Forum Espirita

GERAL => Mensagens de Ânimo => Jornal das Boas Notícias => Tópico iniciado por: Marianna em 08 de Fevereiro de 2010, 20:38

Título: NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO
Enviado por: Marianna em 08 de Fevereiro de 2010, 20:38


Uma análise completa.


1.a) Sobre o tema:

Este trabalho nasce pela força do tema em si. De nada valem explicações e justificativas. Não, o próprio sentido polemico do tema dispensa qualquer justificativa. Não há quem não se posicione ante a provocação deste antagonismo. Mesmo que esse posicionamento seja até para negar a existência do próprio antagonismo. Acontece que estamos diante de duas idéias distintas.

A grande questão que o tema suscita é a seguinte:

▬  Onde se encontra o eixo das decisões da vida do homem?
▬  Os defensores do determinismo atribuem ao destino, uma entidade exterior ao homem, tal prerrogativa.
▬  Os livre-arbitristas dizem estar no próprio homem, em sua vontade soberana, o núcleo de suas decisões.
▬  Onde a razão é mais forte?

A leitura do trabalho, somada a uma série de reflexões poderá trazer indicativas ao raciocínio do leitor, assim o espero. Estarei tratando do livre arbítrio, no estrito âmbito das decisões do espírito em sua jornada, e buscando dentro do possível, adotar uma perspectiva filosófica.

Importa neste texto é que lhe retiremos as idéias, buscando uma reflexão interna, individual, acerca do que seja este patrimônio chamado tempo, a se espraiar num patrimônio maior chamado vida. Essa vida que é essencialmente livre. Se não a conseguimos compreender dessa maneira, isto se deve a uma carga herdada de concepções antigas, onde o homem era joguete das instâncias de poder.

Concepções estas enraizadas no movimento espírita tradicional, e espelhadas ao longo dos diversos recantos deste país, e poderíamos dizer de todo o continente. Levando em consideração a amplitude do tema, seria este questionamento um projeto grandioso?

Não, encaremos apenas como uma contribuição. Este é, entre tantos, um tema que foi tratado de forma pontual e esporádica, que recebeu contribuições aqui e ali, mas que não calou fundo no todo do movimento espírita constituído.

Que este texto possa, de alguma forma colaborar com as pessoas e com o próprio Espiritismo.

1.b) Sobre a construção do trabalho:

A partir de uma proposta de projeto apresentada ao CPDoc – Centro de Pesquisa e Documentação Espírita, me valendo das sugestões pelo grupo apresentadas, construí a estrutura deste trabalho. E, muitas das idéias aqui abordadas tiveram a origem nas discussões levadas a efeito nesse grupo.

A Internet, como ferramenta de pesquisa e de ampliação das possibilidades de raciocínio foi outro elemento que muito me ajudou no processo de elaboração do tema. Em lugar de me centrar na obra espírita, busquei ampliar o leque de opções oferecidos pela rede. Se em muitos momentos o volume de informações nos atordoa, por outro lado, podemos achar ali, informações com as quais não contávamos, tal como aconteceu no que diz respeito às possíveis visões do tema em questão.

2) Delimitando:

Qualquer discussão de cunho filosófico como esta, impõe o estabelecimento de certas limitantes. Dessa forma, nosso raciocínio não enveredará por inúmeros caminhos outros, a ponto de perder o foco central da proposta temática.

À guisa de melhor usar o tempo do leitor e na busca de fixação do tema estarei eliminando a priori alguns tópicos, usando como critério maior para sua supressão a carga de volatilidade, ou fluidez do conceito, além do universo de possibilidades que estariam necessariamente presentes com a sua inserção.

Entre estes temas destaco:

A) Liberdade:

Efetivamente falar de Livre Arbítrio sem falar de liberdade parece um contra-senso, e é. Tanto é que esta aparecerá no bojo do texto, mas sempre como elemento interveniente no processo decisório.

O que deixo de lado aqui, são as inúmeras possíveis digressões que a idéia engendra. Por exemplo, a estreita relação entre a liberdade individual e seu impacto no contexto social. Como isto se relaciona. Este item, por si só já é material suficiente para um outro trabalho de cunho sociológico, daí a necessidade de sua exclusão neste contexto.

Outro aspecto passível de discussão diz respeito às modificações havidas no conceito de liberdade e na própria liberdade individual na evolução do processo civilizatório. Isto é : Como variou o conceito de liberdade entre épocas e povos ?

Tudo isto me leva a deixar de tratar este item no presente momento.

Título: Re: NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO
Enviado por: Marianna em 08 de Fevereiro de 2010, 20:42


B) determinismo genético:

Sem dúvida este é outro componente cabível ao tema. Mas por estar trabalhando a questão centrando a atenção no aspecto da decisão em si, nesse momento preciso da tomada de decisão. E por estar pensando no aspecto moral que toda decisão envolve, não pretendo trabalhar este aspecto. Pelo menos nesta versão do trabalho.

3) Lógica como base:

Neste ponto, gostaria de solicitar ao leitor, se possível for, a ruptura com as idéias que previamente tenha sobre o tema.

É muito difícil tal atitude, pois requer uma nova postura, de certa forma largamos algo, havendo por certo uma sensação de perda. Isto provoca certa insegurança.

