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GERAL => Mensagens de Ânimo => Meditação => Tópico iniciado por: macili em 16 de Outubro de 2015, 23:44

Título: Lírios de Esperança
Enviado por: macili em 16 de Outubro de 2015, 23:44
(http://www.vinhadeluz.com.br/arquivos/barsanulfo.jpg)




Olhai os Lírios


          "A piedade é a virtude que mais vos aproxima dos anjos; é a irmã da caridade, que vos conduz a Deus. Ah! Deixai que o vosso coração se enterneça ante o espetáculo das misérias e dos sofrimentos dos vossos semelhantes."
                     O Evangelho Segundo Espiritismo, capítulo XIII, item 17.




A alta madrugada impunha silêncio. Sob o lençol alvinitente, encontrava-se o fiel servidor. A tez desfigurada pela dor física alterou-lhe os traços fisionômicos. Olhos semi-abertos digladiavam com a impiedosa febre da influenza.

Era o primeiro dia de novembro, ano bom de 1918. No dia anterior, a despeito de seu torpor, já havia previsto seu desenlace. Uma lufada de forças sublimes tomou-lhe a cabeça, estancando o avanço acelerado da enfermidade. O doente repentinamente abre os olhos, recosta-se melhor no leito e observa uma luminosidade irradiante vinda do Alto. Mesmo abatido pela peleja física, emociona-se às lágrimas. Uma suave cantiga de sua predileção brotava-lhe na mente. As imagens inesquecíveis do coral entoando melodias... Recordava a inauguração do Colégio Allan Kardec. Sentia-se transportado ao vitorioso dia em que abriu aos caminhos humanos um significado novo para o ato de educar.

Seu mundo mental agor se confundia entre a realidade das estreitas percepções físicas e os sentidos da alma. Dilatava-se a visão. Um vulto feminino desenha-se em meio ao clarão das energias refazentes. Vestida com trajes típicos da era cristã primitiva, uma judia de olhos fulgurantes apresenta-se com ternura e serenidade:

- Eurípedes, servo do Cristo, sabes quem sou?

Surpreendentemente refeito, ele responde:

- És tu, Mãe Santíssima? Tão jovial e bela?!

- Vemho em nome de meu Filho amado.

- Maria... Maria... - o discípulo fiel balbuciou o nome entre incontidas emoções que lhe afogaram as palavras.

- Eurípedes, mestre de Sacramento e servidor do amor, Jesus convoca-te a novos rumos. Uma classe de aprendizes empedernidos suplica educação e luz. Um submundo de atrocidades e loucura está à espera de serviços imediatos. Chega o tempo de banir a escuridão da Terra, separar o joio do trigo. Uma clarinada de paz desce das esferas maiores em direção aos pântanos da maldade. O Pastor conclama teu coração generoso a esse mister.

- Serva do amor, orienta-me, se posso auxiliar o Bem Maior.

- Este século será o tempo da alforria para a humanidade terrena. Urge, entretanto, salvar os escravos da ignorância e converter os senhores da perversidade. Uma sanha enfermiça lança-se nesse momento sobre o Consolador. A sociedade assiste, angustiada e estarrecida, aos efeitos da guerra cruel que vitimou o mundo na epidemia do medo e da insegurança nesse primeiro quartel do século XX. Um império de trevas aguarda o lume da bondade... O Senhor prepara as trilhas para um porvir de glórias à Sua Mensagem Rediviva.

- Que fazer, Mãe Santíssima?

- Os pântanos da maldade estão repletos de almas tíbias. São lírios encharcados pela lama pútrida das imperfeições, mas não perderam o viço, a exuberância. Não deixaram de ser lírios. Ali jazem, atolados nos lamaçais da insanidade, muitos laços de nossa trajetória pela cristianização nesse orbe. Vem, servidor do amor! Uma obra que já começaste na erraticidade aguarda-te! Um celeiro de esperança e promessa encontra-se à tua espera. O Senhor Compassivo, no entanto, permite-te a continuidade junto ao templo corporal. Queres a cura ou aceitas a vereda da esperança?

- Mãe Amantíssima - falou Eurípedes aos prantos - faça-se em mim a vontade do Pai!

- Então, Filho Amado, recebe a unção prometida pelo Teu Senhor. O Espírito Verdade chama-te para o labor de implantação de Sua Leira Bendita. Nessa Terra abençoada, a mensagem do Consolador será a luz do mundo para o século. Auxilia, meu filho, na tarefa redentora do transporte da árvore do Evangelho. Estruge um grito de pavor e remorso nas grutas da sordidez. Quais meninos atormentados, suplicam socorro e alívio ante as bravatas de sangue e dor.

- Mensageira Bendita, quem são os sofredores a que te referes?

- Nos abismos, encontram-se os Lírios de Deus, aqueles que amam a mensagem do Cristo, todavia não souberam honrá-la. Inúmeras almas rebeldes que amam ao Cristo. Uma nação de exilados que o tempo não converteu. São lírios de esperança em pleno pântano de egoísmo. Olhai pelos lírios, meu filho. Jesus te chama para erguer-lhes abrigo acolhedor e oferecer-lhes descanso e elevação. Por quem o Senhor chorou naquela noite de abençoado encontro contigo? Lembras-te? ¹

- Sim, Digna Serva! Jesus chorou pelos que lhe conhecem os ensinos e não os vivenciam na atitude.

- Esses serão teus novos filhos. Doravante, serás o Apóstolo da Esperança. Darás conforto educativo aos cristãos de todos os tempos, que foram atingidos pelo encanto da negligência e pela tirania da ilusão. As Ovelhas Perdidas de Israel serão teus novos alunos. Ensina-lhes a pedagogia do amor. Restitui-lhes a Herança Divina de Filhos de Deus. Assegura-lhes suficiente misericórdia para testemunharem o roteiro de Meu Filho Amado: "Meus discípulos serão conhecidos por muito se amarem." Todos ainda vão florir, serão lírios nos campos da vitória. Vão embelezar os destinos da humanidade.

O Apóstolo sacramentano fora novamente surpreendido por novas visitações. Maria, a Mãe das dores do mundo, afastou-se de sua clarividência, e Doutor Bezerra de Menezes surgiu-lhe aos olhos do espírito. Não contendo mais as emoções, chorou como criança, sem dizer palavra. O velho paladino do Cristo estendeu-lhe os braços. Um abraço amoroso e, com incomparável leveza e naturalidade, Barsanulfo desprendeu-se do corpo como se deixasse uma veste de panos. A testa empapada de suor lívido decretou-lhe falência instantânea. Eram seis horas da manhã do primeiro dia de novembro. Trinta e oito anos² na edificação de um monumento eterno...

Barsanulfo partiu para continuar. Partiu para servir com mais liberdade. A obra implantada na vida física teve continuadores honrosos. Seu desafio maior esperava-lhe nas esferas próximas ao orbe. Um enxame de doentes de outra natureza lhe bateria às portas. Uma nova dimensão de dores se lhe apresentaria ao coração bondoso. Uma nova ordem de lutas e armas a serem ensarilhadas. Um outro cortejo de aflitos para confortar. Uma classe de doentes empedernidos suplicava-lhe a palavra salvadora, nos roteiros da educação de suas almas, clamando por piedade e compaixão.

Passaram-se oitenta e dois anos desse momento glorioso na vida do Apóstolo da Esperança.
___________________

¹ Silva, Hilário (Espírito). Visão de Eurípedes; psicografado por Francisco Cândido Xavier e Valdo Vieira. A Vida Escreve.
² Eurípedes Barsanulfo (1880 - 1918).





pelo espírito Ermance Dufaux / Wanderley S. de Oliveira
livro: Lírios da Esperança
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: homemsideral em 17 de Outubro de 2015, 18:01
Amigos. Boa tarde.

A excelsitude de Maria, mãe de Jesus, proporciona-nos este maravilhoso diálogo.
Comove-nos despertando-nos às grandezas dos ensinamentos do nosso sempre, eterno e querido, Jesus.

Mesmo que diminutamente (imperfeitos ainda), podemos avaliar a grandiosidade e luminosidade do ambiente, com Maria, Eurípides Barsanulfo e o dedicado médico do espaço Dr.
Bezerra de Meneses.

Neste exato momento, a certeza do trabalho dedicado no mundo espiritual diante da conclamação havida:

"... - Eurípedes, mestre de Sacramento e servidor do amor, Jesus convoca-te a novos rumos. Uma classe de aprendizes empedernidos suplica educação e luz. Um submundo de atrocidades e loucura está à espera de serviços imediatos. Chega o tempo de banir a escuridão da Terra, separar o joio do trigo. Uma clarinada de paz desce das esferas maiores em direção aos pântanos da maldade. O Pastor conclama teu coração generoso a esse mister."

A mensagem é esplendorosa. Comove-nos, entusiasma-nos, fazendo-nos caminhar mais e mais confiantes, diante do nosso aprendizado sagrado e único: Jesus sob a Doutrina dos Espíritos, o Espiritismo.

Abraços para os amigos.
SRodrigues     



Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: lconforjr em 18 de Outubro de 2015, 03:39
Re: Olhai os Lírios

      Ref resp #1 em: 17 10 15, às 18:01 de Homemsideral

      Sideral escreveu:... Neste exato momento, a certeza do trabalho dedicado no mundo espiritual diante da conclamação havida:

      "... Jesus convoca-te a novos rumos. Uma classe de aprendizes empedernidos (duros como pedra) suplica educação e luz. Um submundo de atrocidades e loucura está à espera de serviços imediatos. Chega o tempo de banir a escuridão da Terra, separar o joio do trigo. Uma clarinada de paz desce das esferas maiores em direção aos pântanos da maldade. O Pastor conclama teu coração generoso a esse mister”.

      Conf: amigos, sempre certas msgs/respostas neste Fórum me deixam com dúvidas e, como, segundo a doutrina e a ciência, todos os efeitos têm suas causas, tenho de perguntar:

      - qual é a causa de Jesus convocar o Eurípides, ou a todos nós, para que tomemos novos rumos?

      - qual é a causa de existirem aprendizes empedernidos (duros como pedra) e outros aprendizes que não são assim? 

      - e a causa de existir um submundo de atrocidades e loucura se no momento em somos criados, ninguém é inclinado nem para o bem, nem para o mal?

      - e a causa de ter de banir a escuridão da Terra? Nosso mundo já foi criado escuro ou depois se tornou escuro? E, se se tornou escuro depois, o que fez que se tornasse escuro?

      - qto à necessidade de separar o joio do trigo, qual é o significado disso? O que é o joio, o que é o trigo numa questão espiritual?

      - e qual é a causa de chamarem a Terra de “pântanos da maldade”? O que é que a faz assim?

      - mais uma: qual é a causa de uns serem generosos e outros      não?

      Abraços a todos os amigos!
.............................
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: homemsideral em 18 de Outubro de 2015, 19:56
Parabéns ao amigo Inconforjr.
Perguntar, perguntar e perguntar, tirando dúvidas, é um importante ítem diante dos estudos da doutrina.
Até mesmo recomendado por Kardec. Ele mesmo fazia suas perguntas aos Espíritos, perguntando e perguntando, uma mesma pergunta, repetidas vezes.
Porém, além das perguntas, necessário estudar, estudar e estudar.

Do LE / Introdução / Ítem VIII / =
" ... o que caracteriza um estudo sério é a continuidade que se lhe dá. Deve-se admirar de não se obter, frequentemente, nenhuma resposta sensata a questões, graves por sí mesmas, quando são feitas ao acaso e à queima roupa, no meio de uma multidão de questões extravagantes? Uma questão, aliás, frequentemente, é complexa e exige, para ser esclarecida, questões pre liminares ou complementares. Quem quer adquirir uma ciência deve faze-lo por um estudo metódico, começando pelo princípio e seguindo o encadeamento e o desenvolvimento de idéias. Aquele que dirige por acaso, a um sábio, uma questão sobre uma ciência da qual não sabe a primeira palavra, obterá algúm proveito?? O próprio sábio poderia, com a maior boa vontade, dar-lhe uma resposta satisfatória? Essa resposta isolada será forçosamente incompleta e, frequentemente, por isso mesmo, ininteligível, ou poderá parecer absurda e contraditória ... "

Fiz este breve relato para enfatizar que estudar, estudar e estudar é um básico em quaisquer ciências, matérias.

No debate (agosto 2015) =  http://www.forumespirita.net/fe/estudo-da-doutrina-espirita/conhecendo-a-revista-espirita/#.ViPUxOZdHtQ , percebí que voce diz estudar o LE há muitos e muitos anos, numa referência havida pelo amigo Vitor Santos.
Com extensas e excelentes explicações do amigo Moises de Cerq Pereira.

Minha dúvida e curiosidade, portanto, será saber se voce 'estudou e entendeu' o LE, ou apenas 'leu'.
Pois estas suas dúvidas aqui quase coincidem e se repetem às efetuadas no link acima.
Abraços.
homemsideral.
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 18 de Outubro de 2015, 22:01
(https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/40/7d/40/407d409c727a514a6f00227a1137fb28.jpg)



Convocação de Eurípedes   (02)


          "Essa a estrada pela qual temos procurado, com esforço, fazer que o Espiritismo enverede. A bandeira que desfraldamos bem alto é a do Espiritismo cristão e humanitário, (...)"
                     O Livro dos Médiuns, Capítulo XXIX, item 350.




Estamos nos primeiros dias do ano 2000. As atividades do Hospital Esperança intensificaram após ordenações maiores, descerradas por Bezerra de Menezes em nome do Espírito Verdade. Sua magistral palestra "Atitudes de Amor", proferida no mês de outubro de 1999¹, inaugurou um tempo de renovação e medidas promissoras para a causa do amor.

O movimento em torno das ideias espíritas, no plano físico e na vida dos espíritos, não foi mais o mesmo depois da prédica do paladino do bem. Fazia-se urgente uma nova ordem de medidas para o sacrifício incondicional de quantos nutrem o desejo de servir à obra regenerativa da Era do Espírito na Terra. O iniciar do novo milênio constituía-se num apelo retumbante para o engrandecimento moral na Terra, perante a uniformidade das leis que regem o ecossistema no cosmo universal.

Eurípedes, por sua vez, recebeu diretriz urgente da Falange Verdade e convocou-nos sem demora. Nosso diretor já havia preparado com antecedência um encontro no qual os trabalhadores e cooperadores ativos do Nosocômio Esperança reunir-se-iam no salão principal para ouvir-lhe os novos alvitres.

À noite, pontualmente aos dez para as oito horas, adentrou Eurípedes, como de costume, acompanhado por dona Maria Modesto Cravo², conhecida como Dona Modesta.

Acomodamo-nos nas últimas fileiras, junto ao professor Cícero³, apelido mantido na vida espiritual, e a Inácio Ferreira (4).

Dona Modesta, depois de sentida prece, notificou a todos, pela sua mediunidade, que a Equipe Verdade velava pelo nosso encontro. Sem formalidade de qualquer espécie, o diretor se postou atrás de um singelo púlpito e iniciou sua fala: "Amigos em Cristo, esperança em seus corações.

Um fenômeno social irreversível vem ocorrendo nas relações: a superação dos modelos verticais de convivência.

Contrapondo os velhos referenciais de autoridade para ditar o que fazer e como fazer, a família e a escola, a religião e a cultura, assim como todas as organizações humanas são convocadas a repensar as carcomidas formas de relacionamento. Ninguém estabelece as normas, ninguém tem certezas ou verdades definitivas. Todos em busca de posicionamento a partir de suas necessidades mais profundas. O caminho atual aponta para a criação de relações horizontais, a diluição dos papéis e a formação de grupos cooperativos. Os clamores da alma retumbam no coração humano à procura de paz, equilíbrio, saúde e sossego interior. Um extenso labirinto apresenta-se, cujo percurso é individual, singular. É a saga da alma em crescimento, eterna perseguidora da felicidade e das respostas para Ser em plenitude.

Cartilhas e padrões, estatutos e regras sofrem golpes impiedosos. A nova ordem social conduz a uma decisiva derrocada na supremacia de velhos e corroídos significados. Ressignificar... Dar sentido novo em direção a um porvir de esperanças e completude interior.

Encontramo-nos em meio a essa turbulenta gestação de ideias, valores e referências. A humanidade prepara-se para adotar o conceito sistêmico, solidário. Enquanto isso, rui todos os paradigmas em verdadeira hecatombe de convenções hegemônicas. Os velhos parâmetros não atendem às necessidades do agora. Por outro ângulo, ainda não se formaram novos modelos de inspiração para que o homem se guie nas suas experiências e metas. O certo e o errado variaram totalmente seus sentidos, e ainda não se teve tempo bastante para estipular outros conceitos.

Portanto, nutrir muita certeza sobre algo, cultivar rigidez de entendimento, é postura extremamente arriscada nessa fase de mutação. Não menos arriscado é assumir a desafiante atitude de "inventor" de novas formas de caminhar. Esse fenômeno social que nasce nas entranhas da alma exige siso moral, responsabilidade individual, coragem. É algo bem diferente. Antes se tinha alguém para ditar o caminhar, algum modelo, uma experiência em que se apoiar. Tornava-se cômodo responsabilizar o próximo ou alguma orientação institucional  fim de evadirmos ou esquivarmos dos efeitos nocivos de nossos atos.

Esperam-se mudanças para melhor na humanidade, todavia poucos são os que perceberam uma realidade inquestionável: a Terra mudou rapidamente. Seus habitantes não conseguiram ainda avaliar a profundidade de tudo que ocorreu nas últimas três décadas. Em trinta anos, efetivaram-se séculos de mudanças. Atordoados e aflitos, sem direção e sem rumo, a humanidade debate-se à procura de bússolas que resgatem o sentimento de segurança.

Nesse cenário global, repete-se, no iniciar do século XXI, a mesma experiência do Espiritismo pr´tico no alvorecer do século XX. Naquele tempo, as bússolas não existiam, foram criadas. Agora, somos chamados a recriá-las. A mediunidade e seu exercício obedecem a esse ciclo inadiável e dinâmico. Os seareiros do intercâmbio, em quaisquer patamares de conquistas, são convocados a construírem sentidos novos na utilização das forças psíquicas e mentais, que envolvem a relação interdimensional entre esferas de vida.

A diversidade, conquanto, a princípio, cause insegurança, é propícia à expressão da criatividade. Criatividade que deverá sempre ser regida pelos valores morais da sensatez, da responsabilidade e do amor.

Allan Kardec, o emissário da Era do Espírito, refere-se ao fermento da incredulidade que ainda tomaria conta da humanidade por duas ou três gerações.(5) Incredulidade em relação à imortalidade e comunicabilidade do ser espiritual. Adentramos exatamente essa terceira geração, dividida em três períodos de setenta anos, a partir da chegada do Espiritismo.

É o período da sensibilidade, da fé que supera o medo humano de existir e progredir no bem.

Fé é a adesão espontânea da alma na busca da Verdade. Mediunidade é o ventre sagrado do fervor. Através dela, ocorre a sublime gestação do patrimônio da crença lúcida e libertadora.

Raciocínio é o dínamo da lógica e do bom senso. Quando atacado pela rigidez emocional, converte-se em preconceito e estagnação.

Inúmeros grupos doutrinários transformaram o critério do raciocínio em medida prática de defesa, para não serem enganados pelas bem urdidas mistificações. Com essa postura, se não são enganados nas suas produções mediúnicas, são ludibriados quanto ao significado abrangente das relações de amor entre as almas, circunscrevendo a prática de intercâmbio a expressões superficiais de conversão de desencarnados, com espaço acanhado para a manifestação livre dos benfeitores e aprendizes da erraticidade. Vigilância excessiva é um cadeado nas portas da sensibilidade, aprisionando os sentimentos aos severos regimes de descrença e engessamento mental. A cautela excessiva com a fantasia e o engodo manietaram inúmeros servidores.

E o resultado mais infeliz de tanta censura é o enfermiço desânimo com as sagradas práticas de intercâmbio entre os mundos. O mais grave efeito do engessamento cultural das ideias espíritas é a paralisia da noção de imortalidade. Um plano espiritual estático e desconectado da vida na Terra.

Jesus, o paradigma do Amor Universal, ao estabelecer pela Sua Atitude a era da ética aplicada e sentida, assegurou em suas palavras: "Não vim ab-rogar, porém, cumprir."(6)  Que definição mais precisa se pode ter de uma transição? Quando se fala em novos significados, estamos, em verdade, referindo-nos ao ingente desafio de viver a mensagem esquecida do amor. Transição, portanto, muito antes que uma etapa que deflagra o novo, significa a sublime decisão de afinar-se com o bailado cósmico do amor, o ritmo pulsante de Deus desde a origem dos tempos infinitos.

No Século XX, os espíritos procuraram os homens. Agora, os homens deverão ser os parceiros dos espíritos. Buscar-lhes para a vivência de uma relação mais consciente e educativa. O "telefone" tilinta daqui para lá, todavia, chega o instante de recebermos também os "chamados" do homem, cujos interesses repousem na transformação de si mesmo.

A bondade celeste conferiu-me novos desafios nesta casa de amor. Imperioso refletirmos sobre os destinos da mediunidade ante o clímax da transição espiritual do planeta. Nossa missão consiste em avaliar medidas promissoras a nosso alcance, que facilitem a consolidação dos Planos do Espírito Verdade para a messe espírita do mundo físico no século XXI. Os primeiros cem anos do terceiro milênio serão os alicerces da Era do Espírito.

Na condição de educadores da alma, importa-nos reconhecer o exato valor das instituições humanas, jamais as adotando como expressões absolutas da verdade. Tradições e valores estão em acelerado processo de metamorfose. Estamos atravessando uma crise de referências sem precedentes na seara. O movimento espírita está sendo sacudido por um terremoto de diversidade. Porém convenhamos, é nesse cenário que vai emergir a rota da regeneração.




::  C o n t i n u a  ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 18 de Outubro de 2015, 22:55
(http://2.bp.blogspot.com/-zZAdNf4Uqz8/TfKd_-EWD9I/AAAAAAAAAs0/FAnnikBbPG4/s400/08+-+evolu%25C3%25A7%25C3%25A3o+cosmos.jpg)



::  C o n t i n u a ç ã o  ::



"O Espiritismo não cria a renovação social. As necessidades do homem elegerão seus princípios como senda indispensável. Não se deve deduzir, todavia, que seu perfil social servirá de modelo, porque a diversidade nesse terreno será avassaladora a tal ponto de diluir, apropriar e melhorar as características de suas práticas e conceitos. Ante essas mutações necessárias, os discípulos aferrados a modelos serão convidados a sofrido teste de desapego.

A ciência e a religião, a arte e a filosofia serão caminhos propulsores da força do pensamento espírita, sobrepujando o materialismo que grassa. Nenhum deles, no entanto, servirá de via preferencial. Por essa razão, urge desenvolver um novo significado para a comunidade adepta da verdade consoladora face ao predominante caráter religiosista. Religião com religiosidade. Religião com educação. Se a religião não educar, ficará retida no dogmatismo. Se a ciência não educar, será sovinice. Se a filosofia não educar, transformará em cátedra de vaidade. Se a arte não educar, constituirá um palco para exibicionismo. O momento converge todas as conquistas humanas para a espiritualização da criatura e para o desenvolvimento de seus valores nobres e divinos.

Amigos e trabalhadores, nessa hora tão decisiva, os médiuns maduros revestem-se de importância singular.

O primeiro século de mediunidade orientada pelas luzes da doutrina, desde as reuniões realizadas nos núcleos familiares, ensejou um nível de intercâmbio intermundos jamais deflagrado em qualquer tempo da história da Terra. Apesar disso, somente ao libertarmo-nos do corpo, averiguamos claramente quão rude ainda são nossos contatos com o mundo físico. Por esse motivo natural, não será exagero afirmar que o século XX, no que tange à mediunidade, foi o período de ensaios promissores, tendo em vista o futuro glorioso que espera o homem psíquico do século XXI. Os médiuns mais consagrados de nossa seara fizeram-se canais abençoados para que a linfa da Divina Providência jorrasse sobre o mundo. Eles próprios, contudo, sabem que estamos, indubitavelmente, na infância dos contatos entre as esferas física e espiritual.

O século XX foi uma farta semeadura. Os grãos deram uns a trinta, outros... Outros foram sufocados, pisoteados... Que o otimismo e a bondade não entorpeçam nossa visão quanto às infelizes ciladas da maldade... Em meio à farta semeadura de bênçãos nascidas do intercâmbio mediúnico, vicejou lastimável semente de joio...

O que era apenas uma ameaça ao intercâmbio mediúnico responsável, regido pela espontaneidade, hoje se concretiza com o autêntico cerceamento criado por padrões rígidos e institucionais nas leiras de serviço. Tais padrões, a princípio erigidos como "estacas de segurança", transformaram-se em "cartilhas" por sugestões de corações bem intencionados, porém, desprevenidos quanto ao significado da singularidade nos assuntos metafísicos. Além disso, a existência dos "mentores culturais" de sofismas, em ambos os planos, multiplicaram as noções inconsistentes absorvidas pela comunidade em suas práticas e conteúdos. O resultado inevitável é o restringimento, ainda maior, das manifestações do céu para a vida terrena.

Chega a hora de um novo chamado!

A hora que atravessamos é similar à parábola das Bodas, narrada em Mateus, capítulo vinte e dois. Os convidados do Rei não compareceram para o evento. A eles, foi destinado o convite, a oportunidade lhes pertencia, entretanto, por motivos pessoais, não compareceram. O Rei, perante a ocorrência, manda seus servos nas aldeias e campos a chamar quantos se presentassem ao mister.

O tempo e a aquisição do conhecimento têm causado perturbadora sensação de grandeza a muitos aprendizes das frentes de labor mediúnico. Desse modo, afastam de si próprios os convites ininterruptos aos novos misteres que a cada época são dirigidos à vida física, destinados a promoverem o progresso e amadurecimento de nossas relações interdimensionais.

Não se trata de criar novidades nas laboriosas frentes de intercâmbio, e sim de resgatar a linfa cristalina da produção mediúnica, exonerando-a dos pedregulhos e impurezas provenientes dos "entulhos culturais" a ela infligidos. Em verdade, propomos um retorno ao exercício mediúnico conforme as propostas do Cristo de Deus.

Somente a poder de trincheiras produtivas, implantadas em solo brasileiro no início do século XX, foi possível ampliar o raio social de ação do pensamento espírita. De tudo fizeram os vales da sombra e da morte com fins hostis a esse projeto. As tarefas socorristas constituíram-se em "válvulas de alívio" às pressões ininterruptas e incansáveis. Passaram-se cem anos nesse campo de lutas acirradas.

Ao penetrarmos esse terceiro período de mais setenta anos na busca da maioridade das ideias espíritas (7), urge algumas medidas salvadoras. A vitalidade do movimento em torno dos postulados espíritas dependerá de uma nova ordem cultural em todos os seus setores de ação, especialmente na sementeira da mediunidade.

A solidez da investigação fraterna requisita das equipes cristãs o gosto pela crítica, sincero apoio ao crescimento de todos, honestidade emocional em relação uns aos outros, tratamento responsável com todas as dúvidas. Somente nesse clima de relacionamentos sinceros e leais, respaldados pelo desejo de aprender e servir, a luz da misericórdia celeste brilhará, transformando a fragilidade humana em abundante celeiro de imorredouras venturas.

Existem servidores sérios e vigilantes na seara, experimentando o açoite da calúnia de trabalhadores incautos e orgulhosos. O tempo indica aos tais servidores do amor a discrição a fim de não terem seus ideais esmagados pelo peso da chocarrice alheia. A truanice não merece resposta. Compete-nos destinar a eles, servos destemidos, um alerta para que, nesse momento, não declinem da oportunidade de colocarem a luz onde possa ser vista por todos, no velador. São as bússolas indicadoras para os caminhos do Cristo ante os tempos novos.

O século XXI será o tempo do sentimento, e até as esferas abissais do planeta vivem esses momentos. Antes, dominavam pelas ideias, agora, com o avanço da ética e da cidadania, não conseguem usurpar, com a mesma facilidade, a inteligência humana, no entanto agridem o homem pelo coração. A inteligência avançou, mas a emoção humana, com raras e honrosas exceções, estagia no instinto!

É assim que atuam os hábeis manipuladores dos sentimentos perturbadores de desmerecimento e inferioridade. Fazem esquecer as conquistas para exacerbar a indignidade. Uma análise antropológica cuidadosa nos apontaria a intensidade com a qual as estruturas religiosas e políicas, de todos os tempos, exploraram a "cultura da indignidade" como instrumento de domínio. Os líderes das regiões abismais utilizaram de semelhante expediente na gestação desse estado deplorável das agremiações doutrinárias do Espiritismo no que tange às relações extrafísicas.

Que esse foco não entorpeça nossa razão, por se tratar de realidade previsível, considerando o caminhar lento, mas progressivo, da humanidade.

Incentivemos os caminhos novos aos nossos parceiros no mundo físico! Os médiuns que melhor irão retratar as mensagens celestes são os que educarem seus sentimentos.

