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GERAL => Outros Temas => Livros Espíritas => Tópico iniciado por: Cláudio Zadorosny em 04 de Maio de 2016, 22:21

Título: O Espírito e o Tempo – J. Herculano Pires
Enviado por: Cláudio Zadorosny em 04 de Maio de 2016, 22:21
       Para quem gosta e quer pensar o Espiritismo, com uma visão ampla, histórica e crítica do desenvolvimento do homem até chegar nos dias atuais, alertando para os erros que se cometem e os resquícios da antiguidade ainda presentes nos cultos atuais, bem como o que isso tudo tem a ver com a doutrina, e muito, muito mais, essa obra é essencial.

   Iniciando pela divisão dos momentos históricos em horizontes, desde a civilização selvagem (horizonte primitivo) até aquele que ainda iremos alcançar (horizonte espiritual), passando pelo que vivemos (horizonte civilizado), José Herculano Pires mostra os movimentos desde os primórdios humanos, com as manifestações mediúnicas tendo acontecido em todos os tempos, e que os cultos sugiram de fatos naturais, e não o contrário, como se pode observar no seguinte trecho:

Citar
(...) as superstições dos selvagens, as suas práticas mágicas, não eram nem podiam ser de natureza abstrata, imaginária. Decorriam, como tudo na vida primitiva, de realidades positivas e de fatos concretos, conhecidos naturalmente dos selvagens (...). (p. 27)

   Depois, após explicar o por que da necessidade do formalismo em determinado momento, ressalta a importância de cada fase, e a primordialidade do "retorno ao natural", ou seja, à naturalidade dos fenômenos como acontecia na época das tribos, claro que sem dispensar as conquistas adquiridas, conforme o seguinte trecho:

Citar
Partindo do natural, os homens construíram na Terra o seu mundo próprio, artificial. O desenvolvimento da inteligência humana, cuja característica é o pensamento produtivo, tinha forçosamente de levar os homens pelos caminhos da abstração mental, e consequentemente do formalismo. (...) Mas a finalidade do convencionalismo, e consequentemente do formalismo, não é distanciar o homem da natureza, e sim facilitar a sua adaptação a ela. Por isso, mais hoje, mais amanhã, o homem teria de voltar ao natural, destruindo pouco a pouco os excessos de convencionalismo, os exageros perniciosos do seu artificialismo. (pp. 156 e157)

   Além disso, o autor critica o movimento espírita em diversos pontos, como no que se refere à parte pedagógica, quando diz que "(...) os congressos e simpósios educacionais espíritas revelam o quase total alheamento, dos professores espíritas, pelo desenvolvimento da Pedagogia Espírita, sem a qual só haverá escolas comuns com o rótulo formal de espíritas" (PIRES, 2013) e mais a frente, ao declarar que "A escola espírita só pode corresponder a esse nome se representar o novo tipo de educação determinado pelos princípios espíritas." (PIRES, 2013), também o fazendo no tocante à Cultura Espírita, como é visto na seguinte passagem:

Citar
Foi gigantesco o esforço do famoso Druida da Lorena  (...) para mostrar que o Espiritismo era uma nova concepção do homem e da vida, que não se podia confundir com as escolas espiritualistas ancestrais, carregadas de superstições e princípios individualmente afirmados ou provindos de tradições longínquas, sem nenhuma base de critério científico. O mesmo acontece hoje entre nós, sob a complacência de instituições representativas da doutrina e o apoio fanático de líderes carismáticos, piegas espirituais e alucinados mentais a dirigir multidões de cegos. (p. 370)


   Comenta, ainda, nas linhas seguintes, o que acontece quando se tenta corrigir essa situação, afirmando que tais tentativas "se chocam com a frieza irresponsável dos que se dizem responsáveis pelo desenvolvimento doutrinário" (PIRES, 2013), o que serve de alerta para o movimento espírita, posto que mesmo tendo sido escrita décadas atrás, uma vez vinda do "homem múltiplo", conforme o chamou Jorge Rizzini (RIZZINI, apud PAIDÉIA, 2013), e que possui o currículo que possui , tal comentário merece atenção.

   Em resumo, a obra merece ser não somente lida, como estudada por todos os que querem entender o porque de certos costumes religiosos, a evolução do Espírito no tempo e, principalmente, por aqueles que estão dispostos a refletir, pensar fora do usual, conhecer um pouco de um autor raramente falado nas reuniões públicas, sejam em Casas ou Congressos, e, quem sabe, ter uma direção (jamais absoluta, ou única) na postura a ser tomada pelo Espírita frente ao que ele ver e ouvir no movimento, caso em que, sem dúvidas, ela é uma referência.

   Por fim, um trecho altamente significativo, extraído do último capítulo do livro, que convida a uma reflexão:

Citar
O medo do pecado que sai da boca, da pena ou das teclas (...) faz desaparecer do meio espírita o diálogo do passado recente, substituindo o coro dos debates pelo silêncio místicos das bocas-de-siri. Ninguém fala para não pecar e peca por não falar, por não espantar pelo menos com um grito as aves daninhas e agoureiras que destroem a seara. (pp. 370 e 371)


Referências:
J. H. Pires, O Espírito e o Tempo: Introdução Antropológica ao Espiritismo, Editora Paideia, 11ª. Edição, 2013.