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GERAL => Outros Temas => Livros Espíritas => Tópico iniciado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:29

Título: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:29
NOSSO LAR

Novo amigo

Os prefácios, em geral, apresentam autores, exaltando-lhes o mérito e Comentando-lhes a personalidade.
Aqui, porém, a situação é diferente.
Embalde os companheiros encarnados procurariam o médico André Luiz nos catálogos da convenção.
Por vezes, o anonimato é filho do legítimo entendimento e do verdadeiro amor.

Para redimirmos o passado escabroso, modificam-se tabelas da nomenclatura usual na reencarnação.
Funciona o esquecimento temporário como bênção da Divina Misericórdia.
André precisou, igualmente, cerrar a cortina sobre si mesmo.

É por isso que não podemos apresentar o médico terrestre e autor humano, mas sim o novo amigo e irmão na eternidade.
Por trazer valiosas impressões aos companheiros do mundo, necessitou despojar-se de todas as convenções, inclusive a do próprio nome, para não ferir corações amados, envolvidos ainda nos velhos mantos da ilusão.

Os que colhem as espigas maduras, não devem ofender os que plantam a distância, nem perturbar a lavoura verde, ainda em flor.
Reconhecemos que este livro não é único.
Outras entidades já comentaram as condições da vida, além-túmulo...

Entretanto, de há muito desejamos trazer ao nosso círculo espiritual alguém que possa transmitir a outrem o valor da experiência própria, com todos os detalhes possíveis à legítima compreensão da ordem que preside o esforço dos desencarnados laboriosos e bem-intencionados, nas esferas invisíveis ao olhar humano, embora intimamente ligadas ao planeta.

Certamente que numerosos amigos sorrirão ao contato de determinadas passagens das narrativas.
O inabitual, entretanto, causa surpresa em todos os tempos.
Quem não sorriria, na Terra, anos atrás, quando se lhe falasse da aviação, da eletricidade, da radiofonia?

A surpresa, a perplexidade e a dúvida são de todos os aprendizes que ainda não passaram pela lição.
É mais que natural, é justíssimo.
Não comentaríamos, desse modo, qualquer impressão alheia.
Todo leitor precisa analisar o que lê.

Reportamo-nos, pois, tão somente ao objetivo essencial do trabalho.
O Espiritismo ganha expressão numérica.
Milhares de criaturas interessam-se pelos seus trabalhos, modalidades, experiências.
Nesse campo imenso de novidades, todavia, não deve o homem descurar de si mesmo.
Não basta investigar fenômenos, aderir verbalmente, melhorar a estatística, doutrinar consciências alheias, fazer proselitismo e conquistar favores da opinião, por mais respeitável que seja, no plano físico.

É indispensável cogitar do conhecimento de nossos infinitos potenciais, aplicando-os, por nossa vez, nos serviços do bem.
O homem terrestre não é um deserdado.
É filho de Deus, em trabalho construtivo, envergando a roupagem da carne; aluno de escola benemérita, onde precisa aprender a elevar-se.

A luta humana é a sua oportunidade, a sua ferramenta, o seu livro.
O intercâmbio com o invisível é um movimento sagrado, em função restauradora do Cristianismo puro; que ninguém, todavia, se descuide das necessidades próprias, no lugar que ocupa pela vontade do Senhor.

André Luiz vem contar a você, leitor amigo, que a maior surpresa da morte carnal é a de nos colocar face a face com a própria consciência, onde edificamos o céu, estacionamos no purgatório ou nos precipitamos no abismo infernal; vem lembrar que a Terra é oficina sagrada e que ninguém a menosprezará, sem conhecer o preço do terrível engano a que submeteu o próprio coração.

Guarde a experiência dele no livro d'alma.
Ela diz bem alto que não basta à criatura apegar-se à existência humana, mas precisa saber aproveitá-la dignamente; que os passos do cristão, em qualquer escola religiosa, devem dirigir-se verdadeiramente ao Cristo, e que, em nosso campo doutrinário, precisamos, em verdade, do “Espiritismo” e do “Espiritualismo”, mas, muito mais, de “Espiritualidade”.

Emmanuel

Pedro Leopoldo, 3 de outubro de 1943

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:31
NOSSO LAR

Mensagem de André Luiz

A vida não cessa.

A vida é fonte eterna e a morte é jogo escuro das ilusões.
O grande rio tem seu trajeto, antes do mar imenso.
Copiando-lhe a expressão, a alma percorre igualmente caminhos variados e etapas diversas, também recebe afluentes de conhecimentos, aqui e ali, avoluma-se em expressão e purifica-se em qualidade, antes de encontrar o Oceano Eterno da Sabedoria.

Cerrar os olhos carnais constitui operação demasiadamente simples.
Permutar a roupagem física não decide o problema fundamental da iluminação, como a troca de vestidos nada tem que ver com as soluções profundas do destino e do ser.

Oh!
Caminhos das almas, misteriosos caminhos do coração!
É mister percorrer-vos, antes de tentar a suprema equação da Vida Eterna!
É indispensável viver o vosso drama, conhecer-vos detalhe a detalhe, no longo processo do aperfeiçoamento espiritual! ...

Seria extremamente infantil a crença de que o simples "baixar do pano" resolvesse transcendentes questões do Infinito.
Uma existência é um ato.
Um corpo – uma veste.
Um século – um dia.
Um serviço – uma experiência.
Um triunfo – uma aquisição.
Uma morte – um sopro renovador.

Quantas existências, quantos corpos, quantos séculos, quantos serviços, quantos triunfos, quantas mortes necessitamos ainda?
E o letrado em filosofia religiosa fala de deliberações finais e posições definitivas!

Ai!
Por toda parte, os cultos em doutrina e os analfabetos do espírito!
É preciso muito esforço do homem para ingressar na academia do Evangelho do Cristo, ingresso que se verifica, quase sempre, de estranha maneira ele só, na companhia do Mestre, efetuando o curso difícil, recebendo lições sem cátedras visíveis e ouvindo vastas dissertações sem palavras articuladas.
Muito longa, portanto, nossa jornada laboriosa.
Nosso esforço pobre quer traduzir apenas uma ideia dessa verdade fundamental.

Grato, pois, meus amigos!
Manifestamo-nos, junto a vós outros, no anonimato que obedece à caridade fraternal.
A existência humana apresenta grande maioria de vasos frágeis, que não podem conter ainda toda a verdade.
Aliás, não nos interessaria, agora, senão a experiência profunda, com os seus valores coletivos.
Não atormentaremos alguém com a ideia da eternidade.
Que os vasos se fortaleçam, em primeiro lugar.
Forneceremos, somente, algumas ligeiras notícias ao espírito sequioso dos nossos irmãos na senda de realização espiritual, e que compreendem conosco que “o espírito sopra onde quer”.

E, agora, amigos, que meus agradecimentos se calem no papel, recolhendo-se ao grande silêncio da simpatia e da gratidão.
Atração e reconhecimento, amor e júbilo moram na alma.
Crede que guardarei semelhantes valores comigo, a vosso respeito, no santuário do coração. Que o Senhor nos abençoe.

André Luiz

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:32
NOSSO LAR

1 - Nas Zonas Inferiores

Eu guardava a impressão de haver perdido a idéia de tempo.
A noção de espaço esvaíra-se-me de há muito.
Estava convicto de não mais pertencer ao número dos encarnados no mundo e, no entanto, meus pulmões respiravam a longos haustos.
Desde quando me tornara joguete de forças irresistíveis?
Impossível esclarecer.
Sentia-me, na verdade, amargurado duende nas grades escuras do horror.
Cabelos eriçados, coração aos saltos, medo terrível senhoreando-me, muita vez gritei como louco, implorei piedade e clamei contra o doloroso desânimo que me subjugava o espírito; mas, quando o silêncio implacável não me absorvia a voz estentórica, lamentos mais comovedores que os meus respondiam-me aos clamores.
Outras vezes gargalhadas sinistras rasgavam a quietude ambiente.
Algum companheiro desconhecido estaria, a meu ver, prisioneiro da loucura.
Formas diabólicas, rostos alvares, expressões animalescas surgiam, de quando em quando, agravando-me o assombro.
A paisagem, quando não totalmente escura, parecia banhada de luz alvacenta, como que amortalhada em neblina espessa, que os raios de Sol aquecessem de muito longe. E a estranha viagem prosseguia...
Com que fim?
Quem o poderia dizer?
Apenas sabia que fugia sempre...
O medo me impelia de roldão.
Onde o lar, a esposa, os filhos?
Perdera toda a noção de rumo.
O receio do ignoto e o pavor da treva absorviam-me todas as faculdades de raciocínio, logo que me desprendera dos últimos laços físicos, em pleno sepulcro!
Atormentava-me a consciência: preferiria a ausência total da razão, o não-ser.
De início, as lágrimas lavavam-me incessantemente o rosto e apenas, em minutos raros, felicitava-me a bênção do sono.
Interrompia-se, porém, bruscamente, a sensação de alívio.
Seres monstruosos acordavam-me, irônicos; era imprescindível fugir deles.
Reconhecia, agora, a esfera diferente a erguer-se da poalha do mundo e, todavia, era tarde.
Pensamentos angustiosos atritavam-me o cérebro.
Mal delineava projetos de solução, incidentes numerosos impeliam-me a considerações estonteantes.
Em momento algum, o problema religioso surgiu tão profundo a meus olhos.
Os princípios puramente filosóficos, políticos e científicos, figuravam-se-me agora extremamente secundários para a vida humana.
Significavam, a meu ver, valioso patrimônio nos planos da Terra, mas urgia reconhecer que a humanidade não se constitui de gerações transitórias e sim de Espíritos eternos, a caminho de gloriosa destinação.
Verificava que alguma coisa permanece acima de toda cogitação meramente intelectual.
Esse algo é a fé, manifestação divina ao homem.
Semelhante análise surgia, contudo, tardiamente.
De fato, conhecia as letras do Velho Testamento e muita vez folheara o Evangelho; entretanto, era forçoso reconhecer que nunca procurara as letras sagradas com a luz do coração. Identificava-as através da crítica de escritores menos afeitos ao sentimento e à consciência, ou em pleno desacordo com as verdades essenciais.
Noutras ocasiões, interpretava-as com o sacerdócio organizado, sem sair jamais do círculo de contradições, onde estacionara voluntariamente.
Em verdade, não fora um criminoso, no meu próprio conceito.
A filosofia do imediatismo, porém, absorvera-me.
A existência terrestre, que a morte transformara, não fora assinalada de lances diferentes da craveira comum.
Filho de pais talvez excessivamente generosos, conquistaram meus títulos universitários sem maior sacrifício, compartilhara os vícios da mocidade do meu tempo, organizara o lar, conseguira filhos, perseguira situações estáveis que garantissem a tranquilidade econômica do meu grupo familiar, mas, examinando atentamente a mim mesmo, algo me fazia experimentar a noção de tempo perdido, com a silenciosa acusação da consciência.
Habitara a Terra, gozara-lhe os bens, colhera as bênçãos da vida, mas não lhe retribuíra ceitil do débito enorme.
Tivera pais, cuja generosidade e sacrifícios por mim nunca avaliei; esposa e filhos que prendera, ferozmente, nas teias rijas do egoísmo destruidor.
Possuíra um lar que fechei a todos os que palmilhavam o deserto da angústia.
Deliciara-me com os júbilos da família, esquecido de estender essa bênção divina à imensa família humana, surdo a comezinhos deveres de fraternidade.
Enfim, como a flor de estufa, não suportava agora o clima das realidades eternas.
Não desenvolvera os germes divinos que o Senhor da Vida colocara em minh'alma.
Sufocara-os, criminosamente, no desejo incontido de bem estar.
Não adestrara órgãos para a vida nova.
Era justo, pois, que aí despertasse à maneira de aleijado que, restituído ao rio infinito da eternidade, não pudesse acompanhar senão compulsoriamente a carreira incessante das águas; ou como mendigo infeliz, que, exausto em pleno deserto, perambula à mercê de impetuosos tufões.
Oh! Amigos da Terra!
Quantos de vós podereis evitar o caminho da amargura com o preparo dos campos interiores do coração?
Acendei vossas luzes antes de atravessar a grande sombra.
Buscai a verdade, antes que a verdade vos surpreenda. Suai agora para não chorardes depois.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:33
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2 Clarêncio

“Suicida! Suicida! Criminoso! Infame!” gritos assim, cercavam-me de todos os lados.
Onde estão os sicários de coração empedernido?
Por vezes, enxergava-os de relance, escorregadios na treva espessa e, quando meu desespero atingia o auge, atacava-os, mobilizando extremas energias.
Em vão, porém, esmurrava o ar nos paroxismos da cólera.
Gargalhadas sarcásticas feriam-me os ouvidos, enquanto os vultos negros desapareciam na sombra.
Para quem apelar?
Torturava-me a fome, a sede me escaldava.
Comezinhos fenômenos da experiência material patenteavam sê-me aos olhos.
Crescera-me a barba, a roupa começava a romper-se com os esforços da resistência, na região desconhecida.
A circunstância mais dolorosa, no entanto, não é o terrível abandono a que me sentia votado, mas o assédio incessante de forças perversas que me assomavam nos caminhos ermos e obscuros.
Irritavam-me, aniquilavam-me a possibilidade de concatenar ideias.
Desejava ponderar maduramente a situação, esquadrinhar razões e estabelecer novas diretrizes ao pensamento, mas aquelas vozes, aqueles lamentos misturados de acusações nominais, desnorteavam-me irremediavelmente.
– Que buscas, infeliz!
Aonde vais, suicida?
Tais objurgatórias, incessantemente repetidas, perturbavam-me o coração.
Infeliz, sim; mas, suicida?
Nunca!
Essas encrespações, a meu ver, não eram procedentes.
Eu havia deixado o corpo físico a contragosto.
Recordava meu porfiado duelo com a morte.
Ainda julgava ouvir os últimos pareceres médicos, enunciados na Casa de Saúde; lembrava a assistência desvelada que tivera, os curativos dolorosos que experimentara nos dias longos que se seguiram à delicada operação dos intestinos.
Sentia, no curso dessas reminiscências, o contato do termômetro, o pique desagradável da agulha de injeções e, por fim, a última cena que precedera o grande sono: minha esposa ainda jovem e os três filhos contemplando-me, no terror da eterna separação.
Depois... O despertar na paisagem úmida e escura e a grande caminhada que parecia sem-fim.
Por que a pecha de suicídio, quando fora compelido a abandonar a casa, a família e o doce convívio dos meus?
O homem mais forte conhecerá limites à resistência emocional.
Firme e resoluto a princípio, comecei por entregar-me a longos períodos de desânimo e, longe de prosseguir na fortaleza moral, por ignorar o próprio fim, senti que as lágrimas longamente represadas visitavam-me com mais frequência, extravasando do coração.
A quem recorrer?
Por maior que fosse a cultura intelectual trazida do mundo, não poderia alterar, agora, a realidade da vida.
Meus conhecimentos, ante o infinito, semelhavam-se a pequenas bolhas de sabão levadas ao vento impetuoso que transforma as paisagens.
Eu era alguma coisa que o tufão da verdade carreava para muito longe.
Entretanto, a situação não modificava a outra realidade do meu ser essencial.
Perguntando a mim mesmo se não enlouquecera, encontrava a consciência vigilante, esclarecendo-me que continuava a ser eu mesmo, com o sentimento e a cultura colhidos na experiência material.
Persistiam as necessidades fisiológicas, sem modificação.
Castigava-me a fome todas as fibras e, nada obstante, o abatimento progressivo não me fazia cair definitivamente em absoluta exaustão.
De quando em quando, deparavam sê-me verduras que me pareciam agrestes, em torno de humildes filetes d'água a que me atirava sequioso.
Devorava as folhas desconhecidas, colava os lábios à nascente turva, enquanto me permitiam as forças irresistíveis, a impelirem-me para frente.
Muita vez suguei a lama da estrada, recordei o antigo pão de cada dia, vertendo copioso pranto.
Não raro, era imprescindível ocultar-me das enormes manadas de seres animalescos, que passavam em bando, quais feras insaciáveis.
Eram quadros de estarrecer!
Acentuava-se o desalento.
Foi quando comecei a recordar que deveria existir um Autor da Vida, fosse onde fosse.
Essa ideia confortou-me.
Eu, que detestara as religiões no mundo, experimentava agora a necessidade de conforto místico.
Médico extremamente arraigado ao negativismo da minha geração, impunha-se-me atitude renovadora.
Tornava-se imprescindível confessar a falência do amor-próprio, a que me consagrara orgulhoso.
E, quando as energias me faltaram de todo, quando me senti absolutamente colado ao lodo da Terra, sem forças para reerguer-me, pedi ao Supremo Autor da Natureza me estendesse mãos paternais, em tão amargurosa emergência.
Quanto tempo durou a rogativa?
Quantas horas consagrei à súplica, de mãos postas, imitando a criança aflita?
Apenas sei que a chuva das lágrimas me lavou o rosto; que todos os meus sentimentos se concentraram na prece dolorosa.
Estaria, então, completamente esquecido?
Não era, igualmente, filho de Deus, embora não cogitasse de conhecer-lhe a atividade sublime quando engolfado nas vaidades da experiência humana?
Por que não me perdoaria o Eterno Pai, quando providenciava ninho às aves inconscientes e protegia, bondoso, a flor tenra dos campos agrestes?
Ah! É preciso haver sofrido muito, para entender todas as misteriosas belezas da oração; é necessário haver conhecido o remorso, a humilhação, a extrema desventura, para tomar com eficácia o sublime elixir de esperança.
Foi nesse instante que as neblinas espessas se dissiparam e alguém surgiu, emissário dos Céus.
Um velhinho simpático me sorriu paternalmente. Inclinou-se, fixou nos meus os grandes olhos lúcidos, e falou:
– Coragem, meu filho! O Senhor não te desampara.
Amargurado pranto banhava-me a alma toda. Emocionado, quis traduzir meu júbilo, comentar a consolação que me chegava, mas, reunindo todas as forças que me restavam, pude apenas inquirir:
– Quem sois, generoso emissário de Deus?
O inesperado benfeitor sorriu bondoso e respondeu:
– Chama-me Clarêncio, sou apenas teu irmão.
E, percebendo o meu esgotamento, acrescentou:
– Agora, permanece calmo e silencioso.
É preciso descansar para reaver energias.
Em seguida, chamou dois companheiros que guardavam atitude de servos desvelados e ordenou:
– Prestemos ao nosso amigo os socorros de emergência.
Alvo lençol foi estendido ali mesmo, à guisa de maca improvisada, aprestando-se ambos os cooperadores a transportarem-me, generosamente.
Quando me alçavam, cuidadosos, Clarêncio meditou um instante e esclareceu, como quem recorda inadiável obrigação:
– Vamos sem demora.
Preciso atingir “Nosso Lar” com a presteza possível.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:35
NOSSO LAR

3 A Oração Coletiva

Embora transportado à maneira de ferido comum, lobriguei o quadro confortante que se desdobrava à minha vista.
Clarêncio, que se apoiava num cajado de substância luminosa, deteve-se à frente de grande porta encravada em altos muros, cobertos de trepadeiras floridas e graciosas.
Tateando um ponto da muralha, fez-se longa abertura, através da qual penetramos, silenciosos.
Branda claridade inundava ali todas as coisas.
Ao longe, gracioso foco de luz dava a idéia de um pôr do sol em tardes primaveris.
A medida que avançávamos, conseguia identificar preciosas construções, situadas em extensos jardins.
Ao sinal de Clarêncio, os condutores depuseram, devagarzinho, a maca improvisada.
A meus olhos surgiu, então, a porta acolhedora de alvo edifício, à feição de grande hospital terreno.
Dois jovens, envergando túnicas de níveo linho, acorreram pressurosos ao chamado de meu benfeitor, e quando me acomodavam num leito de emergência, para me conduzirem cuidadosamente ao interior, ouvi o generoso ancião recomendar, carinhoso:
– Guardem nosso tutelado no pavilhão da direita.
Esperam agora por mim.
Amanhã cedo voltarei a vê-lo.
Enderecei-lhe um olhar de gratidão, ao mesmo tempo em que era conduzido a confortável aposento de amplas proporções, ricamente mobilhado, onde me ofereceram leito acolhedor.
Envolvendo os dois enfermeiros na vibração do meu reconhecimento, esforcei-me por lhes dirigir a palavra, conseguindo dizer por fim:
– Amigos, por quem sois, explicai-me em que novo mundo me encontro... De que estrela me vem, agora, esta luz confortadora e brilhante?
Um deles afagou-me a fronte, como se fora conhecido pessoal de longo tempo e acentuou:
– Estamos nas esferas espirituais vizinhas da Terra, e o Sol que nos ilumina neste momento é o mesmo que nos vivificava o corpo físico.
Aqui, entretanto, nossa percepção visual é muito mais rica.
A estrela que o Senhor acendeu para os nossos trabalhos terrestres é mais preciosa e bela do que a supomos quando no círculo carnal.
Nosso Sol é a divina matriz da vida e a claridade que irradia provém do Autor da Criação.
Meu ego, como que absorvido em onda de infinito respeito, fixou a luz branda que invadia o quarto, através das janelas, e perdi-me no curso de profundas cogitações.
Recordei, então, que nunca fixara o Sol, nos dias terrestres, meditando na imensurável bondade d’Aquele que no-lo concede para o caminho eterno da vida.
Semelhava-me assim ao cego venturoso, que abre os olhos para a Natureza sublime, depois de longos séculos de escuridão.
A essa altura, serviram-me caldo reconfortante, seguido de água muito fresca, que me pareceu portadora de fluidos divinos.
Aquela reduzida porção de líquido reanimava-me inesperadamente.
Não saberia dizer que espécie de sopa era aquela; se alimentação sedativa, se remédio salutar.
Novas energias amparavam-me a alma, profundas comoções vibravam-me no espírito.
Minha maior emoção, todavia, reservava-se para instantes depois.
Mal não saíra da consoladora surpresa, divina melodia penetrou quarto adentro, parecendo suave colméia de sons a caminho das esferas superiores.
Aquelas notas de maravilhosa harmonia atravessavam-me o coração.
Ante meu olhar indagador, o enfermeiro, que permanecia ao lado, esclareceu, bondoso:
– É chegado o crepúsculo em “Nosso Lar”. Em todos os núcleos desta colônia de trabalho, consagrada ao Cristo, há ligação direta com as preces da Governadoria.
E enquanto a música embalsamava o ambiente, despediu-se, atencioso:
– Agora, fique em paz.
Voltarei logo após a oração.
Empolgou-me ansiedade súbita.
– Não poderei acompanhar-vos? – perguntei, suplicante.
– Está ainda fraco – esclareceu, gentil –, todavia, caso sinta-se disposto...
Aquela melodia renovava-me as energias profundas.
Levantei-me vencendo dificuldades e agarrei-me ao braço fraternal que se me estendia.
Seguindo vacilante, cheguei a enorme salão, onde numerosa assembléia meditava em silêncio, profundamente recolhida.
Da abóbada cheia de claridade brilhante, pendiam delicadas e flóreas guirlandas, que vinham do teto à base, formando radiosos símbolos de Espiritualidade Superior.
Ninguém parecia dar conta da minha presença, ao passo que mal dissimulava eu a surpresa inexcedível.
Todos os circunstantes, atentos, pareciam aguardar alguma coisa.
Contendo a custo numerosas indagações que me esfervilhavam na mente, notei que ao fundo, em tela gigantesca, desenhava-se prodigioso quadro de luz quase feérica.
Obedecendo a processos adiantados de televisão, surgiu o cenário de templo maravilhoso.
Sentado em lugar de destaque, um ancião coroado de luz fixava o Alto, em atitude de prece, envergando alva túnica de irradiações resplandecentes.
Em plano inferior, setenta e duas figuras pareciam acompanhá-lo em respeitoso silêncio.
Altamente surpreendido, reparei Clarêncio participando da assembléia, entre os que cercavam o velhinho refulgente.
Apertei o braço do enfermeiro amigo e, compreendendo ele que minhas perguntas não se fariam esperar, esclareceu em voz baixa, que mais se assemelhava a leve sopro:
– Conserve-se tranqüilo.
Todas as residências e instituições de “Nosso Lar” estão orando com o Governador, através da audição e visão a distância.
Louvemos o Coração Invisível do Céu.
Mal terminara a explicação, as setenta e duas figuras começaram a cantar harmonioso hino, repleto de indefinível beleza.
A fisionomia de Clarêncio, no círculo dos veneráveis companheiros, figurou-se-me tocada de mais intensa luz.
O cântico celeste constituía-se de notas angelicais, de sublimado reconhecimento.
Pairavam no recinto misteriosas vibrações de paz e de alegria e, quando as notas argentinas fizeram delicioso staccato, desenhou-se ao longe, em plano elevado, um coração maravilhosamente azul, com estrias douradas.
Cariciosa música, em seguida, respondia aos louvores, procedente talvez de esferas distantes.
Foi aí que abundante chuva de flores azuis se derramou sobre nós; mas, se fixávamos os miosótis celestiais, não conseguíamos detê-los nas mãos.
As corolas minúsculas desfaziam-se de leve, ao tocar-nos a fronte, experimentando eu, por minha vez, singular renovação de energias ao contato das pétalas fluídicas que me balsamizavam o coração.
Terminada a sublime oração, regressei ao aposento de enfermo, amparado pelo amigo que me atendia de perto.
Entretanto, não era mais o doente grave de horas antes.
A primeira prece coletiva, em “Nosso Lar”, operara em mim completa transformação.
Conforto inesperado envolvia-me a alma.
Pela primeira vez, depois de anos consecutivos de sofrimento, o pobre coração, saudoso e atormentado, à maneira de cálice muito tempo vazio, enchera-se de novo das gotas generosas do licor da esperança.
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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2019, 10:36
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4 O Médico Espiritual