Tal solicitação visa encaminhar o leitor no sentido de uma linha de análise sobre a questão, apesar de Ter claro que outras visões sobre o tema tenham também sua lógica e coesão interna.

Quantas vezes não rejeitamos idéias a priori, sem nos darmos ao trabalho da análise. Ou porque não gostamos do autor, do seu grupo intelectual, e outros tantos motivos que a razão não pode explicar.

Entre tantas outras coisas, Kardec nos deixou o bom senso e o primado da lógica na análise dos fatos e situações. Assim, quanto mais desprovida de paixão for nossa análise, melhor será nosso mergulho nesse tema. Mas afinal ...

▬  Que é a lógica?

Segundo o Dicionário Oxford lógica é a ciência do raciocínio, da comprovação, do pensamento e da inferência. Ela te ajuda a decompor os teus objetos de análise para com isso descartar argumentos ou tópicos inválidos.

Por outro lado lógica não é uma lei absoluta que governa todo o Universo.

No passado se acreditava que se algo fosse logicamente impossível. Era impossível e ponto final. A geometria Euclidiana reinava absoluta. E ela é consistente logicamente, porém não é universal, há momentos ou lugares onde ela não é válida. Tais como quando trabalhamos com pequenas dimensões ( átomos, moléculas ); com imensas dimensões astronômicas; com corpos em altas velocidades, por exemplo, a velocidade da luz, 300.000 km/s (Para termos uma noção do que significa isto, equivale a sete voltas ao Equador terrestre em um segundo. ); ou ainda em campos gravitacionais de grande concentração de massa ( por exemplo os buracos negros do universo, ou ainda as estrelas densas).

Dessa forma busquemos deixar nosso raciocínio mais maleável, embora estribado no bom senso, desvinculando-o de qualquer análise passional.

4) Elementos históricos:

Desde os mais remotos tempos o homem se preocupou com o seu destino, porém é no fim da Idade Média, com o surgimento do Iluminismo, que tal preocupação se estrutura como um movimento de amplas proporções. Abarcando diversos países e em cada um deles recebendo sua denominação característica. Dessa forma na Inglaterra o movimento teve o nome de Enlightenement; na França , Ilustration e na Alemanha denominou-se : Aufklärung.

Convém lembrar que em 1728 surge a primeira enciclopédia a “Universal Dictionary of Arts and Science”, editada por Efrain Chambers. Na França sob a coordenação de Diderot e D’Alembert surge a “Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Arts, des Sciences et des Metiers”, contando com 17 volumes e 130 colaboradores.

Este movimento deslocou o eixo das preocupações humanas antes focadas em Deus, sob o domínio do clero, para o próprio homem; tendo este em si todas as possibilidades de discernimento e autodeterminação através da razão. O fragmento de texto demonstra o clima daquele momento histórico:

Ao conquistar a Prússia, o Iluminismo assumiu o nome de Aufklärung. Sob o reinado de Frederico II, a Prússia de fato se abriu ao espírito novo, a ponto de saudar Voltaire como um herói. A "vitória" não estava assegurada, o povo não estava "esclarecido", mas o processo estava em andamento. E encontrou em Kant seu arauto.
Título: Re: NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO
Enviado por: Marianna em 08 de Fevereiro de 2010, 20:47


▬  "O que é o Iluminismo, afinal?"

Escreveu um dia, provocadoramente, um pastor hostil. Kant retrucou prontamente num opúsculo: o Iluminismo, afirmou ele, é em essência o fim do período em que o homem não tinha voragem de se servir do seu entendimento. Até agora o homem era menor, já que recebia instruções de um outro e as aplicava. O cuidado com seu espírito, sua alma e seu corpo não era uma incumbência dele. De certa maneira, ele se beneficiava com isso, já que ser responsável por si implica uma grande parcela de riscos; mas que proveito tiravam seus tutores! Dirigiam-no a seu gosto, como se dirigem as bestas de carga, e podiam usufruir impunemente dos frutos do seu trabalho.

Na ciência, o surgimento das idéias de Newton haviam trazido à luz o conceito de um mundo natural determinístico. O homem já havia se assenhoreado de seu destino através da primazia da razão, porém suas concepções ainda eram bastante rígidas.

Por volta de 1920/1930 através de experimentos com átomos e partículas ainda menores, os cientistas perceberam que a velocidade e posição relativa eram propriedades das partículas que não poderiam ser medidas separadamente. Além, disso perceberam que a posição da partícula poderia ser definida com certa exatidão, no entanto sua velocidade só seria mensurada dentro de certos limites, através do estabelecimento de intervalos.

Uma vez descoberto o movimento aleatório das partículas não mais cabia a visão mecanicista da natureza. Uma mudança sensível nas rígidas concepções vigentes.

Assim caminhou o pensamento humano, a partiu inicialmente de concepções rígidas e pela própria força da reelaboração das idéias, foi fazendo sua caminhada no sentido de uma compreensão maior e mais clara do universo que o cerca.

5) Legado do equivoco:

▬  E no Movimento Espírita?

Somos herdeiros do passado. Recebemos uma série de idéias e concepções que são material rico para todo e qualquer contraditor das idéias espíritas.

