experiência.
O interpelado abraçou-me, demonstrando extrema generosidade, e, após encorajar-me com belas palavras de estimulo, perguntou ao nosso orientador:
– Quando deveremos procurá-lo para os estudos de hoje?
Aniceto pensou um instante e respondeu: –
Esclareça ao novo candidato os nossos regulamentos e venham juntos para as instruções, após o meio-dia.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Janeiro de 2020, 00:12
Os Mensageiros
4 O caso Vicente

Impossível traduzir meu contentamento com a nova companhia.
Vicente, semblante muito calmo, olhar inteligente e lúcido, irradiava carinho e bondade, sensatez e compreensão.
Disse-me de sua alegria por haver encontrado um companheiro médico, alojou-me convenientemente junto dele, demonstrando extrema generosidade fraternal.
Era o primeiro colega na profissão, igualmente recém chegado das esferas da Crosta, de quem me aproximava de modo direto.
Trocamos idéias largamente sobre as surpresas que nos defrontavam.
Comentamos as dificuldades oriundas da ilusão terrestre, a miopia da pequena ciência, os problemas profundos e sedutores da medicina espiritual.
Vicente, conquanto não houvesse feito ainda qualquer visita ao plano dos encarnados, em caráter de serviço, admirava Aniceto extraordinariamente, e punha-me ao corrente dos estudos valiosos a que se entregava junto dele.
Estava cheio de conceitos entusiásticos.
Em pouco mais de uma hora, nossa intimidade semelhava-se ao sentimento de dois irmãos unidos, desde muito, por laços espirituais,
O novo companheiro conquistara-me infinita confiança.
Evidenciando muita delicadeza, indagou da minha posição perante os parentes terrestres, ao que respondi com a história resumida de minha singular aventura, ao conhecer as segundas núpcias de minha viúva.
Imprimi toda a ênfase possível ao meu relatório verbal, sensibilizando-me, profundamente, no curso da narrativa.
Em cada pormenor culminante dos fatos, detinha-me de propósito, salientando meus velhos sofrimentos e relacionando dissabores que me pareciam insuperáveis.
Vicente ouviu silencioso, sorrindo a intervalos.
Quando terminei a comovida exposição, ele pôs-me a destra no ombro e murmurou:
– Não se julgue desventurado e incompreendido.
Saiba, meu caro André, que você foi muitíssimo feliz.
– Como assim?
– Sua Zélia respeitou o companheiro até ao fim e o segundo matrimônio, em tais circunstâncias, não é de admirar.
No meu caso, porém, a coisa foi muito pior.
E, dado meu justo espanto, o novo amigo continuou:
– Explico-me.
Meditou alguns instantes, como quem alinhava reminiscências, e prosseguiu:
– Não pode você imaginar como foi intenso o sonho de amor do meu casamento.
Logo após a aquisição do diploma profissional, aos vinte e cinco anos, esposei Rosalinda, exultante de ventura.
Não levava à esposa tão somente uma situação material confortadora e sólida, no terreno financeiro, mas também os meus tesouros de afeto e devotamento.
Minha felicidade não tinha limites.
Em pouco tempo, dois filhinhos enriqueceram-me o lar ditoso.
Meu bem-estar era inexprimível.
Em virtude das reservas bancárias, não me especializei na clínica, consagrando-me, todavia, apaixonadamente, ao laboratório.
Atendendo aos meus pendores, não me foi difícil atrair a confiança de numerosos colegas e vários centros de estudos, multiplicando pesquisas e resultados brilhantes.
E Rosalinda era a minha primeira e melhor colaboradora.
De quando em quando, notava-lhe o enfado no trato com os tubos de ensaio, mas minha esposa sabia então calar as contrariedades pequeninas, a favor da nossa felicidade doméstica.
Parecia compreender-me integralmente.
Era, aos meus olhos, a mãe dedicada e companheira sem defeitos.
Contávamos dez anos de ventura conjugal, quando meu irmão Eleutério, advogado, solteiro, algo mais velho que eu, deliberou localizar-se junto de nós.
Rosalinda foi inexcedível em atenções, considerando que se tratava de pessoa de minha família.
Eleutério entrou em nossa casa como irmão.
Embora residisse em hotel, compartilhava dos nossos serões caseiros, sempre bem posto e interessado em agradar.
Observei, desde então, que minha mulher se modificava pouco a pouco.
Exigiu fosse contratada uma auxiliar que a substituísse nos meus serviços, alegando que os nossos filhinhos não dispensavam assistência maternal, mais assídua.
Anui, satisfeito.
Tratava-se, afinal, de providência interessante ao bem-estar de nossos filhos.
Contudo, a transformação de Rosalinda assumiu caráter impressionante.
Passou a não comparecer ao laboratório, onde tantas vezes nos abraçávamos, alegremente, ao vermos coroadas de êxito nossas pesquisas mais sérias.
Preferia o cinema ou a estação de repouso, em companhia de Eleutério.
Isso me entristecia bastante, mas eu não poderia desconfiar da conduta de meu irmão.
Fora sempre criterioso, em família, não obstante ousado e filaucioso nas atividades profissionais.
Minha vida doméstica, antes tão feliz, passou a ser de solidão assaz amarga, que eu tentava iludir com o trabalho persistente e honesto.
Assim corriam as coisas, quando singular transformação me alterou a experiência.
Pequena borbulha na fossa nasal, que nunca me trouxera incômodos de qualquer natureza, depois de levemente ferida, tomou caráter de extrema gravidade.
Em poucas horas, declarou-se a septicemia.
Reuniram-se colegas em verdadeira assembléia, junto de meu leito.
Inúteis, todavia, todos os cuidados;
Anuladas as melhores expressões de assistência.
Compreendi que o fim se aproximava, rápido.
Rosalinda e Eleutério pareciam consternados e, até hoje, guardo a impressão de rever-lhes o olhar ansioso, no momento em que a neblina da morte me envolvia os olhos materiais.
Nessa altura, Vicente fez longo estacato, como a fixar reminiscências mais dolorosas, e continuou menos vivaz:
– Depois de algum tempo de tristes perturbações nas zonas inferiores, quando já me encontrava restabelecido, em “Nosso Lar”, certifiquei-me de toda a verdade.
Voltando ao lar terreno, encontrei a grande surpresa.
Rosalinda havia desposado Eleutério em segundas núpcias.
– Como são idênticas as nossas histórias! – exclamei impressionado.
– Isso é que não – protestou a sorrir.
E continuou:
– Outra surpresa me dilacerava o coração.
Somente ao regressar ao lar, soube que fora vítima de odioso crime.
Meu próprio irmão inspirou a trama sutil e perversa.
Minha mulher e ele apaixonaram-se perdidamente um pelo outro e cederam a tentações inferiores.
Não havia que recorrer a divórcio e, mesmo que a legislação o facultasse, constituiria um escândalo o afastamento de Rosalinda para unir-se, publicamente, ao cunhado.
Eleutério lembrou, porém, que possuíamos experiências de laboratório e sugeriu a Rosalinda a ideia de me aplicarem determinada cultura microbiana, que ele mesmo se incumbiria de obter, na primeira oportunidade.
A pobre da companheira não vacilou e, valendo-se do meu sono descuidado, introduziu na minúscula espinha nasal, algo ferida, o vírus destruidor.
E aí tem você o meu caso naturalmente resumido.
Eu estava assombrado.
– E os criminosos? – perguntei.
Vicente sorriu ligeiramente e informou: –
Rosalinda e Eleutério vivem aparentemente felizes, são excelentes materialistas, por enquanto, e gozam, no mundo transitório, grande fortuna amoedada e alto conceito social.
– Mas... e a justiça? – indaguei, aterrado.
– Ora, André – esclareceu serenamente –, tudo vem a seu tempo, tanto no bem quanto no mal.
Primeiro a semente, depois os frutos.
Percebendo-me, porém, as tristes impressões, Vicente concluiu:
– Não falemos mais nisto.
Aproxima-se a hora da instrução.
Atendamos às nossas necessidades essenciais, auxiliando os nossos amados, que ainda permanecem a distância, nos círculos terrestres.
Não se impressione.
A árvore, para produzir, não reclama as folhas mortas.
Para nós, atualmente, meu amigo, o mal é simples resultado da ignorância e nada mais.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Janeiro de 2020, 00:14
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Os Mensageiros

5 Ouvindo instruções

No grande salão, Aniceto esperava-nos, acolhedor.
Fileiras enormes de assistentes enchiam o espaço vastíssimo.
Homens e mulheres, aparentando idades diversas, permaneciam recolhidos, a demonstrar, porém, expectativa e interesse.
– Hoje – explicou o nosso orientador, dirigindo-se a Vicente de maneira particular – teremos a palavra de Telésforo, antigo lidador da Comunicação, que pediu a presença de todos os aprendizes do trabalho de intercâmbio entre nós e os irmãos encarnados.
Sentamo-nos, confortavelmente, aguardando, por nossa vez.
Dai a minutos, Telésforo penetrava no recinto, sob harmoniosas vibrações de simpatia geral.
Aniceto e outros instrutores instalaram-se ao lado dele, em torno da mesa nobre, onde se localizava a direção da assembleia.
Após saudar a assistência numerosíssima, formulando votos de paz e incentivando-nos aos testemunhos redentores,
Telésforo atingiu o assunto principal que o levara até ali.
– “Agora – disse com autoridade sem afetação – conversaremos sobre as necessidades da representação de nossa colônia nos trabalhos terrestres.
Aqui se encontram companheiros fracassados nas intenções mais nobres e irmãos outros desejosos de colaborar nas tarefas que condizem com as nossas responsabilidades atuais.
Referimo-nos às laboriosas atividades da Comunicação, no plano carnal.
Vemos nesta reunião grande parte dos cooperadores de “Nosso Lar”, que faliram nas missões da mediunidade e da doutrinação, bem como outros muitos colegas que se preparam para provas dessa natureza, nos círculos da Crosta.
“Nossa repartição vem promovendo grande movimento de auxílio a irmãos encarnados e desencarnados, que se revelam incapazes de qualquer ação, além da superfície terrestre.
“Nossa tarefa é enorme – Precisamos disseminar ensinamentos novos, relativamente à preparação dos que habitam nossa colônia, considerando os esforços e realizações do presente e do porvir.
“É indispensável socorrer os que enfrentam, corajosos, as profundas transformações do planeta.
“As transições essenciais da existência na Terra encontram a maioria dos homens absolutamente distraídos das realidades eternas.
A mente humana abre-se, cada vez mais, para o contacto com as expressões invisíveis, dentro das quais funciona e se movimenta.
Isto é uma fatalidade evolutiva.
Desejamos e necessitamos auxiliar as criaturas terrestres;
Todavia, contra a extensão de nosso concurso fraterno, operam dilatadas correntes de incompreensão.
Não relacionamos apenas a ação da ignorância e da perversidade.
Agem, contraditoriamente, nesse particular, grande número de forças do próprio espiritualismo.
Combatem-nos algumas escolas cristãs, como se não colaborássemos com o Mestre Divino.
A Igreja Romana classifica-nos a cooperação como diabólica.
A Reforma Luterana, em seus matizes variados, persegue-nos a colaboração amistosa.
E há correntes espiritualistas de elevado teor educativo, que nos malsinam a influência, por quererem o homem aperfeiçoado de um dia para outro,
Rigorosamente redimido a golpe instantâneo da vontade, sem realização metódica.
“No campo de nosso conhecimento da vida, não podemos condená-los pelo desentendimento atual.
O catolicismo romano tem suas razões ponderáveis;
O protestantismo é digno de nosso acatamento;
As escolas espiritualistas possuem notáveis edificações.
Toda expressão religiosa é sagrada, todo movimento superior de educação espiritual é santo em si mesmo.
Temos, então, diante de nós, a incompreensão dos bons, que constitui dolorosa prova para todos os trabalhadores sinceros,
Porque, afinal, não estamos fazendo obra individual e sim promovendo movimento libertador da consciência humana, a favor da própria ideia religiosa do mundo.
“Sacerdotes e intérpretes dos núcleos organizados da religião e da filosofia,
Não percebem ainda que o espírito da Revelação é progressivo, como a alma do homem.
As concepções religiosas se elevam com a mente da criatura.
Muitas Igrejas não compreendem, por enquanto, que não devemos espalhar a crença nos tormentos eternos para os desventurados,
E sim a certeza de que há homens infernais criando infernos para si mesmos.
“Não podemos, porém, perder tempo no exame da teimosia alheia.
Temos serviços complexos e dilatados.
E, como dizíamos, a Humanidade terrena aproxima-se, dia a dia, da esfera de vibrações dos invisíveis de condição inferior,
Que a rodeia em todos os sentidos.
Mas, segundo reconhecemos, esmagadora percentagem de habitantes da Terra não se preparou para os atuais acontecimentos evolutivos.
E os mais angustiosos conflitos se verificam no sendal humano.
A Ciência progride vertiginosamente no planeta e, no entanto, à medida que se suprimem sofrimentos do corpo, multiplicam-se aflições da alma.
Os jornais do mundo estão cheios de notícias maravilhosas, quanto ao progresso material.
Segredos sublimes da Natureza são surpreendidos nos domínios do mar, da terra e do ar;
Mas a estatística dos crimes humanos é espantosa.
Os assassínios da guerra apresentam requintes de perversidade muito além dos que foram conhecidos em épocas anteriores.
Os homicídios, os suicídios, as tragédias conjugais, os desastres do sentimento, as greves, os impulsos revolucionários da indisciplina, a sede de experimentação inferior, a inquietação sexual, as moléstias desconhecidas, a loucura, invadem os lares humanos.
Não existe em país algum preparação espiritual bastante para o conforto físico.
Entretanto, esse conforto tende a aumentar naturalmente.
O homem dominará, cada vez mais, a paisagem exterior que lhe constitui moradia, embora não se conheça a si mesmo.
Atendido, porém, o corpo revelará as necessidades da alma e vemos agora a criatura terrestre assoberbada de problemas graves,
Não só pelas deficiências de si própria,
Senão também pela espontânea aproximação psíquica com a esfera vibratória de milhões de desencarnados,
Que se agarram à Crosta planetária, sequiosos de renovar a existência que menosprezaram, sem maior consideração aos desígnios do Eterno.
“A rigor, também nós compreendemos que os serviços da Comunicação, no mundo, deveriam realizar-se apenas no plano da inspiração divina para os círculos terrenos, do superior para o inferior;
Mas, como agir diante de milhões de enfermos e criminosos nas zonas visíveis e invisíveis da experiência humana?
Pelo simples culto externo, como pretende a Igreja de Roma?
Pelo ato de fé, exclusivamente, como espera a Reforma Protestante?
Por mera afirmação da vontade, conforme pontificam certas escolas espiritualistas?
Não podemos, no entanto, circunscrever apreciações, na visão unilateral do problema. Concordamos que a reverência ao Pai, a fé e a vontade são expressões básicas da realização divina no homem,
Mas não podemos esquecer que o trabalho é necessidade fundamental de cada espírito.
Que outros irmãos nossos perseverem, tão somente, nas especulações teológicas;
Encaremos, porém, os serviços do Senhor, como se faz indispensável.
“A Humanidade terrena, atualmente, é como um grande organismo coletivo,
Cujas células, que são as personalidades humanas,
Se envolvem no desequilíbrio entre si, em processo mundial de reajustamento e redenção. “Quantos cooperam conosco, veem a extensão dos cipoais em que se debate a mente humana.
Criminosos agarram-se a criminosos, doentes associam-se a doentes.
Precisamos oferecer, no mundo, os instrumentos adequados às retificações espirituais, habilitando nossos irmãos encarnados a um maior entendimento do Espírito do Cristo.
Para consegui-lo, todavia, necessitamos de colaboradores fiéis, que não cogitem de condições, compensações e discussões,
Mas que se interessem pela sublimidade do sacrifício e de renunciação com o Senhor.”
A essa altura, Telésforo interrompeu a lição em curso e, fixando o olhar percuciente na assembleia, tornou em voz mais alta:
– Quem não deseje servir, procure outros gêneros de tarefa.
A Comunicação não comporta perda de tempo nem experimentação doentia, sem grave prejuízo dos cooperadores incautos.
Noutros Ministérios, a designação de trabalhadores define, com precisão, todos os que colaboram com o Divino Mestre.
Aqui, porém, acima de trabalhadores, precisamos de servidores que atendam de boa vontade.
Nesse instante, em vista doutra longa pausa, Identifiquei a forte impressão dos ouvintes, que se entreolhavam com inexprimível espanto.

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OS MENSAGEIROS –
2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Janeiro de 2020, 00:15
Os Mensageiros
6 Advertências profundas

– “Irmãos nossos – prosseguiu Telésforo, sob o calor de sagrada inspiração
– Fazem-se ouvir na Terra gritos comovedores de sofrimento.
Necessitamos de servidores que desejem integrar-se na escola evangélica da renúncia.
“Desde as primeiras tarefas do Espiritismo renovador, “Nosso Lar” tem enviado diversas turmas ao trabalho de disseminação de valores educativos.
Centenas de companheiros partem daqui anualmente, aliando necessidades de resgate ao serviço redentor;
Mas ainda não conseguimos os resultados desejáveis.
Alguns alcançaram resultados parciais nas tarefas a desenvolver, mas a maioria tem fracassado ruidosamente.
Nossos institutos de socorro debalde movimentam medidas de assistência indispensável.
Raríssimos conquistam algum êxito nos delicados misteres da mediunidade e da doutrinação.
“Outras colônias de nossa esfera providenciam tarefas da mesma natureza,
Mas pouquíssimos são os que se lembram das realidades eternas, no “outro lado do véu”
... A ignorância domina a maioria das consciências encarnadas.
E a ignorância é mãe das misérias, das fraquezas, dos crimes.
Grandes instrutores, nos fluidos da carne, amedrontam-se por sua vez, diante dos atritos humanos, e se recolhem, indevidamente, na concepção que lhes é própria.
Esquecem-se de que Jesus não esperou que os homens lhe atingissem as glórias magnificentes e que, ao invés, desceu até ao plano dos homens para amar, ensinar e servir.
Não exigiu que as criaturas se fizessem imediatamente iguais a Ele, mas fez-se como os homens, para ajudá-los na subida áspera.”
E, com profundo brilho no olhar, Telésforo acentuou, depois de pequeno Intervalo:
– “Se o Mestre Divino adotou essa norma, que dizer das nossas obrigações de criaturas falidas?
“Abstraindo-nos das necessidades imensas de outros grupos, procuremos identificar as falhas existentes naqueles que nos são afins.
“Em derredor de nós mesmos, os laços pessoais constituem extenso campo de atividade para o testemunho.
“Cesse, para nós outros, a concepção de que a Terra é o vale tenebroso, destinado a quedas lamentáveis, e agasalhemos a certeza de que a esfera carnal é uma grande oficina de trabalho redentor.
Preparemo-nos para a cooperação eficiente e indispensável.
Esqueçamos os erros do passado e lembremo-nos de nossas obrigações fundamentais.
“A causa geral dos desastres mediúnicos é a ausência da noção de responsabilidade e da recordação do dever a cumprir.
“Quantos de vós fostes abonados, aqui, por generosos benfeitores que buscaram auxiliar-vos, condoídos de vosso pretérito cruel?
Quantos de vós partistes, entusiastas, formulando enormes promessas?
Entretanto, não soubestes recapitular dignamente, para aprender a servir, conforme os desígnios superiores do Eterno.
Quando o Senhor vos enviava possibilidades materiais para o necessário, regressáveis à ambição desmedida;
Ante o acréscimo de misericórdia do labor intensificado, agarrastes a ideia da existência cômoda;
Junto às experiências afetivas, preferistes os desvios sexuais;
Ao lado da família, voltastes à tirania doméstica,
E aos interesses da vida eterna sobrepusestes as sugestões inferiores da preguiça e da vaidade.
Destes-vos, na maioria, à palavra sem responsabilidade e à indagação sem discernimento, amontoando atividades inúteis.
Como médiuns, muitos de vós preferíeis a inconsciência de vós mesmos;
Como doutrinadores, formuláveis conceitos para exportação, jamais para uso próprio.
“Que resultado atingimos?
Grandes massas batem às fontes do Espiritismo sagrado, tão só no propósito de lhe mancharem as águas.
Não são procuradores do Reino de Deus os que lhe forçam, desse modo, as portas, e sim caçadores dos interesses pessoais.
São os sequiosos da facilidade, os amigos do menor esforço, os preguiçosos e delinquentes de todas as situações, que desejam ouvir os Espíritos desencarnados, receosos da acusação que lhes dirige a própria consciência.
O fel da dúvida invade o bálsamo da fé, nos corações bem intencionados.
A sede de proteção indevida azorraga os seguidores da ociosidade.
A ignorância e a maldade entregam-se às manifestações inferiores da magia negra.
“Tudo porque, meus irmãos?
Porque não temos sabido defender o sagrado depósito, por termos esquecido, em nossos labores carnais,
Que Espiritismo é revelação divina para a renovação fundamental dos homens.
Não atendemos, ainda, como se faz indispensável, à construção do “Reino de Deus” em nós. “Contudo, não abandonemos nossos deveres a meio da tarefa.
Voltemos ao campo, retificando as semeaduras.
O Ministério da Comunicação vem incentivando esse movimento renovador.
Necessitamos de servidores de boa vontade, leais ao espírito da fé.
Não serão admitidos os que não desejarem conhecer a glória oculta da cruz do testemunho, nem atendem aqui os que se aproximem com objetivos diferentes...
“Aqui estamos todos, companheiros da Comunicação, endividados com o mundo, mas esperançosos de êxito em nossa tarefa permanente.
Levantemos o olhar.
O Senhor renova diariamente nossas benditas oportunidades de trabalho,
Mas, para atingirmos os resultados precisos, é imprescindível sejamos seguidores da renunciação ao inferior.
Nenhum de nós, dos que aqui nos encontramos, está livre do ciclo de reencarnações na Crosta.
Todos, portanto, somos sequiosos de Vida Eterna.
Não olvidemos, desse modo, o Calvário de Nosso Senhor, convictos de que toda saída dos planos mais baixos deve ser uma subida para a esfera superior.
E ninguém espere subir, espiritualmente, sem esforço, sem suor e sem lágrimas!...”
Nesse momento, cessou a preleção de Telésforo, que abençoou a assembleia, mostrando o olhar infinitamente brilhante e aceitando, em seguida, o braço de Aniceto, para afastar-se.
Debaixo de profunda impressão, em face das incisivas declarações do instrutor, observei que numerosos circunstantes choravam em silêncio.
Ao meu olhar interrogativo, Vicente explicou:
– São servidores fracassados.
Nesse instante, Telésforo e o nosso orientador postaram-se junto de nós.
Duas senhoras, de grave fisionomia, aproximaram-se respeitosamente e uma delas dirigiu-se a Aniceto, nestes termos:
– Desejávamos o obséquio de uma informação concernente à próxima oportunidade de serviço que será concedida a Otávio.
– O Ministério prestará esclarecimentos – respondeu o interpelado, atencioso.
– Todavia – tornou a interlocutora –, ousaria reiterar-lhe o pedido.
É que Marina, grande amiga nossa, casada na Terra há alguns meses, prometeu-me cooperação para auxiliá-lo, e seria muito de meu agrado localizar, agora, o meu pobre filho em novos braços maternais.
Aniceto esboçou um gesto de compreensão, sorriu e esclareceu, sem afetação:
– Convém não estabelecer o plano por enquanto, porque, antes de tudo, precisamos conhecer a solução do processo de médiuns fracassados, em que está ele envolvido.
Somente depois, minha irmã.
Volvi os olhos para Vicente, sem ocultar a surpresa, mas, enquanto as senhoras se retiravam conformadas, Aniceto dirigia-nos a palavra:
– Tenho serviços imediatos, em companhia de Telésforo.
Deixo-os, a todos, em estudos e observações aqui no Centro de Mensageiros.
Retirou-se Aniceto com os maiores, e um companheiro declarou alegremente:
– Podemos conversar.
– Nosso orientador – explicou-me Vicente, solicito
– Considera trabalho útil toda conversação sadia que nos enriqueça os conhecimentos e aptidões para o serviço.
Pelas nossas palestras construtivas, portanto, receberemos também a remuneração devida à cooperação normal.
Curioso e surpreendido, indaguei:
– E se eu tentasse voltar aos assuntos inferiores da Terra, esquecendo a conversação edificante?
Vicente sorriu e retrucou:
– O prejuízo seria seu, porque aqui a palavra define o Espírito e, se você fugisse à luz da palestra instrutiva, nossos orientadores conheceriam sua atitude imediatamente, porquanto sua presença se tornaria desagradável e seu rosto se cobriria de sombra indefinível.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 17 de Janeiro de 2020, 11:09
OS MENSAGEIROS
7 A queda de Otávio

A ausência de Aniceto deu ensejo a palestras interessantes.
Formaram-se grupos de conversação amiga.
Impressionado com as senhoras que haviam solicitado providências para Otávio, pedi a Vicente me apresentasse a elas, não que me movesse curiosidade menos digna, mas desejo de alcançar novos valores educativos sobre a tarefa mediúnica, que a palavra de Telésforo me fizera sentir em tons diferentes.
O amigo atendeu de boamente.
Em breves momentos, não me achava tão só à frente das irmãs Isaura e Isabel, mas do próprio Otávio, um pálido senhor que aparentava quarenta anos.
– Também sou principiante aqui – expliquei – e minha condição é a do médico falido nos deveres que o Senhor lhe confiou.
Otávio sorriu e respondeu:
– Possivelmente, o meu amigo terá a seu favor o fato de haver ignorado as verdades eternas, no mundo.
O mesmo não ocorre comigo, ai de mim!
Não desconhecia o roteiro certo, que o Pai me designava para as lutas na Terra.
Não possuía títulos oficializados de competência;
Entretanto, dispunha de considerável cultura evangélica, coisa que, para a vida eterna, é de maior importância que a cultura intelectual, simplesmente considerada.
Tive amigos generosos do plano superior, que se faziam visíveis aos meus olhos, recebi mensagens repletas de amor e sabedoria e, no entanto, cai mesmo assim, obedecendo à imprevidência e à vaidade.
As observações de Otávio impressionavam-me vivamente.
Quando no mundo, eu não tivera contacto especial com as espiritistas e experimentava certa dificuldade para compreender tudo quanto ele desejava dizer.
– Ignorava a extensão das responsabilidades mediúnicas – respondi.
– As tarefas espirituais – tornou o interlocutor, algo acabrunhado – ocupam-se de interesses eternos e daí a enormidade de minha falta.
Os mordomos de bens da alma estão investidos de responsabilidades pesadíssimas.
Os estudiosos, os crentes, os simpatizantes, no campo da fé, podem alegar ignorância e inibição;
Todavia, os sacerdotes não têm desculpa.
É o mesmo que se verifica na tarefa mediúnica.
Os aprendizes ou beneficiários, nos templos da Revelação nova, podem referir-se a determinados impedimentos;
Mas o missionário é obrigado a caminhar com um patrimônio de certezas tais, que coisa alguma o exonera das culpas adquiridas.
– Mas, meu amigo – perguntei, assaz impressionado –, que teria motivado seu martírio moral?
Noto-o tão consciente de si mesmo, tão superiormente informado sobre as leis da vida, que me custa acreditar se encontre necessitado de novas experiências nesse capítulo...
Ambas as senhoras presentes mostraram estranho brilho no olhar, enquanto Otávio respondia:
– Relatarei minha queda.
Verá como perdi maravilhosa oportunidade de elevação.
E, após mais longa pausa, continuou, gravemente:
– “Depois de contrair dívidas enormes na esfera carnal, noutro tempo, vim bater às portas de “Nosso Lar”, sendo atendido por irmãos dedicados, que se revelaram incansáveis para comigo.
Preparei-me, então, durante trinta anos consecutivos, para voltar à Terra em tarefa mediúnica, desejoso de saldar minhas contas e elevar-me alguma coisa.
Não faltaram lições verdadeiramente sublimes, nem estímulos santos ao meu coração imperfeito.
O Ministério da Comunicação favoreceu-me com todas as facilidades e, sobretudo, seis entidades amigas movimentaram os maiores recursos em benefício do meu êxito.
Técnicos do Auxílio acompanharam-me à Terra, nas vésperas do meu renascimento, entregando-me um corpo físico rigorosamente sadio.
Segundo a magnanimidade dos meus benfeitores daqui, ser-me-ia concedido certo trabalho de relevo, na esfera de consolação às criaturas.
Permaneceria junto das falanges de colaboradores encarregados do Brasil, animando-lhes os esforços o atendendo a irmãos outros, ignorantes, perturbados ou infelizes.
O matrimônio não deveria entrar na linha de minhas cogitações, não que o casamento possa colidir com o exercício da mediunidade, mas porque meu caso particular assim o exigia.
“Nada obstante, solteiro, deveria receber, aos vinte anos, os seis amigos que muito trabalharam por mim, em “Nosso Lar”, os quais chegariam ao meu círculo como órfãos.
Meu débito para com essas entidades tornou-se muito grande e a providência não só constituiria agradável resgate para mim, como também garantia de triunfo pelo serviço de assistência a elas,
O que me preservaria o coração de leviandades e vacilações, porquanto o ganha-pão laborioso me compeliria a não aceder a sugestões inferiores nos domínios do sexo e das ambições incontidas.
Ficou também assentado que minhas atividades novas começariam com muitos sacrifícios, para que o possível carinho de outrem não amolecesse a minha fibra de realização,
E para que se não escravizasse minha tarefa a situações caprichosas do mundo, distantes dos desígnios de Jesus,
E, sobretudo, para que fosse mantida a impessoalidade do serviço.
Mais tarde, então, com o correr dos anos de edificação, me enviariam de “Nosso Lar” socorros materiais, cada vez maiores,
À medida que fosse testemunhando renúncia de mim mesmo, desprendimento das posses efêmeras, desinteresse pela remuneração dos sentidos,
De maneira a intensificar, progressivamente, a semeadura de amor confiada às minhas mãos.
“Tudo combinado, voltei, não só prometendo fidelidade aos meus instrutores, como também hipotecando a certeza do meu devotamento às seis entidades amigas, a quem muito devo até agora.”
Otávio, nesse momento, fez uma pausa mais longa, suspirou fundamente, e prosseguiu:
– “Mas, ai de mim, que olvidei todos os compromissos!
Os benfeitores de “Nosso Lar” localizaram-me ao lado de verdadeira serva de Jesus.
Minha mãe era espiritista cristã desde moça, não obstante as tendências materialistas de meu pai, que era, todavia, um homem de bem.
“Aos treze anos fiquei órfão de mãe e, aos quinze, começaram para mim os primeiros chamados da esfera superior.
Por essa ocasião, meu pai contraiu segundas núpcias e, apesar da bondade e cooperação que a madrasta me oferecia, eu me colocava num plano de falsa superioridade, a respeito dela.
Em vão, minha genitora endereçou, do invisível, apelos sagrados ao meu coração.
Eu vivia revoltado, entre queixas e lamentações descabidas.
“Meus parentes conduziram-me a um grupo espiritista de excelente orientação evangélica, onde minhas faculdades poderiam ser postas a serviço dos necessitados e sofredores;
entretanto, faltavam-me qualidades de trabalhador e companheiro fiel.
Minha negação em matéria de confiança nos orientadores espirituais e acentuado pendor para a crítica dos atos alheios compeliam-me a desagradável estacionamento.
“Os beneméritos amigos do invisível estimulavam-me ao serviço, mas eu duvidava deles com a minha vaidade doentia.
E como prosseguissem os apelos sagrados, por mim interpretados como alucinações, procurei um médico que me aconselhou experiências sexuais.
Completara, então, dezenove anos e entreguei-me desenfreadamente ao abuso de faculdades sublimes.
Desejava conciliar, à força, o prazer delituoso e o dever espiritual, alheando-me, cada vez mais, dos ensinos evangélicos que os amigos da esfera superior nos ministravam.
“Tinha pouco mais de vinte anos, quando meu pai foi arrebatado pela morte.
Com a triste ocorrência, ficavam na orfandade seis crianças desfavorecidas, porquanto minha madrasta, ao se consorciar com meu genitor, lhe trouxera para a tutela três pequeninos.
Em vão implorou-me socorro a pobre viúva.
Nunca me dignei aceitar os encargos redentores que me estavam destinados.
“Após dois anos de segunda viuvez, minha desventurada madrasta foi recolhida a um leprosário.
Afastei-me, então, dos pequenos órfãos, tomado de horror.
Abandonei-os definitivamente, sem refletir que lançava meus credores generosos, de “Nosso Lar”, a destino incerto.
Em seguida, dando largas à ociosidade, cometi uma ação menos digna e fui obrigado a casar-me pela violência.
Mesmo assim, porém, persistiam os chamados do invisível, revelando-me a inesgotável misericórdia do Altíssimo.
Contudo, à medida que olvidava meus deveres, toda tentativa de realização espiritual figurava-se-me mais difícil.
E continuou a tragédia que inventei para meu próprio tormento.
“A esposa a que me ligara, tão somente por apetites inconfessáveis, era criatura muito inferior à minha condição espiritual e atraiu uma entidade monstruosa, em ligação com ela, para tomar o papel de meu filho.
Releguei à rua seis carinhosas crianças, cuja convivência concorreria decisivamente para minha segurança moral, mas a companheira e o filho, ao que me pareceu, incumbiram-se da vingança.
Atormentaram-me ambos, até ao fim da existência, quando para aqui regressei, mal tendo completado quarenta anos, roído pela sífilis, pelo álcool e pelos desgostos, sem nada haver feito para meu futuro eterno...
Sem construir coisa alguma no terreno do bem...”
Enxugou os olhos tímidos e concluiu:
– Como vê, realizei todos os meus condenáveis desejos, menos os desejos de Deus.
Foi por isso que fali, agravando antigos débitos...
Nesse instante, calou-se como se alguma coisa invisível lhe constringisse a garganta.
Abracei-o com simpatia fraternal, ansioso de proporcionar-lhe estimulo ao coração, mas Dona Isaura aproximou-se mais, acariciou-lhe a fronte e falou:
– Não chores, filho!
Jesus não nos falta com a bênção do tempo.
Tem calma e coragem...
E identificando-lhe o carinho, meditei na Bondade Divina, que faz ecoar o cântico sublime do amor de mãe, mesmo nas regiões de além-morte.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 17 de Janeiro de 2020, 11:10
OS MENSAGEIROS
8 O desastre de Acelino

Ia dirigir-me a Otávio novamente, quando alguém se aproximou e falou ao ex-médium, com voz forte:
– Não chore, meu caro.
Você não está desamparado.
Além disso, pode contar com o devotamento materno.
Vivo em piores condições, mas não me faltam esperanças.
Sem dúvida, estamos em bancarrota espiritual;
No entanto, é razoável aguardarmos, confiantes, novo empréstimo de oportunidades do Tesouro Divino.
Deus não está pobre.
Voltei-me surpreendido e não reconheci o recém-chegado.
Dona Isaura fez o obséquio das apresentações.
Estávamos diante de Acelino, que partilhara a mesma experiência.
Fitando-o, triste, Otávio sorriu e advertiu:
– Não sou um criminoso para o mundo, mas sou um falido para Deus e para “Nosso Lar
– Sejamos, porém, lógicos – revidou Acelino, parecendo mais encorajado
–, você perdeu a partida porque não jogou, e eu a perdi jogando desastradamente.
Tive onze anos de tormento nas zonas inferiores.
Sua situação não reclamou esse drástico.
Mesmo assim, confio na Providência.
Nesse instante, interveio Vicente, acrescentando:
– Cada um de nós tem a experiência que lhe é própria.
Nem todos ganham nas provas terrestres.
E voltando-se de modo especial, para mim, aduziu:
– Quantos de nós, os médicos, perdemos lamentavelmente na luta?
Depois de concordar, trazendo à baila o meu próprio caso, objetei:
– Seria, porém, muitíssimo interessante conhecer a experiência de Acelino.
Teria sofrido o mesmo acidente de Otávio?
Creio de grande aproveitamento penetrar essas lições.
No mundo, não compreendia bem o que fossem tarefas espirituais, mas aqui a nossa visão se modifica.
Há que cogitar do nosso futuro eterno.
Acelino sorriu e obtemperou:
– Minha história é muito diferente.
A queda que experimentei apresenta características diversas e, a meu ver, muito mais graves.
E, atendendo-nos a expectativa, prosseguiu, narrando:
– “Também parti de “Nosso Lar”, no século findo, após receber valioso patrimônio instrutivo dos nossos assessores.
Segui enriquecido de bênçãos.
Uma de nossas beneméritas Ministras da Comunicação presidiu, em pessoa, as medidas atinentes à minha nova tarefa.
Não faltaram providências para que me felicitassem a saúde do corpo e o equilíbrio da mente.
Após formular grandes promessas aos nossos maiores, parti para uma das grandes cidades brasileiras, em serviço de nossa colônia.
O casamento estava em meu roteiro de realizações.
Ruth, minha devotada companheira, incumbir-se-ia de colaborar comigo para melhor desempenho das tarefas.
“Cumprida a primeira parte do programa, aos vinte anos de idade fui chamado à tarefa mediúnica, recebendo enorme amparo dos benfeitores invisíveis.
Recordo ainda a sincera satisfação dos companheiros do grupo doutrinário.
A vidência, a audição e a psicografia, que o Senhor me concedera, por misericórdia, constituíam decisivos fatores de êxito em nossas atividades.
A alegria de todos era inexcedível.
Entretanto, apesar das lições maravilhosas de amor evangélico, inclinei-me a transformar minhas faculdades em fonte de renda material.
Não me dispus a esperar pelos abundantes recursos que o Senhor me enviaria mais tarde, após meus testemunhos no trabalho, e provoquei, eu mesmo, a solução dos problemas lucrativos.
Não era meu serviço igual a outros?
Não recebiam os sacerdotes católicos-romanos a remuneração de trabalhos espirituais e religiosos?
Se todos pagávamos por serviços ao corpo, que razões haveria para fugir ao pagamento por serviços à alma?
Amigos, inscientes do caráter sagrado da fé, aprovavam-me as conclusões egoísticas.
Admitíamos que, no fundo, o trabalho essencial era dos desencarnados, mas também havia colaboração minha, pessoal, como intermediário, pelo que devia ser justa a retribuição.
“Debalde, movimentaram-se os amigos espirituais aconselhando-me o melhor caminho.
Em vão, companheiros encarnados chamavam-me a esclarecimento oportuno.
Agarrei-me ao interesse inferior e fixei meu ponto de vista.
Ficaria definitivamente por conta dos consulentes.
Arbitrei o preço das consultas, com bonificações especiais aos pobres e desvalidos da sorte, e meu consultório encheu-se de gente.
“Interesse enorme foi despertado entre os que desejavam melhoras físicas e solução de negócios materiais.
Grande número de famílias abastadas tomou-me por consultor habitual, para todos os problemas da vida.
As lições de espiritualidade superior, a confraternização amiga, o serviço redentor do Evangelho e as preleções dos emissários divinos ficaram à distância.
Não mais a escola da virtude, do amor fraternal, da edificação superior, e sim a concorrência comercial, as ligações humanas legais ou criminosas, os caprichos apaixonados, os casos de policia e todo um cortejo de misérias da Humanidade, em suas experiências menos dignas.
“Transformara-se completamente a paisagem espiritual que me rodeava.
À força de me cercar de pessoas criminosas, por questões de ganho sistemático, as baixas correntes mentais dos inquietos clientes encarceraram-me em sombria cadeia psíquica.
Cheguei ao crime de zombar do Evangelho de Nosso Senhor Jesus, esquecido de que os negócios delituosos dos homens de consciência viciada contam igualmente com entidades perniciosas, que se interessam por eles nos planos invisíveis.
E transformei a mediunidade em fonte de palpites materiais e baixos avisos.”
Nesse momento, os olhos do narrador cobriram-se de súbita vermelhidão, estampando-se-lhe fundo horror nas pupilas, como se estivesse revivendo atrozes dilacerações.
– Mas a morte chegou, meus amigos, e arrancou-me a fantasia – prosseguiu mais grave –.
Desde o instante da grande transição, a ronda escura dos consulentes criminosos, que me haviam precedido no túmulo, rodeou-me a reclamar palpites e orientações de natureza inferior.
Queriam notícias de cúmplices encarnados, de resultados comerciais, de soluções atinentes a ligações clandestinas.
Gritei, chorei, implorei, mas estava algemado a eles por sinistros elos mentais, em virtude da imprevidência na defesa do meu próprio patrimônio espiritual.
Durante onze anos consecutivos, expiei a falta, entre eles, entre o remorso e a amargura.
Acelino calou-se, parecendo mais comovido, em vista das lágrimas abundantes.
Fundamente sensibilizado, Vicente considerou:
– Que é isso?
Não se atormente assim.
Você não cometeu assassínios, nem alimentou a intenção deliberada de espalhar o mal.
A meu ver, você enganou-se também, como tantos de nós.
Acelino, porém, enxugou o pranto e respondeu:
– Não fui homicida nem ladrão vulgar, não mantive o propósito íntimo de ferir ninguém, nem desrespeitei alheios lares,
Mas, indo aos círculos carnais para servir às criaturas de Deus, nossos irmãos, auxiliando-os no crescimento espiritual com Jesus,
Apenas fiz viciados da crença religiosa e delinquentes ocultos, mutilados da fé e aleijados do pensamento.
Não tenho desculpas, porque estava esclarecido;
Não tenho perdão, porque não me faltou assistência divina.
E, depois de longa pausa, concluiu gravemente:
– Podem avaliar a extensão da minha culpa?