No dia imediato, após reparador e profundo repouso, experimentei a bênção radiosa do Sol amigo, qual suave mensagem ao coração.
Claridade reconfortante atravessava ampla janela, inundando o recinto de cariciosa luz.
Sentia-me outro.
Energias novas tocavam-me o íntimo.
Tinha a impressão de sorver a alegria da vida, a longos haustos.
Na alma, apenas um ponto sombrio – a saudade do lar, o apego à família que ficara distante.
Numerosas interrogações pairavam-me na mente, mas tão grande era a sensação de alívio que eu sossegava o espírito, longe de qualquer interpelação.
Quis levantar-me, gozar o espetáculo da Natureza cheia de brisas e de luz, mas não o consegui e concluí que, sem a cooperação magnética do enfermeiro, tornava-se-me impossível deixar o leito.
Não voltara a mim das surpresas consecutivas, quando se abriu a porta e vi entrar Clarêncio acompanhado por simpático desconhecido.
Cumprimentaram-me, atenciosos, desejando-me paz.
Meu benfeitor da véspera indagou do meu estado geral.
Acorreu o enfermeiro, prestando informações.
Sorridente, o velhinho amigo apresentou-me o companheiro.
Tratava-se, disse, do irmão Henrique de Luna, do Serviço de Assistência Médica da colônia espiritual.
Trajado de branco, traços fisionômicos irradiando enorme simpatia, Henrique auscultou-me demoradamente, sorriu e explicou:
– É de lamentar que tenha vindo pelo suicídio.
Enquanto Clarêncio permanecia sereno, senti que singular assomo de revolta me borbulhava no íntimo.
Suicídio?
Recordei as acusações dos seres perversos das sombras.
Não obstante o cabedal de gratidão que começava a acumular, não calei a incriminação.
– Creio haja engano – asseverei, melindrado –, meu regresso do mundo não teve essa causa.
Lutei mais de quarenta dias, na Casa de Saúde, tentando vencer a morte.
Sofri duas operações graves, devido a oclusão intestinal...
– Sim – esclareceu o médico, demonstrando a mesma serenidade superior –, mas a oclusão radicava-se em causas profundas.
Talvez o amigo não tenha ponderado bastante.
O organismo espiritual apresenta em si mesmo a história completa das ações praticadas no mundo.
E inclinando-se, atencioso, indicava determinados pontos do meu corpo:
– Vejamos a zona intestinal – exclamou – A oclusão derivava e elementos cancerosos, e estes, por sua vez, de algumas leviandades do meu estimado irmão, no campo da sífilis.
A moléstia talvez não assumisse características tão graves, se o seu procedimento mental no planeta estivesse enquadrado nos princípios da fraternidade e da temperança.
Entretanto, seu modo especial de conviver, muita vez exasperado e sombrio, captava destruidoras vibrações naqueles que o ouviam.
Nunca imaginou que a cólera fosse manancial de forças negativas para nós mesmos?
A ausência de autodomínio, a inadvertência no trato com os semelhantes, aos quais muitas vezes ofendeu sem refletir, conduziam-no frequentemente à esfera dos seres doentes e inferiores.
Tal circunstância agravou, de muito, o seu estado físico.
Depois de longa pausa, em que me examinava atentamente, continuou:
– Já observou, meu amigo, que seu fígado foi maltratado pela sua própria ação; que os rins foram esquecidos, com terrível menosprezo às dádivas sagradas?
Singular desapontamento invadira-me o coração.
Parecendo desconhecer a angústia que me oprimia, continuava o médico, esclarecendo:
– Os órgãos do corpo somático possuem incalculáveis reservas, segundo os desígnios do Senhor.
O meu amigo, no entanto, iludiu excelentes oportunidades, desperdiçando patrimônios preciosos da experiência física.
A longa tarefa, que lhe foi confiada pelos Maiores da Espiritualidade Superior, foi reduzida a meras tentativas de trabalho que não se consumou.
Todo o aparelho gástrico foi destruído à custa de excessos de alimentação e bebidas alcoólicas, aparentemente sem importância.
Devorou-lhe a sífilis energias essenciais.
Como vê, o suicídio é incontestável.
Meditei nos problemas dos caminhos humanos, refletindo nas oportunidades perdidas.
Na vida humana, conseguia ajustar numerosas máscaras ao rosto, talhando-as conforme as situações.
Aliás, não poderia supor, noutro tempo, que me seriam pedidas contas de episódios simples, que costumava considerar como fatos sem maior significação.
Conceituara, até ali, os erros humanos, segundo os preceitos da criminologia.
Todo acontecimento insignificante, estranho aos códigos, entraria na relação de fenômenos naturais. Deparava-se-me, porém, agora, outro sistema de verificação das faltas cometidas.
Não me defrontavam tribunais de tortura, nem me surpreendiam abismos infernais; contudo, benfeitores sorridentes comentavam-me as fraquezas como quem cuida de uma criança desorientada, longe das vistas paternas.
Aquele interesse espontâneo, no entanto, feria-me a vaidade de homem.
Talvez que, visitado por figuras diabólicas a me torturarem, de tridente nas mãos, encontrasse forças para tornar a derrota menos amarga.
Todavia, a bondade exuberante de Clarêncio, a inflexão de ternura do médico, a calma fraternal do enfermeiro, penetravam-me fundo o espírito.
Não me dilacerava o desejo de reação; doía-me a vergonha.
E chorei.
Rosto entre as mãos, qual menino contrariado e infeliz, pus-me a soluçar com a dor que me parecia irremediável.
Não havia como discordar.
Henrique de Luna falava com sobejas razões.
Por fim, abafando os impulsos vaidosos, reconheci a extensão de minhas leviandades de outros tempos.
A falsa noção da dignidade pessoal cedia terreno à justiça.
Perante minha visão espiritual só existia, agora, uma realidade torturante: era verdadeiramente um suicida, perdera o ensejo precioso da experiência humana, não passava de náufrago a quem se recolhia por caridade.
Foi então que o generoso Clarêncio, sentando-se no leito, a meu lado, afagou-me paternalmente os cabelos e falou comovido:
– Oh, Meu filho!
Não te lastimes tanto.
Busquei-te atendendo à intercessão dos que te amam, dos planos mais altos.
Tuas lágrimas atingem seus corações.
Não desejas ser grato, mantendo-te tranquilo no exame das próprias faltas?
Na verdade, tua posição é a do suicida inconsciente; mas é necessário reconhecer que centenas de criaturas se ausentam diariamente da Terra, nas mesmas condições.
Acalma-te, pois.
Aproveita os tesouros do arrependimento, guarda a bênção do remorso, embora tardio, sem esquecer que a aflição não resolve problemas.
Confia no Senhor e em nossa dedicação fraternal.
Sossega a alma perturbada, porque muitos de nós outros já perambulamos igualmente nos teus caminhos.
Ante a generosidade que transbordava dessas palavras, mergulhei a cabeça em seu colo paternal e chorei longamente.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Janeiro de 2019, 12:49
NOSSO LAR

5 Recebendo Assistência

– É você o tutelado de Clarêncio?
A pergunta vinha de um jovem de singular e doce expressão.
Grande bolsa pendente da mão, como quem conduzia apetrechos de assistência, endereçava-me ele sorriso acolhedor.
Ao meu sinal afirmativo, mostrou-se à vontade e, maneiras fraternas, acentuou:
– Sou Lísias, seu irmão.
Meu diretor, o assistente Henrique de Luna, designou-me para servi-lo, enquanto precisar tratamento.
– É enfermeiro? – indaguei.
– Sou visitador dos serviços de saúde.
Nessa qualidade, não só coopero na enfermagem, como também assinalo necessidades de socorro, ou providências que se refiram a enfermos recém-chegados.
Notando-me a surpresa, explicou:
– Nas minhas condições há numerosos servidores em “Nosso Lar”.
O amigo ingressou agora na colônia e, naturalmente, ignora a amplitude dos nossos trabalhos.
Para fazer uma ideia, basta lembrar que apenas aqui, na seção em que se encontra, existem mais de mil doentes espirituais, e note que este é um dos menores edifícios do nosso parque hospitalar.
– Tudo isso é maravilhoso! – exclamei.
Adivinhando que minhas observações iam descambar para o elogio espontâneo, Lísias levantou-se da poltrona a que se recolhera e começou a auscultar-me, atento, impedindo-me o agradecimento verbal.
– A zona dos seus intestinos apresenta lesões sérias com vestígios muito exatos do câncer; a região do fígado revela dilacerações; a dos rins demonstra característicos de esgotamento prematuro.
Sorrindo, bondoso, acrescentou:
– Sabe o irmão o que significa isso?
– Sim – repliquei, o médico esclareceu ontem, explicando que devo esses distúrbios a mim mesmo...
Reconhecendo o acanhamento da confissão reticenciosa, apressou-se a consolar:
– Na turma de oitenta enfermos a que devo assistência diária, cinqüenta e sete se encontram nas suas condições.
E talvez ignore que existem, por aqui, os mutilados.
Já pensou nisso?
Sabe que o homem imprevidente, que gastou os olhos no mal, aqui comparece de órbitas vazias?
Que o malfeitor, interessado em utilizar o dom da locomoção fácil nos atos criminosos, experimenta a desolação da paralisia, quando não é recolhido absolutamente sem pernas?
Que os pobres obsidiados nas aberrações sexuais costumam chegar em extrema loucura?
Identificando-me a perplexidade natural, prosseguiu:
– “Nosso Lar” não é estância de Espíritos propriamente vitoriosos, se conferirmos ao termo sua razoável acepção.
Somos felizes, porque temos trabalho; e a alegria habita cada recanto da colônia, porque o Senhor não nos retirou o pão abençoado do serviço.
Aproveitando a pausa mais longa, exclamei sensibilizado:
– Continue, meu amigo, esclareça-me.
Sinto-me aliviado e tranquilo.
Não será esta região um departamento celestial dos eleitos?
Lísias sorriu e explicou:
– Recordemos o antigo ensinamento que se refere a muitos chamados e poucos escolhidos na Terra.
E vagueando o olhar no horizonte longínquo, como a fixar experiências de si mesmo no painel das recordações mais íntimas, acentuou:
– As religiões, no planeta, convocam as criaturas ao banquete celestial.
Em sã consciência, ninguém que se tenha aproximado, um dia, da noção de Deus, pode alegar ignorância nesse particular.
Incontável é o número dos chamados, meu amigo; mas, onde os que atendem ao chamado?
Com raras exceções, a massa humana prefere aceder a outro gênero de convites.
Gasta-se a possibilidade nos desvios do bem, agrava-se o capricho de cada um, elimina-se o corpo físico a golpes de irreflexão.
Resultado: milhares de criaturas retiram-se diariamente da esfera da carne em doloroso estado de incompreensão.
Multidões sem conta erram em todas as direções nos círculos imediatos à crosta planetária, constituídas de loucos, doentes e ignorantes.
Notando-me a admiração, interrogou:
– Acreditaria, porventura, que a morte do corpo nos conduziria a planos de milagres?
Somos compelidos a trabalho áspero, a serviços pesados e não basta isso.
Se temos débitos no planeta, por mais alto que ascendamos, é imprescindível voltar, para retificar, lavando o rosto no suor do mundo, desatando algemas de ódio e substituindo-as por laços sagrados de amor.
Não seria justo impor a outrem a tarefa de mondar o campo que semeamos de espinhos, com as próprias mãos.
Abanando a cabeça, acrescentava:
– Caso dos muitos chamados, meu caro.
O Senhor não esquece homem algum; todavia, raríssimos homens o recordam.
Acabrunhado com a lembrança dos próprios erros, diante de tão grandes noções de responsabilidade individual, objetei:
– Como fui perverso!
Contudo, antes que me alongasse noutras exclamações, o visitador colocou a destra carinhosa em meus lábios, murmurando:
– Cale-se!
Meditemos no trabalho a fazer.
No arrependimento verdadeiro é preciso saber falar, para construir de novo.
Em seguida, aplicou-me passes magnéticos, atenciosamente.
Fazendo os curativos na zona intestinal, esclareceu:
– Não observa o tratamento especializado da zona cancerosa?
Pois note bem: toda medicina honesta é serviço de amor, atividade de socorro justo; mas o trabalho de cura é peculiar a cada Espírito.
Meu irmão será tratado carinhosamente, sentir-se-á forte como nos tempos mais belos da sua juventude terrena, trabalhará muito e, creio, será um dos melhores colaboradores em “Nosso Lar”; entretanto, a causa dos seus males persistirá em si mesmo, até que se desfaça dos germes de perversão da saúde divina, que agregou ao seu corpo sutil pelo descuido moral e pelo desejo de gozar mais que os outros.
A carne terrestre, onde abusamos, é também o campo bendito onde conseguimos realizar frutuosos labores de cura radical, quando permanecemos atentos ao dever justo.
Meditei os conceitos, ponderei a bondade divina e, na exaltação da sensibilidade, chorei copiosamente.
Lísias, contudo, terminou o tratamento do dia, com serenidade, e falou:
– Quando as lágrimas não se originam da revolta, sempre constituem remédio depurador.
Chore, meu amigo.
Desabafe o coração.
E abençoemos aquelas beneméritas organizações microscópicas que são as células de carne na Terra.
Tão humildes e tão preciosas, tão detestadas e tão sublimes pelo espírito de serviço.
Sem elas, que nos oferecem templo à retificação, quantos milênios gastaríamos na ignorância?
Assim falando, afagou-me carinhosamente a fronte abatida e despediu-se com um ósculo de amor.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Janeiro de 2019, 12:50
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6 Precioso Aviso

No dia imediato, após a oração do crepúsculo, Clarêncio me procurou em companhia do atencioso visitador.
Fisionomia a irradiar generosidade, perguntou, abraçando-me:
– Como vai? Melhorzinho?
Esbocei o gesto do enfermo que se vê acariciado na Terra, amolecendo as fibras emotivas.
No mundo, às vezes, o carinho fraterno é mal interpretado.
Obedecendo ao velho vício, comecei a explicar-me, enquanto os dois benfeitores se sentavam comodamente a meu lado:
– Não posso negar que esteja melhor; entretanto, sofro intensamente.
Muitas dores na zona intestinal, estranhas sensações de angústia no coração.
Nunca supus fosse capaz de tamanha resistência, meu amigo.
Ah! Como tem sido pesada a minha cruz!...
Agora que posso concatenar idéias, creio que a dor me aniquilou todas as forças disponíveis...
Clarêncio ouvia, atencioso, demonstrando grande interesse pelas minhas lamentações, sem o menor gesto que denunciasse o propósito de intervir no assunto.
Encorajado com essa atitude, continuei:
– Além do mais, meus sofrimentos morais são enormes e inexprimíveis.
Amainada a tormenta exterior com os socorros recebidos, volto agora às tempestades íntimas.
Que terá sido feito de minha esposa, de meus filhos?
Teria o meu primogênito conseguido progredir, segundo meu velho ideal?
E as filhinhas?
Minha desventurada Zélia muitas vezes afirmou que morreria de saudades, se um dia eu lhe faltasse.
Admirável esposa!
Ainda lhe sinto as lágrimas dos momentos derradeiros.
Não sei desde quando vivo o pesadelo da distância...
Continuadas dilacerações roubaram-me a noção do tempo.
Onde estará minha pobre companheira?
Chorando junto às cinzas do meu corpo, ou nalgum recanto escuro das regiões da morte?
Oh! Minha dor é muito amarga!
Que terrível destino o do homem penhorado no devotamento à família!
Creio que raras criaturas terão padecido tanto quanto eu!...
No planeta, vicissitudes, desenganos, doenças, incompreensões e amarguras, abafando escassas notas de alegria; depois, os sofrimentos da morte do corpo...
Em seguida, martirizações no além-túmulo!
Que será, então, a vida?
Sucessivo desenrolar de misérias e lágrimas?
Não haverá recurso à semeadura da paz?
Por mais que deseje firmar-me no otimismo, sinto que a noção de infelicidade me bloqueia o espírito, como terrível cárcere do coração.
Que desventurado destino, generoso benfeitor!.
Chegado a essa altura, o vendaval da queixa me conduzira o barco mental ao oceano largo das lágrimas.
Clarêncio, contudo, levantou-se sereno e falou sem afetação:
– Meu amigo, deseja você, de fato, a cura espiritual?
Ao meu gesto afirmativo, continuou:
– Aprenda, então, a não falar excessivamente de si mesmo, nem comente a própria dor.
Lamentação denota enfermidade mental e enfermidade de curso laborioso e tratamento difícil.
É indispensável criar pensamentos novos e disciplinar os lábios.
Somente conseguiremos equilíbrio, abrindo o coração ao Sol da Divindade.
Classificar o esforço necessário de imposição esmagadora, enxergar padecimentos onde há luta edificante, sói identificar indesejável cegueira d'alma.
Quanto mais utilize o verbo por dilatar considerações dolorosas, no círculo da personalidade, mais duros se tornarão os laços que o prendem a lembranças mesquinhas.
O mesmo Pai que vela por sua pessoa, oferecendo-lhe teto generoso, nesta casa, atenderá aos seus parentes terrestres.
Deve mos ter nosso agrupamento familiar como sagrada construção, mas sem esquecer que nossas famílias são seções da Família universal, sob a Direção Divina.
Estaremos a seu lado para resolver dificuldades presentes e estruturar projetos de futuro, mas não dispomos do tempo para voltar a zonas estéreis de lamentação.
Além disso, temos, nesta colônia, o compromisso de aceitar o trabalho mais áspero como bênção de realização, considerando que a Providência desborda amor, enquanto nós vivemos onerados de dívidas.
Se deseja permanecer nesta casa de assistência, aprenda a pensar com justeza.
Nesse ínterim, secaram-se-me o pranto e, chamado a brios pelo generoso instrutor, assumi diversa atitude, embora envergonhado da minha fraqueza.
– Não disputava você, na carne – prosseguiu Clarêncio, bondoso –, as vantagens naturais, decorrentes das boas situações?
Não estimava a obtenção de recursos lícitos, ansioso de estender benefícios aos entes amados?
Não se interessava pelas remunerações justas, pelas expressões de conforto, com possibilidades de atender à família?
Aqui, o programa não é diferente.
Apenas divergem os detalhes.
Nos círculos carnais, a convenção e a garantia monetária; aqui, o trabalho e as aquisições definitivas do espírito imortal.
Dor, para nós, significa possibilidade de enriquecer a alma; a luta constitui caminho para a divina realização.
Compreendeu a diferença?
As almas débeis, ante o serviço, deitam-se para se queixarem aos que passam; as fortes, porém, recebem o serviço como patrimônio sagrado, na movimentação do qual se preparam, a caminho da perfeição.
Ninguém lhe condena a saudade justa, nem pretende estancar sua fonte de sentimentos sublimes.
Acresce notar, todavia, que o pranto da desesperação não edifica o bem.
Se ama, em verdade, a família terrena, é preciso bom ânimo para lhe ser útil.
Fez-se longa pausa.
A palavra de Clarêncio levantara-me para elucubrações mais sadias.
Enquanto meditava a sabedoria da valiosa advertência, meu benfeitor, qual o pai que esquece a leviandade dos filhos para recomeçar serenamente a lição, tornou a perguntar com um belo sorriso:
– Então, como passa?
Melhor?
Contente por me sentir desculpado, à maneira da criança que deseja aprender, respondi, confortado:
– Vou bem melhor, para melhor compreender a Vontade Divina.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Janeiro de 2019, 12:52
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7 Explicações de Lísias

Repetiram-se as visitas periódicas de Clarêncio e a atenção diária de Lísias.
À medida que procurava habituar-me aos deveres novos, sensações de desafogo me aliviavam o coração.
Diminuíram as dores e os impedimentos de locomoção fácil.
Notava, porém, que, a recordações mais fortes dos fenômenos físicos, me voltavam a angústia, o receio do desconhecido, a mágoa da inadaptação.
Apesar de tudo, encontrava mais segurança dentro de mim.
Deleitava-me, agora, contemplando os horizontes vastos, debruçado às janelas espaçosas. Impressionavam-me, sobretudo, os aspectos da Natureza.
Quase tudo, melhorada cópia da Terra.
Cores mais harmônicas, substâncias mais delicadas.
Forrava-se o solo de vegetação.
Grandes árvores, pomares fartos e jardins deliciosos.
Desenhavam-se montes coroados de luz, em continuidade à planície onde a colônia repousava.
Todos os departamentos apareciam cultivados com esmero.
A pequena distância, alteavam-se graciosos edifícios.
Alinhavam-se a espaços regulares, exibindo formas diversas.
Nenhum sem flores à entrada, destacando-se algumas casinhas encantadoras, cercadas por muros de hera, onde rosas diferentes desabrochavam, aqui e ali, adornando o verde de cambiantes variados.
Aves de plumagens policromas cruzavam os ares e, de quando em quando, pousavam agrupadas nas torres muito alvas, a se erguerem retilíneas, lembrando lírios gigantescos, rumo ao céu.
Das janelas largas, observava, curioso, o movimento do parque.
Extremamente surpreendido, identificava animais domésticos, entre as árvores frondosas, enfileiradas ao fundo.
Nas minhas lutas introspectivas, perdia-me em indagações de toda sorte.
Não conseguia atinar com a multiplicidade de formas análogas às do planeta, considerando a circunstância de me encontrar numa esfera propriamente espiritual.
Lísias, o companheiro amável de todos os dias, não regateava explicações.
A morte do corpo não conduz o homem a situações miraculosas, dizia.
Todo processo evolutivo implica gradação.
Há regiões múltiplas para os desencarnados, como existem planos inúmeros e surpreendentes para as criaturas envolvidas de carne terrestre.
Almas e sentimentos, formas e coisas, obedecem a princípios de desenvolvimento natural e hierarquia justa.
Preocupava-me, todavia, permanecer ali, num parque de saúde, havia muitas semanas, sem a visita sequer de um conhecido do mundo.
Afinal, não fora eu a única pessoa do meu círculo a decifrar o enigma da sepultura.
Meus pais me haviam antecipado na grande jornada.
Amigos vários, noutro tempo, me haviam precedido.
Por que, então, não apareciam naquele quarto de enfermidade espiritual, para conforto do meu coração dolorido?
Bastariam alguns momentos de consolação.
Um dia, não pude conter-me e perguntei ao solícito visitador:
– Meu caro Lísias, acha possível, aqui, o encontro com aqueles que nos antecederam na morte do corpo físico?
– Como não? Pensa que está esquecido? ...
– Sim. Por que não me visitam? Na Terra, sempre contei com a abnegação maternal.
Minha mãe, entretanto, até agora não deu sinal de vida.
Meu pai, igualmente, fez a grande viagem; três anos antes do meu trespasse.
– Pois note – esclareceu Lísias –, sua mãe o tem ajudado dia e noite, desde a crise que antecipou sua vinda.
Quando se acamou para abandonar o casulo terrestre, duplicou-se o interesse maternal a seu respeito.
Talvez não saiba ainda que sua permanência nas esferas inferiores durou mais de oito anos consecutivos.
Ela jamais desanimou. Intercedeu, muitas vezes, em “Nosso Lar”, a seu favor.
Rogou os bons ofícios de Clarêncio, que começou a visitá-lo frequentemente, até que o médico da Terra, vaidoso, se afastasse um tanto, a fim de surgir o filho dos Céus.
Compreendeu?
Eu tinha os olhos úmidos.
Ignorava o número de anos que me distanciavam da gleba terrestre.
Desejei conhecer os processos de proteção imperceptível, mas não consegui.
Minhas cordas vocais estavam entorpecidas, com o nó de lágrimas represadas no coração.
– No dia em que você orou com tanta alma – prosseguiu o enfermeiro visitador
–, quando compreendeu que tudo no Universo pertence ao Pai Sublime, seu pranto era diferente.
Não sabe que há chuvas que destroem e chuvas que criam?
Lágrimas há também, assim.
É lógico que o Senhor não espera por nossas rogativas para nos amar; no entanto, é indispensável nos colocarmos em determinada posição receptiva, a fim de compreender-lhe a infinita bondade.
Um espelho enfuscado não reflete a luz.
Desse modo, o Pai não precisa de nossas penitências, mas convenhamos que as penitências prestam ótimos serviços a nós mesmos.
Entendeu?
Clarêncio não teve dificuldade em localizá-lo, atendendo aos apelos de sua carinhosa genitora da Terra; você, porém, demorou muito a encontrar Clarêncio.
E quando sua mãezinha soube que o filho havia rasgado os véus escuros com o auxílio da oração, chorou de alegria, segundo me contaram...
– E onde está minha mãe? – exclamei, por fim.
Se me é permitido, quero vê-la, abraçá-la, ajoelhar-me a seus pés!
– Não vive em “Nosso Lar” – esclareceu Lísias –, habita esferas mais altas, onde trabalha não somente por você.
Observando meu desapontamento, acrescentou, fraterno:
– Virá vê-lo, por certo, antes mesmo do que pensamos.
Quando alguém deseja algo ardentemente, já se encontra a caminho da realização.
Tem você, nesse particular, a lição do próprio caso.
Anos a fio rolou, como pluma, albergando o medo, as tristezas e desilusões; mas, quando mentalizou firmemente a necessidade de receber o auxílio divino, dilatou o padrão vibratório da mente e alcançou visão e socorro.
Olhos brilhantes, encorajado pelo esclarecimento recebido, exclamei, resoluto:
– Desejarei, então, com todas as minhas forças... Ela virá... Ela virá...
Lísias sorriu com inteligência e, como quem previne, generoso, afirmou ao despedir-se:
– Convém não esquecer, contudo, que a realização nobre exige três requisitos fundamentais, a saber: primeiro, desejar; segundo, saber desejar; e, terceiro, merecer, ou, por outros termos, vontade ativa, trabalho persistente e merecimento justo.
O visitador ganhou a porta de saída, sorridente, enquanto eu me detinha silencioso, a meditar no extenso programa formulado em tão poucas palavras.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Janeiro de 2019, 11:45
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8 Organização de Serviços