Vejamos um trecho do texto “A antropologia Kardecista no Brasil” de Ari Antonio da Silva apresentado no CPDoc para análise no ano de 1998. O texto em questão, por razões do autor : desconhecimento ou má fé, atribui o adjetivo kardecista a todos os distúrbios de compreensão encontrados no Brasil. Coloca tudo numa vala comum, sem critério qualquer de busca de uma maior diferenciação e compreensão.

De qualquer forma, nos vale como alerta, pois toca em certos conceitos largamente usados pelo Movimento Espírita tradicional religioso.

12 - O Determinismo Antropológico:

Uma característica da antropologia Kardecista é o determinismo que se manifesta na erupção da alma religiosa, que está presa a formas mágicas de ver o mundo e de atuar sobre ele. Percebe-­se que o homem não é dono de si mesmo, mas continua sendo vítima de forças ocultas (Kardec, 1992a, p.25, § 10). Este homem não vê outra saída a não ser colaborar com estas forças ocultas, acabando assim, por se aniquilar.

O homem Kardecista prostra-se ante tudo isso e se torna passivo, sem personalidade própria e procura harmonizar-se com estas forças ocultas, tentando amenizar os efeitos de possíveis influências maléficas das mesmas. As formas de determinismo são a reencarnação, que restringe o acesso do homem a sua própria autonomia frente à natureza e à própria história. Outra forma de determinismo é o fatalismo e a feitiçaria. Dentro da antropologia Kardecista, aparecem correntes que influenciaram pro­fundamente na postura prática do homem Kardecista.

São as seguintes correntes:

♣  A influência das leis do karma;
♣  A influência do cristianismo, que incorpora uma praticidade caritativa, mas de caráter assistencialista, e não na linha da promoção do homem;
♣  A concepção de um homem científico com o racional, inspirado em todo o modismo do século 19;
♣  O positivismo cotidiano, que se caracterizou pela romantização da ciência.

1.1- A questão da liberdade dentro do Espiritismo é um desafio à filosofia e à sociedade. A partir da visão de homem dentro da doutrina Kardecista, é fácil concluir se há ou não a liberdade para o homem. O homem Kardecista está sempre à mercê dos espíritos. O corpo no espiritismo é um mero instrumento do espírito, não existe o eu-sujeito-consciente. Desaparece a personalidade humana e, por conseqüência, a liberdade individual. O que se manifesta é o determinismo antropológico. O homem Kardecista está, portanto, amarrado, e não consegue ser um agente transformador de seu próprio mundo.
Título: Re: NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO
Enviado por: Marianna em 08 de Fevereiro de 2010, 20:51


1.2 - A partir da questão antropológica Kardecista que aniquila o homem como ser pensante, livre e autoconsciente, aparece o determinismo antropológico com as suas variantes. Uma das variantes é a reencarnação, que é chamada de "O dogma da reencarnação".

Ora , esta restringe o acesso do homem à sua própria autonomia frente a natureza e à própria história. Um dado interessante é que a reencarnação é a alavanca para qualquer resposta que não tenha explicação racional. Uma segunda variante é a visão fatalista da história, que não permite reação alguma, mas conduz a uma passividade enervante, deixando-se guiar por forças ocultas e cegas que, em linguagem popular, são chamadas de azar, sorte ou destino. “

É importante que fique claro ser o texto acima de um padre, cujo único objetivo é denegrir o Espiritismo, fazendo uma mistura intencional com o objetivo de confundir seu público. Mistura conceitos espíritas com não espíritas com tal meta.

Vale a pena notar desse trecho, que muitas das idéias por ele colocadas estão corretas se olharmos a forma de ver e de agir de grande parte do Movimento Espírita constituído.

Nesse sentido, cresce a importância da questão do antagonismo determinismo/livre arbítrio. Sendo este, um entre tantos itens passíveis de uma análise mais acurada, se colocando no rol das idéias a serem revisitadas em nosso momento histórico.

6) Apresentando possíveis visões sobre o tema:

Segundo as concepções vigentes duas são as principais formas de nos posicionarmos com relação ao tema : ou somos incompatibilistas ou compatibilistas.

Incompatibilismo:

Minhas idéias se fundam na concepção chamada incompatibilismo, segundo o qual não podemos Ter determinismo e livre arbítrio com responsabilidade moral.

Temos dois tipos de incompatibilismo :

A) determinismo radical - propugna ser o determinismo verdadeiro, não tendo o homem vontade própria e nem responsabilidade moral sobre seus atos.

B) Libertarianismo - Temos o livre arbítrio ( vontade livre ), dessa forma o determinismo não existe.

Compatibilismo:

Mesmo que sejamos determinados, continuamos tendo livre arbítrio e responsabilidade moral. A questão que essa corrente coloca é : afinal que é Ter livre arbítrio ?

O libertarianismo diz “você tem livre arbítrio e é responsável por suas ações, poderá sempre se perguntar se poderia Ter agido de outra maneira”.

O compatibilista diz “a responsabilidade moral nada tem a ver com a possibilidade de agir de outra forma”. Acha tolice vincular a responsabilidade moral à possibilidade em agir de outras maneiras. Acreditam ainda que liberdade de ação e responsabilidade moral são perfeitamente compatíveis com o determinismo.

