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GERAL => O que é o espiritismo => Existência de Deus => Tópico iniciado por: Marianna em 12 de Outubro de 2009, 15:40

Título: MINHA NOSSA SENHORA!
Enviado por: Marianna em 12 de Outubro de 2009, 15:40



MINHA NOSSA SENHORA!

Recentemente estava andando pelo centro do Recife mais especificamente Rua da Concórdia quando fui acometido de uma fraqueza que, de primeiro, associei à fome (mesmo tenho comido há menos de 2 horas). Comi um cachorro quente e continue minha caminhada, já saindo dali. 10 minutos depois a mesma tontura e fraqueza, como se eu não tivesse comido nada. "Eita lugar pesadinho", pensei.

Apressei o passo pra sair dali, e fui andando pela Rua Nova, sem melhorar. Aí passei defronte a Igreja de Nossa Senhora da Conceição dos Militares (construída em 1723), onde estava sendo celebrada uma missa. Geralmente eu gosto de olhar igrejas vazias pra apreciar sua decoração, mas a música tipo Marcelo Rossi (altíssima) me espantou. Fiquei parado no meio da rua, encantado com o altar, mas sem coragem de entrar.

Mas aí pensei: "caramba, estou aqui passando mal, talvez nem consiga sair do bairro sem ter que parar em algum lugar, e aqui não há nenhum outro lugar melhor do que esse pra se limpar de encosto". Então entrei. E não me arrependi. O altar é um dos mais lindos que já vi (incluindo aí o altar da Igreja de São Bento), pois, além de ser concebido no estilo rococó, ele usa um efeito de profundidade - tipo o primeiro estágio de Sonic 1 - com várias camadas uma atrás da outra que dão um efeito 3D lindo de se ver em movimento.

Quem gosta de rococó extreme vai amar o telhado, que eu particularmente achei  muito over(pra mim a virtude está no equilíbrio). Mas o que me chocou foi ver a pintura de teto logo na entrada, que de bíblica só tem o tema: matança com suposta proteção divina.

A pintura gigante no forro em talha representa a Batalha dos Guararapes, onde os (então) parasitas de Portugal expulsaram os Holandeses (os únicos que trataram o Brasil com alguma decência) com a ajuda de negros e índios (PQP, que burros! Dá zero pra eles, professor!). Essa "insurreição pernambucana" é também chamada de "Guerra da Luz Divina", e o fato de uma força 50% inferior vencer os holandeses foi considerado um milagre, onde Maria, mãe de Jesus, estava a proteger os militares portugueses.

Isso justifica a pintura, colocada na Igreja pelo governador de Pernambuco, em miloitocentosealgumacoisa. A batalha retratada é de um horror que só vi em "O Soldado Ryan". Sério. Sangue e tripas espalhadas pelo chão (que mal se vê, pelo número de corpos amontoados). Uma certa sena me deixou mais perturbado, que foi a de um soldado português com a espada, pronto pra desferir o golpe fatal num outro soldado holandês que estava no chão rendido, entre os cadáveres, com a mão espalmada (em súplica)e boca aberta.

Estivesse esse quadro num museu eu não ligaria muito (afinal toda guerra é feia e cruel), mas... na entrada de uma igreja? Ao lado do calvário de Jesus? Passei boa parte do tempo pensando em como o pároco foi constrangido a botar aquela pintura ali; talvez até tentado com uma boa quantia pra reforma da Igreja... e fiquei matutando no quanto o sagrado está imiscuído (macomunado?) com o profano.

Nesse meio tempo as músicas terminaram e o Padre começou uma pequena oração, que dizia algo como "Senhor, nos lembra sempre do quanto somos insignificantes e dependentes de sua misericórdia", o que fez meu sangue ferver, pois um dia antes eu havia escrito aqui nos comentários do blog sobre o uso de Jesus como eterna muleta pra manter o povo servil, e assim preparar terreno pra justificar uma suposta hierarquia espiritual (padre, bispo, papa) que convenientemente emula a hierarquia social (prefeito, governador, presidente)... e logo Jesus, que criticava (veladamente ou não) o uso do sagrado como controle social... que irônico.

Ainda bem que ele ressuscitou, ou suas cinzas estariam rolando pelo sepulcro e logo virariam atração turística. Mas nem tudo é indignação. A bem da verdade até gostei do sermão do padre.

Ele começou lendo o trecho da bíblia:

Logo depois disso, andava Jesus de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e iam com ele os doze, bem como algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios. Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Susana, e muitas outras que os serviam com os seus bens. (Lucas 8:1-3)

Antes de ser espírita e de entrar naquela igreja, nunca havia reparado nisso.

Afora a mênção aos 12 apóstolos, o evangelista só cita MULHERES acompanhando Jesus. O padre lembrou como elas eram muito discriminadas naquela época, e ainda assim Jesus andava cercado delas, tratando-as como iguais. E foi justificar no Gênesis, onde está escrito: Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou-lhe, então, uma das costelas, e fechou a carne em seu lugar; e da costela que o senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao homem. (Gen 2:21-22)

O padre falou que aquilo era obviamente uma matáfora, uma figura de linguagem (graças a Deus!), que simbolizava que a mulher foi criada de uma parte ao LADO do homem. Nem da cabeça nem dos pés dele, e sim do meio. Falou dos preconceitos que ainda existem contra a mulher, e citou que, em nossa sociedade, a consagração do sucesso de uma mulher na mídia é ela posar nua numa revista; não precisa nem ser bonita: se ela faz sucesso, logo é convidada pra posar como um objeto de desejo (o que minimiza - às vezes apaga - todo o esforço que ela fez como ser humano pra chegar ao reconhecimento nacional).

O padre falou ainda que muitas vezes o preconceito é alimentado pelas próprias mulheres, ao criarem seus filhos de maneira machista e perpetuando o preconceito dos avós, ou ao aceitarem passivamente os desmandos do marido. Achei muito bonito esse sermão, numa Igreja consagrada a Nossa Senhora, e com o padre cercado de mulheres - senhoras, suas assistentes, que estavam inclusive com ele no altar, e a platéia, composta de 90% de mulheres.

Enfim, uma Igreja de contrastes, onde o Divino convive com o Vulgar, e onde o padre prega a igualdade feminina dentro de uma doutrina famosa pelo machismo e preconceito histórico para com a mulher. Saí de lá revigorado, sem a fraqueza de outrora.

Obrigado, Nossa Senhora (e perdõe a brincadeira acima)

Desconheço a autoria.
Sáb, 3 de outubro, 2009.