Decorridas algumas semanas de tratamento ativo, saí, pela primeira vez, em companhia de Lísias.
Impressionou-me o espetáculo das ruas.
Vastas avenidas, enfeitadas de árvores frondosas.
Ar puro, atmosfera de profunda tranqüilidade espiritual.
Não havia, porém, qualquer sinal de inércia ou de ociosidade, porque as vias públicas estavam repletas.
Entidades numerosas iam e vinham.
Algumas pareciam situar a mente em lugares distantes, mas outras me dirigiam olhares acolhedores.
Incumbia-se o companheiro de orientar-me em face das surpresas que surgiam ininterruptas. Percebendo-me as íntimas conjeturas, esclareceu solícito:
– Estamos no local do Ministério do Auxílio.
Tudo o que vemos, edifícios, casas residenciais, representa instituições e abrigos adequados à tarefa de nossa jurisdição.
Orientadores, operários e outros serviçais da missão residem aqui.
Nesta zona, atende-se a doentes, ouvem-se rogativas, selecionam-se preces, preparam-se reencarnações terrenas, organizam-se turmas de socorro aos habitantes do Umbral, ou aos que choram na Terra, estudam-se soluções para todos os processos que se prendem ao sofrimento.
– Há, então, em “Nosso Lar”, um Ministério do Auxílio? – perguntei.
– Como não? Nossos serviços são distribuídos numa organização que se aperfeiçoa dia a dia, sob a orientação dos que nos presidem os destinos.
Fixando em mim os olhos lúcidos, prosseguiu:
– Não tem visto, nos atos da prece, nosso Governador Espiritual cercado de setenta e dois colaboradores?
Pois são os Ministros de “Nosso Lar”.
A colônia, que é essencialmente de trabalho e realização, divide-se em seis Ministérios, orientados, cada qual, por doze Ministros.
Temos os Ministérios da Regeneração, do Auxílio, da Comunicação, do Esclarecimento, da Elevação e da União Divina.
Os quatro primeiros nos aproximam das esferas terrestres, os dois últimos nos ligam ao plano superior, visto que a nossa cidade espiritual é zona de transição.
Os serviços mais grosseiros localizam-se no Ministério da Regeneração, os mais sublimes no da União Divina.
Clarêncio, o nosso chefe amigo, é um dos Ministros do Auxílio.
Valendo-me da pausa natural, exclamei, comovido:
– Oh! Nunca imaginei a possibilidade de organizações tão completas, depois da morte do corpo físico!...
– Sim – esclareceu Lísias –, o véu da ilusão é muito denso nos círculos carnais.
O homem vulgar ignora que toda manifestação procede do plano superior.
A natureza agreste transforma-se em jardim, quando orientada pela mente do homem, e o pensamento humano, selvagem na criatura primitiva, transforma-se em potencial criador, quando inspirado pelas mentes que funcionam nas esferas mais altas.
Nenhuma organização útil se materializa na crosta terrena, sem que seus raios iniciais partam de cima.
– Mas “Nosso Lar” terá igualmente uma história, como as grandes cidades planetárias?
– Sem dúvida.
Os planos vizinhos da esfera terráquea possuem, igualmente, natureza específica.
“Nosso Lar” é antiga fundação de portugueses distintos, desencarnados no Brasil, no século XVI.
A princípio, enorme e exaustiva foi a luta, segundo consta em nossos arquivos no Ministério do Esclarecimento.
Há substâncias ásperas nas zonas invisíveis à Terra, tal como nas regiões que se caracterizam pela matéria grosseira.
Aqui também existem enormes extensões de potencial inferior, como há, no planeta, grandes tratos de natureza rude e incivilizada.
Os trabalhos primordiais foram desanimadores, mesmo para os Espíritos fortes.
Onde se congregam hoje vibrações delicadas e nobres, edifícios de fino lavor, misturavam-se as notas primitivas dos silvícolas do país e as construções infantis de suas mentes rudimentares.
Os fundadores não desanimaram, porém.
Prosseguiram na obra, copiando o esforço dos europeus que chegavam à esfera material, apenas com a diferença de que, por lá, se empregava a violência, a guerra, a escravidão, e, aqui, o serviço perseverante, a solidariedade fraterna, o amor espiritual.
A essa altura, atingíramos uma praça de maravilhosos contornos, ostentando extensos jardins.
No centro da praça, erguia-se um palácio de magnificente beleza, encabeçado de torres soberanas, que se perdiam no céu.
– Os fundadores da colônia começaram o esforço, partindo daqui, onde se localiza a Governadoria – disse o visitador.
Apontando o palácio, continuou:
– Temos, nesta praça, o ponto de convergência dos seis ministérios a que me referi.
Todos começam da Governadoria, estendendo-se em forma triangular.
E, respeitoso, comentou: – Ali vive o nosso abnegado orientador.
Nos trabalhos administrativos, utiliza ele a colaboração de três mil funcionários; entretanto, é ele o trabalhador mais infatigável e mais fiel que todos nós reunidos.
Os Ministros costumam excursionar noutras esferas, renovando energias e valorizando conhecimentos; nós outros gozamos entretenimentos habituais, mas o Governador nunca dispõe de tempo para isso.
Faz questão que descansemos, obriga-nos a férias periódicas, ao passo que, ele mesmo, quase nunca repousa, mesmo no que concerne às horas de sono.
Parece-me que a glória dele é o serviço perene.
Basta lembrar que estou aqui há quarenta anos e, com exceção das assembléias referentes às preces coletivas, raramente o tenho visto em festividades públicas.
Seu pensamento, porém, abrange todos os círculos de serviço, sua assistência carinhosa a tudo e a todos atinge.
Depois de longa pausa, o enfermeiro amigo acentuou:
– Não faz muito, comemorou-se o 114º aniversário da sua magnânima direção.
Calara-se Lísias, evidenciando comovida reverência, enquanto eu a seu lado contemplava, respeitoso e embevecido, as torres maravilhosas que pareciam cindir o firmamento...

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Janeiro de 2019, 11:47
NOSSO LAR

9 Problema de Alimentação

Enlevado na visão dos jardins prodigiosos, pedi ao dedicado enfermeiro para descansar alguns minutos num banco próximo.
Lísias anuiu de bom grado.
Agradável sensação de paz me felicitava o espírito.
Caprichosos repuxos de água colorida ziguezagueavam no ar, formando figuras encantadoras.
– Quem observa esta colmeia imensa de serviço – ponderei – é induzido a examinar numerosos problemas.
E o abastecimento?
Não tenho notícia de um Ministério da Economia...
– Antigamente – explicou o paciente interlocutor – os serviços dessa natureza assumiam feição mais destacada.
Deliberou, porém, o atual Governador atenuar todas as expressões de vida que nos recordassem os fenômenos puramente materiais.
As atividades de abastecimento ficaram, assim, reduzidas a simples serviço de distribuição, sob o controle direto da Governadoria.
Aliás, a providência constitui medida das mais benéficas.
Rezam os anais que a colônia, há um século, lutava com extremas dificuldades para adaptar os habitantes às leis da simplicidade.
Muitos recém-chegados ao “Nosso Lar” duplicavam exigências.
Queriam mesas lautas, bebidas excitantes, dilatando velhos vícios terrenos.
Apenas o Ministério da União Divina ficou imune de tais abusos, pelas características que lhe são próprias; no entanto, os demais viviam sobrecarregados de angustiosos problemas dessa ordem.
O Governador atual, todavia, não poupou esforços.
Tão logo assumiu obrigações administrativas, adotou providências justas.
Antigos missionários, daqui, puseram-me ao corrente de curiosos acontecimentos.
Disseram-me que, a pedido da Governadoria, vieram duzentos instrutores de uma esfera muito elevada, a fim de espalharem novos conhecimentos, relativos à ciência da respiração e da absorção de princípios vitais da atmosfera.
Realizaram-se assembleias numerosas.
Alguns colaboradores técnicos de “Nosso Lar” manifestavam-se contrários, alegando que a cidade é de transição e que não seria justo, nem possível, desambientar imediatamente os homens desencarnados, mediante exigências desse teor, sem grave perigo para suas organizações espirituais.
O Governador, contudo, não desanimou.
Prosseguiram as reuniões, providências e atividades, durante trinta anos consecutivos.
Algumas entidades eminentes chegaram a formular protestos de caráter público, reclamando. Por mais de dez vezes, o Ministério do Auxílio esteve superlotado de enfermos, onde se confessavam vítimas do novo sistema de alimentação deficiente.
Nesses períodos, os opositores da redução multiplicavam acusações.
O Governador, porém, jamais castigou alguém.
Convocava os adversários da medida a palácio e expunha-lhes, paternalmente, os projetos e finalidades do regime; destacava a superioridade dos métodos de espiritualização, facilitava aos mais rebeldes inimigos do novo processo variadas excursões de estudo, em planos mais elevados que o nosso, ganhando, assim, maior número de adeptos.
Ante pausa mais longa, reclamei, interessado: – Continue, por favor, meu caro Lísias.
Como terminou a luta edificante?
– Depois de vinte e um anos de perseverantes demonstrações, por parte da Governadoria, aderiu o Ministério da Elevação, passando a abastecer-se apenas do indispensável.
O mesmo não aconteceu com o Ministério do Esclarecimento, que demorou muito a assumir compromisso, em vista dos numerosos Espíritos dedicados às ciências matemáticas, que ali trabalham.
Eram eles os mais teimosos adversários.
Mecanizados nos processos de proteínas e carboidratos, imprescindíveis aos veículos físicos, não cediam terreno nas concepções correspondentes daqui.
Semanalmente, enviavam ao Governador longas observações e advertências, repletas de análises e numerações, atingindo, por vezes, a imprudência.
O velho governante, contudo, nunca agiu por si só.
Requisitou assistência de nobres mentores, que nos orientam através do Ministério da União
Divina, e jamais deixou o menor boletim de esclarecimento sem exame minucioso.
Enquanto argumentavam os cientistas e a Governadoria contemporizava, formaram-se perigosos distúrbios no antigo Departamento de Regeneração, hoje transformado em Ministério.
Encorajados pela rebeldia dos cooperadores do Esclarecimento, os Espíritos menos elevados que ali se recolhiam entregaram-se a condenáveis manifestações.
Tudo isso provocou enormes cisões nos órgãos coletivos de “Nosso Lar”, dando ensejo a perigoso assalto das multidões obscuras do Umbral, que tentaram invadir a cidade, aproveitando brechas nos serviços de Regeneração, onde grande número de colaboradores entretinha certo intercâmbio clandestino, em virtude dos vícios de alimentação.
Dado o alarme, o Governador não se perturbou.
Terríveis ameaças pairavam sobre todos.
Ele, porém, solicitou audiência ao Ministério da União Divina e, depois de ouvir o nosso mais alto Conselho, mandou fechar provisoriamente o Ministério da Comunicação, determinou funcionassem todos os calabouços da Regeneração, para isolamento dos recalcitrantes, advertiu o Ministério do Esclarecimento, cujas impertinências suportou mais de trinta anos consecutivos, proibiu temporariamente os auxílios às regiões inferiores e, pela primeira vez na sua administração, mandou ligar as baterias elétricas das muralhas da cidade, para emissão de dardos magnéticos a serviço da defesa comum.
Não houve combate, nem ofensiva da colônia, mas resistência resoluta.
Por mais de seis meses, os serviços de alimentação, em “Nosso Lar”, foram reduzidos à inalação de princípios vitais da atmosfera, através da respiração, e água misturada a elementos solares, elétricos e magnéticos.
A colônia ficou, então, sabendo o que vem a ser a indignação do espírito manso e justo.
Findo o período mais agudo, a Governadoria estava vitoriosa.
O próprio Ministério do Esclarecimento reconheceu o erro e cooperou nos trabalhos de reajustamento.
Houve, nesse comenos, regozijo público e dizem que, em meio da alegria geral, o Governador chorou sensibilizado, declarando que a compreensão geral constituía o verdadeiro prêmio ao seu coração.
A cidade voltou ao movimento normal.
O antigo Departamento da Regeneração foi convertido em Ministério.
Desde então, só existe maior suprimento de substâncias alimentícias que lembram a Terra, nos Ministérios da Regeneração e do Auxílio, onde há sempre grande número de necessitados.
Nos demais há somente o indispensável, isto é, todo o serviço de alimentação obedece a inexcedível sobriedade.
Presentemente, todos reconhecem que a suposta impertinência do Governador representou medida de elevado alcance para nossa libertação espiritual.
Reduziu-se a expressão física e surgiu maravilhoso coeficiente de espiritualidade.
Lísias silenciou e eu me entreguei a profundos pensamentos sobre a grande lição.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Janeiro de 2019, 11:43
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10 No Bosque das Águas

Dado o meu interesse crescente pelos processos de alimentação, Lísias convidou:
– Vamos ao grande reservatório da colônia.
Lá observará coisas interessantes.
Verá que a água é quase tudo em nossa estância de transição.
Curiosíssimo, acompanhei o enfermeiro sem vacilar.
Chegados a extenso ângulo da praça, o generoso amigo acrescentou:
– Esperemos o aeróbus .
Mal me refazia da surpresa, quando surgiu grande carro, suspenso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos e repleto de passageiros.
Ao descer até nós, à maneira de um elevador terrestre, examinei-o com atenção.
Não era máquina conhecida na Terra.
Constituída de material muito flexível, tinha enorme comprimento, parecendo ligada a fios invisíveis, em virtude do grande número de antenas na tolda.
Mais tarde, confirmei minhas suposições, visitando as grandes oficinas do Serviço de Trânsito e Transporte.
Lísias não me deu tempo a indagações.
Aboletados convenientemente no recinto confortável, seguimos Silenciosos.
Experimentava a timidez natural do homem desambientado, entre desconhecidos.
A velocidade era tanta que não permitia fixar os detalhes das construções escalonadas no extenso percurso.
A distância não era pequena, porque só depois de quarenta minutos, incluindo ligeiras paradas de três em três quilômetros, me convidou Lísias a descer, sorridente e calmo.
Deslumbrou-me o panorama de belezas sublimes.
O bosque, em floração maravilhosa, embalsamava o vento fresco de inebriante perfume.
Tudo em prodígio de cores e luzes cariciosas.
Entre margens bordadas de grama viçosa, toda esmaltada de azulíneas flores, deslizava um rio de grandes proporções.
A corrente rolava tranquila, mas tão cristalina que parecia tonalizada em matiz celeste, em vista dos reflexos do firmamento.
Estradas largas cortavam a verdura da paisagem.
Plantadas a espaços regulares, árvores frondosas ofereciam sombra amiga, à maneira de pousos deliciosos, na claridade do Sol confortador.
Bancos de caprichosos formatos convidavam ao descanso.
Notando o meu deslumbramento, Lísias explicou:
– Estamos no Bosque das Águas.
Temos aqui uma das mais belas regiões de “Nosso Lar”.
Trata-se de um dos locais prediletos para as excursões, dos amantes, que aqui vêm tecer as mais lindas promessas de amor e fidelidade, para as experiências da Terra.
A observação ensejava considerações muito interessantes, mas Lísias não me deu azo a perguntas nesse particular.
Indicando um edifício de enormes proporções, esclareceu:
– Ali é o grande reservatório da colônia.
Todo o volume do Rio Azul, que temos à vista, é absorvido em caixas imensas de distribuição.
As águas que servem a todas as atividades da colônia partem daqui.
Em seguida, reúnem-se novamente, abaixo dos serviços da Regeneração, e voltam a constituir o rio, que prossegue o curso normal, rumo ao grande oceano de substâncias invisíveis para a Terra.
Percebendo-me a indagação íntima, acrescentou:
– Com efeito, a água aqui tem outra densidade.
Muito mais tênue, pura, quase fluídica.
Notando as magníficas construções que me fronteavam, interroguei:
– A que Ministério está afeto o serviço de distribuição?
– Imagine – elucidou Lísias – que este é um dos raros serviços materiais do Ministério da União Divina!
– Que diz? – perguntei, ignorando como conciliar uma e outra coisa.
O visitador sorriu e obtemperou prazenteiro:
– Na Terra quase ninguém cogita seriamente de conhecer a importância da água.
Em “Nosso Lar”, contudo, outros são os conhecimentos.
Nos círculos religiosos do planeta, ensinam que o Senhor criou as águas.
Ora, é lógico que todo serviço criado precisa de energias e braços para ser convenientemente mantido.
Nesta cidade espiritual, aprendemos a agradecer ao Pai e aos seus divinos colaboradores semelhante dádiva.
Conhecendo-a mais intimamente, sabemos que a água é veículo dos mais poderosos para os fluidos de qualquer natureza.
Aqui, ela é empregada sobretudo como alimento e remédio.
Há repartições no Ministério do Auxílio absolutamente consagradas à manipulação de água pura, com certos princípios suscetíveis de serem captados na luz do Sol e no magnetismo espiritual.
Na maioria das regiões da extensa colônia, o sistema de alimentação tem aí suas bases.
Acontece, porém, que só os Ministros da União Divina são detentores do maior padrão de Espiritualidade Superior, entre nós, cabendo-lhes a magnetização geral das águas do Rio Azul, a fim de que sirvam a todos os habitantes de “Nosso Lar”, com a pureza imprescindível.
Fazem eles o serviço inicial de limpeza e os institutos realizam trabalhos específicos, no suprimento de substâncias alimentares e curativas.
Quando os diversos fios da corrente se reúnem de novo, no ponto longínquo, oposto a este bosque, ausenta-se o rio de nossa zona, conduzindo em seu seio nossas qualidades espirituais.
Eu estava embevecido com as explicações.
– No planeta – objetei –, jamais recebi elucidações desta natureza.
– O homem é desatento, há muitos séculos – tornou Lísias –; o mar equilibra-lhe a moradia planetária, o elemento aquoso fornece-lhe o corpo físico, a chuva dá-lhe o pão, o rio organiza-lhe a cidade, a presença da água oferece-lhe a bênção do lar e do serviço; entretanto, ele sempre se julga o absoluto dominador do mundo, esquecendo que é filho do Altíssimo, antes de qualquer consideração.
Virá tempo, contudo, em que copiará nossos serviços, encarecendo a importância dessa dádiva do Senhor.
Compreenderá, então, que a água, como fluido criador, absorve, em cada lar, as características mentais de seus moradores.
A água, no mundo, meu amigo, não somente carreia os resíduos dos corpos, mas também as expressões de nossa vida mental.
Será nociva nas mãos perversas, útil nas mãos generosas e, quando em movimento, sua corrente não só espalhará bênção de vida, mas constituirá igualmente um veículo da Providência Divina, absorvendo amarguras, ódios e ansiedades dos homens, lavando-lhes a casa material e purificando-lhes a atmosfera íntima.
Calou-se o interlocutor em atitude reverente, enquanto meus olhos fixavam a corrente tranquila a despertar-me sublimes pensamentos.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Janeiro de 2019, 11:44
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11 Notícias do Plano

Desejaria meu generoso companheiro facultar-me observações diferentes, nos diversos bairros da colônia, mas obrigações imperiosas chamavam-no ao posto.
– Terá você ocasião de conhecer as diversas regiões dos nossos serviços – exclamou bondosamente – pois, conforme vê, os Ministérios do “Nosso Lar” são enormes células de trabalho ativo.
Nem mesmo alguns dias de estudo oferecem ensejo à visão detalhada de um só deles.
Não lhe faltará oportunidade, porém.
Ainda que me não seja possível acompanhá-lo, Clarêncio tem poderes para obter-lhe ingresso fácil em qualquer dependência.
Voltamos ao ponto de passagem do aeróbus, que não se fez esperar.
Agora, sentia-me quase à vontade.
A presença de muitos passageiros não me constrangia.
A experiência anterior fizera-me benefícios enormes.
Esfervilhava-me o cérebro de úteis indagações.
Interessado em resolvê-las, aproveitei o minuto para valer-me do companheiro, quando possível.
– Lísias, amigo – perguntei –, poderá informar-me se todas as colônias espirituais são idênticas a esta? Os mesmos processos, as mesmas características?
– De modo algum. Se nas esferas materiais, cada região e cada estabelecimento revelam traços peculiares, imagine a multiplicidade de condições em nossos planos.
Aqui, tal como na Terra, as criaturas se identificam pelas fontes comuns de origem e pela grandeza dos fins que devem atingir; mas importa considerar que cada colônia, como cada entidade, permanece em degraus diferentes na grande ascensão.
Todas as experiências de grupo diversificam-se entre si e “Nosso Lar” constitui uma experiência coletiva dessa natureza.
Segundo nossos arquivos, muitas vezes os que nos antecederam buscaram inspiração nos trabalhos de abnegados trabalhadores de outras esferas; em compensação, outros agrupamentos buscam o nosso concurso para outras colônias em formação.
Cada organização, todavia, apresenta particularidades essenciais.
Observando que o intervalo se fazia mais longo, interroguei:
– Partiu daqui a interessante formação de Ministérios?
– Sim, os missionários da criação de “Nosso Lar” visitaram os serviços de “Alvorada Nova”, uma das colônias espirituais mais importantes que nos circunvizinham e ali encontraram a divisão por departamentos.
Adotaram o processo, mas substituíram a palavra departamento por Ministério, com exceção dos serviços regeneradores, que, somente com o Governador atual, conseguiram elevação.
Assim procederam, considerando que a organização em Ministérios é mais expressiva, como definição de espiritualidade.
– Muito bem! – acrescentei.
– E não é tudo – prosseguiu o enfermeiro, atencioso –, a instituição é eminentemente rigorosa, no que concerne à ordem e à hierarquia.
Nenhuma condição de destaque é concedida aqui a título de favor.
Somente quatro entidades conseguiram ingressar, com responsabilidade definida, no curso de dez anos, no Ministério da União Divina.
Em geral, todos nós, decorrido longo estágio de serviço e aprendizado, voltamos a reencarnar, para atividades de aperfeiçoamento.
Enquanto eu ouvia essas informações, justamente curioso, Lísias continuava:
– Quando os recém-chegados das zonas inferiores do Umbral se revelam aptos a receber cooperação fraterna, demoram no Ministério do Auxílio; quando, porém, se mostram refratários, são encaminhados ao Ministério da Regeneração.
Se revelam proveito, com o correr do tempo são admitidos aos trabalhos de Auxílio, Comunicação e Esclarecimento, a fim de se prepararem, com eficiência, para futuras tarefas planetárias.
Somente alguns conseguem atividade prolongada no Ministério da Elevação e raríssimos, em cada dez anos, os que alcançam intimidade nos trabalhos da União Divina.
E não suponha que os testemunhos sejam vagas expressões de atividade idealista.
Já não estamos na esfera do globo, onde o desencarnado é promovido compulsoriamente a fantasma.
Vivemos em círculo de demonstrações ativas.
As tarefas de Auxílio são laboriosas e complicadas, os deveres no Ministério da Regeneração constituem testemunhos pesadíssimos, os trabalhos na Comunicação exigem alta noção da responsabilidade individual, os campos do Esclarecimento requisitam grande capacidade de trabalho e valores intelectuais profundos, o Ministério da Elevação pede renúncia e iluminação, as atividades da União Divina requerem conhecimento justo e sincera aplicação do amor universal.
A Governadoria, por sua vez, é sede movimentada de todos os assuntos administrativos, numerosos serviços de controle direto, como, por exemplo, o de alimentação, distribuição de energias elétricas, trânsito, transporte e outros.
Aqui, em verdade, a lei do descanso é rigorosamente observada, para que determinados servidores não fiquem mais sobrecarregados que outros; mas a lei do trabalho é também rigorosamente cumprida.
No que concerne ao repouso, a única exceção é o próprio Governador, que nunca aproveita o que lhe toca, nesse terreno.
– Mas, nunca se ausenta ele do palácio? – interroguei.
– Somente nas ocasiões que o bem público o exige.
A não ser em obediência a esse imperativo, o Governador vai semanalmente ao Ministério da Regeneração, que representa a zona de “Nosso Lar” onde há maior número de perturbações, dada a sintonia de muitos dos seus abrigados com os irmãos do Umbral.
Numerosas multidões de Espíritos desviados ali se encontram recolhidas.
Aproveita ele, pois, as tardes de domingo, depois de orar com a cidade no Grande Templo da Governadoria, para cooperar com os Ministros da Regeneração, atendendo-lhes os difíceis problemas de trabalho.
Nesse mister, priva-se, às vezes, de alegrias sagradas, amparando a desorientados e sofredores.
Deixara-nos o aeróbus nas vizinhanças do hospital, onde me aguardava o aposento confortador.
Em plena via pública, ouviam-se, tal qual observara à saída, belas melodias atravessando o ar.
Notando-me a expressão indagadora, Lísias explicou fraternalmente:
– Essas músicas procedem das oficinas onde trabalham os habitantes de “Nosso Lar”.
Após consecutivas observações, reconheceu a Governadoria que a música intensifica o rendimento do serviço, em todos os setores de esforço construtivo.
Desde então, ninguém trabalha em “Nosso Lar”, sem esse estimulo de alegria.
Nesse ínterim, porém, chegáramos à Portaria.
Atencioso enfermeiro adiantou-se e notificou:
– Irmão Lísias, chamam-no ao pavilhão da direita para serviço urgente.
O companheiro afastou-se, calmo, enquanto eu me recolhia ao aposento particular, repleto de indagações íntimas.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Janeiro de 2019, 23:07
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12 O Umbral