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 17 de Janeiro de 2020, 11:11
OS MENSAGEIROS
9 Ouvindo impressões

Deixando Acelino em conversação mais íntima com Otávio, fui levado por Vicente a outro ângulo da sala.
Muitos grupos se mantinham em palestra interessante e educativa, observando eu que quase todos comentavam as derrotas sofridas na Terra.
– Fiz quanto pude – exclamava uma velhinha simpática para duas companheiras que a escutavam atentamente –;
No entanto, os laços de família são muito fortes.
Algo se fazia ouvir sempre, com voz muito alta, em meu espírito, compelindo-me ao desempenho da tarefa;
Mas... e o marido?
Amâncio nunca se conformou.
Se os enfermos me procuravam no receituário comum, agravava-se-lhe a neurastenia;
Se os companheiros de doutrina me convidavam aos estudos evangélicos, revoltava-se, ciumento.
Que pensam vocês?
Chegava a mobilizar minhas filhas contra mim.
Como seria possível, em tais circunstâncias, atender a obrigações mediúnicas?
– Todavia – ponderou uma das senhoras que parecia mais segura de si –, sempre temos recursos e pretextos para fugir às culpas.
Encaremos nossos problemas com realismo.
Há de convir que, com o socorro da boa vontade, sempre lhe ficariam alguns minutos na semana e algumas pequenas oportunidades para fazer o bem.
Talvez pudesse conquistar o entendimento do esposo e a colaboração afetuosa das filhas, se trabalhasse em silêncio, mostrando sincera disposição para o sacrifício.
Nossos atos, Mariana, são muito mais contagiosos que as nossas palavras.
– Sim – respondeu a interlocutora, emitindo voz diferente –, concordo com a observação.
Em verdade, nunca pude sofrer a incompreensão dos meus, sem reclamar.
– Para trabalharmos com eficiência – tornou a companheira, sensata –, é preciso saber calar, antes de tudo.
Teríamos atendido perfeitamente aos nossos deveres, se tivéssemos usado todas as receitas de obediência e otimismo que fornecemos aos outros.
Aconselhar é sempre útil, mas aconselhar excessivamente pode traduzir esquecimentos de nossas obrigações.
Assim digo, porque meu caso, a bem dizer, é muito semelhante ao seu.
Fomos ao círculo carnal para construir com Jesus, mas caímos na tolice de acreditar que andávamos pela Terra para discutir nossos caprichos.
Não executei minha tarefa mediúnica, em virtude da irritação que me dominou, dada a indiferença dos meus familiares pelos serviços espirituais.
Nossos instrutores, aqui, muito me recomendaram, antes, que para bem ensinar é necessário exemplificar melhor.
Entretanto, por minha desventura, tudo esqueci no trabalho temporário da Terra.
Se meu marido fazia ponderações, eu criava refutações.
Não suportava qualquer parecer contrário ao meu ponto de vista, em matéria de crença, incapaz de perceber a vaidade e a tolice dos meus gestos.
Das irreflexões nasceu minha perda última, na qual agravei, de muito, as responsabilidades.
Quase mensalmente, Joaquim e eu nos empenhávamos em discussões e não trocávamos apenas os insultos contundentes, mas também os fluidos venenosos, segregados por nossa mente rebelde e enfermiça.
Entre os conflitos e suas consequências, passei o tempo inutilizada para qualquer trabalho de elevação espiritual.
Nesse instante, chamou-me Vicente para apresentar um amigo.
Ao nosso lado, outro grupo de senhoras conversava animadamente:
– Afinal, Ernestina – indagava uma delas à mais jovem –, qual foi a causa do seu desastre?
– Apenas o medo, minha amiga – explicou-se a interpelada –, tive medo de tudo e de todos.
Foi o meu grande mal.
– Mas, como tudo isto impressiona!
Você foi muitíssimo preparada.
Recordo-me ainda das nossas lições em conjunto.
As instrutoras do Esclarecimento confiavam extraordinariamente no seu concurso.
Seu aproveitamento era um padrão para nós outras.
– Sim, minha querida Benita, suas reminiscências fazem-me sentir, com mais clareza, a extensão da minha bancarrota pessoal.
Entretanto, não devo fugir à realidade.
Fui a culpada de tudo.
Preparei-me o bastante para resgatar antigos débitos e efetuar edificações novas;
Contudo, não vigiei como se impunha.
O chamamento ao serviço ressoou no tempo próprio, orientando-me o raciocínio a melhores esclarecimentos;
Nossos instrutores me proporcionavam os mais santos incentivos, mas desconfiei dos homens, dos desencarnados e até de mim mesma.
Nos estudiosos do plano físico, enxergava pessoas de má fé;
Nos irmãos invisíveis, presumia encontrar apenas galhofeiros fantasiados de orientadores e, em mim mesma, receava as tendências nocivas.
Muitos amigos tinham-me em conta de virtuosa, pelo rigorismo das minhas exigências;
Todavia, no fundo, eu não passava de enferma voluntária, carregada de aflições inúteis.
– Foi uma grande infantilidade da sua parte – retrucou a outra –, você olvidou que, na esfera carnal, o maior interesse da alma é a realização de algo útil para o bem de todos, com vistas ao Infinito e à Eternidade.
Nesse mister, é indispensável contar com o assédio de todos os elementos contrários.
Ironias da ignorância, ataques da insensatez, sugestões inferiores da nossa própria animalidade surgirão, com certeza, no caminho de todo trabalhador fiel.
São circunstâncias lógicas e fatais do serviço, porque não vamos ao mundo físico para descanso injustificável, mas para lutar pela nossa melhoria, a despeito de todo impedimento fortuito.
– Compreendo, agora – disse a outra –; todavia, o receio das mistificações prejudicou minha bela oportunidade.
– É, minha amiga – tornou a interlocutora –, é tarde para lamentar.
Tanto tememos as mistificações, que acabamos por mistificar os serviços do Cristo.
Eu ouvia a palestra, com interesse crescente, mas o companheiro levou-me adiante para novas apresentações.
Atendia a esses agradáveis deveres da sociedade de “Nosso Lar”, mas, para não perder ensejo de instruir-me, continuava atento às conversações em torno.
Alguns cavalheiros mantinham discreta permuta de pareceres.
– Reconheço que fali – dizia um deles em tom grave – e muito já expiei nas regiões inferiores, mas aguardo novos recursos da Providência.
– Faltou-lhe, porém, bastante orientação para o caminho? – perguntava um companheiro.
– Explico-me – esclareceu o primeiro –, faltou-me o amparo da esposa.
Enquanto a tive a meu lado, verificava-se profundo equilíbrio em minhas forças psíquicas.
A companhia dela, sem que eu pudesse explicar, compensava-me todo gasto de energia mediúnica.
Minha noção de balanço estava nas mãos de minha querida Adélia.
Esqueci-me, porém, de que o bom servo deve estar preparado para o serviço do Senhor, em qualquer circunstância.
Não aprendi a ciência da conformação e nem me resignei a percorrer sozinho as estradas humanas.
Quando me senti sem a dedicada companheira, arrebatada pela morte, amedrontei-me, por sentir-me em desequilíbrio e, erradamente, procurei substitui-la, e fui acidentado.
Extremamente ligada a entidades malfazejas, minha segunda mulher, com os seus desvarios, arrastou-me a perversões sexuais de que nunca me supusera capaz.
Voltei, insensivelmente, ao convívio de criaturas perversas e, tendo começado bem, acabei mal.
Meus desastres foram enormes;
Entretanto, embora reconheça minha deficiência, entendo, ainda hoje, que o triunfo, mesmo no futuro, ser-me-á muito difícil sem a companheira bem-amada.
Tornara-se a palestra sumamente interessante.
Desejava acompanhar-lhe o curso, mas Vicente chamou-me a atenção para outro assunto e era necessário acompanhá-lo.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 20 de Janeiro de 2020, 19:15
OS MENSAGEIROS
10 - A experiência de Joel

Afastando-nos para um canto do salão, acompanhei Vicente que se dirigiu a um velhote de fisionomia simpática.
— Então, meu caro Joel, como vai? — perguntou, atencioso.
O interpelado teve uma expressão melancólica e informou:
— Graças à Bondade Divina, sinto-me bastante melhorado.
Tenho ido diariamente as aplicações magnéticas dos Gabinetes de Socorro, no Auxílio, e estou mais forte.
— Cederam as vertigens? — indagou o companheiro, com interesse.
— Agora são mais espaçadas e, quando surgem, não me afligem o coração com tanta intensidade.
Nesse instante, Vicente descansou os olhos muito lúcidos nos meus, e disse, sorrindo:
— Joel também andou nos círculos carnais em tarefa mediúnica e pode contar experiência muito interessante.
O novo amigo, que me parecia um enfermo em princípios de convalescença, esboçou melancólico sorriso e falou:
— Fiz minha tentativa na Terra, mas fracassei.
A luta não era pequena e fui fraco demais.
— O que mais me impressionou no caso dele, porém — interpôs Vicente em tom fraterno — é a moléstia que o acompanha até aqui e persiste ainda agora.
Joel atravessou as regiões inferiores com dificuldades extremas, após demorar porém muito tempo, voltando ao Ministério do auxílio perseguido de alucinações estranhas, relativamente ao pretérito.
— Ao passado? — perguntei, surpreendido
— Sim — esclareceu humilde —, minha tarefa mediúnica exigia sensibilidade mais apurada e, quando me comprometi executar o serviço, fui ao Ministério do Esclarecimento onde me aplicaram tratamento especial que me aguçou as percepções.
Necessitava condições sutis para o desempenho dos futuros deveres.
Assistentes amigos desdobraram-se em obséquios, por me favorecerem e parti para a Terra com todos os requisitos indispensáveis ao êxito de minhas benevolências, porém...
— Mas por que — indaguei — perdeu as realizações?
Tão só em virtude da sensibilidade adquirida?
Joel sorriu e obtemperou:
— Não perdi pela sensibilidade, mas pelo seu mau uso.
— Que diz? — tornei, admirado.
— O meu amigo compreendeu sem dificuldades.
Imagine, com um cabedal dessa natureza, ao invés de auxiliar os outros, perdi-me a mim mesmo.
É que, segundo concluo agora, Deus concede a sensibilidade apurada como espécie de lente poderosa, que o proprietário deve usar para definir roteiros, fixar perigos e vantagens do caminho, localizar obstáculos comum ajudando ao próximo e a si mesmo.
Procedi, porém ao inverso.
Não utilizei a lente maravilhosa de um modo muito justo.
Deixei-me empolgar pela curiosidade doentia, apliquei-a tão somente para dilatar minhas sensações.
No quadro dos meus trabalhos mediúnicos, estava a recordação de existências pregressas como expressão indispensável ao serviço de esclarecimento coletivo e benefício aos semelhantes, que me fora concedido realizar, mas existe uma ciência de recordar, que não respeitei como devia interrompendo um instante a narrativa, aguçava-me o desejo de conhecer-lhe a experiência pessoal até ao fim.
Em seguida, continuou no mesmo diapasão.
— Ao primeiro chamado da esfera superior, acorri, apressado.
Sentia, intuitivamente, a vívida lembrança de minhas promessas em “Nosso Lar”.
Tinha o coração repleto de propósitos sagrados.
Trabalharia muito longe a vibração das verdades eternas.
Contudo, aos primeiros contatos com o serviço, a excitação química fez rodar o mecanismo de minhas recordações adormecidas, como o disco sob a agulha da vitrola, e lembrei toda a minha penúltima existência, quando envergara a batina, sob o nome de Monsenhor Alexandre Pizarro, nos últimos períodos da Inquisição Espanhola.
Foi, então, que abusei da lente sagrada a que me referi.
A volúpia das grandes sensações, que pode ser tão prejudicial como o uso do álcool que embriaga os sentidos, fez-me olvidar os deveres mais santos.
Bafejaram-me claridades espirituais de elevada expressão.
Desenvolveu-se-me a clarividência, mas não estava satisfeito senão por rever meus companheiros visíveis e invisíveis, no setor das velhas lutas religiosas.
Impunha a mim mesmo a obrigação de cada um deles no tempo, fazendo questão de as fichas biográficas, sem cuidar do verdadeiro aproveitamento no campo do trabalho construtivo.
A audição psíquica tornouse-me muito clara;
Entretanto, não queria ouvir os benfeitores espirituais sobre tarefas proveitosas e sim interpelá-los, ousadamente no capítulo da minha satisfação egoística.
Despendi um tempo enorme, dentro do qual fugia aos companheiros que me vinham pedir atividades a bem do próximo, engolfado em pesquisas referentes à Espanha do meu tempo.
Exigia notícias de bispos, de autoridades políticas da época, de padres amigos que haviam errado tanto quanto eu mesmo.
Não faltaram generosas advertências. Frequentemente, os colegas do nosso grupo espiritista chamavam-me a atenção para os problemas sérios de nossa casa.
Eram sofredores que nos batiam à porta, situações que reclamavam testemunho cristão.
Tínhamos um abrigo de órfãos em projeto, um ambulatório que começava a nascer e, sobre tudo, serviços semanais de instrução evangélica, nas noites de terças e sextas-feiras.
Mas, qual! eu não queria saber senão das minhas descobertas pessoais.
Esqueci que o Senhor me permitia aquelas reminiscências, não por satisfazer-me a vaidade, mas para que entendesse a extensão dos meus débitos para com os necessitados do mundo e me entregasse a obra de esclarecimento e conforto aos feridos da sorte.
Contrariamente a expectativa dos abnegados amigos que me auxiliaram na obtenção da oportunidade sublime, não me movi no concurso fraterno e desinteressei-me da doutrina consoladora, que hoje revive o Evangelho de Jesus entre os homens.
Somente procurei, a rigor, os que se encontravam afins comigo, desde o pretérito.
Nesse propósito, descobri, com evidentes sinais de identidade, personalidades outrora eminentes, em relação comigo.
Reconheci o senhor Higino de Salcedo, grande proprietário de terras, que me havia sido magnânimo protetor, perante as autoridades religiosas da Espanha, reencarnado como proletário inteligente e honesto, mas em grande experiência de sacrifício individual.
Revi o velho Gaspar de Lorenzo, figura solerte de inquisidor cruel, que me quisera muito bem, reencarnado como paralítico e cego de nascença.
E desse modo, meu amigo, passei a existência, de surpresa em surpresa, de sensação em sensação.
Eu, que renascera para edificar alguma coisa de útil, transpor a lembrança em viciação da personalidade, perdi a oportunidade bendita de redenção, e o estado de alucinação em que vivo.
Com o meu erro, a mente desequilibrada e as perturbações psíquicas constituem doloroso martírio.
Estou sendo submetido a tratamento magnético de longo tempo.
Nesse momento, porém, o interlocutor empalideceu de súbito.
Os olhos, desmesuradamente abertos, vagavam como se fixassem quadros impressionantes, muito longe da nossa perspectiva.
Depois cambaleou, mas Vicente o amparou de pronto, e, passando a destra na fronte, murmurava em voz firme:
— Joel! Joel!
Não se entregue às impressões do passado!
Volte ao Presente de Deus!...
Profundamente admirado notei que o convalescente regressava a expressão normal, esfregando os olhos.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 20 de Janeiro de 2020, 19:16
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XI – Belarmino, o Doutrinador

As lições eram eminentemente proveitosas.
Traziam-me novos conhecimentos e, sobretudo, com elas, admirava cada vez mais, a bondade de Deus, que nos permitia a todos a restauração do aprendizado para serviços do futuro.
Em muitos de nós havia zonas purgatórias de sombra e tormento íntimo.
Uns mais, outros menos.
Bastara, contudo, o reconhecimento de nossa pequenez, a compreensão do nosso imenso débito e ali estávamos, todo reunidos em “Nosso Lar”, reanimando energias desfalecidas e reconstituindo programas de trabalho.
Eu via em todos os companheiros presentes o reflorescimento da esperança.
Ninguém se sentia ao desamparo.
Observando que numerosos médiuns prosseguiam, em valiosa permuta de idéias, referentemente ao quadro de suas realizações, e ouvindo tantas observações sobre doutrinadores perguntei a Vicente, em tom discreto:
— Não seria possível, para minha edificação, consultar a experiência de algum doutrinador em trânsito por aqui?
Recolhendo notícias de tantos médiuns com enorme proveito, creio não deva perder esta oportunidade.
Vicente refletiu um minuto e respondeu:
— Procuremos Belarmino Ferreira.
É meu amigo há alguns meses.
Segui o companheiro, através de grupos diversos.
Belarmino lá estava a um canto, em palestra com um amigo.
Fisionomia grave, gestos lentos, deixava transparecer grande tristeza no olhar humilde.
Vicente apresentou-me, afetuoso, dando início à conversação edificante.
Após a troca de alguns conceitos, Belarmino falou, comovido:
— Com que, então, meu amigo deseja conhecer as amarguras de um doutrinador falido?
— Não digo isso — obtemperei a sorrir —, desejaria conhecer sua experiência, ganhar também de sua palavra educativa.
Ferreira esboçou sorriso forçado, que expressava todo o absinto que ainda lhe requeimava a alma, e falou:
— A missão do doutrinador é muitíssimo grave para qualquer homem.
Não é sem razão que se atribui a Nosso Senhor Jesus o título de Mestre.
Somente aqui, vim ponderar bastante esta profunda verdade.
Meditei muitíssimo, refleti intensamente e concluí que, para atingirmos uma ressurreição gloriosa, não há, por enquanto, outro caminho além daquele palmilhado pelo Doutrinador Divino.
É digna de menção a atitude dele, abstendo-se de qualquer escravização aos bens terrestres.
Não vemos passar o Senhor, em todo o Evangelho, se não fazendo o bem, ensinando o amor, acendendo a luz, disseminando a verdade.
Nunca pensou nisso?
Depois de longas meditações, cheguei ao conhecimento de que na vida humana, junto aos que administram e aos que obedecem, há os que ensinam.
Chego, pois, a pensar que nas esferas da Crosta há mordomos, cooperadores e servos.
Muito especialmente, os que ensinam devem ser dos últimos.
Entende o meu irmão?
Ah! sim, havia compreendido perfeitamente.
A conceituação de Belarmino era profunda, irrefutável.
Aliás, nunca ouvira tão belas apreciações, relativamente à missão educativa.
Após ligeiro intervalo, continuou sempre grave:
— Há de estranhar, certamente, tenha eu fracassado sabendo tanto.
Minha tragédia angustiosa, porém, é a de todos os que conhecem o bem, esquecendo-lhe a prática.
Calou-se de novo, pensou, pensou, e prosseguiu:
— Faz muitos anos, saí de “Nosso Lar” com tarefa de doutrinação no campo do Espiritismo evangélico.
Minhas promessas aqui, foram enormes.
Minha abnegada Elisa dispôs-se a acompanhar-me no serviço laborioso.
Ser- me-ia companheira desvelada, abençoada amiga de sempre.
Minha tarefa constaria de trabalho assíduo no Evangelho do Senhor, de modo a doutrinar primeiramente com o exemplo, e, em seguida com a palavra.
Duas colônias importantes que nos convizinham, enviaram muitos servos para a mediunidade e pediram ao nosso Governador cooperasse com a remessa de missionários competentes para o ensino e a orientação.
Não obstante meu passado culposo, candidatei-me ao serviço com endosso do Ministro Gedeão, que não vacilou em auxiliar-me.
Deveria desempenhar atividades concernentes meu resgate pessoal e atender à tarefa honrosa, veiculando luzes a irmãos nossos nos planos visível e invisível.
Impunha-se-me sobretudo, o dever de amparar as organizações mediúnicas, estimulando companheiros de luta, postos na Terra a serviço da ideia imortalista.
Entretanto meu amigo, não consegui escapar à rede envolvente das tentações.
Desde criança, meus pais socorreram-me com a fé e noções consoladoras e edificantes do Espiritismo cristão.
Circunstâncias várias, que me pareceram casuais, situaram-me o esforço na presidência de um grande grupo espiritista.
Os serviços eram promissores, as atividades nobres e construtivas, mas enchi-me de exigências, levado pelo excessivo apego à posição de comando do barco doutrinário.
Oito médiuns, extremamente dedicados ao esforço evangélico, ofereciam-me colaboração ativa;
Contudo, procurei colocar acima de tudo o preceito científico das provas insofismáveis.
Cerrei os olhos à lei do merecimento individual, olvidei os imperativos do esforço próprio e, envaidecido com os meus conhecimentos do assunto, comecei por atrair amigos de mentalidade inferior ao nosso círculo, tão somente em virtude da falsa posição que usufruíam na cultura filosófica e na pesquisa científica.
Insensivelmente, vicejaram-me na personalidade estranhos propósitos egoísticos.
Meus novos amigos queriam demonstrações de toda a sorte e, ansioso por colher colaboradores na esfera da autoridade científica, eu exigia dos pobres médiuns longas e porfiadas perquirições nos planos invisíveis.
O resultado era sempre negativo, porque cada homem receberá, agora e no futuro, de acordo com as próprias obras.
Isso me irritava.
Instalou-se a dúvida em meu coração, devagarzinho.
Perdi a serenidade doutro tempo.
Comecei a ver nos médiuns, que se retraíam aos meus caprichos, companheiros de má vontade e má fé.
Prosseguiam nossas reuniões, mas da dúvida passei à descrença destruidora.
Não estávamos num grupo de intercâmbio entre o visível e o invisível?
Não eram os médiuns simples aparelhos dos defuntos comunicantes?
Por que não viriam aqueles que pudessem atender aos nossos interesses materiais, imediatos? Não seria melhor estabelecer um processo mecânico e rápido para as comunicações?
Porque a negação do invisível aos meus propósitos de demonstrar positivamente o valor da nova doutrina?
Debalde, Elisa me chamava para a esfera religiosa e edificante, onde poderia aliviar o espírito atormentado.
O Evangelho, todavia, é livro divino e, enquanto permanecemos na cegueira da vaidade e da ignorância, não nos expõe seus tesouros sagrados.
Por isso mesmo, tachava-o de velharia.
E, de desastre a desastre, antes que me firmasse na tarefa de ensinar, os amigos brilhantes do campo de cogitações inferiores da Terra arrastavam-me ao negativismo completo.
Do nosso agrupamento então, onde poderia edificar construções eternas, transferi-me para o movimento, não da política que eleva, mas da politicalha inferior, que impede o progresso comum e estabelece a confusão nos encarnados.
Por isso estacionei muito tempo desviado dos meus objetivos fundamentais porque a escravidão ao dinheiro me transformou os sentimentos.
E assim foi, até que acabei meus dias com uma bela situação financeira no mundo e... um corpo crivado de enfermidades;
Um palácio confortável de pedra e um deserto no coração.
A revivescência da minha inferioridade antiga religou-me a companheiros menos dignos no plano dos encarnados e desencarnados, e o resto o meu amigo poderá avaliar:
Tormentos, remorsos, expiações...
Concluindo, asseverou:
— Mas, como não ser assim?
Como aprender sem a escola, sem retomar o bem e corrigir o mal?
— Sim, Belarmino — disse, abraçando-o —, você tem razão.
Tenho a certeza de que não vim tão só ao Centro de Mensageiros, mas também ao centro de grandes lições.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Janeiro de 2020, 10:45
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12 A palavra de Monteiro

– Os ensinamentos aqui são variados.
Fora o amigo de Belarmino quem tomara a palavra.
Mostrando agradável maneira de dizer, continuou:
– Há três anos sucessivos, venho diariamente ao Centro de Mensageiros e as lições são sempre novas.
Tenho a impressão de que as bênçãos do Espiritismo chegaram prematuramente ao caminho dos homens.
Se minha confiança no Pai fosse menos segura, admitiria essa conclusão.
Belarmino, que observava atento os gestos do amigo, interveio, explicando:
– O nosso Monteiro tem grande experiência do assunto.
– Sim – confirmou ele –, experiência não me falta.
Também andei às tontas nas semeaduras terrestres.
Como sabem, é muito difícil escapar à influência do meio, quando em luta na carne.
São tantas e tamanhas as exigências dos sentidos, em relação com o mundo externo, que não escapei, igualmente, a doloroso desastre.
– Mas, como?
– indaguei interessado em consolidar conhecimentos.
– É que a multiplicidade de fenômenos e as singularidades mediúnicas reservam surpresas de vulto a qualquer doutrinador que possua mais raciocínios na cabeça que sentimentos no coração.
Em todos os tempos, o vício intelectual pode desviar qualquer trabalhador mais entusiasta que sincero, e foi o que me aconteceu.
Depois de ligeira pausa, prosseguiu:
– “Não preciso esclarecer que também parti de “Nosso Lar”, noutro tempo, em missão de Entendimento Espiritual.
Não ia para estimular fenômenos, mas para colaborar na iluminação de companheiros encarnados e desencarnados.
O serviço era imenso.
Nosso amigo Ferreira pode dar testemunho, porquanto partimos quase juntos.
Recebi todo o auxílio para iniciar minha grande tarefa e intraduzível alegria me dominava o espírito no desdobramento dos primeiros serviços.
Minha mãe, que se convertera em minha devotada orientadora, não cabia em si de contente.
Enorme entusiasmo instalara-se-me no espírito.
“Sob meu controle direto estavam alguns médiuns de efeitos físicos, além de outros consagrados à psicografia e à incorporação;
E tamanho era o fascínio que o comércio com o invisível exercia sobre mim, que me distrai completamente quanto à essência moral da doutrina.
“Tínhamos quatro reuniões semanais, às quais comparecia com assiduidade absoluta.
Confesso que experimentava certa volúpia na doutrinação aos desencarnados de condição inferior.
Para todos eles, tinha longas exortações decoradas, na ponta da língua.
Aos sofredores, fazia ver que padeciam por culpa própria.
Aos embusteiros, recomendava, enfaticamente, a abstenção da mentira criminosa,
Os casos de obsessão mereciam-me ardor apaixonado.
Estimava enfrentar obsessores cruéis para reduzi-los a zero, no campo da argumentação pesada.
“Outra característica que me assinalava a ação firme era a dominação que pretendia exercer sobre alguns pobres sacerdotes católicos-romanos desencarnados, em situação de ignorância das verdades divinas.
Chegava ao cúmulo de estudar, pacientemente, longos trechos das Escrituras,
Não para meditá-los com o entendimento, mas por mastigá-los a meu bel-prazer,
Bolçando-os depois aos Espíritos perturbados, em plena sessão, com a ideia criminosa de falsa superioridade espiritual.
O apego às manifestações exteriores desorientou-me por completo.
Acendia luzes para os outros, preferindo, porém, os caminhos escuros e esquecendo a mim mesmo.
Somente aqui, de volta, pude verificar a extensão da minha cegueira.
“Por vezes, após longa doutrinação sobre a paciência, impondo pesadíssimas obrigações aos desencarnados, abria as janelas do grupo de nossas atividades doutrinárias para descompor as crianças que brincavam inocentemente na rua.
Concitava os perturbados invisíveis a conservarem serenidade para, daí a instantes, repreender senhoras humildes, presentes à reunião, quando não podiam conter o pranto de algum pequenino enfermo.
Isso, quanto a coisas mínimas, porque, no meu estabelecimento comercial, minhas atitudes eram inflexíveis.
Raro o mês que não mandasse promissórias a protesto público.
Lembro-me de alguns varejistas menos felizes, que me rogavam prazo, desculpas, proteção. Nada me demovia, porém.
Os advogados conheciam minhas deliberações implacáveis.
Passava os dias no escritório estudando a melhor maneira de perseguir os clientes em atraso, entre preocupações e observações nem sempre muito retas e, à noite, ia ensinar o amor aos semelhantes, a paciência e a doçura, exaltando o sofrimento e a luta como estradas benditas de preparação para Deus.
“Andava cego.
Não conseguia perceber que a existência terrestre, por si só, é uma sessão permanente.
Talhava o Espiritismo a meu modo.
Toda a proteção e garantia para mim, e valiosos conselhos ao próximo.
Ao demais disso, não conseguia retirar a mente dos espetáculos exteriores.
Fora das sessões práticas, minha atividade doutrinária consistia em vastíssimos comentários dos fenômenos observados, duelos palavrosos, narrações de acontecimentos insólitos, crítica rigorosa dos médiuns.”
Monteiro deteve-se um pouco, sorriu e continuou:
– “De desvio em desvio, a angina encontrou-me absolutamente distraído da realidade essencial.
Passei para cá, qual demente necessitado de hospício.
Tarde reconhecia que abusara das sublimes faculdades do verbo.
Como ensinar sem exemplo, dirigir sem amor?
Entidades perigosas e revoltadas aguardaram-me à saída do plano físico.
Sentia, porém, comigo, singular fenômeno.
Meu raciocínio pedia socorro divino, mas meu sentimento agarrava-se a objetivos inferiores.
Minha cabeça dirigia-se ao Céu, em súplica, mas o coração colava-se à Terra.
Nesse estado triste, vi-me rodeado de seres malévolos que me repetiam longas frases de nossas sessões.
Com atitude irônica, recomendavam-me serenidade, paciência e perdão às alheias faltas;
Perguntavam-me, igualmente, porque me não desgarrava do mundo, estando já desencarnado.
Vociferei, roguei, gritei, mas tive de suportar esse tormento por muito tempo.
“Quando os sentimentos de apego à esfera física se atenuaram, a comiseração de alguns bons amigos me trouxe até aqui.
E imagine o irmão que meu Espírito infeliz ainda estava revoltado.
Sentia-me descontente.
Não havia fomentado as sessões de intercâmbio entre os dois planos?
Não me consagrara ao esclarecimento dos desencarnados?
“Percebendo-me a irritação ridícula, amigos generosos submeteram-me a tratamento.
Não fiquei satisfeito.
Pedi à Ministra Veneranda uma audiência, visto ter sido ela a intercessora da minha oportunidade.
Queria explicações que pudessem atender ao meu capricho individual.
A Ministra é sempre muito ocupada, mas sempre atenciosa.
Não marcou a audiência, dada a insensatez da solicitação;
No entanto, por demasia de gentileza, visitou-me em ocasião que reservara a descanso.
Crivei-lhe os ouvidos de lamentações, chorei amargamente e, durante duas horas, ouviu-me a benfeitora por um prodígio de paciência evangélica.
Em silêncio expressivo, deixou que me cansasse na exposição longa e inútil.
“Quando me calei, à espera de palavras que alimentassem o monstro da minha incompreensão, Veneranda sorriu e respondeu:
- Monteiro, meu amigo, a causa da sua derrota não é complexa, nem difícil de explicar.
Entregou-se, você, excessivamente ao Espiritismo prático, junto dos homens, nossos irmãos, mas nunca se interessou pela verdadeira prática do Espiritismo junto de Jesus, nosso Mestre.”
Nesse instante, Monteiro fez longa pausa, pensou uns momentos e falou, comovido:
– Desde então, minha atitude mudou muitíssimo, entendeu?
Aturdido com a lição profunda, respondi, mastigando palavras, como quem pensa mais, para falar menos:
– Sim, sim, estou procurando compreender.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Janeiro de 2020, 10:45
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13 Ponderações de Vicente

Não estava farto de lições, mas, para o momento, havia aprendido bastante.
Impressionado com o que me fora dado observar, não insisti com Vicente para prolongar nossa demora no Centro de Mensageiros.
Deixando grandes grupos em conversação ativa, reconstituindo projetos e refazendo esperanças, segui o companheiro que me convidava a visitar os imensos jardins.
Roseirais enormes balsamizavam a atmosfera leve e límpida.
– Sinto-me fortemente impressionado – murmurei
–. Quem diria pudessem caber tantas responsabilidades a essas criaturas?
Não conheci pessoalmente nenhum médium ou doutrinador do Espiritismo, justificando agora minha surpresa.
Vicente sorriu e ponderou:
– Você, meu caro, procede das Câmaras de Retificação, onde os trabalhos são muito reservados e circunscritos.
Talvez sua impressão provenha dessa circunstância.
Verá, porém, com o tempo, que existem aqui locais de conversações dessa natureza, referentes a todas as oportunidades perdidas.
Já visitou alguma dependência do Ministério do Esclarecimento?
– Não.
– Localizam-se, ali, os enormes pavilhões das escolas maternais.
São milhares de irmãs que comentam, por lá, as desventuras da maternidade fracassada, buscando reconstituir energias e caminhos.
Ainda ali, temos os Centros de Preparação à Paternidade.
Grandes massas de irmãos examinam o quadro de tarefas perdidas e recordam, com lágrimas, o passado de indiferença ao dever.
Nesse mesmo Ministério, temos a Especialização Médica.
Nobres profissionais da Medicina, que perderam santas oportunidades de elevação, lá discutem seus problemas.
Nesse instante o interrompi, observando:
– Entretanto, somos médicos e não nos achamos lá.
– Sim – explicou Vicente, bondoso –, infelizmente para nós ambos, caímos em toda a linha.
Não só na qualidade de médicos, mas muito mais como homens, pois que, se disse a você o que sofri, ainda não contei o que fiz.
– É verdade – concordei, desapontado, recordando minha condição de suicida inconsciente. –
Ainda no Esclarecimento – prosseguiu o companheiro –, temos o Instituto de Administradores, onde os Espíritos cultos procuram restaurar as forças próprias e corrigir os erros cometidos na mordomia terrestre.
Nos Campos de Trabalho, do Ministério da Regeneração, existem milhares de trabalhadores que se renovam para a recapitulação das grandes tarefas da obediência.
– Somos numerosos – continuou, sorridente – os falidos nas missões terrestres e note-se que todos os que hajam chegado a zonas como “Nosso Lar” devem ser levados à conta dos extremamente felizes.
Temos aqui dois Ministérios Celestiais, como o da Elevação e o da União Divina, cuja influenciação santificante eleva o padrão dos nossos pensamentos sem que o percebamos de maneira direta.
O estágio aqui, André, representa uma bênção do Senhor e, por muito que trabalhássemos, nunca retribuiríamos a esta colônia na medida de nosso débito para com ela.
Nossa situação é a de abrigados em verdadeiro paraíso, pelo ensejo de serviço edificante que se nos oferece.
Quanto a outros companheiros nossos...
Fez longo hiato e continuou:
– Quanto a muitos, estão fazendo angustiosas estações de aprendizado nas regiões mais baixas.
São infelizes prisioneiros uns dos outros, pela cadeia de remorsos e malignas recordações.
No que concerne à Medicina, os colegas em bancarrota espiritual são inúmeros.
A saúde humana é patrimônio divino e o médico é sacerdote dela.
Os que recebem o titulo profissional, em nosso quadro de realizações, sem dele se utilizarem a bem dos semelhantes, pagam caro a indiferença.
Os que dele abusam são, por sua vez, situados no campo do crime.
Jesus não foi somente o Mestre, foi Médico também.
Deixou no mundo o padrão da cura para o Reino de Deus.
Ele proporcionava socorro ao corpo e ministrava fé à alma.
Nós, porém, meu caro André, em muitos casos terrestres, nem sempre aliviamos o corpo e quase sempre matamos a fé.
As palavras sensatas do amigo caiam-me n’alma como raios de luz.
Tudo era a verdade, simples e bela.
Ainda não pensara, de fato, em toda a grandeza do serviço divino de Jesus Médico.
Ele expulsara febres malignas, curara leprosos e cegos de nascença, levantara paralíticos, mas nunca ficava apenas nisto.
Reanimava os doentes, dava-lhes esperanças novas, convidava-os à compreensão da Vida Eterna.
Engolfara-me em pensamentos grandiosos, quando o companheiro voltou a falar:
– Tenho um amigo, nosso colega de profissão, que se encontra nas zonas inferiores, há alguns anos, atormentado por dois inimigos cruéis.
Acontece que ele muito faliu como homem e médico.
Era cirurgião exímio, mas, tão logo alcançou renome e respeito geral, impressionou-se com as aquisições monetárias e caiu desastradamente.
Nos dias de grandes negócios financeiros, deslocava a mente das obrigações veneráveis, colocando-a distante, na esfera dos banqueiros comuns.
Não fosse a proteção espiritual, essa atitude teria comprometido oportunidades vitais de muita gente.
A colaboração do pobre amigo tornara-se quase nula, e alguns desencarnados nas intervenções cirúrgicas que ele praticava, notando-lhe a irresponsabilidade, atribuíram-lhe a causa da morte física, quando não a esperavam, votando-lhe ódio terrível.
Amigos do operador prestaram esclarecimentos justos a muitos;
Entretanto, dois deles, mais ignorantes e maldosos, perseveraram na estranha atitude e o esperaram no limiar do sepulcro.
– Horrível! – exclamei.
Se ele, porém, não é culpado da desencarnação desses adversários gratuitos, como pode ser atormentado desse modo?
Explicou Vicente, em tom mais grave:
– Realmente, não tem a culpa da morte deles.
Nada fez para interromper-lhes a existência física.
Mas é responsável pela inimizade e incompreensão criadas na mente dessas pobres criaturas, porque, não estando seguro do seu dever, nem tranquilo com a consciência, o nosso amigo julga-se culpado, em razão das outras falhas a que se entregou imprevidentemente.
Todo erro traz fraqueza e, assim sendo, o nosso colega, por enquanto, não adquiriu forças para se desvencilhar dos algozes.
Perante a Justiça Divina, portanto, ele não resgata crimes inexistentes, mas repara certas faltas graves e aprende a conhecer-se a si mesmo, a entender as obrigações nobres e praticá-las, compreendendo, por fim, a felicidade dos que sabem ser úteis com segurança de fé em Deus e em si mesmos.
A noção do dever bem cumprido, André, ainda que todos os homens permaneçam contra nós, é uma luz firme para o dia e abençoado travesseiro para a noite.
O nosso colega, tendo abusado da profissão, entrou em dolorosa prova.
– Ah! sim – exclamei –, agora compreendo.
Onde exista uma falta, pode haver muitas perturbações;
Onde apagamos a luz, podemos cair em qualquer precipício.
– Justamente.
Calou-se o amigo, andando, muito tempo, ao meu lado, como se estivesse surpreendido, como eu, defrontando as avenidas de rosas.
Depois de longas meditações, convidou-me fraternalmente:
– Regressemos ao nosso núcleo.
Creio devamos ouvir Aniceto, ainda hoje, referentemente ao serviço comum.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 31 de Janeiro de 2020, 11:56
OS MENSAGEIROS
14 Preparativos

A noite,
Aniceto veio ver-nos, começando por dizer:
– Amanhã deveremos partir os três, a serviço nas esferas da Crosta.
Telésforo recomendou-me certas atividades de importância, mas posso atendê-las em particular, proporcionando a ambos uma estação semanal de experiência e serviço.
Fiquei radiante.
Muita vez regressara ao ninho doméstico, tornara à cidade em que desenvolvera a tarefa última e, todavia, não me detivera no exame das possibilidades extensas do concurso fraternal.
De quando em vez, era defrontado por situações difíceis, nas quais velhos conterrâneos encaravam problemas de vulto;
Entretanto, sentia-me incapaz de auxiliá-los, eficientemente, na solução desejável.
Faltava-me técnica espiritual para fazê-lo.
Não tinha bastante confiança em mim mesmo.
Deixando perceber que ouvira meus pensamentos profundos, Aniceto dirigiu-me a palavra de maneira especial, asseverando:
– Você, André, ainda não pôde auxiliar os amigos encarnados porque ainda não adquiriu a devida capacidade para ver.
É razoável.
Quando na carne, somos muitas vezes inclinados a verificar tão somente os efeitos, sem ponderar as origens.
No mendigo, vemos apenas a miséria;
No enfermo, somente a ruína física.
Faz-se indispensável identificar as causas.
Depois de meditar alguns momentos, prosseguiu:
– Procuraremos, contudo, remediar a situação.
Amanhã, pela madrugada, você e Vicente apareçam no Gabinete de Auxílio Magnético às Percepções, que fica junto ao Centro de Mensageiros.
Darei as providências para que vocês alcancem o necessário melhoramento da visão.
Peço-lhes, todavia, receberem semelhante auxílio em prece.
Roguem a Deus lhes permita a dilatação do poder visual.
Compenetrem-se da grandeza desse dom sublime.
E, sobretudo, enviem à Majestade Eterna um pensamento de consagração ao seu amor e aos seus serviços divinos.
Não desejo induzi-los a atitudes de fanatismo sem consciência.
Não podemos abusar da oração aqui, segundo antigas viciações do sentimento terrestre.
No círculo carnal, costumamos utilizá-la em obediência a delituosos caprichos, suplicando facilidades que surgiriam em detrimento de nossa própria iluminação.
Aqui, todavia, André, a oração é compromisso da criatura para com Deus, compromisso de testemunhos, esforço e dedicação aos superiores desígnios.
Toda prece, entre nós, deve significar, acima de tudo, fidelidade do coração.
Quem ora, em nossa condição espiritual, sintoniza a mente com as esferas mais altas e novas luzes lhe abrilhantam os caminhos.
Diante da nobre autoridade de Aniceto, não me atrevi a falar e cheguei mesmo a recear a externação de qualquer pensamento.
Deixou-nos o generoso instrutor com palavras carinhosas de amizade e incentivo.
Vicente e eu acalentávamos projetos magníficos.
Fiamos, pela primeira vez, cooperar a favor dos encarnados em geral.
Nosso repouso noturno foi brevíssimo.
Aguardávamos, ansiosamente, a alvorada, a fim de receber o auxílio magnético do Gabinete referido.
Poucas vezes orei com a emoção daquela hora.
Os esclarecidos técnicos da instituição colocaram-nos, primeiramente, em relação mental direta com eles e, em seguida, submeteram-nos a determinadas aplicações espirituais, que ainda não posso compreender em toda a extensão e transcendência.
Observei, contudo, que a colaboração magnética não nos retirava o sentido consciencial, e aproveitei a oportunidade para a oração sincera, que era mais um compromisso de trabalho que ato de súplica, propriamente considerado.
Decorrido certo tempo, fomos declarados em liberdade para sair, quando nos prouvesse.
A princípio, nada notei de extraordinário, embora sentisse, dentro do coração, nova coragem e alegria diferente.
Experimentava bom ânimo, até então desconhecido.
Meus sentidos da visão e da audição pareciam mais límpidos.
Aniceto, que se mostrava muito satisfeito, esperava-nos no Centro, marcando a partida para o meio-dia.
Ansioso, aguardei o instante aprazado.
Não nos ausentamos de “Nosso Lar” como os viajores terrestres, geralmente carregados de matalotagens e volumes diversos.
– Aqui – disse Aniceto jocosamente –, toda a nossa bagagem é a do coração.
Na Terra, malas, bolsas, embrulhos; mas, agora, devemos conduzir propósitos, energias, conhecimentos e, acima de tudo, disposição sincera de servir.
Alguns companheiros presentes riram-se com gosto.
Nesse instante, nosso orientador fez algumas recomendações.
Designou colegas para a chefia de turmas de aprendizado, estabeleceu programas de serviço e notificou que voltaria à colônia, diariamente, por algumas horas, deixando-nos, Vicente e eu, nos serviços da Crosta, em trabalhos e observações que deveriam prolongar-se por toda a semana.
Despedimo-nos dos camaradas de luta, repletos de esperança.
Era a nossa primeira excursão de aprendizado e cooperação aos semelhantes.
Quando nos puséramos a caminho, nosso Instrutor observou:
– Creio que a viagem para vocês será diferente.
Certo, estão habituados à passagem livre, mantida por ordem superior para as atividades normais de nossos trabalhos e trânsito dos irmãos esclarecidos, em vésperas de reencarnação.
– Como assim? – perguntou Vicente, admirado.
– Pois não sabia?
As regiões inferiores, entre “Nosso Lar” e os círculos da carne, são tão grandes que exigem uma estrada ampla e bem cuidada, requerendo também conservação, como as importantes rotas terrestres.
Por lá, obstáculos físicos;
Por cá, obstáculos espirituais.
As vias de comunicação normais destinam-se a intercâmbio indispensável.
Os que se encontram nas tarefas da nossa rotina sagrada precisam livre trânsito e os que se dirigem da esfera superior à reencarnação devem seguir com a harmonia possível, sem contacto direto com as expressões dos círculos mais baixos.
A absorção de elementos inferiores determinaria sérios desequilíbrios no renascimento deles.
Há que evitar semelhantes distúrbios.
Nós, porém, seguimos numa expedição de aprendizado e experiência.
Não devemos, por isso, preferir os caminhos mais fáceis.
Identificando-nos a perplexidade,
Aniceto concluiu:
– Imaginemos um rio de imensas proporções. separando duas regiões diferentes.
Existe o vau que oferece transporte rápido e há passagens diversas através de fundos precipícios.
Pela expressão do bondoso instrutor, concluí que ele poderia voltar à colônia quando quisesse, que não encontraria obstáculos de qualquer ordem, em parte alguma, em razão do poder espiritual de que se achava revestido, mas fazia-se peregrino, como nós, por devotamento à missão de ensinar.
Vicente e eu não dispúnhamos de expressão vibratória adequada aos grandes feitos.
Éramos vulgares, quanto o era a maioria dos habitantes da nossa cidade espiritual.
Possuíamos apenas alguns princípios de volitação;
Contudo, permanecíamos muito distantes do verdadeiro poder.
Nunca vira, pois, a energia e a humildade em tão belo consórcio.
Aniceto dirigia-nos, firmemente, como orientador de pulso, vigoroso e sábio, mas não vacilava em se fazer igual a nós, a fim de servir como devotado companheiro.
Meditando sobre a lição sublime, em pleno impulso volitante, contemplei as torres de “Nosso Lar”, que iam ficando a distância...