7) Vontade:

Gostaria agora que focássemos a atenção no item vontade para elucidação da questão do Livre Arbítrio.

Se fizermos uma pesquisa na Internet sobre o item determinismo, ao seu lado quase sempre aparecerá o item “free will”, que poderíamos traduzir por livre vontade, a expressão da língua inglesa para livre arbítrio.

A língua portuguesa nesta expressão não define tão claramente a idéia. A língua inglesa, em sua praticidade e concisão, em muitos momentos, nos presta grande serviço não só à condução do raciocínio, como na garantia da clareza de conceito.

Algumas questões podem nos servir ao raciocínio:

▬  Que queremos dizer quando afirmamos que temos livre arbítrio?
▬  Como seria o mundo se tivéssemos uma vontade não livre?
▬  As ações humanas têm uma causa?
▬  Que é a vontade?
▬  O que as causa?

O determinismo advoga que toda ação humana tem uma causa. E mais ainda, que a causa determina precisamente seu conteúdo.

▬  Se o determinismo fosse verdadeiro qual a nossa responsabilidade por nossas ações?

Nossa vida se tornaria sem sentido, pois por mais esforços que fizéssemos nada poderia mudar nossa trajetória na vida, esta já estaria dada. A meu ver um absurdo. Não existem ações não voluntárias. Todas as ações humanas tem por base o arcabouço moral do espírito, sempre vinculadas à sua responsabilidade.

▬  Em que casos a vontade do homem estaria restrita?

1) Caso da hipnose - Poderia se negar a ser hipnotizado sua submissão à vontade do hipnotizador é limitada. No momento em que o hipnotizador propõe algo que fira sua moral, este se nega a fazer. Mesmo nesta situação sua vontade está presente.
Título: Re: NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO
Enviado por: Marianna em 08 de Fevereiro de 2010, 20:52
2) Caso de compulsão psicológica - A vontade pode estar obstruída por questões diversas, mas sempre existe a decisão individual de roubar ou não, beber ou não. Há ainda a possibilidade da decisão na procura de um tratamento ou não, seguir as necessárias prescrições ou não,

Segundo Gandhi “aquele que pela vontade, dominar os sentidos é o primeiro e mais importante dos homens.” [3] Creio que muito além dos sentidos o homem deve ser capaz de dominar seu destino, definindo metas e estabelecendo objetivos.

É exatamente através da vontade que o homem se torna senhor de seu destino.

Em geral vivemos sem nos dar conta de nossa vontade. Vivemos como se não a tivéssemos, ou melhor dizendo, como se dessa vontade não necessitássemos. Um dia percebemos que dela não nos dissociamos, que tudo o que fazemos e pensamos nada mais é que a representação dessa vontade.

Nesse momento nos damos conta que além de sermos possuidores da vontade, somos conscientes dessa mesma vontade. Nos percebemos capazes de orientar nossos atos, e mesmo nossos pensamentos na direção que melhor nos interesse.

É um momento de descoberta, de insigth.

Todos aqueles que já tiveram um insigth, podem afirmar com segurança que a visão sobre o assunto ou situação desse insigth jamais voltará a ser como era antes. Algo se abriu em nós, se desanuviou, de forma que passamos a ver mais claro aspectos dantes obscuros.

Somos tomados por uma sensação de inteireza, de autoconfiança ou segurança. Não mais somos joguetes na mão de um destino cego, ao revés disto, definimos nosso destino.

À medida em que aprofundamos nossa confiança na própria vontade percebemos o quanto ela é libertadora, nos estabelecendo diretrizes e mesmo canalizando energias.

A vontade é sempre propulsora de realizações, dinâmica, realizadora. Realiza, e arca com as responsabilidades relativas a essas realizações. A ela se contrapondo encontramos a inércia, o comodismo, a apatia, na verdade e no fundo uma fuga da responsabilidade acarretada pela decisão livre e soberana

8] Livre Arbítrio é libertação:

O espírito tem em si uma série de leis que não pode sobrepujar. Envolvido na matéria, preso a um organismo, sujeito a leis biológicas, fisiológicas e psíquicas, vinculado a um meio social e a uma raça, um povo, modelado pelo aspecto cultural e pela educação da família, preso enfim a uma Lei Universal, não pode agir sem levar em conta sua natureza perfectível e seu grau de evolução relativa.

Naqueles que não chegaram a um grau de consciência superior sua vontade é quase instintiva, baseando-se nas necessidades de sobrevivência. Na medida porém que tomamos consciência de nossa existência, e sua finalidade, nos convertemos em seres mais reflexivos, inteligentes e racionais, conquistando passo a passo nossa liberdade, que aumenta na medida em que progredimos.

Por esse motivo que o Espiritismo postula que “o livre arbítrio é sempre proporcional ao grau de evolução do espírito”. Quanto maior for nosso grau de evolução maior será nossa liberdade, por conseguinte maior será nossa responsabilidade diante de cada ato.

Nesse sentido a compreensão da questão do livre arbítrio traz um salto de qualidade na nossa vida de relação.

A Idade Média dava ao homem uma única perspectiva de existência, este era temente a Deus e joguete dos interesses da Igreja e conseqüentemente do Estado daquela época.