Após receber tão valiosas elucidações, aguçava-se-me o desejo de intensificar a aquisição de conhecimentos relativos a diversos problemas que a palavra de Lísias sugeria.
As referências a Espíritos do Umbral mordiam-me a curiosidade.
A ausência de preparação religiosa, no mundo, dá motivo a dolorosas perturbações.
Que seria o Umbral?
Conhecia, apenas, a idéia do inferno e do purgatório, através dos sermões ouvidos nas cerimônias católico-romanas a que assistira, obedecendo a preceitos protocolares.
Desse Umbral, porém, nunca tivera notícias.
Ao primeiro encontro com o generoso visitador, minhas perguntas não se fizeram esperar.
Lísias ouviu-me, atencioso, e replicou:
– Ora, ora, pois você andou detido por lá tanto tempo e não conhece a região?
Recordei os sofrimentos passados, experimentando arrepios de horror.
– O Umbral – continuou ele, solícito – começa na crosta terrestre.
É a zona obscura de quantos no mundo não se resolveram a atravessar as portas dos deveres sagrados, a fim de cumpri-los, demorando-se no vale da indecisão ou no pântano dos erros numerosos.
Quando o Espírito reencarna, promete cumprir o programa de serviços do Pai; entretanto, ao recapitular experiências no planeta, é muito difícil fazê-lo, para só procurar o que lhe satisfaça ao egoísmo.
Assim é que mantidos são o mesmo ódio aos adversários e a mesma paixão pelos amigos.
Mas, nem o ódio é justiça, nem a paixão é amor.
Tudo o que excede, sem aproveitamento, prejudica a economia da vida.
Pois bem: todas as multidões de desequilibrados permanecem nas regiões nevoentas, que se seguem aos fluidos carnais.
O dever cumprido é uma porta que atravessamos no Infinito, rumo ao continente sagrado da união com o Senhor.
É natural, portanto, que o homem esquivo à obrigação justa, tenha essa bênção indefinidamente adiada.
Notando-me a dificuldade para apreender todo o conteúdo do ensinamento, com vistas à minha quase total ignorância dos princípios espirituais, Lísias procurou tornar a lição mais clara:
– Imagine que cada um de nós, renascendo no planeta, somos portadores de um fato sujo, para lavar no tanque da vida humana.
Essa roupa imunda é o corpo causal, tecido por nossas mãos, nas experiências anteriores.
Compartilhando, de novo, as bênçãos da oportunidade terrestre, esquecemos, porém, o objetivo essencial, e, ao invés de nos purificarmos pelo esforço da lavagem, manchamo-nos ainda mais, contraindo novos laços e encarcerando-nos a nós mesmos em verdadeira escravidão.
Ora, se ao voltarmos ao mundo procurávamos um meio de fugir à sujidade, pelo desacordo de nossa situação com o meio elevado, como regressar a esse mesmo ambiente luminoso, em piores condições?
O Umbral funciona, portanto, como região destinada a esgotamento de resíduos mentais; uma espécie de zona purgatorial, onde se queima a prestações o material deteriorado das ilusões que a criatura adquiriu por atacado, menosprezando o sublime ensejo de uma existência terrena.
A imagem não podia ser mais clara, mais convincente.
Não havia como disfarçar minha justa admiração.
Compreendendo o efeito benéfico que me traziam aqueles esclarecimentos, Lísias continuou:
– O Umbral é região de profundo interesse para quem esteja na Terra.
Concentra-se, aí, tudo o que não tem finalidade para a vida superior.
E note você que a Providência Divina agiu sabiamente, permitindo se criasse tal departamento em torno do planeta.
Há legiões compactas de almas irresolutas e ignorantes, que não são suficientemente perversas para serem enviadas a colônias de reparação mais dolorosa, nem bastante nobres para serem conduzidas a planos de elevação.
Representam fileiras de habitantes do Umbral, companheiros imediatos dos homens encarnados, separados deles apenas por leis vibratórias.
Não é de estranhar, portanto, que semelhantes lugares se caracterizem por grandes perturbações.
Lá vivem, agrupam-se, os revoltados de toda espécie.
Formam, igualmente, núcleos invisíveis de notável poder, pela concentração das tendências e desejos gerais.
Muita gente da Terra não recorda que se desespera quando o carteiro não vem, quando o comboio não aparece?
Pois o Umbral está repleto de desesperados.
Por não encontrarem o Senhor à disposição dos seus caprichos, após a morte do corpo físico, e, sentindo que a coroa da vida eterna é a glória intransferível dos que trabalham com o Pai, essas criaturas se revelam e demoram em mesquinhas edificações.
“Nosso Lar” tem uma sociedade espiritual, mas esses núcleos possuem infelizes, malfeitores e vagabundos de várias categorias.
É zona de verdugos e vítimas, de exploradores e explorados.
Valendo-me da pausa, que se fizera espontânea, exclamei, impressionado:
– Como explicar? Então não há por lá defesa, organização?
Sorriu o interlocutor, esclarecendo:
– Organização é atributo dos Espíritos organizados.
Que quer você?
A zona inferior a que nos referimos é qual a casa onde não há pão: todos gritam e ninguém tem razão.
O viajante distraído perde o comboio, o agricultor que não semeou não pode colher.
Uma certeza, porém, posso dar-lhe: não obstante as sombras e angústias do Umbral, nunca faltou lá a proteção divina.
Cada Espírito lá permanece o tempo que se faça necessário.
Para isso, meu amigo, permitiu o Senhor se erigissem muitas colônias como esta, consagradas ao trabalho e ao socorro espiritual.
– Creio, então – observei –, que essa esfera se mistura quase com a esfera dos homens.
– Sim – confirmou o dedicado amigo –, e é nessa zona que se os fios invisíveis que ligam as mentes humanas entre si.
O plano está repleto de desencarnados e de formas-pensamento dos encarnados, porque, em verdade, todo Espírito, esteja onde estiver, é um núcleo irradiante de forças que criam, transformam ou destroem, exteriorizadas em vibrações que a ciência terrestre presentemente não pode compreender.
Quem pensa, está fazendo alguma coisa alhures.
E é pelo pensamento que os homens encontram no Umbral os companheiros que afinam com as tendências de cada um.
Toda alma é um ímã poderoso.
Há uma extensa humanidade invisível, que se segue à humanidade visível.
As missões mais laboriosas do Ministério do Auxílio são constituídas por abnegados servidores, no Umbral, porque se a tarefa dos bombeiros nas grandes cidades terrenas é difícil, pelas labaredas e ondas de fumo que os defrontam, os missionários do Umbral encontram fluidos pesadíssimos emitidos, sem cessar, por milhares de mentes desequilibradas, na prática do mal, ou terrivelmente flageladas nos sofrimentos retificadores.
É necessário muita coragem e muita renúncia para ajudar a quem nada compreende do auxílio que se lhe oferece. Interrompera-se Lísias.
Sumamente impressionado, exclamei:
– Ah! Como desejo trabalhar junto dessas legiões de infelizes, levando-lhes o pão espiritual do esclarecimento!
O enfermeiro amigo fixou-me bondosamente e, depois de meditar em silêncio, por largos instantes, acentuou, ao despedir-se:
– Será que você se sente com o preparo indispensável a semelhante serviço?
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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Janeiro de 2019, 23:08
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13 No Gabinete do Ministro

Com as melhoras crescentes, surgia a necessidade de movimentação e trabalho.
Decorrido tanto tempo, esgotados anos difíceis de luta, volvia-me o interesse pelos afazeres que enchem o dia útil de todo homem normal, no mundo.
Incontestável que havia perdido excelentes oportunidades na Terra; que muitas falhas me assinalavam o caminho.
Agora, porém, recordava os quinze anos de clínica, sentindo um certo “vazio” no coração.
Identificava-me a mim mesmo, como vigoroso agricultor em pleno campo, de mãos atadas e impossibilitado de atacar o trabalho.
Cercado de enfermos, não podia aproximar-me, como noutros tempos, reunindo em mim o amigo, o médico e o pesquisador.
Ouvindo gemidos incessantes nos apartamentos contíguos, não me era lícito nem mesmo a função de enfermeiro e colaborador nos casos de socorro urgente.
Claro que não me faltava desejo.
Minha posição ali, contudo, era assaz humilde para me atrever.
Os médicos espirituais eram detentores de técnica diferente.
No planeta, sabia que meu direito de intervir começava nos livros conhecidos e nos títulos conquistados; mas, naquele ambiente novo, a medicina começava no coração, exteriorizando-se em amor e cuidado fraternal.
Qualquer enfermeiro, dos mais simples, em “Nosso Lar”, tinha conhecimentos e possibilidades muito superiores à minha ciência.
Inexequível, portanto, qualquer tentativa de trabalho espontâneo, por constituir, a meu ver, invasão de seara alheia.
No apuro de tais dificuldades, Lísias era o amigo indicado às minhas confidências de irmão.
Interpelado, esclareceu:
– Por que não pedir o socorro de Clarêncio?
Atendê-lo-á por certo.
Peça-lhe conselhos.
Ele pergunta sempre por sua pessoa e tudo fará a seu favor.
Animou-me grande esperança.
Consultaria o Ministro do Auxílio. Iniciando, contudo, as providências, fui informado de que o generoso benfeitor somente poderia atender na manhã seguinte, no gabinete particular.
Esperei ansioso o momento oportuno.
No dia imediato, muito cedo, procurei o local indicado.
Qual não foi, porém, minha surpresa vendo que três pessoas lá estavam aguardando Clarêncio, em identidade de circunstâncias!
O delicado Ministro do Auxílio chegara muito antes de nós e atendia a assuntos mais importantes que a recepção de visitas e solicitações.
Terminado o serviço urgente, começou a chamar-nos, dois a dois.
Impressionou-me tal processo de audiência.
Soube, porém, mais tarde, que ele aproveitava esse método para que os pareceres fornecidos a qualquer interessado servissem igualmente a outros, assim atendendo a necessidades de ordem geral, ganhando tempo e proveito.
Decorridos muitos minutos, chegou-me a vez.
Penetrei no gabinete em companhia de uma senhora idosa, que seria ouvida em primeiro lugar, por ordem de precedência.
O Ministro recebeu-nos, cordial, deixando-nos à vontade para discorrer.
– Nobre Clarêncio – começou a companheira desconhecida –, venho pedir seus bons ofícios a favor de meus dois filhos.
Ah! Já não tolero tantas saudades e estou informada de que ambos vivem exaustos e sobrecarregados de infortúnios, no ambiente terrestre.
Reconheço que os desígnios do Pai são justos e amorosos; no entanto, sou mãe!
Não consigo subtrair-me ao peso da angústia!...
E a pobre criatura se desfez, ali mesmo, em copioso pranto.
O Ministro, dirigindo-lhe um olhar de fraternidade, embora conservando intacta a energia pessoal, respondeu, bondoso:
– Mas, se a irmã reconhece que os desígnios do Pai são justos e santos, que me cabe fazer?
– Desejava – replicou, aflita – que me concedesse recursos para protegê-los eu mesma, nas esferas do globo!...
– Ah! Minha amiga – disse o benfeitor amorável – só no espírito de humildade e de trabalho é possível a nós outros proteger alguém.
Que me diz de um pai terrestre que desejasse ajudar os filhinhos, mantendo-se em absoluta quietação no conforto do lar?
O Pai criou o serviço e a cooperação como leis que ninguém pode trair sem prejuízo próprio. Nada lhe diz a consciência, neste sentido?
Quantos bônus-horas poderá apresentar em benefício de sua pretensão?
A interpelada respondeu, hesitante:
– Trezentos e quatro.
– É de lamentar – elucidou Clarêncio, sorrindo –, pois aqui se hospeda, há mais de seis anos, e apenas deu à colônia, até hoje, trezentos e quatro horas de trabalho.
Entretanto, logo que se restabeleceu das lutas sofridas em região inferior, ofereci-lhe atividade louvável na Turma de vigilância, do Ministério da Comunicação...
– Mas aquilo por lá era serviço intolerável – atalhou a interlocutora –, uma luta incessante contra entidades malfazejas. Era natural que não me adaptasse.
Clarêncio continuou, imperturbável:
– Coloquei-a, depois, entre os Irmãos da Suportação, nas tarefas regeneradoras.
– Pior! – exclamou a senhora – Aqueles apartamentos andam repletos de pessoas imundas. Palavrões, indecências, miséria.
– Reconhecendo suas dificuldades – esclareceu o Ministro –, enviei-a a cooperar na Enfermagem dos Perturbados.
– Mas quem os tolerará, senão os santos? – inquiriu a pedinte rebelde – fiz o possível; entretanto, aquela multidão de almas desviadas assombra a qualquer!
– Não ficaram aí meus esforços – replicou o benfeitor sem se perturbar –, localizei-a nos Gabinetes de Investigações e Pesquisas do Ministério do Esclarecimento e, contudo, talvez enfadada com as minhas providências, a irmã se recolheu, deliberadamente, aos Campos de Repouso.
– Era, também, impossível continuar ali – disse a impertinente –, só encontrei experiências exaustivas, fluidos estranhos, chefes ásperos.
– Pois note, minha amiga – esclareceu o devotado e seguro orientador – o trabalho e a humildade são as duas margens do caminho do auxílio.
Para ajudarmos alguém, precisamos de irmãos que se façam cooperadores, amigos, protetores e servos nossos.
Antes de amparar os que amamos, é indispensável estabelecer correntes de simpatia.
Sem a cooperação é impossível atender com eficiência.
O camponês que cultiva a terra alcança a gratidão dos que saboreiam os frutos.
O operário que entende os chefes exigentes, executando-lhes as determinações, representa o sustentáculo do lar, em que o Senhor o colocou.
O servidor que obedece, construindo, conquista os superiores, companheiros e interessados no serviço.
E nenhum administrador intermediário poderá ser útil aos que ama, se não souber servir e obedecer nobremente.
Fira-se o coração, experimente-se a dificuldade, mas, que saiba cada qual que o serviço útil pertence, acima de tudo, ao Doador Universal.
Depois de pequena pausa, continuou:
– Que fará, pois, na Terra se não aprendeu ainda a suportar coisa alguma?
Não duvido da sua dedicação aos filhos queridos, mas importa notar que haveria de comparecer por lá, como mãe paralítica, incapaz de prestar socorro justo.
Para que qualquer de nós alcance a alegria de auxiliar os amados, faz-se necessária a interferência de muitos a quem tenhamos ajudado, por nossa vez.
Os que não cooperam não recebem cooperação.
Isso é da lei eterna.
E se minha irmã nada acumulou de seu para dar, é justo que procure a contribuição amorosa dos outros.
Mas, como receber a colaboração imprescindível, se ainda não semeou, nem mesmo a simples simpatia?
Volte aos Campos de Repouso, onde se abrigou ultimamente, e reflita.
Examinaremos depois o assunto com a devida atenção.
Sentou-se a mãe inquieta, enxugando lágrimas copiosas.
Em seguida, o Ministro fitou-me compassivamente e falou:
– Aproxime-se, meu amigo!
Levantei-me, hesitante, para conversar.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Janeiro de 2019, 00:08
NOSSO LAR

14 Elucidações de Clarêncio

Pulsava-me precipite o coração, fazendo-me lembrar o aprendiz bisonho, diante de examinadores rigorosos.
Vendo aquela mulher em lágrimas e ponderando a energia serena do Ministro do Auxílio, tremia dentro de mim mesmo, arrependido de haver provocado aquela audiência.
Não seria melhor calar, aprendendo a esperar deliberações superiores?
Não seria presunção descabida pedir atribuições de médico naquela casa, onde permanecia como enfermo?
A sinceridade de Clarêncio, para com a irmã que me antecedera, despertara-me raciocínios novos.
Quis desistir, renunciar ao desejo da véspera e voltar ao aposento, mas, era impossível.
O Ministro do Auxílio, como se adivinhasse meus propósitos mais íntimos, exclamou em tom firme:
– Pronto a ouvi-lo.
Ia solicitar instintivamente qualquer serviço médico em “Nosso Lar”, embora a indecisão que me dominava; entretanto, a consciência me advertia:
Por que referir-se a serviço especializado?
Não seria repetir os erros humanos, dentro dos quais a vaidade não tolera outro gênero de atividade senão o correspondente aos preconceitos dos títulos nobiliárquicos, ou acadêmicos?
Esta ideia equilibrava-me a tempo.
Bastante confundido, falei:
– Tomei a liberdade de vir até aqui, rogar seus bons ofícios para que me reintegre no trabalho.
Ando saudoso dos meus misteres, agora que a generosidade do “Nosso Lar” me reconduziu à bênção da harmonia orgânica.
Qualquer trabalho útil me interessa, desde que me afaste da inação.
Clarêncio fitou-me longamente, como a identificar-me as intenções mais íntimas.
– Já sei.
Verbalmente pede qualquer gênero de tarefa; mas, no fundo, sente falta dos seus clientes, do seu gabinete, da paisagem de serviço com que o Senhor honrou sua personalidade na Terra.
Até aí, as palavras dele eram jatos de conforto e esperança, que eu recebia no coração, com gestos confirmativos.
Depois de uma pausa mais longa, porém, o Ministro prosseguiu:
– Convém notar, todavia, que às vezes o Pai nos honra com a Sua confiança e nós desvirtuamos os verdadeiros títulos de serviço.
Você foi médico na Terra, cercado de todas as facilidades, no capítulo dos estudos.
Nunca soube o preço de um livro, porque seus pais, generosos, lhe custeavam todas as despesas.
Logo depois de graduado, começou a receber proventos compensadores, não teve sequer as dificuldades do médico pobre, compelido a mobilizar relações afetivas para fazer clínica.
Prosperou tão rapidamente que transformou facilidades conquistadas em carreira para a morte prematura do corpo.
Enquanto moço e sadio, cometeu numerosos abusos, dentro do quadro de trabalho a que Jesus o conduziu.
Ante aquele olhar firme e bondoso ao mesmo tempo, estranha perturbação apossara-se de mim.
Respeitosamente, ponderei:
– Reconheço a procedência das observações, mas, se possível, estimaria obter meios de resgatar meus débitos, consagrando-me sinceramente aos enfermos deste parque hospitalar.
– Impulso muito nobre – disse Clarêncio sem austeridade –, contudo, é preciso convir que toda tarefa na Terra, no campo das profissões, é convite do Pai para que o homem penetre os templos divinos do trabalho.
O título, para nós, é simplesmente uma ficha; mas, no mundo, costuma representar uma porta aberta a todos os disparates.
Com essa ficha, o homem fica habilitado a aprender nobremente e a servir ao Senhor, no quadro de Seus divinos serviços no planeta.
Tal princípio é aplicável a todas as atividades terrestres, excluída a convenção dos setores nos quais se desdobrem.
Meu irmão recebeu uma ficha de médico.
Penetrou o templo da Medicina, mas sua ação, lá dentro, não se verificou em normas que me autorizem a endossar seus atuais desejos.
Como transformá-lo, de um momento para outro, em médico de Espíritos enfermos, quando fez questão de circunscrever observações exclusivamente à esfera do corpo físico?
Não nego sua capacidade de excelente fisiologista, mas o campo da vida é muito extenso.
Que me diz de um botânico que alinhasse definições apenas com o exame das cascas secas de algumas árvores?
Grande número de médicos, na Terra, prefere apenas a conclusão matemática diante dos serviços de anatomia.
Concordemos que a Matemática é respeitável, mas não é a única ciência do Universo.
Como reconhece agora, o médico não pode estacionar em diagnósticos e terminologias.
Há que penetrar a alma, sondar-lhe as profundezas.
Muitos profissionais da Medicina, no planeta, são prisioneiros das salas acadêmicas, porque a vaidade lhes roubou a chave do cárcere.
Raros conseguem atravessar o pântano dos interesses inferiores, sobrepor-se a preconceitos comuns e, para essas exceções, reservam-se as zombarias do mundo e o escárnio dos companheiros.
Fiquei atônito.
Não conhecia tais noções de responsabilidade profissional.
Assombrava-me a interpretação do título acadêmico, reduzido à ficha de ingresso em zonas de trabalho para cooperação ativa com o Senhor Supremo.
Incapaz de intervir, aguardei que o Ministro do Auxílio retomasse o fio das elucidações.
– Conforme deduz – continuou ele –, não se preparou convenientemente para os nossos serviços aqui.
– Generoso benfeitor – atrevi-me a dizer –, compreendo a lição e curvo-me à evidência.
E, fazendo esforço por conter as lágrimas, pedi, humilde:
– Submeto-me a qualquer trabalho, nesta colônia de realização e paz.
Com um profundo olhar de simpatia, respondeu:
– Meu amigo, não possuo apenas verdades amargas.
Tenho igualmente a palavra de estímulo.
Não pode ainda ser médico em “Nosso Lar”, mas poderá assumir o cargo de aprendiz, oportunamente.
Sua posição atual não é das melhores; entretanto, é confortadora, pelas intercessões chegadas ao Ministério do Auxílio, a seu favor.
– Minha mãe? – perguntei, inebriado de alegria.
– Sim – esclareceu o Ministro –, sua mãe e outros amigos, no coração dos quais você plantou a semente da simpatia.
Logo após sua vinda, pedi ao Ministério do Esclarecimento providenciasse a obtenção de suas notas, que examinei atentamente.
Muita imprevidência, numerosos abusos e muita irreflexão, mas, nos quinze anos de sua clínica, também proporcionou receituário gratuito a mais de seis mil necessitados.
Na maioria das vezes, praticou esses atos meritórios, absolutamente por troça; mas, presentemente, pode verificar que, mesmo por troça, o verdadeiro bem espalha bênçãos em nossos caminhos.
Desses beneficiados, quinze não o esqueceram e têm enviado, até aqui, veementes apelos a seu favor.
Devo esclarecer, no entanto, que mesmo o bem que proporcionou aos indiferentes surge aqui a seu favor.
Concluindo, a sorrir, as elucidações surpreendentes, Clarêncio acentuou:
– Aprenderá lições novas em “Nosso Lar” e, depois de experiências úteis, cooperará eficientemente conosco, preparando-se para o futuro infinito.
Sentia-me radiante.
Pela primeira vez, chorei de alegria na colônia.
Oh! Quem poderá entender, na Terra, semelhante júbilo?
Por vezes, é preciso se cale o coração no grandiloquente silêncio divino.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 20 de Janeiro de 2019, 13:18
NOSSO LAR
15 A Visita Materna

Atento às recomendações de Clarêncio, procurava reconstituir energias para recomeçar o aprendizado.
Noutro tempo, talvez me sentisse ofendido com as observações aparentemente tão ríspidas; mas, naquelas circunstâncias, lembrava meus erros antigos e sentia-me confortado.
Os fluidos carnais compelem a alma a profundas sonolências.
Em verdade, apenas agora reconhecia que a experiência humana, em hipótese alguma, poderia ser levada à conta de brincadeira.
A importância da encarnação na Terra surgia-me aos olhos, evidenciando grandezas até então ignoradas.
Considerando as oportunidades perdidas, reconhecia não merecer a hospitalidade de “Nosso Lar”.
Clarêncio tinha dobradas razões para falar-me com aquela franqueza.
Passei dias entregue a profundas reflexões sobre a vida.
No íntimo, grande ansiedade de rever o lar terreno.
Abstinha-me, porém, de pedir novas concessões.
Os benfeitores do Ministério do Auxílio eram excessivamente generosos para comigo.
Adivinhavam-me os pensamentos.
Se até ali não me haviam proporcionado satisfação espontânea a semelhante desejo, é que tal propósito não seria oportuno.
Calava-me, então, resignado e algo triste.
Lísias fazia o possível por alegrar-me com os seus pareceres consoladores.
Eu estava, porém, nessa fase de recolhimento inexprimível, em que o homem é chamado para dentro de si mesmo, pela consciência profunda.
Um dia, contudo, o bondoso visitador penetrou, radiante, no meu apartamento, exclamando:
– Adivinhe quem chegou à sua procura!
Aquela fisionomia alegre, aqueles olhos brilhantes de Lísias, não me enganavam.
– Minha mãe! – respondi, confiante.
Olhos arregalados de alegria, vi minha mãe entrar de braços estendidos.
– Filho! Meu filho!
Vem a mim, querido meu!
Não posso dizer o que se passou então.
Senti-me criança, como no tempo em que brincava à chuva, pés descalços, na areia do jardim.
Abracei-me a ela carinhoso, chorando de júbilo, experimentando os mais sagrados transportes da ventura espiritual.
Beijei-a repetidas vezes, apertei-a nos braços, misturei minhas lágrimas com as suas lágrimas e não sei quanto tempo estivemos juntos, abraçados. Afinal, foi ela quem me despertou do enlevo recomendando:
– Vamos, filho, não te emociones tanto assim!
A alegria também, quando excessiva, costuma castigar o coração.
E em vez de carregar minha adorada velhinha nos braços, como fazia na Terra, nos derradeiros tempos de sua romagem por lá, foi ela quem me enxugou o pranto copioso, conduzindo-me ao divã.
– Estás ainda fraco, filhinho.
Não desperdices energias.
Sentei-me a seu lado e ela, cuidadosamente, ajeitou-me a fronte cansada, em seus joelhos, afagando-me de leve, confortando-me à luz de santas recordações.
Senti-me, então, o mais venturoso dos homens.
Guardava a impressão de haver o barco de minha esperança ancorado em porto mais seguro.
A presença maternal constituía infinito reconforto ao meu coração.
Aqueles minutos davam-me a ideia de um sonho tecido em trama de felicidade indizível.
Qual menino que procura detalhes, fixava-lhe as vestes, cópia perfeita de um dos seus velhos trajos caseiros.
Notando-lhe o vestido escuro, as meias de lã, a mantilha azul, contemplei a cabeça pequenina, aureolada a fios de neve, as rugas do rosto, o olhar doce e calmo de todos os dias.
Mãos trêmulas de contentamento, acariciava lhe as mãos queridas, sem conseguir articular uma frase.
Minha mãe, todavia, mais forte que eu, falou com serenidade:
– Nunca saberemos agradecer a Deus tamanhas dádivas.
O Pai jamais nos esquece, meu filho.
Que longo tempo de separação!
Não julgues, porém, que me houvesse esquecido.
Às vezes, a Providência separa os corações, temporariamente, para que aprendamos o amor divino.
Identificando-lhe a ternura de todos os tempos, senti que se me reavivavam as chagas terrenas.
Oh! Como é difícil alijar resíduos trazidos da Terra!
Como pesa a imperfeição acumulada em séculos sucessivos!
Quantas vezes ouvira conselhos salutares de Clarêncio, observações fraternais de Lísias, para renunciar às lamentações; mas, ao carinho maternal, como que se reabriam velhas feridas.
Do pranto de alegria passei às lágrimas de angústia, relembrando exacerbadamente os trâmites terrestres.
Não conseguia atinar que a visita não era para satisfação dos meus caprichos e sim preciosa bênção de acréscimo da misericórdia divina.
Copiando antigas exigências, concluí erroneamente que minha genitora deveria continuar como repositório de minhas queixas e males sem-fim.
Na Terra, quase sempre, as mães não passam de escravas, no conceito dos filhos.
Raros lhes entendem a dedicação antes de as perder.
Na mesma falsa concepção de outros tempos, descambei para o terreno das confidências dolorosas.
Minha mãe ouviu-me calada, deixando transparecer inexprimível melancolia.
Olhos úmidos, aconchegando-me de quando em quando mais estreitamente ao coração, falou, carinhosa:
– Oh! Filho, não ignoro as instruções que o nosso generoso Clarêncio te ministrou.
Não te queixes.
Agradeçamos ao Pai a bênção desta reaproximação.
Sintamo-nos agora numa escola diferente, onde aprendemos a ser filhos Senhor.
Na posição de mãe terrestre, nem sempre consegui orientar-te como convinha.
Também eu trabalho, pois, reajustando o coração.
Tuas lágrimas fazem-me voltar à paisagem dos sentimentos humanos.
Alguma coisa tenta operar o retrocesso de minh’alma.
Quero dar razão aos teus lamentos, erigir-te um trono, qual se foras a melhor criatura do Universo; mas essa atitude, presentemente, não se coaduna com as novas lições da vida.
Esses gestos são perdoáveis nas esferas da carne; aqui, porém, filho meu, é indispensável atender, antes de tudo, ao Senhor.
Não és o único homem desencarnado a reparar os próprios erros, nem sou a única mãe a sentir-se distante dos entes amados.
Nossa dor, portanto, não nos edifica pelos prantos que vertemos, ou pelas feridas que sangram em nós, mas pela porta de luz que nos oferece ao espírito, a fim de sermos mais compreensivos e mais humanos.
Lágrimas e úlceras constituem o processo de bendita extensão dos nossos mais puros sentimentos.
Depois de longa pausa, em que a consciência profunda me advertia solene, minha mãe prosseguiu:
– Se é possível aproveitar estes minutos rápidos, em expansões de amor, por que desviá-los para a sombra das lamentações?
Regozijemo-nos, filho, e trabalhemos incessantemente.
Modifica a atitude mental.
Conforta-me tua confiança em meu carinho, experimento sublime felicidade em tua ternura filial, mas não posso retroceder nas minhas experiências.
Amemo-nos, agora, com o grande e sagrado amor divino.
Aquelas palavras benditas me despertaram.
Guardava a impressão de fluidos vigorosos que partiam do sentimento materno, vitalizando-me o coração.
Minha mãe me contemplava desvanecida, mostrando belo sorriso.
Ergui-me, respeitoso, e beijei-a na fronte, sentindo-a mais amorosa e mais bela que nunca.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 24 de Janeiro de 2019, 08:25
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16 Confidências

