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CODIFICAÇÃO => Estudos Avançados => Tópico iniciado por: Moises de Cerq. Pereira em 10 de Agosto de 2017, 14:45

Título: Reuniões mediúnicas de desobsessão
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 10 de Agosto de 2017, 14:45
Reuniões mediúnicas de desobsessão
(doutrinação ou esclarecimento de Espíritos)

Por:
Paulo Neto

Citar
“E alguns judeus, exorcistas ambulantes,
tentavam invocar o nome do Senhor Jesus
sobre os possessos de espíritos malignos,
[…].” (Atos 19,13)

Será que as denominadas reuniões de desobsessão (doutrinação ou esclarecimento de Espíritos) foram recomendadas na Codificação? É o que propomos pesquisar.

Na atualidade, após os quase 160 anos do surgimento da Doutrina dos Espíritos, poderá alguém questionar sobre a utilidade das evocações de desencarnados em reuniões mediúnicas, denominadas de “doutrinação”, de “desobsessão” ou de “esclarecimento”, nas quais se estabelecem diálogos com eles visando, de alguma forma, auxiliá-los.

Percebe-se que alguns companheiros pensam que o esclarecimento ou a moralização dos Espíritos inferiores deve ser uma tarefa específica de Espíritos superiores, que deverá ser realizada no mundo espiritual e não por nós, aqui do mundo material. Outros mais ortodoxos são contra somente pelo fato delas estarem mencionadas por André Luiz, pela psicografia de Chico Xavier; pede-se, apenas, bom senso, pois o excesso para nenhum dos lados é bom.

Estávamos pesquisando na obra Curso Básico de Espiritismo, 1º ano, uma publicação da FEESP (Federação Espírita do Estado de São Paulo), visando encontrar algum material para poder utilizá-lo numa palestra sobre a vida no mundo espiritual, quando nos deparamos com este interessante parágrafo:

Em erraticidade, os Espíritos analisam e refletem sobre o seu passado, sempre objetivando o aperfeiçoamento e, ao percorrerem os lugares, observam e escutam com interesse os conselhos dos encarnados mais esclarecidos, e dessa forma, as ideias novas surgem em seu íntimo, predispondo-os a aceitação dos desígnios divinos.

Despertou-nos atenção o trecho que diz “escutam com interesse os conselhos dos encarnados mais esclarecidos”, razão pela qual fomos ver se, nas obras da Codificação, havia algo a respeito disso.

1 FEESP, Curso Básico de Espiritismo, 1º ano, p. 50

Tomemos, por pertinente ao tema, a obra O Livro dos Médiuns, cap. XXV, “Evocações”, para esclarecimento da questão:

278. Uma questão importante se apresenta aqui, a de saber se há ou não inconveniente em evocar Espíritos maus. Isto depende do fim que se tenha em vista e da ascendência que se possa exercer sobre eles. Não há inconveniente, quando são chamados com um fim sério, instrutivo e tendo em vista melhorá-los. Ao contrário, o inconveniente é muito grande quando se faz a evocação por simples curiosidade ou por divertimento, ou, ainda, quando quem os chama se põe na dependência deles, pedindo-lhes um serviço qualquer. […](2)

E o alerta no início do item subsequente (279) não deve ser nunca desprezado:
“Ninguém exerce ascendência sobre os Espíritos inferiores, a não ser pela superioridade moral.” (3)

Um pouco mais à frente, no tópico “Utilidade das evocações particulares”, do item 281, transcrevemos o seu último parágrafo:

A evocação dos Espíritos vulgares tem, além disso, a vantagem de nos pôr em contato com Espíritos sofredores, que podemos aliviar e cujo adiantamento podemos facilitar, por meio de bons conselhos.

Todos, pois, nos podemos tornar úteis, ao mesmo tempo que nos instruímos. Há egoísmo naquele que somente a sua própria satisfação procura nas manifestações dos Espíritos, e dá prova de orgulho aquele que deixa de estender a mão em socorro dos desgraçados. De que lhe serve obter belas comunicações de Espíritos de escol, se isso não o faz melhor para consigo mesmo, nem mais caridoso e benévolo para com seus irmãos deste
mundo e do outro?

Que seria dos pobres doentes, se os médicos se recusassem a lhes tocar as chagas? (4)
Entenda-se o adjetivo “vulgares” não no sentido pejorativo, mas apenas uma
outra designação com a qual também se nomeia os Espíritos inferiores, conforme as
explicações de Kardec em O Livro dos Médiuns, item 267, inciso 4. (5).