O Renascimento desloca o eixo, centrando no indivíduo a questão do conhecimento e das próprias decisões. Falta-lhe no entanto uma perspectiva a longo prazo.

O Espiritismo chega ao mundo como esta visão de longo prazo, além disso rompe com as limitantes das idéias Judaico-cristãs, caindo por terra idéias como o pecado e uma série de coisas que apenas trouxeram a infelicidade dos homens.

O livre arbítrio é um desses conceitos libertadores que o Espiritismo é portador.

A partir dele o homem espírita é capaz de tomar decisões, e as toma de forma mais conciente que o homem medieval, que o homem do renascimento, ou qualquer outro homem de seu próprio tempo.

Ciente de sua liberdade plena, faz dessa liberdade linha condutora de sua prática existencial; usando-a no sentido do crescimento individual e colocando-a a serviço do aprimoramento das instituições sociais.

Paulo César Fernandes.
Título: Re: NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO
Enviado por: Anton Kiudero em 23 de Fevereiro de 2010, 20:57
Permita-me prever com precisão todos os dias da sua vida eterna. Seja o dia que for, você estará eternamente fazendo o que estiver fazendo.

Como sei disto? Simples, você não pode estar fazendo nada diferente do que você está fazendo, é impossível.

Neste momento, por exemplo, você está fazendo o que está fazendo, não está? Lendo o texto. Então, se está fazendo o que está fazendo, como poderia estar fazendo outra coisa?

“Ah! Eu poderia parar de ler o texto e ir ao supermercado”. É claro que sim! Mas isto não anula o futuro do gerúndio, você continuará fazendo o que estiver fazendo, comprando arroz e feijão, e, uma vez fazendo compras, no gerúndio, não poderia estar fazendo outra coisa senão fazendo compras. “Ah! Eu poderia parar de fazer compras e tomar café”. Claro que sim! Mas isto também não anula o futuro do gerúndio, você continuará fazendo o que estiver fazendo, tomando café, e, uma vez tomando café, no gerúndio, não poderia estar fazendo outra coisa senão tomando café. “Ah! Mas eu poderia, eu poderia, ... etc, etc, etc...”

Na hipótese "eu poderia estar fazendo outra coisa", tem um truque rotineiro do pensamento. Ele cria a teoria enganosa dizendo que é possível estar fazendo outra coisa além do que estamos fazendo, e ainda diz que se estivéssemos fazendo esta outra coisa, estariamos sendo felizes, ou mais felizes. Muito bem, o pensamento sugere este absurdo porque é função dele, porém, o mais absurdo nesta história é que, embora passemos a eternidade obtendo rotineiro insucesso neste investimento do pensamento, continuamos dando credito a ele (acreditando).

do livro, SERUMANO OU SÓHUMANO, de marcelo ferrari
Título: Re: NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO
Enviado por: Mourarego em 23 de Fevereiro de 2010, 22:10
Tanta falação para explicar-se apenas isso:
O Espírito é criado simples e ignorantre, quer dizer, sem propensão nem ao bem nem ao mal.
como passar do tempo e apreensões múltiplas, ele é sujeito de ação correta e incorreta.
As ações incorretas lhe fazerm portador de um núcleo de culpa que só se extingue quando este Espírito se liberta pelo refazimento dos erros pretéritos e a consciência de ser perdoado (pedir perdão).
copm se dá este refazimento: encarnado o Espírito pode, nos momentos que se desprende do corpo  procurar entender seus maus atos e destes procurar o perdão e modificar-se daí para o futuro.
Desencarnado ele pede um quantum de provas pelas quais possa refazer, e provar sua transformação.
Quanto menos erros tiver, quanto mais moralizado for, maior o grau de livre arbítrio que poderá acessar e vivenciar.
apenas isso.
Abraços,
Moura
Título: Re: NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO
Enviado por: Marianna em 06 de Março de 2010, 13:25

Para a Doutrina Espírita não há destino, não há predestinação, não há sorte ou azar. O futuro é construído todos os dias. Através de pensamentos e ações, o espírito e seu grupo cultural escolhem e determinam seus caminhos, exercitando uma característica indissociável do ser inteligente: o livre-arbítrio. A evolução é o fundamento da vida e ocorre pela aquisição de conhecimentos em sentido amplo: técnico, afetivo, emocional, moral, filosófico, científico, religioso.

O espírito adquire conhecimentos novos através das experiências, vivências e convivências acumuladas ao longo de sucessivas situações pelas quais passa, tanto no polissistema espiritual como no material. Ao somar conhecimentos novos, o ser modifica a visão que tem de si mesmo, dos outros, do mundo e de Deus, ou seja, amplia a sua consciência, evolui. O conhecimento e o comportamento resultantes das situações enfrentadas delimitam um caminho próprio para cada ser inteligente.

De acordo com as suas escolhas, ele tem experiências diferentes e, em conseqüência, conhecimentos diferentes, que desenham uma seqüência própria que lhe confere individualidade. Na construção do perfil que caracteriza como único cada espírito (inteligência, afeto, sentimento, valor, consciência) a liberdade de escolha, o exercício do livre-arbítrio, é o que permite ao ser inteligente alcançar os objetivos da vida.