Consolou-me a palavra maternal, reorganizando-me as energias interiores.
Minha mãe comentava o serviço como se fora uma bênção às dores e dificuldades, levando-as a crédito de alegrias e lições sublimes.
Inesperado e inexprimível contentamento banhava-me o espírito.
Aqueles conceitos alimentavam-me de estranho modo.
Sentia-me outro, mais alegre, animado e feliz.
– Oh! Minha mãe! – exclamei comovido – Deve ser maravilhosa a esfera da sua habitação!
Que sublimes contemplações espirituais, que ventura!
Ela esboçou um sorriso significativo e obtemperou:
– A esfera elevada, meu filho, requer, sempre, mais trabalho, maior abnegação.
Não suponhas que tua mãe permaneça em visões beatificas, a distância dos deveres justos.
Devo fazer-te sentir, no entanto, que minhas palavras não representam qualquer nota de tristeza, na situação em que me encontro.
É antes revelação de responsabilidade necessária.
Desde que voltei da Terra, tenho trabalhado intensamente pela nossa renovação espiritual.
Muitas entidades, desencarnando, permanecem agarradas ao lar terrestre, a pretexto de muito amarem os que demoram no mundo carnal.
Ensinaram-me aqui, todavia, que o verdadeiro amor, para transbordar em benefícios, precisa trabalhar sempre.
Desde minha vinda, então, procuro esforçar-me por conquistar o direito de ajudar aqueles que tanto amamos.
– E meu pai? – perguntei – Onde está? Por que não veio com a senhora?
Minha mãe estampou singular expressão no rosto e respondeu:
– Ah! Teu pai! Teu pai! ...
Há doze anos que está numa zona de trevas compactas, no Umbral.
Na Terra, sempre nos parecera fiel às tradições da família, arraigado ao cavalheirismo do alto comércio, a cujos quadros pertenceu até ao fim da existência, e ao fervor do culto externo, em matéria religiosa; mas, no fundo, era fraco e mantinha ligações clandestinas, fora do nosso lar.
Duas delas estavam mentalmente ligadas a vasta rede de entidades maléficas, e, tão logo desencarnou o meu pobre Laerte, a passagem no Umbral lhe foi muito amarga, porque as desventuradas criaturas, a quem fizera muitas promessas, aguardavam-no ansiosas, prendendo-o de novo nas teias da ilusão.
A princípio, ele quis reagir, esforçando-se por encontrar-me, mas não pôde compreender que após a morte do corpo físico a alma se encontra tal qual vive intrinsecamente.
Laerte, portanto, não percebeu minha presença espiritual, nem a assistência desvelada de outros amigos nossos.
Tendo gasto muitos anos a fingir, viciara a visão espiritual, restringira o padrão vibratório, e o resultado foi achar-se tão só na companhia das relações que cultivara irrefletidamente, pela mente e pelo coração.
Os princípios da família e o amor ao nosso nome ocuparam algum tempo o seu espírito.
De algum modo, lutou, repelindo as tentações; mas caiu afinal, novamente enredado na sombra, por falta de perseverança no bom e reto pensamento.
Muitíssimo impressionado, perguntei:
– Não há, porém, meios de subtraí-lo a tais abjeções?
– Ah! Meu filho – elucidou a palavra materna –, eu o visito frequentemente.
Ele, porém, não me percebe.
Seu potencial vibratório é ainda muito baixo.
Tento atraí-lo ao bom caminho, pela inspiração, mas apenas consigo arrancar-lhe algumas lágrimas de arrependimento, de quando em quando, sem obter resoluções sérias.
As infelizes, das quais se tornou prisioneiro, retiram-no às minhas sugestões.
Venho trabalhando intensamente, anos a fio.
Solicitei o amparo de amigos em cinco núcleos diversos, de atividade espiritual mais elevada, inclusive aqui em “Nosso Lar”.
Certa vez, Clarêncio quase conseguiu atraí-lo ao Ministério da Regeneração, mas debalde.
Não é possível acender luz em candeia sem óleo e sem pavio...
Precisamos da adesão mental de Laerte, para conseguir levantá-lo e abrir-lhe a visão espiritual.
No entanto, o pobrezinho permanece inativo em si mesmo, entre a indiferença e a revolta.
Depois de longa pausa, suspirou, continuando:
– Talvez não saibas ainda que tuas irmãs Clara e Priscila vivem hoje igualmente no Umbral, agarradas à crosta da Terra.
Sou compelida a atender às necessidades de todos.
Meu único auxílio direto repousava na cooperação afetuosa de tua irmã Luísa, aquela que partiu quando eras pequenino.
Luísa esperou-me aqui muitos anos, foi meu braço forte nos trabalhos ásperos de amparo à família terrena.
Ultimamente, contudo, depois de lutar corajosa, a meu lado, em benefício de teu pai, de ti e das irmãs, tão grande é a perturbação dos nossos familiares, ainda na Terra, que voltou a semana passada, a fim de reencarnar entre eles, num gesto heroico de sublime renúncia. Espero, pois, que te restabeleças breve, para que possamos desdobrar atividades no bem.
Assombravam-me as informações referentes a meu pai.
Que espécie de lutas seriam as dele?
Não parecia sincero praticante dos preceitos religiosos, não comungava todos os domingos?
Enlevado com a dedicação maternal, perguntei:
– A senhora, entretanto, auxilia o papai, não obstante a ligação dele com essas mulheres infames?
– Não as classifiques assim; – ponderou minha mãe – dize, antes, meu filho, nossas irmãs doentes, ignorantes ou infelizes.
São filhas de nosso Pai, igualmente.
Não tenho feito intercessões apenas por Laerte, mas por elas também, e estou convencida de haver encontrado recursos para atraí-los todos ao meu coração.
Espantou-me a grande manifestação de renúncia.
Pensei subitamente em minha família direta.
Senti o velho apego à esposa e aos filhos queridos.
Perante Clarêncio e Lísias, deliberava sempre recalcar sentimentos e calar indagações; mas o olhar materno encorajava-me.
Alguma coisa me fazia sentir que minha mãe não se demoraria muito tempo a meu lado.
Aproveitando o minuto que corria célere, interroguei:
– A senhora, que tem acompanhado o papai devotadamente, nada poderá informar relativamente a Zélia e às crianças?
Aguardo, ansioso, o instante de voltar a casa, a fim de auxiliá-los.
Oh! Minhas imensas saudades devem ser igualmente compartilhadas por eles!
Como deve sofrer minha desventurada esposa com esta separação! ...
Minha mãe esboçou um sorriso triste e acrescentou:
– Tenho visitado meus netos periodicamente.
Vão bem.
E, depois de meditar alguns instantes, acentuou:
– Não deves, porém, inquietar-te com o problema de auxílio à família.
Prepara-te, em primeiro lugar, para que sejamos bem sucedidos; há questões que precisamos entregar ao Senhor, em pensamento, antes de trabalhar na solução que elas requerem.
Quis insistir no assunto para colher pormenores, mas minha mãe não reincidiu nele, esquivando-se, delicada.
A palestra estendeu-se ainda longa, envolvendo-me em sublime conforto.
Mais tarde, ela despediu-se.
Curioso por saber como vivia até ali, pedi permissão para acompanha-la.
Afagou-me então, carinhosa, e disse:
– Não venhas, meu filho.
Esperam-me com urgência no Ministério da Comunicação, onde serei munida de recursos fluídicos para a jornada de regresso, nos gabinetes transformatórios.
Além disso, preciso ainda avistar-me com o Ministro Célio, para agradecer a oportunidade desta visita.
E, deixando-me n'alma duradoura impressão de felicidade, beijou-me e partiu.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 27 de Janeiro de 2019, 14:12
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17 Em Casa de Lísias

Não se passaram muitos dias, após a inesperada visita de minha mãe, quando Lísias me veio buscar, a chamado do Ministro Clarêncio.
Segui-o, surpreso.
Recebido amavelmente pelo magnânimo benfeitor, esperava-lhe as ordens com enorme prazer.
– Meu amigo – disse, afável –, doravante está autorizado a fazer observações nos diversos setores de nossos serviços, com exceção dos Ministérios de natureza superior.
Henrique de Luna deu por terminado seu tratamento, na semana última, e é justo, agora, aproveite o tempo observando e aprendendo.
Olhei para Lísias, como irmão que devia participar da minha felicidade indizível, naquele instante.
O enfermeiro correspondeu-me ao olhar com intenso júbilo.
Não cabia em mim de contente.
Era o início de vida nova.
De alguma sorte, poderia trabalhar, ingressando em escolas diferentes.
Clarêncio, que parecia perceber minha intraduzível ventura, acentuou:
– Tornando-se dispensável sua permanência no parque hospitalar, examinarei atentamente a possibilidade de sua localização em ambiente novo.
Consultarei alguma de nossas instituições...
Lísias, porém, cortou-lhe a palavra, exclamando:
– Se possível, estimaria recebê-lo em nossa casa, enquanto perdurar o curso de observações; lá, minha mãe o trataria como filho.
Fitei o visitador num transporte de alegria.
Clarêncio, por sua vez, também lhe endereçou um olhar de aprovação, murmurando:
– Muito bem, Lísias! Jesus alegra-se conosco, sempre que recebemos um amigo no coração.
Abracei o prestativo enfermeiro, sem poder traduzir meu agradecimento.
A alegria às vezes nos emudece. – Guarde este documento – disse-me o atencioso Ministro do Auxílio, entregando-me pequena caderneta –, com ele, poderá ingressar nos Ministérios da Regeneração, do Auxílio, da Comunicação e do Esclarecimento, durante um ano.
Decorrido esse tempo, veremos o que será possível fazer relativamente aos seus desejos.
Instrua-se, meu caro.
Não perca tempo.
O interstício das experiências carnais deve ser bem aproveitado.
Lísias deu-me o braço e saí, enlevado de prazer.
Passados minutos,  eis-nos à porta de graciosa construção, cercada de colorido jardim.
– É aqui – exclamou o delicado companheiro.
E, com expressão carinhosa, acrescentou:
– O nosso lar, dentro de “Nosso Lar”.
Ao tinido brando da campainha no interior, surgiu à porta simpática matrona.
– Mãe! Mãe!... – gritou o enfermeiro, apresentando-me alegremente – este é o irmão que prometi trazer-te.
– Seja bem-vindo, amigo! – exclamou a senhora, nobremente – Esta casa é sua.
E abraçando-me:
– Soube que sua mamãe não vive aqui.
Nesse caso, terá em mim uma irmã, com funções maternais.
Não sabia como agradecer a generosa hospitalidade.
Ia ensaiar algumas frases, para demonstrar minha comoção e reconhecimento, mas a nobre matrona, revelando singular bom humor, adiantou-se, adivinhando-me os pensamentos:
– Está proibido de falar em agradecimentos.
Não o faça.
Obrigar-me-ia a lembrar, de repente, muitas frases convencionais da Terra...
Rimo-nos todos e murmurei, comovido:
– Que o Senhor  traduza meu agradecimento a todos em renovadas bênçãos de alegria e paz.
Entramos.
Ambiente simples e acolhedor.
Móveis quase idênticos aos terrestres; objetos em geral, demonstrando pequeninas variantes.
Quadros de sublime significação espiritual, um piano de notáveis proporções, descansando sobre ele grande harpa talhada em linhas nobres e delicadas.
Identificando-me a curiosidade, Lísias falou, prazenteiro:
– Como vê, depois do sepulcro não encontrou ainda os anjos harpistas; mas aí temos uma harpa esperando por nós mesmos.
– Oh! Lísias – atalhou a palavra materna, carinhosa –, não faças ironia.
Não te recordas como o Ministério da União Divina recebeu o pessoal da Elevação, no ano passado, quando passaram por aqui alguns embaixadores da Harmonia?
– Sim, mamãe; mas quero apenas dizer que os harpistas existem, e precisamos criar audição espiritual, para ouvi-los, esforçando-nos, por nossa vez, no aprendizado das coisas divinas.
Em seguida aos conceitos obrigatórios de apresentação, com que relacionei minha procedência, vim a saber que a família de Lísias vivera em antiga cidade do Estado do Rio de Janeiro; que sua mãe chamava-se Laura e que, em casa, tinha consigo duas irmãs, Iolanda e Judite.
Respirava-se, ali, doce e reconfortante intimidade.
Não conseguia disfarçar meu contentamento e enorme alegria.
Aquele primeiro contato com a organização doméstica na colônia, enlevava-me.
A hospitalidade, cheia de ternura, arrancava-me ao espírito notas de profunda emoção.
Em face do tiroteio de perguntas, Iolanda exibiu-me livros maravilhosos.
Notando-me o interesse, a dona da casa advertiu:
– Temos em “Nosso Lar”, no que concerne à literatura, uma enorme vantagem; é que os escritores de má-fé, os que estimam o veneno psicológico, são conduzidos imediatamente para as zonas obscuras do Umbral.
Por aqui não se equilibram, nem mesmo no Ministério da Regeneração, enquanto perseveram em semelhante estado d’alma.
Não pude deixar de sorrir, continuando a observar os primores da arte fotográfica, nas páginas sob meus olhos.
Em seguida, chamou-me Lísias para ver algumas dependências da casa, demorando-me na Sala de Banho, cujas instalações interessantes me maravilharam.
Tudo simples, mas confortável.
Não voltara a mim da admiração que me empolgava, quando a senhora Laura convidou à oração.
Sentamo-nos, silenciosos, em torno de grande mesa.
Ligado um grande aparelho, fez-se ouvir música suave.
Era o louvor do momento crepuscular.
Surgiu, ao fundo, o mesmo quadro prodigioso da Governadoria, que eu nunca me cansava de contemplar todas as tardes, no parque hospitalar.
Naquele momento, porém, sentia-me dominado de profunda e misteriosa alegria.
E vendo o coração azul desenhado ao longe, senti que minh’alma se ajoelhava no templo interior, em sublimes transportes de júbilo e reconhecimento.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 01 de Fevereiro de 2019, 12:20
NOSSO LAR
18 Amor, Alimento das Almas

Terminada a oração, chamou-nos à mesa a dona da casa, servindo caldo reconfortante e frutas perfumadas, que mais pareciam concentrados de fluidos deliciosos.
Eminentemente surpreendido, ouvi a senhora Laura observar com graça:
– Afinal, nossas refeições aqui são muito mais agradáveis que na Terra.
Há residências, em “Nosso Lar”, que as dispensam quase por completo;  mas, nas zonas do Ministério do Auxílio, não podemos prescindir dos concentrados fluídicos, tendo em vista os serviços pesados que as circunstâncias impõem.
Despendemos grande quantidade de energias.
É necessário renovar provisões de força.
– Isso, porém – ponderou uma das jovens –, não quer dizer que somente nós, os funcionários do Auxílio e da Regeneração, vivamos a depender de alimentos.
Todos os Ministérios, inclusive o da União Divina, não os dispensam, diferindo apenas a feição substancial.
Na Comunicação e no Esclarecimento há enorme dispêndio de frutos.
Na Elevação o consumo de sucos e concentrados não é reduzido e, na União Divina, os fenômenos de alimentação atingem o inimaginável.
Meu olhar indagador ia de Lísias para a Senhora Laura, ansioso de explicações imediatas.
Sorriam todos da minha natural perplexidade, mas a mãe de Lísias veio ao encontro dos meus desejos, explicando:
– Nosso irmão talvez ainda ignore que o maior sustentáculo das criaturas é justamente o amor.
De quando em quando, recebemos em “Nosso Lar” grandes comissões de instrutores, que ministram ensinamentos relativos à nutrição espiritual.
Todo sistema de alimentação, nas variadas esferas da vida, tem no amor a base profunda.
O alimento físico, mesmo aqui, propriamente considerado, é simples problema de materialidade transitória, como no caso dos veículos terrestres, necessitados de colaboração da graxa e do óleo.
A alma, em si, apenas se nutre de amor.
Quanto mais nos elevarmos no plano evolutivo da Criação, mais extensamente conheceremos essa verdade.
Não lhe parece que o amor divino seja o cibo do Universo?
Tais elucidações confortavam-me sobremaneira.
Percebendo-me a satisfação íntima, Lísias interveio, acentuando:
– Tudo se equilibra no amor infinito de Deus e, quanto mais evolvido o ser criado, mais sutil o processo de alimentação.
O verme, no subsolo do planeta, nutre-se essencialmente de terra.
O grande animal colhe na planta os elementos de manutenção, a exemplo da criança sugando o seio materno.
O homem colhe o fruto do vegetal, transforma-o segundo a exigência do paladar que lhe é próprio e serve-se dele à mesa do lar.
Nós outros, criaturas desencarnadas, necessitamos de substâncias suculentas, tendentes à condição fluídica, e o processo será cada vez mais delicado, à medida que se intensifique a ascensão individual.
– Não esqueçamos, todavia, a questão dos veículos – acrescentou a senhora Laura –, porque, no fundo, o verme, o animal, o homem e nós dependemos absolutamente do amor.
Todos nos movemos nele e sem ele não teríamos existência.
 – É extraordinário! – aduzi, comovido.
– Não se lembra do ensino evangélico do “amai-vos uns aos outros”? – prosseguiu a mãe de Lísias atenciosa – Jesus não preceituou esses princípios objetivando tão somente os casos de caridade, nos quais todos aprenderemos, mais dia menos dia, que a prática do bem constitui simples dever.
Aconselhava-nos, igualmente, a nos alimentarmos uns aos outros, no campo da fraternidade e da simpatia.
O homem encarnado saberá, mais tarde, que a conversação amiga, o gesto afetuoso, a bondade recíproca, a confiança mútua, a luz da compreensão, o interesse fraternal – patrimônios que se derivam naturalmente do amor profundo – constituem sólidos alimentos para a vida em si.
Reencarnados na Terra, experimentamos grandes limitações; voltando para cá, entretanto, reconhecemos que toda a estabilidade da alegria é problema de alimentação puramente espiritual.
Formam-se lares, vilas, cidades e nações em obediência a imperativos tais.
Recordei instintivamente as teorias do sexo, largamente divulgadas no mundo; mas, adivinhando-me talvez os pensamentos, a senhora Laura sentenciou:
– E ninguém diga que o fenômeno é simplesmente sexual.
O sexo é manifestação sagrada desse amor universal e divino, mas é apenas uma expressão isolada do potencial infinito.
Entre os casais mais espiritualizados, o carinho e a confiança, a dedicação e o entendimento mútuos permanecem muito acima da união física, reduzida, entre eles, a realização transitória.
A permuta magnética é o fator que estabelece ritmo necessário à manifestação da harmonia.
Para que se alimente a ventura, basta a presença e, às vezes, apenas a compreensão. Valendo-se da pausa, Judite acrescentou:
– Aprendemos em “Nosso Lar” que a vida terrestre se equilibra no amor, sem que a maior parte dos homens se aperceba.
Almas gêmeas, almas irmãs, almas afins, constituem pares e grupos numerosos.
Unindo-se umas às outras, amparando-se mutuamente, conseguem equilíbrio no plano de redenção.
Quando, porém, faltam companheiros, a criatura menos forte costuma sucumbir em meio da jornada.
 – Como vê, meu amigo – objetou Lísias contente –, ainda aqui é possível relembrar o Evangelho do Cristo.
“Nem só de pão vive o homem”.
Antes, porém, de se alinharem novas considerações, tiniu a campainha fortemente.
Levantou-se o enfermeiro para atender.
Dois rapazes de fino trato entraram na sala.
– Aqui tem – disse Lísias, dirigindo-se a mim gentilmente – nossos irmãos Polidoro e Estácio, companheiros de serviço no Ministério do Esclarecimento.
Saudações, abraços, alegria.
Decorridos momentos, a senhora Laura falou sorridente:
– Todos vocês trabalharam muito hoje.
Utilizaram o dia com proveito.
Não estraguem o programa afetivo, por nossa causa.
Não esqueçam a excursão ao Campo da Música.
Notando a preocupação de Lísias, advertiu a palavra materna:
– Vai, meu filho.
Não faças Lascínia esperar tanto.
 Nosso irmão ficará em minha companhia, até que te possa acompanhar nesses entretenimentos.
– Não se incomode por mim – exclamei, instintivamente.
A senhora Laura, porém, esboçou amável sorriso e respondeu:
– Não poderei compartilhar das alegrias do Campo, ainda hoje.
Temos em casa minha neta convalescente, que voltou da Terra há poucos dias.
Saíram todos, em meio do júbilo geral.
A dona da casa, fechando a porta, voltou-se para mim e explicou sorridente:
– Vão em busca do alimento a que nos referíamos.
Os laços afetivos, aqui, são mais belos e mais fortes.
O amor, meu amigo, é o pão divino das almas, o pábulo sublime dos corações.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Fevereiro de 2019, 11:53
NOSSO LAR
19 A Jovem Desencarnada