Caso não tentemos aliviar e ajudar no adiantamento os Espíritos inferiores, nós
os espíritas, estaremos, segundo Kardec, sendo egoístas, por não colocarmos em
prática a caridade e benevolência para com eles. Obviamente, que isso não significa
que todos os espíritas devam fazer esse trabalho, já que a caridade pode ser exercida
de muitas outras maneiras. O que ele quer dizer é que as instituições espíritas não
devem descuidar deste tipo de atividade.

2 KARDEC, O Livro dos Médiuns, p. 300.
3 KARDEC, O Livro dos Médiuns, p. 300.
4 KARDEC, O Livro dos Médiuns, p. 304.
5 KARDEC, O Livro dos Médiuns, p. 282.

....
Título: Re: Reuniões mediúnicas de desobsessão
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 10 de Agosto de 2017, 14:53
Entendemos que, utilizando-se de outras palavras, Kardec está, na verdade, recomendando mesmo a evocação desses Espíritos para que, por meio de bons conselhos, possamos contribuir no alívio de seu sofrimento e no seu despertamento moral para buscarem o caminho da evolução espiritual. O que só ocorre em reuniões mediúnicas criadas precipuamente para esse objetivo.

Ademais, há situações que, segundo Kardec, é efetivamente necessária a evocação, como nos casos das obsessões. Em A Gênese, no capítulo XIV, “Os Fluidos”, ao tratar desse tema Kardec disse:

46 – Assim como as moléstias resultam das imperfeições físicas que tornam o corpo acessível às influências perniciosas exteriores, a obsessão decorre sempre de uma imperfeição moral, que dá ascendência a um Espírito mau.

A uma causa física, opõe-se uma força física; a uma causa moral preciso é se contraponha uma força moral. Para preservar o corpo das enfermidades, é preciso fortificá-lo; para garantir a alma contra a obsessão, tem-se que fortalecê-la. Daí, para o obsidiado, a necessidade de trabalhar pela sua própria melhoria, o que na maioria das vezes é suficiente para livrá- lo do obsessor, sem o socorro de terceiros. Este socorro se torna necessário, quando a obsessão degenera em subjugação e em possessão, porque neste caso o paciente não raro perde a vontade e o livre-arbítrio.

Quase sempre a obsessão exprime vingança tomada por um Espírito e cuja origem frequentemente se encontra nas relações que o obsidiado manteve com o obsessor, em precedente existência.

Nos casos de obsessão grave, o obsidiado fica como que envolto e impregnado de um fluido pernicioso, que neutraliza a ação dos fluidos salutares e os repele. É daquele fluido que é preciso desembaraçá-lo. Ora, um fluído mau não pode ser eliminado por outro igualmente mau. Por meio de ação idêntica à do médium curador, nos casos de enfermidade, há que se expulsar o fluido mau com o auxílio de um fluido melhor.

Nem sempre, porém, basta esta ação mecânica; cumpre, sobretudo, atuar sobre o ser inteligente, ao qual é preciso que se tenha o direito de falar com autoridade, que, entretanto, não possui quem não tenha superioridade moral. Quanto maior esta for, tanto maior também será aquela.

Mas ainda não é tudo: para assegurar a libertação, é preciso que o Espírito perverso seja levado a renunciar aos seus maus desígnios; que nele desponte o arrependimento, assim como o desejo do bem, por meio de instruções habilmente ministradas, em evocações particularmente feitas com vistas à sua educação moral. Pode-se então ter a grata satisfação de libertar um encarnado e de converter um Espírito imperfeito. (6)

Somente por meio de “evocações particularmente feitas com vistas à sua educação moral” é que um Espírito perverso pode ser convencido a renunciar a sua vingança, contra o obsediado; portanto, não podemos protestar ignorância dessa missão que, como espíritas, nos cabe fazer.
6 KARDEC, A Gênese, p. 259

Voltemos à obra O Livro dos Médiuns, agora no cap. XXIII, “Obsessão”, item 254, onde lemos esclarecimentos importantes:

5. Não se pode também combater a influência dos maus Espíritos, moralizando-os?

“Sim, mas é o que não se faz, e é o que não se deve deixar de fazer, porque, muitas vezes, isso constitui uma tarefa que vos é dada e que deveis desempenhar caridosamente, religiosamente. Por meio de sábios conselhos, é possível induzi-los ao arrependimento e apressar o progresso
deles.” (7)

Uma das nossas missões é combater a influência dos Espíritos maus, moralizando-os, obviamente, em reuniões específicas para o trato com eles, já que “isso constitui uma tarefa que vos é dada e que deveis desempenhar caridosamente, religiosamente”; mais claro que isso é impossível.