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 31 de Janeiro de 2020, 11:57
OS MENSAGEIROS
15 A viagem

Depois de empregarmos o processo de condução rápida, atravessando imensas distâncias, surgiu uma região menos bela.
O firmamento cobrira-se de nuvens espessas e alguma coisa que eu não podia compreender impedia-nos a volitação com facilidade.
Creio que o mesmo não acontecia ao nosso instrutor, mas Vicente e eu fazíamos enorme esforço para acompanhá-lo.
Aniceto percebeu, de pronto, nossos obstáculos e considerou:
– Será conveniente utilizarmos a locomoção.
A atmosfera começa a pesar muitíssimo e não devemos andar muito distante de Campo da Paz.
Não precisaremos ir até lá;
Todavia, descansaremos no Posto de Socorro.
Encontraremos, ali, os recursos indispensáveis.
– Mas, que é isto? – perguntei, admirado da profunda modificação ambiente.
– Estamos penetrando a esfera de vibrações mais fortes da mente humana.
Achamo-nos a grande distância da Crosta;
Entretanto, já podemos identificar, desde logo, a influenciação mental da Humanidade encarnada.
Grandes lutas desenrolam-se nestes planos e milhares de irmãos abnegados aqui se votam à missão de ensinar e consolar os que sofrem.
Em parte alguma escasseia o amparo divino.
Nesse instante, chegáramos ao cume de grande montanha, envolvida em sombra fumarenta.
No solo, desenhavam-se trilhas diversas, à maneira de labirintos bem formados.
Observando-nos a estranheza, Aniceto falou com otimismo:
– Sigamos!
Nesse momento, ó Deus de Bondade! alguma coisa imprevista me felicitava o coração.
Contrastando as sombras, raios de luz desprendiam-se intensamente de nossos corpos.
Extraordinária comoção apossou-se-me d'alma.
Vicente e eu ajoelhamo-nos a um só tempo, banhados em lágrimas, enviando ao Eterno os nossos profundos agradecimentos, em votos de júbilo fervoroso.
Estávamos embriagados de ventura.
Era a primeira vez que me vestia de luz, luz que se irradiava de todas as células do meu corpo espiritual.
Aniceto, que se mantinha de pé, a contemplar-nos com expressão de alegria, falou comovidamente:
– Muito bem, meus amigos!
Agradeçamos a Deus os dons de amor, sabedoria e misericórdia.
Saibamos manifestar ao Pai o nosso reconhecimento.
Quem não sabe agradecer, não sabe receber e, muito menos, pedir.
Durante muito tempo, Vicente e eu mantivemo-nos em prece repleta de alegrias e de lágrimas...
Em seguida, retomamos a marcha, como se estivéssemos vestidos em sublime luminosidade.
As surpresas, no entanto, sucediam-se ininterruptamente.
Aquelas vias de comunicação eram muito diversas das que conhecia até ali.
Mergulhávamos num clima estranho, onde predominavam o frio e a ausência de luz solar.
A topografia era um conjunto de paisagens misteriosas, lembrando filmes fantásticos da cinematografia terrestre.
Picos altíssimos semelhavam vigorosas agulhas de treva, desafiando a vastidão.
Descíamos sempre, como viajores ladeando escuros precipícios, em país de exotismo ameaçador.
Esquisita vegetação subia do solo, de espaço a espaço, entre os grandes abismos.
Aves de horripilante aspecto surgiam, medrosas, de quando em quando, enchendo o silêncio de pios angustiados.
Rija ventania soprava em todas as direções.
Fundamente assombrado, cobrei ânimo e perguntei ao nosso instrutor:
– Que dizeis de tudo isto?
Ignorava que houvesse tais regiões entre a Crosta e nossa cidade espiritual.
À nossa frente, sinto um mundo novo, que me é totalmente desconhecido...
Por quem sois, nobre Aniceto, nada vos pergunto por ociosidade, mas estas terras me surpreendem profundamente.
Aniceto, sempre amável, sorriu docemente e respondeu:
– Todo este mundo que vemos é continuação de nossa Terra.
Os olhos humanos vêem apenas algumas expressões do vale em que se exercitam para a verdadeira visão espiritual, como nós outros que, observando agora alguma coisa, não estamos igualmente vendo tudo.
Este, André, é um domínio diferente.
A percepção humana não consegue apreender senão determinado número de vibrações. Comparando as restritas possibilidades humanas com as grandezas do Universo Infinito, os sentidos físicos são muitíssimo limitados.
O homem recebe reduzido noticiário do mundo que lhe é moradia.
É verdade que tem devassado com a sua ciência problemas profundos.
A astronomia terrena conhece que o Sol, por medidas aproximadas, é 1.300.000 vezes maior que a Terra e que a estrela Capela é 5.800 vezes maior que o nosso Sol;
Sabe que Arcturo equivale a milhares de sóis, iguais ao que nos ilumina;
Está informada de que Canópus corresponde a 8.760 sóis idênticos ao nosso, reunidos;
Mediu as distâncias entre o nosso planeta e a Lua;
Acompanha certos fenômenos em Marte, Saturno, Vênus e Júpiter;
Sonda os milhões de sóis aglomerados na Via-Láctea;
Conhece as estrelas variáveis, as nebulosas espirais e difusas.
E não param as observações humanas na grandeza ilimitada do Macrocosmo.
A Ciência vai, igualmente, aos círculos atômicos analisa a materialização da energia, o movimento dos elétrons, estuda o bombardeio de átomos e esquadrinha corpúsculos diversos.
Mas todo esse trabalho, com a colaboração das lunetas de alta potência e dos geradores de milhões de volts, ainda é serviço que apenas identifica os aspectos exteriores da vida.
Há, porém, André, outros mundos sutis, dentro dos mundos grosseiros, maravilhosas esferas que se interpenetram.
O olho humano sofre variadas limitações e todas as lentes físicas reunidas não conseguiriam surpreender o campo da alma, que exige o desenvolvimento das faculdades espirituais para tornar-se perceptível.
A eletricidade e o magnetismo são duas correntes poderosas que começam a descortinar aos nossos irmãos encarnados alguma coisa dos infinitos potenciais do invisível, mas ainda é cedo para cogitarmos de êxito completo.
Somente ao homem de sentidos espirituais desenvolvidos é possível revelar alguns pormenores das paisagens sob nossos olhos.
A maioria das criaturas ligadas à Crosta não entende estas verdades, senão após perderem os laços físicos mais grosseiros.
É da lei, que não devemos ver senão o que possamos observar com proveito.
Nessa altura, Aniceto calou-se.
Comovido com as instruções, guardei religioso silêncio.
Agora, em meio das sombras, divisava alguns vultos negros, que pareciam fugir apressados, confundindo-se na treva das furnas próximas.
Nosso orientador avisou, cauteloso:
– Procuremos interromper os efeitos luminosos do nosso corpo espiritual.
Bastará que pensem com vigor na necessidade dessa providência.
Estamos atravessando extensa zona, a que se acolhem muitos desventurados, e não é justo humilhar os que sofrem com a exibição de nossos bens.
Obedecendo ao conselho, verifiquei o efeito imediato.
Os fios de luz que me irradiavam do corpo apagaram-se como por encanto.
A excursão tornou-se menos agradável.
Descíamos, milagrosamente, através dos despenhadeiros de longa extensão.
A sombra fizera-se mais densa, a ventania mais lamentosa e impressionante.
Após algum tempo de marcha em silêncio, divisamos ao longe um grande castelo iluminado.
Aniceto fez um gesto significativo com o indicador e explicou:
– É um dos Postos de Socorro de Campo da Paz.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Fevereiro de 2020, 11:07
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16 No Posto de Socorro

Deslumbrava-me a visão do castelo soberbo!
Incapaz de exprimir a admiração que me dominava, acompanhei Aniceto em silêncio.
Com grande surpresa, entretanto, verifiquei que a construção magnífica não se mantinha sem defesa.
Cercavam-na pesados muros numa extensão que meus olhos não conseguiam abranger.
Quem imaginasse uma tal instituição, localizada nas zonas invisíveis, dificilmente conceberia contrafortes daquela natureza.
A noção de céu e inferno, fundamente arraigada na mente popular, não deixa perceber que os homens, de modo geral, não se modificam com a morte física, como a troca de residência não significa mudança de personalidade para a criatura comum.
Espantado, notei que o nosso orientador fazia mover quase imperceptível campainha, disfarçada na muralha.
Creio que, se Aniceto estivesse só, não precisaria desse expediente, dado o seu poder espiritual acima de todas as resistências grosseiras;
No entanto, estávamos em sua companhia e, mais uma vez, quis igualar-se a nós, por fidalguia de tratamento.
Ocultar a própria glória é do código do bom-tom nas sociedades espirituais nobres e santas.
Atendendo-nos, dois servidores abriram a porta extremamente pesada, que rodou nos gonzos, como se daria em qualquer edificação mais antiga do plano terrestre.
– Salve! mensageiros do bem! – disseram ambos ao mesmo tempo, fixando Aniceto, em atitude reverente.
Aniceto levantou a mão, que se fez luminosa nesse instante, e balbuciou algumas palavras de amor, retribuindo a saudação respeitosa.
Entramos.
Fiquei admirado!
Pomares e jardins maravilhosos perdiam-se de vista.
A sombra, aí, não era tão intensa.
Sentíamo-nos banhados em suavidade crepuscular, graças aos grandes focos de luz radiante.
O interior apresentava aspectos inesperados.
Somente agora eu compreendia que a muralha ocultava a maioria das construções.
Pavilhões de vulto alinhavam-se como se estivéssemos diante de prodigioso educandário.
Turmas variadas de homens e mulheres dedicavam-se a serviços múltiplos.
Ninguém parecia dar conta de nossa presença, tal o interesse que o trabalho despertava em cada um.
Acompanhávamos Aniceto através de numerosas fileiras de árvores senhoris, que se assemelhavam a carvalhos antiquíssimos.
Observava, todavia, que nesse abençoado Posto de Socorro a Natureza se fizera maternal.
Havia, agora, mais luz no céu e o vento era mais fagueiro, sussurrando brandamente no arvoredo farto.
O bondoso instrutor, notando a nossa admiração, esclareceu:
– Esta paz reflete o estado mental dos que vivem neste pouso de assistência fraterna.
Acabamos de atravessar uma zona de grandes conflitos espirituais, que vocês ainda não podem perceber.
A Natureza é mãe amorosa em toda a parte, mas, cada lugar mostra a influenciação dos filhos de Deus que o habitam.
A explicação não poderia ser mais clara.
Atingindo o edifício central, construído à maneira de formoso castelo europeu dos tempos feudais, fomos defrontados por um casal extremamente simpático.
– Meu caro Aniceto! – falou o cavalheiro, abraçando o nosso orientador.
– Meu caro Alfredo! minha nobre Ismália! – respondeu Aniceto, sorridente.
Após as saudações afetuosas, apresentou-nos, lisonjeiro.
O casal abraçou-nos, evidenciando cordialidade e atenção amiga.
– Nosso prezado Alfredo – continuou Aniceto, elucidando – é o dedicado Administrador deste Posto de Socorro.
Há muito tempo consagrou-se ao serviço de nossos irmãos ignorantes e desviados.
– Oh! Oh! não prossiga – revidou o apresentado, como a fugir às referências elogiosas –, consagrei-me simplesmente ao dever.
E, como se quisesse modificar a conversação, prosseguiu, atencioso:
– Mas, que surpresa agradável!
Há muitos dias não temos visitas de “Nosso Lar”!
Ainda bem que vieram hoje, quando Ismália veio igualmente ter comigo!...
Pois quê? – considerei intimamente.
Não seria aquela senhora, de lindo semblante, a esposa dele?
Não viveriam ali juntos, como na Terra?
Antes, porém, que pudesse chegar a qualquer conclusão, Alfredo conduzia-nos ao interior doméstico.
As escadas de substância idêntica ao mármore, impressionavam-me pela transparente beleza.
De varanda extensa e nobre, onde as colunatas se enfeitavam de hera florida, muito diferente, porém, da que conhecemos na Terra, penetramos em vasto salão mobiliado ao gosto mais antigo.
Os móveis delicadamente esculturados formavam conjunto encantador.
Admirado, fixei as paredes, de onde pendiam quadros maravilhosos.
Um deles, contudo, impunha-me especial atenção.
Era uma tela enorme, representando o martírio de São Dinis, o Apóstolo das Gálias rudemente supliciado nos primeiros tempos do Cristianismo, segundo meus humildes conhecimentos de História.
Intrigado, recordei que vira, na Terra, um quadro absolutamente igual àquele.
Não se tratava de um famoso trabalho de Bonnat, célebre pintor francês dos últimos tempos?
A cópia do Posto de Socorro, todavia, era muito mais bela.
A lenda popular estava lindamente expressa nos mínimos detalhes.
O glorioso Apóstolo, seminu, com a cabeça decepada, tronco aureolado de intensa luz, fazia um esforço supremo por levantar o próprio crânio que lhe rolara aos pés, enquanto os assassinos o contemplavam, tomados de intenso horror;
Do alto, via-se descer um emissário divino, trazendo ao Servo do Senhor a coroa e a palma da vitória.
Havia, porém, naquela cópia, profunda luminosidade, como se cada pincelada contivesse movimento e vida.
Observando-me a admiração, Alfredo falou, sorrindo:
– Quantos nos visitam, pela primeira vez, estimam a contemplação desta cópia soberba.
– Ah! sim – retruquei –, o original, segundo estou informado, pode ser visto no Panteão de Paris.
– Engana-se – elucidou o meu gentil interlocutor –, nem todos os quadros, como nem todas as grandes composições artísticas, são originariamente da Terra.
É certo que devemos muitas criações sublimes à cerebração humana;
Mas, neste caso, o assunto é mais transcendente.
Temos aqui a história real dessa tela magnífica.
Foi idealizada e executada por nobre artista cristão, numa cidade espiritual muito ligada à França.
Em fins do século passado, embora estivesse retido no círculo carnal, o grande pintor de Bayonne visitou essa colônia em noite de excelsa inspiração, que ele, humanamente, poderia classificar de maravilhoso sonho.
Desde o minuto em que viu a tela, Florentino Bonnat não descansou enquanto não a reproduziu, palidamente, em desenho que ficou célebre no mundo inteiro.
As cópias terrestres, todavia, não têm essa pureza de linhas e luzes, e nem mesmo a reprodução sob nossos olhos tem a beleza imponente do original, que já tive a felicidade de contemplar de perto, quando organizávamos, aqui no Posto, homenagens singelas para a honrosa visita que nos fez o grande servo do Cristo.
Para movimentar as providências necessárias, visitei pessoalmente a cidade espiritual a que me referi.
Grande espanto apossara-se-me do coração.
Via, agora, explicada a tortura santa dos grandes artistas, divinamente inspirados na criação de obras imortais;
Agora, reconhecia que toda arte elevada é sublime na Terra, porque traduz visões gloriosas do homem na luz dos planos superiores.
Parecendo interessado em completar meus pensamentos, Alfredo considerou:
– O gênio construtivo expressa superioridade espiritual com livre trânsito entre as fontes sublimes da vida.
Ninguém cria sem ver, ouvir ou sentir, e os artistas de superior mentalidade costumam ver, ouvir e sentir as realizações mais altas do caminho para Deus.
Mas, voltando-se, afável, para Aniceto, exclamou:
– No entanto, o momento não comporta divagações.
Sentemo-nos. Devem estar cansados da peregrinação difícil.
Necessitam refazer energias e repousar algum tanto.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 18 de Fevereiro de 2020, 11:08
OS MENSAGEIROS
17 O romance de Alfredo

Depois de alguns minutos, utilizados por nós no serviço da higiene reconfortadora,
Alfredo convidou-nos à mesa, onde Ismália, com extrema fidalguia, mandou servir frutos diversos.
Os senhores do castelo não podiam ser mais gentis.
Servidores iam e vinham, com grande júbilo a lhes transparecer do rosto.
A palestra de Alfredo e as observações de Ismália estavam cheias de notas interessantes e educativas.
– E qual a sua impressão dos serviços em geral? –
Perguntou Aniceto, atencioso, dirigindo-se ao dono da casa.
– Excelente, quanto às oportunidades de realização que nos oferecem –
Respondeu Alfredo em tom significativo
–; Entretanto, não tenho o mesmo parecer quanto à situação em curso.
As zonas a que servimos estão repletas de novidades dolorosas.
O presente período humano é de conflitos devastadores e as vibrações contraditórias que nos atingem são de molde a enfraquecer qualquer ânimo menos decidido.
Desencarnados e encarnados empenham-se em batalhas destruidoras.
É uma lástima.
– Multiplica-se o número de necessitados que recorrem ao Posto? –
Continuou indagando nosso orientador.
– Enormemente.
Nossa produção de alimentos e remédios tem sido integralmente absorvida pelos famintos e doentes.
Tenho quinhentos cooperadores, mas nos sentimos presentemente incapazes de atender a todas as obrigações.
As massas de sofredores são incontáveis.
Noutro tempo, nossa paisagem se mantinha sem sombras, durante muitas semanas, mas... Nesse instante, Ismália pediu licença para dirigir-se ao interior.
E como Alfredo fixasse os olhos nos meus, aventurei-me a considerar:
– Ainda bem que tendes uma abnegada companheira ao vosso lado.
Ele e Aniceto sorriram, quase a um só tempo, falando-nos o administrador:
– Ah! meus amigos, por enquanto, não tenho essa felicidade em caráter definitivo.
Minha esposa e eu temos o divino compromisso da união eterna, mas ainda não lhe mereço a presença contínua.
Ela é a bondade celeste, e eu, a realidade humana.
Depois de pequena pausa, prosseguiu com gentileza:
– “Aniceto conhece-nos a história.
Vocês, porém, a ignoram.
Sentir-me-ei, portanto, contente, em relatar algumas lembranças, com benefício duplo.
Aliviarei o coração, uma vez mais, contando minhas faltas,
E vocês dois, que talvez tenham em breve novos serviços na Terra, aproveitarão, por certo, alguma coisa das minhas experiências.
“Ismália e eu guardávamos um escrínio de felicidade no mundo;
No entanto, os salteadores perversos espreitavam-nos a ventura.
Minha responsabilidade era enorme no campo dos negócios materiais e, longe de compreender as obrigações sublimes de esposo e pai,
Não procurava atender aos deveres justos para com o lar e os dois filhinhos que Deus me enviara ao círculo doméstico.
Ismália, porém, era a providência de nossa casa.
Esqueci-me, contudo, de que a virtude, a qualquer tempo, será atormentada pelo vício
E minha nobre companheira foi vítima da maldade de um amigo desleal, com quem tinha eu inúmeros interesses em comum, no campo monetário.
Minha esposa sofreu, em silêncio, a perseguição dele por alguns anos consecutivos.
E quando meu desventurado sócio verificou a inutilidade da atitude criminosa,
Em franco desespero buscou envenenar-me o espírito desprevenido.
Começou por advertir-me, quanto ao procedimento dela.
Atordoou-me, envolvendo-a em acusações descabidas.
Subornou criados domésticos e colocou espiões que seguissem minha querida Ismália, nas tarefas de esposa e mãe.
“Esse homem exercia profunda influência sobre mim e, atendendo aos laços que nos uniam, minha companheira jamais se sentiu com bastante coragem para denunciá-lo.
Enquanto dava ouvidos à calúnia, fora de meu círculo doméstico, tornara-me intolerável dentro dele.
Não sabia contemplar minha esposa com a despreocupação e a confiança absoluta de outra época.
Via o mal nos seus mínimos gestos e queria descobrir segundas intenções nas suas frases mais inocentes.
Cheguei a acusá-la, veladamente.
Ismália chorou e calou-se.
Por fim, nosso infeliz perseguidor subornou um homem de baixa condição que permaneceu, certa noite, ao lado de nossos aposentos particulares como vulgar ladrão, às ocultas, sendo eu convocado à prova máxima.
Penetrei no quarto em extremo desespero e acusei em voz alta ao ver a companheira profundamente tranquila.
Ismália levantou-se, receosa da minha saúde mental,
Mas não lhe atendi os rogos, procurando, como louco, o conspurcador da minha honra...
Abri violentamente grande armário antigo, vasculhando o quarto.
Nesse instante, o vulto de um homem esgueirou-se na sombra, do aposento próximo,
E, antes que eu pudesse agarrá-lo no meu ódio infrene, saltou a janela, alcançando o pomar de nossa casa.
Corri, desesperado, detonando balas a esmo, mas, nada consegui.
Regressei ao quarto e, para cúmulo da calúnia odiosa, o desconhecido deixara, atrás de si, um chapéu novo, rigorosamente moderno, para que se acentuassem meus sentimentos terríveis.
Olhos congestos, vomitando insultos, quis eliminar Ismália, banhada em lágrimas a meus pés;
No entanto, alguma coisa, que nunca pude compreender na Terra, paralisou-me o braço quase homicida.
Vociferando blasfêmias, surdo aos rogos dela, afastei-me do lar, tomado de horror.
“No dia imediato, fiz valer meu direito exclusivo sobre os filhos e providenciei para que Ismália, convertida em estátua de dor, fosse restituída à fazenda paterna.
Contratei uma governanta para os meninos e, logo após, tomei um paquete para a Europa, onde me demorei mais de três anos.
Nunca me propus a verificações sérias e, embora tivesse o espírito incessantemente atormentado, humilhei os sentimentos mais íntimos, jamais procurando notícias da companheira caluniada.
“Certo dia, recebi uma carta lacônica na costa francesa.
Um parente dava-me informações da esposa.
Após dois anos angustiosos, entre a saudade e o abandono, Ismália fora colhida pela tuberculose, falecendo em terrível martirológio moral.
Deliberei, então, a volta.
Fixei-me novamente no Rio, eduquei os filhinhos e conservei a dolorosa viuvez no desencanto do coração.
“Os anos rolaram uns sobre os outros, quando fui chamado à cabeceira do ex-sócio agonizante.
O infeliz, em face da morte, confessou o crime odioso, pedindo um perdão que, infelizmente, não pude conceder.
Transformei-me, desde então, num louco irremediável.
Cansado, envelhecido, procurei a propriedade rural dos sogros, tentando reparar, de alguma sorte, a injustiça, mas a morte não me deu ensejo e voltei para a esfera dos desencarnados, em tristes condições espirituais.”
Nesse instante, fez uma pausa, para continuar comovido:
– Não preciso dizer que recebi de Ismália todo o amparo de que necessitava.
Todavia, infelizmente para mim, estávamos separados.
Não mereci a bênção da união sublime.
Ismália segue-me de perto, mas tem residência num plano superior, que devo esforçar-me por alcançar.
Desde muito, dediquei-me aos serviços do nosso Posto de Socorro, consagrei-me aos ignorantes e sofredores,
E minha santa Ismália vem até aqui, mensalmente, incentivar-me o bom ânimo e amparar-me nas lutas.
– Mas não poderia ela transferir-se definitivamente para aqui?
– indagou Vicente, tão impressionado quanto eu, com o romance comovedor.
Alfredo sorriu e falou:
– Sei que Ismália tem trabalhado para isso, que seu ideal de união eterna é idêntico ao meu, atendendo à circunstância de estar o superior sempre em posição de dar ao inferior;
Mas não ignoro que foi advertida por nossos maiores, sobre as minhas atuais necessidades de esforço e solidão.
Preciso conhecer o preço da felicidade, para não menosprezar, de novo, as bênçãos de Deus.
Minha esposa deseja descer para encontrar-se definitivamente comigo;
Entretanto, é necessário que eu aprenda a subir e, por este motivo, ainda não recebemos a devida permissão para o definitivo consórcio espiritual.
Observando-nos a emoção, concluiu:
– Estou resgatando crimes de precipitação.
Pela impulsividade delituosa, perdi minha paz, meu lar e minha devotada companheira.
Conforme ouviram, não matei nem roubei a ninguém, mas envenenei-me a mim próprio.
A calúnia é um monstro invisível, que ataca o homem através dos ouvidos invigilantes e dos olhos desprevenidos.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 28 de Fevereiro de 2020, 11:05
OS MENSAGEIROS
19 O sopro

Depois de interessantes considerações relativamente à situação dos círculos carnais,
Aniceto voltou a examinar nossas necessidades de serviço.
Muito amável, Alfredo ponderou: –
Em virtude da tormenta iminente, poderiam demorar conosco algumas horas, seguindo amanhã, ao alvorecer.
E, com profunda surpresa, ouvi-o afirmar:
– Poderão utilizar meu carro, até à zona em que se torne possível.
Fornecerei condutor adestrado e ganharão muito tempo com a medida.
Não podia caber em meu espanto.
Embora conhecendo as operações dos Samaritanos em “Nosso Lar”, que empregavam grandes veículos de tração animal, em trabalhos de salvamento nas regiões inferiores
E considerando as dificuldades de vulto que defrontáramos na caminhada longa, rumo ao Posto de Socorro,
Não supunha possível semelhante condução naquele instituto de auxilio.
Soube, mais tarde, que os sistemas de transporte, nas zonas mais próximas da Crosta, são muito mais numerosos do que se poderia imaginar,
Em bases transcendentes do eletromagnetismo.
Nosso orientador, que parecia meditar gravemente a situação, observou preocupado:
– Entretanto, temos serviços urgentes nos círculos carnais.
Vicente e André precisam iniciar aprendizado ativo.
Alfredo sorriu, bondoso, asseverando:
– Quanto a isso, não necessitaremos de maiores cuidados.
Há sempre que fazeres em toda a parte.
Onde houver espírito de cooperação da criatura, existe igualmente o serviço de Deus.
Nossos amigos poderiam colaborar conosco, ainda hoje, nas atividades de assistência.
Acompanhar-nos-iam, por exemplo, nos trabalhos da prece, nos quais há sempre muita coisa a fazer e muita lição a aprender.
– Excelente sugestão! – exclamou nosso instrutor.
– A oração individual, ou coletiva, é sempre vasto reservatório de ensinos edificantes.
– Aliás – falou Ismália, afetuosa –, não devemos demorar.
Estamos quase na hora.
Nesse momento, como se fora chamado, de súbito, à lembrança de grave compromisso de trabalho, falou o administrador, dirigindo-se à companheira:
– É preciso prevenir Olívia e Madalena das providências que se fazem imperiosas para a noite.
Necessitaremos a colaboração de mais alguns técnicos do sopro.
Temos alguns irmãos em estado grave, tomados de impressões físicas mais fortes.
– Técnicos do sopro? – indaguei, assombrado, antes que Ismália pudesse fazer qualquer observação referente aos serviços.
– Sim, meu amigo – respondeu Alfredo, atenciosamente –, o sopro curador, mesmo na Terra, é sublime privilégio do homem.
No entanto, quando encarnados, demoramo-nos muitíssimo a tomar posse dos grandes tesouros que nos pertencem.
Comumente, vivemos por lá, perdendo tempo com a fantasia, acreditando em futilidades ou alimentando desconfianças.
Quem pudesse compreender, entre as formas terrestres, toda a extensão deste assunto, poderia criar no mundo os mais eficientes processos soproterápicos.
– Mas, semelhante patrimônio está à disposição de qualquer Espírito encarnado?
– perguntou Vicente, compartilhando minha surpresa.
Nosso interlocutor pensou alguns instantes e respondeu, atencioso:
– Como o passe, que pode ser movimentado pelo maior número de pessoas, com benefícios apreciáveis, também o sopro curativo poderia ser utilizado pela maioria das criaturas, com vantagens prodigiosas.
Entretanto, precisamos acrescentar que, em qualquer tempo e situação, o esforço individual é imprescindível.
Toda realização nobre requer apoio sério.
O bem divino, para manifestar-se em ação, exige a boa vontade humana.
Nossos técnicos do assunto não se formaram de pronto.
Exercitaram-se longamente, adquiriram experiências a preço alto.
Em tudo há uma ciência de começar.
São servidores respeitáveis pelas realizações que atingiram, ganham remunerações de vulto e gozam enorme acatamento,
Mas, para isso, precisam conservar a pureza da boca e a santidade das intenções. Compreendendo o interesse que suas palavras despertavam, continuou o administrador, depois de pequena pausa:
– Nos círculos carnais, para que o sopro se afirme suficientemente,
É imprescindível que o homem tenha o estômago sadio, a boca habituada a falar o bem, com abstenção do mal, e a mente reta, interessada em auxiliar.
Obedecendo a esses requisitos, teremos o sopro calmante e revigorador, estimulante e curativo.
Através dele, poder-se-á transmitir, também na Crosta, a saúde, o conforto e a vida.
E, como Vicente e eu não pudéssemos ocultar a perplexidade, Alfredo considerou:
– Isto não é novo.
Jesus, além de tocar naqueles a quem curava, concedia-lhes, por vezes, o sopro divino.
O sopro da vida percorre a Criação inteira.
Toda página sagrada, comentando o principio da existência, refere-se a isso.
Nunca pensaram no vento, como sopro criador da Natureza?
Quanto a mim, desde o ingresso em Campo da Paz, quando fui ali recolhido em péssimas condições espirituais, tenho aprendido maravilhosas lições nesse particular.
Tanto assim que, chefiando este Posto, tenho incentivado, com as possibilidades ao meu alcance, a formação de novos cooperadores nesse sentido,
Oferecendo compensações aos que se decidam iniciar a tarefa de especialização, nem sempre fácil para todos.
A esse tempo, Ismália recebia algumas colaboradoras de importância, que se preparavam para a tarefa.
Impressionado com o que ouvira, acompanhei de perto as providências que se organizavam.
Encontrando-me, porém, mais a sós com Aniceto, transmiti-lhe minha enorme surpresa, respondendo-me ele em tom confidencial:
– Esquecem-se vocês de que a própria Bíblia, aludindo aos primórdios do homem, narra que o Criador assoprou na forma criada, comunicando-lhe o fôlego da vida.
Referindo-nos aos nossos irmãos encarnados, faz-se preciso reconhecer, André, que, mesmo partindo de homens imperfeitos,
Mas de boa vontade, todo sopro com intenção de aliviar ou curar tem relevante significação entre as criaturas,
Porque todos nós somos herdeiros diretos do Divino Poder.
Aliás, é necessário observar também que não estamos diante de uma exclusividade.
Você, por certo, passou muito ligeiramente pelo nosso Ministério do Auxílio.
Temos, ali, grande instituto especializado nesse sentido, onde nobres colegas se votam a essa modalidade de cooperação.
No plano carnal, toda boca, santamente intencionada, pode prestar apreciáveis auxílios,
Notando-se, porém, que as bocas generosas e puras poderão distribuir auxílios divinos, transmitindo fluidos vitais de saúde e reconforto.
Esperava que Aniceto prosseguisse, mostrando-me as qualidades magnéticas do sopro,
Mas Alfredo acercara-se de nós, operoso e solícito, exclamando:
– Estamos no momento destinado aos trabalhos de assistência e oração.
– Segui-lo-emos com prazer – respondeu nosso instrutor, sorrindo.
Era necessário interromper a lição, atendendo a deveres diferentes.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Março de 2020, 12:17
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20 Defesas contra o mal

Descemos as escadarias e, em frente dos muros altos, pude observar a extensão das defesas do soberbo edifício.
Aquela construção grandiosa era muito mais importante que a de qualquer castelo antigo, transformado em fortaleza.
Novamente no exterior, podia detalhar a visão panorâmica com mais exatidão.
Reconhecia, agora, que entráramos por um baluarte avançado, identificando a imponência da construção majestosa.
Apresentavam-se-me as linhas gerais com nitidez.
Impressionavam-me, sobretudo, as fortificações.
Via a torre de mensagem, consagrada, por certo, ao serviço de resistência; o baluarte agudo, elevando-se acima dos fossos que deixavam transbordar a água corrente; a torre de vigia, esbelta e alterosa.
Observei o caminho da ronda, a cisterna, as seteiras e, em seguida, as paliçadas e barbacãs, refletindo na complexidade de todo aquele aparelhamento defensivo.
E as armas?
Identificava-lhes a presença na maquinaria instalada ao longo dos muros, copiando os pequenos canhões conhecidos na Terra.
Entretanto, vi com emoção, no cume da torre de vigia, a enorme bandeira de paz, muito alva, tremulando ao vento como largo penacho de neve...
O administrador percebeu a estranheza que se apossara de Vicente e de mim.
– Já sei a impressão que a nossa defesa lhes causa – disse Alfredo, detendo-se para explicar.
Fixando-nos com o olhar muito lúcido, continuou:
– Naturalmente, não imaginavam necessárias tantas fortificações.
Conforme veem, nossa bandeira é de concórdia e harmonia;
No entanto, é imprescindível considerar que estamos em serviço que precisaremos defender, em qualquer circunstância.
Enquanto não imperar a lei universal do amor, é indispensável persevere o reinado da justiça.
Nosso Posto está colocado, aqui, igualmente, como “ovelha em meio de lobos” e, embora não nos caiba efetuar o extermínio das feras, necessitamos defender a obra do bem contra os assaltos indébitos.
As organizações dos nossos irmãos consagrados ao mal são vastíssimas.
Não admitam a hipótese de serem, todos eles, ignorantes ou inconscientes.
A maioria se constitui de perversos e criminosos.
São entidades verdadeiramente diabólicas.
Não tenham disso qualquer dúvida. – Deus meu! – exclamou Vicente, admirado – mas porque se organizam deliberadamente para o mal?
Não sabem, porventura, que todos os patrimônios universais pertencem à Majestade Divina?
Não reconhecem o Soberano Poder?
– Ah! meu amigo – falou Alfredo em tom grave –, fiz as mesmas perguntas quando aqui cheguei pela primeira vez.
As respostas que tive foram incisivas e concludentes.
Poderíamos, Vicente, formular na Crosta as mesmas interrogações.
Os criminosos que fazem as vítimas da guerra, os exploradores da economia popular, os avarentos misérrimos, os sedentos de injustificado predomínio e os vaidosos cheios de fatuidade sabem, tão bem quanto os nossos adversários daqui, que tudo pertence a Deus, que o homem é simples usufrutuário dos divinos bens.
Não ignoram que os antepassados foram chamados à verdade e a contas pela morte, e que eles seguirão os mesmos caminhos;
Entretanto, atormentam-se na Crosta como verdadeiros loucos, amontoando possibilidades para a ruína e abusando das oportunidades mais santas.
Aqui se verifica a mesma coisa.
Querem dominar antes de se dominarem, exigem antes de dar e entram em perene conflito com o espírito divino da lei.
Estabelecido o duelo entre a fantasia deles e a verdade do Pai, resistem às corrigendas do Senhor e transformam-se, esses desventurados, em verdadeiros gênios da sombra, até que, um dia, se decidam a novos rumos.
Intrigado com as profundas observações, perguntei:
– Mas, como explicar as bases de semelhante atitude?
Na Terra, compreendemos certos enganos, mas aqui...
O generoso interlocutor não me deixou terminar e prosseguiu:
– Na Crosta, nossos irmãos menos felizes lutam pela dominação econômica, pelas paixões desordenadas, pela hegemonia de falsos princípios.
Nestas zonas imediatas à mente terrestre, temos tudo isso em identidade de condições.
Entre as entidades perversas e ignorantes, há cooperativas para o mal, sistemas econômicos de natureza feudalista, baixa exploração de certas forças da Natureza, vaidades tirânicas, difusão de mentiras, escravização dos que se enfraquecem pela invigilância, doloroso cativeiro dos Espíritos falidos e imprevidentes, paixões talvez mais desordenadas que as da Terra, inquietações sentimentais, terríveis desequilíbrios da mente, angustiosos desvios do sentimento.
Em todo o lugar, meu amigo, as quedas espirituais, perante o Senhor, são sempre as mesmas, embora variem de intensidade e coloração.
– Mas... e as armas? – perguntei – acaso são utilizadas?
– Como não? – disse Alfredo, pressuroso – não temos balas de aço, mas temos projéteis elétricos.
Naturalmente, a ninguém atacaremos.
Nossa tarefa é de socorro e não de extermínio.
– No entanto – aduzi, sob forte impressão –, qual o efeito desses projéteis?
– Assustam terrivelmente – respondeu ele, sorrindo – e, sobretudo, demonstram as possibilidades de uma defesa que ultrapassa a ofensiva.
Mas apenas assustam? – tornei a interrogar.
Alfredo sorriu mais significativamente e acrescentou:
– Poderiam causar a impressão de morte.
– Que diz! – exclamei com insofreável espanto.
O administrador meditou alguns instantes e, ponderando, talvez, a gravidade dos esclarecimentos, obtemperou:
– Meu amigo! meu amigo! se já não estamos na carne, busquemos desencarnar também os nossos pensamentos.
As criaturas que se agarram, aqui, às impressões físicas, estão sempre criando densidade para os seus veículos de manifestação, da mesma forma que os Espíritos dedicados à região superior estão sempre purificando e elevando esses mesmos veículos.
Nossos projéteis, portanto, expulsam os inimigos do bem através de vibrações do medo, mas poderiam causar a ilusão da morte, atuando sobre o corpo denso dos nossos semelhantes menos adiantados no caminho da vida.
A morte física, na Terra, não é igualmente pura impressão?
Ninguém desaparece.
O fenômeno é apenas de invisibilidade ou, por vezes, de ausência.
Quanto à responsabilidade dos que matam, isto é outra coisa.
E além desta observação, que é da alçada da Justiça Divina, temos a considerar, igualmente que, nesta esfera, o corpo denso modificado pode ressurgir todos os dias, pela matéria mental destinada à produção dele, enquanto que, para obter o corpo físico, almas há que trabalham, por vezes, durante séculos...
Vicente e eu caláramos, estupefatos.
Alfredo sorriu serenamente e perguntou, bem humorado:
– Vocês conhecem a lenda hindu da serpente e do santo?
Ante a nossa expressão negativa, o administrador continuou:
– Contam as tradições populares da Índia que existia uma serpente venenosa em certo campo. Ninguém se aventurava a passar por lá, receando-lhe o assalto.
Mas um santo homem, a serviço de Deus, buscou a região, mais confiado no Senhor que em si mesmo.
A serpente o atacou, desrespeitosa.
Ele dominou-a, porém, com o olhar sereno, e falou:
– Minha irmã, é da lei que não façamos mal a ninguém.
A víbora recolheu-se, envergonhada.
Continuou o sábio o seu caminho e a serpente modificou-se completamente.
Procurou os lugares habitados pelo homem, como desejosa de reparar os antigos crimes.
Mostrou-se integralmente pacífica, mas, desde então, começaram a abusar dela.
Quando lhe identificaram a submissão absoluta, homens, mulheres e crianças davam-lhe pedradas.
A infeliz recolheu-se à toca, desalentada.
Vivia aflita, medrosa, desanimada.
Eis, porém, que o santo voltou pelo mesmo caminho e deliberou visitá-la.
Espantou-se, observando tamanha ruína.
A serpente contou-lhe, então, a história amargurada.
Desejava ser boa, afável e carinhosa, mas as criaturas perseguiam-na e apedrejavam-na.
O sábio pensou, pensou e respondeu após ouvi-la:
– Mas, minha irmã, houve engano de tua parte.
Aconselhei-te a não morderes ninguém, a não praticares o assassínio e a perseguição, mas não te disse que evitasses de assustar os maus.
Não ataques as criaturas de Deus, nossas irmãs no mesmo caminho da vida, mas defende a tua cooperação na obra do Senhor.
Não mordas, nem firas, mas é preciso manter o perverso a distância, mostrando-lhe os teus dentes e emitindo os teus silvos.
Nesse momento, Aniceto sorriu de maneira expressiva.
O administrador fez longa pausa e concluiu:
– Creio que a fábula dispensa comentário.