– Sua neta não vem à mesa para as refeições? – perguntei à dona da casa, ensaiando palestra mais íntima.
 – Por enquanto, alimenta-se a sós – esclareceu dona Laura –, a tolinha continua nervosa, abatida.
Aqui, não trazemos à mesa qualquer pessoa que se manifeste perturbada ou desgostosa.
A neurastenia e a inquietação emitem fluidos pesados e venenosos, que se misturam automaticamente às substâncias alimentares.
Minha neta demorou-se no Umbral quinze dias, em forte sonolência, assistida por nós.
Deveria ingressar nos pavilhões hospitalares, mas, afinal, veio submeter-se aos meus cuidados diretos.
Manifestei desejo de visitar a recém-chegada do planeta.
Seria muito interessante ouvi-la.
Há quanto tempo estava sem notícias diretas da existência comum?
A senhora Laura não se fez rogada quando lhe dei a conhecer meu desejo.
Demandamos um quarto confortável e muito amplo.
Uma jovem muito pálida repousava em cômoda poltrona.
Surpreendeu-se vivamente ao ver-me. – Este amigo, Eloísa – explicou a genitora de Lísias, indicando-me –, é um irmão nosso que voltou da esfera física, há pouco tempo.
A moça fitou-me curiosa, embora os olhos perdidos nas fundas olheiras traduzissem grande esforço para concentrar atenção.
Cumprimentou-me, esboçando vago sorriso, dando-me eu a conhecer, por minha vez.
– Deve estar cansada – observei.
Antes, porém, que ela respondesse, adiantou-se a senhora Laura, procurando subtraí-la a esforços sobre posse fatigantes:
– Eloísa tem estado inquieta, aflita.
Em parte, justifica-se.
A tuberculose foi longa e deixou-lhe traços profundos; entretanto, não se pode prescindir, a tempo algum, do otimismo e da coragem.
Vi a jovem arregalar os olhos muito negros, como a reter o pranto, mas em vão.
O tórax começou a arfar-lhe violentamente e, colando o lenço ao rosto, não conseguia conter os soluços angustiosos.
– Tolinha! – disse a meiga senhora abraçando-a – É necessário reagir contra isso.
Estas impressões são os resultados da educação religiosa deficiente, nada mais.
Sabes que tua mãe não se demorará e que não podes contar com a fidelidade do noivo, que, de modo algum, está preparado a te oferecer uma sincera dedicação espiritual na Terra.
Ele ainda está longe do espírito sublime do amor iluminado.
Naturalmente, desposará outra e deves habituar-te a esta convicção.
Nem seria justo exigir-lhe a vinda brusca.
Sorrindo maternalmente, a senhora Laura acrescentou:
– Admitamos que viesse, forçando a lei.
Não seria mais duro o sofrimento?
Não pagarias caro a cooperação que houvesses desenvolvido nesse particular?
Não te faltarão amizades carinhosas, nem colaboração fraternal, para que te equilibres aqui.
E se amas, de fato, o rapaz, deves procurar harmonia para beneficiá-lo mais tarde.
Além disso, tua mãe não tarda a chegar.
Penalizou-me o pranto copioso da jovem.
Procurei estabelecer novo rumo à conversação, tentando subtraí-la à crise de lágrimas. – Donde vem você, Eloísa? – interroguei.
A mãe de Lísias, agora calada, parecia igualmente desejosa de vê-la desembaraçar-se.
Após longos instantes em que enxugava os olhos lacrimosos, a moça respondeu:
– Do Rio de Janeiro.
– Mas não deve chorar assim – objetei.
Você é muito feliz.
Desencarnou há poucos dias, está com os seus parentes e não conheceu tempestades na grande viagem...
Ela pareceu reanimar-se, falando mais calma:
– Não imagina, porém, quanto tenho sofrido.
Oito meses de luta com a tuberculose, não obstante os tratamentos... 
A mágoa de haver transmitido a moléstia a minha carinhosa mãe...
Além disso, o que padeceu por minha causa o pobre noivo, é inenarrável...
– Ora, ora, não diga isso observou a senhora Laura a sorrir.
Na Terra temos sempre a ilusão de que não há dor maior que a nossa.
Pura cegueira: há milhões de criaturas afrontando situações verdadeiramente cruéis, comparadas às nossas experiências.
– Arnaldo, porém, vovó, ficou sem consolo, desesperado.
Tudo isso dá que pensar acentuou contrafeita.
 – E acreditas sinceramente nessa impressão?
– perguntou a matrona com inflexão de carinho.
Observei teu ex-noivo, diversas vezes, no curso da tua enfermidade.
Era natural que ele se comovesse tanto, vendo-te o corpo reduzido a frangalhos; mas não está preparado para compreender um sentimento puro.
Reconfortar-se-á muito depressa.
Amor iluminado não é para qualquer criatura humana.
Conserva, portanto, o teu otimismo.
Poderás auxiliá-lo, sem dúvida, muitas vezes, mas no que concerne à união conjugal, quando puderes excursionar às esferas do planeta, em nossa companhia, já o encontrarás casado com outra.
Admirado por minha vez, notei a surpresa dolorosa de Eloísa.
Não sabia a convalescente como portar-se ante a serenidade e o bom senso da avó.
– Será possível?
A genitora de Lísias esboçou um gesto extremamente carinhoso e falou:
– Não sejas teimosa, nem tentes desmentir-me.
Vendo que a enferma parecia tomar a atitude íntima de quem deseja provas, a senhora Laura insistiu, muito meiga:
– Não te recordas da Maria da Luz, a colega que te levava flores todos os domingos?
Pois nota: quando o médico anunciou, em caráter confidencial, a impossibilidade de restabelecer-te o corpo físico, Arnaldo, embora muito magoado, começou a envolvê-la em vibrações mentais diferentes.
Agora que aqui estás, não demorarão muito as resoluções novas.
 – Ah! Que horror, vovó!
– Horror, por quê?
É preciso te habituares a considerar as necessidades alheias.
Teu noivo é homem comum, não está alertado para as belezas sublimes do amor espiritual. Não podes operar milagres nele, por muito que o ames.
A descoberta de si mesmo é apanágio de cada um.
Arnaldo conhecerá mais tarde a beleza do teu idealismo; mas, por agora, é preciso entregá-lo às experiências de que necessita.
– Não me conformo! – clamou a jovem, chorando – Justamente Maria da Luz, a amiga que sempre julguei fidelíssima.
A senhora Laura, todavia, sorriu e falou, cautelosa:
– Não será, porém, mais agradável confiá-lo aos cuidados de uma criatura irmã?
 Maria da Luz será sempre tua amiga espiritual, ao passo que outra mulher talvez te dificultasse, mais tarde, o acesso ao coração dele.
Eu estava eminentemente surpreendido.
Eloísa prorrompera em soluços.
A bondosa senhora percebeu-me a intranquilidade e, no propósito talvez de orientar tanto a neta quanto a mim, esclareceu sensatamente:
– Sei a causa do teu pranto, filhinha: nasce da terra inculta do nosso milenário egoísmo, da nossa renitente vaidade humana.
Entretanto, a vovó não te fala para ferir, mas para acordar.
Enquanto Eloísa chorava, a mãe de Lísias convidou-me novamente à sala de estar, considerando que a doente necessitava de repouso.
Ao sentarmo-nos, falou em tom confidencial:
– Minha neta chegou profundamente fatigada.
Prendeu o coração, demasiadamente, nas teias do amor-próprio.
A rigor, o lugar dela seria em qualquer dos nossos hospitais; entretanto, o Assistente Couceiro julgou melhor situá-la junto ao nosso carinho.
Isso, aliás, é muito do meu agrado, porque minha querida Teresa, sua mãe, está a chegar.
Um pouco de paciência e atingiremos a solução justa.
Questão de tempo e serenidade.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Fevereiro de 2019, 20:09
NOSSO LAR
20 Noções de Lar

Desejando colher valores educativos que fluíam naturalmente da palestra da senhora Laura, perguntei, curioso:
– Desempenhando tantos deveres, a senhora ainda tem atribuições fora de casa?
– Sim; vivemos numa cidade de transição; no entanto, as finalidades da colônia residem no trabalho e no aprendizado.
As almas femininas, aqui, assumem numerosas obrigações, preparando-se para voltar ao planeta ou para ascender a esferas mais altas.
– Mas a organização doméstica, em “Nosso Lar”, é idêntica à da Terra?
A interlocutora esboçou uma fácies muito significativa e acrescentou:
– O lar terrestre é que, de há muito, se esforça por copiar nosso instituto doméstico; mas os cônjuges por lá, com raras exceções, estão ainda a moldar o terreno dos sentimentos, invadido pelas ervas amargosas da vaidade pessoal e povoado de monstros do ciúme e do egoísmo.
Quando regressei do planeta, pela última vez, trazia, como é natural, profundas ilusões.
Coincidiu, porém, que, na minha crise de orgulho ferido, fui levada a ouvir um grande instrutor, no Ministério do Esclarecimento.
Desde esse dia, nova corrente de ideias me penetrou o espírito.
– Não poderia dizer-me algo das lições recebidas? – indaguei com interesse.
– O orientador, muito versado em matemática – prosseguiu ela –, fez-nos sentir que o lar é como se fora um ângulo reto nas linhas do plano da evolução divina.
A reta vertical é o sentimento feminino, envolvido nas inspirações criadoras da vida.
A reta horizontal é o sentimento masculino, em marcha de realizações no campo do progresso comum.
O lar é o sagrado vértice onde o homem e a mulher se encontram para o entendimento indispensável.
É templo, onde as criaturas devem unir-se espiritual antes que corporalmente.
Há na Terra, agora, grande número de estudiosos das questões sociais, que aventam várias medidas e clamam pela regeneração da vida doméstica.
Alguns chegam a asseverar que a instituição da família humana está ameaçada.
Importa considerar, entretanto, que, a rigor, o lar é conquista sublime que os homens vão realizando vagarosamente.
Onde, nas esferas do globo, o verdadeiro instituto doméstico, baseado na harmonia justa, com os direitos e deveres legitimamente partilhados?
Na maioria, os casais terrestres passam as horas sagradas do dia vivendo a indiferença ou o egoísmo feroz.
Quando o marido permanece calmo, a mulher parece desesperada; quando a esposa se cala, humilde, o companheiro tiraniza.
Nem a consorte se decide a animar o esposo, na linha horizontal de seus trabalhos temporais, nem o marido se resolve a segui-la no voo divino de ternura e sentimento, rumo aos planos superiores da Criação.
Dissimulam em sociedade e, na vida íntima, um faz viagens mentais de longa distância, quando o outro comenta o serviço que lhe seja peculiar.
Se a mulher fala nos filhinhos, o marido excursiona através dos negócios; se o companheiro examina qualquer dificuldade do trabalho, que lhe diz respeito, a mente da esposa volta ao gabinete da modista.
É claro que, em tais circunstâncias, o ângulo divino não está devidamente traçado.
Duas linhas divergentes tentam, em vão, formar o vértice sublime, a fim de construírem um degrau na escada grandiosa da vida eterna.
Esses conceitos calavam-me fundo e, sumamente impressionado, observei:
– Senhora Laura, essas definições suscitam um mundo de pensamentos novos.
Ah! Se conhecêssemos tudo isso lá na Terra!...
 – Questão de experiência, meu amigo – replicou a nobre matrona –, o homem e a mulher aprenderão no sofrimento e na luta.
Por enquanto, raros conhecem que o lar é instituição essencialmente divina e que se deve viver, dentro de suas portas, com todo o coração e com toda a alma.
Enquanto as criaturas vulgares atravessam a florida região do noivado, procuram-se mobilizando os máximos recursos do espírito, e daí o dizer-se que todos os seres são belos quando estão verdadeiramente amando.
O assunto mais trivial assume singular encanto nas palestras mais fúteis.
O homem e a mulher comparecem aí, na integração de suas forças sublimes.
Mas logo que recebem a bênção nupcial, a maioria atravessa os véus do desejo e cai nos braços dos velhos monstros que tiranizam corações.
Não há concessões recíprocas.
Não há tolerância e, por vezes, nem mesmo fraternidade.
E apaga-se a beleza luminosa do amor, quando os cônjuges perdem a camaradagem e o gosto de conversar.
Daí em diante, os mais educados respeitam-se; os mais rudes mal se suportam.
Não se entendem.
Perguntas e respostas são formuladas em vocábulos breves.
Por mais que se unam os corpos, vivem as mentes separadas, operando em rumos opostos.
– Tudo isso é a pura verdade! – aduzi comovido. –
 Que fazer, porém, meu amigo? – replicou a bondosa senhora – Na fase atual evolutiva do planeta, existem na esfera carnal raríssimas uniões de almas gêmeas, reduzidos matrimônios de almas irmãs ou afins, e esmagadora porcentagem de ligações de resgate.
O maior número de casais humanos é constituído de verdadeiros forçados, sob algemas.
Procurando retomar o fio das considerações sugeridas por minha pergunta inicial, continuou a genitora de Lísias:
– As almas femininas não podem permanecer inativas aqui.
É preciso aprender a ser mãe, esposa, missionária, irmã.
A tarefa da mulher, no lar, não pode circunscrever-se a umas tantas lágrimas de piedade ociosa e a muitos anos de servidão.
É claro que o movimento coevo do feminismo desesperado constituí abominável ação contra as verdadeiras atribuições do espírito feminino.
A mulher não pode ir ao duelo com os homens, através de escritórios e gabinetes, onde se reserva atividade justa ao espírito masculino.
Nossa colônia, porém, ensina que existem nobres serviços de extensão do lar, para as mulheres.
A enfermagem, o ensino, a indústria do fio, a informação, os serviços de paciência, representam atividades assaz expressivas.
O homem deve aprender a carrear para o ambiente doméstico a riqueza de suas experiências, e a mulher precisa conduzir a doçura do lar para os labores ásperos do homem.
Dentro de casa, a inspiração; fora dela, a atividade.
Uma não viverá sem a outra.
Como sustentar-se o rio sem a fonte, e como espalhar-se a água da fonte sem o leito do rio?
Não pude deixar de sorrir, ouvindo a interrogação.
A mãe de Lísias, depois de longo intervalo, continuou:
– Quando o Ministério do Auxílio me confia crianças ao lar, minhas horas de serviço são contadas em dobro, o que lhe pode dar ideia da importância do serviço maternal no plano terreno.
Entretanto, quando isso não acontece, tenho meus deveres diuturnos nos trabalhos de enfermagem, com a semana de quarenta e oito horas de tarefa.
Todos trabalham em nossa casa.
A não ser minha neta convalescente, não temos qualquer pessoa da família em zonas de repouso.
Oito horas de atividade no interesse coletivo, diariamente, é programa fácil a todos.
Sentir-me-ia envergonhada se não o executasse também.
Interrompeu-se a interlocutora por alguns momentos, enquanto me perdia em vastas considerações...

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 18 de Fevereiro de 2019, 15:03
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21 Continuando a palestra

– A palestra, senhora Laura – exclamei com interesse –, sugere numerosas interrogações, relevar-me-á a curiosidade, o abuso...
– Não diga isso – retrucou, bondosa –, pergunte sempre.
Não estou em condições de ensinar; todavia, é sempre fácil informar.
Rimo-nos da observação e indaguei em seguida:
– Como se encara o problema da propriedade na colônia?
Esta casa, por exemplo, pertence-lhe?
Ela sorriu e esclareceu:
– Tal como se dá na Terra, a propriedade aqui é relativa.
Nossas aquisições são feitas à base de horas de trabalho.
O bônus-hora, no fundo, é o nosso dinheiro.
Quaisquer utilidades são adquiridas com esses cupons, obtidos por nós mesmos, a custa de esforço e dedicação.
As construções em geral representam patrimônio comum, sob controle da Governadoria; cada família espiritual, porém, pode conquistar um lar (nunca mais que um), apresentando trinta mil bônus-hora, o que se pode conseguir com algum tempo de serviço.
Nossa morada foi conquistada pelo trabalho perseverante de meu esposo, que veio para a esfera espiritual muito antes de mim.
Dezoito anos estivemos separados pelos laços físicos, mas sempre unidos pelos elos espirituais.
Ricardo, porém, não descansou.
Recolhido ao “Nosso Lar”, depois de certo período de extremas perturbações, compreendeu imediatamente a necessidade do esforço ativo, preparando-nos um ninho para o futuro. Quando cheguei, estreamos a habitação que ele organizara com esmero, acentuando-se nossa ventura.
Desde então, meu esposo ministrou-me conhecimentos novos.
Minhas lutas na viuvez haviam sido intensas.
Muito moça ainda, com os filhos tenros, tive de enfrentar serviços rudes.
A custa de testemunhos difíceis, proporcionei aos rebentos de nossa união os valores educativos, de que eu podia dispor, habituando-os, porém, muito cedo, aos trabalhos árduos.
Compreendi, depois, que a existência laboriosa me livrara das indecisões e angústias do Umbral, por colocar-me a coberto de muitas e perigosas tentações.
O suor do corpo ou a preocupação justa, nos campos de atividade honesta, constituem valiosos recursos para a elevação e defesa da alma.
Reencontrar Ricardo, tecer novo ninho de afetos, representava o céu para mim.
Durante anos consecutivos, vivemos a vida de perene ventura, trabalhando por nossa evolução, unindo-nos cada vez mais e cooperando no progresso efetivo dos que nos são afins.
Com o correr do tempo, Lísias, Iolanda e Judite reuniram-se a nós, aumentando nossa felicidade.
Após ligeiro intervalo, em que parecia meditar, minha interlocutora prosseguiu em tom grave: – Mas a esfera do globo nos esperava.
Se o presente estava cheio de alegria, o passado chamava a contas, para que o futuro se harmonizasse com a lei eterna.
Não podíamos pagar à Terra com bônus-hora e sim com o suor honrado, fruto de trabalhos.
Dada a nossa boa-vontade, aclarava-se-nos a visão, relativamente ao pretérito doloroso.
A lei do ritmo exigia, então, nossa volta.
Aquelas afirmativas causavam-me viva impressão.
Era a primeira vez que se feria tão fundo aos meus ouvidos, na colônia, o assunto referente a encarnações pregressas.
– Senhora Laura – exclamei, interrompendo-a –, permita, por obséquio, um aparte.
Perdoe a curiosidade; no entanto, até agora, ainda não pude conhecer mais detidamente o que se relaciona com o meu passado espiritual.
Não estou isento dos laços físicos?
Não atravessei o rio da morte?
A senhora recordou o passado, logo após sua vinda, ou esperou o concurso do tempo?
– Esperei-o – replicou, sorridente –; antes de tudo, é indispensável nos despojarmos das impressões físicas.
As escamas da inferioridade são muito fortes.
É preciso grande equilíbrio para podermos recordar, edificando.
Em geral, todos temos erros clamorosos, nos ciclos da vida eterna.
Quem lembra o crime cometido costuma considerar-se o mais desventurado do Universo; e quem recorda o crime de que foi vítima, considera-se em conta de infeliz, do mesmo modo.
Portanto, somente a alma muito segura de si recebe tais atributos como realização espontânea.
As demais são devidamente controladas no domínio das reminiscências e, se tentam burlar esse dispositivo da lei, não raro tendem ao desequilíbrio e à loucura.
– Mas a senhora recordou o passado de maneira natural? – perguntei.
– Explico-me – respondeu bondosamente –; quando se me aclarou a visão interior, as lembranças vagas me causavam perturbações de vulto.
Coincidiu que meu marido partilhava o mesmo estado d’alma.
Resolvemos ambos consultar o assistente Longobardo.
Esse amigo, depois de minucioso exame das nossas impressões, nos encaminhou aos magnetizadores do Ministério do Esclarecimento.
Recebidos com carinho, tivemos acesso em primeiro lugar à Seção do Arquivo, onde todos nós temos anotações particulares.
Aconselharam-nos os técnicos daquele Ministério a ler nossas próprias memórias, durante dois anos, sem prejuízo de nossa tarefa do Auxílio, abrangendo o período de três séculos.
O chefe do serviço de Recordações não nos permitiu a leitura de fases anteriores, declarando-nos incapazes de suportar as lembranças correspondentes a outras épocas.
– E bastou a leitura para que se sentisse na posse das reminiscências? – atalhei, curioso.
– Não.
A leitura apenas informa.
Depois de longo período de meditação para esclarecimento próprio, e como surpresas indescritíveis, fomos submetidos a determinadas operações psíquicas, a fim de penetrar os domínios emocionais das recordações.
Os Espíritos técnicos no assunto nos aplicaram passes no cérebro, despertando certas energias adormecidas...
Ricardo e eu ficamos, então, senhores de trezentos anos de memória integral.
Compreendemos, então, quão grande é ainda o nosso débito para com as organizações do planeta!...
– E onde está nosso irmão Ricardo? Como estimaria conhecê-lo!... – exclamei sob forte impressão.
A genitora de Lísias meneou significativamente a cabeça e murmurou:
– Em vista de nossas observações referentes ao passado, combinamos novo encontro nas esferas da crosta.
Temos trabalho, muito trabalho, na Terra.
Desse modo, Ricardo partiu há três anos.
Quanto a mim, seguirei dentro de breves dias.
Aguardo apenas a chegada de Teresa, para deixá-la junto aos nossos.
E de olhar vago, como se a mente estivesse muito longe, ao lado da filha ainda retida na Terra, a senhora Laura acentuou:
– A mãe de Eloísa não tardará.
A passagem dela através do Umbral será somente de algumas horas, em vista dos seus profundos sacrifícios, desde a infância.
Pelo muito que sofreu não precisará dos tratamentos da Regeneração.
Poderei, portanto, transmitir-lhe minhas obrigações no Auxílio e partir sossegada.
O Senhor não nos esquecerá.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier

Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Fevereiro de 2019, 11:20
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22 O Bônus-Hora

Notando que a senhora Laura entristecera subitamente ao recordar o marido, modifiquei o rumo da palestra, interrogando:
– Que me diz do bônus-hora? Trata-se de algum metal amoedado?
Minha interlocutora perdeu o aspecto cismativo, a que se recolhera, e replicou, atenciosa:
– Não é propriamente moeda, mas ficha de serviço individual, funcionando como valor aquisitivo.
– Aquisitivo? – perguntei abruptamente.
– Explico-me – respondeu a bondosa senhora –; em “Nosso Lar” a produção de vestuário e alimentação elementares pertence a todos em comum.
Há serviços centrais de distribuição na Governadoria e departamentos do mesmo trabalho nos Ministérios.
O celeiro fundamental é propriedade coletiva.
Ante meu gesto silencioso de espanto, acentuou:
– Todos cooperam no engrandecimento do patrimônio comum e dele vivem.
Os que trabalham, porém, adquirem direitos justos.
Cada habitante de “Nosso Lar” recebe provisões de pão e roupa, no que se refere ao estritamente necessário; mas os que se esforçam na obtenção do bônus-hora conseguem certas prerrogativas na comunidade social.
O Espírito que ainda não trabalha, poderá ser abrigado aqui; no entanto, os que cooperem podem ter casa própria.
O ocioso vestirá, sem dúvida; mas o operário dedicado vestirá o que melhor lhe pareça; compreendeu?
Os inativos podem permanecer nos campos de repouso, ou nos parques de tratamento, favorecidos pela intercessão de amigos; entretanto, as almas operosas conquistam o bônus-hora e podem gozar a companhia de irmãos queridos, nos lugares consagrados ao entretenimento, ou o contato de orientadores sábios, nas diversas escolas dos Ministérios em geral.
Precisamos conhecer o preço de cada nota de melhoria e elevação.
Cada um de nós, os que trabalhamos, deve dar, no mínimo, oito horas de serviço útil, nas vinte e quatro de que o dia se constitui.
Os programas de trabalho, porém, são numerosos e a Governadoria permite quatro horas de esforço extraordinário, aos que desejem colaborar no trabalho comum, de boa-vontade.
Desse modo, há muita gente que consegue setenta e dois bônus-hora, por semana, sem falar dos serviços sacrificiais, cuja remuneração é duplicada e, às vezes, triplicada.
– Mas, é esse o único título de remuneração? – perguntei.
– Sim, é o padrão de pagamento a todos os colaboradores da colônia, não só na administração, como também na obediência.
Lembrando as organizações terrestres, indaguei, espantado:
– Todavia, como conciliar semelhante padrão com a natureza do serviço?
O administrador ganhará oito bônus-hora na atividade normal do dia, e o operário do transporte receberá a mesma coisa?
Não é o trabalho do primeiro mais elevado que o do segundo?
A senhora sorriu à pergunta e explicou:
– Tudo é relativo.
Se, na orientação ou na subalternidade, o trabalho é de sacrifício pessoal, a expressão remunerativa é justamente multiplicada.
Examinando, porém, mais detidamente a sua pergunta, precisamos, antes de mais nada, esquecer determinados prejuízos da Terra.
A natureza do serviço é problema dos mais importantes; contudo, na própria esfera da crosta é que o assunto apresenta solução mais difícil.
A maioria dos homens encarnados está simplesmente ensaiando o espírito de serviço e aprendendo a trabalhar nos diversos setores da vida humana.
Por isso mesmo, é imprescindível fixar as remunerações terrestres com maior atenção.
Todo o ganho externo do mundo é lucro transitório.
Vemos trabalhadores obcecados pela questão de ganhar, transmitindo fortunas vultosas à inconsciência e à dissipação; outros amontoam expressões bancárias que lhes servem de martírio pessoal e de ruína à família.
Por outro lado, é indispensável considerar que setenta por cento dos administradores terrenos não pesam os deveres morais que lhes competem e que a mesma porcentagem pode ser adjudicada a quantos foram chamados à subordinação.
Vivem, quase todos, a confessar ausência do impulso vocacional, recebendo embora os proventos comuns aos cargos que ocupam.
Governos e empresas pagam a médicos que se entregam à exploração de interesses outros e a operários que matam o tempo.
Onde, aí, a natureza de serviço?
Há técnicos de indústria econômica que nunca prezaram integralmente a obrigação que lhes assiste e valem-se de leis magnânimas, à maneira de moscas venenosas no pão sagrado, exigindo abonos, facilidades e aposentadorias.
Creia, porém, que todos pagarão muito caro a displicência.
Parece ainda distante o tempo em que os institutos sociais poderão determinar a qualidade de serviço dos homens, porque, para o plano espiritual superior, não se especificará teor de trabalho, sem a consideração dos valores morais despendidos.
Essas palavras despertavam-me para concepções novas.
Percebendo-me a sede de instrução, a interlocutora continuou:
– O verdadeiro ganho da criatura é de natureza espiritual e o bônus-hora, em nossa organização, modifica-se em valor substancial, segundo a natureza dos nossos serviços.
No Ministério da Regeneração, temos o Bônus-hora-Regeneração; no Ministério do Esclarecimento, o Bônus-hora-Esclarecimento, e assim por diante.
Ora, examinando o provento espiritual, é razoável que a documentação de trabalho revele a essência do serviço.
As aquisições fundamentais constituem-se de experiência, educação, enriquecimento de bênçãos divinas, extensão de possibilidades.
Nesse prisma, os fatores assiduidade e dedicação representam, aqui, quase tudo.
Em geral, em nossa cidade de transição, a maioria prepara-se com vistas à necessidade de regresso aos círculos carnais.
Examinando esse princípio, é natural que o homem que empregou cinco mil horas, em serviços regeneradores, tenha efetuado esforço sublime, a benefício de si mesmo; o que despendeu seis mil horas de atividade, no Ministério do Esclarecimento, estará mais sábio.
Poderemos gastar os bônus-hora conquistados; entretanto, é mais valioso ainda o registro individual da contagem de tempo de serviço útil, que nos confere direito a preciosos títulos.
Semelhantes instruções interessavam-me profundamente.
– Poderemos, porém, gastar nossos bônus-hora a favor dos amigos?
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Fevereiro de 2019, 11:21
– indaguei curioso.
– Perfeitamente – disse ela –; poderemos repartir as bênçãos de nosso esforço com quem nos aprouver.
Isto é direito inalienável do trabalhador fiel.
Contam-se por milhares as pessoas favorecidas em “Nosso Lar”, pela movimentação da amizade e do estímulo fraternal.
A essa altura, a genitora de Lísias sorriu e observou:
– Quanto maior a contagem do nosso tempo de trabalho, maiores intercessões podemos fazer.
Compreendemos, aqui, que nada existe sem preço e que para receber é indispensável dar alguma coisa.
Pedir, portanto, é ocorrência muito significativa na existência de cada um.
Somente poderão rogar providências e dispensar obséquio os portadores de títulos adequados, entendeu?
– E o problema da herança? – inquiri de repente.
– Não temos aqui demasiadas complicações – respondeu a senhora Laura, sorrindo.
– Vejamos, por exemplo, o meu caso.
Aproxima-se o tempo do meu regresso aos planos da crosta.
Tenho comigo três mil Bônus-hora-Auxílio, no meu quadro de economia pessoal.
Não posso legá-los a minha filha que está a chegar, por que esses valores serão revertidos ao patrimônio comum, permanecendo minha família apenas com o direito de herança ao lar; no entanto, minha ficha de serviço autoriza-me a interceder por ela e preparar-lhe aqui trabalho e concurso amigo, assegurando-me, igualmente, o valioso auxílio das organizações de nossa colônia espiritual, durante minha permanência nos círculos carnais.
Nesse cômputo, deixo de referir-me ao lucro maravilhoso que adquiri no capítulo da experiência, nos anos de cooperação no Ministério do Auxílio.
Volto à Terra, investida de valores mais altos e demonstrando qualidades mais nobres de preparação ao êxito desejado.
Ia prorromper em exclamações admirativas, referentes ao processo simples de ganhar, aproveitar, cooperar e servir, confrontando aquelas soluções com os princípios imperantes no planeta, mas um brando burburinho aproximou-se da casa.
Antes que pudesse emitir qualquer observação, a senhora Laura murmurou, satisfeita:
– Nossos queridos estão de volta.
E levantou-se para atender.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 02 de Março de 2019, 18:59
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23 Saber Ouvir