As bússolas serão encontradas. É lei. O longo percurso de descoberta e criatividade solicita a aplicação de atitudes de amor condizentes com os novos tempos. Assinalemos algumas delas no intuito de estudar e debater as sendas da mediunidade em tempos de transição:

- valorosa noção e aplicação do 'espírito' de equipe;
- desapego de concepções;
- coragem para experimentar;
- adesão afetiva e espontânea na participação de novas vivências;
- investigação nas conquistas da ciência;
- acendrada postura de despretensão ante as vitórias com as novas práticas;
- incansável abertura mental para ouvir, alterar, avaliar e discutir em clima de aprendizado e fraternidade;
- superação dos limites filosóficos doutrinários em busca de conceitos universais aplicáveis à mediunidade."




:: C o n t i n u a ::

Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 18 de Outubro de 2015, 23:16
(http://www.palavrasdesaomiguel.com.br/wp-content/uploads/2014/04/10157323_847238358625828_8809211770629901623_n.jpg)




Nesta altura da palestra, Eurípedes alterou perceptivelmente o tom de voz. Uma luz de intenso brilho envolveu todo o seu corpo. O apóstolo parou de falar e fechou os olhos. Em meio à luminosidade, quase não podia ser mais percebido. Eurípedes transfigourou-se e surgiu um vulto de mulher. Uma Judia de roupagem similar ao cetim, com detalhes em azul claro. Rosto cândido e olhos verdes. Cabelos aos ombros. Uma paz indefinível tomou-nos a todos. Olhei para o professor ao meu lado e notei as lágrimas descendo pela face. Doutor Inácio, em ato reflexo, trouxe as mãos à boca, recordando um menino surpreso. Uma voz terna, como se penetrasse nossa alma como um todo, dizia:


- Filho do amor! Perseverai nas veredas que meu Filho amado vos conclamou! Exultai em serdes os servos benditos do último instante, chamados à gloriosa missão! Recordem Seu chamado quando ao Seu lado encontravam-se Moisés e Elias: "Levantai-vos; e não tenhais medo". ( 8 )  Sede solidários com a excelsa obra da regeneração humana. Dizei aos homens que Jesus está na Terra e convocai seus servidores ao ministério do amor incondicional, interligando dimensões, enaltecendo a vida!


Dona Modesta, guardando equilíbrio e sensibilidade, descreveu, pela clarividência que percebia, um enorme painel acima do Hospital Esperança. Era um retrato trazido por almas angelicais que reproduzia a cena do lava pés (9)  conforme o acontecimento original narrado no Evangelho.

O encontro foi encerrado em clima de extrema sensibilidade e sentimentos elevados.

Em poucos minutos, nosso diretor sintetizou uma previsão sobre o que será o século XXI no que tange aos rumos da espiritualização, e Maria abriu-nos as portas do coração como a preparar-nos aos desideratos da hora nova...

A ocasião foi um clamor do Mais Alto em favor do Espiritismo cristão e humanitário.



____________________________
1   A referida palestra está contida na obra Seara Bendita - Editora Dufaux.
2   Maria Modesto Cravo - fundadora do sanatório espírita uberabense.
3   Cícero dos Santos Pereira - espírita atuante no estado de Minas Gerais.
4   Inácio Ferreira - diretor do sanatório espírita uberabense.
5   Allan Kardec - comentário da questão 798 O Livro dos Espíritos.
6   Mateus, 5:17.
7   Referência contida na palestra "Atitude de Amor",  Seara Bendita, Editora Dufaux.
8.  Mateus, 17:7.
9.  João, 13: 1 a 20.





pelo espírito Ermance Dufaux / Wanderley S. de Oliveira
livro: Lírios da Esperança


Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: lconforjr em 23 de Outubro de 2015, 18:51
Olhai os Lírios

      Ref msg inicial deste tópico

      Na msg inicial é citado trecho do ESE que vai abaixo:

      "A piedade é a virtude que mais vos aproxima dos anjos; é a irmã da caridade, que vos conduz a Deus. Ah! Deixai que o vosso coração se enterneça ante o espetáculo das misérias e dos sofrimentos dos vossos semelhantes". (ESE, cap XIII, item 17).

      Conf: Aí está uma grande verdade, pois piedade é o mesmo que Amor que, por sua vez, é o objetivo que levou à existência da codificação, de todas as mensagens de espíritos benfeitores, de todos os ensinamentos do Mestre Jesus, afinal, da existência de tudo que acontece no mundo pois, como ensina a doutrina, tudo que acontece e tudo que existe serve como propulsor de nosso caminho em  direção ao aperfeiçoamento espiritual.

      No entanto, esse trecho isolado do restante de o ESE, não nos permite saber o “como fazer” para que, como ele diz, deixemos que nosso coração se enterneça ante o espetáculo das misérias e dos sofrimentos dos nossos semelhantes.

      Como a totalidade de outros textos, msgs etc, sem exceção de nenhum, só nos diz “o que fazer”, mas não o “como fazer”. Algum companheiro de estudo deste Fórum saberá nos ensinar “como fazer”?! Se alguém sabe, por favor, nos ensine!     

........................
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: lconforjr em 23 de Outubro de 2015, 19:20
Re: Olhai os Lírios

      Ref resp #3 em: 18 10 15, 19:56, de Hsideral

      Sideral escreveu:... Fiz este breve relato para enfatizar que estudar, estudar e estudar é um básico em quaisquer ciências, matérias.

      Conf: exatamente, meu amigo; a própria doutrina aconselha a estuda-la, a raciocinar sobre ela (“fé raciocinada”) para entendê-la melhor.

      Sider:... percebí que voce diz estudar o LE há muitos e muitos anos numa referência havida pelo amigo Vitor Santos. Com extensas e excelentes explicações do amigo Moises de Cerq Pereira.

      Conf: não só o LE, mas toda a codificação desde 1946, 70 anos portanto; e estudo mesmo em profundidade, comparando, raciocinando para entender os mais simples conceitos tanto que, para mim, é exatamente por estuda-la por tanto tempo que começaram a surgir dúvidas que antes eu não tinha.

      Sider: Minha dúvida e curiosidade, portanto, será saber se você 'estudou e entendeu' o LE, ou apenas 'leu'.

      Conf: meu jovem, pode me sabatinar sobre todos os conceitos “importantes” que a codificação contém que, dificilmente, ou nunca, vc me pegará em erro; só se minha memória falhar. Tente fazer isso! Vc, que leu minhas colocações, deve ter observado que nunca escrevi alguma coisa absurda ou incoerente, nem nas perguntas nem nas respostas ou explicações ou comentários que tenho feito! Mas, como estou tentando conhecer a DE do mesmo modo que os companheiros de estudo estão entendendo.  Por isso faço tantas perguntas!

      Sider: Pois estas suas dúvidas aqui quase coincidem e se repetem às efetuadas no link acima.

      Conf: e porq repito tantas vezes as mesmas questões? Porq fico tentando ver se alguém, que tenha boa-vontade, as responda! E veja que para as mais simples perguntas que trago, imprescindíveis para que se entenda a doutrina, não obtenho respostas. Por ex: porq uns são bons e outros são maus?

      Abraços.
..............
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 19 de Março de 2016, 01:10
Recordações de Modesta (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PWgybS1CODhMbUdzIw==)




Medidas Impostergáveis  ( 03 )


"Ora, assim como, numa cidade, a população não se encontra toda
nos hospitais ou nas prisões, também na Terra não está a Humanidade inteira."
O Evangelho Segundo Espiritismo, capítulo III, item 7.




A palavra sábia de nosso diretor revestiu-se de caráter emergencial. Os cooperadores do Hospital Esperança, recebemo-la como uma convocação para medidas inadiáveis.

A hora presente reclamava maior soma de informações sobre a natureza das provas depois da morte. Diversas equipes se mobilizaram ante os alvitres de Eurípedes para traçar planos.

Após o termino da inspirada explanação, Dona Modesta convidou o Professor Cícero e o Doutor Inácio ao seu gabinete particular, a fim de se organizarem.

- Inácio, creio que acabamos de obter endosso a velhos anseios! - abriu o diálogo Dona Modesta.

- Modesta, você sabe, há quanto tempo, espero para levar ao plano físico um noticiário franco e destemido sobre a situação dos espíritas nesta casa. Adoraria assustar um bocado de gente...

- Chega de sustos, Inácio! O momento nos pede clareza, entretanto com objetivos puramente educativos. De nada nos valerá surpreender e não educar.

- Jamais deveremos esquecer esse foco - atalhou o professor. Nossos confrades na Terra, especialmente os operários da mediunidade, carecem de apontamentos sobre mediunidade e transição. As colocações de Eurípedes foram decisivas. Imperioso oferecer-lhes mais vasta noção sobre o momento que atravessamos. De fato, as "cartilhas" e os "mentores culturais de sofismas" somente deixarão de existir quando fomentarmos a lucidez pelo bom senso.

- Continuo intrigado sobre como escalar essa montanha de condicionamentos sem "dinamitar".

- Sim Inácio, sua assertiva não deixa de ter fundamento - aclarou Dona Modesta -, desde que apliquemos farta dose de lógica e instrução moral, junto às novidades contundentes que detonam os paradigmas.

Entre uma xícara de chá e outra, os três seareiros continuavam a conversa. O professor, sempre muito ponderado, procurava oferecer um roteiro para as medidas da hora:

- A evolução é uma Lei Natural norteada por ciclos. Homens e instituições, ideias e fenômenos da natureza obedecem ao sublime princípio da "emancipação ordenada". Nascer e renascer, infância e maturidade, semeadura e colheita.

O Espiritismo alcança seu período de maioridade. É a etapa na qual ocorre a ceifa. Instante divino de definições, tendo em vista o futuro de expansão e glória a que tudo e todos se destinam na vida. Esse ciclo da ceifa orienta-se pela separação do "joio e do trigo". Após crescerem juntos, é mister discernir para que servirá o fruto da plantação.

Após mais de um século de Espiritismo prático em Terras brasileiras, desponta o momento de avaliação face aos horizontes novos que se descortinam para nossa abençoada colmeia doutrinária. Hora de pesar as conquistas e construir parâmetros adequados às necessidades no momento presente. Espiritismo é dinamismo e ação. somos todos conclamados a ressignificar, repensar, avaliar e edificar.

Desde o surgimento do Guia dos Médiuns e Experimentadores - O Livro dos Médiuns - lançado em janeiro de 1861, o mundo ganhou o mais lúcido roteiro de condução das forças psíquicas. Inspirados em suas abordagens profundas e seguras, médiuns e doutrinadores lançaram-se ao exercício. As conquistas foram ilimitadas. Mais de um século de vivências com o mundo espiritual, através das célebres reuniões mediúnicas, foi suficiente para consolidar uma noção clara e consciente de imortalidade entre os encarnados. Embora acanhadas para um orbe que passou milênios na ignorância intencional sobre as realidades extrafísicas, essas foram passos muito significativos.

A hora da maioridade é, no entanto, uma chamada à mais vasta investigação nos domínios da vida futura.

Imprescindível superar conceitos e barreiras culturais erguidas no valioso laboratório do intercâmbio intermundos. Todo o saber acumulado deverá conduzir às novas sondagens com propósitos educativos. Assim como Allan Kardec lançou-se na pesquisa honesta dos fenômenos, contrariando todas as opiniões a respeito de sua atitude, hoje, os aprendizes da mediunidade que almejam servir à causa do Cristo são convocados a imprescindíveis discussões.

Até onde a "cultura das convenções" que avassalou o psiquismo de inúmeros cooperadores na seara terá, igualmente, penetrado nesse campo sagbrado da relação interdimensional? Os parâmetros estabelecidos como roteiros de segurança mediúnica não estarão, em verdade, constituindo fortes amarras ao progresso das práticas de intercâmbio? Que caminhos tomar para situar a tarefa mediúnica como laboratório educativo de almas, distante do dogmatismo? Como edificar grupos de servidores mais adequados aos imperativos da hora de transição? Como resgatar e como utilizar a espontaneidade? Que noções cristãs exarar sobre educação mediúnica? Quais seriam os critérios na seleção dos componentes de uma frente de serviços mediúnicos em tempos de transição?

- Excelente reflexão, professor! - manifestou Dona Modesta.

- Sem dúvida, essas indagações são pertinentes ao contexto de muitas histórias que nós conhecemos neste Hospital! - exclamou o médico uberabense. Daí, por que não oferecer aos companheiros na carne uma nova série de obras que retratam os sucessos e insucessos dos espíritas?

- Não só dos espíritas, mas dos amantes da mensagem Cristã.

- Que seja, Modesta. O que importa é o casuísmo. Para mim, os escritores espirituais foram muito generosos, poupando notícias nesse particular - asseverou, com sua típica sinceridade, o Doutro Inácio.

- Generosos, não, Inácio! Foram compassivos - retrucou o professor.

- Pode ser! Ainda assim o momento pede um "susto" - insistiu o doutor.

- Tenho a certeza, Inácio, de que sua ligação com o médium uberabense será o caminho certo para os recados mais "diretos". Essa será uma vertente a seguir. Por outra análise, Eurípedes tem demonstrado enorme esforço na formação de trincheiras do amor cristão e humanitário. Fale-nos um pouco mais de sua experiência no assunto, professor - solicitou Dona Modesta.

- Em todas as épocas, os inventores e descobridores, cientistas e expoentes da cultura, educadores e religiosos tiveram a proteção de frentes solícitas e benfazejas, a fim de exercerem suas missões e compromissos. Trincheiras de amor sempre foram organizadas em torno de quantos acalentaram e viveram pelos sonhos de progresso e amor. Se esse é o dinamismo do Mais Alto em favor de quantos cuidam do avanço linear do planeta, que se dirá daqueles cuja tarefa é abrir os olhos dos homens, verticalizando a mentalidade e a ação para os destinos além da matéria? Os vanguardeiros da espiritualização sempre são alvos da Misericórdia Celeste no cumprimento de seus misteres.

Por essa razão, nossa fala converge para um apelo clamoroso e urgente na formação de trincheiras de amor para o planeta. Tais medidas fizeram-se indispensáveis e, algumas vezes, insubstituíveis para com os projetos de caridade e resgate em tempos de transição planetária.

Os serviços defensivos do bem, nessa etapa de mutações, são imprescindíveis. Urge a criação de pólos de retaguarda e refazimento espiritual. Toda pequenina luz que se acende no bem é tremendamente procurada pelo movimento das trevas densas. Difícil avançar na direção da luz sem inspiração e equilíbrio. E, sem imunidade, não garantimos por muito tempo as aspirações nobres.

Os ataques e a criatividade dos gênios da perversidade nunca foram tão pujantes. Essa é a lei. É preciso que o inferno procure o céu para exterminá-lo e acabe concluindo sobre a conveniência de aceitá-lo.




:: Continua ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 19 de Março de 2016, 02:19
:: Continuação ::


(https://scontent-gru2-1.xx.fbcdn.net/hphotos-xaf1/v/t1.0-9/1660274_401299446676907_5414193795505746160_n.jpg?oh=e5e8cd75bd955c0dc9e3c1540741a79d&oe=57526779)



Pesada nuvem se adensa na psicosfera terrena, proclamando a decisiva hora do ajuste. As espessas crostas do mal são cuspidas dos abismos e sobem à superfície em regime de higienização psíquica do planeta. Uma marcha, jamais vista em todos os tempos, movimenta as regiões abissais da erraticidade. Tempo de transição!

Uma semicivilização se esconde nas entranhas da subcrosta. Por lá, enxameia a vida em estágios de precariedade e sordidez. São nossos irmãos. Nossa família.

Nossas notícias não devem, porém, ser analisads sob um prisma apocalíptico de decadência e ruína. Muito ao contrário! Se a humanidade "atrai" a sua parcela enfermiça "para cima", é porque adquiriu os recursos profiláticos para se curar. Essa é a ordem. Esse é o ciclo pelo qual passamos nessa Casa de Esperança, chamada Terra.

Nos compromissos da espiritualização, despedem-se do mundo físico os "desbravadores da Era do Espírito" para que assumam os "operários audaciosos da regeneração". Somente com muita coragem e desprendimento de convenções e padrões rígidos, seremos capazes de estabelecer ambientes para as sentinelas vigilants do amor nesse turbilhão de lutas e conflitos.

O espírita, nesse cenário, é convocado a severo chamado. "Muito será pedido a quem muito recebeu..."¹  Hora de romper com as amarras do receio e, a exemplo do Senhor Allan Kardec, em plena Paris da cultura e do saber, lançar-se ao trabalho.

Decerto todo espírita consciente, por fazer parte da sociedade encarnada, deverá agir como um cidadão cuja tarefa é realizar seu papel responsável na erradicação dos males coletivos em todas as esferas. Ledo engano, todavia, será ignorar que a origem de todos os males humanos, em todas as épocas, sempre teve como raiz os sítios da perversidade, organizados há mais de dez mil anos nas grotescas localidades da vida errática.

Ninguém, em são juízo, vai querer resolver os problemas do mundo dentro de uma reunião mediúnica de amparo, descuidando da tarefa de responsabilidade social. Mas nosso apelo dessa hora é para a formação de grupos conscientes, dispostos a cooperarem em uma das mais árduas medidas de saneamento e solução, ante os destinos novos da humanidade.

Há vida nesses antros fétidos e nauseantes. Cabe-nos enxertá-los de esperança para recobrarem a lucidez.

Há vida nesses pântanos de amargura, compete-nos nutri-los de carinho para sentirem que podem recomeçar.

Nesses pântanos de dor, existem lírios exuberantes capazes de refletir a luz do sol. É nossa família que ficou no tempo, mendigando nosso amor. Apresentam-se iludidos pelo orgulho e, fazendo-se de fortes e vingativos, entretanto, amam e amam muito. Nosso desafio é amá-los ainda mais para descobrirem o quanto vale a pena viver plenamente e retornar nossos caminhos para Deus. Busquemos os nossos lírios.

Depois de uma pausa em que se mostrava, sobremaneira, emocionado, continuou o professor:

- Nossos números de censo são muito próximos do censo humano.

No período da vindo do Cristo à Terra, a faixa estimativa populacional girava na ordem de trezentos milhões de almas reencarnadas. Nessa ocasião, os censos do Mais Alto notificam que, entre encarnados e desencarnados, a Terra possuía uma população gerl na ordem de vinte bilhões de almas. Nunca aconteceram tantas reencarnações na humanidade até essa época. Depois houve um declínio acentuado em virtude da precária condição de vida na derrocada do império Romano, reduzindo a população humana a menos de duzentos milhões de criaturas no corpo. Somente no segundo milênio da Era Cristã, a população voltou a crescer vertiginosamente, atingindo pouco mais de quinhentos milhões de almas na carne té o século XV. Em 1900, o contingente girava em torno de um bilhão e seiscentos milhões. Mas somente após 1950, encontramos o período decisivo da humanidade. Viramos o milênio com a estimativa da população terrena de seis e meio bilhões de espíritos no corpo e com uma população geral de trinta bilhões de criaturas.

Essa projeção nos auxilia a concluir que, em certas épocas, os serviços socorristas realizaram-se totalmente na vida espiritual, considerando ser inexequível efetivá-lo com a participação humana. Depois da Doutrina Espírita e da experiência adquirida em mais de cem anos de atividades mediúnicas, o cenário é outro. Hoje são mais de seis bilhões de espíritos no corpo e nunca a Terra passou por tão diferenciado processo de êxodo, migração e emigração de espíritos entre o mundo dos sentidos físicos e extra-sensóriais.

A senhora tem reflexões mais claras, Dona Modesta, sobre o significado desses dados!

- É verdade, professor. Venho analisando-os para ter uma noção mais fiel sobre a extensão do trabalho que nos aguarda nesse século, junto aos servidores da mediunidade em ambas as esferas.

A Terra tem hoje um pouco mais de seis bilhões de almas, envergando o corpo carnal. Sua população geral, conforme os "censos" do Mais Alto, chega à faixa de trinta bilhões de criaturas atraídas pelo magnetismo e lutas do planeta.

Do contingente geral, temos vinte por cento dos habitantes reencarnados. O que possibilita pensar em quatro almas de cá para cada uma na vida física.

Através de controles bem mais elaborados e sem margens de falhas, as equipes de celestes sociólogos, que orientam os destinos dos continentes, destacam que quatro bilhões desses seis bilhões reencarnados são almas doentes que purgam dolorosos processos de reeducação. Os outros dois bilhões são corações na busca ostensiva de sua recuperação, entre os quais, pouquíssimas vezes, encontramos os chamados "missionários coletivos", ou "encarregados de outorgas específicas" que venham a corroborar com o planejamento do progresso e bem-estar social.

Algo muito similar sucede-se com os outros vinte e quatro bilhões da população terrena na erraticidade. Temos doze bilhões de desencarnados em patamares de luta e sofrimento, seis bilhões de almas medianas que já cooperam eficazmente na tarefa regenerativa de outros, e mais seis bilhões de condutores elevados, entre os quais se encontram os "avatares" que velam pelo grande plano do Cristo para o orbe, missionários, guias espirituais, avalizadores, espíritos superiores, auxiliares galácticos. A maioria deles liberados da reencarnação ou ainda inúmeros homens e mulheres comuns, que venceram as provas expiatórias no suceder das reencarnações.

Algumas inferências tornam-se necessárias para que possamos apresentar propostas de serviço e cooperação inadiáveis aos amigos no corpo. Somando-se à aglomeração de seres em franca condição de dor e doença, temos um total de dezesseis bilhões, em ambos os planos de vida, distribuídos em quatro bilhões no corpo e mais doze bilhões nas regiões de pavor e desequilíbrio de nosso plano. Uma média de três almas em crise para cada uma em tormenta na vida física, totalizando um pouco mais de cinquenta por cento da população geral do orbe.

Desses dezesseis bilhões encontramos quatro bilhões de almas, apesar de enfermas, em franca busca do bem. Outros quatro bilhões são criaturas perversas que deliberadamente agem no mal. Os oito bilhões restantes se encontram em postura de indiferença ou indecisão, com fortes apelos para a apatia e o desânimo. Essa faixa de doze bilhões de enfermos traz em comum a falta de idealismo superior e o apego às questões materiais, dois traços que se distribuem de conformidade com a individualidade, seus pendores, seus valores e sua cultura. E daqueles quatro bilhões de irmãos nossos que gerenciam o mal através da perversidade, temos hoje nada menos que um bilhão deles em plena sociedade terrena, destilando o fel da cultura nociva e da atitude insana, enquanto outros três bilhões ainda guardam os postos mais elevados nas "ordenações infernais" juntos às esferas extrafísicas.

Imaginem uma casa terrena com cinco membros na família e considerem que, no mínimo, mais vinte entidades ali transitam quase que diuturnamente. O critério que define essas aproximações são variados e multifacetados, criando as mais infinitas formas de interação e convivência.

Tomando por base a colocação de O Livro dos Médiuns, item 232, temos:


Consideremos agora o estado moral do nosso planeta e compreenderemos de que gênero devem ser os que predominam entre os espíritos errantes. Se tomarmos cada povo em particular, poderemos, pelo caráter dominante dos habitantes, pelas suas preocupações, seus sentimentos mais ou menos morais e humanitários, dizer de que ordem são os espíritos que de preferência se reúnem no seio dele.


O Brasil insere-se como grande polo magnético que renova e alivia as dores humanas pela força natural que irradia de seu povo e de seu solo. Fé espontânea e natureza rica são fontes inesgotáveis de atração para quantos se encontram sem norte na vida espiritual. Razão pela qual esse torrão tem funcionado como um centro de gravidade para todas as questões que dizem respeito à história e aos caminhos da Terra.

Nessa etapa chamada transição, torna-se imprescindível alargar os horizontes dos depositários da revelação espírita, a fim de não reduzirem, em míseros informes literários, a complexidade das operações de que se revestem esses períodos decisivos para o futuro.



:: continua ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 19 de Março de 2016, 02:55
:: continuação ::



(https://fbcdn-sphotos-h-a.akamaihd.net/hphotos-ak-xap1/v/t1.0-9/10154913_390306177776234_9128484874782559143_n.jpg?oh=d588442403121b252e56bd3cf276c001&oe=57851072&__gda__=1464956334_71c8f6513317c13c8c359ba1e320b475)




Transição é o período que separa dois ciclos. Passamos, neste instante, pela transição entre o ciclo provacional-expiatório para o ciclo regenerativo.

Além de fatores sócio-políticos e econômicos, o traço indelével dessa metamorfose é, antes de tudo, espiritual. Os caracteres do homem civilizado são claros conforme a questão 793, de O Livro dos Espíritos:


Todavia, não tereis verdadeiramente o direito de dizer-vos civilizados, senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que a desonram e quando viverdes como irmãos, praticando a caridade cristã. Até então, sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização.



Homens civilizados, na acepção integral da palavra, são aqueles que integram moral e inteligência a serviço do bem de todos.

A moralização do planeta é condição essencial para que se instale a Era de Regeneração.

- Esses dados deveriam ser os primeiros a serem revelados ao plano físico! - intercedeu o Doutor Inácio. Somente estando por aqui para se ter noção do significado de uma tarefa de intercâmbio nesse cenário de lutas globais.

- Exatamente, Inácio. Esse é um foco importantíssimo!

- Volto a insistir...

- Lá vem o cabeça dura!... - descontraiu Dona Modesta.

- você já sabe, Modesta...

- Claro que sim! Você adoraria dar notícias sobre os infernos.

- Que sabem os espíritas sobre dragões, as sete organizações do mal, a origem de Lúcifer, a influência das falanges perversas na raiz do mal?... Que noções possuem sobre a antropologia da maldade organizada no planeta? Será que já ouviram sobre as "escórias", o "vampirismo assistido" e os "vibriões"? Quem revelou algo sobre os sete vales da perversidade e o cinturão vibratório que agasalha a humanidade? Quantos conhecem sobre as relações entre religião e as ordenações das hostes do mal? Quais informações possuem sobre a vida social nessa semicivilização? Que conhecem além do umbral?

- E acreditariam? - aparteou o professor.

- Certamente teriam dificuldade. Se eu mesmo, estando aqui, me assusto ainda com o que vejo, que se dirá no plano físico?! Apesar disso, a hora chegou e estamos convocados a novos procedimentos.

- Inácio tem razão, professor! Eurípedes referiu-se à Parábola das Bodas. Não podemos pensar naqueles que são considerados os "aprovadores da pureza doutrinária" se desejamos servir ao Cristo. Se nossos propósitos forem honestos e consistentes, serão ouvidos pelas almas livres de amarras culturais e dispostas a dilatar sua visão espiritual. Só não podemos ser ingênuos... - concluiu Dona Modesta.

- Nossa coragem não pode ser ingênua! Nisso concordo... - completou Doutor Inácio.

- E o professor, que pensa?

- Realmente compete-nos informar sobre a extensão do mal para chamar os homens a dimensionar o serviço que nos aguarda. Entretanto, haveremos, igualmente, de noticiar sobre as medidas salvadoras do bem a fim de incentivar o otimismo.

O "excremento mental" de expressiva parcela da humanidade geral, decorrente de hábitos primitivos e de atitudes perversas, contamina a psicosfera terrena com espesa "nuvem bacteriana" capaz de provocar desequilíbrios de variado matiz.

Organizações que envelheceram nas técnicas do mal e da sordidez, da crueldade e da inteligência beligerante, mais que nunca, agitam seus "bastonetes de ódio" contra as felizes investidas do Mais Alto em seus "Túmulos de Maldade".

Essa matéria mental, por si só, representa pesado ônus para o psiquismo humano que, para se ver livre de seu contágio, carece de severo regime de asseio nos pensamentos, nos costumes, na oração defensiva, na meditação e na ação benfazeja.

Estamos todos, sem exceção, a serviço do programa regenerativo da humanidade, planejado pelo Cristo para instauração da Era do Espírito na Terra.

Os corações apaixonados pelos interesses maiores assumem espontâneos retornos à vida material no desafio dos testemunhos. Outros tantos, que já se encontram nos ofícios de espiritualização, são convidados a trabalhar pela "escória das trevas" em ambos os planos de vida.

Uma encarnação nesse clímax vale por mais duas, considerando o aproveitamento que se fará.

Essa é a mensagem contida no Evangelho quanto aos trabalhadores da última hora, que recebem salário igual, mas que suam com mais intensidade os seus membros no trabalho ativo.

Quem desdenhar semelhante quadro aqui apresentado por nós, certmente estará optando pela ilusão que prefere tirar-nos a chance de enxergar e vislumbrar o desafio mais difícil e doloroso, em detrimento das leiras confortáveis de labor, assemelhando-se ao lavrador que, pretextando prudência, não sai ao sol, nem vai aos campos, aguardando farta colheita de frutos somente porque tem em seus celeiros os divinos grãos do espiritismo...

Mensagens como essas ainda não devem ser dirigidas a uma comunidade que não se sente sensibilizada por trocar horas de lazer pela edificação moral. Se muitos aprendizes ainda vacilam em acreditar que as trevas podem com grande mestria reencarnar os verdugos do vício e da veleidade, como acreditarão em propostas voltadas para o sacrifício e o desprendimento? Se muitos médiuns ainda vacilam em deixar seus prazeres de fim de semana, como receberão semelhantes notícias?