Os segmentos de conhecimento acumulados pelo espírito no decorrer de suas experiências determinam, proporcionalmente, uma capacidade de entendimento, compreensão e construção. O conhecimento que o espírito possui permite que ele solucione várias situações da vida. Dentro do limite do que já é conhecido pelo espírito as situações não se constituem em dificuldade e a sua resolução contribui para que os que convivem com o espírito alcancem, também, o conhecimento que ele domina.

Entretanto, como as experiências vividas são limitadas, o que o espírito sabe também é limitado. As dificuldades apresentadas na superação de algumas situações indicam as limitações do espírito.

A solução, o conhecimento capaz de resolver a dificuldade, no entanto, não se encontra pronta; deve ser construída, adaptada às características únicas da situação e das pessoas envolvidas. A construção da resposta se faz da própria experiência do espírito ou da experiência acumulada pelo outro, encarnado ou desencarnado, que será adaptada ao edifício de conhecimentos do espírito, de acordo com a sua capacidade de raciocínio, seus sentimentos, seus valores e seu entendimento. É a liberdade de escolha que determina quais segmentos de conhecimento, tanto em qualidade como em quantidade, serão assimilados e como serão acomodados e equilibrados em relação aos conhecimentos que já constituem o ser, de forma coerente, para sustentar comportamentos.

As situações que o espírito enfrenta ao longo de sua trajetória, tanto no polissistema espiritual como no material, podem ser uma conseqüência direta de suas atitudes anteriores, ou podem ser condicionadas por variáveis além do seu controle. Entretanto, a escolha que o espírito adota diante da situação apresentada é de sua completa responsabilidade. Dentro dos limites de seu entendimento, o espírito é responsável pelas conseqüências, efeitos, desdobramentos e novas situações geradas a partir de suas decisões.

Diante do desafio e de acordo com sua liberdade de escolha, a resposta do espírito poderá estar situada entre o "hediondo" e o "sublime". No entanto, com maior probabilidade, a resposta será compatível, coerente, com as decisões anteriores que a pessoa já tomou. Haverá escolhas mais ou menos adequadas para um certo espírito em um dado momento. Como os caminhos são múltiplos e as situações enfrentadas são diferentes, as respostas deverão ser diversas. O critério para se encontrar a resposta mais adequada será sempre individual.

A coerência entre a verdade alcançada e a sua prática deverá nortear a escolha consciente. Quanto maior o cruzamento de experiências que puder ser mobilizado e considerado antes da tomada de decisão, maior a probabilidade dela estar coerente com a história de vida da pessoa até então; maior a chance da decisão preencher a necessidade do espírito naquele momento. O auto-conhecimento, portanto, é fundamental, para o exercício pleno do livre-arbítrio.

Escolhas que afastem o ser inteligente da coerência com sua história propiciam desdobramentos com menor qualidade ou quantidade de experiências e, conseqüentemente, reduzem o aproveitamento daquela seqüência de experiências.

Título: Re: NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO
Enviado por: Marianna em 06 de Março de 2010, 13:27


Muitas vezes, no entanto, as conseqüências de uma atitude ou pensamento podem não ser tão significativas. A escolha pode alterar a ênfase e a direção da trajetória, modificando as possibilidades existentes, mas sem conotação positiva ou negativa. As experiências possíveis, após a decisão, passam a ser diferentes das planejadas, mas igualmente significativas para a evolução do espírito na medida em que segmentos diferentes de conhecimento são explorados.

As conseqüências que se seguem ao exercício de escolha, propiciam experiências que vão contribuir para o crescimento do espírito na medida em que ele, consciente, se empenhe em aproveitá-las. O espírito cresce na medida em que se esforça por preservar ou ampliar as experiências que são favoráveis ou modificar as que não são adequadas.

O exercício do livre-arbítrio sofre a influência dos chamados paradigmas da cultura, da inteligência e da contingência, que podem potencializar ou dificultar o seu exercício pleno.

As influências sobre o livre-arbítrio são em primeiro lugar relativas ao conhecimento alcançado. Quanto maior o domínio sobre um segmento de conhecimento, tanto maior será o entendimento e a responsabilidade sobre as decisões. As decisões tomadas por uma pessoa, no exercício de seu livre-arbítrio, podem alterar, potencializar ou limitar o exercício do livre-arbítrio de outras pessoas.

O exercício do livre-arbítrio é tanto uma atividade individual como do grupo social. As limitações e as capacidades do espírito se relacionam com as do grupo. As limitações e as capacidades do grupo refletem a soma da mentalidade de seus membros, determinando uma massa crítica que sustenta ou inibe algum tipo de comportamento.

O meio cultural, no qual um espírito está encarnado, determina um quadro dentro do qual ele passa a se mover. Este quadro facilita atitudes e comportamentos na medida em que algumas soluções já experimentadas estão à disposição como exemplo. Em contrapartida, pode limitar, ao aceitar apenas comportamentos com características aceitas pelo grupo, dificultando a exteriorização das potencialidades do espírito. Atitudes que atuem contra a mentalidade dominante do meio cultural exigem maior esforço para a sua sustentação, necessitando do apoio de um referencial diferenciado.