Kardec insistiu na questão, querendo saber como nós, os encarnados, podemos influenciar positivamente os Espíritos maus se eles, teoricamente, têm os Espíritos superiores ao lado.

5-a. Como pode um homem ter, a esse respeito, mais influência do que a têm os próprios Espíritos?

“Os Espíritos perversos se aproximam antes dos homens que eles procuram atormentar, do que dos Espíritos, dos quais se afastam o mais possível. Nessa aproximação dos humanos, quando encontram algum que os moralize, a princípio não o escutam e até se riem dele; depois, se aquele os sabe prender, acabam por se deixarem tocar.

Os Espíritos elevados só em nome de Deus lhes podem falar e isto os apavora.

O homem, indubitavelmente, não dispõe de mais poder do que os Espíritos superiores, porém, sua linguagem se identifica melhor com a natureza daqueles outros e, ao verem o ascendente que o homem pode exercer sobre os Espíritos inferiores, melhor compreendem a solidariedade que existe entre o céu e a terra. Demais, o ascendente que o homem pode exercer sobre os Espíritos está na razão da sua superioridade moral. Ele não domina os Espíritos superiores, nem mesmo os que, sem serem superiores, são bons e benevolentes, mas pode dominar os que lhe são inferiores em moralidade.” (8-)

Conforme explicado, a razão está em que nós, os encarnados, estamos mais próximos deles do que os Espíritos Superiores; daí ser mais fácil chegarmos a eles do que estes Espíritos.
7 KARDEC, O Livro dos Médiuns, p. 274.
8 KARDEC, O Livro dos Médiuns, p. 274.
Título: Re: Reuniões mediúnicas de desobsessão
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 10 de Agosto de 2017, 14:59
Completando essa fala de Kardec, transcrevemos da obra No Invisível, uma explicação de Léon Denis (1846-1927) ao fenômeno da incorporação mediúnica:

[…] As citações que acabamos de fazer provam que a incorporação pode ser real e completa. É mesmo algumas vezes inconsciente, quando, por exemplo, certos Espíritos pouco adiantados são conduzidos por uma vontade superior ao corpo do médium e postos em comunicação conosco, a fim de serem esclarecidos sobre sua verdadeira situação.

Esses Espíritos, perturbados pela morte, acreditam ainda, muito tempo depois, pertencerem à vida terrestre. Não lhes permitindo seus fluidos grosseiros o entrarem em relação com os Espíritos mais adiantados, são levados aos grupos de estudo, para serem instruídos acerca de sua nova condição. É difícil às vezes fazer-lhes compreender que abandonaram a vida carnal, e sua estupefação atinge o cômico, quando, convidados a comparar o organismo que momentaneamente animam com o que possuíam na Terra, são obrigados a reconhecer o seu engano. Não se poderia duvidar, em tal caso, na incorporação completa do Espírito. (9)

Portanto, confirma-se a necessidade das reuniões para esclarecimento dos Espíritos pouco adiantados. E o que também nos chamou a atenção é o fato de serem eles conduzidos contra a sua vontade a essas reuniões, demonstrando, que, algumas vezes, é necessário restringir o livre-arbítrio dos que, num determinado momento, não têm condições de exercê-lo.

Em dois outros momentos, Kardec, falando das obsessões, recomendou que se evocasse o Espírito obsessor, a fim de instruí-lo, e também com isso se libertasse o encarnado de sua influência, conforme esses trechos que nós transcrevemos; o primeiro da Revista Espírita 1866 e o outro de A Gênese:

O Espiritismo nos mostra na obsessão uma das causas perturbadoras do organismo, e nos dá, ao mesmo tempo, os meios de remediá-la: aí está um de seus benefícios. Mas como essa causa pode ser reconhecida se não for pelas evocações? As evocações, são, pois, boas para alguma coisa, o que quer que digam delas seus detratores. […].