Certamente, nesses casos, os "velhos chavões" funcionarão como escape e justificativa: "Por que mensagens tão desastrosas quando o espiritismo deve confortar?!" "Por que notícias tão tristes quando a função da Boa Nova é dar a boa notícia?!" Outros mais dirão: "A que pode nos conduzir essas ideias senão ao medo e terror?!" Ainda outros vão asseverar: "Com que fim, algum espírito do bem trataria desses assuntos?!"

As perguntas se multiplicarão, embaladas pelo desculpismo e pela invigilância dos que se acostumaram aos regimes de "dever cumprido" no limite das folgas.

Porém, aos que destinamos essa convocação em regime de urgência, será pedido muito equilíbrio ante o medo de dar novos passos e a prudência que, nós próprios, os conclamamos para não se perderem nos labirintos da fascinação e do fanatismo.

- Tomaremos, portanto, medidas no intuito de apressar a formação de novos horizontes aos lidadores espíritas no que concerne à mediunidade. Que cada qual reúna sua equipe e defina os passos - arrematou Dona Modesta.

_____________
¹  Lucas, 12:48.




pelo espírito Ermance Dufaux / Wanderley S. de Oliveira
livro: Lírios da Esperança
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 09 de Abril de 2016, 22:49
(https://fbcdn-sphotos-e-a.akamaihd.net/hphotos-ak-xaf1/v/t1.0-9/1800488_613300618758091_833667597_n.jpg?oh=29511d928bc1db6a0e53fb24fcf2368e&oe=57B8DC5A&__gda__=1472136075_6145c1ce3c7194629c4dabc176124925)





Novos Colaboradores   ( 04 )



"Aliás, que importam algumas dissidências, mais de forma que de fundo!
Notai que os princípios fundamentais são os mesmos por toda parte e vos hão
de unir num pensamento comum: o amor a Deus e a prática do bem."
Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, conclusão, item IX.




Era chegado o momento de levarmos ao mundo físico um novo contingente de reflexões acerca das relações interdimensionais. Todas as atividades do nosocômio, especialmente as alas destinadas a médiuns e dirigentes, passariam por avaliações profundas no intuito de melhor atenderem aos desígnios dos Planos Maiores. Entre nós os desencarnados, havia muito a ser feito.

No dia posterior à palestra, reunimos com o professor Cícero Pereira. Discutimos algumas medidas para as tarefas de rotina junto ao pavilhão dos dirigentes espíritas. Seria de bom alvitre ampliar o raio das discussões, oferecendo maior liberdade aos recém-ingressos no Hospital. Suas impressões, ainda carregadas pelo teor das ideias geradas no plano físico, constituem farto material educativo.

Nas atividades matinais, cujo objetivo é realizar o processo gradativo de adaptação e desilusão post mortem, reunimos pequeno grupo de líderes espíritas recentemente desencarnados e passamos ao labor. O Professor Cícero fez breve resumo da prédica "Atitudes de Amor", de Bezerra de Menezes¹, passando em seguida a debater a seguinte questão: "Que dizer aos amigos na leira espírita carnal sobre imortalidade nesse momento de transição?".

Uma servidora consciente destacou:

- Professor, de minha parte, creio ser urgente deixar claro aos companheiros reencarnados o significado do "período de maioridade" no qual adentra o Espiritismo, conforme a fala amorável de Bezerra de Menezes. Como sabemos, muitos idealistas ainda estão subjugados por noções ilusórias acerca da expansão das ideias espíritas. Muitos chegam mesmo à infantilidade de acreditar que toda a humanidade se tornará espírita. Não concebem a urgência do centro espírita se deslocar para os meios sociais em regime de participação e responsabilidade social. Ao invés disso, aguardam a sociedade bater às portas dos núcleos de amor.

- Concordo! - asseverou um colaborador. A palestra de Bezerra, sem dúvida, é um marco na história do movimento espírita de ambos os planos. Será oportuno aos homens na carne saberem que o Espírito Verdade continua com um programa bem definido para o futuro do ideário.

- De minha parte - atalhou outro integrante do grupo - além dos dados preciosos sobre a fala do benfeitor, creio que devemos mostrar aos amigos de doutrina os efeitos da negligência e descaso com os recursos concedidos pela Divina Providência. Raros de nós escapam dessa aferição.

- Permita-me discordar! - atalhou um dos integrantes que fora presidente de centro espírita por quarenta e seis anos consecutivos - para mim, a melhor advertência destina-se ao problema dos cargos. Quem sabe um estudo sobre poder e o apego?!

As falas multiplicavam conforme as visões pessoais quando o professor, inspiradamente, ofertou-nos precioso foco condutor das ideias.

- Amigos, inegavelmente, todas essas propostas são valiosas. Podemos utilizá-las com enfoque mais abrangente e profundo.

- Como? - interrogou o jovem Lisandro, trabalhador da cidade do Rio de Janeiro, recém-chegado ao Hospital.

- Convém-nos usar as vivências pessoais sempre em função da Obra do Cristo e não apenas para noticiar efeitos de nossos desatinos ou transmitir informes reveladores ao mundo terreno.

Lisandro, não satisfeito, voltou a expressar-se:

- Explique melhor, professor!

- Nossos equívocos são diferentes quanto à forma, entretanto, quase sempre trazem origens morais similares. Seria oportuno adequar todas as ideias expostas a um tema geral que auxiliasse mais claramente na identificação das causas das lutas humanas. Assim, contribuímos para formação de uma coletividade espírita mais ativa e consciente de seus deveres sociais e humanitários.

Existe um velho tema que merece toda a atenção dos trabalhadores do Cristo. A mensagem do Evangelho, em todos os tempos, vem sofrendo o golpe dos "inimigos do Cristo" através do ofuscamento da verdade. O objetivo deles sempre foi reter a Terra na ignorância sobre as luzes espirituais como sendo a mais eficaz estratégia de domínio.

- E qual tema é esse? - insistiu Lisandro.

- As nuances da imortalidade. É hora de rasgar o véu, "desmascarar" o plano espiritual. Mostrá-lo como ele é. Ajudar nossos companheiros no corpo a entenderem a vida dos espíritos sem o dogmatismo com o qual ainda teimam em pintá-la com as cores dos velhos condicionamentos religiosos. É comum ouvirmos os espíritas dizerem que o plano terreno é uma cópia daqui. Apesar disso, com raras exceções, ainda enxergam o mundo espiritual através das lentes das tradições religiosas. Urge eliminar os mitos sobre a erraticidade, "demitificar" e desmistificar a realidade das esferas evolutivas adjacentes à vida material. Os adversários da causa sabem que não podem mais esconder a imortalidade da alma, porém, trabalham muito para tentar turvá-la e subjugá-la a malfadados regimes de ameaças e penitências do céu e do inferno, agora conhecidos, por lá, como umbral e Nosso Lar desde o surgimento da literatura mediúnica subsidiária.



:: Continua ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 09 de Abril de 2016, 23:27
:: Continuação ::



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O professor mal terminou sua fala e foi interrompido por um doutrinador de grande cidade do estado de Goiás. Visivelmente incomodado, embora sincero, assim pronunciou Marcondes:

- Estará o meu irmão fazendo uma crítica velada às obras de André Luiz que explicam em detalhes o plano espiritual?

- Não se trata de crítica, Marcondes. Você está chegando agora em nosso plano e, tanto como nós, verá que muito temos a aprender e a repensar sobre as noções trazidas da vida física acerca do plano espiritual. Comumente, carregamos para cá os conceitos e pontos de vista individuais, talhados pela cultura da comunidade doutrinária. Tudo muito natural! No entanto, o meu amigo terá tempo bastante para descobrir que, o farto material sobre vida imortal destinado aos homens, por André Luiz, representa minúsculo grão de areia na praia infinita das verdades espirituais.

- Essa colocação é um reducionismo ao Nobre Guia! Que autoridade tem o senhor para essa afirmativa sobre ensinos tão completos?! - desabafou o dirigente.

- Reducionismo sobre qual sentido?

- O senhor, dessa forma, diminui o significado da excelsa obra mediúnica de Chico Xavier. Para mim, essas obras constituem a quarta revelação. Que mais precisa um homem saber além dos ensinos enviados por André Luiz? Além do mais, quem pode questionar a literatura do médium Xavier?

- Não intenciono diminuir. A excelência desse Nobre Guia se manterá para a eternidade. Ele próprio, todavia, nunca assumiu, assim como seu medianeiro, a condição popularizada de infalibilidade. Se encontrar por aqui com André Luiz, verá que ele mesmo gostaria de complementar seus apontamentos, alguns deles atualizados pela ciência. Suas percepções, irmão querido, ainda estão marcadas pela natural influência de acanhadas percepções da cultura terrena. Os livros desse mensageiro são como capítulos bem escritos no "grande livro da verdade". Muitos capítulos lhes antecedem e vários outros o sucederão. Teremos a quinta, a sétima, a milionésima revelação e ainda haverá o que ser revelado. Quanto a questionar médiuns e os frutos de sua lavra, é questão credora, igualmente, de muitas considerações. Nesse campo, infelizmente, ora os homens têm sido ingratos e antifraternos, ora idólatras e crentes demais.

- Com o conteúdo desses livros, temos material para quatro reencarnações ou mais; então que ideia é essa de enviar mais novidades mediúnicas? Com qual finalidade? - falou o líder já com certo grau de irritabilidade.

- Sem dúvida, essa série mediúnica será material para muitas encarnações, se estivermos falando do fundo moral que as compõem. Entretanto, meu companheiro, referente a novidades e revelações, André Luiz ainda tem, ele próprio, muito a dizer em acréscimo ao que já escreveu. Parece-nos, infelizmente, que os médiuns se sentem indignos de sua companhia. Eis um dos problemas muito explorados pelas trevas. Os núcleos do amor cristão no planeta precisam tomar consciência dessa ocorrência. Urge rasgar véus...

- Estaria, porventura, afirmando que existem outros médiuns em condições de receber André Luiz pela mediunidade?

- E por que não? Não só André Luiz, mas todo o céu está à procura da Terra. É de se lamentar a crença difundida entre os médiuns espíritas sobre a distância na qual se encontram os Bons Espíritos. Mais sofrível ainda é o conceito que possuem sobre mentores espirituais e espíritos superiores, como se fossem almas eleitas e infalíveis, vestidas de túnicas brilhantes, com linguagem empolada, as quais só seriam vistas, sentidas ou entendidas quando os médiuns vencessem todos os seus vícios e se tornassem criaturas impolutas. Os opositores desencarnados não conseguiram impedir a difusão das ideias doutrinárias, todavia, causaram-lhe extrema deturpação, atrasando, sobremaneira, o alcance da maioridade do Espiritismo e a maturidade dos espíritas. É de todos os tempos essa cultura de inferioridade. Muito agrada aos líderes da perversidade a ideia de que o Cristo e seus enviados estejam muito distantes das nossas necessidades, inalcançáveis por criaturas como nós... Com essa cultura da indignidade, atingiram alvos fundamentais...

Evidentemente, será mais difícil a André Luiz obter os resultados excepcionais através do médium que não saiba conjugar os verbos servir e aprender, acrescidos da atitude do sacrifício. O problema não é a suposta distância na qual estejam os Espíritos Sublimes em relação aos homens, e sim a atitude enfermiça de apatia que preferem manter os homens relativamente aos Espíritos Sublimes. Eis a razão de se rasgar o véu e apresentar, aos nossos parceiros de causa, o mundo espiritual despido de inverdades alimentadas pela obsessão da ignorância e do preconceito que ainda carregam. Urge levar-lhes a mensagem de que as esferas de vida imediatas à morte não são tão diversas quanto se imagina, na qual os efeitos de nossas ações se prolongam natural e claramente em regime de continuidade. Bilhões de almas de nosso plano vivem como se na Terra estivessem. Ainda há muito a ser dito sobre essa interação interdimensional.

- É difícil acreditar que seja dessa maneira. Prefiro não ouvir mais nada. Não foi nada disso que aprendi nos livros idôneos da doutrina... Gostaria de me retirar da reunião, Ermance! Posso?

- O meu irmão é livre para retornar ao seu quarto. Seria melhor ficar e acompanhar o desfecho de nosso encontro. Depois falaremos em particular. Faz parte de seu novo aprendizado.

- Não sei se devo continuar a escutar essas inovações, pois tenho minhas próprias visões. Minha formação doutrinária não condiz com essa linha excessivamente inovadora. Depois de servir ao Espiritismo por tantos anos, já começo a me decepcionar com o ato da morte. Desde quando cheguei aqui, nada é como esperava - externou o dirigente com um mal súbito. Amiga, não sei se quero aprender, ouvindo o que não me agrada! Creio não merecer isso depois de tanta luta no corpo.

- Sim, compreendo seu desgosto!

Para corações como Marcondes, é muito constrangedor despir-se de preconceitos enraizados no mundo físico, simplesmente em razão de não se adequar ao dinamismo da troca e da abertura mental para reciclar as concepções e posturas. Ele foi um bom homem, no entanto, descuidou da edificação do reino espiritual em seu sentimento, restringindo-se a volume de informações cerebrais, o que lhe dificulta a adaptação após o desencarne. Elegeu o conhecimento como sinônimo de autoridade e, em verdade, mesmo dizendo ouvir a todos, preferiu sempre seus pontos de vista pessoais. A morte, no entanto, convida-o a ter de ouvir o que deve, por não querer ouvir o que precisava quando na vida corporal...

Refeito o mal estar, que quase se instalou entre todos, Professor Cícero continuou sua explanação.

- Também tive meus desacertos e compreendo sua indisposição, amigo querido. Faça um esforço para superar, pois quanto mais rápido se lançar a esse trabalho, menos doloroso se tornará o processo da desilusão. E digo mais: bom que sua desilusão começe aqui entre amigos, porque, no meu caso...  Aqui no Hospital, cada contato, cada encontro fraterno, cada ocasião se tornará um convite de elevação ao qual a alma não tem como resistir. Agora que nos libertamos da carne, falta libertarmo-nos de nós mesmos... O meu relato não é uma inovação. São fatos e vivências. O amigo terá chance de presenciar com os próprios olhos. Necessário deixar claro que, quando falo em rasgar o véu, falo de meus próprios fracassos os quais poderiam ter sido evitados, caso tivesse noções mais claras sobre as célebres questões:  "De onde viemos?  Para onde vamos?  O que fazemos no corpo?".



:: Continua ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 09 de Abril de 2016, 23:47
:: Continuação ::


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Procurando aprender um pouco mais, assim apresentou-se Anita, experiente trabalhadora da oratória:

- Estou aqui há menos de duas semanas. Meu trespasse foi muito doloroso em razão da doença lenta e progressiva. Sinto-me como se tivesse renascido depois da morte, e, mesmo com tão pouco tempo nesse Outro Lado, já percebi muita coisa que jamais ouvi dizer através dos livros mediúnicos. Fico deveras entusiasmada com a iniciativa de levar aos confrades no corpo informações novas sobre os fatos presenciados na vida extrafísica.

- Fico feliz com sua contribuição, Anita! - atalhou o professor. Nossa tarefa, contudo, não pode circunscrever-se ao mero ato de fazer revelações sobre o que vemos ou a forma como vivemos nesse Outro Lado da existência. Os espíritas, nesse sentido, já estão, demasiadamente, enriquecidos de notícias. A revelação deve ser poderosa ferramenta que os auxilie a mensurar os resultados de nossas escolhas e condutas para além das percepções sensoriais. Sabe-se muito sobre o que ocorre por fora em matéria de morte. Agora é necessário tecer maiores considerações sobre seus efeitos em nossa intimidade.

Quando o explanador terminou de falar, Marcondes, imediatamente, levantou-se da cadeira e disse, inconformado:

- Para mim, chega! Com licença. Não quero ouvir tanto sofisma. Tem que estar havendo algum problema com vocês. Isso não é Espiritismo, é "achismo", pontos de vista transgressores da pureza doutrinária - e saiu furioso da sala.

Logo após a saída de nosso irmão, outro fato inusitado veio da parte de experiente líder espírita, cujo trespasse havia se dado há alguns dias. Assim expressou-se Selena, líder influente em Minas Gerais:

- Perdoem-me, tenho que falar, senão vou explodir! Estou muito decepcionada com tudo que presenciei aqui. Acreditei que a morte me livraria desse mau humor de alguns espíritas de topete. Minha mente está muito confusa e não gostaria de escutar mais nada. Chego a pensar se não foi uma grande ilusão ser espírita. Com licença, tenho que repousar.

Outros encontros que fizemos com várias pequenas equipes de recém-desencarnados trouxeram farto material para pensar. Presenciamos muitos comportamentos agressivos e arrogantes, e, poucas vezes, algumas expressões de alegria e cooperação com a tarefa em curso; entretanto, nada constituía obstáculo ou aflição para nós. Era uma rotina nos inúmeros serviços de adaptação e aprimoramento. Em verdade, tais ocasiões revestiam-se de valores para todos e, para alguns, era o início de um despertamento longo e doloroso.

Ouvir a palavra daqueles que chegavam ao nosso plano, ainda tomados pelas ilusões mundanas, revestia-se do valoroso aprendizado de contextualizar nossa linguagem de espíritos à linguagem dos homens, dando o colorido mais próximo da realidade terrena quando nos serviços da escrita mediúnica.

Ante as reações de Marcondes e Selena, a fala fraterna de Eurípedes exarada na noite anterior ecoava em nossas reminiscências. Quanto a ser feito pela criação de pólos genuinamente cristãos de serviço e amor! Quanto a realizar para definirmos nossas relações de concórdia em torno do amor a Deus e a prática do bem!

Nossos irmãos seriam convidados a encontros particulares para o dia posterior.


______________
¹  A referida palestra está contida na obra Seara Bendita - Editora Dufaux.




pelo espírito Ermance Dufaux / Wanderley S. de Oliveira
livro: Lírios da Esperança

Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 18 de Abril de 2016, 00:25
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Primeiras Entrevistas   ( 05 )



"O orgulho vos induz a julgar-vos mais do que sois; a não suportardes uma
 comparação que vos possa rebaixar; a vos considerardes, ao contrário,
 tão acima dos vossos irmãos, quer em espírito, quer em posição social, quer mesmo
em vantagens pessoais, que o menor paralelo vos irrita e aborrece."
Um Espírito protetor (Bordéus, 1863.)
O Evangelho Segundo Espiritismo, capítulo IX, item 9.


Logo pela manhã, no dia seguinte, solicitamos a presença de Marcondes em nossa sala. Ao chegar, o dirigente cumprimentou-nos:

- Bom dia!

- Como está, Marcondes? - externou o professor com amabilidade.

- Estou confuso e insatisfeito!

- Por qual razão? - indagou o professor. Tem algo a ver com a reunião de ontem?

- Não só por isso. Tenho sido tratado como se algo grave houvesse ocorrido comigo. Medicações, repousos, pouca atividade. De fato, passo por uma zonzeira inexplicável. Os incômodos da doença pela qual desencarnei não cessaram integralmente, mas exigirão tantos cuidados médicos?

- É temporário! Trata-se de adaptação gradativa.

- Já são três semanas e nada!

- Têm lhe faltado carinho e atenção por parte de nossos colaboradores?

- Não.

- Então!... Do que se queixar?

- Não queria ser tão paparicado assim, queria mesmo é trabalhar. Quando poderei usar minha experiência doutrinária?

- Qual experiência, Marcondes?

- O senhor tem informações sobre minha bagagem com doutrinação de espíritos?

- Sei que foi muito dedicado.

- Pois saiba que tenho quarenta e cinco anos de vivência! Espero com isso merecer dar continuidade a meus ofícios nesse plano - expressou-se com evidente prepotência.

- O que gostaria de fazer com sua bagagem? - indagou o professor, habituado a utilizar desse expediente devido aos efeitos psicológicos positivos sobre o recém-desencarnado.

- Ingressar nos abismos e conhecer de perto essas criaturas que sempre doutrinei. Poder continuar a libertá-las dessas regiões infelizes.

- Muito nobre seu anseio. Creio, porém, que, antes disso, terá longos estágios.

- Estágios?! Gostaria de partir agora mesmo para os abismos e trabalhar. Afinal de contas, quarenta e cinco anos não são quarenta e cinco dias!

- Marcondes, costumamos usar a simbologia de uma árvore para explicar a questão dos atendimentos aos sofredores desencarnados. A copa da árvore trata-se dos espíritos tombados pela culpa, comandados pelos exploradores espirituais. Os galhos e o tronco são os hipnotizadores e dominadores de todo porte, organizadores de falanges e grupos do mal. As raizes são a origem da maldade no mundo, os corações endurecidos pela perversidade.

- Lutei com todos eles durante essas décadas!

- Equívoco de sua parte, Marcondes!

- Equívoco? - indagou contrariado.

- Você sequer atingiu a copa da árvore. Nunca esteve com nenhum espírito dos abismos. Pelo menos na doutrinação...

- O senhor deve estar caçoando, Professor Cícero. Não é esse o seu nome?

- Sim, é esse mesmo o meu nome e não estou caçoando, estou afirmando. Você ainda vai conhecer alguém no Hospital que realmente caçoa - olhamo-nos, o professor e nós, por saber a quem referíamos...

- Com base em que faz essas afirmações? Quem teria autoridade para afirmar isso sobre minha tarefa exercida com amor?

- Seu tutor espiritual.

-  Meu tutor?!

- Veja com seus próprios olhos nas anotações contidas aqui nesta ficha de suas tarefas doutrinárias.

O professor passou às mãos do dirigente para que ele mesmo pudesse lê-las.

- Não posso acreditar nisso! - exclamou depois de breve leitura.

- É a pura verdade! Devolva-me a ficha, por favor.

- Que mentor é esse que nem se dignou a se apresentar depois de vários dias por aqui? Qualquer um poderia ter feito essas anotações. Tudo muito estranho para mim... Por que não me lembro do passado? Conforme o que aprendi nos livros, ao largar o corpo, passaria por uma regressão! Quando ocorrerá?

- Você teve. Apenas não se lembra. Sofre de amnésia intermitente.

- Tenho esquecido muitas coisas realmente.

- Será assim por mais alguns dias. Bem, vamos encerrando nossa entrevista! Nosso tempo esgotou por hoje!

- Mas eu ainda tenho infinitas questões a tratar! Muitas dúvidas. Por que só agora me chamam para uma entrevista?

- Lamento, Marcondes. Nossas entrevistas não excedem a dez minutos. você será encaminhado à ala específica sob os cuidados de excelente cooperador. Começará amanhã bem cedo. Suas dúvidas devem ser encaminhadas a ele. Tomaremos as providências.

O dirigente não manifestou entusiasmo com nossa atitude. Saiu taciturno e sem despedir-se. Selena, que já aguardava lá fora, entrou sorridente.




:: C o n t i n u a ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 18 de Abril de 2016, 01:03
::  C o n t i n u a ç ã o  ::



- Olá, Ermance! Como vai, professor?

- Vejo que está feliz, Selena!

- Estou começando a gostar desse lugar. Pude sentir, nessa manhã, uma incomparável sensação de liberdade do corpo físico.

- Boa notícia, querida amiga!  O nosso irmão Cícero vai conduzir sua primeira entrevista.

- Que alegria poder estar com o senhor! Em Minas Gerais, seu nome é sempre lembrado.

- Felicita-me a lembrança - externou sempre humilde. Quer nos falar sobre sua trajetória espírita?

- Com prazer! Presidi o Centro Espírita Paulo e Estevão por ais de três décadas com muita devoção. Para falar a verdade, não assumi essa missão por vontade própria. Ninguém queria se empenhar quanto exigia a tarefa.

- Que avaliação tem você de sua participação nesses trinta anos?

- Muito positiva. Realizamos muito. No início, foi bastante tumultuado, até percebermos que nosso problema era a mediunidade. Tomamos algumas medidas corajosas, e o resultado vocês devem conhecer.

- Como você acredita que ficará a instituição agora, depois de sua passagem?

- O senhor tocou em um ponto que me preocupa. Meu pensamento é assaltado por ideias que desconheço a origem. Sinto-me insegura em relação ao que ocorrerá por lá. Angélica, meu braço direito na tarefa, é uma mulher muito depressiva e temerosa. Certamente será minha substituta na diretoria, no entanto, apesar de tê-la orientado, não sei o que poderá ocorrer.

- Você gostaria de presenciar a reunião de diretoria que ocorrerá dentro de algumas semanas na qual decidirão o futuro do centro?

- Adoraria! Será que suporto? Ainda tenho algumas dores no peito. O senhor sabe... O coração me demitiu da matéria... Será possível, professor, essa alegria?

- E por que não? Sua liberdade mental permite-lhe tal ensejo sem maiores dificuldades. Quanto às dores, creio que haverá tratamento para seu caso.

- Se assim é... não vejo a hora!

- Ficamos então combinados, minha filha. Vamos avisá-la na hora adequada. Tomaremos as providências para a visitação.

- E o movimento espírita, Selena?

- Nem me fale em movimento, professor! Afastei deliberadamente nossa casa das querelas da unificação.

- Por quê?

- Muita falsidade e pouca utilidade. Quando paramos de nos envolver com essas questões administrativas de movimento, nossa casa passou a produzir mais e todos ficamos mais gratificados pelo trabalho.

- Compreendo seus motivos. Teremos tempo para mais detalhes oportunamente.

- Esse assunto não me encanta nem um pouco!

- Quero aproveitar para me desculpar com vocês dois. Ontem fiquei muito chateada com aquela reunião. Como disse, tenho aversão a esses "espíritas topetudos" que acham que podem controlar tudo. Jamais imaginei que os encontraria depois da morte. Deparei-me com o "tal senhor" - referiu-se a Marcondes - aí fora, e sequer me cumprimentou.

- Essa a razão de nossas discussões, Selena. Rasgar véus significa deixar mais claro aos homens os acontecimentos que cercam a morte. Analisar as lutas que carregamos para cá.

- Tenho me deparado com muitas surpresas neste Hospital. Começo a compreender a razão de notícias detalhadas ao mundo físico sobre a situação dos espíritas depois da morte.

- Muito bem! Por hoje é só. Apresente-se bem cedo, amanhã, em sua nova ala de serviços preparatórios.

- Obrigada, professor. Obrigada, Ermance. Sinto-me muito bem entre vocês!

- A alegria é nossa, minha filha. Jesus a abençoe nos novos passos.


Selena e Marcondes seguiam a trajetória da grande maioria nos serviços de adaptação. Novas e mais profundas experiências os aguardavam. A nova ala de serviços seria-lhes um ponto de partida a vastas novidades e aprendizado.





pelo espírito Ermance Dufaux / Wanderley S. de Oliveira
livro: Lírios da Esperança
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 01 de Julho de 2016, 22:34
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Encontro com Inácio Ferreira

"Os Espíritos que conosco simpatizam atuam em cumprimento de missão?
Não raro, desempenham missão temporária; porém, as mais das vezes, são apenas atraídos pela identidade de pensamentos e sentimentos, assim para o bem como para o mal."
O Livro dos Espíritos, questão 513.



Ambos os dirigentes chegaram na hora prevista, acompanhados dos auxiliares de suas respectivas alas. Ao se avistarem, destacou-se nítida indisposição de Selena em relação a Marcondes. Ambos compartilhariam a tutela do mesmo orientador.

Era um consultório simples e bem-arejado, com largas janelas, das quais se viam exuberantes flamboyant nos jardins bem-cuidados do sanatório. Professor Cícero, que aguardava na anti-sala, convidou-os:

- Venham! Quero lhes apresentar o Doutor Inácio Ferreira.
- Aquele de Uberaba? - perguntou Selena espontaneamente.
- É ele mesmo.
- Vejo que temos muitos mineiros no Hospital! - referiu Selena às origens do professor.
- Mais do que você imagina!...

Batemos à porta e fomos atendidos pelo coordenador daquela ala.

- Doutor Inácio, estes são os novos estudantes.
- Alegria em recebê-los. Já os aguardava. Venham, vamos nos acomodar!

Assentamos em algumas poltronas dispostas em círculo.

- Meu nome é Inácio Ferreira. Na prática, sou chamado por Doutor Inácio. Temos, sob nossa responsabilidade, essa ala destinada a médiuns e doentes de natureza psíquica. Estive lendo a ficha dos amigos e, se desejarem fazer algum questionamento...
- Eu quero - respondeu Marcondes antes que Doutor Inácio terminasse sua fala.
- Fique à vontade!
- O que faço neste Hospital? Não deveria estar em alguma colônia em tarefa? - expressou com severidade e rancor.
- Aqui é um sanatório, companheiro!
- Eu sei disso.
- Se o senhor sabe, então deveria saber também a razão de sua presença aqui - utilizou-se o médico uberabense da franqueza como recurso educativo.
- Ninguém me notificou nada até este momento. Como poderia saber?
- É fácil deduzir. Um sanatório! O que é um sanatório, Marcondes, senão um local para recuperar a sanidade? Aqui todos estão em recuperação da saúde mental - o paciente não gostou do que ouviu.