O grupo cultural evolui, muda seu comportamento, na medida em que seus membros evoluem, ou seja, esforçam-se para romper suas limitações, que também são, em parte, as do grupo. O grupo, não esquecendo de considerar aqui a família, pode determinar, criticar, inibir, sustentar, reforçar, permitir, propiciar, direcionar, induzir, limitar e estimular pensamentos e atitudes. O meio cultural é a maneira pela qual uma pessoa compartilha suas experiências com os outros.

A inteligência, como capacidade de resolver problemas, determina uma ou algumas abordagens preferenciais que selecionam o que será considerado como problema, as respostas alcançadas e os caminhos que serão utilizados. Se há facilidade por um lado, por outro limitam-se as opções. A forma pela qual a cultura, associada às características biológicas estruturou a inteligência, direciona a solução de problemas.

Há ainda, afetando o livre-arbítrio, as chamadas contingências, entendidas como incertezas sobre se uma coisa acontecerá ou não, o que pode ou não suceder, o eventual, o incerto, determinado por variáveis fora do controle da vontade da pessoa ou grupos envolvidos.

O espírito que reencarna se submete a algumas condições pelo fato de estar na Terra que também afetam o exercício do livre-arbítrio. A alimentação, o sono, o envelhecimento, as limitações do físico, da visão, da audição, as formas de comunicação, as condições do meio ambiente, etc.

Dentre os conceitos fundamentais que compõe o núcleo do Espiritismo, o livre-arbítrio é o aspecto da lei maior que sustenta a evolução do universo inteligente. Livre-arbítrio é a ação do espírito no limite de seu conhecimento, e responsável na medida de seu entendimento.

Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas.
Título: Re: NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO
Enviado por: Conforti em 29 de Março de 2010, 16:16
Amigos,

Livre-arbítrio, uma tentativa de explicar o inexplicável.

Sempre se tentou encontrar uma explicação, uma justificativa para o sofrimento e os problemas do mundo. Dentro da concepção, adotada pelas religiões, de um Deus soberanamente bom e justo, a responsabilidade de todos os problemas do mundo só poderia recair sobre os ombros das pobres criaturas, os homens, que teriam feito mau uso de seu livre-arbítrio. Que Deus lhes deu vontade livre para pensar e fazer e, dentro dessa liberdade, mesmo as leis divinas estando impressas eternamente em sua mente, não as obedecem e, assim, agem erradamente. Do mesmo modo limbo, céu, inferno, pecados e castigos, pecado original, méritos e deméritos nasceram dessa tentativa de explicar aquilo que ainda é inexplicável, e das observações daquilo que acontece na vida.
Desde sempre o homem buscou explicações para tudo que lhe sucedia, particularmente, se lhe fosse desagradável. Porque o homem sofre? A causa, como asseguram as diversas crenças e religiões, “não’ pode ser o Deus, para nós ainda desconhecido. A causa, portanto, só pode estar no homem. Será verdade essa maneira de ver as coisas?
Os mistérios sempre desafiaram o homem, pela sua ânsia de compreender e de dominar a natureza e o semelhante. Na tentativa de desvendar o mistério da existência do mal, criou-se a figura de sua personificação, Satanás, um ser a quem foi concedida autorização pata atormentar os homens com suas tentações e a suscitar toda espécie de sofrimento do mundo. Mas a existência dessa figura, ou do sofrimento, de modo algum se coaduna com a concepção de um Criador de amor e misericórdia. Como não poderia ser Deus o causador do sofrimento, chegou-se à explicação “lógica”(?) de que, se o homem sofre, sofre porque agiu erradamente; se é feliz, é feliz porque agiu acertadamente. Sem dúvida, se o homem age erradamente pode prejudicar a si próprio e a semelhantes. Não é isso que vemos no dia-a-dia do mundo, desde os mais inocentes desentendimentos até os conflitos e guerras mais cruéis e destruidoras de tudo que o próprio homem construiu? Então o homem sofre porque age erradamente, mas não porque, como ensinam as doutrinas, esse sofrimento está previsto numa lei que lhe impõe punição, mesmo que educativa, por seu procedimento incorreto. É a lei de causa e efeito: se causou um dano, pode sofrer se esse dano o atingir; e pode fazer outros sofrerem, também; isto é lógico. Qualquer tentativa de explicar, como dizem as religiões, que o seu sofrimento vem de sua responsabilidade e culpa, isto é, que sofre como um castigo ou punição, mesmo que educativo-instrutiva, não cabe dentro da idéia de um Criador onisciente, onipotente e amoroso que, por sua onisciência, saberia desde sempre o que cada uma de suas criaturas faria de errado e de certo, de conformidade com suas leis ou das leis da vida e, de antemão, também sabia o que, cada uma, individualmente, sofreria devido aos seus desacertos. Seria como o fabricante de brinquedos que, mesmo sabendo que um brinquedo, por estar defeituoso, destruiria, mataria, seria perigoso, produziria tantas dores, assim mesmo o faz e o entrega às crianças. Quem é o responsável? O brinquedo, as crianças, o fabricante?
Percebemos que temos de, urgente e necessariamente, repensar as concepções religiosas. Ou vamos permanecer cheios de ilusões, esperanças, remorsos e, sobretudo, culpas e medos. Vivemos dentro dessa tremenda ilusão de que a criatura é responsável pelo seu próprio sofrimento. Em certo sentido, esta é uma verdade; contudo, no sentido de que sofre porque fez outros sofrerem é um enorme absurdo. Não há punições infringidas por ninguém, nem por Deus, nem pelo próprio homem. O que acontece é que o ser humano está fechado na escuridão de sua enorme ignorância e nada vê, nada percebe, nada interpreta corretamente. Ele está com os olhos “cheios de terra”, como disse Teresa de Ávila; com os olhos “cheios de espessas trevas”, como disse Jesus. Essa é toda a causa do sofrimento que existe no mundo: os olhos “tapados”, a ignorância que só pode ser dissipada com o conhecimento da verdade que liberta. “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Não há culpados, ninguém a ser responsabilizado.
(continuo)
Título: Re: NOSSO LIVRE-ARBÍTRIO
Enviado por: Conforti em 29 de Março de 2010, 16:19
LIVRE ARBITRIO, uma tentativa de...
(continuação.