[…] O conhecimento que temos agora do mundo invisível no-lo mostra povoado dos mesmos seres que viveram sobre a Terra, uns bons, os outros maus.

Entre estes últimos, há os que se comprazem ainda no mal, em consequência de sua inferioridade moral e que não se despojaram ainda de seus instintos perversos; estão em nosso meio como quando vivos, com a única diferença de que em lugar de terem um corpo material visível, têm um corpo fluídico invisível; mas não são, por isto, menos os mesmos homens, no sentido moral pouco desenvolvido, procurando sempre as ocasiões de fazer o mal, se obstinando sobre aqueles que lhes dão presa e que acabam submetendo-se à sua influência; obsessores encarnados que eram, são obsessores desencarnados, tanto mais perigosos porque agem sem serem vistos.

Afastá-los pela força não é coisa fácil, tendo em vista que não se pode prendê-los pelo corpo; o único meio de dominá-los é o ascendente moral com a ajuda do qual, pelo raciocínio e os sábios conselhos, chega-se a torná-los melhores, por isto são mais acessíveis no estado de Espírito do que no estado corpóreo.

Desde o instante em que são conduzidos a renunciarem voluntariamente a atormentar, o mal desaparece, se esse mal é o fato de uma obsessão; ora, compreende-se que não são nem as duchas, nem os remédios administrados ao doente que podem agir sobre o Espírito obsessor. Eis todo o segredo dessas curas, para as quais não há nem palavras sacramentais, nem fórmulas cabalísticas; conversa-se com o Espírito desencarnado, se o moraliza, educa-o, como teria sido feito quando de sua vida. (10)

Nos casos de obsessão grave, o obsidiado fica como que envolto e impregnado de um fluido pernicioso, que neutraliza a ação dos fluidos salutares e os repele. É daquele fluido que importa desembaraçá-lo.

Ora, um fluido mau não pode ser eliminado por outro igualmente mau. Por meio de ação idêntica à do médium curador, nos casos de enfermidade, há que se expulsar o fluido mau com o auxílio de um fluido melhor. Nem sempre, porém, basta esta ação mecânica; cumpre, sobretudo, atuar sobre o ser inteligente, ao qual é preciso que se tenha o direito de falar com autoridade, que, entretanto, não a possui quem não tenha superioridade moral.

Quanto maior esta for, tanto maior também será aquela.

Mas, ainda não é tudo: para assegurar a libertação, é preciso que o Espírito perverso seja levado a renunciar aos seus maus desígnios; que nele se desponte o arrependimento, assim como o desejo do bem, por meio de instruções habilmente ministradas, em evocações
particularmente feitas com vistas à sua educação moral.

Pode-se então ter a grata satisfação de libertar um encarnado e de converter um Espírito imperfeito. (11)

9 DENIS, No Invisível, p. 252-253.
10 KARDEC, Revista Espírita 1866, p. 41-42.
11 KARDEC, A Gênese, p. 259.



Título: Re: Reuniões mediúnicas de desobsessão
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 10 de Agosto de 2017, 15:08
Entendemos que ao dizer “por meio de instruções habilmente ministradas, em evocações particularmente feitas com vistas à sua educação moral”, Kardec está referendando as reuniões mediúnicas específicas para a doutrinação ou esclarecimento de Espíritos.

Das instruções de Erasto relativas ao caso da Senhorita Julie, publicadas na Revista Espírita 1864, mês janeiro, destacamos mais dois pontos: o primeiro é a evocação dos Espíritos superiores, pedindo auxílio nos casos de obsessão; e o segundo é a prece:

“[…] É preciso não só uma ação material e moral, mas ainda uma ação puramente espiritual. Ao Espírito encarnado que se encontra, como Júlia, em estado de possessão, é preciso um magnetizador experimentado e perfeitamente convicto da verdade Espírita; é preciso que seja, além disso, de uma moralidade irrepreensível e sem presunção. Mas, para agir sobre o Espírito obsessor, é necessária a ação não menos enérgica de um bom Espírito desencarnado. Assim, pois, dupla ação: ação terrestre, ação extraterrestre; encarnado sobre encarnado, desencarnado sobre desencarnado; eis a lei. […].

“Isso nos demonstra o que tereis de fazer doravante nos casos de possessão manifesta; é indispensável chamar em vossa ajuda o concurso de um Espírito elevado, gozando, ao mesmo tempo, de um poder moral e fluídico, […] Além disso, nosso concurso é dado a todos aqueles que nos chamarem em sua ajuda, com pureza de coração e fé verdadeira.