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Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Março de 2020, 17:41
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21 Espíritos dementados

Inúmeros servidores acompanhavam-nos ao serviço.
Movimentavam-se carregadores sem conta.
Conduziam grandes botijas d'água, caldeirões de sopa, vasos de substância medicamentosa, em galeotas diversas.
Mais alguns passos e notei que centenas de entidades se reuniam em vastos albergues, olhos vagueantes e rostos sombrios, parecendo uma assembleia de loucos em manicômio de amplas proporções.
Alfredo aconselhou umas tantas providências de serviço à maioria dos técnicos do sopro curativo, os quais se desviaram de nós, rumo às edificações situadas em zona diferente.
Gentilmente nos explicava que os benfeitores de “Campo da Paz” localizavam, ali, grande número de Espíritos enfermos, mais desequilibrados que propriamente perversos.
Os doentes que tínhamos sob os olhos permaneciam em melhores condições.
Já se locomoviam e muitos deles já conversavam, apesar do desequilíbrio que lhes assinalava as palavras e pensamentos.
Esclarecia-nos sobre as múltiplas obrigações do trabalho de rotina, quando algumas entidades se acercaram, respeitosas:
– Senhor Alfredo – disse um velho de barbas muito alvas –, estou aguardando o resultado da minha petição.
Em que ficamos, quanto às minhas terras e os escravos?
Paguei bom preço ao Carmo Garcia.
Sabe o senhor que venho sendo perseguido durante muitos anos, e não posso perder mais tempo.
Quando volto para casa?
Creio esteja o senhor ciente da necessidade de eu voltar ao seio dos meus.
Esperam-me a mulher e os filhos.
Como excelente médico da alma, Alfredo prestou a maior atenção e respondeu, como se estivesse tratando com pessoa de bom senso:
– Sim, Malaquias, você reclama com razão, mas sua saúde não permite o regresso apressado.
Você sabe que sua esposa, Dona Sinhá, pediu fosse você aqui tratado convenientemente.
Creio que ela deve estar muito tranquila a seu respeito.
Suas idéias, porém, meu amigo, não estão ainda bem coordenadas.
Temos alguma coisa mais a fazer.
Porque preocupar-se tanto, assim, com as terras e os escravos?
Primeiramente a saúde, Malaquias; não esqueça a saúde!
O velho sorriu, como o doente apoiado na firmeza e no otimismo do médico.
– Reconheço que as suas observações são justas, mas meus filhos não se movem sem mim, são preguiçosos e necessitam da minha presença.
Mas, doutrinando sutilmente o pobre velhinho, o administrador objetou:
– Entretanto, donde vieram os filhos para os seus braços paternos?
Não vieram das mãos de Deus?
– Sim, sim... – afirmava o ancião, trêmulo e satisfeito.
– Pois é isso, Malaquias, chegam instantes na vida, em que precisamos devolver a Deus o que a Ele pertence.
Além do mais, seus filhos são também responsáveis e, se forem ociosos, responderão pelos males que criarem em torno de si mesmos.
Por agora, é indispensável que você se refaça, aclare as idéias e sossegue o coração.
O velho sorriu, confortado, mas, antes que pudesse falar de novo, um cavalheiro, denotando nobre aprumo, adiantou-se, exclamando:
– E a solução do meu processo, senhor Alfredo?
Sinto-me prejudicado pelos parentes de má fé.
Minha parte na herança dos avós é cobiçada pelos primos.
Segundo já lhe fiz ver, meu quinhão é superior aos demais.
Soube, todavia, que o Visconde de Cairu interpôs toda a sua influência contra mim.
Ninguém ignora tratar-se de um grande velhaco.
Que não poderá ele fazer com as artimanhas políticas?
Está mal informado a meu respeito.
O senhor enviou meu pedido ao Imperador?
– Já expedi a mensagem – esclareceu Alfredo com carinho fraternal –, o Imperador certamente levará em conta a solicitação.
– Entretanto, a demora é muito grande!... – falou o cavalheiro, impaciente, como se estivesse diante de um subordinado vulgar.
– Mas, meu caro Aristarco – respondeu o administrador, muito calmo –, acredito que você está sendo experimentado para conhecer a grandeza da herança divina.
Que valem os patrimônios terrestres, ante os patrimônios imperecíveis?
Não pense no que tem perdido;
Medite nos bens sublimes que poderá alcançar, diante da Vida Eterna.
Esqueça os primos ambiciosos e o Visconde que não o compreendeu.
Terão eles de deixar quanto possuem, no campo transitório, a fim de prestarem contas à Divindade.
Nunca pensou nisto?
Aristarco pareceu perder, por momentos, a inquietação, sorriu francamente e respondeu:
– É verdade!
Os tratantes morrerão...
Uma senhora, mostrando-se aflita, pôs-se à nossa frente e interpelou, altiva:
– Senhor Alfredo, peço-lhe não me retenha aqui.
Meu marido é nosso próprio adversário.
Prometeu perseguir as filhas, tão logo me ausentasse de casa.
Aqui permanecendo, estou certa de que ele nos dissipará os bens, desmoralizar-nos-á o nome. Por favor, autorize o meu regresso.
O coração me diz que as filhinhas estão desesperadas.
Convenço-me, cada vez mais, de que minha moléstia teve origem neste estado de coisas...
– Já sei, minha irmã – respondeu o nosso amigo com a mesma solicitude –; no entanto, que adiantaria regressar, tão fortemente atormentada?
Não será melhor curar-se, tranquilizar o espírito para ajudar as filhinhas com eficiência?
– Mas, nem sequer sei onde estou – reclamou a pobre senhora, torcendo as mãos –,
Creio me tenham trazido ao fim do mundo, para tratamento de uma simples perda de sentidos!
– Todavia, ninguém a maltrata – disse o interlocutor, bondosamente – e seu caso não é tão simples como parece.
Tenha calma.
Os laços consanguíneos são edificantes, mas, acima deles, vibra a família universal.
Há criaturas suportando fardos muito mais pesados que o seu.
Aprenda, quanto esteja em suas possibilidades, a desfazer-se de aquisições passageiras, para ganhar os eternos bens.
A infeliz não sorriu como os outros.
Fechando-se em sombria catadura, afastou-se pesadamente, olhos fulgurantes de cólera, como se a mente estivesse cravada muito longe, incapaz de qualquer compreensão.
Adiantaram-se outros enfermos, mas o administrador falou em voz alta:
– Não posso atender a todos no momento.
Depois de amanhã, serão recebidos para explicações.
E, voltando-se para nós, esclareceu a sorrir:
– No círculo carnal, seriam todos absolutamente normais;
No entanto, aqui, são verdadeiros loucos.
São desencarnados que, por muito tempo, se agarraram aos problemas inferiores.
Reclamam providências, sem falar no ensejo de iluminação que menosprezaram, acusam os outros, sem relacionarem os próprios erros.
Pro curei ouvi-los para lhes dar uma ideia do nosso trabalho, no setor dos que se desequilibram mentalmente por excesso de centralização em propósitos inferiores.
Não é crime interessar-se alguém pelas atividades rurais, pela recepção de uma herança, pelo bemestar da família;
Mas, no fundo, o velhinho que reclama terras e escravos nunca pensou senão em tirania no campo;
O cavalheiro, que aguarda a herança, deseja lesar os primos;
E a senhora, que se revelou tão interessada pelo ambiente doméstico, desencarnou quando pretendia envenenar o marido, às ocultas.
Conheço-lhes os processos, um a um.
Acordaram de longo sono, na inconsciência, e julgam-se ainda encarnados, supondo igualmente que podem dissimular as pretensões criminosas.
Eu estava assombrado.
Expressando minha profunda admiração, perguntei:
– Esses doentes demoram-se aqui?
Como alcançaram o Posto?
Gentil, como sempre, Alfredo respondeu:
– Foram recolhidos em pior estado.
Já estiveram em pesado sono durante muito tempo e vão readquirindo a memória, gradativamente,
Até que possam ser encaminhados aos Institutos Magnéticos de “Campo da Paz”,
A fim de receberem maiores auxílios e necessários esclarecimentos.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 31 de Março de 2020, 13:16
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22 Os que dormem

Seguimos através de longas filas de arvoredo acolhedor, rumo às vastas edificações que obedeciam a linhas arquitetônicas singulares.
Sem que eu pudesse explicar o fenômeno, as luzes diminuíam progressivamente.
Que teria acontecido?
Vicente e eu nos entreolhamos, assustados.
Alfredo, Aniceto e os demais, todavia, caminhavam sem surpresa.
A serenidade deles tranquilizava-me o íntimo, embora o espanto insofreável.
Mais alguns passos, atingimos os pavilhões diferentes, que se estendiam em área superior a três quilômetros, pelos meus cálculos.
Lá dentro, contudo, as sombras se fizeram mais densas.
Conseguia distinguir, vagamente, os quadros interiores, observando que se tratava, a meu ver, de espaçosas enfermarias com teto sólido, mas semiabertas ao longo das paredes altas, dando livre passagem ao ar.
Dezenas de operários, devotados e operosos, seguiam-nos em absoluto silêncio.
Alfredo era o único a falar, notando-se, contudo, que se fizera extremamente discreto nas palavras.
Tudo isso me dava a impressão de haver penetrado um cemitério escuro, onde os visitantes fossem obrigados a guardar todo o respeito aos mortos.
Com estranheza, notei que um dos servidores entregara ao chefe do Posto pequenina máquina, que Alfredo nos deu a conhecer gentilmente, explicando
– Este é o nosso aparelho de sinalização luminosa.
Estamos no centro dos pavilhões a que se recolhem irmãos ainda adormecidos.
Temos aqui, presentemente, quase dois mil.
Os numerosos cooperadores dirigiam-se em ordem para a zona de serviços que lhes competiam.
Depois de pequena pausa, falou o administrador com firmeza: – Iniciemos o trabalho de assistência.
Ao primeiro sinal luminoso de Alfredo, acenderam-se numerosas lâmpadas elétricas e, então, dominando, a custo, a primeira impressão de horror, vi extensas filas de leitos ao rés do chão, ocupados todos por pessoas mergulhadas em profundo sono.
Muitos tinham o semblante horrendo.
Eram muito poucos os que traziam as pálpebras cerradas, parecendo tranquilos.
Em quase todos, estampavam-se-lhes nos olhos, aparentemente vitrificados, o extremo pavor e o doloroso desespero da morte.
Cadavérica palidez cobria-lhes a face.
Recordando a literatura antiga, pensei nos velhos túmulos egípcios.
Tínhamos, diante de nós, centenas de múmias perfeitas.
Raríssimos pareciam dormir um sono natural.
Aproximando-se de nós outros, Alfredo falou a Aniceto, em particular:
– Infelizmente, não podemos atender a todos.
– Porquê? – indagou nosso orientador, comovido.
– Estamos aguardando pessoal adestrado.
Tenho aqui a colaboração de oitenta auxiliares para este gênero de serviço;
Entretanto, não pode cada qual atender a mais de cinco doentes de uma só vez.
A vista disso, dos nossos mil novecentos e oitenta abrigados, separei os quatrocentos mais suscetíveis de próximo despertar, a fim de submetê-los ao tratamento intensivo.
– E os demais?
– Recebem alimento e medicação mais densos uma vez por dia.
Aniceto calou-se, pensativo.
Profundamente tocado pelo que via, inclinei-me instintivamente para o abrigado mais próximo, tentando examinar-lhe o estado fisiológico.
Identifiquei o calor orgânico, a pulsação regular e os movimentos respiratórios, embora verificasse a extrema rigidez dos membros, como que mergulhados em imobilidade cataléptica.
Indescritível impressão apoderou-se de mim.
Levantei-me assustado, dirigi-me a Aniceto com a máxima discrição, e interroguei:
Explicai-me, por Deus! que vemos aqui?
Estamos, acaso, na moradia da morte, depois da morte?
O instrutor sorriu, complacente, e explicou em voz quase imperceptível:
– Sim, André, este sono é, verdadeiramente, avançada imagem da morte.
Aqui permanecem, com a bênção do abrigo, alguns milhões dos nossos irmãos que ainda dormem.
São as criaturas que nunca se entregaram ao bem ativo e renovador, em torno de si, e mormente os que acreditaram convictamente na morte, como sendo o nada, o fim de tudo, o sono eterno.
A crença na vida superior é atividade incessante da alma.
A ferrugem ataca a enxada ociosa.
O entorpecimento invade o Espírito vazio de ideal criador.
Os que, nos círculos carnais, homens e mulheres, crêem na vida eterna, ainda que não sejam fundamentalmente cristãos, estão desenvolvendo faculdades de movimentação espiritual e podem penetrar as esferas extraterrenas em estado animador, pelo menos quanto à locomoção e juízo mais ou menos exato.
No entanto, as criaturas que perseveram em negação deliberada e absoluta, não obstante, por vezes, filiadas a cultos externos de atividade religiosa, que nada veem além da carne nem desejam qualquer conhecimento espiritual, são verdadeiramente infelizes.
Muitos penetram nossas regiões de serviço, como embriões de vida, na câmara da Natureza sempre divina.
Um amigo nosso costuma designá-los por fetos da espiritualidade; entretanto, a meu ver, seriam felizes se estivessem nessa condição inicial.
Temos a certeza, porém, de que muitos se negaram ao contacto da fé, absolutamente por indiferença criminosa aos desígnios do Eterno Pai.
Dormem, porque estão magnetizados pelas próprias concepções negativistas;
permanecem paralíticos, porque preferiram a rigidez ao entendimento;
Mas dia virá em que deverão levantar-se e pagar os débitos contraídos.
Eis porque os considero sofredores.
Primeiramente, demoram no sono em que acreditaram, mais tarde acordam;
Porém, a maioria não pode fugir à enfermidade e à perturbação, como acontece aos irmãos dementados, que vimos inda há pouco.
Grande o meu assombro.
Como Vicente se aproximasse, também, para ouvi-lo, falou Aniceto, esclarecendo a nós ambos:
– A fé sincera é ginástica do Espírito.
Quem não a exercitar de algum modo, na Terra, preferindo deliberadamente a negação injustificável, encontrar-se-á mais tarde sem movimento.
Semelhantes criaturas necessitam de sono, de profundo repouso, até que despertem para o exame das responsabilidades que a vida traduz.
Observando que o nosso orientador se esquivava a comentários longos, para que pudéssemos seguir, de mais perto, os trabalhos de assistência, calei as muitas indagações que me escaldavam a mente.
Com exceção de algumas senhoras que permaneciam junto de Ismália, todo os servidores se mantinham em posição de vigilância, ao pé dos grupos mumificados.
A luz artificial iluminava os leitos, que se perdiam de vista, mas observei que nenhum dos albergados reagia à intensa claridade que se fizera.
Continuavam rígidos, cadavéricos, prostrados.
Notei, então, que Alfredo começou a mover o aparelho de sinalização, para emitir as ordens de serviço.
Cada sinal determinava operação diferente.
Vi os servidores do Posto distribuírem pequenas porções de alimento líquido e medicação bucal, em profundo silêncio.
Em seguida, forneceram reduzidas quantidades de água efluviada aos infelizes, com exceção, porém, de muitos que pareciam preparados a receber, tão somente, caldo e remédio.
Dois terços dos quatrocentos abrigados em tratamento receberam passes magnéticos.
Alguns poucos receberam aplicações do sopro curador.
Todos os movimentos do trabalho eram transmitidos pela sinalização luminosa, partida das mãos do administrador, que parecia interessado na manutenção do máximo silêncio.
Impressionado com o que via, perguntei ao orientador, em voz baixa, a razão de alguns enfermos não terem sido beneficiados com a água e com o socorro de forças novas, através do passe e do sopro vivificante.
Aniceto, todo bondade, inclinou-se aos meus ouvidos, com a ternura de um pai ansioso por tranquilizar o filhinho inquieto, e falou:
– Cada um na vida, meu caro André, tem a necessidade que lhe é peculiar.
Aqui, compreendemos com amplitude esse imperativo da Natureza.

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OS MENSAGEIROS –
2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Abril de 2020, 13:25
OS MENSAGEIROS
23 Pesadelos

Enquanto Alfredo continuava dirigindo os serviços, nosso instrutor, com a permissão dele, conduziu-nos aos leitos distantes, onde se asilavam os enfermos desatendidos quanto ao auxílio magnético.
– Precisamos acentuar experiências e aproveitar oportunidades – afirmou Aniceto, sorridente.
Acompanhamo-lo, curiosos, identificando as expressões isoladas, dolorosas ou terríveis, daquelas máscaras mortuárias.
Quando nos encontrávamos a regular distância da zona central, o instrutor esclareceu, em tom grave:
– Desejaria conhecer a extensão dos benefícios colhidos por vocês no Gabinete de Auxílio Magnético às Percepções.
Para ajudar eficientemente aos nossos amigos encarnados, é necessário saibamos ver com clareza e precisão.
Indicando os doentes imóveis, acrescentou:
– Todos os que dormem nestes pavilhões permanecem dentro do mau sono.
– Mas teremos, porventura, nas zonas espirituais, os que estejam em bom sono? – interrogou Vicente, de modo brusco.
– Sem dúvida – respondeu Aniceto, solícito –, temos na esfera de nossas atividades os que repousam períodos curtos, quais trabalhadores retos que esperam o repouso noturno, com a tranquilidade dos que sabem trabalhar e descansar, de consciência aliviada.
Fez uma pausa, como quem estudava o melhor meio de sintetizar, por não perder tempo, e acentuou:
– Mas esses não precisam estacionar, como filhos da sombra, nas construções de emergência de um Posto de Socorro.
Em seguida, retomou o fio da lição e continuou:
– Quem dorme em desequilíbrio, entrega-se a pesadelos.
Todos estes irmãos desventurados que nos cercam, aparentemente mortos, são presas de horríveis visões íntimas.
Vejamos o aproveitamento de vocês.
Procedamos a observações rápidas.
Antigamente, o inquérito anatômico, o exame das vísceras, a perquirição científica nas células, também aparentemente mortas;
Agora, a auscultação profunda da alma, a sondagem dos sentimentos, a visão do plano mental.
E, com expressão decidida, concluiu, resoluto:
– Mãos à obra!
Designando-me um corpo envelhecido de mulher, recomendou:
– Você, André, examine detidamente essa irmã.
Abstenha-se de todas as considerações do plano exterior.
Observe-a com todas as possibilidades e percepções ao seu alcance.
Sinceramente interessado em atender, não reparei nas ordens que o nosso instrutor transmitia a Vicente.
Procurei esquecer os quadros externos, focalizando aquela máscara feminina com todos os meus recursos mentais.
A medida que me despreocupava dos interesses diferentes, observava a sombra cinzento-escura que se lhe ia condensando em torno da fronte.
A visão parecia auxiliar-me o poder de concentração.
Reconhecendo que o fenômeno se acentuava, não mais lembrei qualquer objeto ou situação exterior.
Estupefato, comecei a divisar formas movimentadas no âmbito da pequena tela sombria.
Surgiu uma casa modesta de cidade humilde.
Tive a impressão de transpor-lhe a porta.
Lá dentro, um quadro horrível e angustioso.
Uma senhora de idade madura, demonstrando crueldade impassível no rosto, lutava com um homem embriagado.
– “Ana! Ana! pelo amor de Deus! não me mates!”
– dizia ele, súplice, incapaz de defender-se.
– “Nunca! Nunca te perdoarei!! – exclamava a mulher, acrescentando em tom lúgubre – “Morrerás esta noite”.
– vi o infeliz cair, exausto. –
 “Envenenaste-me com bebida mortal” – exclamava ele, lacrimoso – “perdoa-me se te causei algum mal!
Sou pai!
Ana! preciso viver para meus filhos!
Não me mates, por piedade!”
Ela ouviu com frieza e respondeu duramente:
– “Morrerás mesmo assim.
Tenho a infelicidade de amar-te, a ti que pertences a outra mulher!
Não quiseste seguir-me e preciso vingar-me!”
Rebolcando-se no assoalho, tomava o infeliz:
– “Deus sabe que estou arrependido do meu criminoso passado!
Quero viver para o bem, Ana!
Perdoa-me por amor do Eterno Pai!
Quem sabe poderei auxiliar-te como irmão?
Ajuda-me para que te possa ajudar!
Não me mates! Não me mates!”
A mulher, porém, como se tivesse a maldade agravada, ao ouvir a expressão da virtude, tomou de um pesado martelo e exclamou:
 – “Deus não existe! Deus não existe! Morrerás, infame!”
E, de súbito, crivou-lhe o crânio de marteladas surdas.
O homem expirou sem um grito.
 Logo após, vi a criminosa conduzindo o cadáver em carrinho de mão, através de um trilho ermo.
Acompanhava-lhe os movimentos com interesse.
A noite estava muito escura, mas observei a parada junto à via férrea.
Sondou os arredores, certificou-se do insulamento em que se encontrava e depôs a estranha carga sobre os trilhos.
Vi-a dispondo o cadáver para que a cabeça fosse decepada à passagem do comboio, retirando-se apressadamente, reconduzindo o pequeno carro vazio.
Não esperei a máquina de ferro.
Segui a mulher que me pareceu inquieta e pensativa.
Antes, porém, que depusesse o carrinho no extenso quintal, vi que arregalava os olhos como louca, cercada de seres que me pareceram bandidos de negras vestes.
Era ela, agora, quem acusava estranha embriaguez de pavor.
Vencera um pobre homem invigilante, mas, a meu ver, seria vencida por seres mais perversos, talvez, que ela própria:
– “Acudam-me! acudam-me!” – gritava, espavorida.
E continuava a cena, em que a desventurada golfava súplicas em vão.
Senti-me como espectador que precisasse movimentar qualquer socorro.
E, graças à Bondade Divina, não experimentei pela mulher infeliz senão a mais viva compaixão.
Ao primeiro impulso de revolta pelo crime consumado, recordei as lições já recebidas em “Nosso Lar” e pensei na possibilidade de ser a criminosa alguma pessoa querida ao meu coração.
Se Ana estivesse no mundo, ao meu lado, na família do sangue, não desejaria auxiliá-la?
Porque haveria de acusá-la, se não lhe conhecia o passado total?
Ter-lhe-iam dado a educação na infância, a bênção do lar, a segurança de um afeto sem manchas?
Quem sabe viera de longe, como pedra incompreendida, rolando nos abismos do sofrimento?
Que laços a uniriam à vítima, igualmente digna de piedade fraternal?
Como teria começado o drama doloroso?
Não sabia.
Enxergava somente a pobre mulher rodeada de sombras agressivas, implorando socorro. Ignorava como ajudá-la, mas recordei que Ana era minha irmã, filha do mesmo Pai, irmã que adoecera no caminho comum, sem que eu pudesse, pelo menos por agora, indagar a causa.
Procurava, comigo mesmo, algum meio de auxiliá-la, quando alguém me chamou de súbito.
Era Aniceto que exclamava, bondoso:
– Venha, André! Vicente e você têm sabido aproveitar alguma coisa.
Estou satisfeito.
Seus pensamentos de fraternidade e paz muito auxiliaram essa irmã infeliz.
Guarde a certeza disso e continue buscando a compreensão para socorrer e ajudar com êxito.
Conforme observaram de perto, sabem agora que cada um dos que aqui dormem sono atormentado, vivem estranhos pesadelos, de que não podem isentar-se de um instante para outro.
Não precisamos comentar qualquer episódio dessas existências vividas em oposição à Vontade Divina.
Bastará lembrar sempre que a dívida, em toda parte, anda com os devedores.
E com expressivo olhar, acrescentou:
– Voltemos ao centro.
Devemos cooperar na oração.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 22 de Abril de 2020, 13:58
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24- A prece de Ismália

Dentro de poucos instantes, reuníamo-nos, de novo, ao grupo.
O administrador fez um sinal luminoso, em forma triangular, e observei que todos os cooperadores se puseram de pé, em atitude respeitosa.
— É o momento da oração, no Posto de Socorro — disse Alfredo, gentil, como a prestar-nos esclarecimentos precisos.
O Sol desaparecera no firmamento, mas toda a cúpula celeste refletia-lhe o disco de ouro.
Os tons crepusculares encheram as vizinhanças de maravilhosos efeitos de luz, muito visíveis agora ao nosso olhar, porque Alfredo, sem que eu pudesse conhecer o motivo, mandara apagar todas as luzes artificiais, antes da oração.
No centro dos pavilhões, a sombra se fizera, desse modo, muito intensa, mas o novo aspecto do firmamento, banhado em tonalidades sublimes, dava-nos a impressão da permanência em prodigioso palácio, em virtude do imenso teto azul iluminado a distância.
Fundamente impressionado, procurei convizinhar-me mais do pequeno grupo de companheiros.
Do quadro de colaboradores do castelo, apenas algumas senhoras permaneciam junto de nós, como se estivessem fazendo honrosa companhia à nobre Ismália.
Os demais, homens e mulheres, manteriam-se nos lugares de serviço que lhes competiam, não longe das criaturas mumificadas.
Notei que, embora instado, Aniceto esquivou-se à chefia espiritual da oração, alegando que, por direito, essa posição cabia à devotada esposa de Alfredo.
Ismália, então, num gesto de indefinível delicadeza, começou a orar, acompanhada por todos nós, em silêncio, salientando-se, porém, que lhe seguíamos a rogativa, frase por frase, atendendo a recomendações do nosso orientador, que aconselhou repetir, em pensamento, cada expressão, a fim de imprimir o máximo ritmo e harmonia ao verbo, ao som e à ideia, numa só vibração.
“Senhor! — começou Ismália, comovidamente —
Dignai-vos assim os nossos humildes tutelados, enviando-nos a luz de vossas bênçãos santificantes,
Nós estamos, prontos para executar vossa vontade, sinceramente, de secundar vossos alto desígnios convosco,
Pai, reúnem-se os irmãos que ainda dormem, anestesiados pela negação espiritual a que se entregaram no mundo.
Desperta Senhor,
Se é de vossos desígnios sábios e misericordiosos,
Despertai-os do sono doloroso e infeliz.
Acordai-os para a responsabilidade, para a noção dos deveres justos!...
Magnânimo Rei,
Apiedai-vos de vossos filhos sofredores;
Criador compassivo, levantai as vossas criaturas;
Pai Justo, desculpai vossos filhos desventurados!
Permiti caia o orvalho do vosso amor infinito sobre o nosso modesto Posto de Socorro!...
Seja feita a vossa vontade acima da nossa,
Mas se for possível Senhor,
Deixai que os nossos doentes recebam um raio vivificante da vossa bondade!
A voz de Ismália penetrava-me o recesso do coração.
Observando-a, por um momento, reparei que a esposa de Alfredo se transfigurara.
Luzes diamantinas irradiavam de todo o seu corpo, em particular do tórax, cujo âmago parecia conter misteriosa lâmpada acesa.
Em vista da ligeira pausa que imprimira a oração, observei a nós outros, verificando que o mesmo fenômeno se dava conosco, embora menos intensamente.
Cada qual parecia, ali, apresentar uma expressão luminosa, gradativa.
As senhoras que acompanhavam Ismália estavam quase semelhantes a ela, como se trajassem soberbos costumes radiosos, em que predominava a cor azul.
Depois delas, em brilho, vinha a luz de Aniceto, de um lilás surpreendente.
Em seguida, tínhamos Alfredo, cuja luz era de um verde suave e sugestivo, sem grande esplendor.
Depois dele, vinham alguns servidores ostentando na fronte claridades sublimes, expressas em variadas cores,
E, logo após, Vicente e eu, mostrávamos fraca luminosidade, a qual, porém, nos enchia de brilho intenso, considerando que a maioria dos cooperadores em serviço apresentava o corpo obscuro, como acontece na esfera carnal.
Com voz pausada e comovedora, Ismália prosseguiu:
“Temos, ao nosso lado, Senhor,
Infortunadas mães que não souberam descobrir o sentido sublime da fé,
Resvalando, imprudentemente, nos despenhadeiros da indiferença criminosa;
Pais que não conseguiram ultrapassar a materialidade no curso da existência humana,
Incapazes de ver a formosa missão que lhes confiastes;
Cônjuges desventurados pela incompreensão de vossas leis augustas e generosas;
Jovens que se entregaram, de corpo e alma aos alvitres da ilusão!...
Muitos deles, atolaram-se no pantanal do crime, agravando destinos dolorosos!
Agora dormem, Pai, à espera de vossos desígnios santos.
Sabemos, contudo, Senhor, que este sono não traduz repouso do pensamento.
Quase todos os nossos asilados são vítimas de terríveis pesadelos, por terem olvidado, no mundo material,
Os vossos mandamentos de amor e sabedoria.
Sob a imobilidade aparente movimenta-se-lhes o Espírito, entre aflições angustiosas que, por vezes, não podemos sondar.
Perdoe-os, Pai, vossos filhos transviados e nossos companheiros de luta, necessitados de vossa mão paternal para o caminho!
Quase todos se desviaram da senda reta, pelas sugestões da ignorância que, como aranha gigantesca, tece os fios da miséria, enredando destinos e corações!
Deprecando vossa misericórdia para eles, rogamos, para nós, a verdadeira noção da fraternidade universal!
Ensinai-nos a transpor as fronteiras de separação para que vejamos em cada enfermo o irmão necessitado do nosso entendimento!
Ajudai-nos a com preensão, a fim de que venhamos a perder todo impulso de acusação nas estradas da vida!
Ensinai-nos a amar como Senhor nos amou?
Também nós, Senhor, que aqui vos rogamos, fomos leprosos espirituais, cegos do entendimento, paralíticos da vontade, filhos pródigos do vosso amor!...
Também nós dormimos, em tempos idos, nos Postos de Socorro da vossa misericórdia!...
Somos simples devedores, ansiosos de resgatar imensos débitos!
Sabemos que vossa bondade nunca falha e esperamos contemplar a bênção de vida e luz!. .
Fizera Ismália nova pausa, agora mais longa.
Os olhos umedecidos de pranto.
Suave calor, todavia, apossava-se-me da alma.
E tão intensa era essa nova sensação de conforto, que interrompi a concentração em mim mesmo, a fim de olhar em torno.
Fixando instintivamente o alto, enxerguei, maravilhado, grande quantidade de flocos esbranquiçados, de tamanhos variadíssimos, a caírem copiosamente sobre nós que orávamos, exceto sobre os que dormiam.
Tive a impressão de que eram derramados do céu sobre nossa fronte, caindo com a mesma abundância sobre todos, desde Ismália ao último dos servidores.
Não cabia em mim de admiração, quando novo fenômeno me surpreendeu.
Os flocos leves desapareciam ao tocar-nos, começando, porém, a sair de nossa fronte e do peito grandes bolhas luminosas, com a coloração da claridade de que estávamos revestidos, elevando-se no ar e atingindo as múmias.
Ainda aí, reparava o problema da gradação espiritual.
As luzes emitidas por Ismália eram mais brilhantes, intensas e rápidas, alcançando muitos enfermos de uma só vez.
Em seguida, vinham as fornecidas pelas senhoras do seu círculo pessoal.
Depois, tínhamos as de Aniceto, de Alfredo e dos demais.
Os servos de corpo obscuro emitiam vibrações fracas, mas visivelmente luminosas.
Cada qual, naquele instante de contacto com o plano superior, revelava o valor próprio na cooperação que podia prestar.
Observando-me o assombro, Aniceto falou-me aos ouvidos:
— Na prece encontramos a produção avançada de elementos-força.
Eles chegam da Providência em quantidade igual para todos os que se dêem ao trabalho divino da intercessão,
Mas cada Espírito tem uma capacidade diferente para receber.
Essa capacidade é a conquista individual para o mais alto.
E como Deus socorre o homem pelo homem e atende a alma pela alma,
Cada um de nós somente poderá auxiliar os semelhantes e colaborar com o Senhor, com as qualidades de elevação já conquistadas na vida.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 03 de Maio de 2020, 21:27
OS MENSAGEIROS
XXV - Efeitos da oração

As luzes da prece inundaram o vasto recinto.
Palpitava em tudo, agora, uma claridade serena, doce, irradiante, muito diversa da luminosidade artificial.
Os flocos radiosos que partiam de nós multiplicavam-se no ar, como se obedecessem a misterioso processo de segmentação, e caíam sempre sobre os corpos inanimados e enrijecidos, dando a impressão de lhes penetrarem as células mais íntimas.
Eu estava boquiaberto.
Não me fora permitido contemplar fenômenos dessa natureza em “Nosso Lar”.
Aliás, concluía, ainda não recebera auxílio magnético às percepções, senão poucas horas antes da viagem.
A claridade crescia e estendia-se em espetáculo prodigioso.
Agora, porém, abandonáramos a atitude de recolhimento destinada à concentração de nossas próprias forças e emissão de energias vibratórias.
Nossos corpos, todavia, continuavam envolvidos em vasto círculo irradiante.
Prosseguindo, porém, o grande silêncio, notei que a luz da oração se fazia mais clara, mais penetrante.
Comecei a ver, como no caso de Ana, que todos aqueles esqueletos misérrimos apresentavam núcleos de sombra, além das máscaras mortuárias, núcleos que se mostravam dentro de formas variadíssimas.
As bolhas luminosas caíam incessantemente, mas agora, como se fossem dirigidas por uma vontade Inteligente, concentravam-se quase todas sobre as frontes imóveis.
Então, pude observar o inaudito e inconcebível para mim.
As múmias, porque não posso dar outro nome aos irmãos que dormem, começaram a dar sinais de vida.
Alguns daqueles infelizes deixavam escapar gemidos angustiosos, outros falavam em voz alta, dando conta dos pesadelos que os atormentavam, como sonâmbulos prestes a despertar.
Muitos moviam os pés e as mãos, como a se esforçarem por fugir ao sono doloroso.
Eminentemente surpreendido, reparei que dois se levantaram, distante de nós.
Recordei que ambos faziam parte daqueles que haviam recebido toda espécie de assistência, inclusive o sopro curativo.
Olharam-nos de longe, como loucos que acordassem de súbito, e dispararam a correr, espavoridos, não obstante a impressão de cadáveres ambulantes, que nos causavam.
Admirado, verifiquei que ninguém esboçou a menor disposição de segui-los.
E quando me propunha, instintivamente, a fazê-lo, Alfredo deteve-me, exclamando:
— Não se preocupe.
Eles seriam amargamente surpreendidos, se fossem notificados agora de sua permanência longa entre verdadeiras múmias.
Acreditam sonhar e é melhor assim.
Não poderão fugir às nossas fortificações e voltarão a pedir socorro noutras dependências, a que serão recolhidos para adequado tratamento.
Continuamos silenciosos mais alguns minutos, e notei que as luzes se foram apagando gradativamente, ao passo que os cadáveres retomavam a imobilidade anterior.
Ismália declarou terminadas as nossas atividades da oração e o administrador, após o sinal luminoso, que notificava aos operários o término das obrigações, adiantou-se para nós, exclamando:
— Gratíssimo pelo concurso fraternal.
Realizamos belo serviço intercessório.
Desde alguns dias, ninguém se levantava.
Aniceto, percebendo-nos a perplexidade, falou a Vicente e a mim, de maneira significativa:
— Conforme viram, o trabalho da prece é mais importante do que se pode imaginar no círculo dos encarnados.
Não há prece sem resposta.
E a oração, filha do amor, não é apenas súplica;
Comunhão entre o Criador e a criatura, constituindo, assim, o mais poderoso influxo magnético que conhecemos.
Acresce notar, porém, já que comentamos o assunto, que a rogativa maléfica conta, igualmente, com enorme potencial de influenciação.
Toda vez que o Espírito se coloca nessa atitude mental, estabelece um laço de correspondência entre ele e o Além.
Se a oração traduz atividade no bem divino, venha donde vier, encaminhar-se-á para o Além em sentido vertical, buscando as bênçãos da vida superior, cumprindo-nos advertir que os maus respondem aos maus nos planos inferiores, entrelaçando-se mentalmente uns com os outros.
É razoável, porém, destacar que toda prece impessoal dirigida às Forças Supremas do Bem, delas recebe resposta imediata, em nome de Deus.
Sobre os que oram nessas tarefas benditas,
Fluem, das esferas mais altas, os elementos-força que vitalizam nosso mundo interior,
Edificando-nos as esperanças divinas,
E se exteriorizam, em seguida, contagiados de nosso magnetismo pessoal, no intenso desejo de servir com o Senhor.
E, procurando materializar o pensamento para facilitar-nos a compreensão, acentuou:
— Viram, vocês, cair sobre nós os elementos a que me refiro, e observaram a sua exteriorização com as luzes de cada um de nós, em benefício dos irmãos que dormem e sofrem.
Concedeu-nos o Altíssimo a força de auxiliar, em porções iguais para todos,
Mas nós a espalhamos de acordo com a nossa possibilidade e coloração individuais.
Ismália, cujos sentimentos são mais amplos e universalistas que os nossos, pôde receber com mais clareza o auxílio divino e distribuí-lo com mais abundância e eficiência.
Temos, aqui, uma profunda lição.
Como já disse, o Pai visita os filhos necessitados, através dos filhos que procuram compreendê-Lo.
Não poderíamos abusar do Senhor, como abusamos no círculo terrestre dos nossos pais humanos.
Não vive Ele ao sabor de nossos caprichos pessoais.
Nunca poderia vir, em pessoa, enxugar o pranto do necessitado que chora, em consequência, aliás, do olvido das Divinas Leis.
Compete ao necessitado caminhar ao reencontro dele.
O Senhor, todavia, atende sempre a todos os homens de boa vontade, por intermédio dos homens bons, que se edificam na casa divina.
Todos os nossos desejos e impulsos razoáveis são atendidos pelas bênçãos paternais do Eterno.
Ainda que nos demoremos nas lágrimas e nas aflições, jamais permanecemos ao desamparo.
Apenas devemos salientar que as respostas de Deus vão sendo maiores e mais diretas, à medida que se intensifique o nosso merecimento,
Competindo-nos reconhecer que, para semelhantes respostas, são utilizados todos quantos trazem consigo a luz da bondade, ou já possuem mérito e confiança para auxiliar em nome de Deus.
As explicações de Aniceto abriam-me novos campos de meditação.
O esclarecido instrutor, contudo, não dera por finda a lição e, depois de longa pausa, concluiu:
— Já que vocês se encontram comigo num curso de serviço auxiliador, espero aproveitem o máximo ensinamento desta hora.
Reparem que, nestes pavilhões, temos mil e novecentos e oitenta abrigados que dormem.
Todos recebendo diariamente alimento e medicação comuns mas só quatrocentos são atendidos com alimento e medicação especializados, por se mostrarem mais suscetíveis de justa melhora.
Desses quatrocentos, apenas dois terços se revelaram aptos à recepção de passes magnéticos.
Muitos não podem receber, por enquanto, a água efluviada.
Poucos foram contemplados com o sopro curativo e somente dois se levantaram, ainda assim, profundamente perturbados.
Já que iniciam um trabalho de cooperação fraternal, não esqueçam esta lição.
Façamos todos o bem, sem qualquer ansiedade.
Semeemo-lo sempre e em toda a parte, mas não estacionemos na exigência de resultados.
O lavrador pode espalhar as sementes à vontade e onde quer que esteja,
Mas precisa reconhecer que a germinação, o crescimento e o resultado pertencem a Deus.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Maio de 2020, 12:25
OS MENSAGEIROS
XXVI - Ouvindo servidores