Selena observava o diálogo com certo constrangimento. O professor e nós, habituados a semelhante cena, mantínhamos na certeza de que se aproximava o momento delicado.

- Recuperando de quê, Doutor Inácio? Porventura me confundem aqui com algum doente da cabeça?!
- O senhor irá descobrir por si mesmo.
- O senhor quer me ofender?
- Por enquanto, não.
- Mas, não é o senhor que é médico aqui?
- Até que me demitam!...
- Então, por que não falar o que ocorre? Que espécie de médico é o senhor?
- Façamos desta forma: eu vou lhe fazer algumas perguntas no intuito de auxiliá-lo.
- Está bem! comece.
- Como o senhor se sente em relação à sua experiência reencarnatória?
- Como um vitorioso. Cumpri minha missão.
- Qual missão?
- Suportei médiuns indisciplinados, espíritos renitentes e cooperadores vacilantes durante mais de quatro décadas.
- Em seu trajeto, ao longo desse tempo, aconteceu muita rotatividade em suas atividades?
- Sempre! Sabe como são as pessoas, não é mesmo?! Houve muita deserção.
- Sei! E a que o senhor atribui esse giro contínuo de trabalhadores e tantas deserções?
- Pura falta de vigilância.
- E se eu lhe dissesse que muitos deles, em verdade, não o suportavam?! Vai acreditar em mim?
- Absolutamente, não!
- Não é o que consta em sua ficha.
- Esta ficha novamente?! - e olhou com desagrado para o professor que acompanhava o diálogo.
- Aqui constam várias anotações sobre resultados infelizes de suas atitudes arrogantes, afastando excelentes trabalhadores.
- Arrogância?! Então ser convicto e determinado é ser arrogante?! Era só o que me faltava! Até no plano espiritual vou ter pendengas e críticas!
- Quer ler as anotações de seu mentor?
- Quem é essa criatura que sequer apresenta-se pessoalmente para falar o que pensa sobre mim?! Que mentor é esse? Será que esse mentor ignorado não anotou nada de bom sobre mim? - o dirigente mostrava-se visivelmente alterado.
- Claro, Marcondes! Claro que sim! Existem muitos valores destacados em sua folha espiritual.
- Por que então esse enfoque pessimista?
- Mudemos um pouco o assunto! Fale-me algo sobre sua família e sua vida privada.
- Família? Vida privada?
- Lembra-se de Eulália?
- Mas... Isso é um interrogatório policial, ou... que é isso? Quero... - e alterou-se por completo.

Quando desejava continuar a extravasar, Marcondes teve uma crise de vertigem. Tão forte, a ponto de tombar no chão em súbito desmaio. Doutor Inácio e o professor ajoelharam para levantá-lo e o recostar no sofá. Pedimos agilidade por parte dos enfermeiros no posto de atendimento em sala contígua. Com rapidez, foi levado para o núcleo de urgência. As entrevistas foram interrompidas. Selena voltou ao seu aposento. Os demais, destinamos a acompanhar o caso. O episódio era esperado por nós a qualquer instante. Portanto deliberamos algumas medidas já previamente acertadas no bloco cirúrgico.




pelo espírito Ermance Dufaux / Wanderley S. de Oliveira
livro: Lírios da Esperança
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 01 de Julho de 2016, 23:26
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Delicada Cirurgia  ( 07 )

"Muito variável é o tempo que dura a perturbação que se segue à morte. Pode ser de algumas horas, como também de muitos meses e até de muitos anos. Aqueles que, desde quando ainda viviam na Terra, se identificaram com o estado futuro que os aguardava, são os em quem menos longa ela é, porque esses compreendem imediatamente a posição em que se encontram."
O Livro dos Espíritos, questão 165.



A ação eficiente dos enfermeiros durante o transporte de Marcondes não o poupou de dores acerbas. Embora em estado de inconsciência passageira, ele se contorcia na maca, a caminho do centro de urgência, recordando os quadros comuns de parto eminente nos hospitais terrenos. Atravessamos vários corredores até chegarmos à sala cirúrgica. Empapado de suor e exsudando um odor desagradável, foi completamente despido e acomodado na mesa de operações.

Doutor Inácio convocou a presença de Dona Maria Modesto Cravo ao bloco. Ele próprio tomaria as medidas de socorro e amparo, em posse de instrumentais avançados, guardando certa similaridade de funções com as pinças e fórceps terrenos. Dona Modesta entrou na sala de forma discreta, já devidamente informada sobre o caso, e oramos em conjunto. Tomamos as vestes adequadas ao momento, e Marcondes foi literalmente anestesiado.

Doutor Inácio colocou a médium uberabense, Dona Modesta, com as mãos estendidas sobre a genitália do paciente. Orientar a tocar a bexiga, ouvimos um sonido como se algo vivo se movimentasse por baixo da pele do paciente. As mãos da medianeira funcionavam como se fossem potentes aspiradores de sucção. Serviço lento e de muita concentração. Enquanto isso, Doutor Inácio esquadrinhava com profunda atenção a medida em curso. Após dez minutos, uma coloração arroxeada formou-se em torno das mãos de Dona Modesta. Uma mutação energética desenvolvia-se com rapidez a ponto de dr liquidez àquela matéria, que começa a escorrer pelas virilhas de Marcondes como uma cera aquecida. A médium acentuou seu poder clarividente e informou que foi um sucesso a operação. Os auxiliares atentos limpavam-no com incomparável zelo e respeito. Subitamente, observamos a formação de um enorme inchaço à altura da bexiga urinária. Doutor Inácio assentou Dona Modesta em cadeira próxima para recuperar o desgaste, enquanto nós aplicávamos passes dispersivos em sua aura.

Oramos novamente em conjunto, suplicando o amor paternal em favor de nosso irmão. O silêncio era quase absoluto no bloco operatório. O inchaço atingiu vasta proporção. Com habilidade e demonstrando segurança, foram chamadas duas integrantes da equipe que traziam um recipiente qual um pequeno berço, na proporção de uma caixa de sapatos. Era uma "incubadora móvel". Então assistimos a um fenômeno singular. Seria belo não fosse a causa geradora. Com pequeno e certeiro corte na altura da bexiga, como procedesse a uma cesariana, foi cuspido uma forma ovóide para as mãos de Doutor Inácio, como se Marcondes a desalojasse de suas entranhas por ato inconsciente. Era do tamanho e formato de um abacate e de cheiro repugnante. Uma matéria viscosa com coloração esverdeada envolvia todo aquele ser. Para quem olha, torna-se difícil acreditar que um ser humano encontra-se naquelas condições.

Imediatamente acomodada na incubadora, a criatura de aspecto repulsivo foi levada com atitude maternal e sagrada pelas companheiras das alas do subsolo do Hospital. Olhamos para Dona Modesta, que deixava escapar algumas lágrimas de alegria. Ela sempre diz que, apesar da dramaticidade da cena, Deus é tão bom que nos faz sentir como se estivéssemos em uma sala de partos, dando vida e luz a almas que se iludiram no cadinho das provas. É um parto para a vida, para o recomeço.

O paciente não dava mostras de consciência. Sangrava intensamente. Doutor Inácio tomava as medidas para estancar a hemorragia que, além do líquido, expelia formas de vida não inteligente em condição larvária. Aparelhos de cauterização com recursos naturais e passes de sopro foram usados durante alguns minutos. Logo se constatava que a organização perispirítica de Marcondes, através do automatismo adquirido nos milênios, cessava o processo de expurgar aquilo que não serviria mais ao desiderato da evolução.

Ao todo, a operação durou sessenta minutos. Agradecemos em prece. Logo após, o dirigente, ainda sem consciência, foi transferido para a "ala restrita" dos pavilhões inferiores no subsolo. Doutor Inácio aparentava exaustão, entretanto sua verve peculiar ainda pronunciava-se com uma ou outra pitada de humor para com todos.

Somente depois de três horas, aproximadamente, nos informaram de que nosso irmão havia recobrado os sentidos. A pedido de Doutor Inácio, fomos à ala restrita.

Passando pelo corredor repleto de casos iguais ou mais graves, ouvíamos os gritos de dor lancinante. Quando chegamos, o paciente acabara de balbuciar a primeira palavra.

- Que aconteceu? - falou com dificuldade e lentidão - Quanta dor! Quem é o senhor?
- Aquiete-se Marcondes. Você acabou de passar por uma delicada intervenção cirúrgica - manifestou Doutor Inácio.
-Cirurgia?
- Isso mesmo! Fique tranquilo. Tivemos sucesso integral. Essa é Rosângela, a enfermeira que vai cuidar de você - e apresentou a jovem cristã, devota às fileiras das igrejas evangélicas na Terra.
- E essa dor? Não vai passar?
- Vai ser assim por algumas horas. Mas tenha certeza de que não será como a dor que teve no corpo físico.
- Corpo físico? Então eu já morri? - o estado de confusão do paciente era imenso.
- Depois falamos. Procure se aquietar.

Saímos e deixamos o paciente a cargo de Rosângela e alguns médicos da ala restrita.

A ala restrita do Hospital Esperança abriga casos gravíssimos de almas com extremo apego às sensações físicas, ou recém- resgatadas de vales e regiões abismais. São três andares de subsolo que chegam a estabelecer elos muito próximos com as vibrações terrenas. São macas e alojamentos adequados a casos de delírios e estados mentais de desequilíbrio intenso. A atmosfera ambiente, até mesmo para os trabalhadores do nosocômio, é de mais difícil absorção. As luzes são apropriadas aos casos em tratamento. Cada ambiente é devidamente acústico, face aos gritos ou gemidos em altos brados, que tornaria impossível o êxito da recuperação; é também arejado o suficiente para impedir as conhecidas contaminações viróticas que ocorrem com frequência nesses estágios de dor.

Após mais algumas horas, em plena noite, Doutor Inácio é chamado pelo interfone na sua mesa:

- Doutor Inácio! É Rosângela quem fala! Marcondes iniciou um intenso processo de purgação pela região do umbigo. Devemos utilizar os aparelhos de absorção induzida?
- Rosângela, o que dizem os médicos da ala?
- Eles aconselharam esperar mais algum tempo, no entanto, Marcondes está com as lembranças do passado em estado muito acentuado. Não pára de pronunciar o nome Eulália e já esteve em várias fases de sua vida pregressa.
- Tem febre?
- Muita.
- E o odor?
- O senhor quer saber se atingiu o "estágio-enxofre"?

Rosângela era detentora de excepcional capacidade olfativa e havia feito cursos sobre como reconhecer os estágios de recuperação de tais casos através do odor.

- Isso mesmo!
- Começo a sentir, junto aos líquidos em expulsão, um início de mutação gasosa para o enxofre.
- Então tome as providências imediatamente. Peça aos nossos companheiros pra provocarem a drenagem e, em seguida, aplicarem elevada dose de "morfina homeopática".
- Está bem, Doutor Inácio. Logo retorno com outras notícias.

Passadas dezesseis horas da cirurgia, ele apresentou os primeiros sinais de estabilidade. Dormiu sossegado por longo tempo.



pelo espírito Ermance Dufaux / Wanderley S. de Oliveira
livro: Lírios da Esperança
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 16 de Julho de 2016, 02:45
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Novas Motivações   ( 08 )

"Sois chamados a estar em contato com espíritos de naturezas diferentes,
de caracteres opostos: não choqueis a nenhum daqueles com quem estiverdes."
Um Espírito Protetor (Bordéus, 1863)
O Evangelho Segundo Espiritismo, capítulo XVI, item 10.


Dois dias depois, Marcondes encontrava-se lúcido. Não carecia de cuidados especiais. Rosângela já não estava mais ao seu lado. Doutor Inácio passou para uma avaliação de rotina e, como de hábito, cumprimentou jocosamente:

- Olá, Marcondes! Vejo que sobreviveu!
- O senhor é... Doutor Inácio?! - recordou ainda com certa dificuldade.
- Sim, sou eu mesmo em carne e osso, digo, em espírito!
- O que aconteceu comigo, Doutor Inácio? Por que me encontro nessa sala sozinho? Porventura meu câncer não acabou?
- Calma! Vamos por etapa. Não é bem isso. Digamos que a causa do câncer continuava! - e apontou com o indicador a região genital do paciente com várias suturas.
- Mas como pode? Não deixamos as doenças no corpo quando desencarnamos?
- Nem sempre é assim, amigo! Eu mesmo tive um terrível enfisema e estou tossindo até hoje. E veja que já morri há mais de quinze anos. ¹

Como sempre, em tom de humor, o médico uberabense alegrava Marcondes com sua fala descontraída.

- Mas o corpo não é um "mata-borrão" como ensina a doutrina?
- O que os espíritas não sabem é que o perispírito é mais mata-borrão que o próprio corpo. Tem até morte por aqui.
- Doutor Inácio!
- Certamente o senhor não acredita, não é mesmo?
- Não li nada a respeito nos livros espíritas.
- Ah, os livros espíritas! Sempre os livros espíritas!
- O que há de errado com eles?
- Não é com eles o problema! Os espíritas estão transformando-os em "bíblias sagradas" como se possuíssem a última palavra em matéria de Verdade.
- Tenho opinião divergente à do senhor!

A perspicácia do médico era ilimitada. Divergir significa interessar-se pelo tema. Ele percebia a atração do paciente para o diálogo e via nisso uma terapia. Já o vimos dialogar horas a fio com alguns pacientes que se entretêm com a prosa e esquecem suas dores. Divagar, entreter com assuntos nobres, em algumas situações, tornava-se terapêutico.

- Os livros são ótimos, mas as interpretações dos espíritas, com raras exceções, rastejam no religiosismo. Estão sacralizando livros que deveriam ser estudados, meditados e pesquisados. chamo isso de "dogmatismo psíquico", uma doença incrustada na cabeça da maioria de nós que peregrinamos pelo igrejismo.
- O que o senhor acha, por exemplo, de André Luiz?

Marcondes lembrou-se da reunião que participara dias antes no Hospital e desejava voltar ao assunto.

- André Luiz é uma contribuição ímpar. E você Marcondes, o que pensa de André Luiz?
- Não existe nada melhor para mim! Queria mesmo saber se poderei ler a sua obra aqui na vida espiritual.
- Aqui você terá acesso a livros bem mais completos e reveladores.
- Imagino que devam ser livros bem fiéis à pureza doutrinária, certo?
- Achei que você estava melhorando! - disse caçoando o médico.
- Bem que me disseram que acharia alguém que adora caçoar por aqui!...
- Minha vida é caçoar e refestelar com as diferenças de todos nós! Não se espante!
- O senhor ainda não me respondeu sobre a pureza doutrinária!...
- Marcondes, você não está mais no seu mundo espírita imaginário, gestado pelas estreitas concepções dos cinco sentidos. Isto aqui é realidade e não o que a pureza doutrinária lhe ensinou. Os problemas dos companheiros de ideal com o livro espírita começam exatamente neste tema. O que é puro? O que é Verdade? Quem a pode decretar? Quais os limites da sensatez em matéria de filosofia da imortalidade? Amigo, vou lhe dizer uma verdade sobre a Verdade: os espíritas estão doentes de soberba ao imaginarem que sabem tudo sobre vida espiritual.
- Começo a perceber, Doutor Inácio! Começo a perceber! Nisso concordamos... - expressou Marcondes, demonstrando alegria.
- Você tem noções de quantas semanas se encontra no Hospital?
- Pouco mais de quatro semanas em meus cálculos. Estou certo?
- Sim, está! Quanta diferença o senhor presenciou nessas paragens que nunca leu nos livros doutrinários?
- Nem sei como responder. Tudo é bem diferente do que imaginei. Quando olho meu corpo e vejo estes curativos, este odor... Esta sala, a sua conversa, este Hospital, aquela reunião de debates e outras tantas coisas, começo a pensar que não sabia nada sobre vida imortal.
- Bom sinal Marcondes! Bom sinal!
- Doutor Inácio, posso ser franco?!
- Admiro pessoas francas!
- É que passam algumas ideias pela minha cabeça e...
- Fale logo, homem, porque senão vou ler seu pensamento!
- Nunca conheci um espírita tão franco.
- O senhor quer dizer mal-educado e irônico. Não se acanhe de falar!
- Confundo-o com um mentor, ou..., ou um...
- Um capeta?! - expressou-se o psiquiatra com seu irremediável bom humor.
- É! É isso mesmo!
- Não tenha dúvidas que sou! Digamos que sou um "bom capeta"!...
- Jamais imaginei um espírita com suas características!
- O que faz o senhor pensar que sou espírita?
- E não é?
- Não! Na minha avaliação sincera, nunca me vi plenamente espírita.
- Então o que o senhor é?
- Alguém à procura de si mesmo. Um sujeito "meio-louco"!

Marcondes sorriu prazerosamente, embora com muita limitação.

- Agora vou me retirar. Volto assim que puder para jogarmos uma conversa fora!
- Antes de ir, uma última pergunta, porque gosta tanto das pessoas francas?
- É muito fácil gostar de pessoas iguais à gente. Entendeu?
- Acho que sim! Obrigado Doutor Inácio!
- Agradecer é um ótimo sintoma de melhora. Gostei da atitude. Por isso vou lhe dar um "prêmio".
- Prêmio?
- Estarei liberando visitações para você a partir de amanhã. Até!
- Até!

Antes de deixar a ala, o psiquiatra prescreveu algumas medidas junto aos atendentes do posto. A dor modificara, sensivelmente, o coração do doutrinador. E por um desses caminhos singulares da vida, Doutor Inácio, com seu temperamento ímpar, despertava-lhe um sentimento de admiração. Novas motivações começavam a tomar conta de suas emoções. A gratidão e admiração pelas diferenças alheias constituem excelente quesito de avanço para as criaturas habituadas à arrogância. Marcondes iniciou sua educação emocional sem ter noção abrangente do que significou aquele momento espontâneo de interesse pelas palavras do médico.


______________________
¹  Inácio Ferreira de Oliveira desencarnou em 27 de setembro de 1988.



pelo espírito Ermance Dufaux / Wanderley S. de Oliveira
livro: Lírios da Esperança
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 21 de Julho de 2016, 19:56
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Ao Encontro de si Mesmo    ( 09 )

"Examinai o que pudestes ter obrado contra Deus, depois contra
o vosso próximo e, finalmente, contra vós mesmos. As respostas vos darão, ou
o descanso para a vossa consciência, ou a indicação de um mal que
precise ser curado."   Santo Agostinho
O Livro dos Espíritos, questão 919/a.


Com pouco mais de quarenta e oito horas após a cirurgia,  cicatrização era completa. Seu estado de ânimo era dos melhores. Reunimo-nos ao professor para visitá-lo. Convidamos Selena para nos acompanhar. O episódio do desmaio havia lhe despertado compaixão em relação ao nosso irmão. Ao longo dos corredores, nas alas restritas, a dirigente mostrou-se assustada e compadecida pelas dores que presenciava. Solicitamos a ela que entregasse alguns lírios ao convalescente, em nome de Eurípedes. Com carinho, ela os ofertou nestes termos:


- Senhor Marcondes, como tem passado?
- Estou bem. Desculpe-me, mas não me recordo quem seja a senhora!
- Sou Selena, uma amiga. Já estivemos juntos em reuniões nesta casa.
- Perdoe-me não ter a lembrança. Ainda estou um pouco confuso.
- Não se preocupe! Tenho aqui este ramalhete de lírios, um presente do Senhor Eurípedes, que lhe entrego em nome do professor e de Ermance.
- Eurípedes? Barsanulfo?...
- Ele mesmo!


O dirigente acolheu as flores ao peito, sensibilizado. Por sua vez, o professor provocou o diálogo.


- Amigo, como está se sentindo?
- Estou me sentindo leve como uma pluma e muito emotivo. É como se tivesse me livrado de enorme pressão interna. Não me lembro de ter experimentado este estado íntimo quando na Terra. Começo a me sentir muito só neste quarto. Gostaria de sair desta ala. Andar, conhecer melhor o Hospital. Chega de doença!
- Estamos providenciando algumas medidas nesse sentido. Fique tranquilo.
- Quando poderei saber com mais detalhes o que aconteceu comigo, professor? Doutor Inácio disse-me algo sobre a causa do câncer...
- Você passou por uma cirurgia de extirpação.
- Seria um tumor?
- Não é bem isso. Era a causa matriz de sua enfermidade na próstata.
- Foi bem-sucedida a cirurgia?
- Graças ao exímio cirurgião, tivemos excelentes resultados.
- Quem terá sido esse hábil cirurgião?
- Filmamos nossas cirurgias com fins terapêuticos e educacionais. Tenho permissão para disponibilizá-la ao seu conhecimento. Gostaria?
- Agora mesmo! Seria possível?
- Então, vamos lá!


O professor ligou o sistema de vídeo.


- Apenas peço sua permissão para que Selena acompanhe, já que nós outros estivemos presentes ao ato cirúrgico.
- Não vejo nenhum problema!


Marcondes e todos nós assistimos às cenas atentamente. Selena demonstrou pavor ao ver as mãos arroxeadas de Dona Modesta. Quando foi feita a cisão, ambos impressionaram-se, sobremaneira. Finda a amostragem, a mente do dirigente fervilhava de indagações. Todavia, preferiu o velho hábito de opinar sem conhecer para defender-se do sentimento de vergonha:


- Não imaginei que as doutrinações pudessem causar semelhante enfermidade! Acho trágico e injusto, após tantos anos de devoção, ter sido prejudicado dessa forma. Agradeço por me livrarem desse terrível mal.
- Retifique sua visão, caro irmão! - falou o professor com firmeza. Ter respostas para tudo é um hábito enfermiço de graves proporções. Aprenda a dizer "não sei" e a perguntar com humildade e desejo de aprender. Absolutamente isso não foi resultado do trabalho de amor aos desencarnados.
- Que mais poderia provocar o alojamento desse ser indesejável em minhas entranhas?!
- Nada lhe ocorre na lembrança?
- Não.


Ao responder, Marcondes passou rapidamente o olhar por todos nós. Era perceptível que havia recordado algo grave. Com astúcia psicológica, o professor pediu licença a nós e à Selena, a fim de travar um diálogo íntimo com o paciente. Retiramo-nos da sala para algumas visitações na ala. O doutrinador estava sendo estimulado a tratar de lutas muito árduas e íntimas.


- Seja franco, caro amigo - insistiu Cícero Pereira - você se encontra no mundo da Verdade. Chega o instante de olhar-se sem as máscaras enfermiças que costumamos usar para ocultar nossos conflitos. Extirpe de si mesmo o sentimento de vergonha e fale sobre seus segredos sem medo. Tenha disposição de trazer à tona as mais secretas revelações de sua vida a bem de sua própria paz. Sua permanência neste leito é sintoma de carência.
- Desculpe professor, mas os assuntos pessoais me dizem respeito e não pretendo e nem posso dividir com qualquer pessoa. Desculpe-me!
- Marcondes, o mal que guardamos na vida íntima jamais é assunto pessoal, e sim conta coletiva onerosa que tentamos pagar sozinhos tão somente em razão da imagem soberba que construímos sobre nós mesmos. O orgulho tem o poder de enlouquecer-nos a tal ponto, que imaginamos ser melhor a dor do segredo, que o alívio da sinceridade e do autoperdão. Fique sabendo, porém, que nosso papel nesta casa corretiva não se restringe à alegria de fazermo-nos amigos uns dos outros. Compete-nos o papel de educadores da alma junto ao extenso leque de necessidades de quntos aqui se aportam como enfermos. Sendo assim, se necessário for, contarei eu mesmo o que relata sua ficha reencarnatória, conquanto a partir de então seus méritos fiquem diminuídos ante o convite à libertação.
- Porventura, estará me ameaçando, professor?
- Seu entendimento, meu filho, está turvado pelas lutas e vícios humanos. Na minha posição, não posso mais lhe permitir avançar em direção ao velho homem manipulador e prepotente. Se, na sua cegueira, a minha palavra fraterna representa uma ameaça, então se considere intimado a dizer a verdade.
- Isso é demais. Jamais imaginei ser tratado dessa forma e...


Quando se preparava para continuar sua defesa, o professor falou com determinação:


- Conte-me sobre Eulália e pare de se defender! Liberte-se dessa culpa, meu irmão!
- O que o senhor sabe sobre Eulália?
- Tudo.
- Então por que me pergunta?
- Para que você mesmo descubra a extensão dos reflexos de seus atos em si mesmo.
- Certamente o espírito que chamam de meu mentor anotou isso também na minha ficha!
- Fez parte de seu aprendizado terreno.
- Vocês realmente adoram mostrar as nossas faltas por essas paragens.
- Para quem passou a vida inteira tentando fugir!...  Nada mais justo!
- Eu não quero falar sobre o assunto. Onde fica meu livre-arbítrio?
- Seu livre-arbítrio foi caçado, meu filho, desde o momento que a insanidade formalizada tomou conta de sua vida. Par os que conheceram as verdades espíritas, espera-se o tributo da autenticidade e da honestidade consigo mesmo, sem os quais, dificilmente a criatura conseguirá vencer o velho hábito da ilusão. E a ilusão nada mais é que loucura.
- O senhor me chama de louco?
- Qual de nós não o é? Deixar de seguir o bem e o dever é a maior loucura do homem.
- Pois fique sabendo que me recuso a falar.
- Marcondes, se eu sair desta porta para fora, só retornarei aqui depois de dois dias. Tenho dezenas de casos graves a acompanhar ainda hoje. Sua vida mental, extremamente sensível como se encontra, ficará como uma chaleira prestes a explodir. Mais algumas horas, caso você não a alivie, tenho péssimas previsões para seu quadro, que começa a se estabilizar graças a medidas a que você mesmo acabou de assistir no vídeo. Saia desse circuito enquanto é tempo e encoraje-se a dizer o que não gostaria. É para seu próprio bem. As medidas exteriores só terão valor se optar por cuidar de suas feridas interiores.
- O senhor está me forçando! Isso é um desrespeito! É muita pressão! Tenho medo de dizer...
- Por que o medo?
- Que farão comigo quando eu confessar?
- Nada, amigo! Absolutamente nada será feito por nós. O trabalho é todo seu. Experimente livrar-se dessa culpa que o atormenta. Fale, Marcondes!
- Está bem! Está bem! - manifestou irritado. Chega de pressão, eu não aguento mais! Isto é pior do que a culpa que sinto!
- Fale!
- Eulália foi minha amante. Minha mulher preferida! Está satisfeito com a confissão!
- Sou seu amigo e não confessor. Tranquilize-se - disse o professor com humildade - não há razões para ofensa.
- Não há razões?! O senhor...


Quando Marcondes preparava uma nova ofensa, o benfeitor cortou sua fala e revelou:


- O ovóide que você viu na fita veio dela, meu filho!
- O ovóide veio dela?... De Eulália?
- Sim, veio.
- Pelo amor de Deus! Vamos parar por aqui!


O professor, notando o desejo de fuga da conversa, teceu algumas considerações sobre o caso para despertar interesse. Envolvendo-o afetivamente através das informações, acalmou o paciente que, por fim, curioso, mas ainda muito constrangido, solicitou:


- Se assim deve ser, explique-me com detalhes!
 