Intimamente, lamentei a interrupção da palestra.
Os esclarecimentos da senhora Laura fortaleciam-me o coração.
Lísias entrou em casa visivelmente satisfeito.
– Olá! Ainda não se recolheu? – perguntou, sorridente.
E, enquanto os jovens se despediam, convidava-me, solícito:
– Venha ao jardim, pois ainda não viu o luar destes sítios.
A dona da casa entrava em conversação com as filhas, enquanto acompanhando Lísias fui aos canteiros em flor.
O espetáculo apresentava-se soberbo!
Habituado à reclusão hospitalar, entre grandes árvores, ainda não conhecia o quadro maravilhoso que a noite clara apresentava, ali, nos vastos quarteirões do Ministério do Auxílio.
Glicínias de prodigiosa beleza enfeitavam a paisagem.
Lírios de neve, matizados de ligeiro azul ao fundo do cálice, pareciam taças, de caricioso aroma.
Respirei a longos haustos, sentindo que ondas de energia nova me penetravam o ser.
Ao longe, as torres da Governadoria mostravam belos efeitos de luz.
Deslumbrado, não conseguia emitir impressões.
Esforçando-me para exteriorizar a admiração que me invadia a alma, falei comovidamente:
 – Nunca presenciei tamanha paz! Que noite!...
O companheiro sorriu e acentuou:
– Há compromisso entre todos os habitantes equilibrados da colônia, no sentido de não se emitirem pensamentos contrários ao bem.
Dessa arte, o esforço da maioria se transforma numa prece quase perene.
Dai nascerem as vibrações de paz que observamos.
Após enlevar-me na contemplação do quadro prodigioso, como se estivesse bebendo a luz e a calma da noite, voltamos ao interior, onde Lísias se aproximou de pequeno aparelho postado na sala, à maneira de nossos receptores radiofônicos.
Aguçou-se-me a curiosidade.
Que iríamos ouvir? Mensagens da Terra?
Vindo ao encontro de minhas interrogações íntimas, o amigo esclareceu:
– Não ouviremos vozes do planeta.
Nossas transmissões baseiam-se em forças vibratórias mais sutis que as da esfera da crosta.
– Mas não há recurso – indaguei – para recolher as emissões terrestres?
– Sem dúvida que temos elementos para fazê-lo, em todos os Ministérios; entretanto, no ambiente doméstico o problema de nossa atualidade é essencial.
A programação do serviço necessário, as notas da Espiritualidade Superior e os ensinamentos elevados vivem, agora, para nós outros, muito acima de qualquer cogitação terrestre.
A observação era justa; mas, habituado ao apego doméstico, inquiri, de pronto:
– Será tanto assim?
E  os parentes que ficaram a distância? Nossos pais, nossos filhos?
– Já esperava essa pergunta:
Nos círculos terrestres somos levados, muitas vezes, a viciar as situações.
A hipertrofia do sentimento é mal comum de quase todos nós.
Somos, por lá, velhos prisioneiros da condição exclusivista.
Em família, isolamo-nos frequentemente no cadinho do sangue e esquecemos o resto das obrigações.
Vivemos distraídos dos verdadeiros princípios de fraternidade.
Ensinamo-los a todo mundo, mas, em geral, chegado o momento do testemunho, somos solidários apenas com os nossos.
Aqui, porém, meu amigo, a medalha da vida apresenta a outra face.
É preciso curar nossas velhas enfermidades e sanar injustiças.
No início da colônia, todas as moradias, ao que sabemos, ligavam-se com os núcleos de evolução terrestre.
Ninguém suportava a ausência de notícias da parentela comum.
Do Ministério da Regeneração ao da Elevação, vivia-se em constante guerra nervosa.
Boatos assustadores perturbavam as atividades em geral.
Mas, precisamente há dois séculos, um dos generosos Ministros da União Divina compelia a Governadoria a melhorar a situação.
O ex-governador era talvez demasiadamente tolerante.
A bondade desviada provoca indisciplinas e quedas.
E, de quando em quando, as notícias dos afeiçoados terrestres punham muitas famílias em polvorosa.
Os desastres coletivos no mundo, quando interessassem algumas entidades em “Nosso Lar”, eram aqui verdadeiras calamidades públicas.
Segundo nosso arquivo, a cidade era mais um departamento do Umbral, que propriamente zona de refazimento e instrução.
Amparado pela União Divina, o Governador proibiu o intercâmbio generalizado.
Houve luta.
Mas o Ministro generoso, que incrementou a medida, valeu-se do ensinamento de Jesus que manda os mortos enterrarem seus mortos e a inovação se tornou vitoriosa em pouco tempo.
– Entretanto – objetei –, seria interessante colher notícias dos nossos amados em trânsito na Terra.
Não daria isso mais tranquilidade à alma?
Lísias, que permanecia junto ao receptor, sem ligá-lo, como interessado em me fornecer explicações mais amplas, acrescentou:
– Observe a si mesmo, a fim de ver se valeria a pena.
Está preparado, por exemplo, para manter a precisa serenidade, esperando com fé e agindo com os preceitos divinos, em sabendo que um filho de seu coração está caluniado ou caluniando?
Se alguém o informasse, agora, de que um dos seus irmãos consanguíneos foi hoje encarcerado como criminoso, teria bastante força para conservar-se tranquilo?
Sorri, desapontado.
– Não devemos procurar notícias dos planos inferiores – prosseguiu, solícito – senão para levar auxílios justos.
Convenhamos, porém, que a criatura alguma auxiliará com justiça, experimentando desequilíbrios do sentimento e do raciocínio.
Por isso, é indispensável a preparação conveniente, antes de novos contatos com os parentes terrenos.
Se eles oferecessem campo adequado ao amor espiritual, o intercâmbio seria desejável; mas esmagadora porcentagem de encarnados não alcançou, ainda, nem mesmo o domínio próprio e vive às tontas, nos altos e baixos das flutuações de ordem material.
Precisamos, embora as dificuldades sentimentais, evitar a queda nos círculos vibratórios inferiores.
Contudo, evidenciando minha teimosia caprichosa, indaguei:
– Mas, Lísias, você que tem um amigo encarnado, qual seu pai, não gostaria de comunicar-se com ele?
– Sem dúvida – respondeu bondosamente –, quando merecemos essa alegria, visitamo-lo em sua nova forma, verificando-se o mesmo, quando se trata de qualquer expressão de intercâmbio entre ele e nós.
Não devemos esquecer, entretanto, que somos criaturas falíveis.
Necessitamos, pois, recorrer aos órgãos competentes, que determinem a oportunidade ou o merecimento exigidos.
Para esse fim, temos o Ministério da Comunicação.
Acresce notar que, da esfera superior, é possível descer à inferior com mais facilidade.
Existem, contudo, certas leis que mandam compreender devidamente os que se encontram nas zonas mais baixas.
É tão importante saber falar como saber ouvir.
“Nosso Lar” vivia em perturbações porque, não sabendo ouvir, não podia auxiliar com êxito e a colônia transformava-se, frequentemente, em campo de confusão.
Calei-me vencido pelo argumento ponderoso.
E, enquanto me conservava em silêncio, o enfermeiro amigo abriu o controle de recepção sob meus olhos curiosos.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Março de 2019, 10:50
NOSSO LAR
24 O Impressionante Apelo

Ligado o receptor, suave melodia derramou-se no ambiente, embalando-nos em harmoniosa sonoridade, vendo-se no espelho da televisão a figura do locutor, no gabinete de trabalho.
Daí a instantes, começou ele a falar:
– Emissora do Posto Dois, de “Moradia”.
Continuamos a irradiar o apelo da colônia, em benefício da paz na Terra.
Concitamos os colaboradores de bom ânimo a congregar energias no serviço de preservação do equilíbrio moral nas esferas do globo.
Ajudai-nos, quantos puderem ceder algumas horas de cooperação nas zonas de trabalho que ligam as forças obscuras do Umbral à mente humana.
Negras falanges da ignorância, depois de espalharem os fachos incendiários da guerra na Ásia, cercam as nações europeias, impulsionando-as a novos crimes.
Nosso núcleo, junto aos demais que se consagram ao trabalho de higiene espiritual, nos círculos mais próximos da crosta, denuncia esses movimentos dos poderes concentrados do mal, pedindo concurso fraterno e auxílio possível.
Lembrai-vos de que a paz necessita de trabalhadores de defesa!
Colaborai conosco na medida de vossas forças!...
Há serviço para todos, desde os campos da crosta às nossas portas! ...
Que o Senhor nos abençoe.
Interrompeu-se a voz, ouvindo-se divina música, novamente.
A inflexão do estranho convite abalara-me as fibras mais íntimas.
Veio Lísias em meu socorro, explicando:
– Estamos ouvindo “Moradia”, velha colônia de serviços muito ligada às zonas inferiores.
Como sabe, estamos em agosto de 1939.
Seus últimos sofrimentos pessoais não lhe deram tempo para ponderar sobre a angustiosa situação do mundo, mas posso afiançar que as nações do planeta se encontram na iminência de tremendas batalhas.
– Que diz? – indaguei, aterrado – pois não bastou o sangue da última grande guerra?
Lísias sorriu, fixando em mim os olhos brilhantes e profundos, como a lastimar em silêncio a gravidade da hora humana.
Pela primeira vez o enfermeiro amigo não me respondeu.
Seu mutismo constrangera-me.
Assombrava-me, sobretudo, a imensidade dos serviços espirituais nos planos de vida nova a que me recolhera.
Pois havia cidades de espíritos generosos, suplicando socorro e cooperação?
Apresentara-se a voz do locutor com entonação de verdadeiro S.O.S..
Vira-lhe a fisionomia abatida, no espelho da televisão.
Demonstrava ansiedade profunda nos olhos inquietos.
E a linguagem?
Ouvira-lhe nitidamente o idioma português, claro e correto.
Julgava que todas as colônias espirituais se intercomunicassem pelas vibrações do pensamento.
Havia, ainda ali, tão grande dificuldade no capítulo do intercâmbio?
Identificando-me as perplexidades, Lísias esclareceu:
– Estamos ainda muito longe das regiões ideais da mente pura.
Tal como na Terra, os que se afinam perfeitamente entre si podem permutar pensamentos, sem as barreiras idiomáticas; mas, de modo geral, não podemos prescindir da forma, no lato sentido da expressão.
Nosso campo de lutas é imensurável.
A humanidade terrestre, constituída de milhões de seres, une-se à humanidade invisível do planeta, que integra muitos bilhões de criaturas.
Não seria, portanto, possível atingir as zonas aperfeiçoadas, logo após a morte do corpo físico.
Os patrimônios nacionais e linguísticos remanescem ainda aqui, condicionados à fronteiras psíquicas.
Nos mais diversos setores de nossa atividade espiritual existe elevado número de Espíritos libertos de todas as limitações, mas insta considerar que a regra é sofrer-se dessas restrições. Nada enganará o princípio de sequência, imperante nas leis evolutivas.
Nesse ínterim, interrompia-se a música, voltando o locutor:
– Emissora do Posto Dois, de “Moradia”. Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra.
Nevoeiros pesados amontoam-se ao longo dos céus da Europa.
Forças tenebrosas do Umbral penetram em todas as direções, respondendo ao apelo das tendências mesquinhas do homem.
Há muitos benfeitores devotados, lutando com sacrifícios em favor da concórdia internacional, nos gabinetes políticos.
Alguns governos, no entanto, se encontram excessivamente centralizados, oferecendo escassas possibilidades à colaboração de natureza espiritual.
Sem órgãos de ponderação e conselho desapaixonado, caminham esses países para uma guerra de grandes proporções.
Oh! Irmãos muito amados, dos núcleos superiores, auxiliemos a preservação da tranquilidade humana!...
Defendamos os séculos de experiência de numerosas pátrias-mães da Civilização Ocidental!... Que o Senhor nos abençoe.
Calou-se o locutor e voltaram as cariciosas melodias.
O enfermeiro permaneceu em silêncio, que não ousei interromper.
Após cinco minutos de harmonia repousante, a mesma voz se fez novamente ouvir:
– Emissora do Posto Dois, de “Moradia”.
Continuamos a irradiar o apelo da colônia em benefício da paz na Terra.
Companheiros e irmãos, invoquemos o amparo das poderosas Fraternidades da Luz, que presidem aos destinos da América!
Cooperai conosco na salvação de milenários patrimônios da evolução terrestre!
Marchemos em socorro das coletividades indefesas, amparemos os corações maternais sufocados de angústia!
Nossas energias estão empenhadas em vigoroso duelo com as legiões da ignorância.
Quanto estiver ao vosso alcance, vinde em nosso auxílio!
Somos a parte invisível da humanidade terrestre, e muitos de nós volveremos aos fluidos carnais para resgatar prístinos erros.
A humanidade encarnada é igualmente nossa família.
Unamo-nos numa só vibração.
Contra o assédio das trevas, acendamos a luz; contra a guerra do mal, movimentemos a resistência do bem.
Rios de sangue e lágrimas ameaçam os campos das comunidades europeias.
Proclamemos a necessidade do trabalho construtivo, dilatemos nossa fé...
Que o Senhor nos abençoe.
A essa altura, desligou Lísias o aparelho e vi-o enxugar discretamente uma lágrima, que seus olhos não conseguiam conter.
Num gesto expressivo, falou, comovido:
– Grandes abnegados, os irmãos de “Moradia”!
Tudo inútil, porém – acentuou, triste, depois de ligeira pausa –, a humanidade terrestre pagará, em dias próximos, terríveis tributos de sofrimento.
– Não há, todavia, recurso para conjurar a tremenda catástrofe? – perguntei, sensibilizado.
– Infelizmente acrescentou Lísias em tom grave e doloroso – a situação geral é muito crítica.
Para atender às solicitações de “Moradia” e de outros núcleos que funcionam nas vizinhanças do Umbral, reunimos aqui numerosas assembleias, mas o Ministério da União Divina esclareceu que a humanidade carnal, como personalidade coletiva, está nas condições do homem insaciável que devorou excesso de substâncias no banquete comum.
A crise orgânica é inevitável.
Nutriram-se várias nações de orgulho criminoso, vaidade e egoísmo feroz.
Experimentam, agora, a necessidade de expelir os venenos letais.
Demonstrando, entretanto, o propósito de não prosseguir no amarguroso assunto, Lísias convidou-me a recolher.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 17 de Março de 2019, 10:08
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25 Generoso Alvitre

No dia imediato, muito cedo, fiz leve refeição em companhia de Lísias e familiares.
Antes que os filhos se despedissem, rumo ao trabalho do Auxílio, a senhora Laura encorajou-me o espírito hesitante, dizendo, bem-humorada:
– Já lhe arranjei companhia para hoje.
Nosso amigo Rafael, funcionário da Regeneração, passará por aqui, a meu pedido.
Poderá aceitar-lhe a companhia em direção ao novo Ministério.
Rafael é antiga relação de nossa família e apresentá-lo-á, em meu nome, ao Ministro Genésio. Não poderia explicar o contentamento que me dominou a alma.
Estava radiante.
Agradeci, comovido, sem encontrar palavras que definissem meu júbilo.
Lísias, por sua vez, demonstrou grande alegria.
Abraçou-me efusivamente antes de sair, sensibilizando-me o coração.
Ao beijar o filho, a senhora Laura recomendou:
– Você, Lísias, avise ao Ministro Clarêncio que comparecerei ao expediente, logo que entregue nosso amigo aos cuidados de Rafael.
Comovidíssimo, eu não conseguia agradecer tamanha dedicação.
Ficando a sós, a desvelada genitora do meu amigo dirigiu-me a palavra carinhosa:
– Meu irmão, permita-me algumas indicações para os seus novos caminhos.
Creio que a colaboração maternal sempre vale alguma coisa e, já que sua mãezinha não reside em “Nosso Lar”, reivindico a satisfação de orientá-lo neste momento.
– Gratíssimo – respondi, sensibilizado –; nunca saberei traduzir meu reconhecimento à sua atenção.
Sorriu a bondosa senhora, acrescentando:
– Estou informada de que pediu trabalho há algum tempo...
– Sim, sim... – esclareci, relembrando as elucidações de Clarêncio.
– Sei, igualmente, que não o obteve de pronto, recebendo, mais tarde, a necessária autorização para visitar os Ministérios que nos ligam mais fortemente à Terra.
Esboçando significativa expressão fisionômica, a boa senhora acrescentou:
– É justamente neste sentido que lhe ofereço minhas sugestões humildes.
Falo com o direito de experiência maior.
Detendo, agora, essa autorização, abandone, quanto lhe seja possível, os propósitos de mera curiosidade.
Não deseje personificar a mariposa, de lâmpada em lâmpada.
Sei que seu espírito de pesquisa intelectual é muito forte.
Médico estudioso, apaixonado de novidades e enigmas, ser-lhe-á muito fácil deslizar na posição nova.
Não esqueça que poderá obter valores mais preciosos e dignos que a simples análise das coisas.
A curiosidade, mesmo sadia, pode ser zona mental muito interessante, mas perigosa, por vezes.
Dentro dela, o espírito desassombrado e leal consegue movimentar-se em atividades nobilitantes; mas os indecisos e inexperientes podem conhecer dores amargas, sem proveito para ninguém.
Clarêncio ofereceu-lhe ingresso nos Ministérios, começando pela Regeneração.
Pois bem: não se limite a observar.
Ao invés de albergar a curiosidade, medite no trabalho e atire-se a ele na primeira ocasião que se ofereça.
Surgindo ensejo nas tarefas da Regeneração, não se preocupe em alcançar o espetáculo dos serviços nos demais Ministérios.
Aprenda a construir o seu círculo de simpatias e não olvide que o espírito de investigação deve manifestar-se após o espírito de serviço.
Pesquisar atividades alheias, sem testemunhos no bem, pode ser criminoso atrevimento.
Muitos fracassos, nas edificações do mundo, originam-se de semelhante anomalia.
Todos querem observar, raros se dispõem a realizar.
Somente o trabalho digno confere ao Espírito o merecimento indispensável a quaisquer direitos novos.
O Ministério da Regeneração está repleto de lutas pesadas, localizando-se ali a região mais baixa de nossa colônia espiritual.
Saem de lá todas as turmas destinadas aos serviços mais árduos.
Não se considere, porém, humilhado por atender às tarefas humildes.
Lembro-lhe que em todas as nossas esferas, desde o planeta até os núcleos mais elevados das zonas superiores, em nos referindo à Terra, o Maior Trabalhador é o próprio Cristo e que Ele não desdenhou o serrote pesado de uma carpintaria.
O Ministro Clarêncio autorizou-o, gentilmente, a conhecer, visitar e analisar; mas pode, como servidor de bom senso, converter observações em tarefa útil.
É possível receber alguém dos que administram, quando peça determinado gênero de atividade reservada, com justiça, aos que muito hão lutado e sofrido no capítulo da especialização; mas ninguém se recusará a aceitar o concurso do espírito de boa-vontade, que ama o trabalho pelo prazer de servir.
Meus olhos estavam úmidos.
Aquelas palavras, pronunciadas com meiguice maternal, caíam-me no coração como bálsamo precioso.
Poucas vezes sentira na vida tanto interesse fraternal pela minha sorte.
Semelhante conselho calava-me no fundo d’alma e, como se desejasse temperar com amor os criteriosos conceitos, a senhora Laura acrescentou com inflexão carinhosa:
– A ciência de recomeçar é das mais nobres que nosso espírito pode aprender.
São muito raros os que a compreendem nas esferas da crosta.
Temos escassos exemplos humanos, nesse sentido.
Lembremos, contudo, o de Paulo de Tarso, Doutor do Sinédrio, esperança de uma raça, pela cultura e pela mocidade, alvo de geral atenção em Jerusalém, que voltou, um dia, ao deserto para recomeçar a experiência humana, como tecelão rústico e pobre.
Não pude mais.
Tomei-lhe as mãos, como filho agradecido, e cobrias do pranto jubiloso que me inundava o coração.
A genitora de Lísias, agora de olhos fixos no horizonte, murmurou:
– Muito grata, meu irmão.
Creio que você não veio a esta casa atendendo ao mecanismo da casualidade.
Estamos todos entrelaçados em teia de amizade secular.
Brevemente voltarei ao círculo da carne; entretanto, continuaremos sempre unidos pelo coração.
Espero vê-lo animado e feliz, antes de minha partida.
Faça desta casa a sua habitação.
Trabalhe e anime-se, confiando em Deus.
Levantei os olhos rasos d’água, fixei-lhe a expressão carinhosa, experimentei a felicidade que nasce dos afetos puros e tive impressão de conhecer minha interlocutora, de velhos tempos, embora tentasse, debalde, identificar-lhe o carinho nas reminiscências mais distantes.
Quis beijá-la muitas vezes, com o enternecimento filial do coração, mas, nesse instante, alguém bateu à porta.
Fitou-me a senhora Laura, mostrando indefinível ternura maternal e falou:
– É Rafael que vem buscá-lo.
Vá, meu amigo, pensando em Jesus.
Trabalhe para o bem dos outros, para que possa encontrar seu próprio bem.