“[..] Quando se magnetizar Julie, será preciso primeiro proceder pela fervorosa evocação do cura d’Ars e de outros bons Espíritos que se comunicam habitualmente entre vós, rogando-lhes agirem contra os maus Espíritos que perseguem essa jovem, e que fugirão diante de suas
falanges luminosas.

Não é preciso esquecer, no mais, que a prece coletiva tem um poder muito grande, quando é feita por certo número de pessoas agindo em acordo, com uma fé viva e um desejo ardente de aliviar.”
ERASTO (Médium: Sr. d’Ambel) (12)

Observamos que Erasto está dizendo da importância de se evocar a assistência dos Espíritos superiores para que, nos casos de possessão (obsessão), eles também possam auxiliar no processo de libertação dos envolvidos.

Alerta-nos, também, para o poder da prece, a qual devemos fazer a favor do Espírito obsessor.

Na Revista Espírita 1865, mês de janeiro, há uma nota de Kardec, da qual ressaltamos o seguinte trecho:

[…] Mas os Espíritos bons não os abandonam; esforçam-se por lhes inspirar bons pensamentos; espreitam os menores sinais de progresso e, desde que veem neles brotar o germe do arrependimento, provocam instruções que, esclarecendo-os, podem conduzi-los ao bem.

Essas instruções lhes são dadas pelos Espíritos em tempo oportuno; também podem sê-lo pelos encarnados, a fim de mostrar a solidariedade que existe entre o mundo visível e o mundo invisível. No caso de que se trata, era útil à reabilitação de Germaine que o perdão lhe viesse da parte dos que se queixavam dela, o que era, ao mesmo tempo, um mérito para estes últimos.

Esta a razão pela qual a intervenção dos homens é requisitada para a melhora e o alívio dos Espíritos sofredores, sobretudo nos casos de obsessão. Seguramente a dos Espíritos bons lhes poderia bastar, mas a caridade dos homens para com seus irmãos da erraticidade é para eles próprios um meio de avanço que Deus lhes reservou. (13)

Kardec instrui para o nosso trabalho de ajuda e alívio aos Espíritos sofredores.

Falamos várias vezes sobre reunião específica sem, entretanto, demonstrar algo que pudéssemos tomar como base para criá-las. Deixamos propositadamente para esse momento anterior à conclusão, que fecha esse estudo.

12 KARDEC, Revista Espírita 1864, p. 16-17.
13 KARDEC, Revista Espírita 1865, p. 13-14.

Da Revista Espírita 1864, transcrevemos este trecho da correspondência do Sr. Dombre, presidente da Sociedade Espírita de Marmande, França, a Kardec:

“[…] Seguindo o conselho de nossos guias espirituais, imediatamente nos pusemos à obra. A 11 deste mês (14), às oito horas da noite, começaram nossas reuniões com vistas a evocar o Espírito, moralizá-lo, orar pelo obsessor e pela vítima e a exercer sobre esta uma magnetização mental.

As reuniões ocorriam todas as noites e na sexta-feira, 15, a menina sofreu a
última crise. […].” (15)

Aqui temos um guia espiritual sugerindo a realização de reunião para evocar um Espírito, visando a sua moralização.

Na Revista Espírita 1865, mês de junho, Kardec registra o recebimento de uma carta que lhe foi dirigida por “um dignatário do império russo”, da qual destacamos o seguinte trecho:

“O objetivo principal a que nos propomos é o alívio dos Espíritos sofredores, tanto encarnados quanto desencarnados. Nossas reuniões ocorrem duas vezes por semana. Procuramos alcançar a unidade de pensamento e, para o conseguir, cada assistente, durante toda a sessão, guarda o mais recolhido silêncio.

A pergunta feita aos Espíritos é lida em voz alta e cada um de nós, mentalmente, pede ajuda a seu anjo da guarda, a fim de obter uma resposta verdadeira. Em nossas evocações tratamos, na
maioria das vezes, com Espíritos de ordem inferior, Espíritos obsessores; e como conhecemos, por experiência, a eficácia da prece em comum, a ela quase sempre recorremos para esclarecer e aliviar esses infelizes. […].” (16)

A especialização da reunião fica algo claro, portanto, é, diríamos, altamente recomendável.