:: Continua ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 21 de Julho de 2016, 20:34
:: Continuação ::


- O sentimento de culpa forma um campo vibratório dinâmico e receptivo na criatura. As ações que colidem com nossa consciência, especialmente aquelas que são praticadas em milênios de repetição, consolidam os "tumores energéticos" na vida mental que irradiam por todo o corpo físico e perispiritual em forma de ondas potentes de atração e retenção. Semelhante teor de energias desenvolve o sistema ecológico vibracional do homem, agasalhando formas de vida correspondente à natureza de suas emissões. A análise microscópica do corpo humano revela bilhões de seres vivendo em regime de co-habitação, um autêntico ecossistema na massa corporal. Bactérias e fungos, vírus e milhares de micro-organismos trabalham incessantemente formando uma extensa fauna e flora celulares. O perispírito, igualmente, é um sistema organizado que reflete a vida mental da criatura. Eulália carrega várias formas ovóides em seu útero que a ela renderam o câncer fulminante. A origem das provas de Eulália está em vidas pregressas, nas sucessivas e impiedosas atitudes abortistas.
- Mas como essa coisa passou para mim, professor?
- Não trate como coisa uma alma humana nessas condições meu filho! Os ovóides, a despeito de sua condição repugnante, são seres que um dia amaram e foram amados. A negação da culpa adotada para nos defender dos efeitos de nossos erros, cria abscessos energéticos. Você os agasalhou no sistema genital em razão da Sublime Lei Universal de solidariedade.
- Mas eu não pedi isso. Muito injusto! Não fiz nada por mal!
- Não precisa pedir. É cláusula da Lei Natural. O homem é o único animal pensante, portanto com capacidade de escolher. Sua escolha, porém, implica igualmente responsabilidade pelos seus atos. Pode optar pela vida livre ou pelos regimes de escravidão, jungindo-se aos processos retardatários do sofrimento para crescer. Ao decidir-se pelos caminhos em desacordo com a Lei Divina, está automaticamente assumindo para si os efeitos naturais de seu arbítrio. Mesmo nos caminhos inferiores da leviandade ou do mal, pulsam os Estatutos da Cooperação Iniludível e da evolução em sinergia. Cada criatura, por deliberação consciente ou por injunções decorrentes de sua insanidade, vive em regime de troca e apoio, submetendo-se aos imperativos da natureza.
- Por que não me livrei disso... quer dizer... dessa criatura... com a morte?
- A morte nem sempre é alforria. Muitos morrem, mas não desencarnam. Permanecem com as lutas do corpo. Tudo depende de como vivemos a vida para que a morte seja luz e paz em nossos caminhos. Que são os ovóides e outras tantas expressões teratológicas de vida, senão irmãos nossos que perderam temporariamente a razão e a consciência? Quem são os corações achincalhados pela zooantropia nos pátios infernais, senão almas sensíveis que tombaram na culpa? Quais movimentos obedecem às formas vivas não inteligentes acomodadas ao corpo material, senão à atração para evolução à qual, igualmente, encontram-se submissas? Só mesmo  soberba humana poderia imaginar uma caminhada livre de semelhantes desígnios do crescimento. Evidentemente, o homem, único depositário do pensamento contínuo, é convidado a outro gênero de caminhada, conquanto ainda posicione-se como quem prefere os percalços do instinto, atraindo um contingente de dores voluntárias para si.
- De que me valeram mais de quatro décadas devotadas à causa espírita? Que sentimento de arrependimento o meu! Então sou um falido?! Era essa a conclusão a que o senhor queria que eu chegasse? Qual o tamanho de minha queda?
- Marcondes! Marcondes! Trajetória igual à sua é rara entre nós. Pouco mais de um mês para se libertar de efeitos que costumam exigir séculos de reparação... Você já começa a registrar uma profunda alteração na sensibilidade. O ovóide, em seu caso, era uma manifestação viva do "tumor emocional da prepotência e da culpa", um fator de obstrução do afeto. Devido a créditos auferidos no serviço do bem, chegou seu instante de libertação dessa prova voluntária. Existem muitos casos que renascem com o ovóide implantado.
- Foi uma prova voluntária?
- Exatamente. Para Eulália, era um programa previamente acertado para o renascimento. Para você, foi um ônus adicional. Naturalmente obedecendo à lei de causalidade...
- Causalidade?...
- Você também tem seus laços com a história de Eulália, conquanto dispusesse de outras alternativas de quitação e não as utilizou.
- Portanto o câncer que me vitimou foi um suicídio?
- Quase isso! Devido aos seus trabalhos de amor, conseguimos prolongar sua vida até o tempo previsto de sua partida. Contudo, seus últimos vinte anos tão sofridos com a doença poderiam ser evitados, caso sua escolha fosse outra.
- Afinal! Sou um falido ou um vitorioso?!
- Que você acha?
- Não sei, professor! Sinceramente não sei de mais nada!
- É assim mesmo, meu bom amigo! Quase sempre, ao ultrapassarmos os portais da morte, mesmo guardando extenso conhecimento espiritual, sentimo-nos sem respostas, sem referências. Somente o tempo responderá a essa indagação. O trabalho e o estudo lhe ensinarão a aferir melhor as sutilezas do templo sagrado de sua consciência. Por agora, acredite que sua situação não é das piores. Apenas isso.
- Ajude-me a entender melhor minha dúvida, por caridade.
- Meu filho, não existe falência, existe resultado, efeito... Sob análise de seu projeto reencarnatório, pode-se afirmar que houve desvio, tamanha a extensão das oportunidades que desperdiçou ou não soube aproveitar. Sob o enfoque das Leis Divinas, avançou, considerando o passado torpe pertinente à grande maioria de nós. Em síntese, evitou quanto pôde o mal do qual se encontrava avisado, mas não criou todo o bem que poderia. Eis o problema: pura negligência! Frequentemente, os dramas do arrependimento tardio são adquiridos nas sendas infelizes da negligência e da indiferença aos deveres conscienciais. Optamos em aceitar os encantadores convites do desejo inferior em detrimento da oportunidade redentora da superação.
- Estou me sentindo envergonhado!
- Bom começo! Porém não fique nisso. Há muito que fazer pela sua recuperação. Quem converte a vergonha do remorso em humildade, aprende a sentir-se pequeno sem punir-se. Olhe os lírios que Eurípedes lhe endereçou - e apontou par a cabeceira da cama. Nestas flores, há uma mensagem de esperança do apóstolo para sua caminhada.
- Qual é a mensagem, professor Cícero?
- Eurípedes foi chamado por Maria, a Mãe Santíssima, para uma tarefa inigualável em todos os tempos da humanidade. A tarefa de colher lírios que florescem em pleno pântano. Socorrer os cristão falidos de todos os segmentos. Ao erguer essa Obra de Amor, o Mensageiro da Esperança recebeu uma outorga do Espírito Verdade. Os que conheceram a mensagem de Jesus e não conseguiram, ou desejaram ser fieis aos ditames de sua consciência, são as almas mais aliciadas pelos mandatários da perversidade. Utilizando-se dos dramas emocionais da culpa e do desamor a si mesmo, esses vilipendiadores da paz alheia os aprisionam e flagelam sem piedade. A mensagem de nosso diretor é iluminar a vida com esperança em quaisquer condições.
- O senhor me orientará?
- Você está sob responsabilidade de Inácio Ferreira nesta casa. Ele será seu tutor temporário.
- Doutor Inácio! Quem diria! Como quero agradecer-lhe pela cirurgia. Com que carinho me tratou! Ele esteve aqui e nada mencionou sobre o fato de ser o cirurgião. Que humildade!
- Amanhã ele virá vê-lo.
- Professor, perdoe-me minha intransigência! Perdoe-me... Encontro-me confuso...


Marcondes não resistiu ao volume das informações e à ternura de Cícero Pereira, deixando escorrer algumas lágrimas.


- Acalme-se! O choro far-lhe-á enorme bem. Assuma sua condição de paciente em tratamento e tudo ficará bem.
- O senhor conhece Eulália? - falou o dirigente um pouco refeito em sua fragilidade.
- Eulália está aqui no Hospital. Quando sair desta ala, certamente os passos de vocês se cruzarão novamente.
- Ela sabe que estou aqui?
- Acompanhou tudo pelos vitrais da sala cirúrgica, orando a Jesus para que pudesse, fora da sala, receber em seus braços a pequenina incubadora com aquele ser desprovido e deformado.


O dirigente não suportou a notícia. Mãos aos olhos, teve prolongada crise emocional. Seu pranto, seguido de suspiros de dor, banhava-lhe a alma em novas esperanças. Disse em voz alta e sofrida sobre o quanto se arrependia. Vez por outra, retirava as mãos com as quais tentava segurar as lágrimas e olhava o professor que lhe afagava a cabeça. Por fim, ele se abraçou ao seu tutor como uma criança, rendendo-se ao perdão e ao sossego íntimo. Após algum tempo, no intuito de recompor o companheiro, disse o professor:


- Posso chamar novamente nossas companheiras Ermance e Selena para o diálogo?
- Sim, sim! - e limpou suas lágrimas com um lenço ofertado por Cícero Pereira.   




pelo espírito Ermance Dufaux / Wanderley S. de Oliveira
livro: Lírios da Esperança
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 05 de Setembro de 2016, 03:26
(http://www.revistaautadesouza.com/public/imagem/conteudo/ckfinder/images/ovoide.JPG)



Os Ovóides   ( 10 )

"Quais os sofrimentos maiores a que os Espíritos maus se vêem sujeitos?
Não há descrição possível das torturas morais que constituem a punição
de certos crimes. Mesmo o que as sofre teria dificuldade em vos dar delas uma ideia.
 Indubitavelmente, porém, a mais horrível consiste em pensarem que
estão condenados sem remissão."
O Livro dos Espíritos, questão 973.



Fomos, então, convidadas a regressar ao quarto. Percebendo-lhe os olhos marejados, a fim de não sermos indelicadas, Selena pronunciou:

     - Irmão Cícero, gostaria de fazer algumas questões sobre o vídeo da cirurgia, desde que não cause constrangimento. Posso?
     - Estamos em visita de amor e aprendizado, minha irmã, fique à vontade! Não se preocupem com Marcondes. Em verdade, seu estado é sintoma de melhora. Nesta casa de amor, as lutas uns dos outros são lições vivas para a caminhada de todos. Não se acanhe em indagar. Quanto mais, melhor!
     - Enquanto fazíamos as visitas na ala, Ermance explicava-me detalhes da história espiritual do nosso querido companheiro. Também tive minhas histórias afetivas... e...
     - Seja bem clara, Selena! - interveio o professor. Nós quatro, nessa singela reunião, formamos a escola espontânea da vida. Não será justo com a Misericórdia Celeste, tão abundante conosco, adiarmos mais as lições de que necessitamos. Basta a fuga que empreendemos enquanto na carne.
     - Não sei se serei inconveniente... Posso utilizar a história de Marcondes para minhas indagações?
     - Marcondes, responda você mesmo.
     - Só agora começo a perceber a natureza de minhas faltas e o bem que me faz colocá-las sob a luz da Verdade. Creio, Selena, que suas indagações ajudarão aos meus raciocínios ainda intimidados pelo remorso.
     - Embora não conheça, o nome Eulália calou-me fundo na alma... Se perguntar sobre ela, não lhe causará incômodo?
     - São as perguntas de que mais anseio saber nesta hora - respondeu o dirigente algo entristecido e saudoso.
     - Qual a situação espiritual de Eulália neste drama vivido pelos nossos irmãos, professor?
     - Eulália foi uma abortista repetente. Adquiriu contas extensas nas questões afetivas, em inúmeras vivências levianas. Com esse comportamento, adotado em sucessivas oportunidades corporais, consorciou-se com as falanges desencarnadas da devassidão no mundo - pregadores da alucinação dos prazeres em detrimento das alegrias da alma. Foi uma fria destruidora de lares. Não acreditava nos laços de família, uma vez que sua história, a essa época, foi vivida nos tristes cenários da Veneza das cortesãs, no ano 1315. Na sucessão dos atos tresloucados, exauriu suas forças ao longo do trajeto, passando a colher os frutos de suas malfadadas decisões. Foi na França, no ano de 1574, que ela atolou-se em lamentável história de devassidão. Preparada para renascer, depois de resgatada das malhas obsessivas de impiedosos vampiros, receberia vínculos do coração cruelmente lesados pela sua insânia. Corações que caminhavam para os labirintos sombrios da deformação perispiritual, depois de séculos no ódio desenfreado.
     - Eulália os receberia como filhos? - indagou Selena tomada de curiosidade.
     - Ela receberia oito laços afetivos que tomavam o caminho da ovoidização, conquanto, guardando ainda algum lampejo de consciência. Todos seriam creditados à sua maternidade para reerguimento moral pelo acolhimento afetivo.
     - Ela conseguiu? - Indagou novamente Selena.
     - Infelizmente, não! Abortou a todos.
Diante da resposta, Selena teve um mau súbito como se a história lhe calasse fundo à alma.
     - Está tudo bem, Selena?
     - Sim! O assunto me toca profundamente... É só isso!
     - Tome um pouco de água.
Selena suspirou para continuar, quando Marcondes exclamou:
     - O senhor disse que foi nessa época a sua grande queda!...
     - A Lei tem códigos inderrogáveis. O circuito de forças gerado pela maldade tem vida específica. Eulália, nessa época chamada Condensa Isabelle Pyrré, de família nobre na corte francesa, trazia a marca psíquica da mulher de muitos crimes ocultos. Sua constituição perispiritual adaptou-se vibratoriamente ao campo de "forças de retração", ou seja, uma teia psíquica na qual são capazes de pernoitar longamente os efeitos de suas atitudes irresponsáveis. Foi assim que os oito filhos expulsos se agregaram ao seu psiquismo em regime de vampirismo espontâneo. Passaram a viver nove almas em um só corpo...
     - Professor! - interrompeu Selena - mas e a interferência dos espíritos amigos?!
     - Como disse, Eulália era repetente obstinada. É da Lei que, depois de todos os recursos da Bondade, cada alma seja entregue às suas obras, em regime expiatório sob sanção da dor corretiva.
     - Isabelle desencarnou nessas condições?
     - Ao longo desse "condomínio psíquico",  seus desafetos entraram automaticamente em processo de ovoidização depois dos abortos. Tudo era previsível segundo os técnicos da reencarnação. Ou reencarnavam, ou se acoplavam à mãe. Um quadro expiatório cujos limites estavam todos superados, em razão do descaso contumaz do coração leviano de Isabelle. Ela passou para a vida dos espíritos, carregando em si os efeitos desastrosos de suas decisões. Socorrida e amparada novamente, já é seu terceiro retorno nessas condições. Teve oito ovóides alojados em seu útero até a pregressa experiência como Eulália.
     - Mas, professor! - exclamou Marcondes - é possível? Tenho dificuldades em assimilar essas ocorrências.
     - Por qual motivo?
     - Parecem-me injustas!
     - Somente quando estamos prontos para olhar o passado e analisar a trilha sanguinária do mundo, da qual raríssimos de nós escapamos, poderemos entender as razões de semelhantes tragédias da caminhada. O que falta ao homem espírita é visão sistêmica, processual. Desconhecendo detalhes da trajetória de Eulália-espírito, fica difícil compreender o resultado infeliz de suas atitudes. A Lei Natural é a mesma em qualquer circunstância. Não lhe passa na mente o sentido divino dessa experiência?
     - Nem imagino! - respondeu Marcondes com sinceridade.



::  Continua  ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 05 de Setembro de 2016, 04:05
::  Continuação ::



     - Eulália, abriga, na sua intimidade, oito almas dilaceradas pela maldade. Não lhe ocorre que, nessa condição desditosa, ela é mãe em regime de expiação? Não lhe passa pela mente a ideia de que o ventre de nossa irmã é visto pela Celeste Misericórdia como uma "acolhedora incubadora defensiva"? Que seria desses oito enfermos se estivessem à solta nas mãos criminosas dos vampiros inteligentes? Que seria da própria mãe na mão dos gênios da maldade? A situação de Eulália é a da "sanção corretiva". Dor-resgate, dor-evolução. Suas enfermidades dolorosas foram freios contra a loucura desenfreada. Suas energias físicas foram mantas psíquicas para os filhos implantados. É a lei de solidariedade em níveis inferiores. A cada qual, segundo suas obras.¹  Eulália foi gerada em tumultuada gravidez. Aos três anos de idade, apresentou a primeira anomalia, um corrimento com constituição sanguínea. Aos seis, seu abdômen era tomado por inchaços intermitentes. Raramente, ela conseguia se ausentar do corpo com facilidade para o sono refazente. Aos nove, teve seu primeiro ciclo menstrual, anovulatório. Aos onze, teve um quadro semelhante a uma gravidez tubária, porém sem relacionamentos sexuais, experiência que se repetiu - formas teratológicas eram geradas sem cópula. Cistos e miomas, rins e vesículas alterados em seu funcionamento. E, por fim, o câncer destruidor. Todo esse rol de dores foi alvo das mais diversas formas de abrandamento em favor de nossa irmã. Entretanto, a dor-sentimento, aquela que retumbava na sua intimidade consciencial, constituía prova da qual nenhum de nós tinha o direito de interferir. De longe, as dores físicas poderiam ser comparadas aos gládios de depressão e solidão vividos por Eulália. Já imaginou o que significa para uma mulher sentir a desesperadora sede afetiva de acalentar um rebento e não consegui-lo? Nossa irmã, em razão de seu quadro, carregava mais grave prova. Sentia que tinha os filhos no próprio ventre, embora não soubesse explicar a raiz de tal emoção. Em face disso, psiquiatras eminentes catalogaram-na como candidata a psicoses graves. Seus sonhos eram povoados de crianças que lhe achincalhavam o corpo com magotes dilacerantes. Acordava com insônia persistente, acariciando o abdômen como se estivesse grávida para, depois de alguns segundos, despertar completamente da miragem e entregar-se à tristeza. Vezes sem conta, ouvia sonidos e silvos, acreditando-se louca. Eram expressões sonoras das formas desumanizadas que portava em si própria.

Marcondes ouvia a tudo como se fosse narrada sua própria história. Ensimesmado, com o olhar fixo no professor, parecia distante no tempo. Repentinamente, tomado de muita emoção expressou:

     - Aquele ser que saiu de mim é meu filho!
     - Marcondes, está tudo bem? - perguntou o professor.
     - Vejo cenas na minha mente. Uma mulher parisiense muito bela. É Isabelle Pyrré. Meu Deus! Que nitidez de visões! Nunca experimentei algo assim! Ela é linda! Ela é linda! Que saudades, professor!...

Num átimo, professor Cícero pediu-lhe que fechasse os olhos e colocou a mão direito no centro frontal de Marcondes, como fizesse leve massagem no sentido horário. O dirigente recobrou sua lucidez e mostrou-se defasado em razão da experiência. Refeito, depois de instantes, ele indagou:

     - Sou o pai de um daqueles oito?
     - Sim, Marcondes. Seus laços com Eulália ultrapassam a fronteira do tempo presente. Sua história transcende o mero encontro extraconjugal da recém-finda vida corporal.
     - Deus! Tem piedade de nós!

Novo pranto tomou conta de Marcondes, emocionando, igualmente, Selena e a nós.

     - Acalme-se, amigo! Sua experiência com Eulália, conquanto o adultério infeliz, não significa falência e queda. Seu caso é de negligência e adiamento que, descuidadamente, muitos companheiros de lide doutrinária têm se entregado.
     - Não consigo mensurar a extensão de minha falta professor!
     - Agradeça a Deus, meu filho, por estar nesta casa de bênçãos. Não queira saber o que acontece com irmãos da doutrina que fazem o mesmo trajeto, acrescido da leviandade no coração... Aqui você terá tempo e ocasião para realizar o serviço de reerguimento que lhe aguarda. Por isso, abdique, enquanto é tempo, da prepotência que vem tomando conta de muitos corações sinceros de nossa seara em função do orgulho do saber.
     - Tudo me parece muito trágico e sublime ao mesmo tempo! Que diferença há entre um ato de negligência e leviandade? Não termos sido levianos, Eulália e eu?
     - O bem e o mal se confundem. Que é o mal senão o desejo do bem interpretado sob fascínio do egoísmo? Os negligentes são aqueles que poderiam, mas não quiseram, vencer o mal em si mesmos. São mais descuidados que irresponsáveis. Os levianos são aqueles que sequer desejaram tentar a melhora, optaram pelo caminho do erro, apesar de conhecerem a Verdade. Imagina onde estariam você e Eulália, se estivessem entregues aos despenhadeiros da leviandade incontida nesta hora?
     - Mas e nossa atitude? Não devíamos!... Eu aceitava com tanta lealdade as minhas tendências nessa área... Esforcei-me com sinceridade para não tomar esse caminho, a despeito dos impulsos enfermos que carregava... Não sei explicar como cheguei nesse ponto...
     - Não basta aceitar as imperfeições. É mister senti-las a fim de reeducá-las a contento. Há muitos companheiros de ideal repetindo frases chavões acerca de si mesmos, sem internalizá-las realmente nas fibras do sentimento. Quando sentimos o dever, somos impulsionados aos mais amplos vôos de elevação.
     - Que consequências existem para um negligente, professor? São menores que para um leviano?
     - As consequências são claras: culpa, morte, doença, remorso tardio... O preço está sendo pago. Contudo não é da Lei que o homem seja punido, e sim que tenha chances para esse mister. É o seu caso e de Eulália. Quanto aos levianos, chegará o momento em que você poderá comprovar por si mesmo os efeitos de suas ações. Nesta casa, temos milhares deles!... Futuramente, em visitações fraternas, verá com seus próprios olhos.
     - Como está Eulália hoje?
     - Bem melhor. Trabalha ativamente na câmara dos ovóides nesta casa e se tornou, por seus méritos, a responsável por alimentá-los e realizar tarefas somente afeitas a técnicos muito experientes.
     - Não poderia vê-la agora?
     - Para o seu próprio bem, esse reencontro se dará na hora oportuna. Espere um pouco mais.
     - E quanto a mim? O que farei pela minha paz?
     - Um futuro de esperanças o aguarda. Acredite em Doutor Inácio, na sua experiência, e confie-lhe o seu coração.
     - Farei isso.
     - A propósito, Marcondes - interferiu Selena que acompanhava tudo atentamente - dentro de alguns dias visitarei o meu grupo espírita em companhia do Doutor Inácio e Dona Maria Modesto.
     - Aquela senhora no vídeo da cirurgia? - indagou Marcondes.
     - Ela mesma. Estou exultante com a oportunidade!
     - Fico feliz por você, Selena. Pelo visto, seus caminhos como espírita não foram tão infelizes quanto aos meus!
     - Tive minhas lutas, mas encontro-me em paz.
     - Fico pensando, se tivesse a coragem de confessar meus segredos...
     - Pegando um gancho nessa fala de Marcondes, professor, esses segredos estão sendo muito comuns entre os amigos espíritas? - interferiu Selena.
      - Fale por você, querida amiga!
      - De minha parte, creio ter sido sempre muito transparente.
      - Nem sempre isso vem ocorrendo. Infelizmente, o movimento espírita está tomado por uma crise epidêmica.
      - Crise epidêmica?! - mostrou-se curiosa a dirigente.
      - A mesma que atacou Marcondes.
      - Que epidemia é essa? - manifestou Marcondes.

__________________
¹  Apocalipse, 20:12.




pelo espírito Ermance Dufaux / Wanderley S. de Oliveira
livro: Lírios da Esperança
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 25 de Setembro de 2016, 18:35
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Visão Ampliada  ( 11 )

"Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis."
Tiago, 5:16



- Você foi vítima da epidemia de sigilo - destacou o professor.
- Epidemia de sigilo?...
- É a atitude de conveniência que sustenta uma espécie de acordo de omissão coletiva. Fenômeno sutil da vida interpessoal. Uma vez assumidas as responsabilidades doutrinárias, seja em que nível for, muitos companheiros têm confundido quantidade de tarefas com elevação espiritual. Assumem cargos, varam os anos em experiências e sentem-se enormes, grandes em espiritualidade, refletindo velhas tendências religiosistas dos prelados de outros tempos. Evidentemente, quem aparenta grandeza espiritual tem que mantê-la, por isso evitam tratar a qualquer tempo sobre as lutas interiores que, segundo imaginam, os diminuiriam no conceito coletivo da seara - grave ilusão! Não dispondo de franqueza suficiente para tratar de seus conflitos íntimos com naturalidade, emudecem quaisquer referências às tormentas pessoais e deixam de ser sinceros consigo e com os outros. Passam a vida mantendo aparências de iluminação e deixam de cuidar de assuntos essenciais para seu equilíbrio e sua felicidade, nutrindo infundado receio de perderem a autoridade que supõem possuir.

O dirigente ruborizou-se ante a fala do professor. Seu ímpeto foi utilizar a rispidez ante o incômodo na intimidade. Apesar do impulso, recobrou a lucidez e resolveu indagar:

- Estamos evitando dialogar sobre nossas necessidades profundas? É isso?
- Exatamente. Fala-se muito sobre o que se deve fazer nos ambientes doutrinários, mas não tem havido o espaço desejável para tratar e sanar os conflitos pessoais, as angústias ocultas. A vergonha e a culpa têm afastado muitos corações bem intencionados da atitude de lealdade consigo próprios. Escasseia a honestidade emocional, a transparência nas relações. Pense por você mesmo e reflita se não deixou de tratar temas que lhe oneravam as emoções, no terreno secreto de sua mente aflita e sobrecarregada!...

Bastou que o abnegado servidor mencionasse semelhante questão, e a mente de Marcondes enveredou por vastos assuntos que não teve coragem de dividir com ninguém, enquanto no corpo. Agora, inevitavelmente, teria que olhá-los de frente, acrescido do prejuízo de ter perdido o tesouro do tempo para solucioná-los na vida física. E, como se o professor ouvisse as mentalizações do interlocutor, arrematou:

- Dificilmente o homem na Terra assume a tarefa sacrificial de sua transformação definitiva para melhor. Os aprendizes espíritas não escapam dessa situação. Avançam lentamente no escaldante terreno da melhoria espiritual. O cerne da proposta da doutrina é o desafio, por vezes doloroso, de resgatarem-se através da realização do auto-encontro. Nesse circuito fechado de sigilo, acerca de questões essenciais do auto-aprimoramento, estabelece-se um exagerado dimensionamento dos problemas e passam a imaginar consigo mesmos: "Se as pessoas soubessem o peso de minhas provas!..." Assim, julgam-se sob severos carmas e penetram nos escaninhos da autopiedade, carcomidos pelo cansaço, cedendo à pressão de condutas de fuga e desvario em lamentável desculpismo. Através de mecanismo defensivo, desenvolvem a crença de atenuamento dos débitos, ante a proporção imaginária que acalentam sobre a extensão de suas expiações. E terminam por encontrar, nas tarefas doutrinárias, a sua penitência de remissão no alívio das culpas. Por fim, assumem "dupla personalidade", em crescente incoerência com os princípios renovadores da doutrina. No silêncio que se mantém junto a seu grupo doutrinário, encontramos o que podemos nomear como solidão em equipe, uma verdadeira prova voluntária e perniciosa ao crescimento de todos.
- Poderíamos chamar essa postura de hipocrisia? - intercedeu Selena com curiosidade.
- Em alguns casos, encontramos a mentira intencional. No entanto, esse processo tem se tornado uma questão cultural. Um remanescente do religiosismo que impera nas mentes. Assumem-se valores exteriores como sinônimos de santidade na alma. São os velhos costumes hierárquicos enraizados no psiquismo humano.
- Isso estaria ocorrendo também nos campos da administração do movimento espírita? - indagou Selena, que guardava muitas mágoas no assunto.
- É um mal da comunidade doutrinária que tem atingido larga fatia dos seareiros. Precisa ser debatido e extirpado. É esperado que as células do Cristianismo Restaurado imitem a Casa do Caminho no cultivo da franqueza edificante. As atividades sagradas do movimento espírita têm sofrido com intensidade dessa epidemia. O sentimento tem sido uma moeda de pouco ou nenhum valor nas iniciativas administrativas, quase sempre recheadas de formalismo e cerimoniais, calando enriquecedoras ideias que vertem do Mais Alto que seriam temperos de revitalização do afeto, da solidariedade e da concórdia.
- Além da ausência de sinceridade, haveria outro efeito nocivo dessa atitude de omissivo silêncio sobre nossas mazelas? - continuou a dirigente com sua perspicácia.
- O prejuízo mais nocivo dessa postura coletiva se verifica no campo íntimo daqueles que se acostumam com tais convenções, porque se adaptam a um processo doentio de negação dos sentimentos, em contraposição aos alvitres claros da consciência. Semelhante quadro da vida mental, embora seja muito comum entre os homens, opera desagradáveis desarmonias no campo psíquico e torna-se um pasto fértil para a obsessão pacífica e sutil, como você terá oportunidade de verificar em suas futuras atividades de visitação fraterna neste Hospital. Para os espíritas, iluminados com o clarão das verdades imortais, o desafio é ainda maior, considerando a extensão dos apelos expedidos pela consciência.
- De minha parte, só posso defender-me, porque não tive em quem confiar! - afirmou Marcondes com profundo tom de lamento.
- Confiança, amigo querido, é virtude que se constrói.
- Bem que ansiei por alguém para me ouvir confessar! Porém, como confiar segredos e perder a autoridade perante os companheiros?
- Que autoridade, Marcondes?!
- A autoridade da experiência.
- Amigo, existem dois tipos de homens. O homem experiente, aquele que edifica habilidades no esforço nobre e perseverante em favor de seu crescimento. Existe também o homem sábio, aquele que aprendeu a fazer uso da sua experiência pelo bem da maioria. Muitos de nós apegamo-nos ao histórico de serviços prestados na seara, enredamo-nos em desprezível atitude de onipotência.
- Estará afirmando, professor, que devemos negar o que já aprendemos? Igualar-se a quem sabe menos? Isso é falsidade em meu entendimento.
- Desapego da folha de serviço não implica negar a bagagem. O que importa é não transformá-la em troféu de presunção. Ninguém e nenhum grupo, a pretexto de abafar o individualismo, deverão proceder em campanha ao descrédito ou indiferença dos mais vividos. De quem mais tem mais se espera. Espera-se apenas mais comprometimento, humildade e melhor uso do tempo... Essas são algumas expressões de autêntica grandeza moral, quase sempre esquecida.
- Mas como ficam os baluartes consagrados da coletividade espírita nesse enfoque?
- Um dos traços mais claudicantes para os alicerces da regeneração espiritual da Terra é a consagração irrestrita de expoentes da cultura, médiuns ou organizações espíritas históricas. Observa-se um pernicioso e sutil costume em nossa seara de conferir regalias aos mais experientes por parte dos que os amam e a nociva atitude de líderes em se julgarem credores de tais oblações. Poucos são os que desenvolvem a criatividade que lhes enseje abdicar das imagens idólatras sem ferir a admiração alheia. Ninguém necessita negar ou repudiar o reconhecimento e a consideração alheia. A questão é dos excessos decorrentes do hábito humano de entronizar "pequenos deuses" em seu caminho com os quais anseia contar para fugir ou abrandar o volume de suas próprias lutas.