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Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Março de 2019, 13:27
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26 Novas Perspectivas

Ponderando as sugestões carinhosas e sábias da mãe de Lísias, acompanhei Rafael, convicto de que iria, não às visitas de observações, mas ao aprendizado e serviço útil.
Anotava, surpreso, os magníficos aspectos da nova região, rumo ao local onde me aguardava o Ministro Genésio; contudo, seguia Rafael, em silêncio, estranho agora ao prazer das muitas indagações.
Em compensação, experimentava novo gênero de atividade mental.
Dava-me todo à oração, pedindo a Jesus me auxiliasse nos caminhos novos, a fim de que me não faltasse trabalho e forças para realizá-lo.
Antigamente avesso às manifestações da prece, agora a utilizava como valioso ponto de referência sentimental aos propósitos de serviço.
O próprio Rafael, de quando em vez, lançava-me curioso olhar, como se não devesse esperar tal atitude de minha parte.
Deixou-nos o aeróbus à frente de espaçoso edifício.
Descemos, calados.
Em poucos minutos, achava-me diante do respeitável Genésio, um velhinho simpático, cujo semblante revelava, entretanto, singular energia.
Rafael apresentou-me fraternalmente:
 – Ah! Sim disse o generoso Ministro –, é o nosso irmão André?
– Para servi-lo – respondi.
– Tenho notificação de Laura, referente à sua vinda.
Fique à vontade.
Nesse ínterim, o companheiro aproximou-se respeitosamente e despediu-se, abraçando-me em seguida.
Rafael era esperado com urgência no setor de tarefas a seu cargo.
Fixando em mim os olhos muito lúcidos, Genésio começou a dizer:
– Clarêncio falou-me a seu respeito, com interesse.
Quase sempre recebemos pessoal do Ministério do Auxílio, em visita de observações que, na sua maior parte, redundam em estágios de serviço.
Compreendi a sutil alusão e obtemperei:
– Este o meu maior desejo.
Tenho mesmo suplicado às Forças Divinas que me ajudem o espírito frágil, permitindo seja convertida a minha permanência, neste Ministério, em estação de aprendizado.
Genésio parecia comovido com as minhas palavras e, valendo-me das inspirações que me inclinavam à humildade, roguei, de olhos úmidos:
– Senhor Ministro, compreendo agora que minha passagem pelo Ministério do Auxílio se verificou por efeito da graça misericordiosa do Altíssimo, talvez devido a constante intercessão de minha devotada e santa mãe.
Noto, porém, que somente venho recebendo benefícios, sem nada produzir de útil.
Certo, meu lugar é aqui, nas atividades regeneradoras.
Se possível, faça, por obséquio, seja transformada a concessão de visitar em possibilidade de servir.
Compreendo hoje, mais que nunca, a necessidade de regenerar meus próprios valores.
Perdi muito tempo na vaidade inútil, fiz enormes gastos de energia na ridícula adoração de mim mesmo!...
Satisfeito, notava ele, no fundo de meu coração, a sinceridade viva.
Quando eu recorrera ao Ministro Clarêncio, não estava ainda bastante consciente do que pedia.
Queria serviço, mas talvez não desejasse servir.
Não entendia o valor do tempo, nem enxergava as bênçãos santificantes da oportunidade.
No fundo, era o desejo de continuar a ser o que tinha sido até então – o médico orgulhoso e respeitado, cego nas pretensões descabidas do egotismo em que vivia, encarcerado nas opiniões próprias.
No entanto, agora, diante do que vira e ouvira, compreendendo a responsabilidade de cada filho de Deus na obra infinita da Criação, punha nos lábios quanto possuía de melhor.
Era sincero, enfim.
Não me preocupava o gênero de tarefa, procurava o conteúdo sublime do espírito de serviço.
O velhinho fitou-me, surpreendido, e perguntou:
– É mesmo você o ex-médico?
– Sim... – murmurei, acanhado.
Genésio calou por momentos, como buscando resolução para o caso, dizendo, então:
– Louvo seus propósitos e peço igualmente ao Senhor o conserve nessa posição digna.
E, como que preocupado em levantar-me o ânimo e acender-me no espírito novas esperanças, acentuou:
– Quando o discípulo está preparado, o Pai envia o instrutor.
O mesmo se dá, relativamente ao trabalho.
Quando o servidor está pronto, o serviço aparece.
O meu amigo tem recebido enormes recursos da Providência.
Está bem disposto à colaboração, compreende a responsabilidade, aceita o dever.
Tal atitude é sumamente favorável à concretização dos seus desejos.
Nos círculos carnais, costumamos felicitar um homem quando ele atinge prosperidade financeira ou excelente figuração externa; entretanto, aqui a situação é diferente.
Estima-se a compreensão, o esforço próprio, a humildade sincera.
Identificando-me a ansiedade, concluiu:
– É possível obter ocupações justas.
Por enquanto, porém, é preferível que visite, observe, examine.
E logo, ligando-se ao gabinete próximo, falou em voz alta:
– Solicito a presença de Tobias, antes que se dirija às Câmaras de Retificação.
Não se passaram muitos minutos e assomou à porta um senhor de maneiras desembaraçadas.
– Tobias – explicou Genésio, atencioso –, aqui tem um amigo que vem do Ministério do Auxílio, em tarefa de observação.
Creio de muito proveito para ele o contato com as atividades das câmaras retificadoras.
Estendi-lhe a mão, enquanto o desconhecido correspondia, afirmando, gentil:
– Às suas ordens.
– Conduza-o – prosseguiu o ministro, evidenciando grande bondade –. André precisa integrar-se no conhecimento mais íntimo de nossas tarefas.
Faculte-lhe toda oportunidade de que possamos dispor.
Prontificou-se Tobias, revelando a maior boa-vontade.
– Estou de caminho – acrescentou ele, bem-humorado –, se deseja acompanhar-me...
– Perfeitamente – respondi, satisfeito.
O Ministro Genésio abraçou-me, comovido, com palavras de animação.
Segui Tobias resolutamente.
Atravessamos largos quarteirões, onde numerosos edifícios me pareceram colmeias de serviço intenso.
Percebendo-me a silenciosa indagação, o novo amigo esclareceu:
– Temos aqui as grandes fábricas de “Nosso Lar”.
A preparação de sucos, de tecidos e artefatos em geral, dá trabalho a mais de cem mil criaturas, que se regeneram e se iluminam ao mesmo tempo.
Daí a momentos, penetramos num edifício de aspecto nobre.
Servidores numerosos iam e vinham.
Depois de extensos corredores, deparou-se-nos vastíssima escadaria, comunicando com os pavimentos inferiores.
– Desçamos – disse Tobias em tom grave.
E notando minha estranheza, explicou, solícito:
– As Câmaras de Retificação estão localizadas nas vizinhanças do Umbral.
Os necessitados que aí se reúnem não toleram as luzes, nem a atmosfera de cima, nos primeiros tempos de moradia em “Nosso Lar”.

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NOSSO LAR –
1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 31 de Março de 2019, 13:31
NOSSO LAR
27 O Trabalho, Enfim

Nunca poderia imaginar o quadro que se desenhava agora aos meus olhos.
Não era bem o hospital de sangue, nem o instituto de tratamento normal da saúde orgânica.
Era uma série de câmaras vastas, ligadas entre si e repletas de verdadeiros despojos humanos.
Singular vozerio pairava no ar.
Gemidos, soluços, frases dolorosas pronunciadas a esmo...
Rostos escaveirados, mãos esqueléticas, fácies monstruosas deixavam transparecer terrível miséria espiritual.
Tão angustiosas foram minhas primeiras impressões que procurei os recursos da prece para não fraquejar.
Tobias, imperturbável, chamou velha servidora, que acudiu atenciosamente:
– Vejo poucos auxiliares – disse admirado –, que aconteceu?
– O Ministro Flácus – esclareceu a velhinha em tom respeitoso determinou que a maioria acompanhasse os Samaritanos para os serviços de hoje, nas regiões do Umbral.
– Há que multiplicar energias – tornou ele sereno –, não temos tempo a perder.
– Irmão Tobias!... Irmão Tobias!... Por caridade! – gritou um ancião, gesticulando, agarrado ao leito, à maneira de louco
– Estou a sufocar! Isto é mil vezes pior que a morte na Terra... Socorro! Socorro! Quero sair, sair!... Quero ar, muito ar!
Tobias aproximou-se, examinou-o com atenção e perguntou:
– Por que teria o Ribeiro piorado tanto?
– Experimentou uma crise de grandes proporções, explicou a serva – e o Assistente Gonçalves esclareceu que a carga de pensamentos sombrios, emitidos pelos parentes encarnados, era a causa fundamental desse agravo de perturbação.
Visto achar-se ainda muito fraco e sem ter acumulado força mental suficiente para desprender-se dos laços mais fortes do mundo, o pobre não tem resistido, como seria de desejar.
Enquanto o generoso Tobias acariciava a fronte do enfermo, a serviçal prosseguia esclarecendo:
– Hoje, muito cedo, ele se ausentou sem consentimento nosso, a correr desabaladamente.
Gritava que lhe exigiam a presença no lar, que não podia esquecer a esposa e os filhos chorosos; que era crueldade retê-lo aqui, distante do lar.
Lourenço e Hermes esforçaram-se por fazê-lo voltar ao leito, mas foi impossível.
Deliberei, então, aplicar alguns passes de prostração.
Subtrai-lhe as forças e a motilidade, em benefício dele mesmo.
– Fez muito bem – acentuou Tobias, pensativo –, vou pedir providências contra a atitude da família.
É preciso que ela receba maior bagagem de preocupações, para que nos deixe o Ribeiro em paz.
Fixei o doente procurando identificar-lhe a expressão íntima, verificando a legítima expressão de um dementado.
Ele chamara Tobias como a criança que conhece o benfeitor, mas acusava profundo alheamento de quanto se dizia a seu respeito.
Notando-me a admiração, o novo orientador explicou:
– O pobrezinho permanece na fase de pesadelo, em que a alma pouco mais vê e ouve que as aflições próprias.
O homem, meu caro, encontra na vida real o que amontoou para si mesmo.
Nosso Ribeiro deixou-se empolgar por numerosas ilusões.
Eu quis indagar da origem dos seus padecimentos, conhecer-lhes a procedência e o histórico da situação; entretanto, recordei as criteriosas ponderações da mãe de Lísias, relativas à curiosidade, e calei.
Tobias dirigiu ao enfermo generosas palavras de otimismo e esperança.
Prometeu que iria providenciar recurso a melhoras, que mantivesse calma em benefício próprio e que não se aborrecesse por estar preso à cama.
Ribeiro, muito trêmulo, rosto ceráceo, esboçou um sorriso muito triste e agradeceu com lágrimas.
Seguimos através de numerosas filas de camas bem cuidadas, sentindo a desagradável exalação ambiente, oriunda, como vim a saber mais tarde, das emanações mentais dos que ali se congregavam, com as dolorosas impressões da morte física e, muita vez, sob o império de baixos pensamentos.
– Reservam-se estas câmaras – explicou o companheiro bondosamente – apenas a entidades de natureza masculina.
– Tobias! Tobias... Estou morrendo à fome e sede! – bradava um estagiário.
– Socorro, irmão!... – gritava outro.
– Por amor de Deus!... Não suporto mais!... – exclamava ainda outro.
Coração alanceado ante o sofrimento de tantas criaturas, não contive a interrogação penosa:
– Meu amigo, como é triste a reunião de tantos sofredores e torturados!
Por que este quadro angustioso?
Tobias respondeu sem se perturbar:
– Não devemos observar aqui somente dor e desolação.
Lembre, meu irmão, que estes doentes estão atendidos, que já se retiraram do Umbral, onde tantas armadilhas aguardam os imprevidentes, descuidosos de si mesmos.
Nestes pavilhões, pelo menos, já se preparam para o serviço regenerador.
Quanto às lágrimas que vertem, recordemos que devem a si mesmos esses padecimentos.
A vida do homem estará centralizada onde centralize ele o próprio coração.
E depois de uma pausa, em que parecia surdo a tantos clamores, acentuou:
– São contrabandistas na vida eterna.
– Como assim? – atalhei, interessado.
O interlocutor sorriu e respondeu em voz firme:
– Acreditavam que as mercadorias propriamente terrestres teriam o mesmo valor nos planos do Espírito.
Supunham que o prazer criminoso, o poder do dinheiro, a revolta contra a lei e a imposição dos caprichos atravessariam as fronteiras do túmulo e vigorariam aqui também, oferecendo-lhes ensejos a disparates novos.
Foram negociantes imprevidentes.
Esqueceram de cambiar as posses materiais em créditos espirituais.
Não aprenderam as mais simples operações de câmbio no mundo.
Quando iam a Londres, trocavam contos de réis por libras esterlinas; entretanto, nem com a certeza matemática da morte carnal se animaram a adquirir os valores da espiritualidade.
Agora... Que fazer?
Temos os milionários das sensações físicas transformados em mendigos da alma. Realíssimo!
Tobias não podia ser mais lógico.
Meu novo instrutor, após distribuir conforto e esclarecimento a granel, conduziu-me a vasta câmara anexa, em forma de grande enfermaria, notificando:
– Vejamos alguns dos infelizes semimortos.
Narcisa, a servidora, acompanhava-nos, solícita.
Abriu-se a porta e quase cambaleei ante a surpresa angustiosa.
Trinta e dois homens de semblante patibular permaneciam inertes em leitos muito baixos, evidenciando apenas leves movimentos de respiração.
Fazendo gesto significativo com o indicador, Tobias esclareceu:
– Estes sofredores padecem um sono mais pesado que outros de nossos irmãos ignorantes.
Chamamos-lhes crentes negativos.
Ao invés de aceitarem o Senhor, eram vassalos intransigentes do egoísmo; ao invés de crerem na vida, no movimento, no trabalho, admitiam somente o nada, a imobilidade e a vitória do crime.
Converteram a experiência humana em constante preparação para um grande sono e, como não tinham qualquer ideia do bem, a serviço da coletividade, não há outro recurso senão dormirem longos anos, em pesadelos sinistros.
Não conseguia externar meu espanto.
Muito cuidadoso, Tobias começou a aplicar passes de fortalecimento, sob meus olhos atônitos.
Finda a operação nos dois primeiros, começaram ambos a expelir negra substância pela boca, espécie de vômito escuro e viscoso, com terríveis emanações cadavéricas.
– São fluidos venenosos que segregam – explicou Tobias, muito calmo.
Narcisa fazia o possível por atender prontamente à tarefa de limpeza, mas debalde. Grande número deles deixava escapar a mesma substância negra e fétida.
Foi então, que, instintivamente, me agarrei aos petrechos de higiene e lancei-me ao trabalho com ardor.
A servidora parecia contente com o auxílio humilde do novo irmão, ao passo que Tobias me dispensava olhares satisfeitos e agradecidos.
O serviço continuou por todo o dia, custando-me abençoado suor, e nenhum amigo do mundo poderia avaliar a alegria sublime do médico que recomeçava a educação de si mesmo, na enfermagem rudimentar.

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1º livro da coleção “A Vida no Mundo Espiritual”
Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Abril de 2019, 12:02
NOSSO LAR
28 Em Serviço

Encerrada a prece coletiva, ao crepúsculo, Tobias ligou o receptor, a fim de ouvir os Samaritanos em atividade no Umbral.
Justamente curioso, vim a saber que as turmas de operações dessa natureza se comunicavam com as retaguardas de tarefa, em horas convencionais.
Sentia-me algo cansado pelos intensos esforços despendidos, mas o coração entoava hinos de alegria interior.
Recebera a ventura do trabalho, afinal.
E o espírito de serviço fornece tônicos de misterioso vigor.
Estabelecido o contato elétrico, o pequenino aparelho, sob meus olhos, começou a transmitir o recado, depois de alguns minutos de espera:
– Samaritanos ao Ministério da Regeneração!...
Samaritanos ao Ministério da Regeneração!...
Muito trabalho nos abismos da sombra.
Foi possível deslocar grande multidão de infelizes, sequestrando às trevas espirituais vinte e nove irmãos.
Vinte e dois em desequilíbrio mental e sete em completa inanição psíquica.
Nossas turmas estão organizando o transporte...
Chegaremos alguns minutos depois da meia-noite...
Pedimos providenciar...
Notando que Narcisa e Tobias se entreolhavam fundamente admirados, tão logo silenciou a estranha voz, não pude conter a pergunta que me desbordava dos lábios:
– Como assim?
Por que esse transporte em massa?
Não são todos Espíritos?
Tobias sorriu e explicou:
– O irmão esquece que não chegou ao Ministério do Auxílio de outro modo.
Conheço o episódio de sua vinda.
É preciso recordar, sempre, que a Natureza não dá saltos e que, na Terra, ou nos círculos do Umbral, estamos revestidos de fluidos pesadíssimos.
São aves e têm asas, tanto o avestruz como a andorinha; entretanto, o primeiro apenas subirá às alturas se transportado, enquanto a segunda corta, célere, as vastas regiões do céu.
E deixando perceber que o momento não comportava divagações, dirigiu-se a Narcisa, ponderando:
– É muito grande a leva desta noite.
Precisamos tomar providências imediatas.
– Serão necessários muitos leitos! – murmurou a serva algo pesarosa.
– Não se aflija – respondeu Tobias resoluto –, alojaremos os perturbados no Pavilhão 7 e os enfraquecidos na Câmara 33.
Em seguida, levou a destra à fronte, como a ponderar algo muito sério, e exclamou:
– Resolveremos facilmente a questão da hospitalidade; o mesmo, porém, não se dará no concernente à assistência.
Nossos auxiliares mais fortes foram requisitados para garantir os serviços da Comunicação nas esferas da Crosta, em vista das nuvens de treva que ora envolvem o mundo dos encarnados.
Precisamos de pessoal de serviço noturno, porquanto os operários em função com os Samaritanos chegarão extremamente fatigados.
– Ofereço-me, com prazer, para o que possa aproveitar – exclamei espontaneamente.
Tobias endereçou-me um olhar de profunda simpatia, mesclada de gratidão, fazendo-me experimentar cariciosa alegria íntima.
– Mas está resolvido a permanecer nas Câmaras, durante a noite?
– perguntou, admirado.
– Outros não fazem o mesmo? – indaguei por minha vez – sinto-me disposto e forte, preciso recuperar o tempo perdido.
Abraçou-me o generoso amigo, acrescentando:
– Pois bem, aceito confiante a colaboração.
Narcisa e os demais companheiros ficarão também de guarda.
Além do mais, mandarei Venâncio e Salústio, dois irmãos de minha confiança.
Não posso permanecer aqui, de plantão noturno, em vista de compromissos anteriores; no entanto, caso necessário, você ou algum dos nossos me comunicará qualquer ocorrência de maior gravidade.
Traçarei o plano dos trabalhos, facilitando quanto possível a execução.
E descortinou-se campo enorme de providências.
Enquanto cinco servidores operavam em companhia de Narcisa, preparando roupa adequada e petrechos de enfermagem, eu e Tobias movíamos pesado material no Pavilhão 7 e na Câmara 33.
Não poderia explicar o que se passava comigo.
Apesar da fadiga dos braços, experimentava júbilo inexcedível no coração.
Na oficina, onde a maioria procura o trabalho, entendendo-lhe o sublime valor, servir constitui alegria suprema.
Não pensava, francamente, na compensação dos bônus-hora, nas recompensas imediatas que me pudessem advir do esforço; contudo, minha satisfação era profunda, reconhecendo que poderia comparecer feliz e honrado, perante minha mãe e os benfeitores que havia encontrado no Ministério do Auxílio.
Ao despedir-se, Tobias voltou a abraçar-me e falou:
– Desejo a vocês muita paz de Jesus, boa noite e serviço útil.
Amanhã, às oito horas, você poderá descansar.
O máximo de trabalho, cada dia, é de doze horas, mas estamos em circunstâncias especiais.
Respondi que as determinações me enchiam de sincero contentamento.
A sós com o grande número de enfermeiros, passei a interessar-me pelos doentes, com mais carinho.
Dentre as figuras de auxiliares presentes, impressionou-me a bondade espontânea de Narcisa, que atendia a todos, maternalmente.
Atraído pela sua generosidade, busquei aproximar-me com interesse.
Não foi difícil alcançar o prazer de sua conversação carinhosa e simples.
A velhinha amável semelhava-se a um livro sublime de bondade e sabedoria.
– Mas, a irmã aqui trabalha há muito? – perguntei, a certa altura da palestra amistosa.
– Sim, permaneço nas Câmaras de Retificação, em serviço ativo, há seis anos e alguns meses; entretanto, ainda me faltam mais de três anos para realizar meus desejos.
Ante a silenciosa indagação do meu olhar, falou Narcisa amavelmente:
– Preciso um endosso muito sério.
– Que quer dizer com isso? – perguntei interessado.
– Preciso encontrar alguns espíritos amados, na Terra, para serviços de elevação em conjunto.
Por muito tempo, em razão de meus desvios passados, roguei, em vão, a possibilidade necessária aos meus fins.
Vivia perturbada, aflita.
Aconselharam-me, porém, recorrer a Ministra Veneranda, e nossa benfeitora da Regeneração prometeu que endossaria meus propósitos no Ministério do Auxílio, mas exigiu dez anos consecutivos de trabalho aqui, para que eu possa corrigir certos desequilíbrios do sentimento.
No primeiro instante, quis recusar, considerando demasiada a exigência; depois, reconheci que ela estava com a razão.
Afinal, o conselho não visava a interesses dela e sim ao meu próprio benefício.
E ganhei muito, aceitando-lhe o parecer.
Sinto-me mais equilibrada e mais humana e, creio, viverei com dignidade espiritual minha futura experiência na Terra. Ia manifestar profunda admiração, mas um dos enfermos próximos gritou:
– Narcisa! Narcisa!
Não me cabia reter, por mera curiosidade pessoal, aquela irmã dedicada, transformada em mãe espiritual dos sofredores.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier
Título: Re: Coleção A Vida no Mundo Espiritual
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Abril de 2019, 14:04
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29 A Visão de Francisco

Enquanto Narcisa consolava o doente aflito, fui informado de que me chamavam ao aparelho de comunicações urbanas.
Era a senhora Laura que pedia notícias.
De fato, esquecera-me de avisá-la sobre as deliberações de serviço noturno.
Pedi desculpas à minha benfeitora e forneci rápido relatório verbal da nova situação.
Através do fio, a genitora de Lísias parecia exultar, compartilhando meu justo contentamento.
Ao termo de nossa ligeira conversa, disse, bondosa:
– Muito bem, meu filho!
Apaixone-se pelo seu trabalho, embriague-se de serviço útil.
Somente assim, atenderemos à nossa edificação eterna.
Lembre, porém, que esta casa também lhe pertence.
Aquelas palavras encheram-me de nobres estímulos.
Regressando ao contato direto com os enfermos, notei Narcisa a lutar heroicamente por acalmar um rapaz que revelava singulares distúrbios.
Procurei ajudá-la.
O pobrezinho, de olhos perdidos no espaço, gritava, espantadiço:
– Acuda-me, por amor de Deus! Tenho medo, medo!...
 E, olhar esgazeado dos que experimentam profundas sensações de pavor, acentuava:
– Irmã Narcisa, lá vem “ele”, o monstro!
Sinto os vermes novamente!
“Ele!” “Ele!”... Livre-me “Dele” irmã! Não quero, não quero!...
– Calma, Francisco – pedia a companheira dos infortunados
_ Você vai libertar-se, ganhar muita serenidade e alegria, mas depende do seu esforço.
Faça de conta que a sua mente é uma esponja embebida em vinagre.
É necessário expelir a substância azeda.
Ajudá-lo-ei a fazê-lo, mas o trabalho mais intenso cabe a você mesmo.
O doente mostrava boa-vontade, acalmava-se enquanto ouvia os conceitos carinhosos, mas volvia à mesma palidez de antes, prorrompendo em novas exclamações.
– Mas, irmã, repare bem... “ele” não me deixa.
Já voltou a atormentar-me! Veja, veja!...
– Estou vendo-o, Francisco – respondia ela, cordata –, mas é indispensável que você me ajude a expulsá-lo.
– Este fantasma diabólico!... – acrescentava a chorar como criança, provocando compaixão.
– Confie em Jesus e esqueça o monstro – dizia a irmã dos infelizes, piedosamente –, vamos ao passe.
O fantasma fugirá de nós.
E aplicou-lhe fluidos salutares e reconfortadores, que Francisco agradeceu, manifestando imensa alegria no olhar.
– Agora – disse ele, finda a operação magnética –, estou mais tranquilo.
Narcisa ajeitou-lhe os travesseiros, mandou que uma serva lhe trouxesse água magnetizada.
Aquela exemplificação da enfermeira edificava-me.
O bem, como o mal, em toda parte estabelece misterioso contágio.
Observando-me o sincero desejo de aprender, Narcisa aproximou-se mais, mostrando-se disposta a iniciar-me nos sublimes segredos do serviço.
– A quem se refere o doente? – indaguei, impressionado.
Está, porventura, assediado por alguma sombra invisível ao meu olhar?
A velha servidora das Câmaras de Retificação sorriu carinhosamente e falou: –
 Trata-se do seu próprio cadáver.
– Que me diz? – tornei, espantado.
– O pobrezinho era excessivamente apegado ao corpo físico e veio para a esfera espiritual após um desastre, oriundo de pura imprudência.
Esteve, durante muitos dias, ao lado dos despojos, em pleno sepulcro, sem se conformar com situação diversa.
Queria firmemente levantar o corpo hirto, tal o império da ilusão em que vivera e, nesse triste esforço, gastou muito tempo.
Amedrontava-se com a ideia de enfrentar o desconhecido e não conseguia acumular nem mesmo alguns átomos de desapego às sensações físicas.
Não valeram socorros das esferas mais altas, porque fechava a zona mental a todo pensamento relativo à vida eterna.
Por fim, os vermes fizeram-lhe experimentar tamanhos padecimentos que o pobre se afastou do túmulo, tomado de horror.
Começou, então, a peregrinar nas zonas inferiores do Umbral; no entanto, os que lhe foram pais na Terra possuem aqui grandes créditos espirituais e rogaram sua internação na colônia.
Trouxeram-no os Samaritanos, quase à força.
Seu estado, contudo, é ainda tão grave que não poderá ausentar-se, tão cedo, das Câmaras de Retificação.
O amigo, que lhe foi genitor na carne, está presentemente em arriscada missão, distante de “Nosso Lar”.
– E vem visitar o doente? – perguntei.
 – Já veio duas vezes e experimentei grande comoção, observando-lhe o sofrimento, discreto.
Tamanha é a perturbação do rapaz, que não reconheceu o pai generoso e dedicado.
Gritava, aflito, mostrando a demência dolorosa.
O genitor, que veio vê-lo em companhia do Ministro Pádua, do Ministério da Comunicação, pareceu muito superior à condição humana, enquanto se encontrava com o nobre amigo que obtivera hospitalidade para o filho infeliz.
Demoraram-se bastante, comentando a situação espiritual dos recém-chegados dos círculos carnais.
Mas, quando o Ministro Pádua se retirou, compelido por circunstâncias de serviço, o pai do rapaz me pediu lhe perdoasse o gesto humano e ajoelhou-se diante do enfermo.
Tomou-lhe as mãos, ansioso, como se estivesse a transmitir vigorosos fluidos vitais, e beijou-lhe a face, chorando copiosamente.
Não pude conter as lágrimas e retirei-me, deixando-os a sós.
Não sei o que se passou, em seguida, entre ambos; mas notei que Francisco, esse dia, melhorou bastante.
A demência total reduziu-se a crises que são, agora, cada vez mais espaçadas.
– Como tudo isso comove! – exclamei sob forte impressão.
Entretanto, como pode a imagem do cadáver persegui-lo?
– A visão de Francisco – esclareceu a velhinha, atenciosa –, é o pesadelo de muitos Espíritos depois da morte carnal.
Apegam-se demasiadamente ao corpo, não enxergam outra coisa, nem vivem senão dele e para ele, votando-lhe Verdadeiro culto, e, vindo o sopro renovador, não o abandonam.
Repelem quaisquer ideias de espiritualidade e lutam desesperadamente pelo conservar.
Surgem, no entanto, os vermes vorazes e os expulsam.
A essa altura, horrorizam-se do corpo e adotam nova atitude extremista.
A visão do cadáver, porém, como forte criação mental deles mesmos, atormenta-os no imo da alma.
Sobrevêm perturbações e crises, mais ou menos longas, e muito sofrem até à eliminação integral do seu fantasma.
Notando-me a comoção, Narcisa acrescentou:
– Graças ao Pai, venho aproveitando bastante, nestes últimos anos de serviço.
Ah! Como é profundo o sono espiritual da maioria de nossos irmãos na carne!
Isto, porém, deve preocupar-nos, mas não deve ferir-nos.
A crisálida cola-se à matéria inerte, mas a borboleta alçará o voo; a semente é quase imperceptível e, no entanto, o carvalho será um gigante.
A flor morta volve à terra, mas o perfume vive no céu.
Todo embrião de vida parece dormir.
Não devemos esquecer estas lições.
E Narcisa calou-se, sem que me atrevesse a interromper-lhe o silêncio.

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Ditado pelo Espírito: André Luiz
Psicografado por: Francisco Cândido Xavier