Notei que o trabalho no Posto se desenvolvia em ambiente da mais bela camaradagem, não obstante o respeito natural às noções de hierarquia.
Enquanto palestrávamos animadamente, Ismália recebia senhoras numerosas, em atitude verdadeiramente maternal, embora muitas mostrassem o rosto envelhecido, parecendo avós da esposa do administrador.
Aniceto nos ministrava lições de vulto, extraídas de circunstâncias aparentemente inexpressivas, e Alfredo recebia os colaboradores de todas as condições, não só com espírito de solidariedade, mas também de imenso afeto.
Ria-se carinhosamente ou fornecia pareceres, sem o menor gesto de impaciência ou irritação.
Aquele clima de concórdia fazia-me enorme bem.
Tudo respirava ordem e compreensão, bondade e harmonia.
A atitude paterna do administrador do Posto de Socorro, expressa em energia e amizade, organização e entendimento, atraía-me com força.
Pedi permissão ao nosso orientador para ouvir os esclarecimentos prestados àqueles numerosos cooperadores.
Aproximei-me, impressionado.
Nesse momento, um colaborador de maneiras simpáticas dirigia-lhe a palavra, com grande interesse;
Tratava-se de um velhinho de humilde expressão, que lhe falava com mostras de justo respeito.
— E o senhor recebeu as notícias?
— Sim, Alonso — atendia o chefe, sem excitação — nossos mensageiros certificaram-me dos detalhes mínimos.
Sua viúva continua muitíssimo acabrunhada, os filhinhos gozam saúde, mas permanecem na mesma ansiedade por motivo de sua ausência.
O velho, que parecia muito bondoso, esboçou um gesto de confirmação e acrescentou:
— Tenho sentido tanta falta deles!
Nos olhos transparecia a tristeza resignada, de quem deseja alguma coisa, medindo a extensão dos obstáculos.
— Você, porém, Alonso — continuou Alfredo, comovido —, não deve angustiar-se.
Sei que está trabalhando agora pelo futuro da família.
Na Terra, na qualidade de pais, conseguimos movimentar muitas providências a favor dos filhos;
Entretanto, aqui, podemos realizar certas medidas em benefício deles, com maior segurança.
Nem sempre agimos no mundo com a necessária visão;
Mas aqui é possível sentir, de mais perto, os interesses imperecíveis daqueles que amamos.
O sentimento elevado é sempre um caminho reto para nossa alma;
Todavia, não podemos dizer o mesmo, a respeito do sentimentalismo cultivado no círculo da Crosta.
É preciso que você tenha muito cuidado em não desorganizar a mente.
A saudade que fere, impedindo-nos atender à Vontade Divina, não é louvável nem útil.
É enfermidade do coração, precipitando-nos em abismos insondáveis do pensamento.
Alonso deixou de sorrir, mostrou os olhos rasos dágua e falou em voz súplice.
— Reconheço, senhor Alfredo, a oportunidade de suas observações.
Graças a Jesus, venho melhorando minha vida mental, nos deveres novos que me concedeu e, de fato, sinto-me renovado espiritualmente.
Sei que sua palavra não me advertiria sem razão, mas, ousaria pedir licença para visitar a esposa e os filhos à noite, quando me concentro nas preces habituais, sinto, em torno de mim, os seus pensamentos.
Esses pensamentos me penetram fundo, atraindo-me toda a atenção para a Terra.
Às vezes, consigo repousar um pouco, mas com muita dificuldade.
Sei que a esposa e os filhos estão chamando, dolorosamente, por mim.
Esta certeza me perturba de algum modo.
Não tenho sentido a mesma firmeza para o trabalho diário e desejaria remediar a situação.
Reconheço que minhas obrigações, presentemente, são outras e que devo estar conformado;
No entanto, confesso que minha luta espiritual tem sido bem grande.
Estou certo de que me perdoará a fraqueza.
Que chefe de família não se sentiria atormentado, ouvindo angustiosos apelos do lar, sem meios de atender, como se faz indispensável?
E, revelando o enorme anseio da alma, enxugou os olhos e prosseguiu:
— Quisera rogar aos meus, calma e coragem, esclarecendo que meu coração inda é frágil e necessita do amparo deles;
Estimaria pedir-lhes esse auxílio para que eu possa atender as atuais obrigações, sem desfalecimentos.
Quem sabe me concederá, agora, a permissão precisa?
Temos bem perto de nossa casa um grupo de amigos espiritistas;
Talvez não me fosse difícil transmitir algumas palavras, breves que fossem, tentando tranquilizar a esposa e os filhos!...
Alfredo, imperturbável, não respondeu negativamente.
Parecia compreender toda a inquietação do servidor simpático e humilde.
Observei-lhe no olhar, muito lúcido, o desejo sincero de atender, e, com extrema simpatia por sua conduta generosa, ouvi-o ponderar:
— Não será impossível satisfazê-lo, meu caro.
Nossos emissários poderão conduzi-lo, nas viagens comuns;
Entretanto, creia que, como amigo, ficaria preocupado com você, pela manutenção de sua paz.
Não posso abusar da autoridade e sei que cada um tem a experiência que lhe cabe, mas creio seja de seu vital interesse o fortalecimento do coração.
É imprescindível conformarmo-nos com os desígnios do Eterno.
Você e sua mulher não ficariam separados se não necessitassem de experiências novas.
As dificuldades que ela vem amargando com a sua ausência, sofre-as também você com a separação dela.
Tenho a impressão, Alonso, de que Deus nos deixa sozinhos, por vezes, a fim de refazermos o aprendizado, melhorando o coração.
A soledade, porém, quando aproveitada pela alma, precede o sublime reencontro.
Além disso, você não deve ignorar que os filhos pertencem a Deus, que cada um deles precisa definir responsabilidades e cogitar da própria realização.
Por enquanto, vivem chorosos, desalentados.
A revolta lhes visita a alma invigilante.
Estabeleceu-se a desordem doméstica, depois da sua vinda.
Entretanto, que fazer senão pedir para eles e para nós a bênção do Eterno?
Precisam eles da conformação com a realidade justa, e você, que já lhes deu o que era razoável, necessita, igualmente, evolver e aperfeiçoar-se na senda nova a que fomos chamados.
Em que ficaria, meu caro, se permitisse a invasão total do sentimentalismo doentio em seus pensamentos?
Tão dedicado é você à família do sangue, que, por agora, não o sinto com bastante preparo a tudo ver no antigo lar, sem sofrer desastrosamente.
Há tempos, autorizei a visita de dois colegas nossos à esfera da Crosta, a fim de reverem as viúvas e abraçarem de novo os filhinhos;
Mas foram tão violentamente surpreendidos pela situação, que não puderam voltar aos seus deveres aqui, lá ficando agarrados ao ninho que haviam abandonado.
Não vigiaram o coração, convenientemente.
Ouviram, em demasia, os prantos familiares terrestres, envolveram-se nos pesados fluidos do clima doméstico e, passada a semana de licença, não conseguiram erguer-se para o regresso.
Estavam como pássaros aprisionados pela visão das tentações.
Os encarregados do noticiário particular voltaram ao Posto sem eles, com grande surpresa para mim.
E, francamente, não sei quando poderão reassumir as funções que lhes cabem, o prejuízo de ambos é muito grande.
Depois de pequena pausa, Alfredo rematou:
— Os vôos de grande altura pedem asas fortes.
Alonso, que ouvia de olhos arregalados, considerou resignado:
— Desisto do pedido.
O senhor tem razão.
O administrador abraçou-o e murmurou:
— Deus ilumine o seu entendimento.
Admiradíssimo, reparei que outros colaboradores se aproximavam, rogando esclarecimentos, pareceres, edificando-me no exemplo do administrador amigo, que respondia em voz firme e afetuosa, demonstrando interesse de irmão.

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OS MENSAGEIROS –
2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Junho de 2020, 00:23
OS MENSAGEIROS
XXVII - O caluniador

Enquanto o administrador se entregava a conversações educativas com os numerosos subordinados, Aniceto chamou-nos a pequena construção Isolada e falou:
— Vejamos outro ensinamento.
Avançamos na direção de algumas câmaras separadas.
Nosso Instrutor abriu uma porta e vimos um louco, que parecia fundamente irritado.
Fixou em nós o olhar inexpressivamente e gritou histericamente.
Aniceto, porém, adiantou-se e cumprimentou-o, atencioso:
— Como vai, Paulo?
As palavras, ao que senti, emitiram certo fluxo magnético e o enfermo revelou profunda modificação.
Aquietou-se de súbito.
Sentou-se mais calmo, embora trêmulo e espantadiço.
— Tem sentido melhoras, Paulo? — perguntou nosso orientador, bondosamente, tocando-o no ombro.
Ao contacto pessoal de Aniceto, o doente mostrou algum raciocínio e respondeu:
— Vou melhorando, graças...
À vista da expressão reticenciosa, o instrutor falou em tom Firme, como se desejasse auxiliar-lhe a vontade enfraquecida:
— Termine!
O doente fez enorme esforço e concluiu:
G. .r. .a. .ç. . a. .s. .a..D. .e. .u. .s.
Anotando-lhe o sofrimento e a indecisão, lembrei dos enfermos das Câmaras, aos quais prestava Narcisa ampla colaboração afetuosa.
Percebendo--me as íntimas considerações, disse o mentor esclarecido:
— Veem a diferença entre os que dormem, os que estão loucos e os que sofrem?
Em “Nosso Lar”, não temos dos primeiros, e os que se encontrem desequilibrados, nos serviços da Regeneração, sentem, na maioria, angústias cruéis.
É necessário reconheçamos que os que gemem e sofrem, em qualquer parte, estão melhorando.
Toda lágrima sincera é bendito sintoma de renovação.
Os escarnecedores, os ironistas e os perturbados que não registram a dor são mais dignos de piedade, por permanecerem embotados em estranha rigidez de entendimento.
E, designando o enfermo sob nossos olhos, afirmou:
— Paulo é um doente a caminho de melhora positiva.
Ainda não possui a consciência exata da situação, mas já chora, já padece com as recordações do passado triste.
Recebi o esclarecimento com atenção. Lembrei-me que, de fato, os doentes conduzidos pelos Samaritanos a “Nosso Lar”, em serviço diário, eram grandes sofredores.
Os que não acusavam padecimentos atrozes, revelavam estranho pavor das sombras.
A única entidade que ali observara, com absoluta inconsciência da própria miséria, fora a de pobre vampiro que não encontrara guarida nas Câmaras de Retificação.
Nosso instrutor, sem qualquer preocupação de transformar o doente em cobaia, recomendou, afetuoso: —
Concentrem no Paulo a capacidade de visão!
Estimulado pela experiência anterior, fixei nele todo o meu potencial de observação.
Aos poucos, caracterizou-se a meus olhos a sua tela mental, parecendo formada em compacta sombra noturna.
Com surpresa, divisei formas diversas que se movimentavam.
Vários vultos de mulher ali surgiam, despertando-me enorme admiração.
Entre eles, reparei o de Ismália como que doente, enfraquecida, ansiosa.
Alguns homens passavam, igualmente, mostrando desesperação, e notei, nessas imagens, o próprio Alfredo a evidenciar cansaço e extrema velhice prematura.
Vozes misteriosas se faziam ouvir.
Sobre Paulo chovia maldições e blasfêmias.
As mulheres pareciam acusá-lo, clamorosamente;
Os homens davam ideia de perseguidores ferozes, ocultos no mundo interior daquele enfermo estranho.
Observando, porém, que os vultos de Ismália e Alfredo se movimentavam naquele painel escuro, não pude sofrear a curiosidade e interrompi o minucioso exame, voltando a conversar com o nosso orientador, perguntando:
— Como explicar o fenômeno?
Estou assombrado! Antes, porém, que pudesse expressar mormente o espanto que me dominara, Aniceto ajuntou:
— Já sei.
Admira-se da presença de Ismália e do seu marido nas reminiscências do enfermo.
E, ante a minha perplexidade, continuou:
— Lembram-se da história de Alfredo?
Temos diante de nós o falso amigo que lhe arruinou o lar.
Paulo, contudo, não somente cometeu a ingratidão, como envenenou o espírito doutras senhoras, traiu outros amigos e destruiu a alegria e a paz doutros santuários domésticos.
Observando Ismália aflita e Alfredo desesperado, nas recordações dele, vemos as imagens criadas pelo caluniador, para seus próprios olhos.
Nossos amigos deste Posto evoluíram, transpuseram a fronteira da mágoa, escaparam aos monstros do ódio, vestem-se hoje de luz;
No entanto, Paulo os vê como imagina, para escarmento de suas culpas.
O criminoso nunca consegue fugir da verdadeira justiça universal, porque carrega o crime cometido, em qualquer parte.
Tanto nos círculos carnais, como aqui, a paisagem real do Espírito é a do campo interior. Viveremos, de fato, com as criações mais íntimas de nossas almas.
Reparando-me a dificuldade para compreender de pronto, Aniceto prosseguiu, depois de pequeno intervalo:
— Para melhor elucidação, recordemos a crucificação do Mestre Divino.
Sabemos que Jesus penetrou na glória sublime logo após a suprema dor do Calvário;
Entretanto, estamos ainda a vê-Lo frequentemente pendurado na cruz, martirizado pelos nossos erros, flagelado pelos nossos açoites, porque a visão interior a isso nos compele.
A condenação do Mestre foi um crime coletivo e esse crime estará conosco até ao dia em que nos vestirmos na divina luz da redenção.
O esclarecimento não poderia ser mais lúcido.
Sentia-me diante de nobre revelação.
— O dever possui as bênçãos da confiança, mas a dívida tem os fantasmas da cobrança — tornou o generoso mentor, com grave acento. Readquirindo a serenidade, interroguei:
— Mas Paulo veio ter casualmente a este Posto?
— Não respondeu Aniceto, atencioso — foi trazido pelo próprio Alfredo, que se sentiu necessitado de disciplinar o coração.
Nosso amigo, que hoje dirige esta casa de amor, desprendeu-se do mundo, sob intensa vibração de ódio e desesperação.
Sofreu muitíssimo nos primeiros tempos, embora nunca fosse abandonado pela dedicação da abnegada companheira.
Alfredo, todavia, não pôde ver Ismália enquanto não se desvencilhou das baixas manifestações do rancor.
Socorrido em “Campo da Paz”, compreendeu as próprias necessidades.
Tão logo adquiriu algum mérito, intercedeu pelo amigo infiel, buscou-o em recanto abismal, e tão nobremente se dedicou ao aperfeiçoamento de si mesmo, que conquistou a posição de administrador de um Posto de Socorro.
Trouxe o tutelado em sua companhia e trata-o como irmão, atualmente.
Não julguem que o marido de Ismália conseguiu essa vitória espiritual tão somente pelo fato de desejá-la.
Ele desejou-a, procurou-a, alimentou-a, e, agora, permanece na realização.
Há muitos anos conversa com Paulo, diariamente.
Nos primeiros tempos, aproximava-se do enfermo, como necessitado de reconciliação;
Depois, como pessoa caridosa;
Mais tarde adquiriu entendimento, comparando situações;
Em seguida, sentiu piedade;
Logo após, experimentou simpatia e, presentemente, conquistou a verdadeira fraternidade, o amor sublime de irmão pelo ex-inimigo.
Fazendo pequena pausa, voltou a dizer, espirituosamente:
— Como veem, o ensinamento de Jesus, quanto ao “batei e abrir-sevos-á”, é muito extenso.
No plano da carne, insistimos à porta das coisas exteriores, procurando facilidades e vantagens;
Mas, aqui, temos de bater à porta de nós mesmos, para encontrar a virtude e a verdadeira iluminação.
Vicente, que até então se conservara calado, indagou:
— Paulo, todavia, permanecerá aqui, indefinidamente?
Nosso instrutor fez um gesto significativo e concluiu:
— Voltará breve à Terra.
Ismália tem feito a seu favor inúmeras intercessões e não deseja que ele, ao retomar a razão plena, se sinta humilhado, com o benefício das próprias vítimas.
Uma das irmãs, por ele caluniada no mundo, já voltou ao círculo carnal, e a abnegada esposa de Alfredo pediu-lhe que recebesse Paulo como filho, tão logo seja oportuno.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Junho de 2020, 00:24
OS MENSAGEIROS
XXVIII - Vida social

À noite, surpreendiam-me os sublimes aspectos do firmamento no Posto de Socorro.
O luar safirino envolvia todas as coisas, o céu era qual infinita colcha de azul muito límpido, pontilhado de astros fulgurantes.
As nuvens da tarde haviam desaparecido.
Contemplando a beleza da noite, Alfredo acentuou:
— Felizmente, os fenômenos magnéticos foram deslocados do nosso círculo.
Os aparelhos, porém, continuam registrando enorme conflito de forças inferiores.
Ia comentar a beleza do céu, ante a observação do administrador, quando a campainha retiniu suavemente.
Chamavam à entrada.
Alfredo e Ismália sorriram.
Muito gentil, o chefe do Posto asseverou:
— Temos a visita de amigos do “Campo da Paz”.
E, convidando-nos à recepção no baluarte avançado, acrescentou jovialmente:
— Temos, também, aqui, a nossa vida social.
Como não?
É preciso saber viver.
Encantado com essa nota alegre, acompanhei os donos da casa, verificando, com indizível surpresa, que tínhamos sob os olhos um belo carro tirado por dois soberbos cavalos brancos.
Tratava-se de veículo confortável e interessante, quase idêntico aos velhos carros de serviço público, do tempo de Luís XV, que eu vira, mais de uma vez, em publicações antigas.
Nele chegara pequena família da colônia próxima, que, pelas informações de Aniceto, demorava a três léguas do Posto, aproximadamente.
Alfredo apresentou-nos, cavalheirescamente, com exceção de nosso orientador, que era velho amigo dos recém-chegados.
Constituíam-se os visitantes do casal Bacelar e duas filhas jovens.
O chefe do grupo mostrava idade avançada, revelando, porém, excelentes disposições.
A senhora dava impressão de madureza, aparentando, contudo, maravilhosa vivacidade, assim como as duas moças.
A alegria era enorme.
Não se observava qualquer nota de convencionalismo menos digno, como na Terra.
Os gestos de cada um, a simplicidade, a despreocupação e as frases afetuosas demonstrava sinceridade pura.
Permanecíamos num quadro social inacessível ao fingimento.
Voltando ao interior doméstico, entre grandes manifestações de júbilo familiar, observei que os recém-chegados eram amigos de muito tempo, que vinham ao encontro de Ismália.
A nobre senhora pareceu-me contentíssima.
Expediu recados afetuosos para algumas famílias do Posto e, em breves minutos, o castelo recebia inúmeras pessoas que concorriam ao brilhantismo da seleta reunião.
Sentindo-me assaz insignificante, ao lado dos novos amigos, limitava-me a ouvir e observar.
Logo aos primeiros instantes de conversação particularizada, ouvi Aniceto perguntar ao senhor Bacelar:
— Como corre o serviço?
O velho bondoso respondeu num sorriso largo:
— Bem, sempre bem.
Apenas não podemos fixar demasiada atenção nos companheiros encarnados.
E ajuntou com graça:
— É indispensável aprender a servir e passar.
Nosso instrutor sorriu igualmente e observou:
— Compreendo, compreendo.
Aliás, o progresso humano não é uma questão de dias.
Não tenhamos ilusões.
E, percebendo que Vicente e eu poderíamos aproveitar com a palestra, Aniceto indicou o novo hóspede de Alfredo, explicando solícito:
— Nosso salgo Bacelar é chefe de turmas de assistência aos nossos irmãos do círculo carnal.
Tem longa experiência dos homens e conhece-os como ninguém.
Há muito que aproveitar nas suas observações.
— Não tanto, meus caros — exclamou o senhor Bacelar, de bom humor — não tanto.
Sou simples companheiro de vocês, cumprindo deveres por acréscimo da misericórdia divina.
Não posso fazer muito, em razão de minhas deficiências naturais.
— Estamos certos do grande proveito da sua palavra — objetou Vicente, até então calado.
— Tudo o que nos disser sobre o problema de assistência constituirá, para nós, ensinamento precioso — disse por minha vez.
O novo amigo fitou-nos com inteligência, e perguntou:
— Foram médicos no mundo?
— Sim — respondemos a um só tempo.
O senhor Bacelar pensou alguns momentos e acentuou:
— Sempre gostei de conversar com os amigos, recorrendo aos símbolos sugeridos pela profissão que exercem.
Mas, no tocante às minhas atividades, não teria muito o que dizer a médicos militantes.
— Pelo contrário — aduzi — seus esclarecimentos enriquecerão nossas experiências.
O interlocutor sorriu, otimista, e declarou:
— Não creia.
Recorde os seus doentes comuns.
Muito raramente lembram a medicina preventiva.
De modo quase invariável, esperam a positivação das moléstias para buscarem o recurso preciso.
Necessitam de anestésicos para o socorro do bisturi.
Fogem ao regime tão logo surja a primeira melhora.
Confundem o método de tratamento, apenas se registre o primeiro sinal de cura.
Detestam a dor que restabelece o equilíbrio.
Descontentam-se com a indicação de purgativos.
Preferem a medicação de sabor agradável.
E, sobretudo, quase sempre querem saber muito mais que os médicos.
Esta síntese aplicável a corpos doentes representa, em nosso campo de serviço, o resumo do programa de assistência aos Espíritos enfermos, encarnados na Terra, e com agravantes de vulto, porque, em nosso setor, não podemos manipular a alma, à maneira do cirurgião que opera as amídalas.
Somos forçados à preparação do campo mental conveniente, a proceder à semeadura de pensamentos novos, velar pela germinação, ajudar os rebentos minúsculos e aguardar a obra do tempo.
Nossa luta não é simples, porque, se o clínico do mundo encontra sempre familiares amorosos, dispostos a cooperar com ele em benefício do doente, o que encontramos, por nossa vez, são enormes legiões de elementos adversos à nossa atividade restauradora e curativa.
Em geral, o médico do mundo presta socorro a quem deseja recebê-lo, pelo menos nas ocasiões de graves perigos;
Nós, porém, meus amigos, muitas vezes temos de prestar assistência aos que não a desejam, por viverem sob véus de profunda ignorância.
— Tem razão — murmurei, ouvindo comparações tão lógicas —;
Entretanto, vale por conforto a certeza de que há muitos cooperadores encarnados no mundo prontos a colaborar na tarefa.
O senhor Bacelar teve uma expressão fisionômica muito significativa, e revelou:
— Nem sempre.
A cooperação é outro problema:
A maioria dos irmãos que se propõem ao serviço, partem daqui prometendo, mas gostam de viver descansados, no planeta.
Poucos fogem ao estalão comum.
Raramente encontramos companheiros encarnados com bastante disposição para amar o trabalho pelo trabalho, sem ideia de recompensa.
A maioria está procurando remuneração imediata.
Nessas condições, não percebem que a mente lhes fica como aposento escuro, atulhado de elementos inúteis.
À força de viciarem raciocínios, confundem igualmente a visão.
Enxergam tormentas onde há paisagens celestes, montanhas de pedra onde o caminho é gloriosa elevação.
De pequenos enganos a pequenos enganos, formam o continente das grandes fantasias.
Daí por diante, a recapitulação das experiências terrenas inclina-os, mais fortemente, para a exigência animal e, chegados a esse ponto, raros voltam ao dever sagrado, para considerar a grandeza das divinas bênçãos.
Nosso interlocutor fez uma pausa e tornou:
— E o “desculpismo”?
Nesse terreno de assistência espiritual, verão, um dia, quantos pretextos são inventados pelas criaturas terrestres por fugir ao testemunho da verdade divina, nas tarefas que lhes são próprias.
Os mordomos da responsabilidade alegam excesso de deveres, os servidores da obediência afirmam ausência de ensejo.
Os que guardam possibilidades financeiras montam guarda ao patrimônio amoedado, os que receberam a bênção da pobreza de recursos monetários aconselham-se com a revolta.
Os moços declaram-se muito jovens para cultivar as realidades sublimes, os mais idosos afirmam-se inúteis para servi-las.
Os casados reclamam quanto à família, os solteiros queixam-se da ausência dela.
Dizem os doentes que não podem, comentam os sãos que não precisam.
Raros companheiros encarnados conseguem viver sem a contradição.
O senhor Bacelar parecia disposto a prosseguir, mas as duas jovens foram buscá-lo, a ele e Aniceto, em nome de Alfredo, a fim de providenciar solução de problema íntimo que lhes dizia respeito.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 14 de Junho de 2020, 13:31
OS MENSAGEIROS
XXIX - Notícias interessantes

Em vista de apresentação mais íntima de Aniceto, que deixara as jovens em nossa companhia, entramos a conversar animadamente com Cecilia e Aldonina.
A primeira tinha sido filha dos Bacelar, quando na Crosta;
A segunda era uma sobrinha do chefe da família, que aguardava a volta da mãezinha para a organização de um lar na cidade próxima.
Ambas demonstravam magnífico desenvolvimento mental, robusta inteligência e notável capacidade de expressão.
E, enquanto os nossos maiores se conservavam afastados, cogitando de assunto privado, Vicente e eu ouvíamos as jovens, encantados com a sua nobreza e vivacidade.
Verificava que o quadro era idêntico à paisagem social da Terra, apenas diferindo quanto aos sentimentos reais.
Não havia qualquer nota de falsa apresentação.
Em tudo a alegria pura, a simplicidade fiel, a sinceridade sem mácula.
No desenvolvimento espontâneo da palestra, falou Cecilia, com graça:
— Estou trabalhando, há muito, para alcançar um prêmio de visita a “Nosso Lar”.
Minhas superioras prometeram-me semelhante satisfação para o ano próximo...
E, sorrindo, rematou expressivamente:
— Entretanto, para consegui-lo, tenho de atender a umas tantas obrigações importantes.
— Pois quê! — perguntou Vicente, admirado — é preciso tanto?!
— Sem dúvida — tornou a jovem, bem humorada — o meu amigo talvez não esteja convencido, quanto ao brilho de sua atual posição.
Viver em “Nosso Lar” é uma grande bênção.
Acaso não o terá compreendido ainda?
Sorrimos todos.
E, reafirmando o conceito, Cecilia continuou:
— Segundo os instrutores que nos visitam em “Campo da Paz”, os seus Ministérios são verdadeiras universidades de preparação espiritual.
O ensejo educativo, neles, é imenso.
E chego a crer que, para avaliarem a extensão da benesse que Jesus lhes concedeu, seria necessário viverem alguns anos em nossa colônia, onde o trabalho ativo de vigilâncias e assistência é mais imperioso, mais exigente.
— Em “Nosso Lar”, porém — objetei —, temos um grande número de sofredores.
A Regeneração é uma colmeia de milhares.
A interlocutora, todavia, revelando profunda acuidade nas observações, considerou:
— Você diz muito bem, quando se refere à colmeia, significando possibilidades de trabalho.
Creia que os sofredores que atingem o seu núcleo já se encontram a caminho de excelentes realizações.
Naturalmente que os irmãos desequilibrados, que por lá existem, já se torturam pelo vagaroso despertar da consciência, já sentem remorsos e arrependimentos indicativos de renovação.
São sofredores que melhoram progressivamente, porque o ambiente da cidade é de elevação positiva.
Onde a maioria vive com a bondade, a maldade da minoria tende sempre a desaparecer. “Nosso Lar”, portanto, mesmo para os que choram, possui soberanas vantagens espirituais.
Impressionado com o que ouvia, lembrei:
— Eu mesmo trabalhei algum tempo, em cooperação, nas câmaras retificadoras.
— Já ouvi diversas referências a essa instituição — exclamou Cecilia, senhora do assunto —, mas, baseando-me nos informes de mentores amigos, continuo a manter minha opinião.
E, como se já conhecesse nossos processos de serviço, asseverou, sorridente:
— Vocês conhecem lá muitos espíritos sofredores, mas, em “Campo da Paz conhecemos muitos espíritos obsessores.
Lá poderá existir muita gente que ainda chora;
Mas em nosso meio há muita gente que se revolta.
É mais fácil remediar o que geme, que atender ao revoltado.
Nas câmaras a que se refere, vocês retificam erros que já apareceram, dores que já se manifestaram;
Mas aqui, meu amigo, somos compelidos a lutar com irmãos ignorantes e perversos, que se sentem absolutamente certos nas fantasias perigosas que esposaram, e vemo-nos obrigados a atender a doentes que não acreditam na própria enfermidade.
Começava a entender a lógica daquela argumentação, e, reconhecendo a impossibilidade de qualquer contradita, a jovem continuou, segura de si:
— Aliás, é natural que assim seja.
Estamos a pouca distância dos homens, nossos irmãos na carne.
E sabemos que, na Crosta, a situação não é diferente.
Quantos materialistas se fantasiam, por lá, de filósofos?
Quantos demônios com capa de santos?
Quanta má fé a fingir generosidade e boas intenções?
A influência da Humanidade encarnada em nosso núcleo de serviço é vigorosa e inevitável.
Vicente, que ouvia atencioso, obtemperou:
— Deduzo de tudo isso manifestações sacrificantes muito grandes, mas o trabalho em “Campo da Paz” deve ser altamente meritório.
— Incontestavelmente — respondeu a jovem. — A história da fundação é interessante.
Alguns benfeitores, reconhecidos a Jesus, resolveram organizar, em nome dele, uma colônia em plena região inferior, que funcionasse como Instituto de socorro imediato aos que são surpreendidos na crosta com a morte física, em estado de ignorância ou de culpas dolorosas.
O projeto mereceu a bênção do Senhor e o núcleo se criou, há mais de dois séculos.
Nem todos os Espíritos evoluídos, no entanto, estimam o serviço nesse órgão de assistência constante.
A maioria dos missionários vitoriosos, ao se ausentarem da Terra, necessitam refazer energias, por direito natural do trabalhador fiel, e os mentores de nobre posição hierárquica têm seus programas de serviços, que não devem quebrar, em obediência aos desígnios do Senhor.
Desse modo, nosso serviço é ativo, mas nossas aquisições são lentas e devemos sempre esperar por cooperadores que se eduquem na própria colônia, em benefício geral.
Ganha-se excelente recompensa, temos direito a grandes valores intercessários, mas, por isso mesmo, nossas responsabilidades não são pequenas.
Conhecendo a utilidade dos que servem em nossa colônia, não passamos nunca sem instrutores abnegados, que procedem da zona superior, alentando-nos o bom ânimo.
O que pedimos, com fundamentação legítima, nunca é negado;
E, se tarda o recurso, beneméritos orientadores de nossas atividades prestam explicações que nos libertam de qualquer angústia na espera.
Por isso, nosso grupo está sempre coeso e muitos preferem adiar certas realizações sublimes, para permanecer ao lado de companheiros antigos, aos quais se unem com desvelado amor.
Os esclarecimentos da jovem encantavam-me.
Naquelas poucas palavras estava todo um resumo de lições sobre o sacrifício e o merecimento, o compromisso fraterno e a solidariedade compensadora.
— A sua família sempre viveu lá? — perguntei com interesse.
A jovem sorriu e explicou:
— Meu pai, há mais de cinquenta anos, foi socorrido pelos benfeitores de “Campo da Paz” e, restabelecida a saúde espiritual, fixou-se na colônia, com razoável impulso de amizade e gratidão.
E mais tarde, minha mãe reuniu-se a ele e, faz precisamente vinte anos, Aldonina e eu fomos atraídas amorosamente por ambos, a fim de continuarmos, ali, no santuário familiar.
Desse modo, trabalhamos ao lado deles, desde a primeira hora.
— E tem muitos programas para o futuro? Indaguei.
Cecilia fez um gesto que lhe caracterizava o coração de moça sonhadora, e redarguiu:
— Tenho muitos projetos e problemas a resolver, mas estou aguardando a chegada de alguém que ainda se encontra na Terra.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Julho de 2020, 12:22
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XXX - Em palestra afetuosa

Voltávamo-nos em conversação para as belezas de “Nosso Lar”, quando Aldonina interveio, acrescentando:
— Alguns membros de nossa família visitam a cidade de vocês, de tempos a tempos.
Nossa irmã Isaura, que se casou em “Campo da paz” há três anos, lá reside em companhia do esposo que é funcionário dos Serviços de investigação do Ministério do Esclarecimento.
Percebendo-nos a curiosidade, prosseguiu:
— Morava ele conosco, mas, desde tempo, foi convocado a serviços por lá, indo, mais tarde, buscar a noiva.
Vicente, que se mantinha em atitude séria, exclamou:
— Tocamos num assunto que muito me tem despertado, desde que regressei aos círculos terrenos.
Não tinha, no mundo, nenhuma idéia de que pudéssemos cogitar de uniões depois da morte do corpo.
Quando assisti a festividades dessa natureza, em “Nosso Lar’ confesso que minha surpresa ralou pela estupefação.
Cecília, vivaz, acentuou, sorrindo:
— Isto se deu também conosco.
É forçoso reconhecer que tal estado d’alma resulta do exclusivismo pernicioso a que nos entregamos no plano carnal, porque, se o casamento humano é um dos mais belos atos da existência na Terra, porque deixaria de existir aqui, onde a beleza é sempre mais quintessenciada e mais pura?
E, além do mais, é imprescindível ponderar que não vivemos à revelia de leis sábias e justas.
— E como são felizes os que se casam em nossos planos! — acentuou o companheiro, denotando aspirações secretas do coração.
Aldonina esboçou um gesto expressivo e considerou:
— Sim, para possuirmos aqui essa ventura, é preciso ter amado na Terra, movimentando os mais nobres impulsos do espírito.
Para colher os júbilos dessa natureza, é necessário ter amado com almas.
Os que se consagram exclusivamente aos desejos do corpo, não sabem amar além da forma, sendo incapazes de sentir as profundas vibrações espirituais do amor sem morte.
Desejando, porém, retomar o assunto referente a ela interroguei, curioso:
— Continuem falando-nos da irmã que se mudou para “Nosso Lar”.
Estimaria saber como se realizou o consórcio.
Se você, Cecilia, está aguardando um prêmio de visita à nossa cidade, como se casou ela, transferindo-se para lá definitivamente?
Cecilia sorriu e retrucou:
— Isto é outro caso.
Isaura não poderia correr atrás do noivo, porque estava em situação inferior à dele, mas Antônio, como superior, poderia descer a buscá-la.
Não creiam, porém, que o matrimônio se tenha verificado sem qualquer preparação ou exigência.
O noivo poderia conduzi-la sem qualquer formalidade, desde que recebesse o devido consentimento, porquanto obtivera permissão das autoridades de “Nosso Lar”, mas um dos chefes de serviço aconselhou a Isaura, nesse sentido, explicando-lhe que, como administrador de uma colônia em condições de inferioridade, não podia opor qualquer embargo, mas pedia à noiva preparar-se, por seis anos sucessivos, em “Campo da Paz”, antes da partida definitiva, acrescentando sensatamente que, num casamento de almas, é indispensável apurar o enxoval dos sentimentos.
Nossa irmã, que foi sempre muito prudente, aceitou a solicitação e trabalhou durante todo esse tempo em nossa colônia, adquirindo valores culturais e aprimorando o campo do pensamento.
Recebia essas delicadas informações, sem disfarçar a enorme surpresa.
— Já fui visitar o casal, uma vez — disse Aldonina, honrada — quando ganhei o prêmio de assiduidade e bom comportamento.
Estive em “Nosso Lar”, durante uma quinzena inesquecível para mim.
No entanto, embora visitasse sublimes instituições como o Bosque das Águas, o Salão da Arte Divina, o Campo da Prece Augusta, reconheço ter voltado muito longe de um conhecimento integral da enorme cidade.
Lá irei, contudo, mais tarde, pois continuo em meu trabalho e nossos instrutores afirmam sempre que tudo de bom deve aguardar do destino quem saiba servir ao bem e trabalhar com esperança.
Admirando a beleza de sentimentos daquelas jovens indaguei emocionado:
— Mas não têm vocês, em “Campo da Paz”, instituições semelhantes?
Não existirão, por lá, templos de alegria abertos à juventude?
— Ah! sim — murmurou Cecilia como quem não desejava ser ingrata às Bênçãos do Eterno —, muito nos dá o Senhor, em nossa colônia;
Entretanto, permanecemos na vizinhança dos irmãos encarnados.
As tempestades que nos atingem, obrigam-nos a serviços constantes.
Os quadros inferiores que nos cercam são profundamente dolorosos.
Nossa cidade não possui Ministérios da União Divina, nem da Elevação.
Não podemos receber a influência superior com muita facilidade.
Nossos trabalhos de comunicação e auxílio necessitam ainda de muita gente educada no Evangelho, para funcionar com eficiência.
Além disso, temos os problemas de finalidade.
Nossa colônia foi instituída para socorro urgente.
A nosso ver, “Campo da Paz” é, mais que tudo, um avançado centro de enfermagem, rodeado de perigos, porque os irmãos ignorantes e infelizes nos cercam o esforço por todos os lados.
De dez em dez quilômetros, nas zonas de nossa vizinhança, há Postos de Socorro como este, que funcionam como instituições de assistência fraternal e sentinelas ativas, ao mesmo tempo.
A jovem fez uma pausa mais longa, observando o efeito de suas palavras, e rematou:
— Nosso governador, quando se agravam os serviços, costuma asseverar que estamos num campo de batalha, com a Paz de Jesus.
Imagem alguma define tão bem o nosso núcleo, como esta.
No exterior, o trabalho é rigoroso e incessante, mas, dentro de nós, existe uma tranqüilidade que nós mesmos dificilmente podemos compreender.
— O serviço circunscreve-se à cidade? — perguntei.
— Não — o trabalho é multiforme.
Eu e Aldonina, por exemplo, temos grandes tarefas de assistência junto dos recém-encarnados.
Nossa cidade prepara, em média, quinze a vinte reencarnações diárias e torna-se imprescindível assistir os companheiros ou tutelados, pelo menos no período infantil mais tenro, que compreende os primeiros sete anos de existência carnal.
E talvez porque lesse em nossos olhos a mais viva admiração, a jovem adiantou-se, explicando:
Felizmente, porém, temos as faculdades de volitação bastante adestradas.
Raramente encontramos empecilhos vibratórios e podemos, por isso mesmo, agir com grande economia de tempo.
Além disso, somente nossos instrutores vão ao serviço sozinhos.
Quanto a nós, não saímos, a não ser em grupos.
Necessitamos auxílio recíproco, não só no que diz com a eficiência, senão também no que se refere ao amparo magnético.
E, sorrindo de modo singular, concluiu:
— No trabalho de assistência aos outros e defesa de nós mesmos, não podemos dispensar a prática avançada e justa da cooperação sincera.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Julho de 2020, 12:23
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31 Cecília ao órgão

Poucas vezes, no círculo carnal, tivera o prazer de assistir a reunião tão seleta.
Todos os lustres estavam magnificamente acesos e, lá fora, as grandes árvores, docemente agitadas pelo vento brando, pareciam refletir o clarão lunar.
Pares graciosos passeavam ao longo da varanda e das escadarias extensas.
O castelo enchera-se de alegria, com a crescente multiplicação de convidados.
O administrador mostrava-se orgulhoso de confraternizar com os colaboradores diretos da sua obra, na recepção condigna aos amigos da colônia próxima.
O júbilo transparecia em todos os rostos e eu, observando a beleza do espetáculo, meditava na ventura da vida social, no ambiente daqueles que começavam a compreender e praticar o “amai-vos uns aos outros”, distanciados da hipocrisia e das convenções aviltantes.
Conversávamos, animadamente, quando Alfredo nos convidou para o Salão de Música.
Houve geral contentamento.
A senhora Bacelar, dando o braço à nobre Ismália, parecia encantada com a lembrança.
Dirigimo-nos para o grande recinto, prodigiosamente iluminado por luzes de um azul doce e brilhante.
Deliciosa música embalava-nos a alma.
Observei, então, que um coro de pequenos músicos executava harmoniosa peça, ladeando um grande órgão, algo diferente dos que conhecemos na Terra.
Oitenta crianças, meninos e meninas, surgiam, ali, num quadro vivo, encantador.
Cinquenta tangiam instrumentos de corda e trinta conservavam-se, graciosamente, em posição de canto..
Executavam, com maravilhosa perfeição, uma linda barcarola que eu nunca ouvira no mundo.
Comovidíssimo, ouvi o administrador explicar:
– As crianças do Posto são as nossas flores vivas.
Dão-nos perfume, encantamento, alegria, suavizando-nos todos os trabalhos.
Abeiramo-nos do órgão, sentando-nos todos em confortáveis poltronas.
Quando as crianças terminaram, sob aplausos calorosos, Ismália pediu a Cecília executasse alguma coisa.
– Eu? – disse a jovem, corando – se a senhora vem das altas esferas, onde a harmonia é santificada e pura, como poderei executar para os seus ouvidos?
– Não diga isso, Cecília – tornou, sorridente, a generosa esposa do administrador –, a música elevada é sublime em toda parte.
Vá, minha filha!
lembre-me o lar terreno nos dias mais belos!...
E, antes que a jovem Bacelar perguntasse qual a peça preferida, Ismália continuou:
– Os serviços musicais do Posto levam-me a recordar a velha Fazenda, quando voltava do Internato...
Meus pais estimavam as composições européias e, quase todas as noites, ensaiava ao piano... E, fixando em Cecília os olhos úmidos e brilhantes, rematou:
– Sua mamãe deve lembrar comigo a música predileta de meu velho e carinhoso pai...
Notei que a senhora Bacelar disse alguma coisa à filha, em voz baixa, e vimos Cecília caminhar para o grande instrumento, sem hesitação.
Com emoção indizível, ouvimo-la executar, magistralmente, a ‘Tocata e Fuga em Ré Menor”, de Bach, acompanhada pelas crianças exultantes.
Fixei o rosto de Ismália, notando, pela luz do seu olhar, que seus pensamentos vagueavam longe, talvez em torno do antigo ninho doméstico.
Vi-a enxugar as lágrimas discretas e abraçar Cecília carinhosamente, ao findar a execução.
– Agora, Cecília, cante alguma canção da própria alma! – falou a nobre senhora com ternuras de mãe – mostre-nos seu coração...
Os senhores Bacelar estavam satisfeitos e emocionados.
Liase-lhes nos gestos o carinho com que acompanhavam os menores movimentos da filha.
A jovem sorriu, voltou ao teclado, mas permanecia, agora, fundamente transfigurada.
Seu belo semblante parecia refletir alguma luz diferente, que vinha de mais alto.
Começou a cantar, de maneira misteriosa e comovedora.
A música parecia sair-lhe das profundezas do coração, mergulhando-nos em sublime emotividade.
Procurei guardar as palavras da maravilhosa canção, mas seria impossível repeti-las integralmente, no círculo dos encarnados na Terra.
A sombra da meia-noite não poderia traduzir o revérbero da aurora.
Mas de algo me lembro, para registrar aqui, com a fidelidade de que é suscetível minha memória imperfeita.
Como se fora rodeada de claridades diversas daquela em que nos banhávamos,
Cecília cantou com voz veludosa e cariciante:

“Guardei para os teus olhos
As estrelas brilhantes do céu calmo...
Guardei para tua alma
Todos os lírios puros dos caminhos!...
Amado meu, amado meu,
Como é longa a viagem entre escolhos
Neste oceano imenso da saudade,
Ao sublime luar da eternidade!...
Em vão, a fada Esperança
Acende a luz dentro de mim...
Porque te foste ao mundo, assim?
Volta, amado!
Ainda mesmo
Que as tuas mãos estejam frias
E que teus pés sangrem de dor.
Trago comigo o bálsamo, a ternura,
Volta a mim,
Vem respirar, de novo, no jardim
Da Imortal união!...
Curarei tuas chagas de amargura,
Dar-te-ei o roteiro para a estrada,
Amarei os que amas,
Para que me abençoes com o teu sorriso.
Volta, amado!
Esquece a dor e a sombra do passado,
Volta, de novo, ao nosso paraíso!...”

