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CONVÍVIO => Off-topic => Humor => Tópico iniciado por: Marianna em 07 de Setembro de 2009, 21:08

Título: CONTO MORTE APARENTE
Enviado por: Marianna em 07 de Setembro de 2009, 21:08
           


            Seu Toca sempre foi um uma boa pessoa, trabalhou muito, casou-se e depois dos trinta, não tiveram filhos.

            Ele amava muito sua esposa dona Toca, parecia mesmo que um foi feito para o outro, até os nomes eram iguais, quando um adoecia o outro se entristecia e neste estado de união, consideração e muito amor permaneceram por toda vida.

            Levava vida simples em um sítio longe de qualquer tipo de recurso, principalmente acesso aos serviços médicos e de saúde em geral.

            O lugar onde moravam pertencia a um fazendeiro e por ali tinha várias famílias, que eram muito unidas.

            Entre os moradores tinha seu Zeca corajoso, lhe deram este nome, pois ele sempre dizia ter matado onça, segurado cobras venenosas, amansado burro bravo e ainda dizia que certa noite lutou feio com um lobisomem.

            O pior é que a maioria daquele povo acreditava nestas conversas do Zeca corajoso.

            Tinha também o Pedro pau dágua, que era homem trabalhador, mas vivia sempre com uma garrafa de pinga na mão, este já gostava de inventar história principalmente de defuntos, assombrações, dizia que dormia debaixo das árvores sonhando com velórios e em alguns o defunto piscava ou até falava, mas que ele nunca teve medo de morto.

            Certo dia dona Toca havia saído para visitar uma amiga que morava naquelas cercanias, enquanto isto dois ladrões chegaram ao barraco do casal e para que Seu Toca não gritasse e mesmo pensando em matá-lo amarram um pano em  sua boca, e em seu pescoço e colocaram  algodão em suas narinas bem ao fundo, mas como forçaram com palito de fósforo ali ficou um pequeno orifício.

            Após roubarem o dinheirinho do casal os ladrões foram embora e achando que o idoso estava morto tiraram o pano da boca e do pescoço e desapareceram.

            Como era quase fim de tarde, dona Toca chegou e tudo estava silencioso, vendo o esposo naquele estado começou a chamar os vizinhos, nesta hora quase todos viraram médicos, faz chá disto ou daquilo, ponha-o debruço, veio o octogenário benzedor, mas nada adiantou, deram seu Toca por morto.

            Logo apareceram os que gostavam de dar banho em defunto, arrumaram até um velho paletó com gravata e seu Toca estava até com a feição bonita.

            Ali tinha de tudo, apareceram as rezadoras e até umas carpideira (aquelas que choram o tempo todo pra ganhar um dinheiro, mas desta vez foi grátis).

            Naquele tempo o caixão era feito por um carpinteiro do sítio que por sinal sempre  tinha alguns de reservas e o enterro era feito num pequeno cemitério que ficava à beira da estrada.

            A noite chegou, imaginem como era o velório de gente tão simples naquela época.

Chá de erva-cidreira pra acalmar dona Toca, café pro povo, uns achava que morreu disto ou daquilo. Mas lá pelas tantas da madrugada, o povão começaram a justificar que iriam embora, mas de manhã voltariam e ficariam até o momento de levar o morto para sua eterna morada.

            Resumindo, ficaram o Zeca corajoso o Pedro pau dágua, duas carpideiras além de dona Toca que chorou tanto e  acabou sendo levada para o quarto e caiu em um profundo sono.

            Zeca de olho no defunto e pau dágua bêbado chorava em volta do caixão ao lado  das carpideiras e lamentava que seu Toca era seu maior amigo e que jamais encontraria outro como aquele.

            O que eles não esperavam era um espirro de seu Toca e um banho de algodão na cara do Pau dágua.

            O susto foi grande, Pau dágua caiu e por ali mesmo amanheceu, dona Toca no  quarto dormindo nada viu e os outros três saíram correndo, derrubando bule de café fazendo outros estragos e dizendo sentir arrepio no corpo e com as pernas trêmulas cai aqui, cai ali,  conseguiram  avisar umas duas casas e pediram pouso por ali mesmo.

            O que ninguém  sabia era que seu Toca teve foi uma morte aparente com batimentos cardíacos imperceptíveis e movimentos respiratórios quase ausentes, este estado patológico que simulou a morte foi provocado pela asfixia.

            O povo também ficou espantado e vendo de longe seu Toca caminhar pelo quintal,  dona Toca também quando o viu de manhã caiu assustada, mas logo levantou da queda,  acreditando ter alcançado milagres efeito das rezas, mas isto não convenceu todo o povo, muitos mudaram do lugar, outros nunca mais passaram à frente da casa do velho Toca e alguns faziam romaria dizendo que iam buscar milagres na casa do santo Toca.

Seja o rico ou o miserável
Cedo ou tarde virarão cadáver
Que no latim quer dizer "caro data vermis"
E no vernáculo (carne dada aos vermes).

Valeriano Luiz da Silva
Anápolis - GO - 02/07/2005