Na Revista Espírita 1867, mês de junho, Kardec transcreve o relatório anual da Sociedade Espírita de Bordeaux, do qual extraímos o seguinte trecho:

“Há, de resto, em Bordeaux, muitos casos de obsessão, e uma sessão por semana, especialmente consagrada à evocação e à moralização dos obsessores está longe de ser suficiente, uma vez que o médium curador, acompanhado de um médium escrevente, de um evocador e, frequentemente, de certos de nossos irmãos, vai ao domicílio dos doentes, a fim de melhor se identificar com os obsessores e chegar mais facilmente, lado a lado. (17)
 
14 Maio 1863.
15 KARDEC, Revista Espírita 1864, p. 47.
16 KARDEC, Revista Espírita 1865, p. 169-170.
17 KARDEC, Revista Espírita 1867, p. 178.
Título: Re: Reuniões mediúnicas de desobsessão
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 10 de Agosto de 2017, 15:11
Sobre a Sociedade de Bordeaux disse Kardec: “[…] A maneira pela qual ela procede para o tratamento das obsessões é ao mesmo tempo notável e instrutiva, e a melhor prova de que essa maneira é boa, é de que ela triunfa. […].”(18), ou seja, sanciona do procedimento realizado por seus membros para o tratamento das obsessões.

Nessa mesma obra, um pouco mais à frente, lemos:

Um grupo da província, que se pode alinhar entre os mais sérios e melhor dirigidos, introduziu este uso em suas reuniões que, igualmente, ocorrem duas vezes por semana. Ele é exclusivamente composto dos oficiais de um regimento.

Mas lá não é uma faculdade deixada a cada membro; é uma obrigação, que lhes é imposta pelo regulamento de falar cada um a seu turno.

Em cada sessão o orador designado para a próxima reunião deve se preparar para desenvolver e comentar um capítulo ou um ponto da doutrina.

Disso resulta para eles uma aptidão maior para fazer a propagação e defender a causa, em caso de necessidade.” (19)

Embora, nada tenha a ver com nosso caso, achamos interessante a designação do orador, indicando-lhe o ponto a ser desenvolvido na reunião seguinte, o que, em muito se assemelha ao que, hoje, se faz na maioria das casas espíritas em suas reuniões públicas e, muitas vezes, nas particulares de estudo doutrinário.

Concluímos, então, que, conforme o que encontramos nas obras da Codificação, as reuniões mediúnicas de doutrinação ou esclarecimento de Espíritos sofredores (imperfeitos) é uma missão nossa, que deve ser levada a efeito em reuniões específicas; obviamente, sem público externo, mas na intimidade que esses casos requerem e na privacidade que os espíritos manifestantes merecem.

Sendo uma missão nossa, ou seja, dos encarnados, julgamos que toda casa espírita deva ter essas reuniões para que possamos bem cumprir essa missão, com as quais, segundo as palavras de Kardec, teremos em cada caso resolvido “a grata satisfação de libertar um encarnado e de converter um Espírito imperfeito” (20).


Paulo da Silva Neto Sobrinho

Mai/2015.
(versão 7 – ago/2017)
18 KARDEC, Revista Espírita 1867, p. 181.
19 KARDEC, Revista Espírita 1867, p. 182.
20 KARDEC, A Gênese, p. 259
Referências bibliográficas:
DENIS, L. No Invisível. Rio de Janeiro: FEB, 1987.
FEESP – Federação Espírita do Estado de São Paulo. Curso Básico de Espiritismo, 1º ano. São
Paulo: FEESP, 2011 (em PDF).
KARDEC, A. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2013.
KARDEC, A. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2013.
KARDEC, A. Revista Espírita 1864. Araras, IDE: 1993.
KARDEC, A. Revista Espírita 1865. Araras, IDE, 2000.
KARDEC, A. Revista Espírita 1866. Araras, IDE: 1993.
KARDEC, A. Revista Espírita 1867. Araras, IDE: 1999.
Imagem reunião mediúnica:

http://www.ceakitajuba.org.br/sites/default/files/languages/atendimento_reuniaomed.jpg.

Acesso em: 06 jun. 2015.

Este artigo foi publicado:

– Revista Espiritismo – O Grande Consolador, nº 11. São Paulo: Mythos Editora, ago/2015,
com o título de “Doutrinação de Espíritos (reuniões mediúnicas)”, p. 4-10.