Quando desferiu as últimas notas, vi-lhe o semblante lavado em lágrimas, como se fora banhado em pérolas de luz.
Observei que a senhora Bacelar, muitíssimo comovida, tocou de leve a mão de Ismália, e falou:
– Cecília nunca o esquece.
A esposa do administrador, mostrando-se extremamente sensibilizada, indagou:
– Não têm vocês novas notícias de Hermínio?
– O pobrezinho tem vivido de queda em queda – esclareceu a nobre interlocutora – e Cecília sabe que não poderá contar com ele, por muito tempo ainda, guardando, por esse motivo, muita mágoa íntima.
Entretanto, nossa filha não desanima e trabalha, incessantemente, cheia de esperança.
Nesse momento, porém, a jovem regressava ao círculo familiar, enxugando os olhos.
A esposa de Alfredo abraçou-a e falou:
– Minhas felicitações! não sabia que você progredira tanto na arte divina!
E que bela canção!...
Cecília fez um gesto de timidez, beijou a mão da carinhosa amiga e retrucou: –
Perdoe-me, querida Ismália, meu coração permanece ainda muito ligado à Terra!...
Ismália, porém, de olhos úmidos e compreendendo-lhe o sofrimento íntimo, conchegou-a ao peito e murmurou:
– Devotar-se não é crime, minha boa Cecília.
O amor é luz de Deus, ainda mesmo quando resplandeça no fundo do abismo.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Julho de 2020, 12:24
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32 - Melodia sublime

Num gesto nobre, Aniceto pediu a Ismália que executasse algum motivo musical de sua elevada esfera.
A esposa de Alfredo não se fez rogada.
Com extrema bondade, sentou-se ao órgão, falando, gentil:
— Ofereço a melodia ao nosso caro Aniceto.
E, ante nossa admiração comovida, começou a tocar maravilhosamente.
Logo às primeiras notas, alguma coisa me arrebatava ao sublime.
Estávamos extasiados, silenciosos.
A melodia, tecida em misteriosa beleza, inundava-nos o espírito em torrentes de harmonia divina.
Penetrava-me o coração um campo de vibrações suavíssimas quando fui surpreendido por percepções absolutamente inesperadas.
Com assombro indefinível, reparei que a esposa de Alfredo não cantava, mas no seio caricioso da música havia uma prece que atingia o sublime — oração que eu não escutava com os ouvidos mas recebia em cheio na alma, através de vibrações sutis, como se o melodioso som estivesse impregnado do verbo silencioso e criador.
As notas de louvor alcançavam-me o âmago do espírito, arrancando-me lágrimas de intraduzível emotividade:

“Ó Senhor Supremo de Todos os Mundos
E de Todos os Seres,
Recebe, Senhor.
O nosso agradecimento
De filhos devedores do teu amor!
Dá-nos tua bênção,
Ampara-nos a esperança,
Ajuda-nos o ideal
Na estrada imensa da vida...
Seja para o teu coração,
Cada dia,
Nosso primeiro pensamento de amor!
Seja para tua bondade
Nossa alegria de viver!...
Pai de amor infinito
Dá-nos tua mão generosa e santa.
Longo é o caminho.
Grande o nosso débito,
Mas inesgotável é a nossa esperança.
Pai Amado,
Somos as tuas criaturas,
Raios divinos
De tua Divina Inteligência.
Ensina-nos a descobrir
Os tesouros imensos
Que guardaste
Nas profundezas de nossa vida,
Auxilia-nos a acender
A lâmpada sublime
Da Sublime Procura!
Senhor, Caminhamos contigo
Na eternidade!...
Em Ti nos movemos para sempre.
Abençoa-nos a senda,
Indica-nos a Sagrada Realização,
E que a glória eterna
Seja em teu eterno trono!...
Resplandeça contigo a Infinita Luz,
Mane em teu coração misericordioso
A soberana Fonte do Amor,
Cante em tua Criação Infinita
O sopro divino da Eternidade.
Seja a tua bênção
Claridade aos nossos olhos,
Harmonia ao nosso ouvido,
Movimento às nossas mãos,
Impulso aos nossos pés.
No amor sublime da Terra e dos Céus!...
Na beleza de todas as vidas,
Na progressão de todas as coisas,
Na voz de todos os seres,
Glorificado sejas para sempre,
Senhor.

Que melodia era aquela que se ouvia através de sons inarticulados?
Não pude conter as lágrimas abundantes.
Cecilia comovera-nos a sensibilidade, lembrando as harmonias terrenas e os afetos humanos.
Ismália, no entanto, arrebatava-nos o Espírito, elevando-nos ao Supremo Pai.
Nunca ouvira oração de louvor como aquela!
Além disso, a esposa de Alfredo glorificava o Senhor de maneira diferente, inexprimível na linguagem humana.
A prece tocara-me as recônditas fibras do coração e reconhecia que nunca meditara na grandeza divina, como naquele instante em que uma alma santificada falava de Deus, com a maravilha de suas riquezas espirituais.
E não era só eu a chorar como criança.
Aniceto enxugava os olhos, de maneira discreta, e algumas senhoras levavam o lenço ao rosto.
Compreendi que a oração terminara, porque a música mudou de expressão.
O caráter heróico cedeu lugar a lirismo encantador.
Experimentando a profunda serenidade ambiente, vi que luzes prodigiosas jorravam do Alto sobre a fronte de Ismália, envolvendo-a num arco irisado de efeito magnífico e, com admiração e enlevo, observei que belas flores azuis partiam do coração da musicista, espalhando-se sobre nós.
Desfaziam-se como se feitas de cariciosa bruma anilada, ao tocar-nos, de leve, enchendo-nos de profunda alegria.
A maior parte caía sobre Aniceto, fazendo-nos recordar as palavras amigas da dedicatória.
Impressionavam-me profundamente aquelas corolas fluídicas, de sublime azul-celeste, multiplicando-se, sem cessar, no ambiente, e penetrando-nos o coração como pétalas constituídas apenas de colorido perfume.
Sentia-me tão alegre, experimentava tamanho bom ânimo que não conseguiria traduzir as emoções do momento.
Mais alguns minutos e Ismália terminou a magistral melodia.
A esposa do administrador desceu até nós, coroada de intensa luz.
Alfredo avançou, beijando-a no rosto, ao mesmo tempo que Aniceto lhe estendia a destra, agradecido.
— Há muito tempo não ouvia músicas tão sublimes como as desta noite — exclamou nosso orientador, sorrindo.
Cecilia falou-nos do sublime amor terrestre, Ismália arrebatou-nos ao divino amor celestial.
Ideia feliz a de permanecermos no Posto!
Fomos igualmente socorridos pela luz da amizade, que nos revigorou o bom ânimo!
Aproximaram-se os Bacelar, eminentemente comovidos.
— Que maravilhosas flores nos deste, querida amiga! — disse a mãezinha de Cecilia, abraçando a esposa de Alfredo.
— Voltaremos ao trabalho, repletos de energia nova! — acrescentou o senhor Bacelar, sorridente.
A extensa sala estava cheia de notas de reconhecimento e júbilo sincero.
A melodia de Ismália constituíra singular presente do Céu.
A alegria e o bom ânimo transpiravam em todos os rostos.
Observando que Aniceto se retirava para um canto do salão, procurei-o, ansioso.
Desejava esclarecer o fenômeno da prece sem palavras, das harmonias, das luzes e das flores.
Antes, porém, das interpelações do aprendiz, o orientador amigo sorriu, amável, e explicou:
— Conheço a sua sede, André.
Não precisa perguntar.
Impressionou-se você com a grandeza espiritual da nobre companheira do nosso amigo.
Não precisarei alinhar esclarecimentos.
Recorda-se de Ana, a infeliz criatura que dorme nos pavilhões, entre pesadelos cruéis?
Lembra-se de Paulo, o caluniador?
Não os viu carregando pesados fardos mentais?
Cada um de nós traz, nos caminhos da vida, os arquivos de si mesmo.
Enquanto os maus exibem o inferno que criaram para o íntimo, os bons revelam o paraíso que edificaram no próprio coração.
Ismália já amontoou muitos tesouros que as traças não roem.
Ela já pode dar da infinita harmonia a que se devotou pela bondade e pelo divino amor.
A luz que vimos é a mesma que jorra do plano superior, de maneira incessante, inundando os caminhos da vida, mas a melodia, a prece e as flores constituem sublime criação dessa alma santificada.
Ela repartiu conosco, neste momento, uma parte dos seus tesouros eternos!
Peçamos ao Senhor, meu amigo, que não tenhamos recebido em vão as sublimes dádivas!

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Julho de 2020, 12:26
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33 - A caminho da Crosta

Após nos refazermos pela manhã, considerando a viagem ainda longa, despedimo-nos, comovidos.
Pelo menos, quanto a mim podia afirmar que me afastava com mágoa, tão belas as lições ali colhidas!
Alfredo e a esposa nos abraçaram, sensibilizados, desejando-nos jornada feliz e êxito no trabalho.
Vários amigos da véspera estavam presentes, saudando-nos jubilosos.
Tomamos o carro, agradavelmente surpreendidos.
Ser-me-ia muito difícil descrever a pequena máquina, que mais se assemelhava a pequeno automóvel de asas, a deslocar-se impulsionado por fluidos elétricos acumulados.
Sempre atencioso, Aniceto explicou:
— Aceitei a cooperação do aparelho, não por que os deseja escravizados ao menor esforço, mas porque a permanência, embora ligeira, no Posto de Socorro, constituiu ensejo dos mais frutuosos à aquisição de conhecimentos necessários.
Receberam vocês lições intensivas, relativamente aos nossos irmãos perturbados e sofredores, bem como sobre os efeitos da prece.
Desse modo, temos nosso expediente bastante adiantado, considerando que se encontram ambos em tarefa de observação e aprendizado, acima de tudo.
Depois de ligeira pausa, continuou:
— Não creiam, todavia, que possamos aproveitar a máquina até a Crosta.
Calculo que só poderemos voar até ao meio-dia.
Em seguida, prosseguiremos a pé.
Aniceto calou-se por instantes, sorriu noutra expressão fisionômica, e acentuou:
— Isto, porém, acontecerá somente enquanto não hajam vocês criado asas espirituais, que possam vencer todas as resistências vibratórias.
Semelhante realização pode não estar distante.
Dependerá do esforço que desejarem despender no trabalho aquisitivo.
Todo aquele que opere, e coopere de espírito voltado para Deus, poderá aguardar sempre o melhor.
Não é promessa de amizade.
É lei.
O pequeno aparelho nos conduziu por enormes distâncias, sempre no ar, mas conservando-se a reduzida altura do solo.
Quase precisamente ao meio-dia, estacionamos em humilde pouso, destinado a abastecimento e reparação de maquinaria de natureza daquela em que havíamos viajado.
Despediu-se de nós o condutor, que nos desejou boa viagem preparando-se para regressar.
A paisagem tornou-se, então, muito fria e diferente.
Não estávamos em caminho trevoso, mas muito escuro e nevoento.
Tomara-se densa a atmosfera, alterando-nos a respiração.
Aniceto contemplou, conosco, a vastidão caliginosa e falou em tom grave:
— Com quatro horas de locomoção, estaremos na Crosta.
Reparem as sombras que nos rodeiam, identifiquem a mudança geral.
Infelizmente, as emissões vibratórias da Humanidade encarnada são de natureza bastante inferior, em nos referindo à maioria das criaturas terrestres, e estas regiões estão repletas de resíduos escuros, de matéria mental dos encarnados e desencarnados de baixa condição.
Atravessaremos grandes zonas, não propriamente tenebrosas, mas muito obscuras ao nosso olhar.
Daqui a duas horas, porém, encontraremos sinais da luz solar.
Nossa peregrinação, francamente, foi muito pesada e dolorosa, e, somente ai, avaliei, de fato, a enorme diferença da estrada comum, que liga a Crosta a “Nosso Lar” e aquela que agora percorríamos a pé, vencendo obstáculos de vulto.
Imaginei, comovido, o sacrifício dos grandes missionários espirituais que assistem o homem, compreendendo, então, quão meritório lhes é o serviço e como necessitam disposições especiais e extraordinário bom ânimo, para auxiliarem as criaturas encarnadas, de maneira constante.
Os monstros, que fugiam à nossa aproximação, escondendo-se no fundo sombrio da paisagem, eram indescritíveis e, obedecendo a determinações de Aniceto, não posso ensaiar qualquer informe nesse sentido, a fim de não criar imagens mentais de ordem inferior no espírito dos que, acaso, venham a ler estas humildes notícias.
No horário previsto por nosso orientador, começamos a vislumbrar, de novo, a luz do Sol, como se estivéssemos em madrugada clara.
O espetáculo era magnífico e novo para mim.
Calor brando começou a revigorar-nos.
Aniceto fixou o quadro maravilhoso dos raios de luz atravessando as sombras, e falou, de olhos úmidos:
— Agradeçamos ao Senhor dos Mundos a bênção do Sol!
Na Natureza física, é a mais alta imagem de Deus que conhecemos.
Temo-lo, nas mais variadas combinações, segundo a substância das esferas que habitamos, dentro do sistema.
Ele está em “Nosso Lar”, de acordo com os elementos básicos de vida, e permanece na Terra segundo as qualidades magnéticas da Crosta.
É visto em Júpiter de maneira diferente.
Ilumina Vênus com ousadia.
Avançamos, comovidos, e, dai a algum tempo, surgiu-nos o astro sublime, na posição que antecede o crepúsculo.
Doutras vezes, viajando sempre através da estrada luminosa e fácil de ser percorrida, em vista das possibilidades de volita não fizera maior reparo.
Agora, porém, que atravessara névoas compactas, anotava diferenças profundas.
A certa distância, surgia a Terra, não na forma esférica, porque nos achávamos não longe da Crosta, mas como paisagem além, a interpenetrar-se nas extensas regiões espirituais.
O Sol resplandecia, rumo ao Poente, como enorme lâmpada de ouro.
Aniceto, que parecia alegrar-se sobremaneira, exclamou:
— Entramos na zona de influenciação direta da Crosta.
Poderemos, doravante, praticar a volitação, utilizando nossos conhecimentos de transformação da força centrípeta.
A luz que nos banha resulta do contacto magnético entre a energia positiva do Sol e a força negativa da massa planetária.
Prossigamos.
Não tardaremos a entrar no Rio de Janeiro.
A essa altura, assaltou-me o desejo de perguntar alguma coisa relativamente à, direção.
— Como nos orientaremos? — indaguei, curioso.
— Antes de tudo — respondeu o instrutor — é preciso não esquecer que nossas colônias estão situadas no campo magnético da América do Sul.
Qualquer bússola seria sensível, de agora em diante, mas, em nosso caso, é indispensável educar o pensamento e orientar-nos dentro da energia que lhe é peculiar.
Empregamos, de novo, a capacidade volitante e, dentro em pouco, as matas de Petrópolis estavam a vista.
Mais alguns minutos e perlustrávamos as grandes artérias cariocas.
Por sugestão do instrutor, abeiramo-nos do mar, em exercício respiratório de maior expressão. Vicente e eu estávamos positivamente exaustos.
Reconhecíamos que o esforço fora significativo para nossas escassas forças.
Indiferentes à nossa presença, os transeuntes passavam apressados, de mente chumbada aos problemas de ordem material.
Fonfonavam ônibus repletos.
A grande baía figurava-se-nos cheia de forças renovadoras.
Quando se acendiam as primeiras luzes elétricas, Aniceto convidou-nos, generosamente:
— Vamos ao reconforto!
Vocês estão fatigadíssimos. Irei mostrar-lhes que “Nosso Lar” tem, igualmente, alguns refúgios na Crosta.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Agosto de 2020, 11:33
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34 - Oficina de «Nosso Lar»

Entre dezoito e dezenove horas, atingimos uma casa singela de bairro modesto.
No longo percurso, através de ruas movimentadas, surpreendia-me, sobremaneira, por se me depararem quadros totalmente novos.
Identificava, agora, a presença de muitos desencarnados de ordem inferior, seguindo os passos de transeuntes vários, ou colados a eles, em abraço singular.
Muitos dependuravam-se a veículos, contemplavam-nos outros, das sacadas distantes.
Alguns, em grupos, vagavam pelas ruas, formando verdadeiras nuvens escuras que houvessem baixado repentinamente ao solo.
Assustei-me.
Não havia anotado tais ocorrências nas excursões anteriores ao círculo carnal.
Aniceto, porém, explicou que não fora vão o auxílio recebido para intensificação do poder visual.
Estávamos em tarefa de observação ativa, com vistas ao aprendizado.
Não dissimulava, entretanto, minha surpresa.
As sombras sucediam-se umas às outras e posso assegurar que o número de entidades inferiores, invisíveis ao homem comum, não era menor, nas ruas, ao de pessoas encarnadas, em contínuo vai vem.
Não havia, ali, a serenidade dos ambientes de “Nosso Lar”, nem a calma relativa do Posto de Socorro de Campo da Paz.
Receios imprevistos instalavam-se-me nalma, desagradáveis choques íntimos assaltavam-me o coração, sem que lhes pudesse localizar a procedência.
Tinha a impressão nítida de havermos mergulhado num oceano de vibrações muito diferentes, onde respirávamos com certa dificuldade.
Nosso instrutor esclarecia que, com o tempo, seriam dilatados nossos poderes de resistência e que as penosas sensações experimentadas obedeciam à circunstância de ser aquela a primeira vez que descíamos ao ambiente da Crosta em serviço de análise mais intenso.
Recomendava-nos bom ânimo e, sobretudo, a conservação da fortaleza mental, ante quaisquer quadros menos estimáveis que nos defrontassem de imprevisto.
A eficiência do auxílio, exclamava ele, necessita educação persistente.
Não seria possível ajudar alguém, prendendo-nos a fraquezas de qualquer espécie.
Os conselhos de Aniceto acalmavam-nos a alma surpreendida e inquieta, e eu tudo fazia, no íntimo, para ajustar-me aos alvitres do bondoso orientador, mesmo porque, asseverava ele, que diversos companheiros adiavam nobres realizações em virtude das manifestações de injustificável receio.
Aquela residência de aspecto tão humilde, que alcançávamos, agora, proporcionava-me caridosa impressão de conforto.
Estava lindamente iluminada por clarões espirituais, que recordavam precisamente nossa cidade tão distante.
Fundamente surpreendido, reparei que o nosso orientador se detivera.
Notando a nossa admiração, Aniceto indicou a casa pobre, e falou:
— Teremos aqui o nosso refúgio.
É uma oficina que representa “Nosso Lar”.
Profundo assombro empolgou o íntimo, mas não tive ensejo para indagações.
Precisava seguir o Instrutor, que tomara a direção da casa pequenina.
Aproximamo-nos do jardim que rodeava a construção muito simples e, estupefato, observei que numerosos companheiros espirituais assomavam à janela, saudando-nos alegremente.
Que significava tudo aquilo?
De outras vezes, visitara minha cidade e meu antigo lar, mas nunca vira tal coisa.
Aniceto compreendeu-me a perplexidade e explicou:
— Os irmãos que nos saúdam são trabalhadores espirituais que se abrigam nesta tenda de amor.
Um cavalheiro muito simpático e acolhedor abriu-nos a porta.
Este pormenor foi outra nota imprevista.
Tal não sucedia quando voltava à minha velha casa terrena.
As portas cerradas não me ofereciam obstáculos.
Ali, porém, vigorava um sistema vibratório de vigilância que eu não conhecia, até então.
Nosso instrutor envolveu o anfitrião num abraço amistoso, apresentando-nos em seguida.
— Aqui, meu caro Isidoro — disse a indicar-nos, carinhoso —, são nossos amigos Vicente e André, novos cooperadores de serviço, em “Nosso Lar”.
— Muito bem! muito bem! — exclamou Isidoro abraçando-nos — nossas atividades precisam de trabalhadores operosos.
Entrem! E acrescentou, hospitaleiro:
— A casa pertence a todos os cooperadores fiéis do serviço cristão.
Era a primeira vez que eu via uma entidade espiritual com tão segura chefia de uma casa terrestre.
Penetramos o ambiente modesto.
Altamente surpreendido, reparei o interior.
À paisagem material mostrava alguns móveis singelos, velhos quadros a óleo nas paredes alvas, velha máquina de costura movimentada por uma jovem aparentando dezesseis anos, um rapazote de doze anos presumíveis, atento a cadernetas de exercício escolar, três crianças de nove, sete e cinco anos aproximadamente, e, como figura central do grupo doméstico, uma senhora de quarenta anos, mais ou menos, tricotando uma blusa.
Notei, porém, que da fronte, do tórax, do olhar e das mãos dessa senhora irradiava-se luz incessante que me não permitia sofrear minhas expressões admirativas.
Aniceto designou-a, respeitoso, e falou:
— Temos, aqui, a nossa irmã Isabel.
Para os olhos humanos ela é a viúva de Isidoro, mas para nós é uma servidora leal nas atividades da fé.
Reparei que Dona Isabel parecia, de algum modo, registrar a nossa presença, acusando certa surpresa no olhar, mas Aniceto adiantou-se, esclarecendo:
— Nossa amiga é senhora de grande vidência psíquica, mas os benfeitores que nos orientam os esforços recomendam não se lhe permita a visão total do que se passa em torno de suas faculdades mediúnicas.
O conhecimento exato da paisagem espiritual, em que vive, talvez lhe prejudicasse a tranqüilidade.
Isabel, portanto, apenas pode ver, mais ou menos, a vigésima parte dos serviços espirituais em que colabora, de modo direto...
A essa altura, Isidoro nos indicou pequena sala ao lado, e falou a Aniceto em particular:
— Desculpem-me se não lhes posso acompanhar no repouso necessário.
Descansem, contudo, à vontade.
Tenho serviços urgentes na recepção de outros amigos.
Nosso mentor agradeceu, comovidamente, e, acompanhando-o, alcançamos modesto salão pobremente mobiliado, mas quase repleto de entidades evolvidas em conversação edificante.
Confortadoras luzes brilhavam em todos os recantos.
Havia ali um velho relógio, tosca mesa de grandes proporções, uma dúzia de cadeiras e alguns bancos rústicos.
A claridade espiritual reinante, todavia, era de maravilhoso efeito.
Muita gente esclarecida e generosa do plano invisível aos humanos aí se reunia.
Aniceto cumprimentou os grupos que lhe eram mais íntimos, de modo especial, e apresentou-nos com a bondade de sempre.
Sentindo-nos a admiração, esclareceu, quando nos vimos mais a sós num canto do salão:
— Estamos numa oficina de “Nosso Lar”.
Isidoro e Isabel edificaram-na, num ato de heroísmo e fé, tendo saído de nossa cidade para essa tarefa, vai para mais de quarenta anos.
Graças a Deus ambos têm vencido, galhardamente, árduas provas, e mantêm seus compromissos corajosamente, em serviço na Crosta.
Há três anos, voltou ele para nossa esfera, e contudo, graças ao altruísmo da esposa e aos vínculos de amor espiritual que conservam acima de todas as expressões físicas, continuam estreitamente unidos, como no primeiro dia do reencontro na existência material.
Dada esta circunstância invulgar, as autoridades de “Nosso Lar” concederam-lhe permissão para continuar nesta casa como esposo amigo, pai devotado, sentinela vigilante e trabalhador fiel.
E, observando talvez a nossa maior surpresa, Aniceto acrescentou:
— Sim, amigos, o acaso não define responsabilidades nem atende a construção séria.
A edificação espiritual pede esforço e dedicação.
Assim como os navios do mundo necessitam de âncoras fortes para atenderem eficientemente à sua tarefa nos portos, também nós precisamos de irmãos corajosos e abnegados que façam o papel de âncoras entre as criaturas encarnadas, a fim de que, por elas, possam os grandes benfeitores da Espiritualidade Superior se fazerem sentir entre os homens ainda animalizados, ignorantes e infelizes.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Agosto de 2020, 11:34
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35 - Culto doméstico

Nas primeiras horas da noite, Dona Isabel abandonou a agulha e convidou os filhinhos para o culto doméstico.
Notando o interesse que me despertavam as crianças, Aniceto explicou:
— As meninas são entidades amigas de “Nosso Lar”, que vieram para serviço espiritual e resgate necessário, na Terra.
O mesmo, porém, não acontece ao pequeno, que procede de região inferior.
De fato, eu identificava perfeitamente a situação.
O rapazola não se revestia de substância luminosa e atendia ao convite materno, não como quem se alegra, mas como quem obedece.
Com tamanha naturalidade se sentaram todos em torno da mesa, que compreendi a antiguidade daquele abençoado costume familiar.
A filha mais velha, que atendia por Joaninha, trazia cadernos de anotações e recortes de jornais.
Tão logo começou aquele serviço espiritual da família, as luzes ambientes se tornaram muito mais intensas.
Profunda sensação de paz envolvia-me o coração.
A pequena Neli, em voz comovente, fez a prece:
— Senhor, seja feita a vossa vontade, assim na Terra como nos Céus.
Se está em vosso santo desígnio que recebamos mais luz, permiti, Senhor, tenhamos bastante compreensão no trabalho evangélico!
Dai-nos o pão da alma, a água da vida eterna!
Sede em nossos corações, agora e sempre.
Assim seja!...
Dona Isabel pediu à filha mais velha lesse uma página instrutiva e consoladora e, em seguida, algum fato interessante do noticiário comum, ao que Joaninha atendeu, lendo pequeno capítulo de um livro doutrinário sobre a irreflexão, e um episódio triste de jornal leigo.
A primogênita de Isidoro, que revelava muita doçura e afabilidade, parecia impressionada.
Tratava-se de uma jovem de bairro distante, vítima de suicídio doloroso.
O repórter gravara a cena com característicos muito fortes.
A leitora estava trêmula, sensibilizada.
Assim que Joaninha terminou, Dona Isabel abriu o Novo Testamento, como se estivesse procedendo ao acaso, mas, em verdade, eu via que Isidoro, do nosso plano, intervinha na operação, ajudando a localizar o assunto da noite.
A seguir, fixou o olhar na página pequenina e falou:
— A mensagem-versículo de hoje, meus filhos, está no capítulo 13 do Evangelho de S. Mateus. E lendo o versículo 31, fê-lo em voz alta:
— “Outra parábola lhes propôs, dizendo:
— O Reino dos Céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem tomou e semeou no seu campo.”
Observei, então, um fenômeno curioso.
Um amigo espiritual, que reconheci de nobilíssima condição, pelas vestes resplandecentes, colocou a destra sobre a fronte da generosa viúva.
A viúva sentou à cabeceira e, após meditar breves instantes, recomendou à pequena Neli, de nove anos, fizesse a oração inicial do culto, pedindo a Jesus o esclarecimento espiritual.
Todos os trabalhadores invisíveis sentaram-se, respeitosos. Isidoro e alguns companheiros mais íntimos do casal permaneceram ao lado de Dona Isabel, sendo quase todos vistos e ouvidos por ela.
Antes que lhe perguntasse, Aniceto explicou em voz quase imperceptível:
— Aquele é o nosso irmão Fábio Aleto, que vai dar a interpretação espiritual do texto lido.
Os que estiverem nas mesmas condições dele, poderão ouvir-lhe os pensamentos;
Mas, os que estiverem em zona mental inferior, receberão os valores interpretativos, como acontece entre os encarnados, isto é, teremos a luz espiritual do verbo de Fábio na tradução do verbo materializado de Isabel.
Nosso mentor não poderia ser mais explícito.
Em poucas palavras fornecera-me a súmula da extensa lição.
Notei que a viúva de Isidoro entrara em profunda concentração por alguns momentos, como se estivesse absorvendo a luz que a rodeava.
Em seguida, revelando extraordinária firmeza no olhar, iniciou o comentário:
— “Lemos hoje, meus filhos, uma página sobre a irreflexão e a notícia de um suicídio em tristíssimas circunstâncias.
Afirma o jornal que a jovem suicida se matou por excessivo amor;
Entretanto, pelo que vimos aprendendo, estamos certos de que ninguém comete erros por amar verdadeiramente.
Os que amam, de fato, são cultivadores da vida e nunca espalham a morte.
A pobrezinha estava doente, perturbada, irrefletida.
Entregou-se à paixão que confunde o raciocínio e rebaixa o sentimento.
E nós sabemos que, da paixão ao sofrimento, ou à morte, não é longa a distância.
Lembremos, todavia, essa amiga desconhecida, com um pensamento de simpatia fraternal.
Que Jesus a proteja nos caminhos novos.
Não estamos examinando um ato, que ao Senhor compete julgar, mas um fato, de cuja expressão devemos extrair o ensinamento justo.
A mensagem evangélica desta noite assevera, pela palavra do nosso Divino Mestre aos discípulos, que o reino dos céus é também
“semelhante ao grão de mostarda que o homem tomou e semeou no seu coração”.
Devemos ver, neste passo, meus filhos, a lição das coisas mínimas.
A esfera carnal onde vivemos está repleta de irreflexões de toda sorte.
Raras criaturas começam a refletir seriamente na vida e nos deveres, antes do leito da morte física.
Não devemos fixar o pensamento tão só nessa jovem que se suicidou em condições tão dramáticas, ao nos referirmos aos ensinos de agora.
Há homens e mulheres, com maiores responsabilidades, em todos os bairros, que evidenciam paixões nefastas e destruidoras no campo dos sentimentos, dos negócios, das relações sociais.
As mentes desequilibradas pela irreflexão permanecem, neste mundo, quase por toda a parte.
É que nós temos descuidado das coisas pequeninas.
Grande é o oceano, minúscula é a gota, mas o oceano não é senão a massa das gotas reunidas.
Fala-nos o Mestre, em divino simbolismo, da semente de mostarda.
Recordemos que o campo do nosso coração está cheio de ervas espinhosas, demorando, talvez, há muitos séculos, em terrível esterilidade.
Naturalmente, não deveremos esperar colheitas milagrosas.
É indispensável amanhar a terra e cuidar do plantio.
A semente de mostarda, a que se refere Jesus, constitui o gesto, a palavra, o pensamento da criatura.
Há muitas pessoas que falam bastante em humildade, mas nunca revelam um gesto de obediência.
Jamais realizaremos a bondade, sem começarmos a ser bons.
Alguma coisa pequenina há de ser feita, antes de edificarmos as grandes coisas.
O Senhor ensinou, muitas vezes, que o reino dos céus está dentro de nós.
Ora, é portanto em nós mesmos que devemos desenvolver o trabalho magnânimo de realização divina, sem o que não passaremos de grandes irrefletidos.
A floresta também começou de sementes minúsculas.
E nós, espiritualmente falando, temos vivido em densa floresta de males, criados por nós mesmos, em razão da invigilância na escolha de sementes espirituais.
A palestra de uma hora, o pensamento de um dia, o gesto de um momento, podem representar muito em nossas vidas.
Tenhamos cuidado com as coisas pequeninas e selecionemos os grãos de mostarda do reino dos céus.
Lembremos que Jesus nada ensinou em vão.
Toda vez que “pegarmos’ desses grãos, consoante a Palavra Divina, semeando-os no campo íntimo, receberemos do Senhor todo o auxílio necessário.
Conceder-nos-á a chuva das bênçãos, o sol do amor eterno, a vitalidade sublime da esfera superior.
Nossa semeadura crescerá e, em breve tempo, atingiremos elevadas edificações.
Aprendamos, meus filhos, a ciência de começar, lembrando a bondade de Jesus a cada instante.
O Mestre não nos desampara, segue-nos amorosamente, inspira-nos o coração.
Tenhamos, sobretudo, confiança e alegria!”
Reparei que Fábio retirou a mão da fronte da viúva e observei que ela entrava a meditar, como quem sentira o afastamento da ideia em curso.
Havia grande comoção na assembleia invisível às crianças que, por sua vez, também pareciam impressionadas.
Dona Isabel voltou a contemplar maternalmente os filhos, e falou:
— Procuremos, agora, conversar um pouco

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Agosto de 2020, 11:37
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36 - Mãe e filhos

No comentário evangélico, eu recolhia observações interessantes.
Tal como no caso de Ismália, quando lhe ouvíamos a sublime melodia, a interpretação de Fábio estava cheia de maravilhas espirituais que transcendiam à capacidade receptiva de Dona Isabel.
À viúva de Isidoro parecia deter tão somente uma parte.
Desse modo, as crianças recebiam a lição de acordo com as possibilidades mediúnicas da palavra materna, enquanto que a nós outros se propiciava o ensinamento com maravilhoso conteúdo de beleza.
Sempre solícito, o instrutor esclareceu:
— Não se admirem do fenômeno!
Cada qual receberá a luz espiritual conforme a própria capacidade.
Há muitos companheiros nossos, aqui reunidos, que registram o comentário de Fábio com mais dificuldade que as próprias crianças.
Experimentam, ainda, grandes limitações.
Havia grande respeito em todos os presentes.
Fábio Aleto sentou-se em plano superior, ao passo que Isidoro se acomodava junto a sua esposa, no impulso afetivo do pai que se aproxima, solícito, para a conversação carinhosa com os filhos bem-amados.
Nesse instante, a pequenina Marieta, que parecia haver atingido os sete anos, aproveitando o momento de palavra livre, perguntou à mãezinha, em tom comovedor:
— Mamãe, se Jesus é tão bom, porque estamos comendo só uma vez por dia, aqui em casa?
Na casa de Dona Fausta, eles fazem duas refeições, almoçam e jantam.
Neli me contou que no tempo de papai também fazíamos assim, mas agora.
Porque será?
A viúva esboçou um sorriso algo triste e falou:
— Ora, Maneta, você vive muito impressionada com essa questão.
Não devemos, filhinha, subordinar todos os pensamentos às necessidades do estômago.
Há quanto tempo estamos tomando nossa refeição diária e gozando boa saúde?
Quanto benefício estaremos colhendo com esta frugalidade de alimentação?
Joaninha interveio, acrescentando:
— Mamãe tem toda a razão.
Tenho visto muita gente adoecer por abuso da mesa.
— Além disso — acentuou Dona Isabel confortada — vocês devem estar certos de que Jesus abençoa o pão e a água de todas as criaturas que sabem agradecer as dádivas divinas.
É verdade que Isidoro partiu antes de nós, mas nunca nos faltou o necessário.
Temos nossa casinha, nossa união espiritual, nossos bons amigos.
Convençam-se de que o papai está trabalhando ainda por nós.
Nessa altura da palestra, dada a nossa comoção, Isidoro enxugou os olhos úmidos.
Noemi, a caçula pequenina, falou em voz infantil:
— É mesmo, é verdade! eu vi papai ajudando a segurar o bolo que Dona Cora nos trouxe domingo.
— Também vi, Noemi — disse Dona Isabel, de olhos vivamente brilhantes —, papai continua auxiliando-nos.
E voltando-se para todos, acentuou:
— Quando sabemos amar e esperar, meus filhos, não nos separamos dos entes queridos que morrem para a vida física.
Tenhamos certeza na proteção de Jesus!...
Marieta, parecendo agora absolutamente tranqüila, assentiu:
— Quando a senhora fala, mamãe, eu sinto que tudo é verdade!
Como Jesus é bom!
E se nós não tivéssemos a senhora?
Tenho visto os pequenos mendigos abandonados.
Talvez não comam coisa alguma, talvez não tenham amigos como os nossos!
Ah! como devemos ser agradecidos ao Céu!...
A viúva, que se confortava visivelmente, ouvindo aquelas palavras, exclamou com profunda emoção:
— Muito bem, minha filha!
Nunca deveremos reclamar e sim louvar sempre.
E possivelmente não saberia você compreender a situação, se estivéssemos em mesas lautas.
Observei, porém, que o menino não compartilhava aquele dilúvio de bênçãos.
Entre Dona Isabel e as quatro filhinhas havia permuta constante de vibrações luminosas, como se estivessem identificadas no mesmo ideal e unidas numa só posição;
Mas o rapazote permanecia espiritualmente distante, fechado num círculo de sombras.
De quando em quando, sorria irônico, insensível pela significação do momento.
Valendo-se da pausa mais longa, ele perguntou à genitora, menos respeitosamente:
— Mamãe, que entende a senhora por pobreza?
Dona Isabel respondeu, muito serena:
— Creio, meu filho, que a pobreza é uma das melhores oportunidades de elevação, ao nosso alcance.
Estou convencida de que os homens afortunados têm uma grande tarefa a cumprir, na Terra, mas admito que os pobres, além da missão que lhes cabe no mundo, são mais livres e mais felizes.
Na pobreza, é mais fácil encontrar a amizade sincera, a visão da assistência de Deus, os tesouros da natureza, a riqueza das alegrias simples e puras.
É claro que não me refiro aos ociosos e ingratos dos caminhos terrenos.
Refiro-me aos pobres que trabalham e guardam a fé.
O homem de grandes possibilidades financeiras muito dificilmente saberá discernir entre a afeição e o interesse descrente de que tudo pode, nem sempre como entender a divina proteção;
Pelo conforto viciado a que se entrega, as mais das vezes se afasta das bênçãos da Natureza;
E em vista de muito desfazer aos próprios caprichos, restringe a vida de alegrar-se e confiar no mundo.
Apesar da beleza profunda daquela opinião, o rapazola permaneceu impassível, respondendo algo contrariado:
— Infelizmente não posso concordar com a senhora.
Até os garotos do jardim de infância pensam de modo contrário.
Dona Isabel mudou a expressão fisionômica, assumiu a atitude de quem instrui com a noção de responsabilidade, e acentuou:
— Não estamos aqui num jardim de infância, meu filho.
Sim no jardim do lar, competindo-nos saber que as flores são sempre belas, mas que a vida não pode prosseguir sem a bênção dos frutos.
Por onde aí no mundo, receberemos muitos alvitres da mentira venenosa.
É preciso vigiar o coração, valorizando as bênçãos que Jesus nos envia.
O rapazinho entretanto demonstrando enorme rebeldia íntima tomou:
— A Senhora não considera razoável alugar este salão a fim de termos algum dinheiro a mais?
Estive conversando ontem, com o “seu” Maciel, quando vim da escola.
Ele nos pagaria bem, para ter aqui um depósito de móveis.
Dona Isabel, de ânimo decidido, respondeu com energia, sem irritação:
— Você deve saber, meu filho que enquanto respeitarmos a memória de seu pai, este salão será consagrado às nossas atividades evangélicas.
Já lhes contei a história do nosso culto doméstico e não desejo que vocês sejam cegos às bênçãos do Senhor.
Mais tarde, Joãozinho, quando você entrar diretamente na luta material, se for agradável ao seu temperamento, construa casas para alugar;
Mas agora, meu filho, é indispensável que você considere este recanto como algo de sagrado para sua mamãe.
— E se eu insistir? — perguntou, mal humorado, o pequeno orgulhoso.
A viúva, muito calma, esclareceu firme:
— Se você insistir, será punido, porque eu não sou mãe para criar ilusões perigosas ao coração dos filhinhos que Deus me confiou.
Se muito amo a vocês, precisarei incliná-los ao caminho reto.
O pequeno quis retrucar, mas a luz emitida pelo tórax de Dona Isabel, ao que me pareceu, confundiu-lhe o espírito rebelde e vi-o calar-se, a contragosto, amuado e enraivecido.
Admirei, então, profundamente, aquela bondosa mulher, que se dirigia à filha mais velha como amiga, às filhinhas mais novas como mãe, e ao filho orgulhoso como instrutora sensata e ponderada.
Aniceto, que também se mostrava satisfeito, disse-nos em tom significativo:
— O Evangelho dá equilíbrio ao coração.
A pequena Neli, amedrontada, pediu, humilde:
— Mamãe, não deixe Joãozinho alugar a sala!
A viúva sorriu, acariciou o rostinho da filha e asseverou:
— Joãozinho não fará isso, saberá compreender a mamãe.
Não falemos mais neste assunto, Neli.
E fixando o relógio, dirigiu-se à primogênita:
— Joaninha, minha filha, ore agradecendo, em nosso nome.
Nosso horário está findo.
A jovem, com expressão nobre e carinhosa agradeceu ao Senhor, tocando-nos os corações.