É evidente que nós, que a sociedade deve tomar suas precauções. É como o escorpião que pica e envenena. É de sua natureza agir assim. Não é culpado e nada sofrerá pelo mal que possa causar. O mesmo ocorre com o homem: é de sua natureza, ser, ainda, aquilo que ele é; é de sua natureza agir como age. Evidentemente, se temos por perto um animal perigoso, nos afastamos dele ou o afastamos de nós e dos nossos para que nenhum mal nos cause. Do mesmo modo, um homem perigoso, perverso, criminoso, ou dementado, deve ser afastado do convívio da sociedade para que a ninguém prejudique. Mas ninguém tem culpas de como pensa e de como age; cada um, apenas, é o que é. Cada um age de conformidade com aquilo, que em sua compreensão, mais ou menos deficiente, acha que deve agir. O problema é que estamos fechados nesta casca espessa de ignorância e imaginamos e criamos e inventamos um sem numero de explicações, respostas para nossas interrogações acerca da vida. Só isso. Essas respostas, por mais que nos esforcemos, que imaginemos, que raciocinemos, nunca vamos atingir. Enquanto o homem não afastar esse espesso véu de ilusões, enquanto não romper essa ignorância, que não o deixa conhecer a verdade, continuará sofrendo e fazendo outros sofrerem. Essa é a vida e o sofrimento. Não há como fugir disso. A única solução é buscar o conhecimento da verdade citada por tantos sábios. É afastar o obstáculo que não nos deixa conhecer a verdade. E, isso é difícil. porque esse obstáculo é o próprio “ego”, a própria mente onde estão armazenadas as ilusões e suposições recebidas, desde que viemos à existência, daquilo que a cultura, as tradições, os costumes, crenças e religiões nos transmitiram. E como afastar esse obstáculo, se ele é nossa mente e, por conseqüência, ele é nós mesmos? Como ensinou o profeta do Antigo Testamento, “Aquieta-te e sabe: eu sou Deus”; como ensinou Jesus, “Quando quiseres falar com teu Pai, fecha-te em teu quarto e, em silencio, em oculto fala a teu Pai que em oculto te ouve”.  Sempre o ‘silencio’ da mente. 
Aquietar a mente, falar ocultamente, silenciosamente, estas são as recomendações dos sábios...

Vejam só, amigos, um exemplo simples de como nossas escolhas não dependem de nosso livre-arbítrio, de nossa vontade: você caminha por uma estrada que, de repente, se bifurca; por qual das duas vai prosseguir? Ninguém decide ou escolhe como num jogo de cara-ou-coroa, nem num estalar de dedos. Sempre analisamos, por mais simples que essa analise seja, qual a estrada a seguir; a mais vantajosa, a mais sombreada, a que tem menos obstáculos a transpor. E porque essa analise é necessária e produtiva? Porque, pelas experiências anteriores na nossa vivencia de todos os dias, já aprendemos alguma coisa. Aprendemos que devemos continuar por aquela cuja ponte não está quebrada, pela mais sombreada, pela cujo pavimento é melhor etc. Só não age assim aquele que está desesperado, enlouquecido, descontrolado e, por isso, pode até continuar sua marcha pela estrada pior, ou cometer desatinos, como vemos no mundo. Até para escolhermos entre guloseimas, analisamos: se o apetite é grande, a maior; se não, a mais apetitosa ou que nos parece mais saborosa etc. Logo, nosso dito “livre-arbítrio” nunca é totalmente livre: está sempre atrelado, preso ao conhecimento, à compreensão anterior, que já temos das coisas e do mundo. E se não é totalmente livre, não é livre-arbítrio. Todas as escolhas que fazemos e todas as decisões que tomamos estão totalmente presas ao nosso passado e, assim, portanto, não agimos totalmente livres. Do mesmo modo acontece em todos os aspectos da vida coletiva ou individual. Sempre, qualquer decisão, escolha ou arbítrio, depende totalmente da experiência anteriormente adquirida. Não escolhemos livremente. Talvez, por isso o apóstolo Paulo tenha afirmado: “É o Senhor que opera em nós o pensar e o fazer”. E os sábios: “Aquele que pensa que escolhe é imaturo”. Pense nisso!