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GERAL => Mensagens de Ânimo => Jornal das Boas Notícias => Tópico iniciado por: Marianna em 06 de Setembro de 2009, 18:05

Título: UM CONTO DO IRMÃO X
Enviado por: Marianna em 06 de Setembro de 2009, 18:05



UM CONTO DO IRMÃO X

Filipe Simas renasceria com a missão de impulsionar a Verdade. Prometera aos Espíritos Superiores acolher-lhes o ensinamento, dosá-lo e distribuí-lo com a multidão.

Várias vezes, antes do berço, visitou, em companhia de grandes instrutores, o local em que receberia a tarefa. E vira, de perto, a enorme cidade em que lhe soaria a palavra como trombeta do Céu.

Começaria o apostolado através do verbo fulgurante, e terminá-lo-ia com o lançamento de alguns livros em que os Mensageiros Divinos expressassem preciosa síntese da realidade maior.

À face dos abençoados compromissos, Simas nasceu e criou-se, iniciando o trabalho com geral admiração. Muito jovem ainda, falava arrebatando quem o ouvisse. Benfeitores invisíveis ocupavam-lhe a garganta, transformada então em tuba sublime, e o conceito edificante lhe jorrava da boca. Assemelhava-se, nesses instantes, a cascata de luz.

Legiões de pessoas escutavam-no, emocionadas. Senhoras reconhecidas beijavam-lhe as mãos e companheiros respeitáveis abraçavam-no, comovidos.

Todavia, os Espíritos acomodados às sensações inferiores da existência física mostravam-se incomodados. As preleções de Simas mudavam a vida mental da maioria de quantos encarnados eles se haviam habituado a vampirizar. E perdiam terreno. Agindo por sindicato de exploradores, reuniram-se em estudo.

Como remover o embaraço? A princípio, improvisaram dificuldades. No entanto, as dificuldades como que lhe infundiam recursos novos. Simas orava e colhia forças. Invadiram-lhe, então, o reduto familiar. Inexplicavelmente, os irmãos lhe atiravam ironias em rosto.

O missionário, contudo, cobrava energias na prece. Era como se vivesse ligado à Esfera Superior, à maneira de escafandrista do Mundo Espiritual, captando-lhe o sagrado oxigênio da inspiração.

Os perseguidores sutis inventaram processos novos. Tentações variadas, cargas fluídicas em forma de dor, deserção de amigos, incompreensões, sarcasmos, prejuízos, mais amplas tricas domésticas...

Mas Filipe continuava falando. Palavra altissonante, reeducativa. E, como consequência, surgiam atitudes de conversão, intercâmbio de livros nobres, renovações, vidas transfiguradas e lares reconstruídos.

Reagruparam-se os adversários ferrenhos e, na assembléia, falou um deles mais experiente:

 — O rapaz já cheirou dinheiro grande?
E as respostas vieram:
— Sim... sim...

— Já foi experimentado em prazeres diversos?
— E mostrou-se indiferente...

— Lutas familiares?
— Venceu as maiores.

— Calúnias?
— Aproveitou-as, fazendo-se herói...

O técnico em assuntos da sombra pensou algum tempo e lembrou:

— Festas! Já foi testado em homenagens pessoais ?
E o grupo todo:
— É... é... ainda não...

— Experimentem — disse o astuto opositor—; pouquíssimos se livram... Começou para Simas uma época nova.

Os amigos, como se animados de furor admirativo, passaram a requisitá-lo. Apoio e demonstrações de apreço por toda a parte. Era o homem das festas inaugurativas. Nada se fazia sem ele, em matéria de atos sociais. Vistoria inicial de templos espíritas começantes, almoços de confraternização, reuniões comemorativas, viagens de longo curso para atender a convites honrosos, ágapes familiares, passeios no campo, preitos de ternura, recheados de flores...

E Simas falava, comovendo. Aplausos e lágrimas . E explodiam novos convites.. . Jantares íntimos, conversações confidenciais, auditórios fiéis, amigos revezando-se em ofertas afáveis... Automóveis, aqui e ali, à disposição. Retratos a rodo, álbuns de viagens, recortes de jornais em que seu nome ganhara citação. Relatórios cordiais pela noite a dentro, visitas intermináveis... e, com isso, a gula festiva.

Onde Filipe estivesse, surgia a mesa. Lanches, sequilhos, viandas, licores... Muita gente do séquito sabia de antemão: Simas, chegando, comezainas à farta. Como complemento aos licores inofensivos, havia para o grupinho mais íntimo as "bombas" alcoólicas. Com alguns poucos anos, arrancado ao cultivo da reflexão e ao hábito salutar da leitura nobre, Simas era dono de conversação rotineira.

Repetia casos, repisava conceitos sem refundi-los. De tanto aceitar homenagens enfeitadas por mãos quituteiras, acostumara-se ao prato grande. Fizera-se gastrônomo exigente. E, decerto, em razão da gordura excessiva, não mais aguentava servir nos longos comentários edificantes. Nada além de cinco minutos. Cansava-se, dizia-se portador de várias moléstias, afirmava-se em provação.

Antigos bajuladores não tinham, agora, mais tempo de cortejá-lo. E, muito antes dos dias previstos para os livros reveladores, Simas, vencido, tornara-se um trapo de gente, viciado em comprimidos para dor de cabeça.

Quando o vi, pela última vez, era um homem afônico, neurastênico. Rixava com a esposa. Clamava contra a gripe, contra a chuva, contra a umidade e contra o vento.

E, não longe, dois antigos adversários de sua missão, já fracassada, diziam, irônicos, entre si:

— Que fazer para levantar Simas de novo?
— Façamos festas !
— Uma festa é o remédio ideal.

E riam-se às escâncaras.

Pelo espírito Irmão X, psicografado por Chico Xavier.