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Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 24 de Agosto de 2020, 10:59
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37 - No santuário doméstico

Terminado o culto familiar, um dos companheiros também rendeu graças.
— Esperemos que esses celeiros de sentimentos se multipliquem — disse Aniceto, sensibilizado.
O mundo pode fabricar novas indústrias, novos arranha-céus, erguer estátuas e cidades, mas, sem a bênção do lar, nunca haverá felicidade verdadeira.
— Bem-aventurados os que cultivam a paz doméstica — exclamou uma senhora simpática, que estivera presente ao nosso lado, durante a reunião.
Dois cooperadores de “Nosso Lar” serviram-nos alimentação leve e simples, que não me cabe especificar aqui, por falta de termos analógicos.
— Em oficinas como esta — explicou o instrutor amigo — é possível preservar a pureza de nossas substâncias alimentícias.
Os elementos mais baixos não encontram, neste santuário, o campo imprescindível à proliferação.
Temos bastante luz para neutralizar qualquer manifestação da treva.
E, enquanto a família humana de Isidoro fazia frugal refeição de chá com torradas, numa saleta próxima, fazíamos nós ligeiro repasto, entremeado de palestra elevada e proveitosa.
O ambiente continuou animado, em teor de franca alegria.
Depois das vinte e três horas, a viúva recolheu-se com os filhos, em modesto aposento.
Intraduzível a nossa sensação de paz.
Aniceto, Vicente e eu, em companhia doutros amigos, fomos ao pequeno jardinzinho que rodeava a habitação.
As flores veludosas rescendiam.
A claridade espiritual ambiente, como que espancava as sombras da noite.
Respirando as brisas caridosas que sopravam da Guanabara, reparei, pela primeira vez, no delicado fenômeno, que não havia observado até então.
Uma pequena carinhosa, enquanto a mãezinha palestrava com um amigo, despreocupadamente, colheu um cravo perfumoso, num grito de alegria.
Vi a menina colher a flor, retirá-la da haste, ao mesmo tempo que a parte material do cravo emurchecia, quase de súbito.
A senhora repreendeu-a, com calor:
— Que é isso, Regina?
Não temos o direito de perturbar a ordem das coisas.
Não repitas, minha filha!
Desgostaste a mamãe!
Aniceto, sorrindo bondoso, explicou discreta mente:
— Esta é a nossa Irmã Emilia, servidora em “Nosso Lar”, que vem ao encontro do esposo ainda encarnado.
— E ele virá até aqui? — interrogou Vicente, curioso.
— Virá pelas portas do sono físico — acrescentou nosso orientador, sorridente.
— Estas ocorrências, no círculo da Crosta, dão-se aos milhares, todas as noites.
Com a maioria de irmãos encarnados, o sono apenas reflete as perturbações fisiológicas ou sentimentais a que se entregam;
Entre tanto, existe grande número de pessoas que, com mais ou menos precisão, estão aptas a desenvolver este intercâmbio espiritual.
Estava surpreendido.
Aquele trabalho interessante, a que nos trazia Aniceto, com tão vasto campo de serviços gerais, fazia-me intensamente feliz.
Em cada canto pressentia atividades novas.
Embora as luzes que nos rodeavam, notei que os céus prometiam aguaceiros próximos.
As brisas leves transformavam-se, repentinamente, em ventania forte.
Não obstante, as sensações de sossego eram agradabilíssimas.
— O vento, na Crosta, é sempre uma bênção celeste — exclamou Aniceto, sentencioso.
— Podemos avaliar-lhe o caráter divino, em virtude da nossa condição atual.
A pressão atmosférica sobre os Espíritos encarnados é, aproximadamente, de quinze mil quilos. — .
Todavia, é interessante notar — aduziu Vicente — que não sentimos tamanho peso sobre os ombros.
— É a diferença dos veículos de manifestação — esclareceu Aniceto, atencioso.
— Nossos corpos e os de nossos companheiros encarnados apresentam diversidade essencial.
Imaginemos o círculo da Crosta como um oceano de oxigênio.
As criaturas terrestres são elementos pesados que se movimentam no fundo, enquanto nós somos as gotas de óleo, que podem voltar à tona, sem maiores dificuldades, pela qualidade do material de que se constituem.
A essa altura do esclarecimento, notei que formas sombrias, algumas monstruosas, se arrastavam na rua, à procura de abrigo conveniente.
Reparei, com espanto, que muitas tomavam a nossa direção, para, depois de alguns passos, recuarem amedrontadas.
Provocavam assombro.
Muitas, pareciam verdadeiros animais perambulando na via pública.
Confesso que insopitável receio me invadira o coração.
Calmo, como sempre, Aniceto nos tranqüilizou:
— Não temam — disse.
Sempre que ameaça tempestade, os seres vagabundos da sombra se movimentam procurando asilo.
São os ignorantes que vagueiam nas ruas, escravizados as sensações mais fortes dos sentidos físicos.
Encontram-se ainda colados às expressões mais baixas da experiência terrestre e os aguaceiros os incomodam tanto quanto ao homem comum, distante do lar.
Buscam, de preferência, as casas de diversão noturna, onde a ociosidade encontra válvula nas dissipações.
Quando isto não se lhes torna acessível, penetram as residências abertas, considerando que, para eles, a matéria do plano ainda apresenta a mesma densidade característica.
E, demonstrando interesse em valorizar a lição do minuto, acrescentou:
— Observem como se inclinam para cá, fugindo, em seguida, espantados e inquietos.
Estamos colhendo mais um ensinamento sobre os efeitos da prece.
Nunca poderemos enumerar todos os benefícios da oração.
Toda vez que se ora num lar, prepara-se a melhoria do ambiente doméstico.
Cada prece do coração constitui emissão eletromagnética de relativo poder.
Por isso mesmo, o culto familiar do Evangelho não é tão só um curso de iluminação interior, mas também processo avançado de defesa exterior, pelas claridades espirituais que acende em torno.
O homem que ora traz consigo inalienável couraça.
O lar que cultiva a prece transforma-se em fortaleza, compreenderam?
As entidades da sombra experimentam choques de vulto, em contacto com as vibrações luminosas deste santuário doméstico, e é por isso que se mantêm à distância, procurando outros rumos...
Daí a momentos, penetrávamos, de novo, no salão abençoado da modesta residência.
Como quem estivesse atravessando um país de surpresas, outro fato me despertava profunda admiração.
Isidoro e Isabel vieram a nós, de braços entrelaçados, irradiando ventura.
Aquela viúva pobre do bairro humilde vestia-se agora lindamente, não obstante a adorável singeleza de sua presença.
Sorria contente, ao lado do esposo, via-nos a todos, cumprimentava-nos, amável.
— Meus amigos — disse ela, serena — meu marido e eu temos uma excursão instrutiva para esta noite.
Deixo-lhes as nossas crianças por algumas horas e, desde já, lhes agradeço o cuidado e o carinho.
— Vá, minha filha! — respondeu uma senhora idosa — aproveite o repouso corporal.
Deixe os meninos conosco.
Vá tranqüila!
O casal afastou-se com a expressão dum sublime noivado.
Nosso orientador inclinou-se para nós e falou:
— Observam vocês como a felicidade divina se manifesta no sono dos justos?
Poucas almas encarnadas, conheço, com a ventura desta mulher admirável, que tem sabido aprender a ciência do sacrifício individual.

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Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 24 de Agosto de 2020, 10:59
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38 - Atividade plena

No salão acolhedor de Dona Isabel, permanecemos em plena atividade.
Lá fora, começara o aguaceiro forte, mas tínhamos a nítida impressão de grande distância da chuva torrencial.
Logo às primeiras horas da madrugada, o movimento intensificou-se.
Muita gente ia e vinha. — Numerosos irmãos — explicou o orientador — encontram-se neste pouso de trabalho espiritual, na esfera a que os encarnados chamariam sonho.
Não é fácil transmitir mensagens de teor instrutivo, nessa tarefa, utilizando lugares comuns, contaminados de matéria mental menos digna.
Nas oficinas edificantes, porém, onde conseguimos acumular maiores quantidades de forças positivas da espiritualidade superior, é possível prestar grandes benefícios aos que se encontram encarnados no planeta.
Acentuei minhas observações, verificando que muitas das pessoas recém-chegadas pareciam convalescentes, titubeantes...
Algumas se mantinham de pé, sob o amparo de braços carinhosos.
Eram os amigos encarnados a se valerem do desprendimento parcial, pelo sono físico, que se reuniam a nós, aproveitando o auxílio de entidades generosas e dedicadas.
Reconhecia, entretanto, que a maior parte não entendia, com precisão, o que se lhes desejava dizer.
Muitos pareciam doentes, incompreensivos.
Sorriam infantilmente, revelando boa vontade na recepção dos conselhos, mas grande incapacidade de retenção.
Eu estudava os quadros ambientes, com justa estranheza.
Sempre cuidadoso, Aniceto veio ao encontro de nossa perplexidade.
Os espíritos encarnados — disse — tão logo se realize a consolidação dos laços físicos, ficam submetidos a imperiosas leis dominantes na Crosta.
Entre eles e nós existe um espesso véu.
É a muralha das vibrações.
Sem a obliteração temporária da memória, não se renovaria a oportunidade.
Se o nosso campo lhes fora francamente aberto, olvidariam as obrigações imediatas, estimariam o parasitismo, prejudicando a própria evolução.
Eis porque raramente estão lúcidos ao nosso lado.
Na maioria dos casos, junto de nós, permanecem vacilantes, enfraquecidos...
Vejam aquela jovem senhora encarnada, em conversa com a vovozinha que trabalha conosco, em “Nosso Lar”.
Assim dizendo, Aniceto indicou um grupo mais próximo.
A anciã, de olhos brilhantes e gestos decididos, abraçava-se à neta, lânguida e palidíssima.
— Niêta — exclamava a velhinha, em tom firme — não dê tamanha importância aos obstáculos.
Esquece os que te perseguem, a ninguém odeies.
Conserva tua paz espiritual, acima de tudo.
Tua mãe não te pode valer agora, mas crê na continuidade de nossa vida.
A vovó não te esquecerá.
A calúnia, Niêta, é uma serpente que ameaça o coração;
Entretanto, se a encararmos de frente, fortes e tranquilas, veremos, a breve tempo, que a serpente não tem vida própria.
É víbora de brinquedo a se quebrar como vidro, pelo impulso de nossas mãos.
E, vencido o espantalho, em lugar da serpente, teremos conosco a flor da virtude.
Não temas, querida!
Não percas a sagrada oportunidade de testemunhar a compreensão de Jesus!...
A jovem senhora não respondia, mas seus olhos semi lúcidos estavam cheios de pranto.
Demonstrava no gesto vago uma consolação divina, recostada ao seio carinhoso da devotada velhinha.
— Esta irmã se lembrará de tudo, ao despertar no corpo físico?
— perguntei, intrigado, ao nosso orientador. Aniceto sorriu e esclareceu:
— Sendo a avó superior e ela inferior, e, examinando ainda a condição dos planos de vida em que ambas se encontram, a jovem encarnada está sob o domínio espiritual da benfeitora.
Entre ambas, portanto, há uma corrente magnética recíproca, salientando-se, porém, que a vovó amiga detém uma ascendência positiva.
A neta não vê o ambiente com precisão, nem ouve as palavras integralmente.
Não esqueçamos que o desprendimento no sono físico vulgar é fragmentário e que a visão e a audição, peculiares ao encarnado, se encontram nele também restritas.
O fenômeno, pois, é mais de união espiritual que de percepções sensoriais, propriamente ditas.
A jovem está recebendo consolações positivas, de Espírito a Espírito.
Não se recordará, despertando nos véus materiais mais grosseiros, de todas as minúcias deste venturoso encontro que acabamos de presenciar.
Acordará, porém, encorajada e bem disposta, sem poder identificar a causa da restauração do bom ânimo.
Dirá que sonhou com a avó num lugar onde havia muita gente, sem recordar as minudências do fato, acrescentando que viu, no sonho, uma cobra ameaçadora, que logo se transformou em serpente de vidro, quebrando-se ao impulso de suas mãos, para transformar-se em perfumosa flor, da qual ainda conserva a lembrança agradável do aroma.
Afirmará que soberano conforto lhe invadiu a alma e, no fundo, compreenderá a mensagem consoladora que lhe foi concedida.
— Não se lembrará, contudo, das palavras ouvidas? — indagou Vicente, curioso.
— Precisaria ter adquirido profunda lucidez no campo da existência física — prosseguiu Aniceto, explicando — e devo esclarecer que recordará as imagens simbólicas da víbora e da flor, porque está em relação magnética com a veneranda avozinha, recebendo-lhe a emissão de pensamentos positivos.
A benfeitora não fala apenas.
Está pensando fortemente também.
A neta, todavia, não está ouvindo ou vendo pelo processo comum, mas está percebendo claramente a criação mental da anciã amiga, e dará notícia exata dos símbolos entrevistos e arquivados na memória real e profunda.
Desse modo, não terá dificuldade para informar-se quanto à essência do que a bondosa avó deseja transmitir-lhe ao coração sofredor, compreendendo que a calúnia, quando fere uma consciência tranquila não passa de serpente mentirosa, a transformar-se em flor de virtude nova, quando enfrentada com o valor duma coragem serena e cristã.
A lição fora profundamente significativa para mim.
Começava a adquirir amplas noções do intercâmbio entre as duas esferas.
Pensei no longo esforço dos que indagam o mundo dos sonhos.
Quanta riqueza psíquica, suscetível de conquista, se os pesquisadores conseguissem deslocar o centro de estudo, das ocorrências fisiológicas para o campo das verdades espirituais!
Lembrei a psicanálise, a tese freudiana, as manifestações instintivas, inferiores.
Importância atribuída pelo grande cientista às tendências inferiores, indaguei, um tanto tímido:
— Haverá, porém, centros de reunião para os espíritos desequilibrados no mal, como acontece, aqui, aos amigos interessados no bem?
O generoso mentor sorriu, benévolo, e falou:
— Não haja dúvidas quanto a isto.
Através das correntes magnéticas suscetíveis de movimentação, quando se efetua o sono dos encarnados, são mantidas obsessões inferiores, perseguições permanentes, explorações psíquicas de baixa classe, vampirismo destruidor, tentações diversas.
Ainda são poucos, relativamente, os irmãos encarnados que sabem dormir para o bem...
E, fazendo um gesto por demais expressivo, concluiu:
— Livre-nos o Senhor de cair novamente...
Percebendo-me as elucubrações, o devotado mentor dirigiu-me a palavra de maneira especial:
— Freud — asseverou Aniceto — foi um grande missionário da Ciência;
No entanto, manteve-se, como qualquer Espírito encarnado, sob certas limitações.
Fez muito, mas não tudo, na esfera da indagação psíquica.
Pela pausa do nosso instrutor, percebi que ele não desejava entrar em minucioso exame da teoria famosa.
Lembrando, porém, a extraordinária importância atribuída pelo grande cientista às tendências inferiores, indaguei, um tanto tímido:
— Haverá, porém, centros de reunião para os espíritos desequilibrados do mal, como acontece aqui, aos amigos interessados no bem?
O generoso mentor sorriu, benévolo, e asseverou:
— Não hajas dúvidas quanto a isso.
Através das correntes magnéticas suscetíveis de movimentação, quando se efetua o sono dos encarnados, são mantidas obsessões inferiores, perseguições permanentes, explorações psíquicas de baixa classe, vampirismo destruidor, tentações diversas.
Ainda são poucos, relativamente, os irmãos encarnados que sabem dormir para o bem...
E fazendo um gesto por demais expressivo, concluiu:
— Livre-nos o Senhor de cair novamente...

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OS MENSAGEIROS –
2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 29 de Agosto de 2020, 11:17
OS MENSAGEIROS
39 Trabalho incessante

Ao alvorecer, observei que Aniceto recebia numerosos amigos, com os quais se entendeu em particular.
Informou-nos o estimado orientador, por espírito de delicadeza, que trazia consigo incumbências várias, de acordo com as instruções de Telésforo, das quais era forçado a tratar em caráter privado, não nos ocultando, todavia, o objetivo essencial, que era, ao que disse, o combate ativo a uma grande cooperativa de desencarnados ignorantes, congregados para o mal.
Enquanto ele se mantinha em conversação íntima, ouvíamos, por nossa vez, outros amigos da faina espiritual.
O dia raiava, agora, com soberano esplendor.
Tínhamos a impressão de que a chuva da noite varrera as sombras do firmamento.
Pelo número de trabalhadores espirituais que pernoitaram na casinha humilde, reconheci a importância daquele núcleo de serviço, tão apagado aos olhos do mundo.
Uma senhora, que se aproximara de nós, exclamava, comovida:
– Que o Senhor recompense a nossa irmã Isabel, concedendo-lhe forças para resistir às tentações do caminho.
Por haver descansado neste pouso de amor, pude encontrar minha pobre filha, desviando-a do suicídio cruel.
Graças à Providência Divina!
Incapaz de sofrear o desejo de aprender, perguntei, curioso:
– Mas como a encontrou, minha irmã?
– Em sonho – respondeu a velhinha bondosa.
– Minha Dalva ficou viúva há três anos e, faz onze meses, deixei-a só, por haver também desencarnado.
A pobrezinha não tem resistido ao sofrimento quanto devera e deixou-se empolgar por entidades maléficas, que lhe tramam a ruína.
Embalde me aproximo dela, durante o dia, mas, com a mente engolfada em negócios e complicações materiais, não me pôde sentir a influenciação.
Precisava encontrar-me com ela à noite e isso não era fácil, porque não tenho bastante elevação espiritual para operar sozinha e o grupo em que sirvo não poderia demorar na Crosta uma noite inteira por minha causa.
Foi então que uma amiga me trouxe a este posto de serviço de “Nosso Lar”.
Aqui descansei e pude agir com os grupos de tarefa permanente, ajudada por infatigáveis operários do bem.
– E conseguiu seus fins com facilidade? – indagou Vicente, interessado.
– Graças a Jesus! – respondeu a senhora, evidenciando enorme satisfação – agora sei que minha filha recebeu meus alvitres carinhosos de mãe e estou certa de que me atenderá as rogativas.
– Escute, minha amiga – interroguei –, há muitos postos de “Nosso Lar”, como este?
– Ao que me informaram, há regular número deles, não somente aqui, mas também noutras cidades do país, além de numerosas oficinas que representam outras colônias espirituais, entre as criaturas corporificadas na Terra.
Nesses núcleos, há sempre possibilidades avançadas, imprescindíveis ao nosso abastecimento para a luta.
Nesse instante, dois camaradas que nos haviam dirigido a palavra durante a noite, despertando-nos sincera simpatia, apresentaram-nos saudações.
– Mas, como? – perguntei – retiram-se tão cedo?
– Vamos ao trabalho – respondeu-me um deles –; hoje, à noite, realizar-se-á o estudo evangélico e devemos auxiliar os irmãos ignorantes e sofredores que estejam em condições de vir até aqui.
– Há também semelhante tarefa? – indaguei, espantado.
– Como não, meu caro?
O próprio Jesus já dizia, há muitos séculos, que a seara é grande.
Há trabalho para todos.
E cumpre-nos reconhecer que esta oficina de assistência cristã funciona, há quase vinte anos, de maneira incessante.
– Vocês, no entanto – interroguei –, permanecem aqui desde os primórdios da fundação?
O interlocutor esclareceu prontamente:
– Não.
Muitos, como nós, fazem aqui estágios de serviço.
Somente alguns cooperadores de Isidoro e Isabel aqui estacionam desde o início da instituição.
Nós outros, contudo, não nos demoramos em trabalho por mais de dois anos consecutivos.
Um posto, como este, é sempre uma escola ativa e santa, e os que se encontrem no clima da boa vontade não devem perder ensejo de aprender.
– Desculpem-me tantas interrogativas – tornei –, mas estimaria saber se vocês são os únicos com as atribuições de recrutar os que ignoram e sofrem, para a instrução e o consolo.
– Não.
Hildegardo e eu somos auxiliares apenas de alguns quarteirões no centro urbano.
Nesse ramo de socorro, os colaboradores são numerosos.
A essa altura, um dos irmãos, que me parecia integrar o corpo de orientação da casa, aproximou-se e falou ao nosso interlocutor, de maneira especial:
– Vieira, recomendo a você e ao Hildegardo a melhor observância do nosso critério doutrinário.
Será inútil trazerem até aqui entidades vagabundas ou de má fé, obedecendo aos alvitres da simpatia pessoal.
Não podemos perder tempo com Espíritos escarninhos e ociosos, nem com aqueles que se aproximam de nossa tenda alimentando certas intenções de natureza inferior.
Não faltarão providências de Jesus para essa gente, em outra parte.
Lembrem-se disso.
Não é falta de caridade, é compreensão do dever.
Temos um programa de trabalho muito sério, no capítulo da evangelização e do socorro, não podemos abusar da concessão de nossos maiores da Espiritualidade Superior.
Quem aceita um compromisso não vive sem contas.
Por muito que vocês amem a alguma entidade ociosa ou irônica, não facilitem os abusos dela.
Ajudem-na de maneira individual, quando disponham de tempo e possibilidades para isso.
Não arrastem o grupo a dificuldades.
Não se esqueçam de que existem determinados núcleos de tarefa para os surdos e cegos voluntários.
Vieira e o colega fizeram-se palidíssimos, não respondendo palavra.
Quando o orientador se afastou, sereno e ativo, Vieira explicou, desapontado:
– Recebemos uma admoestação justa.
E porque visse nosso desejo de aprender, prosseguiu, atencioso:
– Infelizmente, Hildegardo e eu temos alguns parentes desencarnados em dolorosas condições espirituais.
Na reunião passada, trouxemos meu tio Hilário e o primo Carlos, embora soubéssemos que ambos não se encontram preparados para reflexões sérias, pelo desrespeito às leis divinas em que se movimentam, nos ambientes inferiores.
Manifestaram-se ambos, porém, tão desejosos de renovação, que ouvimos, acima de tudo, a simpatia pessoal, esquecendo a necessidade de preparação conveniente.
Vieram conosco, sentaram-se entre os ouvintes numerosos.
Mas, em meio dos estudos evangélicos, tentaram assaltar as faculdades mediúnicas da irmã Isabel, para transmissão de uma mensagem de teor menos edificante.
Sentindo-nos a vigilância e surpreendidos pelos cooperadores desta santificada oficina, revoltaram-se, estabelecendo grande distúrbio.
Não fossem as barreiras magnéticas do serviço de guarda, teriam causado males muito sérios.
Assim, a reunião foi menos frutuosa, pela grande perda de tempo.
Ora, naturalmente, fomos responsabilizados...
– Meu Deus! – exclamou Vicente, admirado – quanta lição nova!
– Ah! sim, meu amigo – tornou Vieira, resignado –, aqui não devemos abusar tanto do amor, como no circulo carnal!
Ninguém está impedido de ajudar, querer bem, interceder; todos podemos auxiliar os que amamos, com os recursos que nos sejam próprios, mas a palavra “dever” tem aqui uma significação positiva para quem deseje caminhar sinceramente para Deus.
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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 21 de Setembro de 2020, 15:46
OS MENSAGEIROS
40 - Rumo ao campo

Quase todos os servidores espirituais puseram-se a caminho de tarefas variadas.
Somente alguns amigos permaneceriam na residência de Dona Isabel, em missão de auxílio e vigilância.
Notei que Aniceto continuava distribuindo instruções diversas, dirigindo-se, em caráter confidencial, a determinados companheiros, a respeito da missão que lhe confiara Telésforo.
Antes do meio-dia, porém, convidou-nos a acompanhá-lo.
— Na oficina — disse-nos, bondoso — encontramos revigoramento imprescindível ao trabalho.
Recebemos reforços de energia, alimentamo-nos convenientemente para prosseguir tão esforço, mas convenhamos que, para muitos de nós, a noite representou uma série de atividades longas e exaustivas.
Necessitamos de algum descanso.
Voltaremos ao crepúsculo.
Aonde iríamos?
Ignorava.
Recordei que, de fato, se alguns haviam repousado no santuário doméstico, durante a noite, a maioria havia trabalhado intensamente, e concluí que, se muitos pela manhã haviam tomado rumo às obrigações outros teriam buscado o repouso indispensável.
— Aonde vão? — perguntou um companheiro da vigilância, que se fizera nosso amigo.
Antes que respondêssemos, Aniceto esclareceu:
— Vamos ao campo.
E, dirigindo-se especialmente a Vicente e a mim, considerou:
Utilizemos a volitação, mesmo porque não temos objetivos imediatos no centro urbano.
Notei que movimentava agora minhas faculdades volitantes com facilidade crescente.
A excursão educativa, com escala pelo Posto de Socorro de Campo da Paz, fizera-me grande bem.
Melhorara em adestramento, sentia-me fortalecido ante as vibrações de ordem inferior, mobilizava os recursos próprios sem dificuldade.
Reparei, igualmente, que minhas possibilidades visuais cresciam sensivelmente.
Volitando, não observara, até então, o que agora verificava, extremamente surpreendido.
Dantes, via somente os homens, os animais, veículos e edifícios chumbados ao solo.
Agora, a visão dilatava-se.
Reconhecia, de longe, o peso considerável do ar que se agarrava à superfície.
Tive a impressão de que nadávamos em alta zona do mar de oxigênio, vendo em baixo, em águas turvas, enorme quantidade de irmãos nossos a se arrastarem pesadamente metidos em escafandros muito densos, no fundo lodoso do oceano.
— Estão vendo aquelas manchas escuras na via pública?
— indagava nosso orientador, percebendo-nos a estranheza e o desejo de aprender cada vez mais.
Como não soubéssemos definir com exatidão, prosseguia explicando:
— São nuvens de bactérias variadas.
 Flutuam, quase sempre também, em grupos compactos, obedecendo ao princípio das afinidades.
Reparem aqueles ambientes de sombra..
E indicava-nos certos edifícios e certas regiões citadinas.
— Observem os grandes núcleos pardacentos ou completamente obscuros!...
São zonas de matéria mental inferior, matéria que é expelida incessantemente por certa classe de pessoas.
Se demorarmos em nossas investigações, veremos igualmente os monstros que se arrastam nos passos das criaturas, atraídos por elas mesmas...
Imprimindo grave inflexão às palavras, considerou:
— Tanto assalta o homem a nuvem de bactérias destruidoras da vida física, quanto as formas caprichosas das sombras que ameaçam o equilíbrio mental.
Como vêem, o “orai e vigiai” do Evangelho tem profunda importância em qualquer situação e a qualquer tempo.
Somente os homens de mentalidade positiva, na esfera da espiritualidade superior, conseguem sobrepor-se às influências múltiplas de natureza menos digna.
Interessado, contudo, em maior esclarecimento, perguntei:
— Mas a matéria mental emitida pelo homem inferior tem vida própria como o núcleo de corpúsculos microscópicos de que se originam as enfermidades corporais?
O mentor generoso sorriu singularmente e acentuou:
— Como não?
Vocês, presentemente, não desconhecem que o homem terreno vive num aparelho psicofísico.
Não podemos considerar somente, no capítulo das moléstias, a situação fisiológica propriamente dita, mas também o quadro psíquico da personalidade encarnada.
Ora, se temos a nuvem de bactérias produzidas pelo corpo doente, temos a nuvem de larvas mentais produzidas pela mente enferma, em identidade de circunstâncias.
Desse modo, na esfera das criaturas desprevenidas de recursos espirituais, tanto adoecem corpos, como almas.
No futuro, por esse mesmo motivo, a medicina da alma absorverá a medicina do corpo.
Poderemos, na atualidade da Terra, fornecer tratamento ao organismo de carne.
Semelhante tarefa dignifica a missão do consolo, da instrução e do alívio.
Mas, no que concerne à cura real, somos forçados a reconhecer que esta pertence exclusivamente ao homem-espírito.
— Deus meu! — exclamou Vicente, espantado — a que perigos está submetido o homem!
— Por isso — tornou Aniceto, cuidadoso —, a existência terrestre é uma gloriosa oportunidade para os que se interessam pelo conhecimento e elevação de si mesmos.
E, por esta mesma razão, ensinamos a necessidade da fé religiosa entre as criaturas humanas.
Desenvolvendo essa campanha, não pretendemos intensificar as paixões nefastas do sectarismo, mas criar um estado positivo de confiança, otimismo e ânimo sadio na mente de cada companheiro encarnado.
Até agora, apenas a fé pode proporcionar essa realização.
As ciências e as filosofias preparam o campo;
Entretanto, a fé que vence a morte, é a semente vital.
Possuindo-lhe o valor eterno, encontra o homem bastante dinamismo espiritual para combater até a vitória plena em si mesmo.
Compreendendo que precisaria completar o esclarecimento, exclamou, depois de pausa mais longa:
— Todos precisamos saber emitir e saber receber.
Para alcançarem a posição de equilíbrio, nesse mister, empenham-se os homens encarnados e nós outros, em luta incessante.
E já que conhecemos alguma coisa da eternidade, é preciso não esquecer que toda queda prejudica a realização, e todo esforço nobre ajuda sempre.
As explicações recebidas não poderiam ser mais claras.
Aquela visão, porém, repleta de pontos sombrios a se deslocarem vagarosos, atingindo homens e máquinas, nas vias públicas, assombrava-me.
Sequioso de ensinamentos, tornei ao assunto:
— A lição para mim tem valores incalculáveis.
E quando penso no alto poder destrutivo da flora microbiana...
Aniceto, contudo, não me deixou terminar.
Conhecendo, de antemão, minha pergunta natural, cortou-me a frase, exclamando:
— Sim, André, se não fosse o poder muito maior da luz solar, casada ao magnetismo terrestre, poder esse que destrói intensivamente para selecionar as manifestações da vida, na esfera da Crosta, a flora microbiana de ordem inferior não teria permitido a existência dum só homem na superfície do globo.
Por esta razão, o solo e as plantas estão cheios de princípios curativos e transformadores.
E, abanando significativamente a cabeça, concluí:
 Nada obstante esse poder imenso, recurso divino, enquanto os homens, herdeiros de Deus, cultivarem o campo inferior da vida, haverá também criações inferiores, em número bastante para a batalha sem tréguas em que devem ganhar os valores legítimos da evolução.