:: Continua ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 25 de Setembro de 2016, 19:21
:: Continuação ::



A conversa fluía espontânea quando Selena, que absorvia os ensinamentos do professor, resolveu participar novamente:

- Este Hospital atende a alguma especialidade no tratamento dessa epidemia de sigilo?
- Temos desenvolvido técnicas terapêuticas com esse fim. Oportunamente, vocês participarão desses encontros salutares com Dona Maria Modesto na "tribuna da humildade". Uma ocasião de tratar abertamente sobre suas lutas mais íntimas. Um confessionário público...
- E no seu aspecto mais abrangente, qual o objetivo dessa casa? - replicou a companheira, ampliando os horizontes da conversa.
- Problemas da mente e do ser, as dores da alma. Tratamos as diversas alienações nas quais, comumente, envolvemo-nos em desafios da vida corporal.
- Se este nosocômio atende a problemas com alienação, posso inferir que estou enquadrado como um doente mental conforme já me disse o humorado Doutor Inácio? - indagou Marcondes.
- A doença mental, para os planos espirituais, tem dimensão infinitamente versátil. Seu quadro pode ser considerado como um transtorno mental não classificado nas fileiras humanas da ciência. Chamamo-lo de auto-suficiência espiritual. São delírios de supremacia evolutiva que nos levam acreditarmos ser quem não somos, conduzindo a uma recusa crônica do afeto espontâneo. Essa ação mental gera um desastre de proporções incalculáveis no sistema da afetividade no qual se encontram as autênticas matrizes daquilo que somos. Um enquistamento prolongado no personalismo, seguido de bloqueios do afeto. Tudo começa no orgulho - doença mental original - atingindo o sistema afetivo da criatura, deixando-o aos frangalhos em razão em razão da rejeição infligida aos impulsos do coração. O orgulho é o sentimento de superioridade pessoal refletido no estado mental em forma de ilusões. É a maneira desenvolvida pelo nosso egoísmo para camuflar a realidade do que somos, a fim de vivermos a fantasia do que gostaríamos de ser. Em palavras singelas, é o uso do cérebro com negação dos sentimentos.
- Terei negado a minha própria realidade durante a reencarnação, é isso?
- Tomou contato superificial e insuficiente com sua verdade pessoal.
- Pelo simples fato de negar sentimentos?
- Não é tão simples assim!
- Por quê?
- A maioria dos habitantes no corpo vive suas relações dessa forma.
- Posso concluir, então, que todos que conhecem a doutrina passarão por dramas como o meu?
- Formou-se no mundo físico a cultura de que certos sentimentos são traços de fraqueza, sendo rejeitados a pretexto de manter uma imagem, um padrão, uma fachada. Porém, se não pulsarem para fora, haverão de pulsarem para dentro, ocasionando lesões afetivas profundas. Enquanto no corpo, semelhantes lesões podem ser percebidas através de manifestações sutis e perfeitamente controláveis no campo mental. São os súbitos remorsos que brotam na tela mental. Raramente, admitimos aferi-los com lealdade, desconsiderando-os com total repúdio. Assim, de negação em negação, o equilíbrio do campo afetivo é perturbado, reduzindo a sensibilidade para o exterior, entronizando em seu espaço a personalidade institucional, ou seja, um amante de formalidades evoluindo para o perfeccionismo. Depois da morte, semelhantes "pulsões" não mais controláveis, vindo a eclodir-se nos mais variados quadros, dependendo da gravidade alcançada nos recessos da consciência. Daí surge o monoideísmo, as fixações mnemônicas, o sono prolongado, o coma mental, o estado confusional da ideação, a ausência de controle sobre o pensar, os remorsos depressivos, o escoamento da matéria afetiva bloqueada e muitas outras formas de manifestações íntimas cuja melhor definição é a auto-obsessão em nível severo, exigindo cuidados e terapêuticas muito específicas.
- Em meu caso, qual desses quadros reflete com mais exatidão o que passei?
- O arrependimento tardio, isto é, o remorso. Sua dificuldade em desligar-se de certas lembranças que o incomodam são situações conflitantes adquiridas na Terra e das quais não se livrou até agora pelo autoperdão. Tais lembranças, em verdade, são núcleos catalisadores de velhas pendências não resolvidas em remotas existências carnais.
- Então, se entendi corretamente, ao recusarmos sentir o que sentimos, provocamos lesões?
- tudo depende de como se trabalha internamente com esses sentimentos e de suas origens nas pregressas experiências corporais. A negação sistemática dos impulsos de amor ao próximo, tido muitas vezes como romantismo dispensável, quase sempre significa estacionamento da inteligência afetiva e doença para a alma. É o mesmo que deixar de olhar para si mesmo, porque o sentimento é o espelho da consciência no templo do Espírito. Algumas vezes, essa negação é milenar, razão pela qual alcança níveis de enfermidade grave.
- Temos então uma inteligência afetiva?
- Temos várias inteligências, e o homem do futuro vai descobri-las através dos caminhos científicos. Nas academias científicas do mundo, alguns experimentos estudam as múltiplas inteligências do ser, podendo ser mais bem exploradas para a felicidade e a paz interior nos rumos do progresso. Apesar dessas conquistas, o homem apenas arranha semelhante tema.
- E meu arrependimento durante a doença no corpo não valeu de nada?
- Teve enorme valor. Mas não foi arrependimento, e sim remorso.
- Que diferença existe?
- Remorso é tortura, arrependimento é libertação. A culpa e o desejo de melhora são os termômetros do remorso.  O arrependimento completo tem três ingredientes: o desejo de melhora, o sentimento de culpa e o esforço de renovação.
- E o que me falta nessas etapas?
- Falta-lhe agora aprender a se perdoar pra que seu remorso na carne seja um caminho de paz para sua vida interior. Allan Kardec, estudando a comunicação de um criminoso arrependido, teve o ensejo de destacar: "O Espírito só compreende a gravidade dos seus malefícios depois que se arrepende." (Lucas, 17:20)
- Poderei conseguir esse estágio neste plano de vida?
- Conseguirá em larga escala. Um dia, entretanto, pedirá o retorno ao corpo para consumar suas conquistas.
- Esta doença de auto-suficiência espiritual tem atingido muitos espíritas? - indagou o dirigente como quem ainda não tinha perdido o costume de transferir a curiosidade para os problemas alheios.
- Os espíritas falam bastante nos lugares exteriores para depois da morte. Colônias e umbrais são descritos com minúcias. No entanto, o estudo das repercussões íntimas e a relação com a consciência deveriam ser mais estudados e mensurados para dilatar as concepções humanas em torno da morte. A morte nos devolve a nós mesmos longe das ilusões impostas pela matéria. É justo nos despojemos primeiro dos pesos inúteis que carregamos para, somente depois, promovermos a ascensão pessoal com maior leveza mental - respondeu o professor levando o aprendiz a voltar a atenção a si próprio.
- E como ficam meus esforços? Embora não tivesse o hábito de uma análise minuciosa, julgava sinceramente estar pronto para a morte em razão da missão a mim confiada!
- Os amigos espíritas precisam vigiar com muita cautela o fascínio que têm votado a suas folhas de serviços. Bastas vezes confundem quantidade de tarefas e realizações com ascensão evolutiva, como se fizessem carreira na espiritualização. Muitos corações de ideal, em todas as atividades doutrinárias, têm passado pelas tarefas sem se educarem através delas. E quanto mais expressivas e coletivas são elas, mais aumentam os riscos de vaidade e tropeço. Temos, nessa casa de recuperação, vastos pavilhões de médiuns, divulgadores, escritores, evangelizadores da juventude, presidentes de centros espíritas, dispensadores da caridade pública. Todos abençoados com as luzes da Doutrina Espírita, entretanto não conquistaram sua luz própria. Engrandeceram-se no orgulho com a cultura e a experiência das práticas e negligenciaram o engrandecimento moral de si mesmos, através da reeducação dos hábitos e da aquisição de virtudes eternas. É um engano milenar da ilusão humana ainda afeiçoada a vantagens exteriores, sem a consolidação dos ensinos cristãos no próprio coração. como disse o Senhor: "O Reino de Deus não vem com aparência exterior." (O Céu e o Inferno, 2ª parte, capítulo VI. 
- Sinto-me como se meu esforço fosse em vão! Quanta renúncia, quanta devoção! Para que tanto trabalho no plano físico?
- Não existe esforço sem valor. Convenhamos, no entanto, o trabalho doutrinário, para boa parcela de nossos companheiros de ideal no plano físico, tem sido apenas medida defensiva contra o tempo mal usado, evitando maiores deslizes ou problemas desnecessários...
- Experimento diante de suas colocações uma enorme sensação de perda de tempo!




:: Continua ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 25 de Setembro de 2016, 19:37
:: Continuação ::



- Quando você tiver acesso às suas vidas pregressas, terá como dimensionar com melhor juízo os passos vitoriosos de sua existência recém-finda. O fato de não ter realizado tanto quanto podia, não lhe tira os méritos que são múltiplos e valorosos. Todavia não posso deixar de lhe advertir que raríssimos são os corações que chegam por aqui sem essa sensação de tempo perdido... A vida física impõe-nos muitas miragens sobre nossos mais profundos anseios. Nossas pretensões pessoais são muito sutis algumas vezes. Ainda teremos uma senda muito longa de educação com os reflexos do personalismo na esfera do coração.
- E porventura terei algum julgamento aqui neste Hospital acerca de minhas falhas?
- Absolutamente! Tudo é misericórdia, trabalho, recomeço e preparação. Chegamos, muitas vezes, a discutir as fichas reencarnatórias dos pacientes sempre com o propósito de amparar-lhes, da melhor forma possível, os objetivos de crescimento e paz definitiva.
- E qual será o tratamento para a minha enfermidade aqui na vida espiritual?
- Comece com a humildade em aceitar suas falhas com plena disposição de repará-llas o quanto antes. Muitas almas vinculadas ao Espiritismo revoltam-se com os resultados de sua vida física ou continuam mantendo-se iludidas sobre suas falhas. Isso lhes adia em muito a recuperação; algumas vezes, chegam a reencarnar quse da mesma forma que desencarnaram. Toda revolta será injusta nesse passo. Precisamos convir, só colhemos o que plantamos conforme nossas obras.

Marcondes renovava com rapidez o seu estado espiritual. A curiosidade tomava o lugar da prepotência e da pseudo-sabedoria. Sua visão, depois de décadas de cultura espírita no cérebro, dilatava-se sob o impulso do afeto, do desejo sincero e despretensioso de aprender.  Sua alma abria-se para a vida, sua sede de saber voltava-se para o autoconhecimento, tão desprezado ao longo de sua reencarnação. Novos dias de luz o aguardavam na nova caminhada. Pouco mais de trinta dias no Hospital Esperança havia lhe valido anos a fio na absorção íntima do sentimento de imortalidade.

A nova dimensão permitia-lhe devassar um mundo novo de leis e acontecimentos. Mais sensível e introspectivo em relação à Verdade, o experiente dirigente era espontaneamente convocado, igualmente, a um mundo novo de sensações e emoções.

Nem sempre, chegar a locais de refazimento e educação, na erraticidade é indício de sossego interior. Marcondes, na medida em que alargava a visão, desenvolvia a angústia pertinente à esmagadora maioria dos que deixam o corpo perecível. Uma aflição tomava o lugar da arrogância. Assaltado pelas horas vazias, logo lhe foi indicado o trabalho como medicação inadiável em favor de sua paz. Seguindo orientações bem encadeadas, passou a integrar as equipes de colaboradores operosos do nosocômio.




pelo espírito Ermance Dufaux / Wanderley S. de Oliveira
livro: Lírios da Esperança
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 15 de Novembro de 2016, 00:53
(https://static.wixstatic.com/media/d63e53_555a353c57e32ce61e075266daee7869.png/v1/fill/w_196,h_276,al_c,lg_1/d63e53_555a353c57e32ce61e075266daee7869.png)
(Dr. Inácio Ferreira de Oliveira)



12
Nossas Obras


"Será por influência de algum Espírito que, fatalmente,
a realização dos nossos projetos parece encontrar obstáculos?

Algumas vezes, é isso efeito da ação dos Espíritos; muito mais vezes, porém,
é que andais errados na elaboração e na execução dos vossos projetos.
Muito influem nesses casos a posição e o caráter do indivíduo.
Se vos obstinais em ir por um caminho que não deveis seguir,
os Espíritos nenhuma culpa têm dos vossos insucessos.
Vós mesmos vos constituís em vossos maus gênios."
O Livro dos Espíritos, questão 534.



Selena, por sua vez, aguardava com ansiedade o momento de sua visita ao centro espírita que dirigiu na cidade mineira. Sua visita à reunião de transferência da diretoria seria sua primeira excursão ao plano terreno. Ali a vida a esperava com preciosas lições...

Antes de partirem, Dona Modesta sentenciou-lhe:

- Filha, como te sentes antes a perspectiva da visita?
- Apreensiva. Estranha-me a minha reação, pois, até então, outra coisa não desejava senão fazer essa visita. Agora, parece-me que o peito carrega uma dor, uma angústia. Muito estranho!...
- Seus sonhos, como têm sido?
- Tenho sonhado muito com Angélica, minha substituta. Nela encontro minha esperança da continuidade das obras deixadas na Terra. Orientei-a com farta dose de conhecimento e experiência para essa hora. Por outro lado, meus sonhos dão-me a impressão que ela está atrás de uma grade e não consegue chegar até mim. Isso me aflige, e, quando acordo, tenho a nítida sensação de separação, de impossibilidade de chegarmos uma à outra.
- Compreendo...
- Creio que seja saudade, apenas isso!
- Talvez, Selena! Talvez! - exclamou Dona Modesta que sabia com detalhes o que acontecia.

Possuindo a bondade e a consciência pacificada, Selena não apresentou nenhuma dificuldade na volitação. Acompanhada por Doutor Inácio, Dona Modesta e uma equipe de defensores chefiada por Irmão Ferreira - servidor incansável de nossa casa de amor - seguimos para a capital mineira.

O coração de Selena encontrava-se quase incontrolável com a oportunidade. Nas imediações do bairro singelo onde se localizava a organização doutrinária, todo o grupo passou automaticamente por um processo de adensamento vibratório. Era como se andássemos no solo terreno e respirássemos o oxigênio. As criaturas nas ruas faziam seu percurso alheio à nossa presença.

- Paremos por aqui - orientou Dona Modesta a algumas quadras do local. Como está a situação, Ferreira?
- Vossa mercê se cuide, minha patroinha. Nada tá fácil por estas bandas! - respondeu Irmão Ferreira com seu típico palavreado e sotaque nordestino.
- Mantiveram o cerco?
- Os cabra se arrupiaram de vez e montaro guarda. Não tem quem entre lá!

Selena, atenta ao diálogo, mostrou-se preocupada. Sem entender o ocorrido, seguimos a pé depois de orarmos em conjunto. Dona Modesta, a par de tudo, preveniu:

- Selena, procure manter toda tranquilidade em seu íntimo. O êxito depende de sua atitude.
- Temos algum problema?
- Temos.

Ao chegarem à construção - uma casa bem cuidada e pequena - vislumbraram uma cena dantesca. O centro estava totalmente rendido na mão de astuta falange da maldade. Alguns seres estranhos que mais lembravam anões gordos e totalmente esbranquiçados estavam no portão de entrada. Tinham a pele gordurenta. À distância, pareciam pedras que exalavam desagradável odor. Vigias por todos os lados, armados como bandidos prontos a atacar. Uma cerca, feita de peças estranhas retorcidas como metal, continha um símbolo da suástica em cada mourão. Dela partia uma irradiação pestilencial. Notava-se que uma luz partia de dentro da casa espírita em direção ao alto, entretanto, não esparramava-se pelas paredes, verticalizava-se como se fosse soprada por forte vento para cima. A oração feita pela diretoria mantinha uma conexão com outras esferas. A luz não era percebida pelos capangas. Ampliando o poder mental, pudemos entrever Angélica, possível continuadora das iniciativas de Selena, conduzindo a reunião.

- Dona Modesta, a senhora vai deixar esse grupo infeliz aqui? - externou a ex-dirigente.
- Pouco posso fazer, minha filha.
- Certamente querem prejudicar a transferência da diretoria.
- Não tenha dúvida, Selena! Observe e mantenha-se em prece. Vou entrar sem que me percebam.
- Vamos.
- Não, Selena! Você não poderá.
- Não poderei?...
- Se passar daqui, eles terão conhecimento da nossa presença e então teremos um prejuízo real para a tarefa em curso.
- E como vou acompanhar a reunião?
- Você ouvirá tudo. Espere aqui.

Dona Modesta entrou sem dificuldades, sorrateiramente. Dotada de largo poder mental, furou o bloqueio vibratório sem alarde. Dentro da casa espírita, instalou pequeno componente condutor na mesa, e Selena, lá fora, passou a acompanhar através de um aparelho semelhante ao fone de ouvido. Após a prece, Angélica pronunciou:

- Irmãos! Hoje temos árdua tarefa pela frente. Um novo momento para esta casa de Jesus. Selena, nossa devotada seareira, foi colher seus frutos no além. Nossa reunião visa a analisar sua substituição e os novos planos para as tarefas.

Selena exultou com a referência e por ouvir a voz de Angélica.

- Todos sabem que nossa companheira abrilhantou os serviços deste celeiro de bênçãos - prosseguiu Angélica. Ninguém, porém, desconhece os efeitos de seu temperamento controlador, em razão de algumas decisões excessivamente fortes, com as quais nenhum de nós nunca concordou.

Nessa altura Dona Modesta tomou o pequeno microfone e orientou a ex-dirigente que mantivesse calma.

- Creio, a menos que esteja equivocada, que Selena foi respeitada e obteve o tributo da amizade de todos nós, mesmo com tais discordâncias. Sua rigidez, entretanto, não ensejou que pensássemos livremente no serviço do Cristo e sim em pontos de vista pessoais. Ainda que nessa condição realizamos abundantemente. Contudo, proponho, nessa hora, uma decisão de coragem e fidelidade a Jesus, a quem realmente muito devemos. Proponho duas medidas básicas e desafiadoras que constituirão os alicerces de muitos outros caminhos. Primeiro, a administração em grupo e, segundo, a reativação do serviço de intercâmbio, extinto por Selena, em razão de sua visão sobre mediunidade.

Selena se mostrava apática com o que ouvia. Ímpetos agressivos nasceram em seu coração. Doutro Inácio postou-se ao seu lado, segurando-lhe o braço no intuito de evitar o pior. Angélica, apesar da firmeza, falava com ternura e autenticidade. Sua fala ponderada, entretanto, ofendia sofregamente a ex-presidente, que não resistiu ao teste, manifestando:

- Falsa! Sua falsa! dirigindo-se a Angélica.
- Sossegue, Selena! Sossegue, ou pode estragar tudo - alertou Doutor Inácio.
- Estragar! Mais que ela está estragando. Que vontade de arrumar um médium nessa hora e lhe mandar um recado. Que raiva, meu Deus! Eu não acredito no que ouço!



:: Continua ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 15 de Novembro de 2016, 01:36
:: Continuação ::



Tomada de ira, ela gritou aos brados, descontroladamente:


- Que espécie de pessoa é você Angélica? Pode me ouvir, sua...? Isso é hipocrisia! Que adiantou tanto amor a essa casa para ter sua traição? Falsa! Falsa!...

A reação não podia ser pior. Os vigias escutaram a fala amarga de Selena e armaram-se para lutar.

- Procurem! Procurem! Temos intrusos... Escutei algo nas redondezas... Sinto cheiro de anjos no pedaço... Avisem os demais que estão no trecho... Chamem reforços!

Uma algazarra se estabeleceu. Selena, já sem controle, entrou em crise mental de revolta e medo, similar aos efeitos da síndrome de pânico. Mãos suarentas, batimento cardíaco acelerado, tremores... Foi retirada às pressas para o Hospital com baixíssima pulsação energética a ponto de desfalecer. Irmão Ferreira, como se já previsse o incidente, tomou as providências para proteger o andamento da reunião. Os capangas reforçaram a guarda, mas não vendo ninguém, aquietaram-se.

Já no Hospital, acomodada em leito apropriado, na mesma ala restrita que Marcondes ficou alguns dias antes, encontrava-se adormecida e ainda muito agitada. As mãos fechadas esmurravam a cama, requerendo correias de contenção. Rosângela, a enfermeira da ala, Dona Modesta e Doutor Inácio acompanhavam o desenrolar do quadro. Trinta minutos se passaram sem respostas desejáveis. A paciente entrou em regressão espontânea. Depois das mãos contidas, foi a vez dos pés que também foram presos com amarras. Babava e respirava a longos haustos. Sessenta minutos e, em uma espécie de transe profundo, Selena começou a balbuciar algumas palavras em diferente língua... Era um francês fluente e claro. Dona Modesta, dotada de xenoglossia no tempo, traduzia com facilidade.

- Qual seu nome? - interrogou Dona Modesta.
- Condessa... Condessa Pyrré...
- Em que ano estamos?
- 1573. Um ano depois da matança assassina...
- Matança?...
- ... São Bartolomeu.
- Em que país?
- França. Estou na Paris dos católicos. O "Reinado" do Papa Gregório XIII.
- Por que dos católicos?
- Deus está conosco.
- O que acontece com você neste momento?
- Estou no calabouço a mando dos Médicis. São traidores e interesseiros. Sou das últimas vítimas de Carlos IX, o mais vil e fraco dos reis franceses... Minha própria filha traiu-me...
- Quem?
- Elise... Elise Pyrré... Tentei poupá-la das atrocidades da corte... Em vão... Ela traiu-me para se ver livre de mim, do meu controle... Não sabe em que mãos vai acabar... Pobre Elise!
- Por que foi presa?
- Catarina, a rainha-mãe, detesta-me.
- O que você fez a ela?
- Roubei-lhe o marido. E o faria novamente. Amava-o. Odeio Catarina. Odeio a religião protestante. Gosto do povo. Detesto os rituais, são falsos... São falsos... São falsos!... São falsos!...

Selena entrou em "convulsão monoideísta" e não cessava de repetir a expressão.

Doutor Inácio propôs a sedação. Não se podia fazer muito por agora. A fixação em recordações estava na periferia dos fatos. Necessário que o quadro mental apresentasse uma melhora. Não basta regredir ao passado quando se tem objetivos terapêuticos. O importante é detectar emoções essenciais, vivências interiores que servem de grilhões e, o principal, desatar os "nós afetivos"... Sob observação contínua, foi levada ao posto próximo. Permaneceria sob vigilância redobrada.

Seria submetida a uma regressão mediúnica induzida quando passadas vinte e quatro horas. Dona Modesta "receber-lhe-ia" o inconsciente profundo, o corpo mental de Selena, para tratar-lhe as raízes de seu drama. Medicada a contento, ela adormeceu. Saindo dos aposentos, já com a hora avançada, Doutor Inácio e Dona Modesta travaram um diálogo descontraído sobre o assunto. Estavam exaustos, mas não perdiam o bom ânimo.

- Inácio, que dia abençoado! - exclamou Dona Maria já um tanto defasada das lutas do dia.
- Eu diria endiabrado! Os homens na Terra não imaginam o que seja uma rotina dessas...
- Dar sem receber, dar por amor de realizar! Quantos não terão extensas lutas com esta lição nesse outro lado da vida!
- Inclusive os espíritas!
- Inclusive os espíritas! É verdade!
- Estamos há exatas quinze horas em tarefa contínua. Só hoje visitei, por três vezes, a Terra. Não reclamo de nada, mas se tivesse meu cigarrinho de volta, acho que trabalharia mais quinze horas sem mau humor...
- Inácio! Inácio! Essa é a luta da qual estamos falando. Despojar-se dos costumes humanos!
- E ainda tem espírita achando que somos espíritos superiores!
- Se Deus nos perdoou por isso, há de perdoá-los também - brincou Dona Modesta.
- Deus, sim! Eu..., nem tanto... Ainda hoje, realizei consulta em meu gabinete a um desses dirigentes que mais gostam de uma mesa que de gente, velho companheiro das adjacências de Uberaba, e imagine o que ele queria!...
- O quê, Inácio?
- Que eu ficasse lhe fazendo sala. Batendo papo como fazem os mentores, disse ele... Disse também que estava muito feliz em estar onde estou, porque isso é sinal de superioridade e, como estava muito cansado da reencarnação, adoraria descansar alguns dias ao meu lado.
- E você... naturalmente...
- Naturalmente, dispensei-o como faço com qualquer pessoa iludida o bastante para ter essa miopia moral.
- Inácio, Inácio! O que disse a ele?
- O de sempre... Descansar depois da morte é coisa de carola e velho...

Os dois riram incontidamente.

- Realmente há muita ilusão!
- Houve outro, um desses "enciclopedistas espíritas" que leram tudo sobre a doutrina, que ainda zombou de mim um dia desses. Passava por um corredor já cansado, com mau humor pior que o habitual, depois de quase vinte horas de trabalho, e sabe o que ele me disse?
- O quê?
- Doutor Inácio, que cara é esta? Até parece que o senhor está cansado?! Espírito superior não cansa, ouviu?! Aprenda a usar sua mente!
- E você...
- eu lhe dei o troco merecido. Disse a ele que não estava cansado, estava arrependido de ter morrido. Devia ter ficado na Terra uns mil anos para não encontrar mais com religiosos. No sanatório espírita de Uberaba, pelo menos, essa segurança eu tinha. Não era obrigado a lidar com as tricas e futricas do movimento doutrinário!
- E ele?...
- Ele ainda me perguntou se tinha algo me incomodando.
- E você, naturalmente... - debochou Dona Modesta.
- Naturalmente, eu me calei, porque, se falasse naquela hora, seria um desastre!
- Se contarmos nos livros, realmente nossos irmãos terão dificuldade em acreditar sobre a realidade desse momento. Veja só o estado de meus cabelos, coisa horrível, meu Deus! Olhe a cor de meu guarda-pó! - e passou as mãos sobre os dejetos secos expelidos por Selena e vários outros atendimentos naquele dia. Quem imagina que também cansamos e precisamos do sono e dos aparelhos de recomposição energética? A grande maioria imagina-nos dotados de superlativo poder mental, capaz de tudo providenciar num passe de mágica. Usar a mente! Pensam que, ao morrer, tudo se resolve com a mente como se ela se soltasse do cérebro e...
- Passássemos a ter asas na cabeça - completou Doutor Inácio.
- É por aí, Inácio... Ao imaginar uma vida espiritual angelical, o homem adormece nas visões religiosas e estabelece um falso dimensionamento sobre a erraticidade.
- Não bastasse isso e, quando chegam aqui, ainda querem mudar o que Deus criou! Adoram dar pitacos e sentem-se os donos do pedaço.
- Donos do pedaço! Expressão humana que cabe bem na história de Selena.
- A senhora estudou a ficha com mais atenção... Teremos uma incisão anímica?
- Não há outra saída. Dentro de vinte e quatro horas, faremos uma varredura no inconsciente.
- E quando a senhora acha que Marcondes e Selena poderão saber da história?
- Na hora certa acontecerá, Inácio!
- O destino enlaçando almas até no plano espiritual... Quem diria! Mais uma para aqueles que julgam ter a "chave do céu"! Se a reencarnação é palco de laços de afeto e desafeto, a imortalidade é o camarim onde os homens carnais se despem das fantasias das ilusões para que se olhem como devem no espelho da realidade.
- Uai! - disse Dona Modesta como uma típica mineira - virou poeta, Inácio?...
- Não, Dona Modesta! Foi apenas uma crise psiquiátrica...

O bom humor permanente, a despeito do cansaço, não roubava nunca daqueles dois a chance de debocharem das mais sérias e profundas questões da vida. Essa característica pertinente a ambos era-lhes medicação e refazimento.

- Vamos descansar, Inácio, pois afinal de contas...
- Afinal de contas, temos horário para cumprir e a quem dar satisfações amanhã bem cedo. 
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 17 de Dezembro de 2016, 22:02
(https://4.bp.blogspot.com/-e6FrMgOBfWg/WE89gpz_qLI/AAAAAAAAR-M/1pkzazbr9PkNj9uFhuRXwTo6PC9ibq0JQCLcB/s1600/la.jpg)



13
Técnica Anímica


"A lembrança da existência corporal se apresenta ao Espírito
completa e inopinadamente após a morte?
Não, vem-lhe pouco a pouco, qual imagem que surge gradualmente de
uma névoa, à medida que nela fixa ele a sua atenção."
O Livro dos Espíritos, questão 305.



A paciente estava há mais de vinte horas neste estado de coma mental. Monitorada por avançada tecnologia, seu quadro inspirava cuidado especial. Seu diagnóstico era delicado, uma fixação mnemônica em vivência pretérita. Selena guardava vínculos estreitos com Angélica (Elise Pyrré), dirigente encarnada que lhe substitui nas tarefas e que fora sua filha. Sentimentos hostis tomavam conta de seu campo emocional à maneira de virulenta patologia cardíaca. Aliás, essa era a matriz da cardiopatia prolongada que a despejou do corpo físico. A utilização de técnicas anímicas de regressão poderia surtir efeitos positivos. Dona Modesta guardava larga experiência no tema. Utilizando-se de seus recursos mediúnicos, far-se-ia intermediária do corpo mental de Selena, a fim de serem executadas delicadas cirurgias. Passado o efeito das medicações sedativas, ela apresentava sinais vitais estáveis e pouca lucidez mental. Fizemos a oração junto à enfermeira Rosângela, a médium, Doutor Inácio e dois especialistas em neurocirurgia. Dona Modesta postou-se ao lado da cama, em transe profundo.

- Selena, pode me ouvir? - indagou Doutor Inácio dirigindo-se à médium.
- Bonsoir merci!
- Essa não é mais sua língua. Você está no Brasil, Selena!
- Eu não sou... Selena - disse ofegante como se acordasse de uma só vez e com os olhos esbugalhados - eu não sou Selena! Selena não existe! É uma réplica infeliz...

Enquanto isso o corpo espiritual de Selena na cama contorcia-se e suava abundantemente.

- Qual seu nome?
- Condessa Pyrré, descendente da família De Guise.
- A condessa já reencarnou como Selena.
- Não! Selena é uma réplica de mim. Jamais existiu ou existirá. Elise está a meu lado e me ama... Há,há,há!... Ela me ama... Querem chamá-la de Angélica! Isso é obra de Catarina, a malvada dos Médicis...
- Engano seu, Selena. Elise hoje é Angélica. Está na carne. Nada tem a ver com Catarina.
- Catarina é a encarnação do mal na humanidade.
- Que ela lhe fez de tão mal?
- Envenenou o coração de seu filho para roubar-me Elise.
- Terá ela algum motivo?
- Nenhum...
- Não minta, minha filha. Aqui é o país da Verdade.
- Ela é vingativa.
- Por quê?
- Seu esposo me amava. Fui uma concubina sem intenções para tal... Catarina está aqui?
- Não.
- Mas eu sinto como se estivesse.
- Não, engano seu. Procure acalmar. Ela não está aqui. Estamos em outro tempo, Selena.
- Selena não existe...
- Então vamos ver se não existe. Observe seus pais, Selena. Volte à idade de dez anos. Veja aquela caixa de presentes que lhe foi dada por seu avô Totonho. Viu?
- Sim. eu me lembro. Meu presente preferido. Vovô Totonho... Onde está?
- Lembra como conheceu o Espiritismo? Pequenina ainda... Qual o seu nome?
- Não sei... Talvez seja...
- Selena. Repita comigo: Selena, Selena, Selena.
- Selena...
- Isso. Esta é sua identidade atual.

Nessa altura, os especialistas aproximaram-se e colocaram na cabeça de Selena uma touca que irradiava ondas de intenso magnetismo, provenientes de um fino ducto a ela interligado. Dona Modesta sentia, na mesma região, uma ardente onda de calor. Após alguns segundos, podia-se ver nitidamente, saindo dos lóbulos frontais da médium, uma massa gelatinosa purulenta de cor amarela. Fenômeno parecido com a emanação de ectoplasma. Uma grande gota do lado esquerdo, outra do direito. A matéria escorria pela face, e Doutor Inácio a examinava em silêncio. Depois de alguns minutos, nova dose daquela gosma escorria com mais intensidade, desta vez, exalando um desagradável odor. Rosângela prontificou-se a recolher o material cuidadosamente em pequenos chumaços de algodão. Por onde escorria o líquido, notava-se na face da médium, como se estivesse queimada a pele. Marcas visíveis de uma oxidação. Selena apresentou imediata alteração no seu quadro. Seu batimento cardíaco, sempre lento, passou a pulsar em ritmo normal. Foi então que Doutor Inácio chamou a atenção da enfermeira para o seio esquerdo da médium, totalmente empapado na mesma substância. Rosângela, com carinho e respeito, abriu-lhe a roupa e passou ao asseio necessário. A médium permanecia em total inconsciência. A operação chegou ao fim.

- Modesta pode me ouvir?
- Sim, Inácio... Regresso lentamente... O fio foi cortado. Angélica está livre.
- Graças ao bom Pai.
- Como está Selena? - perguntou Dona Modesta ainda de olhos fechados.
- Todos os seus sinais são alvissareiros. Ela dorme como uma criança.
- Solte as amarras dos braços e pernas.

Mesmo ainda recobrando a lucidez, a médium preocupava-se com a paciente esquecendo-se de si.

Terminada a técnica, passamos a outras atividades da rotina. Dona Modesta deixou um recado para Selena. No dia seguinte, viria visitá-la para os esclarecimentos necessários. Passadas duas horas exatas, a paciente recobrara a consciência. Teve fome e pediu de comer. Cuidou do asseio e, já refeita, conquanto fraca, iniciou uma amizade com a enfermeira.

- Qual o seu nome?
- Rosângela. Sou enfermeira nesta ala restrita.
- Estou na ala restrita?
- Sim. Você passou por um quadro que exigiu cuidado.
- Não foi você quem cuidou do Marcondes quando esteve aqui?
- Isso mesmo! Vejo que começa a se recordar dos fatos. Fico feliz!
- Que tipo de tratamento foi o meu, Rosângela?
- A senhora estava com "pinças pretéritas". São pontos emocionais de ligação com o passado muito intensos e crônicos. A senhora se lembra de algo?
- Alguns nomes estão como um eco na minha mente... Elise... Pyrré... Tenho a impressão de já ter ouvido esse nome aqui mesmo no Hospital...
- Ouviu!
- Ouvi?
- Lembra de Eulália?
- A... a amiga de Marcondes?
- Ela mesma! Eulália foi Isabelle Pyrré.
- Sim, é isso mesmo... Agora me lembro melhor! Mas e Elise?... Há alguém com esse nome ou?...
- Tem. Elise foi irmã de Isabelle.
- Os nomes me causam um desejo de chorar Rosângela... Que acontece comigo?

Ela caiu em pranto sentido.

- São recordações, Selena. Logo você entenderá! Procure se acalmar e refazer seu estado. Dona Modesta estará aqui amanhã e lhe responderá. Quanto ao choro, não segure, deixe fluir, minha amiga!

A noite passou célere para Selena, afogada em muitas lembranças da oportunidade carnal recém-finda. Com muito custo conseguiu adormecer e repousar. Na manhã seguinte, tinha outra disposição. Estava mais animada e alegre. Desejou sair do leito. Rosângela a conteve, pedindo aguardar a visita de Dona Maria Modesto.

Não passava de sete horas e trinta minutos, quando ela chegou elegantemente vestida.
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 18 de Dezembro de 2016, 00:11
(https://1.bp.blogspot.com/-W_LRaRZnkmo/WD-FAmuqaJI/AAAAAAAAR6g/s9TC2SWr0ckjhtLWB49BjoWzF-76FRIWACLcB/s400/a.jpg)



14
Cargos e Responsabilidades


"E chegou a Cafarnaum, e, entrando em casa, perguntou-lhes:
Que estáveis vós discutindo pelo caminho?
Mas eles calaram-se, porque pelo caminho tinham disputado
entre si qual era o maior.
E ele, assentando-se, chamou os doze e disse-lhes:
Se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos.
E, lançando mão de um menino, pô-lo no meio deles, e, tomando-o
nos seus braços, disse-lhes:
Qualquer que receber um destes meninos em meu nome a mim me recebe;
e qualquer que a mim me receber, recebe não a mim, mas ao que me enviou."
Marcos 9:33 a 37



- Dona Modesta! Não via a hora de conversarmos!
- Aqui estou, amiga querida! Como passou a noite?
- Bem, muito bem! Tenho a impressão de ter um coração novo!
- Ótimo! Pretendo tirar você desta cama mais rápido que pensa.
- E a senhora?... Posso saber aonde vai nessa elegância? - manifestou a convalescente com humor.
- Vou a Terra. Tenho muitas visitas e compromissos por lá, hoje.
- Jamais imaginei uma rotina como a de vocês. Conversei muito com Rosângela e impressionei-me com o ritmo de trabalho por estas bandas.
- Abençoado trabalho, Selena!
- Dona Modesta... eu...
- Já sei! Quer saber tudo. Tim-tim por tim-tim!...
- Tenho algum problema grave?
- Nem tanto! Uma obsessão crônica, envelhecida.
- Uma obsessão? É sério?
- É sério.
- O obsessor foi assistido?
- E como!
- Onde está?
- Aqui.
- Aqui?!
- Diante de mim.
- A senhora está de muito humor hoje.
- Não é só humor. É fato. O obsessor, caso prefira utilizar essa indesejável expressão, está aqui, na minha frente.
- Eu?
- Você vê mais alguém aqui no quarto?
- Mas...
- Quero lhe fazer uma pergunta, Selena - assim expressou a benfeitora mudando o tom da conversa.
- Faça!
- Qual o significado de Angélica, sua companheira de lides espíritas, para você?
- Sinto coisas horríveis por ela depois do que ouvi na reunião de diretoria.
- Já sentia isso antes?
- Eu...
- Sem máscaras, Selena!
- Sim, já sentia. Angélica causava-me um misto de carinho e necessidade de posse. Não admitia vê-la longe de minhas ordens, ou...
- Ou?...
- Não admitia vê-la agindo sem minha permissão ou contrariando minhas opiniões. Creio que seja a filha que não tive, ou... quem sabe... era um carma meu...
- Ela se queixava disso?
- Muito. Mas não tinha razões para isso.
- Qual era a queixa?
- Dizia que a sufocava. Chamava-me de controladora.
- E você era?
- Nem um pouco. Apenas me sentia muito responsável por ela.
- Engano seu, amiga querida! Engano seu! Você não só a controlava como a impedia de crescer. Em verdade, sua atitude foi um grilhão na vida de Angélica.
- Dona Modesta, não fale assim comigo, pois minhas intenções eram as melhores.
- Minha filha, chegou a hora da verdade. Olhe-se no espelho da consciência. É imperiosa sua confissão.
- Confissão?...
- Confessar medos, Selena. Confessar interesses! A maioria das criaturas que deixam a vida corporal chegam aqui com densas carapaças psíquicas encobrindo seus medos. Medos cultivados às ocultas durante seu trajeto de vida.
- De que medo a senhora está falando?
- Quem deve saber é você, amiga. Pense!
- Por vezes, passava algumas ideias sem sentido pela minha cabeça.
- Fale sobre elas.
- Achava Angélica muito imatura e entusiasmada. Excessivamente bondosa... Acreditava demais nos espíritos e nos líderes do movimento... Demasiadamente criativa.
- Onde se oculta seu receio nessas questões?
- Não que eu tivesse receio, mas...
- Selena! Selena! - interrompeu dona Modesta. Pare de contornar o problema. Seja clara. Era receio ou não era?
- Era Dona Modesta! Era sim. Desculpe-me por rodear demais. É difícil este assunto para mim e ainda não me sinto muito bem.
- Compreendo. Todavia é seu instante de cura, companheira. Chega de fugas e desculpas. Meu papel é auxiliá-la no enfrentamento íntimo. Preferível a dor da verdade que o cáustico da mentira prolongada. Fale!
- Eu tinha medo de Angélica roubar meu lugar. Tinha zelo com o trabalho. As ideias dela eram avançadas demais. Não me inspiravam segurança. Muito afoita e cordata. Apesar disso, catalisava os demais e...
- E...
- Precisava podá-la por receio de não acompanhá-la. Não conseguir manter minha posição...
- Posição?...
- Meu cargo! Foi com tanto sacrifício e renúncia que cheguei até onde cheguei. Eu tinha as melhores intenções. Será que fiz mal?
- Preciso convir que, o desejo sincero a que você chama de melhores intenções costuma ser inegável em muitos casos. Isso, porém, não é suficiente para a criação de laços autênticos e duradouros, tecidos através da lealdade aos nossos reais sentimentos. Conviver é um desafio, Selena! Ainda que imbuídos das melhores intenções, nosso egoísmo é saliente demais para permitir-nos conviver à luz das propostas do autêntico amor. Você não fez nada por maldade. Quase sempre, nossos relacionamentos são como uma casa sobre a areia, sujeita a ruir perante frágeis intempéries. Porque não possuímos qualidades morais suficientes, adotamos dois caminhos nos relacionamentos.
- Quais?
- O controle e a indiferença. Raramente escapamos a esses desatinos ético-emocionais. Não fomos educadas para conviver. Somos recém-egressos do instinto. Somente agora iniciamos os primeiros passos na senda do altruísmo, do desprendimento, da solidariedade e, caridade cristã. A noção que trazemos de família e amizade está sufocada por lastimável dose de interesse pessoal e amor próprio. Se não conseguimos controlar alguém, quase sempre utilizamos o mecanismo da indiferença, isto é, a negação da diferença. O tema é extremamente profundo e sutil. Por essa razão, a fraternidade e a construção do afeto nos círculos de convivência ainda são obras sofríveis para almas como nós.
- Não se inclua, Dona Modesta, apenas para me aliviar! - falou descontrolada.
- Para aliviá-la?
- Claro que sim, pois como poderia uma trabalhadora como a senhora se colocar nessa condição?
- Você não me conheceu e ainda não me conhece bastante, minha filha. Natural que queira me poupar, considerando suas noções ainda encharcadas pelas teorias espíritas que trouxe da Terra. É possível que me tenha na conta de um espírito superior, ou algo assim, entretanto, prepare-se para se decepcionar.
- Decepcionar-me?!



:: Continua ::
Título: Re: Olhai os Lírios
Enviado por: macili em 18 de Dezembro de 2016, 00:32
:: Continuação ::



- Não queira saber o que é passar uma semana a meu lado... Boa parte dos espíritas imaginam as esferas espirituais como lugares santificados, repletos de vultos do Espiritismo, aguardando-os de braços abertos depois da morte. Não foram poucos os que chegaram aqui procurando Allan Kardec e todos os demais expoentes da doutrina. Alguns mais enlouquecidos queriam ver Jesus... Acreditavam ter pagado todas as contas tão somente por passarem algumas décadas na distribuição de gêneros alimentícios e agasalhos...
- Difícil acreditar, Dona Modesta!
- Muita vez, quando encontram alguém conhecido, esperam um par de asas sobre os ombros. Contudo, quando começam a conviver conosco, decepcionam-se em suas expectativas e...
- E...
- Então começam os problemas.
- ?
- Percebo sua dúvida, Selena, e, como mineira que não deixei de ser, vou lhe contar um caso. Quando desencarnei, Doutor Bezerra de Menezes chamou-me para assumir uma enorme responsabilidade nesta casa. Seria a condutora do pavilhão no qual se encontravam os casos mais complicados de cristãos falidos e enfermos. O pavilhão dos líderes e servidores coletivos. Com poucas semanas de tarefas, um grupo de almas afoitas reuniu-se para apresentar queixa sobre minha conduta firme. Não aceitavam uma mulher conduzindo-os. Estávamos no ano de 1964, imagine como era o preconceito contra a mulher!... Estavam revoltados por serem dirigidos por uma espírita que não tinha folha de serviço junto a órgãos e entidades de unificação. Questionavam: "Como pode uma dirigente de sanatório psiquiátrico ser nossa tutora?" Queriam alguém melhor e mais amável.
- Não consigo acreditar nisso! - atalhou Selena com espontânea surpresa.
- Não queria saber quanta balbúrdia e burburinho gerou tal ocorrência aqui no Hospital. Foram dias difíceis para todos nós. Fiquei muito magoada e nem imaginava que algo assim pudesse acontecer com alguém, muito menos comigo, que nunca pleiteei nada em torno de cargos e títulos. Chorei muito na véspera e procurei Eurípedes, que me acalmou. Ele me disse que tudo seria resolvido. Tivemos então que marcar uma reunião com Bezerra para decidir o caso.
- E como foi? - interrogou ansiosa a ouvinte.
- Um deles tomou a palavra e expôs em nome dos demais o ocorrido. Eram vinte ao todo. Doutor Bezerra ouviu tudo com extrema serenidade. Eu nem ocupei em dizer nada, porque nem imaginava o que dizer. A vontade que tinha era... Bom deixa pra lá!
- Que dor deve ter sentido a senhora!
- Você nem imagina quanta dor. Após a palestra do representante do grupo, o bondoso Bezerra disse com determinação:
- Irmãos em Cristo, aprecio a sinceridade de todos e as intenções justas pelo bem desta Casa do Cristo. Certamente, ao apresentarem suas queixas, devem ter, também, escolhido alguém que preencha os predicados morais que levaram o nosso diretor geral, Eurípedes Barsanulfo, a aprovar o nome de Dona Modesta na condução desse pavilhão.

O representante do grupo externou:

- Não, Doutor Bezerra. Não tivemos essa preocupação por desconhecer as razões da escolha de Dona Modesta. Apenas não concordamos com a decisão. Tem havido muito incômodo com as suas ações determinadas e demasiadamente, digamos..., sinceras... - falaram em tom de ironia.
- Sendo assim, peço fraternalmente licença aos irmãos para um acordo - externou Doutor Bezerra. Se me responderem com sinceridade a duas questões, considerem a transferência de Dona Modesta para outras atividades. Concordam que seja assim?"
- Claro! Claro! - manifestaram todos, um a um, repletos de imponência, pois adoravam esse tipo de reunião decisória.
- Qual de vocês, enquanto na Terra, devotou-se ao próximo sem limites de sacrifício na escola do amor?

O grupo permaneceu em silêncio. Olhavam um para outro como se não entendessem a indagação. Pareciam esperar outro gênero de questionamentos. E, ainda sem digerirem a pergunta, Doutor Bezerra voltou à carga com ternura e firmeza:

- Quais obras de amor deixaram na humanidade em nome do Cristo a fim de que os homens lembrem seus nomes na posteridade?

Ninguém respondeu absolutamente nada. Olhavam-se confusos. A reunião foi encerrada e já se passam mais de quatro décadas nas quais me encontro em serviço ativo neste pavilhão. Todos eles eram excelentes trabalhadores na seara, mas ainda carcomidos pelo interesse pessoal. Fizeram muito, entretanto descuidaram do amor. Operaram maravilhas pela teoria espírita, pela doutrina. Todavia, como ocorre a muitos, esqueceram do próximo. Não sabiam conviver, não sabiam enxugar uma lágrima, tinham péssimos relacionamentos, não suportavam ser contrariados, adoravam controlar e serem servidos, eram fascinados com suas folhas de serviço, mimavam os cargos e, no fundo, adoravam excluir. Uma grande diferença existe entre o tarefeiro e o servidor, o trabalhador e o operário.
Título: Re: Lírios de Esperança
Enviado por: macili em 07 de Janeiro de 2017, 00:59
(https://scontent-gru2-1.xx.fbcdn.net/v/t1.0-9/15781631_1795092944078012_381811109351781116_n.jpg?oh=a532375e55a36112a89035e9be8bd0df&oe=59147BD7)


15
Projeto Essencial


"Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que soubestes
impor silêncio aos vossos ciúmes e às vossas discórdias, a fim de que
daí não viesse dano para a obra!"
O Evangelho Segundo Espiritismo, capítulo XX, item 5.




- Estou estupefata diante de sua história! - expressou Selena.
- Você aprenderá muito por aqui, minha filha. Morrer tem suas vantagens!...
- Dona Modesta, seja franca comigo!
- Quer minha opinião sobre Angélica? - antecipou a benfeitora.
- Sim.
- Selena, vários casos de personalidade controladora explicam-se em razão da energia que a criatura emprega para tomar conta da vida, uma tentativa de não se decepcionar, não se frustrar. Quase sempre, são pessoas magoadas e com medo de serem ofendidas novamente depois de algum incidente doloroso. A maioria dos espíritas vem se preocupando demasiadamente com as obsessões de desencarnados para encarnados, entretanto desconhecem o quadro lamentável de obsessões que pululam nas relações humanas. É necessário convir que os desencarnados, devido as barreiras vibratórias pertinentes às dimensões, têm um limite de atuação sobre os homens no corpo. Mesmo com tantas opções de ação por parte dos espíritos, os encarnados, por vibrarem em faixas físicas idênticas, continuam sendo os mais influentes obsessores com os quais os homens deveriam ocupar-se. O egoísmo que ainda nos é peculiar tem mil modos de desrespeitar o livre-arbítrio e engendrar a hegemonia pacífica sobre o próximo.
- Então... terei exercido uma obsessão sobre Angélica?
- Sem dúvida!
- Meu tratamento tem algo a ver com ela?
- Claro!
- Seria essa a razão dos sonhos que tinha com ela chegando ao portão do Hospital sem conseguir entrar?
- Não eram sonhos. Eram fatos reais. Angélica a procurou noites a fio ao emancipar do corpo físico.
- As vozes não eram alucinações?
- Não, não eram. Você ouvia Angélica a distância. Ela criou uma dependência doentia. Por outro lado, sua partida também foi um alívio. Essa a razão das palavras firmes que expressou durante a reunião no centro espírita e que tanto lhe magoaram.
- Senti-me traída...
- Mas não foi. Há muitas pessoas sentindo-se traídas sem avaliar a extensão do que existe no coração alheio. Existem controladores da vida alheia que oprimem sem saber, ofendem sem desejar. Angélica foi sua filha na personalidade de Elise Pyrré, irmão de Isabelle Pyrré, hoje renascida como Eulália.
- Então Eulália...
- Eulália, a quem o nome chamou a sua atenção na visita a Marcondes, foi Isabelle, a filha rebelde que lhe causou muitas decepções. Tentando prevenir a sequência de desastres na família, você, como mãe na personalidade de Condessa Pyrré dos Guise, passou a zelar com excessos por Elise. Você foi ferida demais por Isabelle e tentou poupar Elise controlando-a, superprotegendo-a. É a primeira vez em alguns séculos de encontros que ela se sente livre para ser o que gostaria. Sua ausência pela morte, em outras ocasiões, não significava o fim do cativeiro para Angélica. Agora, no entanto, creio que será bem diverso este epílogo.

Selena não suportou as revelações e rendeu-se a incontrolável pranto. Dona Modesta a acolheu nos braços como uma criança indefesa e assustada. Afagava a cabeleira lisa da companheira como se o fizesse a uma filha. Ainda soluçando e com voz embargada, a paciente ainda encontrou forças para perguntar:

- E o centro espírita?! Por que o cerco dos capangas?
- Expressiva parcela de casas doutrinárias se encontra em situação parecida, graças à natureza do campo vibratório que gravita nos relacionamentos entre seus tarefeiros. Os sentimentos determinam a qualidade espiritual dos ambientes.
- De que natureza é esse campo?
- Quando existe honestidade emocional e afeto, os campos são de alegria e bem-estar.
- Mas existe, porventura, algum centro espírita cujo campo não seja dessa espécie?
- Lamentavelmente!... Não se assuste em dizer que, alguns centros erguidos em nom de Jesus Cristo, têm sido pasto de obsessões e doenças graças à natureza enfermiça de seus condutores.
- Inacreditável! Por vezes, chego a pensar que estou tendo uma miragem! Ou... ou sendo vítima de um engodo!
- Ou ouvindo uma obsessora, você quer dizer.
- Por aí, Dona Modesta!
- É natural! Basta ser um espírita sem noções claras sobre o que se passa por aqui para ter essas sensações...
- Não deveríamos avisar aos amigos no plano físico sobre o assunto?
- Se você não acredita, estando aqui, acha que eles acreditariam se lhes endereçássemos algum apelo?... No tempo adequado, abriremos o véu...
- Não consigo entender a razão de semelhante ocorrência na casa que presidi. Tínhamos um bom relacionamento. Com problemas, é verdade, mas sincero. Mesmo com minhas falhas, o trabalho prosseguiu com bons resultados.
- Selena, que critérios temos adotado para aferir resultados na seara do Cristo? Serão eficazes? Ou fruto de nossa análise ainda interesseira e autopromotora? Mais que resultados palpáveis externamente ou para os beneficiados do centro espírita, importa aferir a construção íntima que edificamos através da escola dos relacionamentos. Será que os trabalhadores sentem nossa ausência quando faltamos? Somos queridos e esperados por quem partilha-nos a tarefa no dia-a-dia?
- Acreditava que o ambiente era bom em nossa casa!
- E era!
- Então qual o motivo daqueles espíritos cercando o centro?
- Sua decisão impensada! O alvo das críticas de Angélica na reunião de diretoria.
- A suspensão das tarefas mediúnicas?
- Exatamente! Uma casa doutrinária sem o serviço de intercâmbio intermundos é como um reduto isolado por altas paredes em pleno deserto do materialismo.
- Fiz mal com minha atitude?
- Mais do que pode supor, Selena.
- Ai, meu Deus! É muita notícia ruim para um só dia! Estou com uma nítida sensação de falência como se nada de bom tivesse realizado durante a vida física... - envergonhada, cobriu o rosto com as mãos.
- Engana-se! Suas realizações contabilizam um saldo positivo logrado por poucos.
- Preferia não falar nesses assuntos! Entristecem-me... Creio que...




:: Continua ::
Título: Re: Lírios de Esperança
Enviado por: macili em 07 de Janeiro de 2017, 01:44
:: Continuação ::



- É seu momento de aferição - novamente intercedeu a Dona Modesta. Não temas e nem fujas! Quanto antes enfrentá-lo, melhor para sua paz. Ao fechar as portas para a mediunidade, qualquer organização humana está decidindo pela horizontalidade de suas experiências. A relação com a sociedade invisível representa a alma do Espiritismo. Espiritismo sem mediunidade é espiritismo de homens. O Espiritismo do Cristo é luz, verdade, elevação e progresso. É Espiritismo com espíritos. Doutrina Espírita quer dizer doutrina dos espíritos... Grave bem: dos espíritos!
- O propósito foi evitar os abusos e...
- Sabemos disso! interrompeu a orientadora. Sua iniciativa não obedeceu a interesses personalistas. Isso não os livrou do peso das pressões psíquicas. Pior que fechar as portas da mediunidade é abri-la somente a quem se deseja.
- Explique melhor, Dona Modesta.
- O exercício mediúnico atravessa um grave processo deflagrado há algumas décadas, que conduziu ao rompimento com a espontaneidade. A título de instituir cuidados que se fizeram necessários - fato que ninguém pode contestar - criaram-se normas e padrões muito rígidos. O exercício mediúnico precisa ser ressignificado.
- Jamais conseguiria agradar a todos em minha posição! Tive problemas sérios com a mediunidade em nosso centro.
- Não se trata de agradar e, sim, fazer o melhor a nosso alcance de conformidade com as propostas do Cristo e do codificador. Infelizmente, existe muito "espiritismo sem espíritos..." O motivo? É fácil responder: os homens fundaram casas e mais casas. Poucos foram os que consolidaram grupos. Muito fácil reunir pessoas. Difícil é unir pessoas. Sem equipes fraternas e afetuosas, não teremos serviços criativos e ricos de entusiasmo e alegria. Sem isso, como avançar em direção ao espírito do Cristo? A mediunidade não deve ser analisada apenas como uma atividade da casa espírita. Em verdade, ela é a alma das tarefas espirituais. O termômetro pelo qual se podem aferir as lutas e valores de uma organização e seus integrantes. A relação entre homens e espíritos constitui o cerne da proposta espírita, isto é, a consolidação do sentimento de imortalidade no coração.
- Poderei cooperar na mudança dessa história? Terei como intervir para que o meu grupo espírita tome outro rumo? Estou abismada com a situação que criei. Amava tanto o Centro Espírita Paulo e Estevão! Lembro-me do dia em que tudo começou...
- Amiga, por muito menos, as trevas têm tomado sob domínio muitos grêmios espíritas. Basta manter a atual noção de caridade com desencarnados, mantendo a tarefa apartada da casa.
- Não entendi...
- Existem grupos inúmeros que foram sitiados por inimigos inteligentes cujo propósito jamais foi o de acabar com o centro. Essa técnica está em desuso há boas décadas. Os gênios da maldade concluíram que, melhor que fechar centros, é mantê-los inoperantes, medíocres, improdutivos, escravos de convenções inúteis... Assim, aproveitam da tendência humana de estagnar mentalmente na rotina e incentivam o marasmo. Fácil ação! O psiquismo humano está congestionado pelo dogmatismo e pela preguiça. O ritmo da mente humana está afinado com a época da mordomia, da lentidão, da vida sedentária e monótona a que se acostumaram em milênios e milênios, sem tecnologia e estímulos para o progresso. Pensar pouco, fazer mais. Mais ação, pouca filosofia. Caridade, sim, estudo, somente o necessário.
- Deus, tome conta!...
- Com esse comportamento, conheço grupos que, em sua invigilância, discutem anos a fio, sem progresso, alguns assuntos que, para eles, tornaram-se essenciais, tais como: "O mesmo médium que recebe 'espíritos sofredores' pode, igualmente, receber 'espíritos de luz'?, "É necessário que os médiuns assentem-se sempre no mesmo lugar?", "O consumo de carne no dia da reunião." Assuntos que até poderiam ter alguma utilidade tornam-se "barreiras de pontos de vista". Criam celeumas, ficam melindrados, apoiam-se em textos e discutem como velhos religiosos bem informados, debatendo questões de pouca utilidade.
- Enquanto discutem, acontece a acomodação!
- Com isso, o homem acomoda-se na ritualidade, na repetição, no padrão. Bane-se a criatividade, o novo e a experimentação, estabelecendo uma noção de segurança em torno de "formas usuais de fazer..." A educação moderna preconiza em um dos seus quatro pilares: o "aprender a fazer". Todos os grupos doutrinários na atualidade são convocados a "reaprender a fazer".
- Um nó em meu "cérebro".. Isso é o que sinto!
- E por acaso você ainda tem "cérebro"? - as duas gargalharam.
- Puro costume, Dona Modesta. Costume velho! Então a questão é "aprender a fazer"?
- Não basta!
- Não!
- Urge um projeto essencial, sem o qual...
- Sem o qual nada dará certo! - atalhou Selena, completando a fala.
- Isso mesmo.
- Que projeto é esse?
- Concomitantemente com o "aprender a fazer", o programa dos tempos novos prevê o "aprender a conviver". Sem conviver no amor, não conseguiremos segurança autêntica na obra do Cristo. Compete-nos estimular esse projeto essencial. Sem ele, nenhuma organização doutrinária terá êxito em quaisquer outros projetos, por mais nobres e inteligentes que sejam. A obra de Nosso Senhor Jesus Cristo nunca exigiu tanta atenção como agora ao inesquecível apontamenteo "(...) sede prudentes como as serpentes e simplices como as pombas." ¹
- Por qual razão?
- Está havendo muita confusão sobre o que seja ser cristão. Uns querem a mansidão e terminam no sentimentalismo. Outros, a pretexto de serem sagazes, estagiam no cálculo. Os sentimentalistas tombam na conivência. Os calculistas, na arrogância. A arrogância é a atitude daquele que possui dilatada visão intelectual e nega seus sentimentos em favor das inabaláveis convicções pessoais. Conivência é a postura de quem está na mansidão, e nega os apelos da consciência em favor da verdade. A arrogância é alimentada pelo egoísmo. A conivência é fruto do medo de enfrentar desafios e crescer.
- Quer dizer que o maior desafio presente na seara é aprender a conviver?
- Aprender a amar é nosso maior desafio! Como amar sem boa convivência? Nesse iniciar do século XXI, estamos em plena campanha, no mundo dos espíritos, para elastecer os parâmetros de utilização das forças mediúnicas na Terra. A exemplo do ocorrido com os baluartes da doutrina no alvorecer do século XX, estamos trabalhando por modelos novos de intercâmbio entre as esferas. Para isso, os grupos doutrinários haverão de se lançar à postura da investigação fraterna. Fica, porém, a pergunta: como investigar, com desejável utilidade, as questões relativas à mediunidade em grupo, se não existe convivência tecida na confiança e no amor? Que espécie de questionamentos e avaliações poderão ser levantadas onde existam discórdia e instabilidade nos relacionamentos?
- Compreendo. Os projetos são abortados! O movimento está cheio deles...
- Doutor Bezerra, em nome do Espírito Verdade, nomeou esse projeto essencial como Humanização na Seara Espírita. Mais importante que o Espiritismo teórico, urge a aplicação de suas lições éticas. Nada nos impedirá o amor que todos temos à doutrina, essa fonte interminável de consolo e luz, todavia o centro das cogitações da própria doutrina é o amor que devemos uns aos outros. Esse o foco essencial.
- Que é mais importante: a "obra do Cristo" ou as pessoas nela inseridas?- indagou Selena.
- Boa pergunta! A legítima obra do Cristo constitui-se de pessoas que aprenderam a se amar. Que nos valerá erguer paredes, escrever livros, distribuir gêneros, instituir pactos, se não aprendemos a perdoar, a aceitar críticas, a gostar dos diferentes, a tecer relações com os antipáticos, a gostar de relacionar? A obra de Jesus, em verdade, estabelece-se no reino íntimo do coração e projeta-se nos benefícios da convivência pacífica e educativa. Sem isso, existem apenas movimento e treino emocional para o futuro...
- Então voltemos ao caso que a senhora contou. E se aqueles dirigentes "topetudos" não tivessem a diretriz sábia de Bezerra, como ficaria a obra? A senhora seria retirada do cargo aqui no Hospital?
- Minha filha, a pretexto de amar, não vamos ser descuidados, e a pretexto de sermos cuidadosos não vamos ser individualistas.
- No meu caso, tive que fechar as portas para a mediunidade devido a médiuns personalistas e abusos sem conta. Melhor o serviço com qualidade que exercer uma atividade com desequilíbrio. Optamos por fazer bem aquilo que tínhamos condição...
- Selena - aparteou Dona Modesta - seja fiel à verdade. Optamos ou optei?
- Sim, é verdade... Foi uma opção pessoal. No fundo, ninguém mais concordava...
- Opção ou imposição?
- Imposição.
- Imposição pessoal. Esse é o registro em sua ficha reencarnatória. Angélica fez o que pôde para dissuadi-la. De fato, para evitar o abuso, são necessárias medidas disciplinadoras, mas não exterminadoras ou irredutíveis. Que se preparasse o médium. Interrompesse o intercâmbio por algum tempo e depois regressasse com mais tranquilidade e equilíbrio. Isso, o ideal.
- E agora, o que será do "Paulo e Estevão"?
- Espera-nos muito trabalho para "limpar a área".
________
¹  Mateus, 10:16.
 
Título: Re: Lírios de Esperança
Enviado por: macili em 12 de Março de 2017, 01:16
(https://1.bp.blogspot.com/-Lc8Y8AbVJbg/WJJP4cwGwpI/AAAAAAAAUhM/cCtlaghNLzI17S37C_wYBYVLFfMN9BczwCLcB/s320/0gm0xiwb8oq.gif)



16
O Servo de Todos



"Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós
fazer-se grande, seja vosso serviçal. E qualquer que entre vós
quiser ser o primeiro, seja vosso servo".
Mateus, 20:26



- Sinto-me como se a vida física não tivesse existido ou fosse curta demais. Seus esclarecimentos causam-me um profundo estado de frustração. Os méritos que supunha possuir parecem estourar como frágeis bolhas de sabão!
- Não é esse o meu propósito!
- Eu sei! Eu sei... mas tenho consciência de que realmente desperdicei muitas oportunidades...

Percebendo o olhar triste de Selena, Dona Modesta ponderou:

- Qual de nós, no presente estágio de evolução, não peregrina pela negligência, pela desatenção no uso das oportunidades e das nossas habilidades?
- Esse enfoque faz-me experimentar ainda mais a sensação de que uma vida dedicada ao Espiritismo nada acresceu em minha alma.
- É um juízo comum nos primeiros tempos do desencarne. Raríssimos escapam dessa vivência angustiosa.
- Será que o trabalho doutrinário teve alguma utilidade real? Que diferença faz ser espírita, afinal?
- Essa é uma pergunta clássica em nossa Casa de Amor. Somos doentes complexos. O que nos distingue dos demais enfermos nos hospitais da Terra é o anseio pela cura. Consideremos, entretanto, que essa aspiração superior, frequentemente, não ultrapassa o ato de admitirmos racionalmente nossas enfermidades. Nem sempre identificamos pelo coração a extensão das necessidades de aprimoramento. Nossa virtude consiste em estarmos sinceramente arrependidos do mal praticado outrora. Quem genuinamente se arrepende, fortalece as intenções enobrecedoras. Quando passamos a sentir nossas necessidades de aprimoramento, as aspirações sinceras da alma fluem como se o dique que as represava abrisse suas comportas.
- Fui péssima dirigente! Antes não tivesse tanta capacidade de enxergar com perspicácia!
- A perspicácia, minha filha, é habilidade extremamente útil. O problema é nossa formação moral, nossos ímpetos.
- Ímpetos?
- Vou lhe contar algo pessoal. Fui uma mulher perspicaz. Trazia comigo essa bagagem da inteligência de várias outras experiências carnais. Todavia essa conquista, desprovida da compaixão, é facilitadora da vaidade, quiçá do interesse pessoal. Regrada pela tolerância incondicional e pela ausência de preconceitos, é promotora do progresso, rompendo os densos véus da ilusão.
- A senhora não me passa a impressão de uma mulher perspicaz. Age com tanta discrição e simplicidade. Os perspicazes adoram se salientar.
- Estou aprendendo a transformá-la em virtude.
- De que forma?
- Quando a perspicácia é dosada de personalismo, transforma-se em astúcia, prepotência e instrumento de domínio, características básicas da arrogância, e a arrogância é o traço moral mais palpável do egoísmo humano. Por outro lado, essa habilidade intelectiva incentiva a criatividade, a percepção de futuro e a síntese que, sob as lentes da moral, promove o avanço. Jesus, dotado de excelente perspicácia, preveniu a Pedro sobre a negação, alertou a Judas sobre a traição, colocou a multidão diante de sua consciência quando iam apedrejar a pecadora, percebeu os valores do publicano Zaqueu, considerado um larápio pelo povo, e focalizou a virtude em Saulo por sondar-lhe a alma amante dos valores espirituais. Graças à Sua incomparável compaixão, acolheu Pedro diante da culpa, isentando-lhe de julgamentos, socorreu Judas nos umbrais da erraticidade, orientou a mulher adúltera a não pecar mais, prestigiou as intenções de Zaqueu acima das convenções mundanas e convocou Saulo para o serviço redentor. Perspicácia sem amor é corrosivo nas relações sinceras e nos projetos de espiritualização.
- A senhora me perdoe o desabafo, mas há certas pessoas que...
- Que? ...
- Se não tivermos muita atenção, elas tomam conta do trabalho e nos deixam para trás. Mais a mais, na condição de mulher responsável, procurava zelar pela tarefa que me fora entregue, fazendo o melhor que podia.
- E de quem é o trabalho, minha filha?
- Do Cristo.
- Então, por que essa preocupação? Se nos deixarem para trás, certamente o Cristo, que sabe de nossas reais necessidades e de nossos escassos valores, não nos deixará. No fundo, sua atitude traduz o espírito da competição, Selena.
- É o que costumava sentir nas pessoas que me cercavam. Como se elas competissem comigo o tempo todo! Isso me obrigava a criar sempre alternativas de defesa para o trabalho.
- E você não competia com elas? - falou a benfeitora com bondade nas palavras.
- De jeito nenhum!
- Equívoco, minha filha! Grave equívoco da ilusão humana ainda pertinente à maioria de nós, os seguidores de Jesus!
- Equívoco?! Por ventura a senhora acha que competi na tarefa? - pretextou Selena com receio do que ouviria.
- Os discípulos sinceros da mensagem cristã hão de possuir abundante humildade para aceitar em si mesmos que, por mais valorosos sejam os nossos esforços na senda do bem, inevitavelmente, em razão dos reflexos milenares, ainda guardamos severo espírito de competição. À luz do espírito imortal, quem se declara distante da atitude de arrogância demonstra desconhecimento ou prefere ignorar quanto ainda somos dominados por seus ímpetos, que assumem máscaras diversas, quais sejam: prepotência, autoritarismo, ciúme, controle, teimosia, julgamento, apropriação da verdade e inveja.
- Mas Dona Modesta, eu amava as tarefas que fazia. Como falar em competição?
- O amor que começamos a devotar ao bem não é capaz de excluir totalmente nossas tendências milenares. A luz e a treva digladiam em nossa intimidade. Não esqueçamos igualmente, minha filha, que podemos amar as atividades, no entanto a competição ocorre mesmo é nas relações uns com os outros.
- Nunca me imaginei arrogante ou competindo. Nunca me vi desse modo. Se alguém na Terra me falasse isso, jamais aceitaria. Na verdade, não me sinto convencida mesmo com a sua explicação tão lúcida.
- Essa é uma das características psicológicas dessa enfermidade moral. Estamos tão habituados a ela que não sabemos mensurar seus efeitos em nossa vida. A arrogância é o mais envelhecido sentimento do período da razão, amplamente vinculado em suas origens ao instinto de posse. Daí surge o impulso da competição, essa fria assassina da fraternidade. De alguma forma, competir é uma atitude natural e necessária ao progresso. Porém, sob indução da vaidade e do orgulho, assume feições destrutivas, psicopáticas. A arrogância é a excessiva valorização de si, cujo reflexo mais proeminente na convivência é a competição e o julgamento.
- E a senhora ainda me diz que morrer tem suas vantagens!... Não consigo, honestamente, perceber-me nessa condição. Minha cabeça admite o que a senhora coloca. Meu coração, porém, nada me diz. Sinto-me distante dessa realidade.
 
Título: Re: Lírios de Esperança
Enviado por: macili em 12 de Março de 2017, 02:11
:: Continuação ::



- Selena, querida companheira, dispa-se das ilusões! - externou com sua sabedoria a servidora uberabense.
- Ilusões?...
- Essa "radiografia moral" é pertinente a todos nós e não é só de uma existência, mas de várias. A arrogância é o traço mais antigo de nossa personalidade perdulária e rebelde. O serviço de descobrir seus traços em nós próprios demanda, por vezes, dores acerbas e experiências marcantes nas relações humanas.
- É muita notícia ruim para um só dia! Isso é jeito de tratar uma convalescente?  - externou a aprendiz em tom conformista e humorado.
- Como é bom descobrirmos tais doenças da alma quando estamos internados. Pobres daqueles que a descobrem nos "infernos" onde há escassez de acolhimento e desconsideração pelas nossas intenções legítimas.
- A senhora acredita que eu deveria ter me abdicado de minha perspicácia para acertar mais? Ser mais discreta, calada?...
- Ninguém deve se abdicar das habilidades que possui como conquista, apenas educá-las à luz do Evangelho. Quando lhe disse que fui uma mulher muito perspicaz, em verdade, estagiei longamente nos desatinos da arrogância. Até hoje, há quem me deteste por aqui e na Terra, em razão de meus ímpetos nem sempre educados.
- A senhora?!
- E por que não? Falhei em um dos pontos mais cruciais da arrogância a pretexto de ser convicta e determinada.
- Qual?
- A mais destrutiva forma de arrogância é a fascinação que nutrimos pelas certezas pessoais, especialmente em relação à intenção e conduta alheias. Nesse passo, em diversas personalidades, ela agrega à perspicácia, transformando-se em intransigência, teimosia e autoritarismo, através de manifestações de convicções irredutíveis. Os pontos de vista, os julgamentos e toda ideia definitiva acerca de fatos e pessoas, quase sempre, traduzem o espírito enfermiço do orgulho, a necessidade compulsiva que temos de nos sentir superiores a alguém. Sendo que esse alguém pode ser quem, de alguma maneira, tenha tocado em nossas mazelas interiores e, ainda que sem intenções, fez-nos sentir pequenos, frágeis e desprovidos moralmente.
- Por que agimos assim? - expressou-se Selena completamente absorta pela exposição e admitindo sua imperfeição com sinceridade.
- Porque a essência da arrogância nas relações humanas consiste na disputa sutil para provar quem é o maior. Por essa razão, temos que recorrer à sublime recomendação do Cristo.

E tomando do Novo Testamento leu:

"E chegou a Cafarnaum e, entrando em casa, perguntou-lhes: Que estáveis vós discutindo pelo caminho? Mas eles calaram-se, porque pelo caminho tinham disputado entre si qual era o maior. E Ele, assentando-se, chamou os doze e disse-lhes: Se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos. E, lançando mão de um menino, pô-lo no meio deles, e, tomando-o nos seus braços, disse-lhes: Qualquer que receber um destes meninos em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, recebe não a mim, mas ao que me enviou." ¹

- Parece que continuamos a disputar entre nós, até hoje, quem é o maior, não é mesmo Dona Modesta? - falou Selena com nítida alteração em seu estado de humor.
- Ai de nós, querida amiga, se não verificarmos que apenas iniciamos os primeiros passos de uma longa jornada no bem! Nossa arrogância, qual uma lente de aumento, faz-nos sentir como "campeões do Evangelho" somente porque começamos a dar direção nova às parcas qualidades que possuímos, esquecendo-nos a condição de esbanjadores milenares dos bens celestes, conforme a saga do Filho Pródigo do Evangelho.
- Que dor sinto na alma diante de sua colocação! Creio que, igualmente, tenha falhado com Angélica nesse terreno.
- Melhor assim. É a dor benfazeja do bisturi da verdade, dissecando as espessas camadas da ilusão.
- Mesmo doendo tanto, ainda anseio saber como dominar esse monstro interior.
- "Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal. E qualquer que entre vós quiser ser o primeiro seja vosso servo." ² - consultou mais uma vez o Evangelho.
- Servo? Como soa mal essa palavra! Nunca gostei de ouvi-la nos estudos. Para mim tinha o sentido de ser capacho.
- Somente nós que sofremos da doença da arrogância sentimos mal diante dessa palavra. Nela encontra-se a solução para nossos problemas de altivez. Mas esse é um tema que deixarei para sua meditação. Oportunamente retornaremos a esse aspecto.
- Sua fala alterou-me por dentro. Não me sinto nada bem! Como pode uma simples conversa incomodar tanto?!
- Fale do que sente, Selena!
- Sinto-me muito indigna do amparo que tenho recebido. Um misto de desânimo e desespero apossa-se de minha alma. Uma angústia. Com tanta mediocridade em nossos atos, por que vocês ainda se interessam por nós? Por que Eurípedes ergueu um Lar para cristãos transviados com tanta falácia entre nós, os espíritas? Por bondade?! - falou transtornada.
- Porque o ritmo do universo é o amor, seja em que instância for. Da bactéria ao anjo, a alma da vida é o amor. Compaixão, misericórdia, tolerância e solidariedade são expressões da Bondade Celeste. Juntas, constituem a força de atração para o progresso. Sem esse empuxo, como avançar? Nós, os cristãos em busca da luz da imortalidade, somos os lírios no pântano, a esperança de novos dias. "Vós sois o sal da terra e a luz do mundo." ³ Somos depositários de excelsas expectativas. Jamais as cumpriremos sem infinitas doses de tolerância superior e arrimo espiritual.
- Com tanta arrogância, como esperar tanto de nós? - lamentou Selena.
- Filha, precisamos rever muitos conceitos. Em meio ao lodaçal da prepotência, temos uma conquista sem a qual ninguém chega a melhores patamares de evolução.
- Uma conquista?!
- O desejo básico ou desejo-matriz.
- ? - Selena demonstrou não entender.
- A intenção.
- Intenção?
- O que nos faz alvo da amorável complacência dos Planos Maiores é a intenção. É o nosso fio de ligação com a energia cósmica do amor. O mecanismo mental do arrependimento que conduz a mente ao estado de saturação edifica a intenção nobre. Por ela, auferimos a garantia daquilo que buscamos diante da vida.
- E que relação fazer entre nossa arrogância e a intenção?
- Somos portadores de intenções honestas de melhora. Porém isso não exclui os efeitos da altivez em nossas atitudes. Com as melhores e mais legítimas intenções de acertar, ainda ferimos uns aos outros através de tropeços e embaraços, que resultam em dissidências e dores que gostaríamos de não mais experimentar.
- Preciso ser franca com a senhora. Toma-me um estado íntimo horrível! Uma tristeza intensa! Creio que não dou conta de continuar a conversa.
- O que prevalece nesse momento?
- A depressão toma meu coração. Durante a reencarnação, nunca fui alegre; esperava melhorar meu humor nesse plano. Tenho a impressão que nem sequer levantarei mais desta cama. Neste momento, toma-me uma sensação muito estranha...
- Parecida com...
- Parecida com o que senti em nossa visita ao Centro Espírita Paulo e Estêvão. Suor frio, palpitação cardíaca, ideias desconexas... Parece que parei de sentir...
- Respire fundo!

Após a orientação, Dona Modesta, em estado alterado de consciência, colocou o indicador no peito de Selena, fazendo leves fricções no sentido horário. A paciente respirava com certa dificuldade. A testa lívida, olhares esgazeados. Parecia que iria explodir.

- Agora, Selena, fale o que vem em sua mente.
- Não posso!
- Fale, minha filha. Liberte-se desta angústia! - disse a benfeitora com determinação.
- Eu detesto viver. Eu queria morrer. Deixar de existir. creio que eu nem exista. Arrependo-me de ter mexido com o Espiritismo. Sei lá, acho que não acredito em nada do que aprendi na doutrina.
- Ninguém morre.
- Eu morri, sim, senhora! Não duvide de mim! Não discuta meus sentimentos. Ou a senhora não acredita no que falo? Será que vão começar a me receber mediunicamente? Só falta essa hipocrisia da vida para completar a minha loucura controlada. Logo eu que fechei as portas para a mediunidade!
- Vá, Selena, fale mais. Não meça palavras nem se preocupe com o que vai dizer. Fale!
- Eu amoo Angélica demais para merecer tanta desídia. Ela não tem noção da gravidade da situação e fica me recriminando. Agora, certamente, vai formar um complô contra mim. Nunca mais serei lembrada naquela casa. Que ódio... Que ódio...
- Em relação a quê?
- Em relação a tudo. Quero sair desta cama e não consigo. Nossa conversa está sendo horrível. Não gosto da senhora...
- Fale mais!
- A senhora me lembra alguém... Alguém muito má... A senhora estava naquele cenário na França, eu sinto isso. Não sei quem era... Tenho imagens horríveis na cabeça! Que ligação tem com o filho de Catarina? Sei que tem alguma! Então é minha inimiga - Selena fechou os olhos e começou a espumar pelos cantos da boca. Que a senhora quer com Elise? Está interessado em ajudar Angélica, porque sabe que é minha Elise? Eu a detesto, Dona Modesta, eu a detesto, saia da minha frente agora, eu não quero vê-la mais, saia... saia!

Com a ajuda de alguns enfermeiros, aplicaram um passe sedativo, e a paciente foi silenciando o desabafo, caindo em prostração psíquica acentuada. Dona Modesta, com extrema ternura, limpava-lhe a salivação abundante. Ela entrou em estado de "epilepsia de desoneração", um processo de limpeza de "crostas psíquicas", acumuladas no perispírito, decorrentes de desvios do afeto. Acalmando-se um pouco, foi recostada no leito para se recompor.
Título: Re: Lírios de Esperança
Enviado por: macili em 12 de Março de 2017, 02:48
:: Continuação ::



- Será medicada, Selena. Não tenha receio. Isso não impedirá de trabalhar, esteja certa! Está se sentindo melhor?
- Estou cansada. Como se estivesse trabalhando há milênios. Evitei os remédios na Terra quanto pude e agora sou obrigada a tomá-los! Que acontece comigo dona Modesta? Enlouqueci? O que foi isso?
- Tome-os sem revolta, minha filha, e agradeça por tê-los à disposição. Por um período de dois meses, você estará em tratamento antidepressivo.
- Ai, Dona Modesta! Está voltando uma sensação ruim. Não me sinto nada bem! Uma ansiedade de realizar misturada com um preguiça de sair deste leito!
- Fique tranquila, vai atenuar no correr dos minutos. Tome um pouco desta água - foi servida uma boa dose de água com efusão de magnetismo da natureza.


Passados alguns instantes sem diálogo, Selena, esforçando-se para aproveitar a ocasião, indagou de chofre:

- Por onde começar no futuro?
- Vejo que melhorou! - brincou Dona Modesta, que se manteve em oração à cabeceira da maca. Angélica é nossa esperança de mudança. Por outro lado, muitos daqueles que a apoiaram a decisão impensada de fechar as portas para a mediunidade serão fortes barreiras. São explorados pelos adversários que sitiaram a casa.
- Quem são esses espíritos?
- São fortes inimigos da doutrina, filiados ao vale do poder.
- Vale do poder?
- Em outro momento, tamanha a delicadeza do tema, voltaremos nesse assunto...
- Será que nosso centrinho, tão humilde e apagado, tem tanta importância assim para as trevas?
- Não fale assim, minha filha!
- Que temos feito para atrair essa atenção? Qual a razão desse ataque?
- Os motivos podem variar ao extremo. A base é sempre a mesma: segurar o progresso. Alguns casos dessa natureza, como ocorrem no "Paulo e Estêvão", dão-se em razão de contas pessoais de seus dirigentes.
- Como?!
- Existem duas pessoas lá com graves débitos a saldar... Os adversários sabem disso com minúcias...
- Uma, sou eu, com certeza!
- Não tenha dúvida.
- E a outra é...
- Angélica! - interrompeu Dona Modesta. Além da filha superprotegida na pele de Elise Pyrré, ela consorciou-se com um dos Médicis, a gosto de Catarina, a rainha-mãe. Sua trajetória terminou em deploráveis ações na política interesseira, sob chancela da religião no século XVI.
- Pelo visto, todos nós temos contas com a malfadada "França dos Médicis"...
- Certamente... Os adversários da causa espírita conhecem sobejamente nossos traços egocêntricos. Atuam, excitando o temperamento ao sabor de nossas tendências. A tática é desacreditar-nos uns perante os outros através do leque de atitudes derivadas da arrogância, esfriando as relações e indispondo-nos a conviver e confiar. São criadas as ilhas produtivas. Núcleos de trabalho ativo que se fecham em si e não se abrem para formar um sistema de rede, intercâmbio e solidariedade. E assim se encontra a comunidade espírita ao alcance de sórdidas e planejadas intenções do vale do poder...
- E como fazem para nos atingir na prática?
- Apenas insuflam a competição velada, induzindo julgamentos sobre a vida alheia com os quais, através da "maledicência envernizada", procuramos diminuir uns aos outros. Assim, nascem demandas sutis que estiolam os laços afetivos e detonam os projetos de trabalho. É o exemplo típico do mau uso da perspicácia aplicada para denegrir e destacar deficiências e desvios.
- Que lamentável! A senhora explica, e minha mente voeja em direção ao "Paulo e Estêvão". Fui um instrumento do mal sem intenção para tal. Como dominar essa nossa arrogância, meu Deus?!
- Você já percebeu a arrogância em alguma pessoa?
- Em muitas pessoas.
- Aquilo que vemos nos outros são reflexos leais do que somos, ou pistas seguras de que temos algo similar dentro de nós. Nossa tarefa de educação consiste em disciplinar nossos impulsos ególatras. Seguir a meta em direção aos mundos melhores nos quais "o homem não procura elevar-se acima do homem, mas acima de si mesmo, aperfeiçoando-se."
4

A conversa corria agradável entre as duas quando bateu à porta do quarto o Professor Cícero, que realizava suas visitas rotineiras.

- Olá! Como vai nossa Selena? - falou com carinho.
- Lutando para melhorar e conhecer a Verdade, professor!
- Esse é o problema de ter uma tutora como Dona Modesta - os três riram da provocação.
- Foi bom o senhor ter chegado, professor. Já estava me retirando para outras tarefas, e a nossa paciente precisa muito de suas palavras confortadoras. O senhor me conhece bem e sabe que a minha língua, muita vez, saltita da boca para fora como um chicote educativo. Sua presença vem em bom momento. Volto quando puder, minha amiga. Cultive o otimismo, pois a vida a espera com muito labor.
- Obrigada, Dona Modesta. Que fique claro o quanto adorei suas "chicotadas"... Ainda que elas não tenham sido suficientes para expelir minha arrogância!
- Ah! Quase me esqueci de algo importante! - regressou Dona Modesta como se captasse nas "ondas do universo" algo de valor para a ocasião.
- Mais chicotadas? - brincou Selena.
- Apenas uma lembrança para que suas meditações tenham maior alcance. Nunca, em tempo algum, passou pelo coração e pela mente de Angélica tomar o seu espaço de trabalho. Ela lhe tributa um enorme carinho e reconhecimento.
- Mais uma vez, não sei se estou aliviada, ou se me culpo por saber disso.
- Apenas medite, minha filha! E no que tange aos semelhantes, guarde este ensino: com raríssimas e honrosas exceções, costumamos trazer para cá os juízos que deles fizemos, que, inevitavelmente, são construídos a partir de nossas próprias imperfeições e pela natural incapacidade de avaliarmos com fidelidade as intenções alheias e sua história particular de evolução.
- Sinceramente, creio que errei largamente em relação à Angélica.
- Não se esqueça de que a pior atitude de arrogância é a de colecionar certezas sobre a vida, sem reciclá-las conforme o ritmo evolutivo de nossa humanização. A soução vem da capacidade de servir. Aquele que se fizer o servo de todos será o maior na obra do Cristo.


__________________
¹  Marcos 9:33 a 37.
²  Mateus, 20:26.
³  Mateus, 5:13 e 14.

4  O Evangelho Segundo Espiritismo, capítulo III, item 10.