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Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 21 de Setembro de 2020, 15:47
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41 Entre árvores

Decorridos alguns minutos, atingíamos pequena propriedade rural, povoada de arvoredo acolhedor.
Laranjeiras em flor perdiam-se de vista.
Bananeiras estendiam-se em leque, enquanto o goiabal, de longe, semelhava-se a manchas fortes de verdura.
A relva macia convidava ao descanso.
E o vento calmo passava de leve, sussurrando alguma coisa através da folhagem.
Aniceto respirou a longos haustos, e falou:
– Os desencarnados, embora não se fatiguem como as criaturas terrestres, não prescindem da pausa de repouso.
Em geral, nossas operações, à noite, são ativas e laboriosas.
Apenas um terço dos companheiros espirituais, em serviço na Crosta, conserva-se em atividade diurna.
E, notando-nos a curiosidade justa, sentenciou:
– Aliás, isto é razoável.
O dia terrestre pertence, com mais propriedade, ao serviço do Espírito encarnado.
O homem deve aprender a agir, testemunhando compreensão das leis divinas.
Pelo menos durante certo número de horas, deve estar mais só com as experiências que lhe dizem respeito.
Nosso instrutor amigo sorriu e observou:
– O dia e a noite constituem, para o homem, uma folha do livro da vida.
A maior parte das vezes, a criatura escreve sozinha a página diária, com a tinta dos sentimentos que lhe são próprios, nas palavras, pensamentos, intenções e atos, e no verso, isto é, na reflexão noturna, ajudamo-la a retificar as lições e acertar as experiências, quando o Senhor no-lo permite.
Calando-se o nosso orientador, tivemos a atenção exclusivamente voltada para a beleza circundante.
Aquele campo amigo e hospitaleiro caracterizava-se por ambiente muito diverso.
Não mais as emanações pesadas da cidade grande, mas o vento leve, embalsamado de suavíssimos perfumes.
Refletia eu na bondade do Senhor, que nos oferecia recursos novos, quando Aniceto voltou a dizer:
– A Natureza nunca é a mesma em toda parte.
Não há duas porções de terra com climas absolutamente iguais.
Cada colina, cada vale, possui expressões climatéricas diferentes.
É forçoso reconhecer, porém, que o campo, em qualquer condição, no círculo dos encarnados, é o reservatório mais abundante e vigoroso de princípios vitais.
Em geral, todos nós, os cooperadores espirituais, estimamos o ar da manhã, quando a atmosfera permanece igualmente em repouso,
Isenta dos glóbulos de poeira convertidos em microscópicos balões de bacilos e de outras expressões inferiores.
Entretanto, os trabalhos de hoje não nos permitiram o descanso mais cedo...
Apoiamo-nos no veludoso relvado e, percebendo-nos a sede de saber, Aniceto prosseguiu:
– Assim me explico, porque na floresta temos uma densidade forte, pela pobreza das emanações, em vista da impermeabilidade ao vento.
Aí, o ar costuma converter-se em elemento asfixiante, pelo excesso de emissões dos reinos inferiores da Natureza.
Na cidade, a atmosfera é compacta e o ar também sufoca, pela densidade mental das mais baixas aglomerações humanas.
No campo, desse modo, temos o centro ideal...
Indicando, prazeroso, as frondes balouçantes, acentuou:
– Reina aqui a paz relativa e equilibrada da Natureza terrestre.
Nem a selvageria da mata virgem, nem a sufocação dos fluidos humanos.
O campo é nosso generoso caminho central, a harmonia possível, o repouso desejável.
Embalados ao pio de algumas juritis solitárias, repousamos algumas horas, magnificamente asilados no templo da Natureza.
Com as primeiras tonalidades do crepúsculo, Aniceto nos convidou a passeio rápido pelas imediações.
Reconhecia que estávamos muito mais bem dispostos. – Somente depois de nos locomovermos por alguns minutos, observei que nas vizinhanças havia grande quantidade de trabalhadores espirituais.
Em face das minhas interrogações, nosso mentor explicou, bondosamente:
– O campo é também vasta oficina para os serviços de nossa colaboração ativa.
E apontando os servidores, que iam e vinham, considerou:
– O reino vegetal possui cooperadores numerosos.
Vocês, possivelmente, ignoram que muitos irmãos se preparam para o mérito de nova encarnação no mundo, prestando serviço aos reinos inferiores.
O trabalho com o Senhor é uma escola viva, em toda parte.
Nesse momento, nossa atenção foi atraída por significativo movimento na estrada próxima.
Dirigimo-nos para lá, seguindo os passos de Aniceto, que parecia adivinhar o acontecimento.
Observei, então, um quadro interessante:
Um homem jazia por terra, numa poça de sangue, ao lado de pequeno veículo sustentado por um muar impaciente, dando mostras de grande inquietação.
Dois companheiros encarnados prestavam socorro ao ferido, apressadamente.
“É preciso conduzi-lo à fazenda sem perda de tempo”, dizia um deles, aflito, “temo haja fraturado o crânio.”
O número de desencarnados que auxiliava o pequeno grupo, todavia, era muito grande.
Um amigo espiritual que me pareceu o chefe, naquela aglomeração, recebeu Aniceto e a nós com deferência e simpatia, explicou rapidamente a ocorrência.
O carroceiro havia recebido a patada de um burro e era necessário socorrer o ferido.
Serenada a situação, vi o referido superior hierárquico chamar um guarda do caminho, interpelando:
– Glicério, como permitiu semelhante acontecimento?
Este trecho da estrada está sob sua responsabilidade direta.
O subordinado, respeitoso, considerou sensatamente:
– Fiz o possível por salvar este homem, que, aliás, é um pobre pai de família.
Meus esforços foram improfícuos, pela imprudência dele.
Há muito procuro cercá-lo de cuidados, sempre que passa por aqui;
Entretanto, o infeliz não tem o mínimo respeito pelos dons naturais de Deus.
É de uma grosseria inominável para com os animais que o auxiliam a ganhar o pão.
Não sabe senão gritar, encolerizar-se, surrar e ferir.
Tem a mente fechada às sugestões do agradecimento.
Não estima senão a praga e o chicote.
Hoje, tanto perturbou o pobre muar que o ajuda, tanto o castigou, que pareceu mais animalizado...
Quando se tornou quase irracional, pelo excesso de fúria e ingratidão, meu auxílio espiritual se tornou ineficiente.
Atormentado pelas descargas de cólera do condutor, o burro humilde o atacou com a pata.
Que fazer?
Minha obrigação foi cumprida...
O Superior, que ouvia atenciosamente as alegações, respondeu sem hesitar:
– Tem razão.
E como dirigisse o olhar a Aniceto, desejando aprovação, nosso orientador afirmou:
– Auxiliemos o homem, quanto esteja em nossas mãos, cumpramos nosso dever com o bem, mas não desprezemos as lições.
Esse trabalhador imprudente foi punido por si mesmo.
A cólera é punida por suas consequências.
Ao mal segue-se o mal.
Se os seres inferiores, nossos irmãos no grande lar da vida, nos fornecem os valores do serviço, devemos dar-lhes, por nossa vez, os valores da educação.
Ora, ninguém pode educar odiando, nem edificar algo de útil com a fúria e a brutalidade.
E, indicando o grupo que conduzia o ferido a uma casa próxima, concluiu, imperturbável:
– Como homem comum, nosso pobre amigo sofrerá muitos dias, chumbado ao leito;
Entre as aflições dos familiares, demorar-se-á um tanto a restabelecer o equilíbrio orgânico;
Mas, como Espírito eterno, recebeu agora uma lição útil e necessária.
Altamente surpreendido, reparei na grande serenidade do nosso orientador e comecei a compreender que ninguém desrespeita a Natureza sem o doloroso choque de retorno, a todo tempo.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 21 de Setembro de 2020, 15:48
OS MENSAGEIROS
42 - Evangelho no ambiente rural

Apagados os comentários mais vivos, relativamente ao episódio desagradável, o superior hierárquico daquela grande turma de trabalhadores espirituais indagou do nosso orientador, com delicadeza:
— Nobre Aniceto, valendo-vos da oportunidade, poderíeis interpretar para nós outros alguma das lições evangélicas, ainda hoje?
Aniceto aquiesceu, pressuroso.
Notei que o interesse em torno do assunto era enorme.
Com grande surpresa, vi que os servidores da gleba traziam ao estimado mentor um livro, que não tive dificuldades em identificar.
Era um exemplar do Evangelho, que Aniceto abriu firmemente, como quem sabia onde estava a lição do momento.
Fixando a página escolhida, começou a meditar, enquanto sublimada luz lhe aureolava a fronte.
Houve profundo silêncio.
Todos os colaboradores demonstravam grande interesse pela palavra que se fazia.
Tudo era de aspecto imponente e calmo na Natureza.
Um rebanho bovino acercara-se de nós, atraído por forças magnéticas que não consegui compreender.
Alguns muares humildes chegaram, igualmente, de longe.
E as aves tranquilizaram-se nas frondes fartas, sem um pio.
A única voz que toava, leve e branda, era a do vento, sussurrando harmonia e frescura.
A paisagem não podia ser mais bela, vestida em ouro líquido do Poente.
Excetuada a rusticidade natural do quadro vivo, o ambiente sugeria recordações fiéis dos verdes salões de “Nosso Lar”.
Aniceto, mergulhando o olhar no Sagrado Livro, leu em voz alta os versículos 19, 20 e 21 do capitulo 8, da Epístola aos Romanos:
— “Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus.
Porque a criação ficou sujeita a vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.”
Em seguida, refletiu alguns instantes e comentou, com evidente inspiração:
— Irmãos,
Recebamos a bênção do campo, louvando o Amor e a Sabedoria de Nosso Pai!
Exaltemos o Soberano Espírito de Vida, que sopra em nós a força eterna da incessante renovação!
Ponderemos a palavra do Apóstolo da Gentilidade, para extrair-lhe o conteúdo divino!...
Há milênios a Natureza espera a compreensão dos homens.
Não se tem alimentado tão somente de esperança, mas vive em ardente expectação, aguardando o entendimento e o auxílio dos Espíritos encarnados na terra, mais propriamente considerados filhos de Deus.
Entretanto, as forças naturais continuam sofrendo a opressão de todas as vaidades humanas.
Isto, porém, ocorre, meus amigos, porque também o Senhor tem esperança na libertação dos seres escravizados na Crosta, para que se verifique igualmente a liberdade na glória do homem.
Conheço-vos de perto os sacrifícios, abnegados trabalhadores espirituais do solo terrestre!
Muitos de vós aqui permaneceis, como em múltiplas regiões do planeta, ajudando a companheiros encarnados, acorrentados às ilusões da ganância de ordem material.
Quantas vezes, vosso auxílio é convertido em baixas explorações no campo dos negócios terrestres?
A maioria dos cultivadores da terra tudo exige sem nada oferecer.
Enquanto zelais, cuidadosamente, pela manutenção das bases da vida, tendes visto a civilização funcionando qual vigorosa máquina de triturar,
Convertendo-se os homens, nossos irmãos, em pequenos Moloques de pão, carne e vinho, absolutamente mergulhados na viciação dos sentimentos e nos excessos da alimentação,
Despreocupados do imenso débito para com a Natureza amorável e generosa.
Eles oprimem as criaturas inferiores, ferem as forças benfeitoras da vida, são ingratos para com as fontes do bem,
Atendem às indústrias ruralistas, mais pela vaidade e ambição de ganhar, que lhes são próprias, que pelo espírito de amor e utilidade,
Mas também não passam de infelizes servos das paixões desvairadas.
Traçam programas de riqueza mentirosa, que lhes constituem a ruína;
Escrevem tratados de política econômica, que redundam em guerra destruidora;
Desenvolvem o comércio do ganho indébito, colhendo as complicações internacionais que dão curso à miséria;
Dominam os mais fracos e os exploram, acordando, porém, mais tarde, entre os monstros do ódio!
É para eles, nossos semelhantes encarnados na Crosta, que devemos voltar igualmente os olhos, com espírito de tolerância e fraternidade.
Ajudemo-los ainda, agora e sempre!
Não esqueçamos que o Senhor está esperando pelo futuro deles!
Escutemos os gemidos da criação, pedindo a luz do raciocínio humano, mas não olvidemos, também, a lágrima desses escravos da corrupção,
Em cujas fileiras permanecíamos até ontem, auxiliando-os a despertar a consciência divina para a vida eterna!
Ainda que rodeiem o campo de vaidades e insolências, auxiliemo-los ainda.
O Senhor reserva acréscimos sublimes de valores evolutivos aos seres sacrificados.
Não olvidará Ele a árvore útil, o animal exterminado, o ser humilde que se consumiu em benefício de outro ser!
Cooperemos, por nossa vez, no despertar dos homens, nossos irmãos, relativamente ao nosso débito para com a Natureza maternal.
Sempre, ao voltarmos à Crosta, envolvendo-nos em fluidos do círculo carnal, levamos muito longe a aquisição de nitrogênio.
Convertemos em tragédia mundial o que poderia constituir a procura serena e edificante.
Como sabemos, organismo algum poderá viver na Terra sem essa substância, e embora se locomova, no oceano de nitrogênio, respirando-o na média de mil litros por dia, não pode o homem, como nenhum ser vivo do planeta, apropriar-se do nitrogênio do ar.
Por enquanto, não permite o Senhor a criação de células nos organismos viventes do nosso mundo, que procedam à absorção espontânea desse elemento de importância primordial na manutenção das vidas como acontece ao oxigênio comum.
Somente as plantas, infatigáveis operárias do orbe, conseguem retirá-lo do solo, fixando-o para o entretenimento da vida noutros seres.
Cada grão de trigo é uma bênção nitrogenada para sustento das criaturas, cada fruto da terra é uma bolsa de açúcar e albumina, repleta do nitrogênio indispensável ao equilíbrio orgânico dos seres vivos.
Todas as indústrias agropecuárias não representam, na essência, senão a procura organizada e metódica do precioso elemento da vida.
Se o homem conseguisse fixar dez gramas, aproximadamente, dos mil litros de nitrogênio que respira diariamente, a Crosta estaria transformada no paraíso verdadeiramente espiritual.
Mas, se muito nos dá o Senhor, é razoável que exija a colaboração do nosso esforço na construção da nossa própria felicidade.
Mesmo em “Nosso Lar”,
Ainda estamos distantes da grande conquista do alimento espontâneo pelas forças atmosféricas, em caráter absoluto.
E o homem, meus amigos, transforma a procura de nitrogênio em movimento de paixões desvairadas,
Ferindo e sendo ferido, ofendendo e sendo ofendido, escravizando e tomando-se cativo, segregado em densas trevas!
Ajudemo-lo a compreender, para que se organize uma era nova.
Auxiliemo-lo a amar a terra, antes de explorá-la no sentido inferior, a valer-se da cooperação dos animais, sem os recursos do extermínio!
Nessa época, o matadouro será convertido em local de cooperação, onde o homem atenderá aos seres inferiores
E onde estes atenderão as necessidades do homem, e as árvores úteis viverão em meio do respeito que lhes é devido.
Nesse tempo sublime, a indústria glorificará o bem e, sentindo-nos o entendimento, a boa vontade e a veneração às leis divinas, permitir-nos-á o Senhor, pelo menos em parte, a solução do problema técnico de fixação do nitrogênio da atmosfera.
Ensinemos aos nossos Irmãos que a vida não é um roubo incessante, em que a planta lesa o solo, o animal extermina a planta e o homem assassina o animal,
Mas um movimento de permuta divina, de cooperação generosa, que nunca perturbaremos sem grave dano a própria condição de criaturas responsáveis e evolutivas!
Não condenemos!
Auxiliemos sempre!
A assembléia, tanto quanto nós, estava sob forte impressão.
Aniceto calou-se, contemplou com simpatia os animais e as aves próximas, como se estivesse a endereçar-lhes profundos pensamentos de amor e, a seguir, fechou o Livro Sagrado, com estas palavras:
— Observamos com o Evangelho que a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus encarnados!
Concordamos que as criaturas inferiores têm suportado o peso de iniquidades imensas!
Continuemos em auxílio delas, mas não nos percamos em vãs contendas.
Os homens esperam também a nossa manifestação espiritual!
Desse modo, ajudemos a todos, no capítulo do grande entendimento.

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OS MENSAGEIROS –
2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 01 de Outubro de 2020, 11:47
OS MENSAGEIROS
43 Antes da reunião

Os preparativos espirituais para a reunião eram ativos e complexos.
Chegamos de regresso à residência de Dona Isabel, quando faltavam poucos minutos para as dezoito horas e já o salão estava repleto de trabalhadores em movimento.
Observando, com estranheza, determinadas operações, fiz algumas perguntas ao nosso orientador, que me esclareceu com bondade:
– Realizar uma sessão de trabalhos espirituais eficientes não é coisa tão simples.
Quando encontramos companheiros encarnados, entregues ao serviço com devotamento e bom ânimo, isentos de preocupação, de experiências malsãs e inquietações injustificáveis, mobilizamos grandes recursos a favor do êxito necessário.
Claro que não podemos auxiliar atividades infantis, nesse terreno.
Quem não deseje cuidar de semelhantes obrigações, com a seriedade devida, poderá esperar fatalmente pelos espíritos menos sérios, porquanto a morte física não significa renovação para quem não procurou renovar¬-se.
Onde se reúnam almas levianas, aí estará igualmente a leviandade.
No caso de Isabel, porém, há que lhe auxiliar o esforço edificante.
Em todos os setores evolutivos, é natural que o trabalhador sincero e eficiente receba recursos sempre mais vastos.
Onde se encontre a atividade do bem, permanecerá a colaboração espiritual de ordem superior.
Calara¬-se o bondoso amigo.
Continuei reparando as laboriosas atividades de alguns irmãos que dividiam a sala, de modo singular, utilizando longas faixas fluídicas.
Aniceto veio em socorro da minha perplexidade, explicando, atencioso:
–Estes amigos estão promovendo a obra de preservação e vigilância.
Serão trazidas aos trabalhos de hoje algumas dezenas de sofredores e torna-¬se imprescindível limitar¬-lhes a zona de influenciação neste templo familiar.
Para isso, nossos companheiros preparam as necessárias divisões magnéticas.
Observei, admirado, que eles magnetizavam o próprio ar.
Nosso instrutor, porém, informou, gentil:
– Não se impressione, André. Em nossos serviços, o magnetismo é força preponderante.
Somos compelidos a movimentá¬-lo em grande escala.
E, sorrindo, concluiu:
–  Já os sacerdotes do antigo Egito não ignoravam que, para atingir determinados efeitos, é indispensável impregnar a atmosfera de elementos espirituais, saturando¬-a de valores positivos da nossa vontade.
Para disseminar as luzes evangélicas aos desencarnados, são precisas providências variadas e complexas, sem o que, tudo redundaria em aumento de perturbações.
Este núcleo é pequenino, considerado do ponto de vista material, mas apresenta grande significação para nós outros.
É preciso vigiar, não o esqueçamos.
Enquanto as atividades de preparação espiritual seguiam intensas, Dona Isabel e Joaninha, noutra ordem de serviço, chegaram ao salão, dispondo arranjos diferentes.
Usaram, largamente, a vassoura e o espanador.
Revestiram a mesa de toalha muito alva e trouxeram pequenos recipientes de água pura.
A uma ordem de um dos superiores daquele templo doméstico, espalharam¬-se os vigilantes, em derredor da moradia singela.
Nos menores detalhes estava a nobre supervisão dos benfeitores.
Em tudo a ordem, o serviço e a simplicidade.
Logo após alguns minutos além das dezoito horas, começaram a chegar os necessitados da esfera invisível ao homem comum.
Se fosse concedida à criatura vulgar uma vista de olhos, ainda que ligeira, sobre uma assembleia de espíritos desencarnados, em perturbação e sofrimento, muito se lhes modificariam as atitudes na vida normal.
Nessa afirmativa, devemos incluir, igualmente, a maioria dos próprios espiritistas, que frequentam as reuniões doutrinárias, alheios ao esforço auto¬educativo, guardando da espiritualidade uma vaga ideia, na preocupação de atender ao egoísmo habitual.
O quadro de retificações individuais, após a morte do corpo, é tão extenso e variado que não encontramos palavras para definir a imensa surpresa.
Aqueles rostos esqueléticos causavam compaixão.
Chegavam ao recinto aquelas entidades perturbadas, em pequenos magotes, seguidas de orientadores fraternais.
Pareciam cadáveres erguidos do leito de morte.
Alguns se locomoviam com grande dificuldade.
Tínhamos diante dos olhos uma autêntica reunião de “coxos e estropiados”, segundo o símbolo evangélico.
– Em maioria – esclareceu Aniceto – são irmãos abatidos e amargurados, que desejam a renovação sem saber como iniciar a tarefa.
Aqui, poderemos observar apenas sofredores dessa natureza, porque o santuário familiar de Isidoro e Isabel não está preparado para receber entidades deliberadamente perversas.
Cada agrupamento tem seus fins.
Com efeito, os recém ¬chegados estampavam profunda angústia na expressão fisionômica.
As senhoras em pranto eram numerosas.
O quadro consternava.
Algumas entidades mantinham as mãos no ventre, calcando regiões feridas.
Não eram poucas as que traziam ataduras e faixas.
– Muitos – disse¬-nos o mentor – não concordam ainda com as realidades da morte corporal.
E toda essa gente, de modo geral, está prisioneira da ideia de enfermidade.
Existem pessoas, e vocês, como médicos, as terão conhecido largamente, que cultivam as moléstias com verdadeira volúpia.
Apaixonam¬-se pelos diagnósticos exatos, acompanham no corpo, com indefinível ardor, a manifestação dos indícios mórbidos,
Estudam a teoria da doença de que são portadoras, como jamais analisam um dever justo no quadro das obrigações diárias,
E quando não dispõem das informações nos livros, estimam a longa atenção dos médicos, os minuciosos cuidados da enfermagem e as compridas dissertações sobre a enfermidade de que se constituem voluntárias prisioneiras.
Sobrevindo a desencarnação, é muito difícil o acordo entre elas e a verdade, porquanto prosseguem mantendo a ideia dominante.
Ás vezes, no fundo, são boas almas, dedicadas aos parentes do sangue e aproveitáveis na esfera restrita de entendimento a que se recolhem,
Mas, no entanto, carregadas de viciação mental por muitos séculos consecutivos.
E num gesto diferente, nosso instrutor considerou:
 – Demoramo¬-nos todos a escapar da velha concha do individualismo.
A visão da universalidade custa preço alto e nem sempre estamos dispostos a pagá¬-lo.
Não queremos renunciar ao gosto antigo, fugimos aos sacrifícios louváveis.
Nessas circunstâncias, o mundo que prevalece para a alma desencarnada, por longo tempo, é o reino pessoal de nossas criações inferiores.
Ora, desse modo, quem cultivou a enfermidade com adoração, submeteu-se lhe ao império.
É lógico que devemos, quando encarnados, prestar toda a assistência ao corpo físico, que funciona, para nós, como vaso sagrado,
Mas remediar a saúde e viciar a mente são duas atitudes essencialmente antagônicas entre si. A palestra era magnificamente educativa;
Entretanto, o número crescente de entidades necessitadas chamava¬-nos à cooperação.
Muitas choravam baixinho, outras gemiam em voz mais alta.
Depois de longa pausa, Aniceto advertiu:
–  Vamos ao serviço.
Para nós, cooperadores espirituais, os trabalhos já começaram.
A prece e o esforço dos companheiros encarnados representarão o termo desta reunião de assistência e iluminação em Jesus Cristo.

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2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 01 de Outubro de 2020, 11:48
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44 Assistência

A paisagem de sofrimento, desdobrada aos nossos olhos, lembrava¬-me o  ambiente das Câmaras de Retificação.
Entendeu-¬se Aniceto com Isidoro e falou, resoluto:
– Mãos à obra! Distribuamos alguns passes de reconforto! 
– Mas – objetei – estarei preparado para trabalho dessa natureza?
– Por que não? – indagou o instrutor em voz firme – toda competência e especialização no mundo, nos setores de serviço, constituem o desenvolvimento da boa vontade.
Bastam o sincero propósito de cooperação e a noção de responsabilidade para que sejamos iniciados, com êxito, em qualquer trabalho novo.
Semelhantes afirmativas estimularam¬-me o coração.
Recordei Narcisa, a dedicada irmã dos infortunados, que permanecia, em “Nosso Lar”, quase sempre sem repouso, como prisioneira do sacrifício.
Pareceu¬-me, ainda, ouvir-¬lhe a voz fraterna e carinhosa – 
“André, meu amigo, nunca te negues, quanto possível, a auxiliar os que sofrem.
Ao pé dos enfermos, não olvides que o melhor remédio é a renovação da esperança;
Se encontrares os falidos e os derrotados da sorte, fala-¬lhes do divino ensejo do futuro;
Se fores procurado, algum dia, pelos espíritos desviados e criminosos, não profiras palavras de maldição.
Anima, eleva, educa, desperta, sem ferir os que ainda dormem.
Deus opera maravilhas por intermédio do trabalho de boa vontade!”
Sem mais hesitação, dispus¬ me ao serviço.
Aniceto designou¬-me um grupo de seis enfermos espirituais, acentuando:
– Aplique seus recursos, André.
Com a nossa colaboração, os amigos em tarefa nesta casa poderão atender a responsabilidades diferentes e também imperiosas.
Os mais apagados trabalhadores do bem rejubilem-¬se pela exemplificação nas lutas comuns e edifiquem¬-se no Senhor Jesus, porque nenhuma de suas manifestações fica perdida no espaço e no tempo.
Naquele instante em que fora chamado a prestar auxílios reais,
Eu não recorria aos meus cabedais científicos,
Não me reportava tão somente à técnica da medicina oficial, a que me filiara no mundo,
Mas recordava aquela Narcisa humilde e simples, das Câmaras de Retificação, enfermeira devotada e carinhosa, que conseguia muito mais com amor do que com medicações.
Aproximei¬-me duma senhora profundamente abatida, lembrando o exemplo da generosa amiga de “Nosso Lar”, entendendo que não deveria socorrer utilizando  apenas a firmeza e a energia, mas também a ternura e a compreensão.
– Minha irmã – disse, procurando captar-¬lhe a confiança –, vamos ao passe reconfortador.
– Ai! Ai! – respondeu a interpelada – nada vejo, nada vejo!
Ah! O tracoma!  Infeliz que sou!
E me falam em morte, em vida diferente...
Como recuperar a vista?! 
Quero ver, quero ver!...
–  Calma – respondi, encorajado –, não confia no Poder de Jesus?
Ele continua curando cegos, iluminando-¬nos o caminho, guiando-¬nos os passos! 
Somente mais tarde lembrei que, naquele instante, olvidara a curiosidade doentia,
Não pensei na impressão deixada pelo tracoma naquele organismo espiritual,
Nem me preocupei com a expressão propriamente científica do fenômeno,
Vendo, apenas, à minha frente, uma irmã sofredora e necessitada.
E, à medida que me dispunha a observar a prática do amor fraternal, uma claridade diferente começou a iluminar e a aquecer¬-me a fronte.
Lembrando a influência divina de Jesus, iniciei o passe de alívio sobre os olhos da pobre mulher, reparando que enorme placa de sombra lhe pesava na fronte.
Pronunciando palavras de animação, às quais ligava a melhor essência de minhas intenções, concentrei minhas possibilidades magnéticas de auxílio nessa zona perturbada.
Dentro de alguns instantes, a desencarnada desferiu um grito de espanto. – Vejo! Vejo!  –
Exclamou, entre o assombro e a alegria – Grande Deus!  Grande Deus! 
E ajoelhando-¬se, num movimento instintivo para render graças, dirigia¬-me a palavra, comovidamente:
– Quem sois vós, emissário do bem?
Dominava¬-me profunda emoção, que não conseguia sofrear.
Confundia-¬me a bondade do Eterno.
Quem era eu para curar alguém?
Mas a alegria daquela entidade, libertada das trevas, afirmava a ocorrência, na qual não queria acreditar.
A luz daquela dádiva como que mostrava mais fortemente o fundo escuro de minhas imperfeições individuais e o pranto inundou-¬me as faces, sem que pudesse retê¬-lo nos recônditos mananciais do coração.
Enquanto a enferma espiritual se desfazia em lágrimas de louvor, também eu me absorvia numa onda de pensamentos novos.
O acontecimento surpreendia-¬me.
Desejava socorrer o doente próximo e, contudo, estava enlaçado em singular deslumbramento intimo.
Aniceto, porém, aproximou-¬se delicadamente e falou em voz baixa:
–  André, a excessiva contemplação dos resultados pode prejudicar o trabalhador.
Em ocasiões como esta, a vaidade costuma acordar dentro de nós, fazendo¬-nos esquecer o Senhor.
Não olvides que todo o bem procede d’Ele, que é a luz de nossos corações.
Somos seus instrumentos nas tarefas de amor.
O servo fiel não é aquele que se inquieta pelos resultados, nem o que permanece enlevado na contemplação deles,
Mas justamente o que cumpre a vontade divina do Senhor e passa adiante.
Aquelas palavras não poderiam ser mais significativas,
O generoso mentor voltou ao serviço a que se entregara, junto de outros irmãos,
E, valendo¬-me do amoroso aviso, dirigi¬-me à reconhecida senhora, acentuando:
– Minha amiga, agradeça a Jesus e não a mim, que sou apenas obscuro servidor.
Quanto ao mais, não se impressione em demasia com a visão dos aspectos exteriores;
Volte o poder visual para dentro de si mesma, para que possa consagrar ao Senhor da Vida os sublimes dons da visão.
Notei que a ouvinte se surpreendia com as minhas palavras, que lhe pareceram, talvez, inoportunas e transcendentes,
Mas, novamente firme na compreensão do dever, acerquei¬-me do enfermo próximo.
Tratava¬-se dum infeliz irmão que falecera na Gamboa, vitimado pelo câncer.
Toda a região facial apresentava¬-se com horrífico aspecto.
Apliquei os passes dê reconforto, ministrando pensamentos e palavras de bom ânimo, e reparei que o pobrezinho se sentia tomado de considerável melhora.
Prometi-¬lhe interesse amigo, a fim de internar-¬se em alguma casa espiritual de tratamento, recomendando que preparasse a vida mental para colher semelhante benefício, oportunamente.
Em seguida, atendi a dois ex¬ tuberculosos do Encantado, a uma senhora que desencarnara em Piedade, em consequência de um tumor maligno, e a um rapaz de Olaria, que se desprendera num choque operatório.
Nenhum destes quatro últimos, contudo, manifestou qualquer alívio.
Persistiam as mesmas indisposições orgânicas, os mesmos fenômenos psíquicos de sofrimento.
Terminada a tarefa que me fora cometida, reuni¬-me ao nosso instrutor e Vicente, que me esperavam a um canto da sala.
–  As atividades de assistência – exclamou Aniceto, cuidadoso 
–  Se processam conforme observam aqui.
Alguns se sentem curados, outros acusam melhoras e a maioria parece continuar impermeável ao serviço de auxílio.
O que nos deve interessar, todavia, é a semeadura do bem.
A germinação, o desenvolvimento, a flor e o fruto pertencem ao Senhor.
Vicente, que se mostrava fortemente impressionado, observou:
– O número de entidades perturbadas espanta.
Vemo-las, em diversos graus de desequilíbrio, desde “Nosso Lar” até a Crosta.
Aniceto sorriu e falou em tom grave:
– Devemos esmagadora percentagem desses padecimentos à falta de educação religiosa.
Não me refiro, porém, àquela que vem do sacerdócio ou que parte da boca de uma criatura para os ouvidos de outra.
Refiro¬-me à educação religiosa, íntima e profunda, que o homem nega sistematicamente a si mesmo.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 16 de Outubro de 2020, 13:10
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45 Mente enferma

Observando e trabalhando sempre, Aniceto considerou:
– Aqui não comparecem apenas os desencarnados enfermos.
Reparem os encarnados, igualmente.
Entre o nosso círculo e a assembleia dos irmãos corporificados, a percentagem de trabalhadores em relação ao número de doentes e necessitados é quase a mesma.
Designando um cavalheiro aprumado e bem posto, que se mantinha em palestra com o senhor Bentes, doutrinador naquele grupo, acrescentou:
– Vejam este amigo rodeado de sombra, em conversação como colaborador de nossa irmã Isabel.
Ouçam-¬lhe a palavra e, depois, ajuízem.
Com efeito, o cavalheiro indicado rodeava¬-se de pequenas nuvens, mormente ao longo do cérebro.
Fixando nele a atenção, eu o ouvia distintamente:
– Há muito – asseverava com ênfase – frequento as reuniões espiritistas, à procura de alguma coisa que me satisfaça;
No entanto – e sorriu irônico –, ou a minha infelicidade é maior que a dos outros ou estamos diante de mistificação mundial.
Atento à respeitosa atitude do orientador encarnado, prosseguia, orgulhoso:
– Tenho estudado muitíssimo, não me furtando ao crivo da razão rigorosa.
Já devorei extensa literatura relativa à sobrevivência humana e, todavia, nunca obtive uma prova.
O Espiritismo está cheio de teses sedutoras, mas o terreno se mostra cheio de dúvidas.
A obra de Kardec, inegavelmente, representa extraordinária afirmação filosófica;
Entretanto, encontramos com Richet um acervo de perspectivas novas.
A metapsíquica corrigiu muitos voos da imaginação, trazendo à análise pública observações mais profundas sobre os desconhecidos poderes do homem.
No exame dessas verdades científicas, o mediunismo foi reduzido em suas proporções.
Precisamos dum movimento de racionalização, ajustando os fenômenos a critério adequado.
Todavia, meu caro Bentes, vivemos em paisagem de mistificações sutis, distantes das demonstrações exatas.
A essa altura, o interlocutor, muito calmo e seguro na fé, interveio, considerando:
– Concordo, Dr. Fidélis, em que o Espiritismo não deva fugir a toda espécie de considerações sérias;
Contudo, creio que a doutrina é um conjunto de verdades sublimes, que se dirigem, de preferência, ao coração humano.
É impossível auscultar-¬lhe a grandeza divina com a nossa imperfeita faculdade de observação, ou recolher-¬lhe as águas puras com o vaso sujo dos nossos raciocínios viciados nos erros de muitos milênios.
Ao demais, temos aprendido que a revelação de ordem divina não é trabalho mecânico em leis de menor esforço.
Lembremos que a missão do Evangelho, com o Mestre, foi precedida por um esforço humano de muitos séculos.
Antes de morrerem os cristãos nos circos do martírio, quantos precursores de Jesus foram sacrificados?
Primeiramente, devemos construir o receptáculo;
Em seguida, alcançaremos a bênção.
A Bíblia, sagrado livro dos cristãos, é o encontro da experiência humana, cheia de suor e lágrimas,
Consubstanciada no Velho Testamento, com a resposta celestial, sublime e pura, no Evangelho de Nosso Senhor.
O cavalheiro, que respondia pelo nome de Dr. Fidélis, sorria de modo vago, entre a ironia e a vaidade ofendida.
Bentes, contudo, não perdeu a oportunidade e continuou:
– Se todo serviço sério da existência humana é alguma coisa de sagrado aos nossos olhos, que dizer da expressão divina no trabalho planetário?
E considerando a essência do serviço na organização do mundo,
Que seria de nós se um punhado de espíritos amigos e sábios nos arrebatassem à visão ampla de orbes superiores, impelindo¬-nos para eles, precipitadamente,
Tão só pelo fato de nos dispensarem, como indivíduos;
Uma estima santa?
Estaríamos preparados para a mudança radical?
Saberemos o que venha a ser a vida num orbe superior?
Teremos trabalhado bastante para entender os divinos desígnios?
E a Terra?
E as nossas milenárias dívidas para com o planeta que nos tem suportado as imperfeições?
Como residir nos andares mais altos, sem drenar os pântanos que jazem em baixo?
Estas considerações tomam¬-se imprescindíveis no exame de argumentação como a sua,
Porquanto não poderemos ajuizar, com precisão, as correntes generosas de um rio caudaloso, observando tão somente as gotas recolhidas no dedal das nossas limitações.
O pesquisador renitente acentuou a expressão irônica do rosto e revidou:
– Você fala como homem de fé, esquecendo que meu esforço se dirige à razão e à ciência.
Quero referir¬-me às ilações inevitáveis da consulta livre, às farsas mediúnicas de todos os tempos.
Você está informado de que cientistas inúmeros examinaram as fraudes dos mais célebres aparelhos do mediunismo, na Europa e na América.
Ora, que esperar de uma doutrina confiada a mistificadores continentais?
Bentes respondeu, muito sereno e ponderado:
– Está enganado, meu amigo.
Estaríamos laborando em erro grave, se colocássemos toda a responsabilidade doutrinária nas organizações mediúnicas.
Os médiuns são simples colaboradores do trabalho de espiritualização.
Cada um responderá pelo que fez das possibilidades recebidas, como também nós seremos compelidos a contas necessárias, algum dia.
Não poderíamos cometer o absurdo de atribuir a concentração de todas as verdades divinas somente na cabeça de alguns homens, candidatos a novos cultos de adoração.
A doutrina, Dr. Fidélis, é uma fonte sublime e pura, inacessível aos pruridos individualistas de qualquer de nós,
Fonte na qual cada companheiro deve beber a água da renovação própria.
Quanto às fraudes mediúnicas a que se refere, é forçoso reconhecer que a pretensa infalibilidade científica tem procurado converter os mais nobres colaboradores dos desencarnados em grandes nervosos ou em simples cobaias de laboratório.
Os pesquisadores, atualmente batizados como metapsiquistas, são estranhos lavradores que enxameiam no campo de serviço sem nada produzirem de fundamentalmente útil.
Inclinam¬-se para a terra, contam os grãos de areia e os vermes invasores,
Determinam o grau de calor e estudam a longitude,
Observam as disposições climáticas e anotam as variações atmosféricas,
Mas, com grande surpresa para os trabalhadores sinceros, desprezam a semente.
O interlocutor deixou de sorrir e observou:
– Vamos ver, vamos ver...
Espero a mensagem dos meus com os sinais iniludíveis da sobrevivência, após a morte...
Aniceto nos tocou de leve, e falou:
–Repararam como este homem traz a mente enfermiça?
É um dos curiosos doentes, encarnados.
Tem vasta cultura e, todavia, como traz o sentimento envenenado, tudo quanto lhe cai nos raciocínios participa da geral intoxicação.
É pesquisador de superfície, como ocorre a muita gente.
Tudo espera dos outros, examina seu semelhante, mas não ausculta a si mesmo.
Quer a realização divina sem o esforço humano;
Reclama a graça, formulando a exigência;
Quer o trigo da verdade, sem participar da semeadura;
Espera a tranquilidade pela fé, sem dar-¬se ao trabalho das obras;
Estima a ciência, sem consultar a consciência;
Prefere a facilidade, sem filiar¬-se à responsabilidade,
E, vivendo no torvelinho de continuadas libações, agarrado aos interesses inferiores e à satisfação dos sentidos físicos, em caráter absoluto, está aguardando mensagens espirituais...
Estávamos admirados, ante as conclusões interessantes do instrutor amigo.
Vicente, que se mantinha sob forte impressão, perguntou:
– Afinal de contas, que deseja este homem?
Aniceto sorriu e respondeu:
– Também ele teria imensas dificuldades para responder.
Para nós outros, Vicente, o Dr. Fidélis é um desses enfermos que ainda não se dispuseram a procurar o alívio, pelo demasiado apego à sensação.

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OS MENSAGEIROS –
2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 16 de Outubro de 2020, 13:10
OS MENSAGEIROS
46 Aprendendo sempre

Segundo informações de Aniceto,
Faltava mais de uma hora para o início da preleção evangélica, sob a responsabilidade do senhor Bentes, na esfera dos frequentadores encarnados,
Mas o movimento de serviço espiritual tornara-¬se intensíssimo.
Reuniam¬-se ali, para olhos humanos, trinta e cinco individualidades terrestres e, no entanto, em nosso círculo, o número de necessitados excedia de duas centenas,
Porquanto, agora, a assembleia estava acrescida de muitas entidades que formavam o séquito perturbador da maioria dos aprendizes ali congregados.
Para elas, organizou-¬se uma divisão especial, que me pareceu constituída por elementos de maior vigilância,
Visto chegarem, quase obrigatoriamente, acompanhando os que buscavam o socorro espiritual,
Sem a indicação dos orientadores em serviço nas vias públicas.
A movimentação era enorme e o tempo era escasso para qualquer observação, sem movimento ativo.
Todos os servidores da casa se mantinham a postos, desenvolvendo a melhor atenção.
Reparei que num ângulo da grande mesa havia numerosas indicações de receituário e assistência.
Os mais variados nomes ali se enfileiravam.
Muitas pessoas pediam conselhos médicos, orientação, assistência e passes.
Quatro facultativos espirituais se moviam diligentes e, secundando¬-lhes o esforço humanitário,
Quarenta cooperadores diretos iam e vinham recolhendo informações e enriquecendo pormenores.
Aproximamo-¬nos do grande número de papéis nominados e, enquanto curiosamente buscava examiná-¬los, Aniceto explicou:
– Temos aqui a indicação das pessoas que se afirmam necessitadas de amparo e socorro imediato.
– Mas recebem elas tudo quanto pedem? – indagou Vicente, curioso.
Nosso mentor sorriu e respondeu:
– Recebem o que precisam.
Muitos solicitam a cura do corpo, mas somos forçados a estudar até que ponto lhes podemos ser úteis, no particularismo dos seus desejos;
Outros reclamam orientações várias, obrigando¬-nos a equilibrar nossa cooperação, de modo a lhes não tolher a liberdade individual.
A existência terrestre é um curso ativo de preparação espiritual
E, quase sempre, não faltam na escola os alunos ociosos, que perdem o tempo ao invés de aproveitá-¬lo, ansiosos pelas realizações mentirosas do menor esforço.
Desse modo, no capítulo das orientações, a maior parte dos pedidos são desassisados.
A solicitação de terapêutica para a manutenção da saúde física, pelos que de fato se interessem pelo concurso espiritual, é sempre justa;
Todavia, no que concerne a conselhos para a vida normal, é imprescindível muita cautela de nossa parte,
Diante das requisições daqueles que se negam voluntariamente aos testemunhos de conduta cristã.
O Evangelho está cheio de sagrados roteiros espirituais e o discípulo, pelo menos diante da própria consciência, deve considerar¬-se obrigado a conhece-¬los.
O instrutor amigo fez pequena pausa, mudou a inflexão de voz, como para acentuar fortemente as palavras, e considerou:
– Possivelmente, vocês objetarão que toda pergunta exige resposta e todo pedido merece solução;
Entretanto, nesse caso de esclarecer determinadas solicitações dos companheiros encarnados, devemos recorrer, muitas vezes, ao silêncio.
Como recomendar humildade àqueles que a pregam para os outros;
Como ensinar a paciência aos que a aconselham aos semelhantes,
E como indicar o bálsamo do trabalho aos que já sabem condenar a ociosidade alheia?
Não seria contrassenso?
Ler os regulamentos da vida para os cegos e para os ignorantes é obra meritória,
Mas, repeti-¬los aos que já se encontram plenamente informados, não será menosprezo ao valor do tempo?
Alma alguma, nas diversas confissões religiosas do Cristianismo, recebe notícias de Jesus, sem razão de ser.
Ora, se toda condição de trabalho edificante traduz compromisso da criatura, todo conhecimento do Cristo traduz responsabilidade.
Cada aprendiz do Mestre, portanto, está no dever de observar a consciência, conferindo-¬lhe os alvitres profundos com as disposições evangélicas.
Vicente, que escutava com grande interesse, aventou:
–  No entanto, ousaria lembrar os que formulam semelhantes pedidos levianamente...
– Sim – elucidou Aniceto, sorrindo –, mas nós não poderemos copiar-¬lhes o impulso.
Os desencarnados e os encarnados, que ainda abusam das possibilidades do intercâmbio entre as esferas visíveis e invisíveis ao homem comum,
Pagarão alto preço pela invigilância.
– Neste caso – perguntei, respeitoso –, como corresponder aos pedidos de orientação?
– Alguns, raros – esclareceu nosso orientador –, merecem o concurso da nossa elucidação verbal,
Na hipótese de se referirem aos interesses eternos do espírito, quando isso nos seja possível;
Entretanto, quase sempre é indispensável nada responder de maneira direta, auxiliando os interessados na pauta de nossos recursos, em silêncio,
Mesmo porque,
Não temos grande tempo para relembrar a irmãos encarnados certas obrigações que lhes não deviam escapar da memória, para felicidade de si mesmos.
Calou¬-se por momentos o bondoso instrutor, considerando em seguida, interessado em nos subtrair quaisquer dúvidas:
– Muitas entidades desencarnadas estimam o fornecimento de palpites para as diversas situações e dificuldades terrestres,
Mas esses pobres amigos estacionam desastradamente em questões subalternas, incapazes de uma visão mais alta, em face dos horizontes infinitos da vida eterna,
Convertendo¬-se em meros escravos de mentalidades inferiores, encarnadas na Terra. Esquecem que o nosso interesse imediato, agora, deve ser, acima de todos, aquele que se refira à espiritualidade superior.
Nossos irmãos inquietos, que forneçam palpites a preguiçosas mentes encarnadas, sobre assuntos referentes à responsabilidade justa e necessária do homem, devem fazê¬-lo de própria conta.
– Que acontece, então? – perguntou Vicente, curioso.
Nosso mentor, contudo, respondeu com outra pergunta:
– Que acontece ao homem de responsabilidade que se põe a brincar?
Nesse instante, um dos clínicos espirituais, aproximando¬-se, foi gentilmente saudado por Aniceto, que lhe disse, depois de apresentar¬-nos:
– Disponha da nossa colaboração humilde.
Aqui estamos na qualidade de médicos itinerantes, prontos ao concurso ativo.
– Vêm de “Nosso Lar”? – indagou o novo companheiro, respeitosamente.
– Sim – respondeu Aniceto, prestativo.
– Pois bem – considerou ele – se possível, estimarei receber-¬lhes o auxílio, após a reunião, para dois casos urgentes.
Trata-¬se de uma jovem desencarnada hoje e de um agonizante, meu amigo.
– Sem dúvida – acentuou nosso orientador, solícito –, aguardaremos suas indicações.

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OS MENSAGEIROS –
2º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier