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GERAL => Outros Temas => Revista Espírita => Tópico iniciado por: Moises de Cerq. Pereira em 01 de Agosto de 2015, 00:00

Título: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 01 de Agosto de 2015, 00:00
REVISTA ESPIRITA
JORNAL
DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS
Agosto de 1865



O QUE O ESPIRITISMO ENSINA.

Há pessoas que perguntam quais são as conquistas novas que devemos ao
Espiritismo. Do fato de que não dotou o mundo de uma nova indústria produtiva, como o vapor, concluem que nada produziu. A maioria daqueles que fazem esta pergunta não se dando ao trabalho de estudá-lo, não conhece senão o Espiritismo de fantasia, criado pelas necessidades da crítica, e que nada tem de comum com o Espiritismo sério; não é, pois, espantoso que se pergunte o que pode dele ser o lado útil e prático. Teriam-no aprendido se tivessem ido procurá-lo em sua fonte, e não nas caricaturas que dele fizeram aqueles que têm interesse em denegri-lo.

Numa outra ordem de idéias, alguns acham, ao contrário, a marcha do Espiritismo muito lenta para o gosto de sua impaciência; espantam-se de que não haja ainda sondado todos os mistérios da Natureza, nem abordado todas as questões que parecem ser de sua alçada; gostariam de vê-lo todos os dias ensinar novidade, ou se enriquecer de uma nova descoberta; e, do fato de que ainda não resolveu a questão da origem dos seres, do princípio e do fim de todas as coisas, da essência divina, e algumas outras da mesma importância, concluem que não saiu do alfabeto, e que não entrou no verdadeiro caminho filosófico, e que se arrasta nos lugares comuns, porque prega sem cessar a humildade e a caridade. "Até este dia, dizem eles, não nos ensinou nada de novo, porque a reencarnação, a negação das penas eternas, a imortalidade da alma, a gradação através dos períodos da vitalidade intelectual, o perispírito, não são descobertas espíritas
propriamente ditas; é preciso, pois, caminhar para descobertas mais verdadeiras e mais sólidas."

Cremos dever, a este respeito, apresentar algumas observações, que não serão
nada de novo, mas há coisas que é útil repetir sob diversas formas. O Espiritismo, é verdade, nada inventou de tudo isto, porque não há de verdades verdadeiras senão aquelas que são eternas, e que, por isto mesmo, deveram germinar em todas as épocas; mas não é nada de tê-las tirado, senão do nada, ao menos do esquecimento; de um germe haver feito uma planta vivaz; de uma ideia individual, perdida na noite dos tempos, ou abafada sob os preconceitos, haver feito uma crença geral; de ter provado o que estava no estado de hipótese; de ter demonstrado a existência de uma lei naquilo que parecia excepcional e fortuito; de uma teoria vaga ter feito uma coisa prática; de uma ideia improdutiva haver tirado aplicações úteis?

Nada é mais verdadeiro do que o provérbio: "Não há nada de novo sob o sol," e esta própria verdade não é nova; também não é uma descoberta das quais não se encontrem os vestígios e o princípio em algum lugar. Nessa conta Copérnico não teria o mérito de seu sistema, porque o movimento da Terra havia sido suspeitado antes da era cristã. Se fosse coisa tão simples, seria preciso, pois, encontrá-la. A história do ovo de Colombo será sempre uma eterna verdade.

Além disso, é incontestável que o Espiritismo tem muito a nos ensinar; é o que
nunca cessamos de repetir, porque jamais pretendemos que ele tenha dito sua última palavra. Mas do fato de que resta ainda a fazer segue-se que não tenha saído do alfabeto?
Seu alfabeto foram as mesas girantes, e desde então deu, isto nos parece, alguns passos; parece-nos mesmo que tem a fazer bastante grandes em alguns anos, se
o compararmos às outras ciências que aportaram séculos para chegar ao ponto onde estão. Nenhuma chegou ao seu apogeu do primeiro salto; elas avançam, não pela vontade dos homens, mas à medida que as circunstâncias colocam sob o caminho de novas descobertas; ora, não está no poder de ninguém comandar essas circunstâncias, e a prova disto é que, todas as vezes que uma ideia é prematura, ela aborta, para aparecer mais tarde em tempo oportuno.

Mas, à falta de novas descobertas, os homens de ciência nada têm a fazer?
A química não é mais a química se ela não descobre todos os dias novos corpos? Os astrônomos estão condenados a cruzar os braços por falta de encontrar novos planetas?
E assim em todos os outros ramos da ciência e da indústria. Antes de procurar
novamente não é de se fazer a aplicação daquilo que se sabe?

É precisamente para dar aos homens o tempo de assimilar, de aplicar e de vulgarizar o que sabem, que a Providência põe um tempo de parada na marcha para a frente. A história aí está para nos mostrar que as ciências não seguem marcha ascendente contínua, pelo menos ostensivamente; os grandes movimentos que fazem revolução numa ideia não se operam senão em intervalos mais ou menos afastados. Não há estagnação por isto, mas elaboração, aplicação, e frutificação daquilo que se sabe, o que é sempre do progresso.
O Espírito humano poderia absorver sem cessar idéias novas?

A própria Terra não tem necessidade de tempo de repouso antes de reproduzir? Que se diria de um professor que ensinasse todos os dias novas regras aos seus alunos, sem lhes dar o tempo de se aplicar sobre aquelas que aprenderam, de se identificar com elas e de aplicá-las?

Deus seria, pois, menos previdente e menos hábil do que um professor? Em todas as idéias novas devem se encaixar nas idéias adquiridas; se estas não estão suficientemente elaboradas e consolidadas no cérebro; se o espírito não as assimilou, as que se quer nele implantar não tomam raiz; semeia-se no vazio.
Ocorre o mesmo com relação ao Espiritismo.
Os adeptos aproveitaram de tal modo o que ele ensinou até este dia, que nada tenham mais a fazer?

São de tal modo caridosos, desprovidos de orgulho, desinteressados, benevolentes para os seus semelhantes; de tal modo moderaram suas paixões, abjuraram o ódio, a inveja e o ciúme; enfim, são de tal modo perfeitos que seja doravante supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, em uma palavra, a moral?

Só esta pretensão provaria a ela o quanto têm ainda necessidade dessas lições elementares, que alguns acham fastidiosas e pueris; no entanto, é somente com ajuda dessas instruções, se as colocam em proveito, que podem se elevar bastante alto para serem dignos de receber um ensinamento superior.
O Espiritismo tende para a regeneração da Humanidade; este é um fato adquirido;
ora, esta regeneração não podendo se operar senão pelo progresso moral, disto resulta que seu objetivo essencial, providencial, é a melhoria de cada um; os mistérios que pode nos revelar são o acessório, porque nos abre o santuário de todos os conhecimentos, não seríamos mais avançados para o nosso estado futuro, se não fôssemos melhores. Para admitir ao banquete da suprema felicidade,  Deus não pede o que se sabe nem p que se possui, mas o que se vale e o que se terá feito de bem. É, pois, à sua melhoria individual que todo espírita sincero deve trabalhar antes de tudo. Só aquele que domou seus maus pendores, realmente tem aproveitado do Espiritismo e disso reserva a recompensa; é por isto que os bons Espíritos, por ordem de Deus, multiplicam suas instruções e as repetem à saciedade; só um orgulho insensato pode dizer: delas não tenho mais necessidade.
Título: Re:Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 01 de Agosto de 2015, 00:02
Só Deus sabe quando serão inúteis, e só a ele pertence dirigir o ensino de seus
mensageiros, e de proporcioná-lo ao nosso adiantamento.
Vejamos, no entanto, se fora do ensino puramente moral, os resultados do Espiritismo são tão estéreis quanto alguns o pretendem.

1- Ele dá primeiro, como todos o sabem, a prova patente da existência e da
imortalidade da alma. Isto não é uma descoberta, é verdade, mas é por falta de provas sobre este ponto que há tantos incrédulos ou indiferentes quanto ao futuro; é provando o que não era senão uma teoria que ele triunfa do materialismo, e que lhe previne as conseqüência funestas para a sociedade. A dúvida sobre o futuro tendo se transformado em certeza, é toda uma revolução nas idéias, e cujas conseqüências são incalculáveis. Se lá se limitassem exclusivamente os resultados das manifestações: quanto esse resultado seria imenso.

2- Pela firme crença que ele desenvolve, exerce uma poderosa ação sobre o moral
do homem; leva-o ao bem, consola-o em suas aflições, dá-lhe a força e a coragem nas provas da vida, e o afasta do pensamento do suicídio.

3-Retifica todas as idéias falsas que se havia feito sobre o futuro da alma, sobre o
céu, o inferno, as penas e as recompensas; ele destrói radicalmente, pela irresistível lógica dos fatos, os dogmas das penas eternas e dos demônios; em uma palavra, ele nos,descobre a vida futura, e no-la mostra natural e conforme a justiça de Deus. É ainda uma coisa que tem muito seu valor.

4- Ele faz conhecer o que se passa no momento da morte; este fenômeno, até este
dia insondável, não tem mais mistérios; as menores particularidades dessa passagem tão temida são hoje conhecidas; ora, como todo o mundo morre, este conhecimento interessa a todo o mundo.

5- Pela lei da pluralidade das existências, abre um novo campo à filosofia; o homem sabe de onde vem, para onde vai, para que fim está sobre a Terra. Ele explica a causa de todas as misérias humanas, de todas as desigualdades sociais; dá as próprias leis da Natureza por base aos princípios de solidariedade universal, de igualdade e de liberdade, que não estavam assentados senão sobre a teoria. Enfim, lança a luz sobre as questões mais difíceis da metafísica, da psicologia e da moral.

6- Pela teoria dos fluidos perispirituais, faz conhecer o mecanismo das sensações e das percepções da alma; explica os fenômenos da dupla vista, da visão à distância, do sonambulismo, do êxtase, dos sonhos, das visões, das aparições, etc.; abre um novo campo à fisiologia e à patologia.

7- Provando as relações que existem entre o mundo corpóreo e o mundo espiritual,
mostra, neste último, uma das forças ativas da Natureza, uma força inteligente, e dá a razão de uma multidão de efeitos atribuídos à causas sobrenaturais e que alimentaram a maioria das idéias supersticiosas.

8-Revelando o fato das obsessões, fez conhecer a causa, desconhecida até aqui,
de numerosas afecções sobre as quais a ciência estava equivocada em prejuízo dos doentes, e que dá os meios de curar.

9- Em nos fazendo conhecer as verdadeiras condições da prece e seu modo de
ação; nos revelando a influência recíproca dos Espíritos encarnados e desencarnados, nos ensina o poder do homem sobre os Espíritos imperfeitos para moralizá-los e arrancá- los aos sofrimento inerentes à sua inferioridade.

10-Fazendo conhecer a magnetização espiritual, que não se conhecia, abre um
novo caminho ao magnetismo, e lhe traz um novo e poderoso elemento de cura.
O mérito de uma invenção não está na descoberta de um princípio, quase sempre
conhecido anteriormente, mas na aplicação desse princípio. A reencarnação não é uma idéia nova, sem contradita, não mais que o perispírito, descrito por São Paulo sob o nome de corpo espiritual, nem mesmo a comunicação com os Espíritos. O Espiritismo, que não se gaba de ter descoberto a Natureza, procura com cuidado todos os traços que pode encontrar da anterioridade de suas idéias, e, quando os encontra, se apressa em proclamá-lo, como prova ao apoio daquilo que adianta. Aqueles, pois, que invocam essa anterioridade, tendo em vista depreciar o que fez, vão contra o seu objetivo, e agem desastradamente, porque isto poderia fazer supor um preconceito.
A descoberta da reencarnação e do perispírito não pertencem, pois, ao Espiritismo,
é coisa convencionada; mas, até ele, que proveito a ciência, a moral, a religião tinham retirado desses dois princípios, ignorados das massas, e permanecidos no estado de letras mortas?

Não só os clareou, os provou e fez reconhecer como leis da Natureza, mas as desenvolveu e fez frutificar; deles já fez sair inumeráveis e fecundos resultados, sem os quais estariam ainda para se compreender uma infinidade de coisas; cada dia nos fazem compreender coisas novas, e se está longe de ter esgotado essa mina. Uma vez que esses dois princípios eram conhecidos, por que ficaram por tanto tempo improdutivos?

Por que, durante tantos séculos, todas as filosofias se chocaram contra
tantos problemas insolúveis?

É que eram diamantes brutos que seria preciso colocar em obra: foi o que o Espiritismo fez. Ele abriu um novo caminho à filosofia, ou, dizendo melhor, criou uma nova filosofia que toma cada dia seu lugar no mundo. Estão, pois, aí resultados de tal modo nulos que é preciso se apressar em caminhar para descobertas mais verdadeiras e mais sólidas?

Em resumo, de um certo número de verdades fundamentais, esboçadas por alguns
cérebros de elite, e permanecidas na maioria num estado por assim dizer latente, uma vez que elas foram estudadas, elaboradas e provadas, de estéreis que eram, se tornaram uma mina fecunda de onde saiu uma multidão de princípios secundários e aplicações, e abriram um vasto campo à exploração, novos horizontes às ciências, à filosofia, à moral, à religião e à economia social.

Tais são, até este dia, as principais conquistas devidas ao Espiritismo, e não fizemos senão indicar os pontos culminantes. Supondo que devessem se limitar a isso, poder-se ia já dar-se por satisfeito, e dizer que uma ciência nova que dá tais resultados em menos de dez anos, não pode ser maculada de nulidade, porque toca a todas as questões vitais da Humanidade, e traz aos conhecimentos humanos um contingente que não é de se desdenhar. Até que esses únicos pontos tenham recebido todas as aplicações das quais são suscetíveis, e que os homens deles tenham tirado proveito, se passará ainda por muito tempo, e os espíritas que quiserem pô-los em prática por si mesmos e para o bem de todos, não deixarão de ter ocupação.Esses pontos são tantos focos de onde se irradiam inumeráveis verdades secundárias que se trata de desenvolver e de aplicar, o que se faz cada dia; porque a cada dia se revelam fatos que levantam um novo canto do véu. O Espiritismo deu sucessivamente e em alguns anos todas as bases fundamentais do novo edifício; aos seus adeptos agora cabe colocar esses materiais em obra, antes de pedir outros novos;

Deus saberá bem lhos fornecer quando tiverem rematado sua tarefa.
Os espíritas, diz-se, não sabem senão o alfabeto do Espiritismo; seja; aprendamos,pois, primeiro a soletrar esse alfabeto, o que não é um negócio de um dia, porque, mesmo reduzido às suas únicas proporções, escoará tempo antes de lhe ter esgotado todas as combinações e recolhido todos os frutos. Não restam mais fatos a explicar?

Os espíritas não têm, aliás, a ensinar esse alfabeto àqueles que não o sabem? lançaram a semente por toda a parte onde poderiam fazê-lo? não resta mais incrédulos a converter, obsidiados a curar, consolações a dar, lágrimas a secar? É fundado dizer-se que não se tem nada mais a fazer quando não se acabou a sua necessidade, quando resta ainda tantas feridas a fechar?

Aí estão nobres ocupações que valem muito a vã satisfação de dele saber um
pouco mais e um pouco mais cedo que os outros.Saibamos, pois, soletrar nosso alfabeto antes de querer ler correntemente no grande livro da Natureza; Deus saberá bem nos abri-lo à medida em que avançarmos, mas não depende de nenhum mortal forçara sua vontade antecipando o tempo para cada coisa. Se a árvore da ciência é muito alta para que não possamos alcançá-la, esperemos para ali voar, que nossas asas estejam crescidas e solidamente presas, de medo de ter a sorte de ícaro.
Revista Espírita

08/1865
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Otaviano Lage em 01 de Agosto de 2015, 16:20
Prezao senhor Moisés,
parabéns por essa iniciativa de nos brindar a todos, foristas, com a leitura, ou releitura em alguns casos, desse texto magnífico de Allan Kardec. É sempre bom recordar o que está dito nos clássicos doutrinários.
Explicarei melhor e procurando ser bastante objetivo. No meu entender, a Doutrina Espírita  está codificada nos cinco livros essenciais - alguns preferem chamar de básicos - elaborados por Allan Kardec, a partir da orientação e permissão da Espiritualidade Superior. Gravitam em torno desse Pentateuco Doutrinário uma série outros textos trabalhados por Allan Kardec como O que é o Espiritismo, Revista Espírita de 1858 a 1869, O Aprendiz Espírita, O Espiritismo em sua mais simples expressão, Viagem Espírita em 1862, entre outros, nos quais o Codificador como que arredonda os ensinamentos doutrinários. A esses textos kardecianos, não propriamente inscritos como parte da Codificação, eu os chamo de Clássicos. Facilitam ainda mais o nosso entendimento sobre a Doutrina.
Na sequência, coloco aqueles que vejo como continuadores da obra kardeciana: Leon Denis, Gabriel Delanne e Bozzano, na Europa, e J. Herculano Pires, Deolindo Amorim e Hermínio C. Miranda, no Brasil.
Mais uma vez obrigado por sua feliz iniciativa.
Saúde e paz.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 01 de Agosto de 2015, 17:57
Obrigado Otaviano
pelas suas palavras

Tenho sim intenção de compartilhar mais textos
da Revista Espírita
me inspirei em videos que estou ouvindo no you tube com o mesmo titulo

E gostei de suas colocações
a respeito de tantas outras obras
que são páginas e páginas
que devemos apreciar
para o entendimento das obras de essência
para não dizer que todas são de excelência

Valeu mesmo
estava aguardando um incentivo
e o veio de grande brilho

Abraços

Ps.

Aliás já corrigi o titulo
rs
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 02 de Agosto de 2015, 16:33
Cura pela magnetização espiritual


Revista Espírita, setembro de 1865


Sem dúvida os leitores se lembram do caso de uma cura quase instantânea de um entorse, operada pelo Espírito do Dr. Demeure, poucos dias após a sua morte e que relatamos na Revista de março último, como a descrição da cena tocante ocorrida na ocasião. Esse excelente Espírito vem ainda assinalar a sua boa vontade, por uma cura ainda mais maravilhosa, na mesma pessoa.

Eis o que nos escrevem de Montauban, a 14 de julho último:

"O Espírito do Dr. Demeure acaba de dar-nos uma prova de suta solicitude e de seu profundo saber. Eis em que ocasião. Na manhã de 26 de maio último, a Sra. Maurel, nosso médium vidente e escrevente mecânico, deu uma queda desastrosa e quebrou o ante-braço, um pouco abaixo do cotovelo. A fratura complicada por distensões no punho e no cotovelo, estava bem caracterizada pela crepitação dos ossos e inchação, que são os sinais mais certos.

Sob a impressão da primeira emoção produzida pelo acontecimento, os pais da Sra. Maurel iam procurar o primeiro médico que aparecesse quando esta, retendo-os, tomou de um lápis e escreveu mediunicamente, com a mão esquerda: "Não procureis um médico; eu me encarrego disto. Demeure". Então esperaram com confiança.

Conforme as indicações do Espírito, faixas e um aparelho foram imediatamente confeccionados e colocados. Em seguida foi feita uma magnetização espiritual praticada pelos bons Espíritos que, provisoriamente, ordenaram repouso.

Na noite do mesmo dia, alguns adeptos, convocados pelos Espíritos, reuniram-se em casa da Sra. Maurel que, adormecida por um médium magnetizador, não demorou a entrar em sonambulismo. Então o Dr. Demeure continuou o tratamento que havia iniciado pela manhã, agindo mecanicamente sobre o braço fraturado, já sem outro recurso aparente além de sua mão esquerda, nossa doente tinha tirado rápido o primeiro aparelho, deixando apenas as faixas, quando se viu insensivelmente e sob a influência da atração magnética, o membro tomar diversas posições, próprias para facilitar a redução da fratura. Parecia, então ser objeta de toques inteligentes, sobretudo no ponto onde devia operar-se a soldadura dos ossos; depois se alongava, sob a ação de trações longitudinais.

Após alguns instantes dessa magnetização espiritual, a Sra. Maurel procedeu sozinha, à consolidação das faixas e a uma nova aplicação do aparelho, consistente de duas tabuinhas ligadas entre si e ao braço por meio de uma correia. Tudo, pois, se havia passado como se um hábil cirurgião tivesse, ele próprio, operado visivelmente. E, coisa curiosa, ouvia-se durante o trabalho as palavras que, em suador, se escapavam da boca da paciente: "Não aperte tanto!... Vós me maltratais!... ". Ela via o Espírito do doutor é era a ele que se dirigia, suplicando poupar sua sensibilidade. Era, pois, um ser invisível para todos, exceto para ela, que lhe fazia apertar o braço, servindo-se inconscientemente de sua própria mão esquerda.

Qual o papel do médium magnetizador durante esse trabalho? Aos nossos olhos parecia inativo; com a mão direita apoiada na espádua da sonâmbula, contribuía com sua parte para o fenômeno, pela emissão de fluidos necessários à sua realização.

Na noite de 27 para 28, tendo a Sra. Maurel desarranjado o braço, em conseqüência de uma posição falsa, tomada durante o sono, declarou-se uma febre alta, pela primeira vez. Era urgente remediar esse estado de coisas. Assim reuniram-se novamente no dia 28 e, uma vez declarado o sonambulismo foi formada a cadeia magnética, a pedido dos bons Espíritos. Após diversos passes e manipulações, em tudo como as acima descritas, o braço foi recolocado em bom estado, não sem ter a pobre senhora experimentado dores muito cruéis. Apesar do novo incidente, o membro já se ressentia do efeito salutar produzido pelas magnetizações anteriores.

O que se segue alias o prova. Momentaneamente desembaraçado das tabuinhas, repousava sobre almofadas, quando de repente se levantou alguns centímetros em posição horizontal e dirigido suavemente para a esquerda e para a direita; depois baixou obliquamente e foi submetido a uma nova tração. A seguir os Espíritos se puseram a girá-lo e tornar a girá-lo em todos os sentidos e de vez em quando, fazendo trabalhar direito as articulações do cotovelo e do punho. Tais movimentos automáticos imprimidos a um braço fraturado inerte, contrários a todas as leis conhecidas da gravidade e da mecânica, só podiam ser atribuídos à ação fluídica. Se não tivesse havido a certeza da existência dessa fratura, bem como os gritos dilacerantes dessa pobre senhora, confesso que teria tido muita dificuldade em admitir o fato, um dos mais curiosos que a ciência possa registrar. Assim, posso dizer, com toda a sinceridade, que me sinto feliz por ter testemunhado semelhante fenômeno.

Nos dias 29, 30, 31 e seguintes as magnetizações espirituais sucessivas, acompanhadas de manipulações variadas de mil maneiras trouxeram sua sensível melhora no estado geral de nossa doente. Diariamente o braço adquiria novas forças. Sobretudo o dia 31 deve ser assinalado, como marcando o primeiro passo para a convalescença. Naquela noite dois Espíritos, que se faziam notar pelo brilho de sua radiação, assistiam ao nosso amigo Demeure. Pareciam dar-lhe conselhos, que este se apressava em por em prática. Um deles, até, de vez em quando se punha à obra e, por sua suave influência; produzia sempre um alívio instantâneo. Pelo fim da noite as tabuinhas foram definitivamente abandonadas e ficaram só as faixas, para sustentar o braço e mantê-lo em determinada posições.

Devo acrescentar que, além disso, um aparelho de suspensão vinha aumentar a solidez do enfaixamento. Assim, no sexto dia após o acidente e, mau grado a recaída sobrevinda a 27, a fratura estava em tal via de cura, que o emprego dos meios usados pelos médicos durante trinta ou quarenta dias, tinha se tornado inútil. A 4 de junho, dia fixado pelos bons Espíritos para a redução da fratura complicada de distensões, reunimo-nos à noite. A Sra. Maurel, apenas em sonambulismo, pôs-se a desenrolar as faixas, ainda enroladas no braço, imprimindo-lhe um movimento de rotação tão rápido que dificilmente o olho seguia os contornos da curva descrita. A partir desse momento, servira-se do braço como habitualmente. Estava curada.

No fim da sessão houve uma cena tocante, que merece ser relatada. Os bons Espíritos, em número de trinta, no começo formavam urna cadeia magnética, paralela à que nós próprios formávamos. Tendo-se levantado, a Sra. Maurel, pela mão direita, punha-se em comunicação direta, sucessivamente, com cada dois Espíritos, colocada no interior das duas cadeias, recebia a ação benéfica da dupla corrente fluídica enérgica. Radiosa de satisfação, aproveitava a ocasião para agradecer com efusão o poderoso concurso que tinham prestado 1a sua cura. Por sua vez, recebia encorajamento a perseverar no bem. Terminado isto, ela experimentou suas forças de mil modos; apresentando o braço aos assistentes, fazia-os tocar nas cicatrizes da soldadura dos ossos; apertava-lhes a mão com força, indicando com alegria a cura operada pelos bons Espíritos. Ao despertar, vendo-se livre em todos os movimentos, desfaleceu, dominada por profunda emoção!..."
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 02 de Agosto de 2015, 16:33
Quando se foi testemunha de tais fatos não se pode deixar de os proclamar alto e bom som, pois merecem atrair a atenção da gente séria.

Porque, então no mundo inteligente se encontra tanta resistência em admitir a influência do Espírito sobre a matéria? Porque se encontram pessoas que crêem na existência e na individualidade do Espírito, mas lhes recusam a possibilidade de se manifestar? É porque não se dão conta das faculdades físicas do Espírito, que se lhes afigura imaterial de maneira absoluta.

Ao contrário, a experiência demonstra que, por sua própria natureza, ele age diretamente sobre os fluidos imponderáveis e, por consequinte, sobre os fluidos ponderáveis, e mesmo sobre os corpos tangíveis.

Como procede um magnetizador ordinário? Suponhamos que queira agir, por exemplo, sobre um braço. Concentra sua atenção sobre esse membro e, por um simples movimento dos dedos, executado à distância e em todos os sentidos, agindo absolutamente como se o contato da mão fosse real, dirige uma corrente fluídica sobre o ponto desejado. O Espírito não age diversamente. Sua ação fluídica se transmite de perispírito a perispírito, e deste ao corpo material. O estado de sonambulismo facilita consideravelmente essa ação graças ao desprendimento do perispírito, que melhor se identifica com a natureza fluídica do Espírito, e sofre, então, a influência magnética espiritual, elevada ao seu maior poder.

Toda a cidade ocupou-se desta cura, obtida sem auxílio da ciência oficial, e cada um dá o seu palpite. Uns pretenderam que o braço não se tinha quebrado; mas a fratura tinha sido bem e devidamente constatada por numerosas testemunhas oculares, entre outras o Dr. D., visitou a doente durante o tratamento. Outros disseram: "E muito surpreendente!" e pararam nisto.

Inútil acrescentar que alguns afirmavam que a Sra. Maurel tinha sido curada pelo diabo. Se ela não estiverem entre mãos profanas, nisso teriam visto um milagre. Para os espíritas, que se dão conta do fenômeno, aí vêem muito simplesmente a ação de uma força natural, até agora desconhecida, e que o Espiritismo veio revelar aos homens.

Observações: Se há fatos espíritas que, até certo ponto, poderiam ser atribuídos à imaginação, como, por exemplo, os das visões, neste já não seria o mesmo. A Sra. Maurel não sonhou que tivesse quebrado o braço, como não sonharam diversas pessoas que acompanharam o tratamento; as dores que sentia não eram alucinação; sua cura em oito dias não é uma ilusão, pois se serve de seu braço, o fato que no estado atual dos conhecimentos, parece impossível. Mas não foi assim sempre que se revelaram novas leis? É a rapidez da cura que vos espanta? Mas não terá a medicina descoberto inúmeros agentes mais ativos do que os que conhecia para apressar certas curas? Nos últimos tempos não foram achados meios de cicatrizar certas feridas quase que instantaneamente? Não se encontrou o de ativar a vegetação e a frutificação? Porque não se poderia ter um para ativar a soldagem dos ossos? Então conheceis todos os agentes da natureza? Deus não tem mais segredos para vós? Não há mais lógica em negar hoje a possibilidade de uma cura rápida do que havia, no século passado, de negar a possibilidade de fazer nalgumas horas o caminho que se levaram dez dias para percorrer. Direis que este meio não está no codex; é verdade; mas antes que a vacina nele fosse inscrita, seu inventor não foi tratado como louco? Os remédios homeopáticos também lá não se acham, o que não impede que os médicos homeopatas se encontrem em toda a parte e curem. Aliás, como aqui não se trata de uma preparação farmacêutica, é mais provável que esse meio de cura não figure por muito tempo na ciência oficial.

Dirão, porém, se os médicos vem exercer sua arte depois de mortos, querem fazer concorrência aos médicos vivos; é bem possível; entretanto, que estes últimos se garantam; s eles lhes arrancam algumas praticas, não é para os suplantar, mas para lhes provar que não estão absolutamente mortos, e lhes oferecer o concurso desinteressado aos que quiserem aceitá-lo. Para melhor faze-los compreender, mostram-lhes que, em certas circunstâncias, pode-se passar sem eles. Sempre houve médicos e os haverá sempre; apenas os que aproveitarem as novidades que lhes trouxerem os desencarnados terão uma grande vantagem sobre os que ficarem para trás. Os Espíritos vem ajudar o desenvolvimento da ciência humana, e não suprimi-la.

Na cura da Sra. Maurel, um fato que surpreenderá, talvez, ainda mais que a rápida soldura dos ossos, é o movimento do braço fraturado, que parece contrário a todas as leis conhecidas da dinâmica e da gravidade. Contrário ou não, o fato aí está; desde que existe, tem uma causa; desde que se renova, está submetido a uma lei. Ora, essa lei que o Espiritismo nos vem dar a conhecer pelas propriedades dos fluidos perispiritais. Aquele braço que, submetido só às leis da gravidade, não podia erguer-se, suponde-o mergulhado num líquido de uma densidade muito maior que a do ar, fraturado como está, uma vez sustido por esse liquido que lhe diminui o peso, poderá aí mover-se sem esforço, e até erguido som o menos esforço. É assim que num banho, o braço que parece muito pesado fora da água, parece muito leve dentro da água. Substitui o liquido por um fluido que goze das mesmas propriedades e tereis o que se passa no caso presente, fenômeno que repousa no mesmo princípio que o das mesas e das pessoas que se mantém no espaço sem ponto de apoio. Esse fluido é o fluido perispirital, que o Espírito dirige à vontade, e cujas propriedades modifica pela simples ação da vontade. Na circunst6ancia presente, deve-se, pois, imaginar o braço da Sra. Maurel mergulhado num meio fluido que produz o efeito do ar sobre os balões.

Alguém perguntava, a respeito, se na cura dessa fratura, o Espírito do Dr. Demeure teria agido com ou sem concurso da eletricidade e do calor. A isto respondemos que a cura foi produzida, no caso, como em todos os casos de cura pela magnetização espiritual, pela ação do fluido emanado do Espírito; que esse fluido, posto que etéreo, não deixa de ser matéria; que pela corrente que lhe imprime, o Espírito pode com ele impregnar e saturar todas as moléculas da parte doente; que pode modificar suas propriedade, como o magnetizador modifica as da água, dando-lhe uma virtude curativa às necessidades; que a energia da corrente está na razão do número, da qualidade e da homogeneidade dos elementos que constituem a corrente das pessoas chamadas a fornecer seu contingente fluídico. Essa corrente provavelmente ativa a secreção que deve produzir a soldadura dos ossos e assim produz a cura mais rápida do que quando entregue a si mesma.

Agora a eletricidade e o calor representam um papel no fenômeno? Isto é tanto mais provável quanto o Espírito não curou por milagre, mas por uma aplicação mais judiciosa das leis da natureza, em razão de sua clarividência. Se, como a ciência, é levada a admitir, a eletricidade e o calor não são fluidos especiais, mas modificações ou propriedades de um fluido elementar universal, devem fazer parte dos elementos constitutivos do fluido perispirital. Sua ação, no caso vertente, está implicitamente compreendida, absolutamente como quando se bebe vinho, necessariamente se bebe água e álcool.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 03 de Agosto de 2015, 20:41
Descobrindo a Revista Espírita

      Ref msg inicial em: 01 08 15, 00:00 de Moisés

      A todos os amigos:

      “Temos sim de raciocinar muito para entender a doutrina, para ter uma "fé raciocina"!

      Moisés disse: é incontestável que o Espiritismo tem muito a nos ensinar...

      Conf: e quais são, amigo Moisés, os obstáculos que Deus coloca em nosso caminho e que nos impedem de aprender o que os ensinamentos de Jesus nos trouxeram há mais de dois mil anos, e os que a codificação trouxe desde século e meio atrás?

      Qual destas abaixo será a resposta para essa pergunta?:

      - fomos criados por Deus totalmente desequilibrados mentais, ou tão absolutamente ignorantes?

      - não queremos aprender como nos livrar desses obstáculos, que o cristianismo e a DE afirmam que devemos nos livrar?

      - é o aprendizado que a escola do bem e do mal, que a vida nos proporciona, que nos impede de aprender?

      - ou oque é?!

      - Seremos todos nós, criaturas Daquele que é Perfeição e Sabedoria, tão imperfeitos e tão vazios de sabedoria e de inteligência e de desejo de nos melhorarmos e de, em consequência, ser mais felizes? Não queremos ser felizes?!

      - Porq é que, nossas escolhas são tantas vezes direcionadas para trazer as mais extremas infelicidades para nós mesmos? Qual será a resposta?

      Moisés:... É precisamente para dar aos homens o tempo de assimilar, de aplicar e de vulgarizar o que sabem, que a Providência põe um tempo de parada na marcha para a frente.

      Conf: se é assim, e se, certamente, sofremos qdo atrasamos nossa caminhada em direção àquela bem-aventurança prometida por Jesus, qual é a causa desse sofrimento se a DE ensina que todos eles, dos menos intensos aos mais desesperadores, têm uma única explicação: o fato de “transgredirmos” as leis de Deus?!

      Moisés:... se o espírito não assimilou lições anteriores, as que se quer nele implantar não tomam raiz; semeia-se no vazio.

      Conf: aqui tenho de perguntar: se a justiça divina é perfeita, qual é a causa de uns espíritos assimilarem as lições anteriores e outros não? Onde é que podemos encontrar resposta para esta pergunta?

      Moisés: Ocorre o mesmo com relação ao Espiritismo. Os adeptos aproveitaram de tal modo o que ele ensinou até este dia, que nada tenham mais a fazer? São de tal modo caridosos, desprovidos de orgulho, desinteressados, benevolentes para os seus semelhantes; de tal modo moderaram suas paixões, abjuraram o ódio, a inveja e o ciúme; enfim, são de tal modo perfeitos que seja doravante supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, em uma palavra, a moral?...

      Conf: pois é! Essa é uma pergunta que sempre faço:

      - porq não aproveitamos o que ele ensinou?!!

      - Porq é que continuamos tão monstruosamente imperfeitos como o mundo mostra que somos?

      - E se o espiritismo tende para regeneração da humanidade, porq tantos não seguem suas lições e porq tantos, mesmo tentando segui-las, não as seguem como a lei de Deus determina? Porq erram tanto?!

      E, aproveitando a “deixa”: porq a humanidade precisa ser “regenerada”? O que foi que a deformou, desestruturou, desorganizou??

      Moisés: ora, esta regeneração não podendo se operar senão pelo progresso moral, disto resulta que seu objetivo essencial, providencial, é a melhoria de cada um...

      Conf: e porq é que tantas vezes trabalhamos exatamente pra impedir, ou dificultar, nossa melhora? Os espíritos, nós, trabalhamos contra nós mesmos?" Nos esforçamos para ludibriar as leis de Deus, para sermos vítimas dos terríveis e desesperadores sofrimentos que nos vêm pelo fato de, com nosso insignificante poder, desafiarmos aquele é o próprio Todo Poder?!!

      Moisés:... não seríamos mais avançados para o nosso estado futuro, se não fôssemos melhores.

      Conf: e porq não nos tornamos melhores? Não temos todos condições para sermos melhores?!

      Moisés: Deus não pede o que se sabe nem p que se possui, mas o que se vale e o que se terá feito de bem... É, pois, à sua melhoria individual que todo espírita sincero deve trabalhar antes de tudo.

      Conf: mas, se é assim, porq é que tantos de nós trabalham exatamente para não se melhorarem? Porq não trabalhamos o necessário para fazer o bem? O que nos impede de fazer isso?

      Moisés: Só aquele que domou seus maus pendores, realmente tem aproveitado do Espiritismo e disso reserva a recompensa; é por isto que os bons Espíritos, por ordem de Deus, multiplicam suas instruções e as repetem à saciedade; só um orgulho insensato pode dizer: delas não tenho mais necessidade.

      Conf: mas o que é que nos impede de domar nossos maus pendores se temos o livre-arbítrio e, com ele, podemos fazer só escolhas corretas, sensatas?

      Sem dúvida, a DE esta absolutamente certa ao nos mandar raciocinar sobre ela, a ter uma "fé raciocinada"!! Se não raciocinarmos não vamos poder entendê-la!!!
...........
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Agosto de 2015, 13:02
Controle Universal dos Espíritos

Revista Espírita, abril de 1864

Já abordamos esta questão em nosso ultimo número, a propósito de um artigo especial – da perfeição dos seres criados. Mas ela é de tal importância, tem conseqüências de tal magnitude para o futuro do Espiritismo, que julgamos dever tratá-lo de modo mais completo.

Se a Doutrina Espírita fosse uma concepção puramente humana, não teria como garantia senão as luzes de quem a tivesse concebida. Ora, ninguém aqui poderia ter a pretensão fundada de possuir, ele só, a verdade absoluta. Se os Espíritos que a revelaram se tivessem manifestado a um só homem, nada garantiria a sua origem, pois seria preciso crer sob palavra naquele que dissesse ter recebido seu ensino. Admitindo de sua parte uma perfeita sinceridade, ao menos poderia convencer as pessoas de seu ambiente. Poderia ter sectários, mas não conseguiria jamais atrair todo o mundo.

Quis Deus que a nova revelação chegasse aos homens por uma via mais rápida e mais autêntica. Eis por que encarregou os Espíritos de a levar de um a outro polo, manifestando-se por toda parte, sem dar a ninguém o privilégio exclusivo de ouvir a sua palavra. Um homem pode ser enganado, pode mesmo enganar-se. Assim não poderia ser quando milhões de homens vêem e ouvem a mesma coisa: é uma garantia para cada um e para todos. Aliás pode fazer-se um homem desaparecer, mas não desaparecem as massas. Podem queimar-se os livros, mas não os Espíritos. Ora, se queimassem todos os livros, a fonte da doutrina não seria emudecida, por isso que não está na terra: surge por toda a parte e cada um pode aproveitá-la. Em falta de homens para a espalhar, haverá sempre Espíritos que atingem todo o mundo e ninguém os pode atingir.

Na realidade, são os próprios Espíritos que fazem a propaganda, auxiliados por inumeráveis médiuns que suscitam por todos os lados. Se tivessem tido um intérprete único, por mais favorecido que fosse, o Espiritismo seria apenas conhecido. Esse mesmo intérprete, fosse de que classe fosse, teria sido objeto de prevenções por parte de muita gente. Nem todas as nações o teriam aceitado, ao passo que os Espíritos se comunicam por toda a parte, a todos os povos, a todas as seitas e partidos, sendo aceitos por todos. O Espiritismo não tem nacionalidade. Está por fora de todos os cultos particulares, não é imposto por nenhuma classe da sociedade, pois cada um pode receber instruções de parentes e amigos de além túmulo. Era preciso que assim fosse, para que pudesse chamar todos os homens à fraternidade. Se, não tivesse colocado em terreno neutro, teria mantido dissenções, em vez de as apaziguar.

Essa universalidade do ensino dos Espíritos constitui a força do Espiritismo. Aí, também, está a causa de sua propagação tão rápida. Ao passo que a voz de um só homem, mesmo com o auxílio da imprensa, teria levado séculos antes de chegar a todos os ouvidos, eis que milhares de vozes se fazem ouvir simultaneamente em todos os pontos da terra, para proclamar os mesmos princípios, e os transmitir aos mais ignorantes, como aos mais sábios, a fim de que ninguém fique deserdado. É uma vantagem de que não gozou nenhuma das doutrinas até hoje aparecidas. Se, pois, o Espiritismo é uma verdade, nem teme a má vontade dos homens, nem as revoluções morais, nem os desmoronamentos físicos do globo, porque nenhuma dessas coisas podem atingir os Espíritos.

Mas se não é a única vantagem resultante desta posição excepcional, o Espiritismo aí encontra uma onipotente garantia contra os cismas que poderiam suscitar, pela ambição de uns, ou pelas contradições de certos Espíritas. Seguramente essas contradições são com escolho, mas que leva em si o remédio ao lado do mal.

Sabe-se que os Espíritos, por força da diferença existente em suas capacidades, estão longe de estar individualmente na posse de toda a verdade; que nem a todos é dado penetrar certos mistérios; que seu saber é proporcional à sua depuração; que os Espíritos vulgares não sabem mais que os homens e até menos que certos homens; que entre eles, como entre estes, há presunçosos e pseudo-sábios, que crêem saber o que não sabem, sistemáticos que tomam suas verdades; enfim, que os Espíritos de ordem mais elevada, os que estão completamente desmaterializados, são os únicos despojados das idéias e preconceitos terrenos. Mas sabe-se, também, que os Espíritos enganadores não tem escrúpulo em esconder-se sob nomes de empréstimo, para fazerem aceitas as suas utopias. Disso resulta que, para tudo quanto esteja fora do ensino exclusivamente moral, as revelações que cada um pode obter tem um caráter individual sem autenticidade. Que devem ser consideradas como opinião pessoais de tal ou qual Espírito, e que seria imprudente aceitá-las e promulgá-las levianamente como verdades absolutas.

O primeiro controle é, sem sombra de dúvida, o da razão, à qual é preciso submeter, sem exceção, tudo quanto vem dos Espíritos. Toda teoria em manifesta contradição com o bom senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos que se possuem, por mais respeitável que seja a sua assinatura, deve ser rejeitada. Mas esse controle é incompleto em muitos casos, por força da insuficiência das luzes de certas pessoas e da tendência de muitos a tomar seu próprio julgamento por único árbitro da verdade. Em tal caso, que fazem os homens que não tem absoluta confiança em si próprios? Seguem a opinião do maior número e a opinião da maioria é o seu guia. Assim deve ser a respeito do ensino dos Espíritos, que nos fornecem, eles próprios, os seus meios.

A concordância no ensino dos Espíritos é, pois, o melhor controle, mas ainda é preciso que ocorra em certas condições. A menos segura de todas é quando um médium interroga, ele próprio, a vários Espíritos sobre um ponto duvidoso. É evidente que se estiver sob o império de uma obsessão e se tratar com um Espírito enganador, este lhe pode dizer a mesma coisa com nomes diversos. Também não há garantia suficiente na conformidade obtida pelo médiuns de um mesmo centro, pois podem sofrer a mesma influência. A única séria garantia está na concordância que exista entre as revelações espontâneas, feitas por grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em diversas regiões. Compreende-se que aqui não se trata de comunicações relativas a interesses secundários, mas do que se liga aos princípios da mesmos da doutrina.

Prova a experiência que quando um princípio novo deve ter a sua solução, é ensinado espontaneamente em diversos ponto ao mesmo tempo e de maneira, senão na forma, ao menos no fundo. Se, pois, a um Espírito agrada formular um sistema excêntrico, baseado em suas próprias idéias e fora da verdade, podemos estar certos que o sistema ficará circunscrito e cairá ante a humanidade das instruções dadas por toda a parte, como já houve vários exemplos. É essa unanimidade que faz caírem todos os sistemas parciais, nascidos na origem do Espiritismo, quando cada um explicava os fenômenos à sua maneira e antes que fossem conhecidas as leis que regem as relações entre o mundo visível e o invisível.

Tal a base em que nos apoiamos quando formulamos um princípio da doutrina. Não o damos como verdadeiro por ser conforme as nossas idéias; não nos colocamos absolutamente como árbitro supremo da verdade e a ninguém dizemos: "Crede nisto porque o dizemos". Nossa opinião, aos nossos olhos, não passa de opinião pessoal, que pode ser justa ou falsa, desde que não somos mais infalível que qualquer outro. Também não é porque um princípio nos é ensinado que para nós é a verdade, mas porque recebeu a sanção da concordância.

Esse controle universal é uma garantia para a futura unidade do Espiritismo e anulará todas as teorias contraditórias. É aí que, no futuro, será procurado o critério da verdade. O que fez o sucesso da doutrina formulada no Livro dos Espíritos e no Livro dos Médiuns é que por toda parte cada um pode receber dos Espíritos, diretamente, a confirmação do que eles encerram. Se, de todos os lados, os Espíritos tivessem vindo contradize-los, de há muito esses livros teriam tido a sorte de todas as concepções fantásticas. O próprio apoio da imprensa não os teria salvo do naufrágio, ao passo que, privados desse apoio, nem por isto deixaram de fazer um caminho rápido, porque tiveram o dos Espíritos, cuja boa vontade compensou com sobra a má vontade dos homens. Assim será com todas as idéias emanadas dos Espíritos ou dos homens que não puderem suportar a prova do controle, cujo poder ninguém poderá contestar.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Agosto de 2015, 13:02
Suponhamos, pois, que apraza a certos Espíritos ditar, sob um título qualquer, um livro em sentido contrário. Suponhamos mesmo que, numa intenção hostil, e visando desacreditar a doutrina, a malevolência suscitasse comunicações apócrifas. Que influência poderiam ter esses escritos, se são desmentidos de todos os lados pelos Espíritos? É da adesão destes últimos que seria necessário assegurar-se, antes de lançar um sistema em seu nome. Do sistema de um só ao de todos há uma distância da unidade ao infinito. Que podem mesmo todos os argumentos dos detratores sobre a opinião das massas, quando milhão de vozes amigas, partidas do espaço, vem de todos os pontos do globo e no seio de cada família, os bater na brecha? Sob esse ponto a experiência já não confirmou a teoria? Em que se tornaram todas as publicações que se diziam vir aniquilar o Espiritismo? Qual a que lhe deteve a marcha? Até hoje a questão não tinha sido encarada sob este ponto de vista, sem dúvida um dos mais sérios. Cada um contou consigo, mas não com os Espíritos.

Ressalta de tudo isto uma verdade capital: é que quem quer que quisesse atravessar-se contra a corrente das idéias estabelecidas e sancionadas, poderia bem causar uma pequena perturbação local e momentânea, mas nunca dominar o conjunto, mesmo no presente e, ainda menos, no futuro.

Ressalta, ainda, que as instruções dadas pelos Espíritos sobre pontos da doutrina ainda não elucidados, não poderia constituir lei, enquanto ficassem isoladas. Consequentemente, não devem ser aceitas senão com todas as reservas e a título de informação.

Daí a necessidade de dar à sua publicação a maior prudência. E, no caso se julgasse dever publicá-las, importa não as apresentar senão como opiniões individuais, mais ou menos prováveis, mas tendo, em todo o caso, necessidade de confirmação. É essa confirmação que se deve esperar, antes de apresentar um princípio como verdade absoluta, se não quiser ser acusado de leviandade ou de irrefletida credulidade.

Em suas revelações, os Espíritos superiores procedem com extrema sabedoria. Só gradativamente abordam as grandes questões da doutrina, à medida que a inteligência se torna apta a compreender verdades de uma ordem mais elevada, e que circunstâncias propícias para a emissão de uma idéia nova. Eis porque, desde o começo, não disseram tudo e ainda hoje não o disseram, jamais cedendo à impaciência de criaturas muito apressadas, que querem colher os frutos antes de sua maturidade. Seria, pois, supérfluo querer precipitar o tempo marcado a cada coisa pela Providência, porque então os Espíritos realmente sérios positivamente recusam o seu concurso; mas os Espíritos levianos, pouco se incomodando com a verdade, a tudo respondem. É por isso que, sobre todas as questões prematuras, sempre há respostas contraditórias.

Os princípios acima não são fruto de uma teoria pessoal, mas a conseqüência forçosa das condições em que se manifestam os Espíritos. É evidente que se um Espírito diz uma coisa de um lado, enquanto milhões dizem o contrário alhures, a presunção de verdade não pode estar com aquele que é o único ou mais ou menos de sua opinião. Ora, pretender ser o único a ter razão contra todos seria tão ilógico da parte de um Espírito quanto da parte de um homem. Os Espíritos verdadeiramente sábios, se não se sentem suficientemente esclarecidos sobre uma questão, jamais a resolvem de maneira absoluta. Declaram não a tratar senão de seu ponto de vista, e aconselham mesmo a esperar-se a sua confirmação.

Por mais bela, justa e grande que seja uma idéia, é impossível que, desde o começo, alie todas as opiniões. Os conflitos daí resultantes são conseqüência inevitável do movimento que se opera. São mesmo necessários para melhor destacar a verdade, e é útil que ocorram no começo, para que as idéias falsas sejam mais prontamente desgastadas. Os espíritas que concebessem alguns temores devem, pois, ficar perfeitamente seguros. Todas as pretensões isoladas cairão pela força das coisas, ante o grande e poderoso critérium de controle universal. Não é à opinião de um homem que se aliarão, é a voz unânime dos Espíritos. Não é um homem, nem nós mais que outro, que fundará a ortodoxia espírita; também não é um Espírito vindo impor-se a quem quer que seja: é a universalidade dos Espíritos, comunicando-se em toda a terra, por ordem de Deus. Aí está o caráter essencial da doutrina espírita. Aí está a sua força e a sua autoridade. Deus quis que a sua lei se assentasse numa base inabalável, e, por isso, não a assentou sobre a cabeça frágil de um só.

É perante esse poderoso areópago, que nem conhece grupelhos, nem as rivalidades invejosas, nem seitas ou nações, que virão quebrar-se todas as oposições, todas as ambições, todas as pretensões à supremacia individual; que nós mesmos nos quebraríamos se quiséssemos substituir os seus soberanos desígnios por nossas próprias idéias; ele é o único que resolverá todas as questões litigiosas, que fará calarem-se as dissidências e dará ou não razão a quem de direito. Ante esse imponente acordo de todas as vozes do céu, que pode a opinião de um homem ou de um Espírito? Menos que a gota d’água que se perde no oceano, menos que a voz da criança, abafada pela tempestade.

A opinião universal, eis, então, o juiz supremo, o que se pronuncia em última instância. Ela se forma de todas as opiniões individuais. Se uma delas for verdadeira, terá apenas o seu peso relativo na balança. Se for falsa, não pode triunfar sobre todas as outras. Neste imenso concurso os indivíduos se apagam, e aí está um novo cheque para o orgulho humano.

Esse conjunto harmonioso já se desenha. Ora, este século não passará sem que resplandeça em todo o seu brilho, de maneira a fixar todas as incertezas. Porque, daqui para a frente vozes poderosas terão recebido a missão de se fazer ouvir para aliar os homens sob a mesma bandeira, desde que o campo seja suficientemente trabalhado. Enquanto espera, aquele que flutuasse entre dois sistemas opostos, pode observar em que sentido se forma a opinião geral; é o índice certo do sentido no qual se pronuncia a maioria dos Espíritos sobre os diversos pontos em que se comunicam. É um sinal não menos certo de qual dos dois sistemas triunfará.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Agosto de 2015, 13:22
Descobrindo a Revista Espírita

      Ref msg inicial em: 01 08 15, 00:00 de Moisés

      A todos os amigos:

      “Temos sim de raciocinar muito para entender a doutrina, para ter uma "fé raciocina"!

      Moisés disse: é incontestável que o Espiritismo tem muito a nos ensinar...

      Conf: e quais são, amigo Moisés, os obstáculos que Deus coloca em nosso caminho e que nos impedem de aprender o que os ensinamentos de Jesus nos trouxeram há mais de dois mil anos, e os que a codificação trouxe desde século e meio atrás?

      Qual destas abaixo será a resposta para essa pergunta?:

      - fomos criados por Deus totalmente desequilibrados mentais, ou tão absolutamente ignorantes?

      - não queremos aprender como nos livrar desses obstáculos, que o cristianismo e a DE afirmam que devemos nos livrar?

      - é o aprendizado que a escola do bem e do mal, que a vida nos proporciona, que nos impede de aprender?

      - ou oque é?!

      - Seremos todos nós, criaturas Daquele que é Perfeição e Sabedoria, tão imperfeitos e tão vazios de sabedoria e de inteligência e de desejo de nos melhorarmos e de, em consequência, ser mais felizes? Não queremos ser felizes?!

      - Porq é que, nossas escolhas são tantas vezes direcionadas para trazer as mais extremas infelicidades para nós mesmos? Qual será a resposta?

      Moisés:... É precisamente para dar aos homens o tempo de assimilar, de aplicar e de vulgarizar o que sabem, que a Providência põe um tempo de parada na marcha para a frente.

      Conf: se é assim, e se, certamente, sofremos qdo atrasamos nossa caminhada em direção àquela bem-aventurança prometida por Jesus, qual é a causa desse sofrimento se a DE ensina que todos eles, dos menos intensos aos mais desesperadores, têm uma única explicação: o fato de “transgredirmos” as leis de Deus?!

      Moisés:... se o espírito não assimilou lições anteriores, as que se quer nele implantar não tomam raiz; semeia-se no vazio.

      Conf: aqui tenho de perguntar: se a justiça divina é perfeita, qual é a causa de uns espíritos assimilarem as lições anteriores e outros não? Onde é que podemos encontrar resposta para esta pergunta?

      Moisés: Ocorre o mesmo com relação ao Espiritismo. Os adeptos aproveitaram de tal modo o que ele ensinou até este dia, que nada tenham mais a fazer? São de tal modo caridosos, desprovidos de orgulho, desinteressados, benevolentes para os seus semelhantes; de tal modo moderaram suas paixões, abjuraram o ódio, a inveja e o ciúme; enfim, são de tal modo perfeitos que seja doravante supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, em uma palavra, a moral?...

      Conf: pois é! Essa é uma pergunta que sempre faço:

      - porq não aproveitamos o que ele ensinou?!!

      - Porq é que continuamos tão monstruosamente imperfeitos como o mundo mostra que somos?

      - E se o espiritismo tende para regeneração da humanidade, porq tantos não seguem suas lições e porq tantos, mesmo tentando segui-las, não as seguem como a lei de Deus determina? Porq erram tanto?!

      E, aproveitando a “deixa”: porq a humanidade precisa ser “regenerada”? O que foi que a deformou, desestruturou, desorganizou??

      Moisés: ora, esta regeneração não podendo se operar senão pelo progresso moral, disto resulta que seu objetivo essencial, providencial, é a melhoria de cada um...

      Conf: e porq é que tantas vezes trabalhamos exatamente pra impedir, ou dificultar, nossa melhora? Os espíritos, nós, trabalhamos contra nós mesmos?" Nos esforçamos para ludibriar as leis de Deus, para sermos vítimas dos terríveis e desesperadores sofrimentos que nos vêm pelo fato de, com nosso insignificante poder, desafiarmos aquele é o próprio Todo Poder?!!

      Moisés:... não seríamos mais avançados para o nosso estado futuro, se não fôssemos melhores.

      Conf: e porq não nos tornamos melhores? Não temos todos condições para sermos melhores?!

      Moisés: Deus não pede o que se sabe nem p que se possui, mas o que se vale e o que se terá feito de bem... É, pois, à sua melhoria individual que todo espírita sincero deve trabalhar antes de tudo.

      Conf: mas, se é assim, porq é que tantos de nós trabalham exatamente para não se melhorarem? Porq não trabalhamos o necessário para fazer o bem? O que nos impede de fazer isso?

      Moisés: Só aquele que domou seus maus pendores, realmente tem aproveitado do Espiritismo e disso reserva a recompensa; é por isto que os bons Espíritos, por ordem de Deus, multiplicam suas instruções e as repetem à saciedade; só um orgulho insensato pode dizer: delas não tenho mais necessidade.

      Conf: mas o que é que nos impede de domar nossos maus pendores se temos o livre-arbítrio e, com ele, podemos fazer só escolhas corretas, sensatas?

      Sem dúvida, a DE esta absolutamente certa ao nos mandar raciocinar sobre ela, a ter uma "fé raciocinada"!! Se não raciocinarmos não vamos poder entendê-la!!!
...........


Olá Luis JR.

Acredito que as mensagens apontadas como  minhas
não são minhas
elas pertencem a Doutrina Espíria

Ficou estranho...parece-me uma má intenção da sua parte
me desculpe
eu havia apagado  um post seu por esta razão...
e há agora este post novamente tem a intenção de confundir os leitores

Bom !

As respostas que são referidas a minha pessoa eu seu post acima
não foi eu quem as disse...que fique claro
são questões do OLE

Visto assim se a DE não lhe atende
resta-lhe buscar outro caminho
não dar a ela um outro autor
que não sou eu

Abraços
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 05 de Agosto de 2015, 21:04
Re: Descobrindo a Revista Espírita

      Ref resp #9 em: 04 08 15, às 13:22, de Moisés

      Conf (em 03 08 15, 20:41: “Temos sim de raciocinar muito para entender a doutrina, para ter uma "fé raciocina"!

      Moisés disse: é incontestável que o Espiritismo tem muito a nos ensinar...

      Conf: e quais são, amigo Moisés, os obstáculos que Deus coloca em nosso caminho e que nos impedem de aprender o que os ensinamentos de Jesus nos trouxeram há mais de dois mil anos, e os que a codificação trouxe desde século e meio atrás?

      Qual destas abaixo será a resposta para essa pergunta?:

      - fomos criados por Deus totalmente desequilibrados mentais, ou tão absolutamente ignorantes?

      - não queremos aprender como nos livrar desses obstáculos, que o cristianismo e a DE afirmam que devemos nos livrar?

      - é o aprendizado que a vida, essa escola do bem e do mal, nos proporciona, que nos impede de aprender?

      - ou oque é?!

      - Seremos todos nós, criaturas Daquele que é Perfeição e Sabedoria, tão imperfeitos e tão vazios de sabedoria e de inteligência e de desejo de nos melhorarmos e de, em consequência, ser mais felizes? Não queremos ser felizes?!

      - Porq é que, nossas escolhas são tantas vezes direcionadas para trazer as mais extremas infelicidades para nós mesmos? Qual será a resposta?

      Moisés:... É precisamente para dar aos homens o tempo de assimilar, de aplicar e de vulgarizar o que sabem, que a Providência põe um tempo de parada na marcha para a frente.

      Conf: se é assim, e se, certamente, sofremos qdo atrasamos nossa caminhada em direção à bem-aventurança prometida por Jesus, qual é a causa desse sofrimento se a DE ensina que todos eles, dos menos intensos aos mais desesperadores, têm uma única explicação: o fato de “transgredirmos” as leis de Deus?!

      Moisés:... se o espírito não assimilou lições anteriores, as que se quer nele implantar não tomam raiz; semeia-se no vazio.

      Conf: aqui tenho de perguntar: se a justiça divina é perfeita, qual é a causa de uns espíritos assimilarem as lições anteriores e outros não? Onde é que podemos encontrar resposta para esta pergunta?

      Moisés: Ocorre o mesmo com relação ao Espiritismo. Os adeptos aproveitaram de tal modo o que ele ensinou até este dia, que nada tenham mais a fazer? São de tal modo caridosos, desprovidos de orgulho, desinteressados, benevolentes para os seus semelhantes; de tal modo moderaram suas paixões, abjuraram o ódio, a inveja e o ciúme; enfim, são de tal modo perfeitos que seja doravante supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, em uma palavra, a moral?...

      Conf: pois é! Essa é uma pergunta que sempre faço a mim mesmo:

      - porq não aproveitamos o que o espiritismo ensinou?!!

      - Porq é que continuamos tão monstruosamente imperfeitos como o
mundo mostra que somos?

      - E se o espiritismo tende para regeneração da humanidade, porq tantos não seguem suas lições e porq tantos, mesmo tentando segui-las,                                                                                                                          não as seguem como a lei de Deus determina? Porq erram tanto?!

      E, aproveitando a “deixa”: porq a humanidade precisa ser “regenerada”? O que foi que a deformou, desestruturou, desorganizou??

      Moisés: ora, esta regeneração não podendo se operar senão pelo progresso moral, disto resulta que seu objetivo essencial, providencial, é a melhoria de cada um...

      Conf: e porq é que tantas vezes trabalhamos exatamente pra impedir, ou dificultar, nossa melhora?

      Os espíritos, nós, trabalhamos contra nós mesmos?! Nos esforçamos para ludibriar as leis de Deus, para sermos vítimas dos terríveis e desesperadores sofrimentos que nos vêm pelo fato de, com nosso insignificante poder, desafiarmos aquele é o próprio Todo Poder?!!

      Moisés:... não seríamos mais avançados para o nosso estado futuro, se não fôssemos melhores.

      Conf: e porq não nos tornamos melhores? Não temos todos condições para sermos melhores?!

      Moisés: Deus não pede o que se sabe nem p que se possui, mas o que se vale e o que se terá feito de bem... É, pois, à sua melhoria individual que todo espírita sincero deve trabalhar antes de tudo.

      Conf: mas, se é assim, porq é que tantos de nós trabalham exatamente para não se melhorarem? Porq não trabalhamos o necessário para fazer o bem? O que nos impede de fazer isso?

      Moisés: Só aquele que domou seus maus pendores, realmente tem aproveitado do Espiritismo e disso reserva a recompensa; é por isto que os bons Espíritos, por ordem de Deus, multiplicam suas instruções e as repetem à saciedade; só um orgulho insensato pode dizer: delas não tenho mais necessidade.

      Conf: mas o que é que nos impede de domar nossos maus pendores se temos o livre-arbítrio e, com ele, podemos fazer só escolhas corretas, sensatas?

      Sem dúvida, a DE esta absolutamente certa ao nos mandar raciocinar sobre ela, a ter uma "fé raciocinada"!! Se não raciocinarmos com certeza não vamos poder entendê-la!!!
...........
      Moisés disse: Acredito que as mensagens apontadas como minhas não são minhas, elas pertencem a Doutrina Espírita.

      Conf: esqueça-se de que são suas ou não! Isso não tem importância porq o que importante e que nos interessa não é saber de quem são. O importante é procurar saber quais são as respostas, sejam de quem forem! Estamos procurando entender a doutrina espirita!

      Moisés: Ficou estranho...parece-me uma má intenção da sua parte... me desculpe... eu havia apagado  um post seu por esta razão... e há agora este post novamente tem a intenção de confundir os leitores...

      Conf: não meu amig a intenção desde há muito tempo é entender a doutrina do mesmo modo que vc e os demais estão entendendo. É por isso faço tantas perguntas sobre o ensinamentos da doutrina! Mas, infelizmente, obtenho, quando muito, apenas uma meia-resposta. Vc mesmo pode constatar isso nas perguntas que faço nesta mesma msg; e, tb, vc mesmo não lhes deu respostas!

      Moisés: As respostas que são referidas a minha pessoa eu seu post acima que fique claro... são questões do OLE!

      Conf: sei disso pois, eu mesmo, estudo o OLE desde há mais de 60 anos atrás.

      Moisés: visto assim se a DE não lhe atende resta-lhe buscar outro caminho não dar a ela um outro autor que não sou eu.

      Conf: a questão, meu jovem, é que acredito que as respostas ou explicações que alguém coloca aqui no fórum, ele as coloca porq se identificou com elas. Perdoe-me se errei quanto a isso! Não foi minha intenção! Minha intenção é entender a doutrina!!

......................
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Agosto de 2015, 01:09
Re: Descobrindo a Revista Espírita

      Ref resp #9 em: 04 08 15, às 13:22, de Moisés

      Conf (em 03 08 15, 20:41: “Temos sim de raciocinar muito para entender a doutrina, para ter uma "fé raciocina"!

      Moisés disse: é incontestável que o Espiritismo tem muito a nos ensinar...

      Conf: e quais são, amigo Moisés, os obstáculos que Deus coloca em nosso caminho e que nos impedem de aprender o que os ensinamentos de Jesus nos trouxeram há mais de dois mil anos, e os que a codificação trouxe desde século e meio atrás?

      Qual destas abaixo será a resposta para essa pergunta?:

      - fomos criados por Deus totalmente desequilibrados mentais, ou tão absolutamente ignorantes?

      - não queremos aprender como nos livrar desses obstáculos, que o cristianismo e a DE afirmam que devemos nos livrar?

      - é o aprendizado que a vida, essa escola do bem e do mal, nos proporciona, que nos impede de aprender?

      - ou oque é?!

      - Seremos todos nós, criaturas Daquele que é Perfeição e Sabedoria, tão imperfeitos e tão vazios de sabedoria e de inteligência e de desejo de nos melhorarmos e de, em consequência, ser mais felizes? Não queremos ser felizes?!

      - Porq é que, nossas escolhas são tantas vezes direcionadas para trazer as mais extremas infelicidades para nós mesmos? Qual será a resposta?

      Moisés:... É precisamente para dar aos homens o tempo de assimilar, de aplicar e de vulgarizar o que sabem, que a Providência põe um tempo de parada na marcha para a frente.

      Conf: se é assim, e se, certamente, sofremos qdo atrasamos nossa caminhada em direção à bem-aventurança prometida por Jesus, qual é a causa desse sofrimento se a DE ensina que todos eles, dos menos intensos aos mais desesperadores, têm uma única explicação: o fato de “transgredirmos” as leis de Deus?!

      Moisés:... se o espírito não assimilou lições anteriores, as que se quer nele implantar não tomam raiz; semeia-se no vazio.

      Conf: aqui tenho de perguntar: se a justiça divina é perfeita, qual é a causa de uns espíritos assimilarem as lições anteriores e outros não? Onde é que podemos encontrar resposta para esta pergunta?

      Moisés: Ocorre o mesmo com relação ao Espiritismo. Os adeptos aproveitaram de tal modo o que ele ensinou até este dia, que nada tenham mais a fazer? São de tal modo caridosos, desprovidos de orgulho, desinteressados, benevolentes para os seus semelhantes; de tal modo moderaram suas paixões, abjuraram o ódio, a inveja e o ciúme; enfim, são de tal modo perfeitos que seja doravante supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, em uma palavra, a moral?...

      Conf: pois é! Essa é uma pergunta que sempre faço a mim mesmo:

      - porq não aproveitamos o que o espiritismo ensinou?!!

      - Porq é que continuamos tão monstruosamente imperfeitos como o
mundo mostra que somos?

      - E se o espiritismo tende para regeneração da humanidade, porq tantos não seguem suas lições e porq tantos, mesmo tentando segui-las,                                                                                                                          não as seguem como a lei de Deus determina? Porq erram tanto?!

      E, aproveitando a “deixa”: porq a humanidade precisa ser “regenerada”? O que foi que a deformou, desestruturou, desorganizou??

      Moisés: ora, esta regeneração não podendo se operar senão pelo progresso moral, disto resulta que seu objetivo essencial, providencial, é a melhoria de cada um...

      Conf: e porq é que tantas vezes trabalhamos exatamente pra impedir, ou dificultar, nossa melhora?

      Os espíritos, nós, trabalhamos contra nós mesmos?! Nos esforçamos para ludibriar as leis de Deus, para sermos vítimas dos terríveis e desesperadores sofrimentos que nos vêm pelo fato de, com nosso insignificante poder, desafiarmos aquele é o próprio Todo Poder?!!

      Moisés:... não seríamos mais avançados para o nosso estado futuro, se não fôssemos melhores.

      Conf: e porq não nos tornamos melhores? Não temos todos condições para sermos melhores?!

      Moisés: Deus não pede o que se sabe nem p que se possui, mas o que se vale e o que se terá feito de bem... É, pois, à sua melhoria individual que todo espírita sincero deve trabalhar antes de tudo.

      Conf: mas, se é assim, porq é que tantos de nós trabalham exatamente para não se melhorarem? Porq não trabalhamos o necessário para fazer o bem? O que nos impede de fazer isso?

      Moisés: Só aquele que domou seus maus pendores, realmente tem aproveitado do Espiritismo e disso reserva a recompensa; é por isto que os bons Espíritos, por ordem de Deus, multiplicam suas instruções e as repetem à saciedade; só um orgulho insensato pode dizer: delas não tenho mais necessidade.

      Conf: mas o que é que nos impede de domar nossos maus pendores se temos o livre-arbítrio e, com ele, podemos fazer só escolhas corretas, sensatas?

      Sem dúvida, a DE esta absolutamente certa ao nos mandar raciocinar sobre ela, a ter uma "fé raciocinada"!! Se não raciocinarmos com certeza não vamos poder entendê-la!!!
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      Moisés disse: Acredito que as mensagens apontadas como minhas não são minhas, elas pertencem a Doutrina Espírita.

      Conf: esqueça-se de que são suas ou não! Isso não tem importância porq o que importante e que nos interessa não é saber de quem são. O importante é procurar saber quais são as respostas, sejam de quem forem! Estamos procurando entender a doutrina espirita!

      Moisés: Ficou estranho...parece-me uma má intenção da sua parte... me desculpe... eu havia apagado  um post seu por esta razão... e há agora este post novamente tem a intenção de confundir os leitores...

      Conf: não meu amig a intenção desde há muito tempo é entender a doutrina do mesmo modo que vc e os demais estão entendendo. É por isso faço tantas perguntas sobre o ensinamentos da doutrina! Mas, infelizmente, obtenho, quando muito, apenas uma meia-resposta. Vc mesmo pode constatar isso nas perguntas que faço nesta mesma msg; e, tb, vc mesmo não lhes deu respostas!

      Moisés: As respostas que são referidas a minha pessoa eu seu post acima que fique claro... são questões do OLE!

      Conf: sei disso pois, eu mesmo, estudo o OLE desde há mais de 60 anos atrás.

      Moisés: visto assim se a DE não lhe atende resta-lhe buscar outro caminho não dar a ela um outro autor que não sou eu.

      Conf: a questão, meu jovem, é que acredito que as respostas ou explicações que alguém coloca aqui no fórum, ele as coloca porq se identificou com elas. Perdoe-me se errei quanto a isso! Não foi minha intenção! Minha intenção é entender a doutrina!!

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Não é o que parece amigo
parece-me que praticas uma celeuma

Me identifico com muitas coisas
mas há uma disntância muio grande em dizer que foram escritas e ou feitas por mim
Mas
prossiga
o tópico é apenas de leitura
é de apresentação

Recomendo ao colega

http://www.veg11.com.br/site/curso-basico-de-espiritismo
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Agosto de 2015, 01:11
O Futuro do Espiritismo

junho de 1863 - Dissertações espíritas)
(Lyon 21 de setembro de 1862 - médium, Sra. B...)


 
Perguntas-me qual será o futuro do Espiritismo e que lugar ocupará no mundo. Ele não ocupará somente um lugar. Ele encherá o mundo inteiro. O Espiritismo está no ar, no espaço, na Natureza. É a chave da abóbada do edifício social. Podes pressagiar o seu futuro por seu passado e por seu presente.

O Espiritismo é a obra de Deus. Vós, homens, lhe destes um nome; Deus vos deu a razão, quando chegou o tempo, porque o Espiritismo é a lei imutável do Criador. Desde quando o homem teve inteligência, Deus lhe inspirou o Espiritismo e, de época em época, enviou à Terra Espíritos adiantados, que ensaiaram em sua natureza corpórea a influência do Espiritismo. Se esses homens não triunfaram, foi porque a inteligência humana ainda não se achava suficientemente aperfeiçoada. Mas nem por isso esses homens deixaram de implantar a ideia, e deixaram atrás de si seus nomes e seus atos, como marcos indicadores numa estrada, para que o viajante achasse a rota. Olha para trás e verás quantas vezes Deus já experimentou a influência espírita como melhoramento moral.

Que era o Cristianismo há dezoito séculos senão Espiritismo? Só o nome é diferente. O pensamento é o mesmo. Apenas o homem, com o livre-arbítrio, desnaturou a obra de Deus. A natureza preponderou e o erro veio implantar-se sobre essa preponderância. Depois, o Espiritismo esforçou-se por germinar, mas o terreno era inculto e a semente partiu-se e feriu a fronte dos semeadores por Deus encarregados de semeá-la. Com o tempo a inteligência cresceu, o campo pôde ser lavrado, já que se aproxima a época em que o terreno deve ser novamente semeado. Todos admitem que o Espiritismo se espalha. Até os mais incrédulos o compreendem, e se não o confessam, e se fecham os olhos, é que a luz ofuscante do Espiritismo os cega. Mas Deus protege a sua obra. Ele a sustenta com seu poderoso olhar; ele a encoraja, e em breve todos os povos serão espíritas, porque aí está a universalidade de todas as crenças.

O Espiritismo é a grande niveladora que avança para aplainar todas as heresias. Ele é conduzido pela simpatia; ele é seguido pela concórdia, pelo amor e pela fraternidade; ele avança sem abalos e sem revolução; ele nada vem destruir, nada derrubar na organização social; ele vem a tudo renovar.

Não vejas aqui uma contradição: Tornando-se melhores, os homens aspirarão leis melhores. Compreendendo que o operário é da mesma essência que a sua, o patrão introduzirá leis suaves e sábias nas suas relações comerciais. As relações sociais se transformarão muito natu­ralmente entre a riqueza e a mediocridade. Não podendo o Espírito tornar-se morgado, sentirá o espírita que algo existe de mais importante para si que a riqueza; libertar-se-á da ideia de acumular, que gera a cupidez e, por certo, o pobre ainda será beneficiado por essa diminuição do egoísmo. Não direi que não haverá rebeldes a esta ideia; que todos crescerão universal­mente fecundados pela onda do Espiritismo. Ainda haverá refratários e anjos decaídos, pois os homens têm o livre-arbítrio e, posto não lhes faltem conselhos, muitos deles, vendo apenas de seu acanhado ponto de vista, que restringe o horizonte da cupidez, não quererão render-se à evidência. Pior para eles. Lamentai-os, esclarecei-os, porque não sois juízes e só Deus lhes pode censurar a conduta.

Pelo futuro que te mostro para o Espiritismo, podes julgar da influência que ele exercerá sobre as massas. Como estais organizados, moralmente falando? Fizestes uma estatística de vossas qualidades e defeitos? Os homens levianos e neutros povoam boa parte da Terra. Os benevolentes constituem maioria? É duvidoso. Entre os neutros, isto é, entre os que estão com um pé na balança do bem e outro na do mal, muitos podem meter os dois no prato da benevolência, que é a primeira etapa que conduz rapidamente a níveis mais avançados.

Ainda há no globo uma parcela de seres maus, mas que diariamente tende a diminuir. Quando os homens estiverem imbuídos do pensamento que a pena de Talião é a lei imutável que Deus lhes inflige, lei muito mais terrível que vossas terríveis leis terrenas; mais apavorante e mais lógica que as chamas eternas do inferno, em que não mais acreditam, eles temerão essa reciprocidade de penas e pensarão duas vezes antes de cometerem um ato censurável.

Quando, pela manifestação espírita, o criminoso puder prognosticar a sorte que o espera, recuará ante a ideia do crime, pois saberá que Deus tudo vê e que o crime, ainda que ficasse impune na Terra, ele terá que pagar um dia, e muito caramente, essa impunidade. Então, todas as falhas odiosas, que vêm, vez por outra, trazer a sua marca indelével à fronte da Humanidade, desaparecerão para dar lugar à concórdia e à fraternidade que há séculos vos são pregadas. Vossa legislação abrandar-se-á, na proporção do melhoramento moral, e a escravidão e a pena de morte não permanecerão em vossas leis, a não ser como uma lembrança das torturas da inquisição.

Assim regenerado, o homem poderá ocupar-se mais com seu progresso intelectual. Não mais existindo o egoísmo, as descobertas científicas, que por vezes reclamam o concurso de várias inteligências, desenvolver-se-ão rapidamente, cada um dizendo: “Que importa aquele que produz o bem, desde que o bem seja produzido?” Porque, na verdade, o que muitas vezes detém os vossos cientistas em sua marcha ascendente para o progresso, senão o personalismo, a ambição de ligar seu nome à sua obra?

Eis qual é o futuro e a influência do Espiritismo sobre os povos da Terra.

Um filósofo do outro mundo.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 06 de Agosto de 2015, 20:05
Re: Descobrindo a Revista Espírita

      Ref resp #11 em: 06 08 15, às 01:09, de Moisés

      Moisés disse: é incontestável que o Espiritismo tem muito a nos ensinar...

      Conf: e quais são, amigo Moisés, os obstáculos que Deus coloca em nosso caminho e que nos impedem de aprender o que Jesus nos ensinou há mais de dois mil anos, e os que a codificação ensina desde século e meio atrás?

      Qual destas será a resposta para essa pergunta?:

      - fomos criados por Deus totalmente desequilibrados mentais, ou tão absolutamente ignorantes?

      - não queremos aprender como nos livrar desses obstáculos, dos quais Jesus e a codificação afirmam que devemos nos livrar?

      - é o aprendizado que a vida, essa escola do bem e do mal, nos proporciona, que nos impede de aprender?

      - ou o que é?!

      - Seremos todos nós, criaturas Daquele que é Perfeição e Sabedoria, tão imperfeitos, tão vazios de sabedoria e de inteligência e de desejo de nos melhorarmos e de, em consequência, ser mais felizes? Não queremos ser felizes?! Queremos sofrer?” Vc sabe que só os masoquistas sentem prazer em sofrer!!

      - Porq é que, nossas escolhas são tantas vezes direcionadas para trazer as mais extremas infelicidades para nós mesmos? Quem saberá responder esta pergunta?

      Moisés:... É precisamente para dar aos homens o tempo de assimilar, de aplicar e de vulgarizar o que sabem, que a Providência põe um tempo de parada na marcha para frente.

      Conf: se é assim, e se, certamente, sofremos qdo atrasamos nossa caminhada em direção à bem-aventurança prometida por Jesus, qual é a causa desse sofrimento se a DE ensina que todos eles, dos menos intensos aos mais desesperadores, têm uma única explicação: o fato de “transgredirmos” as leis de Deus?!

      Moisés:... se o espírito não assimilou lições anteriores, as que se quer nele implantar não tomam raiz; semeia-se no vazio.

      Conf: aqui tenho de perguntar: se a justiça divina é perfeita, qual é a causa de uns espíritos assimilarem as lições anteriores e outros não?

      Moisés: Ocorre o mesmo com relação ao Espiritismo. Os adeptos aproveitaram de tal modo o que ele ensinou até este dia, que nada tenham mais a fazer? São de tal modo caridosos, desprovidos de orgulho, desinteressados, benevolentes para os seus semelhantes; de tal modo moderaram suas paixões, abjuraram o ódio, a inveja e o ciúme; enfim, são de tal modo perfeitos que seja doravante supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, em uma palavra, a moral?...

      Conf: pois é! Essa é uma pergunta que sempre faço a mim mesmo:

      - porq não aproveitamos o que o espiritismo ensina?!!

      - Porq é que continuamos tão monstruosamente imperfeitos como o mundo mostra que somos?

      - E se o espiritismo tende para regeneração da humanidade, porq tantos não seguem suas lições e porq tantos, mesmo tentando segui-las, não conseguem como a lei de Deus determina? Porq erramos tanto?                                                                                             

      E, aproveitando a “deixa”: porq a humanidade precisa ser “regenerada”? O que foi que a degenerou, deformou, desestruturou, desorganizou??

      Moisés: ora, esta regeneração não podendo se operar senão pelo progresso moral, disto resulta que seu objetivo essencial, providencial, é a melhoria de cada um...

      Conf: e porq é que tantas vezes trabalhamos exatamente pra impedir, ou dificultar nossa melhora? Porq é que tantas vezes trabalhamos pra dificultar nosso progresso moral?

      Qual é a causa de trabalharmos contra nós mesmos?! Será que, de propósito, nos esforçamos para transgredir as leis de Deus, para sermos vítimas dos terríveis e desesperadores sofrimentos que nos vêm pelo fato de, com nosso insignificante poder, desafiarmos aquele é o próprio Todo Poder?!!

      Moisés:... não seríamos mais avançados para o nosso estado futuro, se não fôssemos melhores.

      Conf: e porq não nos tornamos melhores? Não temos todos o livre-arbítrio e com ele as condições para sermos melhores?!

      Moisés: Deus não pede o que se sabe nem o que se possui, mas o que se vale e o que se terá feito de bem... É, pois, à sua melhoria individual que todo espírita sincero deve trabalhar antes de tudo.

      Conf: mas, se é assim, porq é que tantos de nós trabalham exatamente para não se melhorarem? Porq não trabalhamos o necessário para fazer o bem? O que nos impede de fazer isso?

      Moisés: Só aquele que domou seus maus pendores, realmente tem aproveitado do Espiritismo e disso reserva a recompensa; é por isto que os bons Espíritos, por ordem de Deus, multiplicam suas instruções e as repetem à saciedade; só um orgulho insensato pode dizer: delas não tenho mais necessidade.

      Conf: e o que é que faz que uns sejam insensatamente orgulhosos e outros humildes? E o que é que nos impede de domar nossos maus pendores se temos o livre-arbítrio e, com ele, podemos fazer só escolhas corretas, sensatas?

      Sem dúvida, a DE esta absolutamente certa ao nos mandar raciocinar sobre ela, a ter uma "fé raciocinada"!! Se não raciocinarmos com certeza não vamos poder entendê-la!!!
...........
      Moisés disse: Acredito que as mensagens apontadas como minhas não são minhas, elas pertencem a Doutrina Espírita.

      Conf: esqueça-se de se são suas ou não! Isso não tem importância: o que tem inportância e que nos interessa não é saber de quem são. O importante é procurar saber quais são as respostas, sejam as perguntas de quem forem! Estamos procurando entender a doutrina espirita! 

      Moisés: Ficou estranho... parece-me uma má intenção da sua parte... me desculpe... eu havia apagado  um post seu por esta razão... e há agora este post novamente tem a intenção de confundir os leitores...

      Conf: então, meu amigo, vc se enganou a apaga-la. A intenção, desde há muitos anos (talvez mais anos do que vc tem de idade) é entender a doutrina do mesmo modo que vc e os demais estão entendendo. É exatamente por isso q faço tantas perguntas sobre os ensinamentos dela! Mas, infelizmente, quando alguém se dá ao trabalho de responder, os amigos me dão apenas “meias-respostas, sempre respostas não conclusivas, pois são sempre questionáveis! Vc mesmo pode constatar isso nas perguntas que faço nesta mesma msg; e que vc não respondeu!

      Moisés: As respostas que são referidas a minha pessoa eu seu post acima que fique claro... são questões do OLE!

      Conf: sei disso, pois estudo o OLE desde há mais de 60 anos. E imaginei que vc as tivesse colocado aqui devido a que essas da DE são justamente as respostas que vc colocaria!

      Moisés: visto assim se a DE não lhe atende resta-lhe buscar outro caminho não dar a ela um outro autor que não sou eu.

      Conf: a questão, meu jovem, é que acredito que as respostas ou explicações que alguém coloca aqui no fórum, ele as coloca porq se identificou com elas. Perdoe-me se errei com vc quanto a isso! Não foi minha intenção! Minha intenção é entender a doutrina!!
      E, também, não desejo encontrar outro caminho, meu desejo é entender a doutrina espírita pois ela é a mais sensata, sempre aberta a aceitar nossa verdades (desde que cientificamente comprovadas), e não é inquestionável nem dogmática como são as doutrinas de outras religiões!
......................
      Moisés: Não é o que parece amigo... parece-me que praticas uma celeuma... Me identifico com muitas coisas... mas há uma distância muito grande em dizer que foram escritas e ou feitas por mim...

      Conf: é possível que para o amigo pareça isso; não será essa a causa de vc nunca tentar dar respostas às questões que apresento? Observe nesta resp e nas anteriores qtas perguntas vc não respondeu! Praticamente nenhuma!

      Os amigos, inclusive vc, nem mesmo conseguem responder a qual é a causa do porq uns são bons e outros são maus, pergunta que se não tivermos resposta, nunca vamos entender a DE!!

      Moisés: prossiga... o tópico é apenas de leitura... é de apresentação...

      Conf: e o que significa que “o tópico é apenas de leitura”? Sinceramente não entendi! Mas, sem dúvida, basta que seja apenas de leitura pois é pela leitura, principalmente de perguntas, que poderemos exercitar nosso raciocínio, que é exatamente o que a doutrina recomenda!
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Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Vitor Santos em 07 de Agosto de 2015, 12:29
Olá amigo Iconforjr

Citar
Moisés: As respostas que são referidas a minha pessoa eu seu post acima que fique claro... são questões do OLE!

      Conf: sei disso, pois estudo o OLE desde há mais de 60 anos. E imaginei que vc as tivesse colocado aqui devido a que essas da DE são justamente as respostas que vc colocaria!

Amigo, essa de o amigo estudar o LE à mais de 60 anos surpreendeu-me. Porque, como o amigo Moisés disse, a maioria das suas questões não são de quem conhece a Doutrina Espirita, caso contrário já teria encontrado as respostas à luz da mesma. Se essas respostas, para si, são insuficientes ou incorrectas, nem que leia o LE por mais 100 anos vai encontrar respostas. Se fosse eu tentava encontrar outras vias espirituais que me dessem respostas que eu achasse mais adequadas, ou optar pelo ateísmo e/ou pelo materialismo.

Há pessoas que estão neste fórum que pertencem a linhas ideológicas que nada têm a haver com a Doutrina Espirita. Que divulgam aqui essas linhas ideológicas, sem clarificar que não se trata de espiritismo, para cavalgar sobre a popularidade do fórum. Se as pessoas contestam a Doutrina Espirita, assumindo claramente essa postura, ou se contestam determinados pontos da Doutrina Espirita, estão no local certo -  um local de debate da Doutrina Espirita. Mas se tentam divulgar, à socapa, outras linhas ideológicas, sem se assumirem, estão no local errado. Se assumirem que não estão a divulgar ideias espíritas, com clareza, já estão no local certo, desde que utilizem os tópicos adequados. 

O amigo é que sabe qual é a sua situação aqui. Todavia nunca vi que ficasse satisfeito e esclarecido. Depois de saber que estuda o LE há mais de 60 anos, entendi que o seu problema não é de esclarecimento sobre os pressupostos da DE, pois nesse tempo todo de estudo, provavelmente até já deve ter memorizado e pensado tudo o que havia a pensar sobre o que é a Doutrina Espirita. Qual é a esperança do amigo?

- Alterar a Doutrina Espirita? Alterar a realidade do mundo? Refutar a Doutrina Espirita (neste caso deveria apontar alternativas, desde que não seja a titulo de Doutrina Espirita, acho eu...)?

O amigo defende, por exemplo, ideias panteístas. Já o admitiu noutros tópicos. Restam-lhe dúvidas que a Doutrina Espirita é dualista, no sentido corpo da distinção corpo de carne/ alma e no sentido de considerar que Deus é uma Entidade distinta dos Espíritos (embora não negue que existem  ligações de várias ordem entre a Criação e o Criador).

As suas ideias podem estar mais próximas da realidade do que a Doutrina Espirita, ou não. Isso é outra conversa. Não é disso que falo. O que não há dúvida é que elas não coincidem com as da Doutrina Espirita.

As pessoas da Terra são como são, não adianta negar a realidade que observamos. A explicação sobre o porquê de assim serem é que está em questão. Há nela pessoas que praticam mais acções positivas do que negativas, há as pessoas que são o oposto dessas, e há os que ficam entre essas duas categorias de pessoas. Segundo a Doutrina Espirita, as pessoas não são boas nem más, as acções das pessoas é que podem ser boas ou más.

Os Espíritos são seres em progresso, com idades astrais diferentes, e daí essas diferenças aparentes que o amigo encontra aqui na Terra, para além de que há factores não espirituais, na vida, começando logo pelos nossos corpos de carne, incluindo a saúde física, e acabando nas influências sociais, na nossa história terrestre e na nossa história espiritual, em geral. Todavia não há nenhum Espírito que seja privilegiado ou beneficiado em relação aos outros, nem são abertas excepções, porque isso negaria o carácter Justo do Criador e/ou das leis da natureza que Ele concebeu. Estamos a falar dos Espíritos vistos ao longo dos milénios e não apenas numa só encarnação.

Mas a lei do progresso segundo a Doutrina Espirita é uma lei da natureza, imutável. O progresso não é facultativo. Logo há mecanismos de correcção dos desequilíbrios evolutivos entre os Espiritos, ao longo dos milénios. E as pessoas aproximam-se e aperfeiçoam-se moralmente, à medida que evoluem, sendo a evolução inevitável.

E quem quiser contrariar o respectivo progresso espiritual está a tentar contrariar as leis da natureza, como quem sobre um rio, a nadar, contra um corrente fortíssima. Ninguém o impede de subir o rio. Será ele mesmo, quando se estiver quase a afogar, pelo cansaço, que concluirá qual a melhor postura perante a lei da gravidade (que é o que faz a corrente do rio, como sabemos).

Como o progresso é obrigatório, quando não conseguimos aprender a bem, quando lhe resistimos, vai-se apertando o cerco, através da encarnação em mundos muito duros e/ou através de nascimentos em corpos de carne que, com grande probabilidade, contribuirão para o levar a concluir que está a subir o rio contra a corrente. Quando estiver cansado de nadar contra a corrente, decidirá optar por outra estratégia e, então, quando estiver preparado, evoluirá para encarnações mais leves, menos duras. Até deixar de encarnar, por já ter aprendido o que a encarnação tem para ensinar.

Isto, na minha óptica, é o que diz a Doutrina Espirita, independentemente da explicação da realidade que ela representa estar mais ou menos correcta. Você concorda?

Bem haja
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Agosto de 2015, 13:21

......................
      Moisés: Não é o que parece amigo... parece-me que praticas uma celeuma... Me identifico com muitas coisas... mas há uma distância muito grande em dizer que foram escritas e ou feitas por mim...

      Conf: é possível que para o amigo pareça isso; não será essa a causa de vc nunca tentar dar respostas às questões que apresento? Observe nesta resp e nas anteriores qtas perguntas vc não respondeu! Praticamente nenhuma!

      Os amigos, inclusive vc, nem mesmo conseguem responder a qual é a causa do porq uns são bons e outros são maus, pergunta que se não tivermos resposta, nunca vamos entender a DE!!

      Moisés: prossiga... o tópico é apenas de leitura... é de apresentação...

      Conf: e o que significa que “o tópico é apenas de leitura”? Sinceramente não entendi! Mas, sem dúvida, basta que seja apenas de leitura pois é pela leitura, principalmente de perguntas, que poderemos exercitar nosso raciocínio, que é exatamente o que a doutrina recomenda!
...........................

     


Obrigado Luis Jr.

Não se chateie por eu não conseguir responder suas indagações
Não significa que elas não tenham respostas

Abraços
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Agosto de 2015, 13:25
Da Comunhão do pensamento

Revista Espírita, dezembro de 1864

A PROPÓSITO DA COMEMORAÇÃO DOS MORTOS


A Sociedade Espírita de Paris reuniu-se especialmente, pela primeira vez, a 2 de novembro de 1864, visando a oferecer uma piedosa lembrança a seus falecidos colegas e irmãos espíritas. Naquela ocasião o Sr. Allan Kardec desenvolveu o princípio da comunhão do pensamento, no discurso seguinte:

Caros irmãos e irmãs espíritas,

Estamos reunidos, neste dia consagrado pelo uso à comemoração dos mortos, para dar aqueles dos nossos irmãos que deixaram a terra, um testemunho particular de simpatia, para continuar as relações de afeição e de fraternidade, que existiam entre eles e nós, enquanto vivos, e para chamar para eles as bondades do Todo-Poderoso. Mas, porque nos reunirmos? porque nos desviarmos de nossas ocupações? Não pode cada um fazer em particular aquilo que nos propomos fazer em comum? Não o faz cada um pelos seus? Não o pode fazer diariamente todos os dias e à cada hora? Qual, então, a utilidade de assim se reunir num dia determinado? É sobre este ponto, senhores, que me proponho apresentar-vos algumas considerações.

O favor com que a idéia desta reunião foi acolhida é a primeira resposta a essas diversas questões. Ela é o índice da necessidade que experimentamos ao nos acharmos juntos numa comunhão de pensamentos.

Comunhão de pensamentos! Compreendemos bem todo o alcance desta expressão? É permitido duvidá-lo, pelo menos do maior número. O Espiritismo, que nos explica tantas coisas pelas leis que revela, ainda vem explicar a causa, os efeitos e a força dessa situação de espírito.

Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força. É, porém, uma força puramente moral e abstrata? Não: do contrário não se explicariam certos efeitos do pensamento e, ainda menos, da comunhão de pensamento. Para compreendê-lo é preciso conhecer as propriedades e a ação dos elemento que constituem nessa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina.

O pensamento é o atributo característico do ser espiritual; é ele que distingue o espírito da matéria; sem o pensamento o espírito não seria espírito. A vontade não é um atributo especial do espírito; é o pensamento chegado a um certo grau de energia; é o pensamento transformado em força motriz. É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas se tem a força de agir sobre os órgãos materiais, quanto maior não deve ser sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam! O pensamento age sobre os fluídos ambientes, como o som sobre o ar; esses fluidos nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Pode, pois, dizer-se com toda a verdade que há nesses fluidos ondas e raios de pensamento que se cruzam sem se confundir, como há no ar ondas e raios sonoros.

Uma assembléia é um foco onde irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos onde cada um produz a sua nota. Disto resulta uma porção de correntes e de eflúvios fluídicos dos quais cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.

Mas, assim como há raios sonoros harmônicos ou discordantes. Se o conjunto for harmônico a impressão é agradável; se for discordante, a impressão será penosa. Ora, por isto, é necessário que o pensamento seja formulado em palavras; a radiação fluídica não deixa de existir, quer seja, ou não expressa. Se todas forem benevolentes, todos os assistentes experimentarão um verdadeiro bem-estar, sentir-se-ão à vontade; mas se se misturarem pensamentos maus, produzirão o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido.

Tal é a causa do sentimento de satisfação que se experimenta numa reunião simpática; aí como que reina uma atmosfera salubre, onde se respira à vontade; dai se sai reconfortado, porque aí nos impregnamos de eflúvios salutares. Assim também se explicam a ansiedade, o mal-estar indefinível dos meios antipáticos, onde pensamentos malévolos provocam, por assim dizer, correntes fluídicas malsãs.

A comunhão de pensamentos produz, pois, uma espécie de efeito físico que age sobre o moral. Só o Espiritismo poderia faze-lo compreender. O homem o sente instintivamente, desde que procura as reuniões onde sabe encontrar essa comunhão; nessas reuniões homogêneas e simpáticas, colhe novas forças morais; poderia dizer-se que aí recupera pelos alimentos as perdas do corpo material.

Essas considerações, senhores e caros irmãos, parecem nos afastar do objetivo principal de nossa reunião e, contudo, elas para aqui nos conduzem diretamente. As reuniões que têm por objeto a comemoração dos mortos repousam na comunhão de pensamentos. Para compreender a sua utilidade, era necessário bem definir a natureza e os efeitos desta comunhão.

Para a explicação das coisas espirituais, por vezes me sirvo de comparações muito materiais e, talvez mesmo, um tanto forçadas, que nem sempre devem ser tomadas ao pé da letra. Mas é procedendo por analogia, do conhecido para o desconhecido, que chegamos a nos dar conta, ao menos aproximadamente, do que escapa aos nossos sentidos; é tais comparações que a doutrina espírita deve, em grande parte, ter sido facilmente compreendida, mestiço pelas mais vulgares inteligências, ao passo que se eu tivesse ficado nas abstrações da filosofia metafísica, ainda hoje ela não teria sido partilhada senão de algumas inteligências de escol. Ora, desde o princípio, importava que ela fosse aceita pelas massas, porque a opinião das massas exerce uma pressão que acaba fazendo lei e triunfando das oposições mais tenazes. Eis por que me esforcei em simplificá-la e torná-la clara, a fim de a pôr ao alcance de todos, com o risco de a fazer contestada por certa gente quanto ao título de filosofia, por que não é bastante abstrata e saiu do nevoeiro da metafísica clássica.

Aos efeitos que acabo de descrever, tocante a comunhão de pensamentos junta-se um outro, que é sua conseqüência natural, e que importa não perder de vista: é a força que adquire o pensamento, ou a vontade, pelo conjunto dos pensamentos ou vontades reunidas. Sendo a vontade uma força ativa, essa força é multiplicada pelo número de vontades idênticas, como a força muscular é multiplicada pelo número de braços.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Agosto de 2015, 13:25
Estabelecido este ponto, concebe-se que nas relações que se estabelecem entre os homens e os Espíritos haja, numa reunião onde reine perfeita comunhão de pensamentos, uma força atrativa ou repulsiva, que nem sempre possui a criatura isolada. Se, até o presente, as reuniões muito numerosas são menos favoráveis, é pela dificuldade de obter uma perfeita homogeneidade de pensamentos, e que se deve à imperfeição da natureza humana na terra. Quanto mais numerosas as reuniões, mais aí se mesclam elementos heterogêneos, que paralisam a ação dos bons elementos, e que são como os grãos de areia numa engrenagem. Assim não é nos mundos mais avançados e tal estado de coisas mudará na terra, à medida que os homens se tornarem melhores.

Para os Espíritas, a comunhão dos pensamentos tem um resultado ainda mais especial. Temos visto o efeito desta comunhão de homem a homem. O Espiritismo nos prova que ele não é menor dos homens aos Espíritos, e reciprocamente. Com efeito, se o pensamento coletivo adquire força pelo número, um conjunto de pensamentos idênticos, tendo o bem por objetivo, terá mais força para neutralizar a ação dos maus Espíritos. Também vemos que a tática destes últimos é levar à divisão e ao isolamento. Sozinho, um homem pode sucumbir, ao passo que se sua vontade for corroborada por outras vontades, ele poderá resistir, conforme o axioma: A união faz a força, axioma verdadeiro, tanto no moral quanto no físico.

Por outro lado, se a ação dos Espíritos malévolos pode ser paralisada por um pensamento comum, é evidente que a dos bons Espíritos será ajudada; sua influência salutar não encontrará obstáculos; seus eflúvios fluídicos, não sendo detidos por correntes contrárias, espalhar-se-ão sobre todos os assistentes, precisamente porque todos os terão atraído pelo pensamento, não cada um em proveito pessoal, mas em proveito de todos, conforme a lei da caridade. Descerão sobre eles como em línguas de fogo, para nos servirmos de uma admirável imagem do Evangelho.

Assim, pela comunhão de pensamentos, os homens se assistem entre si e, ao mesmo tempo, assistem os Espíritos e são por estes assistidos. As relações do mundo visível e do mundo invisível não são mais individuais, são coletivas e, por isto mesmo, mais poderosas em proveito das massas, como no do indivíduos. Numa palavra, estabelece a solidariedade, que é a base da fraternidade. Ninguém trabalha para si só, mas para todos; e trabalhando para todos, cada um aí encontra a sua parte. É o que o egoísmo não compreende.

Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam, são fundadas na comunhão de pensamentos; é aí, com efeito, que podem e devem exercer toda a sua força, porque o objetivo deve ser o desligamento do pensamento do domínio da matéria. Infelizmente a maioria se afasta deste princípio, à medida que tornam a religião uma questão de forma. Disto resulta que cada um, fazendo seu dever consistir na realização da forma, se julga quites com Deus e com os homens, desde que praticou uma formula. Resulta ainda que cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por conta própria e, na maioria das vezes, sem nenhum sentimento de confraternidade, em relação aos outros assistentes: isola-se em meio à multidão e só pensa no céu para si próprio.

Certamente não era assim que o entendia Jesus, quando disse: Quando estiverdes diversos, reunidos em meu nome, eu estarei em vosso meio. Reunidos em meu nome, isto é, com um pensamento comum. Mas não se pode estar reunido em nome de Jesus sem assimilar os seus princípios, a sua doutrina. Ora, qual é o princípio fundamental da doutrina de Jesus? A caridade em pensamentos, palavras e ação. Os egoístas e os orgulhosos mentem quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus não os conhece por seus discípulos.

Tocados por esses abusos e desvios, algumas pessoas negam a utilidade das assembléias religiosas e, conseqüentemente, dos edifício a elas consagrados. Em seu radicalismo, pensam que seria melhor construir hospícios do que templos, visto como o templo de Deus está em toda a parte e em toda a parte pode ser adorado, que cada um pode orar em sua casa e a qualquer hora, ao passo que os pobres, os doentes e os enfermos necessitam de lugar de refúgio.

Mas porque se cometem abusos, porque se afastam do reto caminho, segue-se que não existe o reto caminho e que é mau tudo de que se abusa? Não, por certo. Falar assim é desconhecer a fonte e os benefícios da comunhão de pensamentos, que deve ser a essência das assembléias religiosas; é ignorar as causas que a provocam. Que os materialistas professam semelhantes idéias, compreende-se; porque, para eles, em tudo fazem abstração da vida espiritual; mas da parte dos espiritualistas e, melhor ainda, dos Espíritas, seria insensatez. O isolamento religioso, como o isolamento social, conduz ao egoísmo. Que alguns homens sejam bastante fortes por si mesmos, fartamente dotados pelo coração, para que sua fé e caridade não necessitem ser aquecidas num foco comum, é possível. Mas não é assim com as massas, a que falta um estimulante, sem o qual poderiam deixar-se tomar pela indiferença. Além disso qual o homem que poderá dizer-se bastante esclarecido para nada ter que aprender no tocante aos interesses futuros? bastante perfeito para prescindir dos conselhos para a vida presente? Será sempre capaz de instruir-se por si mesmo? Não. A maioria necessita de ensinamentos diretos em matéria de religião e moral, como em matéria de ciência. Sem contradita, tais ensinos podem ser dados em toda a parte, sob a abóbada do céu, como sob a de um templo. Mas, por que os homens não haveriam de ter lugares especiais para as coisas celestes, como os têm para as terrenas? Porque não teriam assembléias religiosas, como têm assembléias políticas, científicas e industriais? Isto impede as fundações em beneficio dos infelizes. Dizemos, ainda mais, que quando os homens compreenderem melhor seus interesses do céu, haverá menos gente nos hospícios.

Falando de maneira geral e sem alusão a nenhum culto, se as assembléias religiosas muitas vezes se afastaram de seu objetivo principal, que é a comunhão fraterna do pensamento; se o ensino que aí é dado nem sempre seguiu o movimento progressivo da humanidade, é que os homens não cumprem todos os progressos ao mesmo tempo; o que não fazem num período, fazem em outro; à medida que se esclarecem, vêem as lacunas existentes em suas instituições, e as preenchem; compreendem que o que era bom numa época, em relação ao grau de civilização, torna-se insuficiente numa etapa mais adiantada, e restabelecem o nível. Sabemos que o Espiritismo é a grande alavanca do progresso em todas as coisas; ele marca uma era de renovação. Saibamos, pois, esperar, e não peçamos a uma época mais do que ela pode dar. Como as plantas, é preciso que as idéias amadureçam para colher os frutos. Saibamos, além disso, fazer as necessárias concessões às épocas de transição, porque nada na natureza se opera de maneira brusca e instantânea.

Em razão do motivo que hoje nos reúne, senhores e caros irmãos, julguei oportuno aproveitar a circunstância para desenvolver o princípio da comunhão de pensamentos, do ponto de vista do Espiritismo. Sendo o nosso objetivo unirmo-nos em intenção para oferecer, em comum, um testemunho particular de simpatia aos nossos irmãos falecidos, poderia ser útil chamar nossa atenção para as vantagens da reunião. Graças ao Espiritismo, compreendemos a força e os efeitos do pensamento coletivo; podemos melhor explicar-nos o sentimento de bem-estar que se experimenta num meio homogêneo e simpático; mas, igualmente, sabemos que o mesmo se dá com os Espíritos, porque eles sabem receber os eflúvios de todos os pensamentos benevolentes, que para eles se elevam, como uma nuvem de perfume. Os que são felizes experimentam a maior alegria neste concerto harmonioso; os que sofrem sentem com isto o maior alívio. Cada um de nós, em particular, ora de preferência por aqueles que o interessam ou que mais estima. Façamos que aqui todos tenham sua parte nas preces dirigidas a Deus.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Antonio Renato em 09 de Agosto de 2015, 12:41
Meu nobre(nobre na alma)irmão Moisés,parabéns pela sua iniciativa de dá para todos
nós do FE,a oportunidade de melhor conhecer a Doutrina Espirita,não só pelo que
são colocados nas codificações do Kardec,mas também pelas revista que o mesmo
Kardec colocou para esclarecimentos. Na verdade e a bem dela,tudo que feito com
segurança conseguem o seu verdadeiro objetivo.O Espiritismo não foi criado,ele
sempre existiu,mas foi através da Doutrina Espirita que tem como base o que os
próprios espíritos disseram do seu mundo para Kardec,que nos dá um entendimento
melhor das nossas vidas,e esse entendimento deve ser lento para melhor se edificar.
Não se deve dá grandes saltos sem que tenhamos a certeza que iremos nos colocar em
um lugar seguro, e a Doutrina Espirita tem feito de uma forma segura sem ter que dá
grandes saltos para que todos possam melhor entendê-la,assim eu penso.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Agosto de 2015, 16:38
Meu nobre(nobre na alma)irmão Moisés,parabéns pela sua iniciativa de dá para todos
nós do FE,a oportunidade de melhor conhecer a Doutrina Espirita,não só pelo que
são colocados nas codificações do Kardec,mas também pelas revista que o mesmo
Kardec colocou para esclarecimentos. Na verdade e a bem dela,tudo que feito com
segurança conseguem o seu verdadeiro objetivo.O Espiritismo não foi criado,ele
sempre existiu,mas foi através da Doutrina Espirita que tem como base o que os
próprios espíritos disseram do seu mundo para Kardec,que nos dá um entendimento
melhor das nossas vidas,e esse entendimento deve ser lento para melhor se edificar.
Não se deve dá grandes saltos sem que tenhamos a certeza que iremos nos colocar em
um lugar seguro, e a Doutrina Espirita tem feito de uma forma segura sem ter que dá
grandes saltos para que todos possam melhor entendê-la,assim eu penso.

Grande Antonio Renato

Um Amigo de paz
É o que o amigo nos passa
Paz e segurança

E isso ai

Feliz dias dos pais

Abraços
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Agosto de 2015, 11:43
Visões - O idiota de Lyon
Revista Espírita, janeiro de 1858


- Lê-se no Courrier de Lyon:
"Na noite de 27 para 28 de agosto de 1857, um caso singular de visão intuitiva, produziu-se na Croix-Rousse, nas circunstâncias seguintes:
"Há três meses mais ou menos, o casal B...., honestos operários tecelões, movidos por um
sentimento de louvável comiseração, recolheram em sua casa, na qualidade de doméstica,
uma jovem um pouco idiota e que habita os arredores de Bourgoing.
"No último domingo, entre duas e três horas da manhã, o casal B.... foi despertado em
sobressalto pelos gritos agudos, produzidos pela sua doméstica, que dormia num sótão
contíguo ao seu quarto.
"A senhora B.... acendendo uma lâmpada, sobe para o sótão e encontra a sua criada que,
derretida em lágrimas, e" num estado de exaltação de espírito, difícil de descrever, chamava,
contorcendo os braços em terríveis convulsões, sua mãe que ela acabava de ver morrer, dizia
ela, diante de seus olhos.
"Depois de consolar a jovem, o melhor possível, a senhora B.... retorna ao seu quarto. Esse
incidente estava quase esquecido quando, ontem, terça-feira, antes do meio-dia, um carteiro
do correio entrega ao senhor B.... uma carta do tutor da jovem, que informava, a este
último, que, na noite de domingo para segunda feira, entre duas e três horas da manhã, sua
mãe tinha morrido em conseqüência de uma queda que sofreu, caindo do alto de uma escada.
"A pobre idiota partiu ontem mesmo, pela manhã, para Bourgoing, acompanhada pelo senhor
B.....seu patrão, para ali recolher a parte de sucessão que lhe cabia na herança de sua mãe,
da qual havia visto, tão tristemente, em sonho, o fim deplorável."
Os fatos desta natureza não são raros, e, freqüentemente, tivemos ocasião de narrá-los, cuja
autenticidade não poderia ser contestada. Eles se produzem, algumas vezes, durante o sono
no estado de sonho; ora, como os sonhos não são outra coisa do que um estado de
sonambulismo natural incompleto, designaremos as visões, que ocorrem nesse estado, sob o
nome de visões sonambúlicas, para distingui-las das que ocorrem no estado de vigília e que
chamaremos visões pela dupla vista. Chamaremos, enfim, visões extáticas, aquelas que
ocorrem no êxtase; elas têm, geralmente, por objeto os seres e as coisas do mundo
incorpóreo. O fato seguinte pertence à segunda categoria.
Um armador, nosso conhecido, morando em Paris, nos contou, há poucos dias, o que segue:
"No último mês de abril, estando um pouco doente, fui passear em Tuileries com meu sócio.
Fazia um tempo soberbo; o jardim estava cheio de gente. De repente, a multidão
desapareceu aos meus olhos; não senti mais o meu corpo, fui como que transportado, e vi,
distintamente, um navio entrando no porto de Havre. Eu o reconheci como sendo o
Clémence, que esperávamos das Antilhas; eu o vi atracar no cais, distinguindo claramente os
mastros, as velas, os marinheiros e todos os mais minuciosos detalhes, como se estivesse
nesses lugares. Voltando para minha casa, me entregaram um telegrama. Antes de tomar
conhecimento dele, disse: É o anúncio da chegada do Clémence, que entrou no Havre, às três
horas. O telegrama confirmava, com efeito, essa entrada na hora em que eu a havia visto em
Tuileries."
Quando as visões têm por objeto os seres do mundo incorpóreo, poder-se-ia, com alguma
aparência de razão, levá-las à conta da imaginação, e qualificá-las de alucinações. Porque
nada pode demonstrar a sua exatidão; mas, nos dois fatos que acabamos de narrar, é a
realidade, a mais material e a mais positiva, que se evidencia. Desafiamos todos os
fisiologistas e todos os filósofos para explicá-los pelos sistemas ordinários. Só a Doutrina
Espírita pode, deles, dar conta pelo fenômeno e a emancipação da alma que, escapando,
momentaneamente de suas faixas materiais, se transporta para fora da esfera da atividade
corporal. No primeiro fato acima, é provável que a alma da mãe veio procurar a filha para
adverti-la da sua morte; mas, no segundo, é certo que não foi o navio que veio procurar o
armador em Tuileries; é preciso, pois, que tenha sido a alma deste que foi procurá-lo em
Havre.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Agosto de 2015, 15:46
Os Evangelhos explicados pelo Sr. Roustaing

Revista Espírita, junho de 1866

Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com a ajuda de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, em nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada pelo Livro dos Espíritos e o dos Médiuns. As partes correspondentes às que tratamos no Evangelho Segundo o Espiritismo o são em sentido análogo. Aliás, como nos limitamos às máximas morais que, com raras exceções, são claras, estas não poderiam ser interpretadas de diversas maneiras; assim, jamais foram assunto para controvérsias religiosas. Por esta razão é que por aí começamos, a fim de ser aceito sem contestação, esperando, quanto ao resto, que a opinião geral estivesse mais familiarizada com a idéia espírita.

O autor desta nova obra julgou dever seguir um outro caminho. Em vez de proceder por gradação, quis atingir o fim de um salto. Assim, tratou certas questões que não tínhamos julgado oportuno abordar ainda e das quais, por conseqüência, lhe deixamos a responsabilidade, como aos Espíritos que as comentaram. Conseqüente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, até nova ordem não daremos as suas teorias nem aprovação nem desaprovação, deixando ao tempo o trabalho de as sancionar ou as contraditar. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas e que, em todo o caso, necessitam da sanção do controle universal, e, até mais ampla confirmação, não poderiam ser consideradas como partes integrantes da doutrina espírita.

Quando tratarmos destas questões fá-lo-emos decididamente. Mas é que então teremos recolhido documentos bastante numerosos nos ensaios dados "de todos os lados" pelos Espíritos, a fim de poder falar afirmativamente e ter a certeza de estar "de acordo com a maioria". É assim que temos feito, todas as vezes que se trata de formular um princípio capital. Dissemo-lo cem vezes, para nós a opinião de um Espírito, seja qual for o nome que traga, tem apenas o valor de uma opinião individual. Nosso critério está na concordância universal, corroborada por uma rigorosa lógica, para as coisas que não podemos controlar com os próprios olhos. De que nos serviria dar prematuramente uma doutrina como uma verdade absoluta se, mais tarde, devesse ser combatida pela generalidade dos Espíritas ?

Dissemos que o livro do Sr. Roustaing não se afasta dos princípios do Livro dos Espíritos e do dos Médiuns. Nossas observações são feitas sobre a aplicação desses mesmos princípios à interpretação de certos fatos. É assim, por exemplo, que dá ao Cristo, em vez de um corpo carnal, um corpo fluídico concretizado, com todas as aparências da materialidade e de fato um "agênere". Aos olhos dos homens que não tivessem então podido compreender sua natureza espiritual, deve ter passado "em aparência", expressão incessantemente repetida no curso de toda a obra, por todas as vicissitudes da humanidade. Assim seria explicado o mistério de seu nascimento: Maria teria tido todas as aparências da gravidez. Posto como premissa e pedra angular, este ponto é a base em que se apóia para a explicação de todos os fatos extraordinários ou miraculosos da vida de Jesus.

Nisso nada há de materialmente impossível para quem quer que conheça as propriedades do envoltório perispiritual. Sem nos pronunciarmos pró ou contra essa teoria, diremos que ela é, pelo menos, hipotética, e que se um dia fosse reconhecida errada, em falta de base todo o edifício desabaria. Esperamos, pois, os numerosos comentários que ela não deixará de provocar da parte dos Espíritos, e que contribuirão para elucidar a questão. Sem a prejulgar, diremos que já foram feitas objeções sérias a essa teoria e que, em nossa opinião, os fatos podem perfeitamente ser explicados sem sair das condições da humanidade corporal.

Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, em nada diminuem a importância da obra que, ao lado de coisas duvidosas, em nosso ponto de vista, encerra outras incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada com fruto pelos Espíritas sérios.

Se o fundo de um livro é o principal, a forma não é para desdenhar e contribui com algo para o sucesso. Achamos que certas partes são desenvolvidas muito extensamente, sem proveito para a clareza. A nosso ver, se, limitando-se ao estritamente necessário a obra poderia ter sido reduzida a dois, ou mesmo a um só volume e teria ganho em popularidade.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Agosto de 2015, 13:59
Os mártires do Espiritismo
(Revista Espírita, abril de 1862 - Dissertações espíritas)

A propósito do questionamento sobre os milagres do Espiritismo que nos haviam proposto e de que tratamos no último número, também nos propuseram esta pergunta:
“Os mártires selaram com sangue a verdade do Cristianismo. Onde estão os mártires do Espiritismo?”

Tendes mesmo muito interesse em ver os espíritas sobre a fogueira ou lançados às feras! Isto leva a supor que não vos faltaria vontade, caso isso ainda fosse possível. Quereis à fina força pôr o Espiritismo no nível de uma religião! Notai, porém, que ele jamais pretendeu isso; que jamais se arvorou em rival do Cristianismo, do qual se declara filho; que ele combate os seus mais cruéis inimigos: o ateísmo e o materialismo.

Afirmamos, uma vez mais, que ele é uma filosofia que repousa sobre as bases fundamentais de toda religião e sobre a moral do Cristo. Se renegasse o Cristianismo, ele se desmentiria, suicidar-se-ia. São os seus inimigos que o mostram como uma nova seita; que lhe deram sacerdotes e alto clero. Estes gritarão tantas e tantas vezes que é uma religião, que a gente poderia acabar acreditando.
É necessário existir uma religião para haver seus mártires? A Ciência, as Artes, o gênio, o trabalho, em todos os tempos não tiveram os seus mártires, assim como todas as ideias novas?

Não ajudam a fazer mártires os que apontam os espíritas como condenados, como párias a cujo contato se deve fugir; que açulam contra eles a população ignorante e que chegam até a lhes roubar os recursos do trabalho, esperando vencê-los pela fome, na falta de bons argumentos?
Bela vitória, se triunfassem, mas a semente está lançada e germina em toda a parte. Se é cortada num lugar, brota em cem outros.

Tentai então ceifar toda a Terra, mas deixai que falem os Espíritos que se encarregaram de responder à pergunta.

I

Pedistes milagres. Hoje pedis mártires. Já existem os mártires do Espiritismo. Entrai nas casas e os vereis.
Pedis perseguidos. Abri o coração desses fervorosos adeptos da ideia nova que lutam contra os preconceitos, com o mundo, e frequentemente até com a família! Como seus corações sangram e se dilatam, quando seus braços se estendem para abraçar um pai, uma mãe, um irmão ou uma esposa e não recebem a paga do carinho e dos transportes, mas sarcasmos, desdém e desprezo.

Os mártires do Espiritismo são os que a cada passo escutam estas palavras insultuosas: louco, insensato, visionário!... e durante muito tempo terão que suportar essas afrontas da incredulidade e outros sofrimentos ainda mais amargos.
Entretanto, a sua recompensa será bela, porque se o Cristo mandou preparar um lugar soberbo aos mártires do Cristianismo, o que prepara aos mártires do Espiritismo será ainda mais brilhante. Os mártires da infância do Cristianismo marchavam para o suplício, corajosos e resignados, porque não contavam sofrer senão dias, horas ou o segundo do martírio, aspirando a morte como única barreira para viver a vida celeste.

Os mártires do Espiritismo não devem nem mesmo aspirar a morte. Devem sofrer tanto tempo quanto praza a Deus deixá-los na Terra e não ousam julgar-se dignos dos puros gozos celestes logo que deixem a vida. Oram e esperam, murmurando baixinho palavras de paz, de amor e de perdão aos que os torturam, esperando novas encarnações nas quais poderão resgatar passadas faltas.
O Espiritismo elevar-se-á como um templo soberbo. A princípio os degraus serão difíceis de subir. Mas, transpostos os primeiros degraus, bons Espíritos ajudarão a vencer os outros até o lugar simples e reto que conduz a Deus.
Ide, ide, filhos, pregar o Espiritismo!

Pedem mártires. Vós sois os primeiros que o Senhor marcou, pois sois apontados a dedo e sois tratados como loucos e insensatos, por causa da verdade! Eu vos digo, entretanto, que em breve chegará a hora da luz e então não mais haverá perseguidores nem perseguidos. Sereis todos irmãos e o mesmo banquete reunirá opressores e oprimidos!

SANTO AGOSTINHO
(Médium: Sr. E. Vézy)

II

O progresso do tempo substituiu as torturas físicas pelo martírio da concepção e do nascimento cerebral das ideias que, filhas do passado, serão as mães do futuro. Quando o

Cristo veio destruir o costume bárbaro dos sacrifícios; quando veio proclamar a igualdade e a fraternidade entre o saiote proletário e a toga patrícia, os altares, ainda vermelhos, fumegavam o sangue das vítimas imoladas; os escravos tremiam ante os caprichos do senhor e os povos, ignorando sua grandeza, esqueciam a justiça de Deus.
Nesse estado de rebaixamento moral, as palavras do Cristo teriam sido impotentes e desprezadas pela multidão, se não tivessem sido gritadas pelas suas chagas e tornadas sensíveis pela carne palpitante dos mártires. Para ser cumprida, a misteriosa lei das semelhanças, exigia que o sangue derramado pela ideia resgatasse o sangue derramado pela brutalidade.

Hoje os homens pacíficos ignoram as torturas físicas. Só o seu ser intelectual sofre, porque se debate, comprimido pelas tradições do passado, enquanto aspira novos horizontes.

Quem poderá pintar as angústias da geração presente, suas dúvidas pungentes, suas incertezas, seus ardores impotentes e sua extrema lassitude?
Inquietos pressentimentos de mundos superiores, dores ignoradas pela antiguidade material, que só sofria quando não gozava; dores que são a tortura moderna e que transformarão em mártires aqueles que, inspirados pela revelação espírita, crerão e não serão acreditados; falarão e serão censurados; marcharão e serão repelidos.

Não percais a coragem. Vossos próprios inimigos vos preparam uma recompensa tanto mais bela quanto mais espinhos houverem eles semeado em vosso caminho.

LÁZARO
(Médium: Sra. Costel)

III

Como bem dizeis, em todos os tempos as crenças tiveram mártires. Porém, é preciso dizer que muitas vezes o fanatismo estava de ambos os lados e então, quase sempre o sangue corria. Hoje, graças aos moderadores das paixões, aos filósofos, ou antes, a essa filosofia que começou com os escritores do século dezoito, o fanatismo apagou o seu facho e embainhou a espada. Em nossa época quase se não imagina a cimitarra de Maomé; a forca e a roda da Idade Média; as fogueiras e as torturas de toda espécie, do mesmo modo que se não imaginam os magos e as feiticeiras.

Outros tempos, outros costumes, diz um sábio provérbio. O vocábulo costumes é aqui muito elástico, como vedes e, conforme a sua etimologia latina, significa hábitos, maneira de viver.

Ora, em nosso século, nossa maneira de ser não é de cobrir-se com cilício, de ir às catacumbas nem de dissimular suas preces aos procônsules e aos magistrados da cidade de Paris.

O Espiritismo, pois, não verá erguer-se o machado e as fogueiras devorarem os seus adeptos. A gente se bate a golpes de ideias, a golpes de livros, a golpes de comentários, a golpes de ecletismo e a golpes de teologia, mas a São Bartolomeu não se repetirá.
Certamente poderá haver algumas vítimas nas nações atrasadas, mas nos centros civilizados só a ideia será combatida e ridicularizada.

Assim, pois, não mais os machados, o feixe de varas, o óleo fervente, mas ficai atentos com o espírito voltairiano mal compreendido. Ele é o carrasco. É preciso preveni-lo, mas não desafiá-lo. Ele ri, em vez de ameaçar; lança o ridículo em vez da blasfêmia e seus suplícios são as torturas do espírito que sucumbe ao abraço do sarcasmo moderno.

Mas, sem desagradar aos pequenos Voltaires de nossa época, a juventude compreenderá facilmente estas três palavras mágicas: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Quanto aos sectários, estes são mais temíveis porque são sempre os mesmos, malgrado o tempo, malgrado tudo. Eles por vezes podem fazer o mal, mas são coxos, mascarados, velhos e rabugentos. Ora, vós que passais pela fonte de Juventa e cuja alma reverdece e remoça, não os temais, porque o seu fanatismo os perderá.

LAMENNAIS
(Médium: Sr. A. Didier)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 14 de Agosto de 2015, 19:02
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #14 em: 07 08 15, 12:29, de Vitor

      Bom-dia, amigo Vitor

      Moisés (citado): As respostas que são referidas a minha pessoa eu seu post acima que fique claro... são questões do OLE!

      Conf: sei disso, pois estudo o OLE desde há mais de 60 anos. E imaginei que vc as tivesse colocado aqui devido a que essas da DE são justamente as respostas que vc colocaria!
....
      Vitor: Amigo, essa de o amigo estudar o LE há mais de 60 anos surpreendeu-me. Porque, como o amigo Moisés disse, a maioria das suas questões não são de quem conhece a Doutrina Espirita, caso contrário já teria encontrado as respostas à luz da mesma.

      Conf: pois é, meu jovem, estudo a DE desde a 69 anos atrás e, talvez por isso mesmo, tenha me aprofundado tanto que hoje tenho muitas dúvidas e sinto a necessidade de entender o porq de os amigos não terem!

      Porém, como tb já disse, a finalidade maior que me leva a fazer tantas perguntas é, se possível, contribuir para que os amigos se estiverem realmente interessados em entender a doutrina e, consequentemente, a vida, raciocinem como manda a doutrina.

      E procure, amigo Vitor, saber se as perguntas que tenho tanto repetido estão mesmo na DE! Como vc citou o amigo Moisés, que é quem diz que as respostas estão ali, pergunte-lhe, como tantas vezes já lhe perguntei (e a muitos outros) e ele não respondeu, qual é a resposta (imprescindível para que se entenda a doutrina) para esta simples pergunta: “porq vc é bom ou porq vc é mau?”.

      Vitor: Se essas respostas, para si, são insuficientes ou incorrectas, nem que leia o LE por mais 100 anos vai encontrar respostas. Se fosse eu tentava encontrar outras vias espirituais que me dessem respostas que eu achasse mais adequadas, ou optar pelo ateísmo e/ou pelo materialismo.

      Conf: não, meu jovem; leia numa msg recente (logo mais acima) ao Moisés porq é que escolhi entender esta doutrina e não uma outra.

      Vitor: As pessoas da Terra são como são, não adianta negar a realidade que observamos. A explicação sobre o porquê de assim serem é que está em questão. Há nela pessoas que praticam mais acções positivas do que negativas, há as pessoas que são o oposto dessas, e há os que ficam entre essas duas categorias de pessoas. Segundo a Doutrina Espirita, as pessoas não são boas nem más, as acções das pessoas é que podem ser boas ou más.

      Conf: essa é justamente uma questão que sempre trago pois na doutrina não encontro explicação para ela (é provável que outros tenham encontrado mas se calam talvez por entenderem, que, na doutrina, todos encontrarão): porq somos como somos se, no princípio, somos todos perfeitamente iguais? O que é que surge e destrói essa perfeita igualdade original, e nos torna gigantescamente desiguais?

      E, se os espíritos não são maus, porq é que cometem tantas ações más ao ponto de, posteriormente, a lei de Deus os sentenciar a penalidades que poderão multiplicar suas encarnações e se estenderem por milhões de anos e a viverem em mundos de sofrimentos os mais cruéis?

      Vitor: Os Espíritos são seres em progresso, com idades astrais diferentes, e daí essas diferenças aparentes que o amigo encontra aqui na Terra, para além de que há factores não espirituais, na vida, começando logo pelos nossos corpos de carne, incluindo a saúde física, e acabando nas influências sociais, na nossa história terrestre e na nossa história espiritual, em geral.

      Conf: bom argumento o seu! Mas veja: não é isso que a doutrina ensina. Ninguém deve sofrer por errar devido a sua menor idade astral;  todos os sofrimentos são impostos exclusivamente aos que “merecem” sofrer, e que só os merecem aqueles que, de propósito, transgridem as leis de Deus, certo? E nesse quadro que vc pintou, está essa transgressão?

      Vitor: Todavia não há nenhum Espírito que seja privilegiado ou beneficiado em relação aos outros, nem são abertas excepções, porque isso negaria o carácter Justo do Criador e/ou das leis da natureza que Ele concebeu. Estamos a falar dos Espíritos vistos ao longo dos milénios e não apenas numa só encarnação.

      Conf: essa é outra questão para a qual não encontro resposta (e acredito que nem vc, nem o Moisés, encontrou): seja ao longo de milênios, ou numa única encarnação de alguns poucos anos, qual é a causa dos sofrimentos dos homens se estes derivam do fato de, propositadamente, haverem transgredido as leis do Amor?

      Vitor: Mas a lei do progresso segundo a Doutrina Espirita é uma lei da natureza, imutável. O progresso não é facultativo. Logo há mecanismos de correcção dos desequilíbrios evolutivos entre os Espíritos, ao longo dos milénios. E as pessoas aproximam-se e aperfeiçoam-se moralmente, à medida que evoluem, sendo a evolução inevitável.

      Conf: e, meu jovem, porq é que esse progresso obrigatório tem de vir recheado de desesperadores e mesmo insuportáveis sofrimentos?

      Vitor: E quem quiser contrariar o respectivo progresso espiritual está a tentar contrariar as leis da natureza, como quem sobre um rio, a nadar, contra um corrente fortíssima. Ninguém o impede de subir o rio. Será ele mesmo, quando se estiver quase a afogar, pelo cansaço, que concluirá qual a melhor postura perante a lei da gravidade (que é o que faz a corrente do rio, como sabemos).

      Conf: pois é: se ninguém o impede de nadar a favor da correnteza, porq é que ele não nada? Prefere ficar para trás e sofrer? Escolhe sofrer, mesmo podendo escolher não sofrer? Somos todos masoquistas?!

      Vitor: Como o progresso é obrigatório, quando não conseguimos aprender a bem, quando lhe resistimos, vai-se apertando o cerco, através da encarnação em mundos muito duros e/ou através de nascimentos em corpos de carne que, com grande probabilidade, contribuirão para o levar a concluir que está a subir o rio contra a corrente.

      Conf: sem dúvida vc está querendo dizer com “não conseguir aprender a bem”, com “o círculo vai se fechando” e com “encarnações em mundos duros” que o espírito terá de sofrer, é isso? Mas, nisso tudo, onde está a transgressão à lei divina?

      Vitor: Quando estiver cansado de nadar contra a corrente... quando estiver preparado, evoluirá para encarnações mais leves, menos duras.

      Conf: e devido as fato de "não conseguir", e de "se cansar" de nadar contra a corrente, e de ainda não estar "preparado", uma justiça perfeita o punirá por isso?!

      Vitor: Isto, na minha óptica, é o que diz a Doutrina Espirita,... Você concorda?

      Conf: mas é exatamente essa a razão de minhas perguntas! Procuro entender o que levaria a concordar, certo?!
...............
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 14 de Agosto de 2015, 20:11
Crianças, guias espirituais dos pais
Revista Espírita, agosto de 1866

Tendo perdido um filho de sete anos, e tendo-se tornado médium, a mãe teve essa mesma criança como guia. Um dia lhe fez a seguinte pergunta:

- Caro e bem amado filho, um espírita meu amigo não compreende e não admite possas ser o guia espiritual de tua mãe, porque ela existia antes de ti e, indubitavelmente, deve ter tido um guia, mesmo que fosse apenas durante o tempo em que tivemos a felicidade de ter-te ao nosso lado. Podes dar-nos algumas explicações?

Resposta do Espírito da criança - Como quereis aprofundar tudo o vos parece incompreensível? Aquele que vos parece mesmo o mais adiantado no Espiritismo está apenas nos primeiros elementos dessa doutrina e não sabe mais do que esse ou aquele que vos parece capaz de tudo e capaz de vos dar explicações. Eu existi muito tempo antes de minha mãe, e ocupei, em outra existência, uma posição eminente por meus conhecimentos intelectuais.

Mas um imenso orgulho se havia apoderado de meu Espírito, e durante várias existências consecutivas fui submetido à mesma prova, sem poder dela triunfar, até chegar à existência em que estava junto de vós. No entanto, como já estava adiantado, e minha partida devia servir ao vosso adiantamento, a vós, tão atrasados na vida espírita, Deus me chamou antes do fim de minha carreira, considerando minha missão junto a vós mais aproveitável como Espírito do que como encarnado.

Durante minha última estada na Terra, minha mãe teve o seu anjo guradião junto a ela, mas temporariamente, pois Deus sabia que era eu que devia ser o seu guia espiritual, e que eu a levaria mais eficazmente para o caminho do qual ela estava tão afastada. O guia que ela tinha então, foi chamado para outra missão, quando vim tomar seu lugar junto a ela.

Perguntai aos que sabeis mais adiantados do que vós se esta explicação é lógica e boa, porque pode ser que, considerando-se que esta é minha opinião pessoal, talvez eu me engane. Enfim, isto vos será explicado, se perguntardes. Muitas coisas ainda vos são ocultas e vos parecerão claras mais tarde. Não queirais aprofundar muito, porque dessa constante preocupação nasce a confusão de vossas ideias. Tende paciência, pois assim como um espelho embaciado por um sopro ligeiro, se clareira pouco a pouco, vosso espírito tranquilo e calmo atingirá esse grau de compreensão necessário ao vosso adiantamento.

Coragem, pois, bons pais; marchai com confiança, e um dia bendireis a hora da prova terrível que vos trouxe ao caminho da felicidade eterna, sem a qual teríeis ainda muitas existências infelizes a percorrer.

 

OBSERVAÇÃO: Esse menino era de uma precocidade intelectual rara para a sua idade. Mesmo gozando de boa saúde, parecia pressentir seu fim próximo. Ele se alegrava nos cemitérios e, sem jamais ter ouvido falar em Espiritismo, no qual seus pais não acreditavam, muitas vezes perguntava se, quando se estivesse morto, não se poderia voltar aos que se tinha amado. Ele aspirava a morte como uma felicidade e dizia que quando morresse sua mãe não deveria afligir-se, porque ele voltaria para junto dela. Com efeito, foi a morte de três filhos em alguns dias que levou os pais a buscar uma consolação no Espiritismo. Eles encontraram largamente essa consolação, e sua fé foi recompensada pela possibilidade de conversar a cada instante com os filhos, porque a mãe se tornou excelente médium em bem pouco tempo, tendo seu próprio filho como guia, Espírito que se revela por uma grande superioridade.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Agosto de 2015, 16:12
Diferentes naturezas de manifestações
Revista Espírita, janeiro de 1858

Os Espíritos atestam a sua presença de diversas maneiras, segundo sua aptidão, sua vontade e seu maior ou menor grau de elevação. Todos os fenômenos dos quais teremos ocasião de nos ocupar, se relacionam, naturalmente, a um ou a outro desses modos de comunicação. Cremos, pois, para facilitar o entendimento dos fatos, dever abrir a série de nossos artigos pelo quadro das diferentes naturezas de manifestações. Podem ser resumidas assim:

1- Ação oculta, quando ela não tem nada ostensivo. Tais são, por exemplo as inspirações ou
sugestões de pensamento, as advertências íntimas, as influências sobre os acontecimentos,
etc.;

2- Ação patente ou manifestação, quando ela é apreciável de um modo qualquer;

3- Manifestações físicas ou materiais', são aquelas que se traduzem por fenômenos sensíveis,
tais como os ruídos, o movimento e o deslocamento de objetos. Essas manifestações não
comportam, muito freqüentemente, nenhum sentido direto; elas não têm por objetivo senão
chamar a nossa atenção sobre alguma coisa, e nos convencer da presença de uma força
superior à do homem;

4- Manifestações visuais ou aparições, quando um Espírito se revela à visão, sob uma forma
qualquer, sem ter nenhuma das propriedades conhecidas da matéria;

5- Manifestações inteligentes, quando revelam um pensamento. Toda manifestação que
comporte um sentido, não fora senão um simples movimento ou um ruído que acuse uma
certa liberdade de ação, responde a um pensamento ou obedece a uma vontade, é uma
manifestação inteligente. Ocorrem em todos os graus;

6- As comunicações', são as manifestações inteligentes que têm por objeto uma troca
seguida de pensamentos entre o homem e os Espíritos.

À natureza das comunicações varia segundo o grau, de elevação ou inferioridade, de saber ou ignorância do Espírito que se manifeste, e segundo a natureza do assunto de que se trata.

Elas podem ser: frívolas, grosseiras, sérias, ou instrutivas.

As comunicações frívolas emanam de Espíritos levianos, zombadores e traquinas, mais
maliciosos do que maus, que não ligam nenhuma importância ao que dizem.

As comunicações grosseiras se traduzem por expressões que chocam as conveniências. Elas
não emanam senão de Espíritos inferiores, ou que não estão ainda despojados de todas as
impurezas da matéria.

As comunicações sérias são graves quanto ao assunto e à maneira que são feitas.

A linguagem dos Espíritos superiores é sempre digna e isenta de toda a trivialidade. Toda
comunicação que exclui a frivolidade e a grosseria, e que tem um fim útil, seja de interesse
privado, é, por isso mesmo, séria.

As comunicações instrutivas são as comunicações sérias que têm por objetivo principal um
ensinamento qualquer, dado pelos Espíritos sobre as ciências, a moral, a filosofia, etc. São
mais ou menos profundas e mais ou menos verdadeiras, segundo o grau de evolução e de
desmaterialização do Espírito. Para se retirar dessas comunicações um proveito real, é
preciso que sejam regulares e continuem com perseverança.

Os Espíritos sérios se ligam àqueles que querem se instruir e os secundam, ao passo que deixam aos Espíritos levianos o cuidado de divertir, com gracejos, aqueles que não vêem, nas manifestações, senão uma distração passageira. Não é senão pela regularidade e pela freqüência das comunicações, quebse pode apreciar o valor moral e intelectual dos Espíritos com os quais se conversa, e o grau de confiança que merecem.

Se é preciso experiência para julgar os homens, é preciso, talvez, mais ainda para julgar os Espíritos.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 18 de Agosto de 2015, 14:06
DO ESPÍRITO PROFÉTICO.
Pelo conde Joseph de Maistre.
Revista Espírita - abril / 1867


O conde Joseph de Maistre, nascido em Chambéry em 1752, morto em 1821, foi
enviado pelo rei da Sardanha, como ministro plenipotenciário na Rússia, em 1803. Ele
deixou esse país em 1817 quando da expulsão dos Jesuítas, dos quais tinha abraçado a
causa. Entre suas obras, uma das mais conhecidas na literatura e no mundo religioso, é
aquela que foi intitulada: Soirées de Saint-Pétersbourg, publicada em 1821. Embora
escrita num ponto de vista exclusivamente católico, certos pensamentos parecem
inspirados pela previsão dos tempos presentes, e, a este título, merecem uma atenção
particular. As passagens seguintes foram tiradas da décima primeira entrevista, tomo II,
página 121, edição de 1844.
.....Mais do que nunca, Senhores, devemos nos ocupar dessas altas especulações,
porque nos é preciso estar prontos para um acontecimento imenso na ordem divina, para
o qual caminhamos com uma velocidade acelerada que deve impressionar todos os
observadores. Não há mais religião sobre a Terra: o gênero humano não pode
permanecer neste estado. Terríveis oráculos anunciam, aliás, que os tempos são
chegados.

Vários teólogos, mesmo católicos, acreditaram que fatos da primeira ordem e pouco
distantes estão anunciados na revelação de São João, e embora os teólogos protestantes
não tenham debitado, em geral, senão tristes sonhos sobre esse mesmo livro, onde
jamais viram o que desejavam, no entanto, depois de ter pago esse infeliz tributo ao
fanatismo de seita, vejo que certos escritores desse partido adotam já o princípio que:
Várias profecias contidas no Apocalipse se reportam aos nossos tempos modernos. Um
desses escritores mesmo foi levado até a dizer que o acontecimento já tinha começado, e
que a nação francesa deveria ser o grande instrumento da maior das revelações.
Talvez não haja um homem verdadeiramente religioso na Europa (falo da classe
instruída), que não espere neste momento alguma coisa de extraordinário; ora dizei-me,
Senhores, credes que esse acordo de todos os homens possa ser desprezado? Não é
nada esse grito geral que anuncia grandes coisas? Remontai aos séculos passados;
transportai-vos ao nascimento do Salvador. Nessa época uma voz alta e misteriosa,
partida das regiões orientais, não gritava: "O Oriente está sobre o ponto de triunfar? O
vencedor partirá da Judéia; um filho divino nos é dado; ele vai aparecer; ele desce do
mais alto dos céus; ele restabelecerá a idade de ouro sobre a Terra." Vós sabeis o resto.

Essas idéias estavam universalmente difundidas, e como elas se prestavam
infinitamente à poesia, o maior poeta latino delas se apoderou e as revestiu das cores
mais brilhantes em seu Pollion, que foi depois traduzido em belíssimos versos gregos, e
lido nesta língua no concilio de Nicéia, por ordem do imperador Constantino. Certamente
era muito digno da Providência ordenar que esse grande brado do gênero humano
ressoasse para sempre nos versos imortais de Virgílio; mas a incurável credulidade de
nosso século, em lugar de ver nessa peça o que ela realmente encerra, quer dizer, um
monumento inefável do espírito profético que se agitava então no universo, se diverte em
nos provar sabiamente que Virgílio não era profeta, quer dizer, que uma f lauta não sabe
a música, e que não há nada de extraordinário na décima primeira poesia pastoril desse
poeta. O materialismo que mancha a filosofia de nosso século o impede de ver que a
doutrina dos Espíritos, e, em particular, a do espírito profético, é inteiramente plausível em
si mesma, e, além disto, o melhor sustentáculo para a tradição, a mais universal e a mais
imponente, do que foi jamais. Como a eterna doença do homem é de penetrar o futuro, é
uma prova certa que ele tem direitos sobre esse futuro, e que há meios de atingi-lo, pelo
menos em certas circunstâncias. Os oráculos antigos prendiam-se a esse movimento
interior do homem que o adverte de sua natureza e de seus direitos. A pesada erudição
de Van Dale, e as alegres frases de Fontenelle foram empregadas em vão, no século
passado, para estabelecer a nulidade geral desses oráculos. Mas, o que quer que seja,
jamais o homem teria recorrido aos oráculos, jamais teria podido imaginá-los, se não
tivesse partido de uma idéia primitiva em virtude da qual os considerava como possíveis,
e mesmo como existentes.

O homem está sujeito ao tempo, e, no entanto, por sua natureza, estranho ao
tempo. O profeta gozava do privilégio de sair do tempo; suas idéias não sendo mais
distribuídas na duração, se tocam em virtude da simples analogia, e se confundem, o que,
necessariamente derrama uma grande confusão em seus discursos. O próprio Salvador
se submeteu a esse estado quando, entregue voluntariamente ao espírito profético, as
idéias análogas de grandes desastres, separadas do tempo, o levaram a misturar a
destruição de Jerusalém à do mundo. Foi ainda assim que Davi. conduzido por seus
próprios sofrimentos a meditar sobre "a justa perseguição," sai de repente do tempo e se
exclama, presente no futuro: "Eles atravessaram meus pés e minhas mãos; e contaram
meus ossos; partilharam minhas roupas; lançaram sorte sobre as minhas vestes." (Ps.
XXV, v. 17.)

Poder-se-iam acrescentar outras reflexões tiradas da astrologia judiciária, dos
oráculos, das adivinhações em todos os gêneros, cujos abusos, sem dúvida, desonraram
o espírito humano, mas que tinham, no entanto, uma base verdadeira, como todas as
crenças gerais. O espírito profético é natural ao homem, e não cessará de agitar no
mundo. O homem, tentando, em todas as épocas e em todos os lugares, penetrar no
futuro, declara que não foi feito para o tempo, porque o tempo é alguma coisa forçada,
que não pede senão acabar. Daí vem que, em nossos sonhos, jamais temos a idéia do
tempo, e que o estado do sono foi sempre julgado favorável às comunicações divinas.
Se me perguntardes em seguida o que é esse espírito profético de que falei há
pouco, eu vos responderei que "jamais houve no mundo grandes acontecimentos que não
foram preditos de alguma forma." Maquiavel foi o primeiro homem de meu conhecimento...
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 18 de Agosto de 2015, 14:08
...que avançou essa proposição; se nisso vós mesmos refletirdes, achareis que a sua
afirmativa está justificada por toda a história. Disto tendes um último exemplo na
Revolução francesa, predita de todos os lados e da maneira mais incontestável.
Mas para retornar ao ponto de que parti, acreditai que ao século de Virgílio faltavam
bons espíritos que zombavam e "do grande ano, e do século de ouro, e da casta Lucine, e
da augusta mãe, e do misterioso filho?" No entanto, tudo isto tinha ocorrido: "O filho, do
alto do céu, estava prestes a descer." E podeis ver em vários escritos, principalmente nas
notas que Pope juntou à sua tradução em versos do Pollion, que essa peça poderia
passar por uma versão de Isaías. Por que quereis que disto não seja o mesmo hoje? O
universo está à espera. Como desprezaríamos esta grande persuasão; e com que direito
condenaríamos os homens que, advertidos por esses sinais divinos, se entregam a
santas pesquisas?

Quereis uma nova prova daquilo que se prepara? Procurai nas ciências; considerai
bem a marcha da química, da própria astronomia, e vereis onde elas nos conduzem.
Creríeis, por exemplo, se disto não estivésseis advertidos, que Newton nos leva a
Pitágoras, e que incessantemente será demonstrado que os corpos celestes são movidos
precisamente como os corpos humanos, por inteligências que lhes estão unidas, sem que
se saiba como? No entanto, é o que está no ponto de se verificar, sem que haja logo
algum meio de debater. Esta doutrina, sem dúvida, poderá parecer paradoxal e mesmo
ridícula, porque a opinião circundante o impõe; mas, esperai que a afinidade natural da
religião e da ciência as reúna na cabeça de um único homem de gênio; o aparecimento
desse homem não poderia estar distante, e talvez mesmo já exista. Aquele será famoso
e porá fim ao século dezoito que dura sempre; porque os séculos intelectuais não se
regem pelo calendário como os séculos propriamente ditos. Então, as opiniões que nos
parecem hoje ou bizarras ou insensatas, serão axiomas dos quais não será permitido
duvidar, e se falará de nossa estupidez atual como falamos da superstição da idade
média. Já mesmo a força das coisas constrangeu alguns sábios da escola material a
fazerem concessões que os aproximam do Espírito. E outros, não podendo impedir de
pressentir essa tendência surda de uma opinião poderosa, tomam contra ela precauções
que, talvez, fazem sobre os verdadeiros observadores mais impressão do que uma
resistência direta. Daí a sua atenção escrupulosa para não empregar senão expressões
materiais. Jamais se trata em seus escritos: senão de leis mecânicas, de princípios
mecânicos, de astronomia física, etc. Não é porque não sintam muito bem que as teorias
materiais não contentam de nenhum modo a inteligência, porque há alguma coisa
evidente, para o espírito humano não preocupado, é que os movimentos do Universo não
podem se explicar unicamente pelas leis mecânicas; mas é precisamente porque o
sentem, que colocam, por assim dizer, palavras em guarda contra a verdade. Não se quer
confessá-lo, mas não se é mais detido senão pelo compromisso ou por respeito humano.

Os sábios europeus são, neste momento, espécies de conjurados ou de iniciados, como
vos agrade chamar, que fizeram da ciência uma espécie de monopólio, e que não
querem absolutamente que se saiba mais ou de outro modo que eles. Mas essa ciência
será incessantemente infamada por uma posteridade iluminada que acusará justamente
os adeptos de hoje de não terem sabido tirar, das verdades que Deus lhes tinha entregue,
as conseqüências mais preciosas para o homem. Então, toda a ciência mudará de face;
o espírito por muito tempo destronado retomará o seu lugar.
Será demonstrado que as tradições antigas são todas verdadeiras; que o paganismo
inteiro não é senão um sistema de verdades corrompidas e deslocadas; que basta limpá-
las, por assim dizer, e remetê-las ao seu lugar, para vê-las brilhar com todos os seus
raios. Em uma palavra, todas as idéias mudarão; e uma vez que, de todos os lados, uma
multidão de eleitos exclamará concorde: "Vinde, Senhor, vinde!" porque censuraríeis
esses homens que se lançam nesse futuro majestoso e se glorificam por adivinhá-lo.

Como os poetas que, até nos tempos de fraqueza e de decrepitude, apresentam ainda alguns pálidos clarões do espírito profético, os homens espiritualizados sentem algumas
vezes movimentos de entusiasmo e inspiração que os transportam para o futuro, e lhes
permitem pressentir os acontecimentos que o tempo amadurece na distância.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 18 de Agosto de 2015, 14:10
...Lembrai-vos, senhor conde, o elogio que me dirigistes sobre a minha erudição a
respeito do número três. Este número, com efeito, se mostra de todos os lados, no mundo
físico como no mundo moral, e em todas as coisas divinas. Deus falou uma primeira vez
aos homens sobre o monte Sinai, e esta revelação foi restringida, por razões que
ignoramos, nos limites estreitos de um único povo e de um único país. Depois de quinze
séculos, uma segunda revelação se dirige a todos os homens sem distinção, e é a da qual
gozamos. Mas a universalidade de sua ação deveria ser ainda infinitamente restringida
pelas circunstâncias de tempo e de lugar. Quinze séculos a mais deveriam se escoar
antes que a América visse a luz, e suas vastas regiões escondem ainda uma multidão de
hordas selvagens tão estranhas ao grande benefício, que se seria levado a crer que elas
dele são excluídas por natureza em virtude de algum anátema primitivo inexplicável. Só o
grande Lama tem mais súditos espirituais do que o papa; a Bengala tem sessenta milhões
de habitantes, a China tem duzentos milhões deles, o Japão vinte e cinco ou trinta.

Contemplai esses arquipélagos do grande Oceano que formam hoje uma quinta parte do
mundo. Vossos missionários, sem dúvida, fizeram esforços maravilhosos para anunciar o
Evangelho em algumas dessas regiões longínquas, mas vede com que sucesso. Quantas
miríades de homens que a boa nova jamais alcançará! A cimitarra do filho de Ismael não
expulsou inteiramente o Cristianismo da África e da Ásia? E, em nossa Europa, que
espetáculo se oferece ao olhar religioso!.....
Contemplai este quadro lúgubre; juntai nele à espera dos homens escolhidos, e
vereis se os iluminados erraram ao considerar como mais ou menos próxima uma terceira
explosão da toda-poderosa bondade em favor do gênero humano. Eu não terminaria se
quisesse juntar todas as provas que se reunissem para justificar esta grande espera.
Ainda uma vez, não censureis as pessoas que dela se ocupam que vêem, na própria
revelação, razões de prever uma revelação da revelação. Chamai, se o quiserdes, estes
homens iluminados, estarei inteiramente de acordo convosco, tendo em vista que
pronunciais este nome seriamente.

Tudo anuncia, e vossas próprias observações o demonstram, eu não sei que grande
unidade para a qual caminhamos a grande passo. Não podeis, pois, sem vos pôr em
contradição consigo mesmo, condenar aqueles que saúdam de longe essa unidade, e que
tentam, segundo suas forças, penetrar os mistérios tão temíveis, sem dúvida, mas, ao
mesmo tempo, tão consoladores para nós.
E não dizeis que tudo está dito, que tudo está revelado, e que não nos é permitido
esperar nada de novo. Sem dúvida, nada nos falta para a salvação; mas, da parte dos
conhecimentos divinos, nos falta muito; e, quanto às manifestações futuras, tenho, como
vedes, mil razões para esperá-las, ao passo que não tendes nenhuma para me provar o
contrário. O hebreu que cumpria a lei não estava em segurança de confiança? Eu vos
citaria, se fosse preciso, não sei quantas passagens da bíblia que prometem ao sacrifício
judaico e ao trono de Davi uma duração igual à do sol. O judeu, que disso tinha a
aparência, tinha toda a razão, até o acontecimento, de crer no reino temporal do Messias;
todavia, se enganava, como se viu depois; mas sabemos o que espera a nós mesmos?
Deus estará conosco até a consumação dos séculos; as portas do inferno não
prevalecerão contra a Igreja, etc.; muito bem! Disto resulta, eu vos peço, que Deus proibiu
toda manifestação nova, e que não lhe é mais permitido nos ensinar nada além do que
sabemos? isto seria, é preciso confessá-lo, um estranho raciocínio.

Uma nova efusão do Espírito Santo estando doravante na classe das coisas mais
razoavelmente esperadas, é preciso que os pregadores desse dom novo possam citar as
Escrituras santas a todos os povos. Os apóstolos não são tradutores; eles têm muitas
outras ocupações; mas a Sociedade bíblica, instrumento cego da Providência, prepara suas diferentes versões que os verdadeiros enviados explicarão um dia em virtude de
uma missão legítima, nova ou primitiva, não importa! que expulsará a dúvida da cidade de
Deus; e é assim que os terríveis inimigos da unidade trabalham para estabelecê-la.

Nota. - Estas palavras são tanto mais notáveis quanto elas emanam de um homem
de um mérito incontestável como escritor, e que é tido em grande estima no mundo
religioso. Talvez nelas não se tenha visto tudo o que encerram, mas elas são um protesto
evidente contra o absolutismo e o exclusivismo estreito de certas doutrinas. Elas denotam
no autor uma amplitude de visão que frisam a independência filosófica. A ortodoxia foi
muitas vezes escandalizada por menos. As passagens sublinhadas são bastante
explícitas para que seja supérfluo comentá-las; os Espíritas, sobretudo, lhe
compreenderão facilmente a importância. Seria impossível não ver-lhe a previsão das
coisas que se passam hoje e daquelas que o futuro reserva à Humanidade, tanto essas
palavras têm relação com o estado atual, e com o que os Espíritos anunciam por toda a
parte.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 21 de Agosto de 2015, 15:38
Bem Aventurados os que têm os olhos fechados
Revista Espírita, julho de 1863

(Sociedade Espírita de Paris, 19 de junho de 1863, Médium: Sr. Vézy)

Nota: Esta comunicação foi dada a propósito de uma senhora cega, presente à sessão.

Meus amigos, não venho muito ao vosso meio; mas hoje eis-me aqui. Por isso dou graças a Deus e aos bons Espíritos que vos vem ajudar a marchar pelo novo caminho. Porque me chamastes? Para impor as mãos sobre a pobre sofredora que aqui está e a curar? E que sofrimento, meu Deus! Ela perdeu a visão e as trevas se fizeram para ela!... Pobre filha! Que ore e espere! Não sei fazer milagres sem a vontade do bom Deus. Todas as curas que pude obter, e que vos foram relatadas, só as atribuais aquele que é pai de todos. Nas vossas aflições olhai sempre para o céu e dizei do fundo do coração: “Meu pai, curai-me, mas fazei que minha alma seja curada antes das enfermidades do corpo. Que minha carne seja castigada, se preciso, para que minha alma se eleve para vós com a alvura que tinha quando a criastes!” Depois desta prece, meus boníssimos amigos, que o bom Deus ouvirá sempre, a força e a coragem vos serão dadas e, talvez, também esta cura, que pedistes timidamente, em recompensa de vossa abnegação carnal.

Mas, já que aqui estou, numa assembléia onde se trata, antes de tudo, de estudar, dir-vos-ei que os privados da visão deveriam considerar-se como bem aventurados da expiação. Lembrai-vos que o Cristo disse ser preciso arrancar o vosso olho, se fosse mau e que mais valia lança-lo ao fogo do que ser causa de vossa danação. Então! Quantos há em vossa terra que, um dia, nas trevas, maldirão terem visto a luz! Oh! Sim: como são felizes os que são feridos na expiação pela visão! Seu olho não lhes será motivo de escândalo e de queda; podem viver inteiramente a vida da alma; podem ver mais que vós que vedes claro... Quando Deus me permite ir abrir as pálpebras de alguns desses pobres sofredores e lhes dar a vossa luz, eu me digo: “Querida mãe, por que não conheces todas as delícias do Espírito que vive de contemplação e de amor? Ela não pediria para ver imagens menos puras e menos suaves que as que lhe é dado ver em seu cegueira.”

Oh! Sim, bem-aventurado o cego que quer viver com Deus! Mais feliz que vós que aqui estais, ele sente a felicidade e a toca; ele vê as almas e com elas pode lançar-se nas esferas espíritas, que nem os predestinados de vossa terra podem ver.

O olho aberto está sempre pronto a fazer a alma falir; o olho fechado, ao contrário, está sempre pronto a faze-la subir para Deus. Crede-me, meus bons e caros amigos, a cegueira dos olhos é, muitas vezes, a verdadeira luz do coração, ao passo que a visão é, por vezes, o anjo tenebroso, que conduz à morte.

E agora, algumas palavras a ti, minha pobre sofredora. Espera e coragem! Se eu te dissesse: “Minha filha, teus olhos se vão abrir”, como ficarias contente! E quem sabe se esta alegria não te perderia? Tem confiança no bom Deus, que fez a felicidade e permite a tristeza. Farei tudo quanto me for permitido por ti; mas, por tua vez, ora e, sobretudo, pensa em tudo quanto acabo de dizer.

Antes de me afastar, vós que aqui estais, recebei minha benção, meus bons amigos: eu a dou a todos, aos loucos, aos sábios, aos crentes e aos infiéis desta assembléia; e que ela sirva a cada um de vós.

VIANNEY, Cura d’Ars

Observação: Perguntamos se esta é a linguagem do demônio e se se ofende ao cura d’Ars atribuindo-lhe tais pensamentos. Uma camponesa sem instrução, sonâmbula natural, que vê os Espíritos muito bem, tinha vindo à sessão e estava em sonambulismo. Não conhecia o cura d’Ars, nem mesmo de nome e, entretanto, o viu ao lado do médium e lhe fez o retrato perfeitamente exato. .
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 25 de Agosto de 2015, 21:21
A LUTA ENTRE O PASSADO E O FUTURO.
Revista Espírita - março / 1863

Uma verdadeira cruzada ocorre neste momento contra o Espiritismo, assim como
isso nos foi anunciado; de diversos lados se nos assinalam escritos, discursos e mesmo
atos de violência e de intolerância; todos os Espíritas devem se alegrar com isso, porque
é a prova evidente de que o Espiritismo não é uma quimera. Fariam tanto barulho por
uma mosca que voa?
O que excita, sobretudo, essa grande cólera é a prodigiosa rapidez com a qual a
idéia nova se propaga, apesar de tudo o que se fez para detê-la. Também nossos adversários,forçados pela evidência de reconhecer que esse progresso invade as classes mais
esclarecidas da sociedade e mesmo os homens de ciência, se reduziram a deplorar esse
arrastamento fatal que conduz a sociedade inteira aos manicômios. A zombaria esgotou
seu arsenal de piadas e de sarcasmos, e essa arma, que se diz tão terrível, não pôde colocar
os galhofeiros de seu lado, prova de que não tem matéria para rir. Não é menos evidente
que ela não tirou um único partidário à Doutrina, longe disso, uma vez que aumentaram
a olhos vistos. A razão disso é bem simples: reconheceu-se prontamente tudo o que há de profundamente religioso nessa Doutrina que toca as cordas mais sensíveis do coração, que eleva a alma para o infinito, que faz reconhecer a Deus àqueles que o tinham desconhecido; ela arrancou tantos homens ao desespero, acalmou tantas dores, cicatrizou tantas feridas morais, que os tolos e os chatos gracejos derramados sobre ela inspiraram mais desgosto do que simpatia. Os zombadores em vão se incomodaram sem proveito para fazer rir às suas custas; há coisas das quais, instintivamente, sente-se que não se pode rir sem profanação.
No entanto, se algumas pessoas, não conhecendo a Doutrina senão pelos gracejos
sem graça, puderam crer que não se tratava senão de um sonho oco, de elucubração de
um cérebro danificado, o que se passa é bem feito para desenganá-los. Ouvindo tantas
declamações iradas, devem dizer a si mesmo que é mais sério do que não pensavam.
A população pode se dividir em três classes: os crentes, os incrédulos e os indiferentes.
Se o número dos crentes centuplicou depois de alguns anos, isso não pode ser senão
às custas das duas outras categorias. Mas os Espíritos que dirigem o movimento acharam
que as coisas não iam ainda bastante depressa. Há ainda, disseram a si mesmos, muitas
pessoas que não ouviram falar do Espiritismo, sobretudo no campo; é tempo de que a
Doutrina ali penetre; além disso, é preciso despertar os indiferentes adormecidos. A zombaria fez seu trabalho de propaganda involuntária, mas tirou todas as flechas de seu estojo, mas as setas que ela dispara ainda são menos cortantes; é um fogo muito pálido agora.
É preciso alguma coisa mais vigorosa, que faça mais barulho do que o tinir dos folhetins,
que repercuta mesmo nas solidões; é preciso que a última aldeia ouça falar do Espiritismo.
Quando a artilharia voltar, cada um se perguntará: O que há? e quererá ver.
Quando fizemos a pequena brochura: O Espiritismo em sua mais simples expressão,
perguntamos aos nossos guias espirituais que efeito ela produziria. Foi-nos respondido:
 ela produzirá um efeito ao qual não esperas, quer dizer, teus adversários ficarão furiosos
em ver uma publicação destinada, pelo seu extremo preço pouco elevado, a ser difundida
em massa e penetrar por toda a parte. Anunciado te foi um grande desdobramento de
hostilidades, tua brochura dele será o sinal. Não te preocupes com isso, conheces o fim.
Eles se irritam em razão da dificuldade em refutar teus argumentos. - Uma vez que assim
é, dissemos, essa brochura, que deveria ser vendida por 25 centavos, será dada por duas
moedas. O acontecimento justificou essas previsões, e disso nos felicitamos.
Tudo o que se passa, aliás, foi previsto e deveria ser para o bem da causa. Quando
virdes alguma grande manifestação hostil, longe de vos amedrontar com ela, alegrai-vos,
porque foi dito: o estrondo do raio será o sinal da aproximação dos tempos preditos. Orai
então, meus irmãos; orai sobretudo pelos vossos inimigos, porque serão tomados de uma
verdadeira vertigem.
Mas nem tudo ainda se cumpriu; a chama da fogueira de Barcelona não subiu tão alto.
Se ela se renova em alguma parte, guardai-vos de extingui-la, porque ela se elevará
mais, semelhante a um farol, será vista de longe, e ficará na lembrança das idades. Deixai,
pois, fazer e em nenhuma parte oponde a violência à violência; lembrai-vos de que o
Cristo disse a Pedro para guardar sua espada na bainha. Não imiteis as seitas que se
entredilaceraram em nome de um Deus de paz, que cada um chamava em ajuda aos
seus furores. A verdade não se prova pelas perseguições, mas pelo raciocínio; as perseguições, em todos os tempos, foram a arma das más causas, e daqueles que tomam o
triunfo da força bruta pelo da razão. A perseguição é um meio mau de persuasão; pode
momentaneamente abater o mais fraco, convencê-lo, jamais; porque, mesmo na aflição
em que o tiver mergulhado, exclamará, como Galileu em sua prisão: e pur si muovel Recorrer à perseguição é provar que se conta pouco com o poder de sua lógica. Não useis,
pois, de represálias: à violência oponde a doçura e uma inalterável tranqüilidade; restitui
aos vossos inimigos o bem pelo mal; por aí dareis um desmentido às suas calúnias, e for-
çá-los-eis a reconhecer que vossas crenças são melhores do que eles dizem.
A calúnia! direis; pode-se ver com sangue frio nossa Doutrina indignamente deturpada
por mentiras? acusada de dizer o que não disse, de ensinar o contrário do que ela ensina,
de produzir o mal ao passo que não produz senão o bem? A própria autoridade daqueles
que têm uma tal linguagem não pode dobrar a opinião, retardar o progresso do
Espiritismo?
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 25 de Agosto de 2015, 21:23
Incontestavelmente está aí seu o objetivo; atingi-lo-ão? é uma outra questão, e não
hesitamos em dizer que chegam a um resultado todo contrário: o de se desacreditarem e
à sua causa. A calúnia, sem contradita, é uma arma perigosa e pérfida, mas tem dois gumes
e fere sempre aquele que dela se serve. Recorrer à mentira para se defender é a
mais forte prova de que não se tem boas razões para dar, porque, tendo-as, não se deixaria
de fazê-las valer. Dizeis que uma coisa é má, se tal é vossa opinião; gritai-o sobre os
telhados, se bom vos parece, cabe ao público julgar se estais no erro ou na verdade; mas
deturpá-la para apoiar vosso sentimento, desnaturá-la, é indigno de todo homem que se
respeita. Nos relatórios das obras dramáticas e literárias, vêem-se freqüentemente apreciações muito opostas; um crítico louva exageradamente o que um outro achincalha: é
seu direito; mas o que se pensaria daquele que, para sustentar a sua censura faria o autor
dizer o que não disse, lhe emprestaria maus versos para provar que sua poesia é detestável?
 Ocorre assim com os detratores do Espiritismo: pelas suas calúnias mostram a fraqueza
de sua própria causa e a desacreditam fazendo ver a que lamentáveis extremismos
são obrigados a recorrer para sustentá-la. De que peso pode ser uma opinião fundada
sobre erros manifestos? De duas coisas uma, ou esses erros são voluntários, e então se
vê a má fé; ou são involuntários, e o autor prova sua inconseqüência falando do que não
sabe; num e noutro caso perde todo direito à confiança.
O Espiritismo não é uma Doutrina que caminha na sombra; ele é conhecido, seus
princípios são formulados de maneira clara, precisa, e sem ambigüidade. A calúnia, pois,
não poderia atingi-lo; basta, para convencê-la de impostura, dizer: lede e vede. Sem dúvida,
é útil desmascará-la; mas é preciso fazê-lo com calma, sem aspereza nem recrimina-
ção, limitando-se a opor, sem discursos supérfluos, o que é do que não é; deixai aos vossos
adversários a cólera e as injúrias, guardai para vós o papel da força verdadeira: o da
dignidade e da moderação.
De resto, não é preciso exagerar as conseqüências dessas calúnias, que levam consigo
o antídoto de seu veneno, e são em definitivo mais vantajosas do que nocivas. For-
çosamente, elas provocam o exame de homens sérios que querem julgar as coisas por si
mesmos, e nisso são excitados em razão da importância que se lhe dá; ora, o Espiritismo,
longe de temer o exame, provoca-o, e não se lamenta senão de uma coisa, é que tantas
pessoas dele falam como os cegos das cores; mas graças aos cuidados que nossos adversários tomam em fazê-lo conhecer, esse inconveniente logo não existirá mais, e é tudo
o que pedimos. A calúnia que ressalta desse exame engrandece-o em lugar de rebaixá-lo.
Espíritas, não lamenteis, pois, essas deturpações; não tirarão nenhuma das qualidades
do Espiritismo; ao contrário, as farão ressaltar com mais estrondo pelo contraste, e se
voltarão para a confusão dos caluniadores: essas mentiras, certamente, podem ter por
efeito imediato enganar algumas pessoas, e mesmo desviá-las; mas o que é isso? O quê
são alguns indivíduos perto das massas? Sabeis, vós mesmos, quanto o seu número é
pouco considerável. Que influência isso pode ter sobre o futuro? Esse futuro vos está assegurado: os fatos realizados vos respondem por ele, e cada dia vos traz a prova da inutilidade dos ataques de nossos adversários. A doutrina do Cristo não foi caluniada, qualificada de subversiva e de ímpia? Ele mesmo não foi tratado como velhaco e como impostor? Perturbou-se com isso? Não, porque sabia que seus inimigos passariam e que a sua doutrina ficaria. Assim o será com o Espiritismo. Singular coincidência! Não é outro senão o chamado à pura lei do Cristo, e é atacada com as mesmas armas! Mas seus detratores passarão; é uma necessidade à qual ninguém pode se subtrair. A geração atual se extingue todos os dias, e com ela vão os homens imbuídos dos preconceitos de um outro tempo; a que se ergue está nutrida de idéias novas, e sabeis, aliás, que se compõe de Espíritos mais avançados que devem fazer, enfim, a lei de Deus reinar sobre a Terra. Olhai,
pois, as coisas de mais alto; não as vejais do ponto de vista restrito do presente, mais estendei vossos olhares para o futuro e dizei a vós mesmos: O futuro é nosso; que nos importa o presente! que nos fazem as questões de pessoas! as pessoas passam, as institui-
ções ficam. Pensai que estamos num momento de transição; que assistimos à luta entre o
passado que se debate e se coloca para trás, e o futuro que nasce e se coloca para adiante.
Quem levará a melhor? O passado é vicioso e caduco, - falamos das idéias, - ao
passo que o futuro é jovem, e caminha para a conquista do progresso que está nas leis
de Deus. Os homens do passado se vão com ele; os do futuro chegam; saibamos, pois,
esperar com confiança e nos felicitemos por sermos os primeiros pioneiros encarregados
de arrotear o terreno. Se temos o trabalho, teremos o salário. Trabalhemos, pois, não para
uma propaganda colérica e irrefletida, mas com a paciência e a perseverança do trabalhador
que sabe o tempo que lhe é preciso para chegar à colheita. Semeemos a idéia,
mas não comprometamos a colheita por um ensinamento intempestivo e por nossa impaciência, antecedendo a estação própria para cada coisa. Cultivemos sobretudo as plantas férteis que não pedem senão produzir; são bastante numerosas para ocupar todos os
nossos instantes, sem usar nossas forças contra rochas irremovíveis que Deus se encarrega
de abalar e destruir, quando chegar seu tempo, porque se tem a força de elevar as
montanhas, tem a de abaixá-las. Tiremos a figura, e digamos simplesmente que há resistências que seria supérfluo procurar vencer, e que se obstinam mais por amor-próprio, ou por interesse, do que por convicção; seria perder seu tempo procurar traze-los a si; não
cederão senão diante da força da opinião. Recrutemos os adeptos entre as pessoas de
boa vontade, que não faltam; aumentemos a falange de todos aqueles que, cansados da
dúvida e assustados com o nada materialista, não pedem senão crer, e logo o número
deles será tal que os outros acabarão por se render à evidência. Esse resultado já se manifesta, e esperai, dentro em pouco, a ver em vossa fileiras aqueles que nela não esperá-
veis senão os últimos.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 28 de Agosto de 2015, 03:56
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #18 em: 09 08 15, 12:41 de ARenato

      Sempre buscar ter uma "fé raciocinada"!
....

      Renato disse (ao Moisés):... O Espiritismo... sempre existiu, mas foi através da DE, que tem como base o que os próprios espíritos disseram do seu mundo para Kardec, que nos dá um entendimento melhor das nossas vidas, e esse entendimento deve ser lento para melhor se edificar.

      Conf: boa-tarde, querido companheiro de estudo; como sempre “estico” demais minhas msgs/resps, aqui vou lhe fazer apenas três únicas perguntas:

      - vc disse que é através da DE que obtemos o entendimento melhor das nossas vidas, certo? Sendo assim, como vc explicará o fato de, até agora, 20 séculos já passados da chegada dos ensinamentos de Jesus q estão nos evangelhos, e século e meio depois da chegada da DE, vc mesmo ainda não ter entendimento, nem mesmo do básico dos básicos, que é o "porq uns são bons e outros são maus"?

      - E, qto a isso que vc disse, que “esse entendimento deve ser lento para melhor se edificar”, porq esse entendimento tem de estar sempre acompanhado de sofrimentos torturantes, desesperadores, insuportáveis?

      Meu querido amigo Renato, e nisso tudo que vc diz onde está a causa de nossos sofrimentos? E se esse entendimento deve ser lento e, consequentemente, tivermos de sofrer por isso, porq é q a doutrina ensina que todos os sofrimentos são consequência de transgredirmos as leis de Deus? Onde está aí uma transgressão às leis de Deus??

...............
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Antonio Renato em 28 de Agosto de 2015, 12:04
Meu nobre(nobre na alma)amigo e companheiro de jornada lconforjr, diferente talvez, de
companheiro nossos aqui no FE, eu sempre agradeço pelos seus questionamentos, pois
os mesmos me fizeram, ou obrigaram, a raciocinar melhor, muito embora em algumas
vezes venha discordar da sua insistência em bater na mesma tecla com perguntas que
nós ainda não temos a compreensão, o entendimento,pelo menos eu,das perguntas
feitas por você a todos nós. A escola da vida em muito contribui para que tenhamos uma
melhor visão dos acontecimento, isto para aqueles que não têm uma vida tão somente
contemplativa, mas mesmo assim, embora já se tenha passado 20 séculos que o mestre
Jesus deixou seus ensinamentos para todos nós, ainda não chegamos ao nível de
evolução que possa ter a compreensão de tudo. A Doutrina Espirita em seus 150 anos
tem nos ajudado também, a compreender melhor esta nossa vida neste mundo e nos
outros,pois assim como os espíritos orientaram a Kardec nas suas codificações, deu a
todos nós uma ferramenta para que através dela possamos ter essa melhor compreensão.
Fique na paz.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 28 de Agosto de 2015, 18:25
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #16 em: 07 08 15, 13:25 de Moisés

      Sempre buscando ter uma “fé raciocinada”!
....
      Texto trazido pelo amigo Moisés: “Da Comunhão do pensamento - Revista Espírita - dezembro 1864”:

      A Sociedade Espírita de Paris reuniu-se... Naquela ocasião Kardec disse:

      Kardec:... O Espiritismo, que nos explica tantas coisas pelas leis que revela, ainda vem explicar a causa, os efeitos e a força dessa situação de espírito.

      Conf: sem dúvida que o espiritismo explica muitas coisas: mas é exatamente isso que me causa profunda estranheza; explica tanta coisa mas não explica o que é necessário para termos uma “fé raciocinada”, que é exatamente isso que ela nos recomenda: raciocinar para entendê-la e, consequentemente, entender a vida e tudo que na vida nos acontece. Não nos explica qual é a causa que faz que um seja bom e que outro seja mau! Essa é a base de toda doutrina espírita; a doutrina e a vida giram em torno desses dois polos: o do amor, que deve ser sempre buscado, e o da maldade que deve ser sempre recusado. Mas, onde está o ensinamento que nos leve a compreender a causa de um ser bom, e de outro ser mau?!

      Kardec: Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força. É, porém, uma força puramente moral e abstrata? Não: do contrário não se explicariam certos efeitos do pensamento e, ainda menos, da comunhão de pensamento. Para compreendê-lo é preciso conhecer as propriedades e a ação dos elemento que constituem nessa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina.

      Conf: sinto, sinceramente, que o sábio codificador não esteja mais entre nós pois gostaria que respondesse esta questão: os pensamentos são realmente nossos? Somos nós que damos origem a eles, que os comandamos ou são eles que nos comandam e, assim, dão origem aos nossos atos, às nossas ações sejam elas inclinadas para o bem, ou para o mal?

      Afinal, de onde se originam nossos pensamentos? De nosso íntimo ou da vida ao nosso redor? Afinal, os pensamentos que neste instante povoam nossas cabeças, de qualquer espécie que sejam, elevados ou baixos, têm origem em nós ou em algo, eventos, coisas que ocorrem fora de nós?

      Kardec: O pensamento é o atributo característico do ser espiritual; é ele que distingue o espírito da matéria; sem o pensamento o espírito não seria espírito.

      Conf: o que será que Kardec quis dizer com isso, que "o pensamento é um atributo característico do espírito"? O espírito é que dá origem aos pensamentos, ou são os eventos da vida, fora de nós, que dão origem a eles? Sinceramente, não consigo entender!! Pois, para mim, todos os pensamentos têm origem em algo que acontece fora de nós (nós corpo espiritual, não corpo material), na vida ao nosso redor, cujas vibrações são captadas, ou percebidas, pelos nossos sentidos objetivos (visão, audição, olfato, paladar, tato) ou por alguma paranormalidade que tivermos.


      Kardec:... É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido.

      Conf: mas, de quem é a vontade? De onde é que ela surge, quem ou o que é que lhe dá origem? Pois, se é pela vontade que agimos mas sabemos que a vontade se origina dos pensamentos e se não chegamos até agora a compreender se estes têm ou não origem no espírito?

      Sem alguém puder ajudar.....
............

     

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 29 de Agosto de 2015, 14:10
Conversas familiares de além-túmulo
Revista Espírita, fevereiro de 1861

O suicídio de um ateu

O Sr. J. B. D..., evocado a pedido de um de seus pais, era um homem instruído, mas imbuído ao último grau de idéias materialistas, não crendo nem em sua alma nem em Deus. Afogou-se voluntariamente há dois anos.

1. Evocação.- R... Eu sofro! Sou condenado.

2. Fomos rogados a vos chamar, da parte de um de vossos parentes, que deseja conhecer a vossa sorte; quereis nos dizer se a nossa evocação vos é agradável ou penosa? -
R. Penosa.

3. A vossa morte foi voluntária? -
R. Sim.

Nota. O Espírito escreveu com extrema dificuldade; a escrita era muito grande, irregular, convulsiva e quase ilegível. No seu início, mostra cólera, quebra um lápis e rasga o papel.

4. Tende mais calma; todos nós rogamos a Deus por vós. -
R. Eu sou forçado em acreditar em Deus.

5. Que motivo pôde vos levar a vos destruir? -
R. Aborrecimento da vida sem esperança.

Nota. Concebe-se o suicídio quando a vida é sem esperança; quer-se escapar da infelicidade a todo preço; com o Espiritismo, o futuro se abre e a esperança se legitima; o suicida não tem, pois, mais objetivo: bem mais, reconhece-se que, por esse meio, não se escapa de um mal senão para cair em um outro que é cem vezes pior. Eis porque o Espiritismo já arrancou tantas vítimas à morte involuntária. Estão, pois, errados, e são sonhadores aqueles que procuram, antes de tudo, o fim moral e filosófico? São culpáveis aqueles que se esforçam em acreditar por sofismas científicos, e supostamente em nome da razão, essa idéia desesperadora, fonte de tantos males e de crimes, que tudo acaba com a vida! Serão responsáveis, não só pelos seus próprios erros, mas de todos os males dos quais tiverem sido a causa.

6. Quisestes escapar às vicissitudes da vida; com isso ganhastes alguma coisa? Sois mais feliz agora? -
R. Por que o nada não existe?

7. Quereis ser bastante bom para nos descrever a vossa situação, o melhor que puderdes. -
R. Eu sofro por estar obrigado a crer em tudo o que negava. A minha alma está como num braseiro; ela está horrivelmente atormentada.

8. De onde vos vieram as idéias materialistas que tínheis quando vivo? -
R. Numa outra existência, eu fui mau, e o meu Espírito estava condenado a sofrer os tormentos da dúvida durante a minha vida; também me matei.

Nota. Há aqui toda uma ordem de idéias. Pergunta-se, freqüentemente, como pode haver materialista, uma vez que tendo já passado pelo mundo espírita dever-se-ia ter dele a intuição; ora, é precisamente essa intuição que é recusada, como castigo a certos Espíritos que conservaram o seu orgulho, e não se arrependeram de suas faltas. A Terra, é preciso que não se esqueça, é um lugar de expiação; eis porque ela encerra tantos maus Espíritos encarnados.

9. Quando vos afogastes, que pensáveis que vos adviria? Que reflexões fizestes naquele momento? -
R. Nenhuma; era o nada para mim. Vi depois que não tendo cumprido a minha pena, sofri toda a minha condenação, e a irei ainda muito sofrer.

10. Agora estais bem convencido da existência de Deus, da alma e da vida futura? -
R. Ai de mim! Não sou senão muito atormentado por isso!

11. Tornastes a ver a vossa mulher e o vosso irmão? -
R. Oh! Não.

12. Por que isso? -
R. Por que reunir os nossos tormentos? Exila-se na infelicidade, não se reúne senão na felicidade; ai de mim!

13. Ficaríeis satisfeito em rever o vosso irmão, que poderíamos chamar aqui, ao vosso lado? -
R. Não, não; eu estou muito baixo.

14. Por que não quereis que o chamemos? - R. É que ele não é feliz, ele não mais do eu.

15. Temeis a sua visão; entretanto, isso poderia vos fazer bem? - R. Não; mais tarde.

16. Vosso parente me pede para vos perguntar se assististes ao vosso enterro, e se ficastes satisfeito com o que ele fez nessa ocasião? -
R. Sim.

17. Desejais lhe dizer alguma coisa? -
R. Que se ore um pouco por mim.

18. Parece que na sociedade que freqüentáveis, algumas pessoas partilham as opiniões que tínheis quando vivo; teríeis alguma coisa a lhes dizer a esse respeito? -
R. Ah! Os infelizes! Possam crer em uma outra vida! É o que posso desejar-lhes de mais feliz; poderiam compreender a minha triste posição, isso os faria refletir muito.

Evocação do irmão do precedente, professando as mesmas idéias, mas que hão se suicidou. Embora infeliz, é mais calmo; sua escrita é limpa e legível.

19. Evocação. -
R. Possa o quadro de nossos sofrimentos vos ser uma lição útil, e vos persuadir de que existe uma outra vida, onde se expiam as suas faltas, a sua incredulidade!

20. Vós e o vosso irmão que acabamos de chamar vos vedes reciprocamente? -
R. Não, ele me foge.

21. Estais mais calmo do que ele; poderíeis nos dar uma descrição mais precisa dos vossos sofrimentos? -
R. Sobre a Terra não sofreis em vosso amor-próprio, em vosso orgulho, quando sois obrigado a convir com os vossos erros? O vosso Espírito não se revolta ao pensamento de vos humilhar diante daquele que vos demonstrou que estais no erro? Pois bem! O que credes que sofre o Espírito que, durante toda uma existência, persuadiu-se de que nada existe depois dele, que ele tem razão contra todos? Quando de repente se encontra em face da estrondosa verdade, ele é aniquilado, humilhado. A isso vem se juntar o remorso por ter podido, por tanto tempo, esquecer a existência de um Deus tão bom, tão indulgente. Seu estado é insuportável; não encontra nem calma, nem repouso; não reencontrará um pouco de tranqüilidade senão no momento em que a graça santa, quer dizer, o amor de Deus, o tocar, porque o orgulho se apodera de tal modo do nosso Espírito, que o envolve inteiramente, e é preciso ainda muito tempo para se desfazer dessa vestimenta fatal; o que não é senão as preces de nossos irmãos que pode nos ajudar a dele nos desembaraçarmos.

22. Quereis falar dos vossos irmãos vivos ou em Espírito? -
R. De uns e de outros.

23. Enquanto conversávamos com o vosso irmão, uma pessoa aqui presente orou por ele; essa prece lhe foi útil? -
R. Ela não estará perdida. Se ele recusa a graça agora, isso lhe virá, quando estiver em estado de recorrer a esta divina panacéia.

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 29 de Agosto de 2015, 14:11
O resultado dessas duas evocações, sendo transmitido à pessoa que nos pedira para fazê-las, recebemos dela a resposta seguinte:

"Não podeis crer, senhor, o grande bem produzido pela evocação de meu sogro e de meu tio. Reconhecemo-los perfeitamente; sobretudo a escrita do primeiro tem uma analogia marcante com aquela que tinha quando vivo, tanto melhor que, durante os últimos meses que passou conosco, ela era brusca e indecifrável; nela se encontra a mesma forma das pernas das letras do parágrafo e de certas letras, principalmente os d, f, o, p, q, t. Quanto às palavras, às expressões e ao estilo, é ainda mais surpreendente; para nós a analogia é perfeita, senão que está mais esclarecido sobre Deus, a alma e a eternidade que negava tão formalmente outrora. Estamos perfeitamente convencidos de sua identidade; Deus nisso será glorificado pela vossa crença mais firme no Espiritismo e nossos irmãos, Espíritos ou viventes, com isso se tornarão melhores. A identidade de seu irmão não é menos evidente; com a diferença imensa do ateu ao crente, reconhecemos o seu caráter, o seu estilo, as suas formas de frases; uma palavra sobretudo nos surpreendeu, é a de panacéia; era a sua palavra habitual; Ele a dizia e repetia a todos e a cada instante.

"Comuniquei essas duas evocações a várias pessoas que se surpreenderam com a sua veracidade; mas os incrédulos, aqueles que partilham as opiniões de meus dois parentes, gostariam de respostas ainda mais categóricas; que o Sr. D..., por exemplo, precisasse o lugar onde foi enterrado, aquele onde se afogou, de qual maneira fez isso, etc. Para satisfazê-los e convencê-los, não poderíeis evocá-lo de novo, e, nesse caso, poderíeis dirigir-lhe as perguntas seguintes: Onde e quando se cumpriu o seu suicídio? Quanto tempo ele permaneceu soba água? - Em que lugar seu corpo foi encontrado? - Em que lugar foi enterrado? – De que maneira, civil e religiosa, foi procedida a sua inumação? etc.

"Consenti, eu vos peço, senhor, fazer responder categoricamente a estas perguntas que são essenciais para aqueles que ainda duvidam; estou persuadido do bem imenso que isso produzirá. Espero que a minha carta vos chegue amanhã, sexta-feira, a fim de que possais fazer essa evocação na sessão da Sociedade que deve ocorrer nesse dia... etc."

Reproduzimos esta carta, por causa de um fato de identidade que ela constata; a ela juntamos a resposta que demos, para a instrução de pessoas que não estão familiarizadas com as comunicações de além-túmulo.

"... As perguntas que pedis para serem dirigidas de novo ao Espírito de vosso sogro, são, sem dúvida, ditadas por uma louvável intenção, a de convencer incrédulos; porque, em vós não se mistura nenhum sentimento de dúvida e de curiosidade; mas um mais perfeito conhecimento da ciência espírita vos faria compreender que elas são supérfluas. - Primeiro, pedindo-me para responder categoricamente ao senhor vosso padrasto, ignorais sem dúvida que não se governa os Espíritos à vontade; eles respondem quando querem, como querem, e, freqüentemente, como podem; a sua liberdade de ação é ainda maior do que quando vivos, e têm mais meios para escaparem ao constrangimento moral do que se poderia exercer sobre eles. As melhores provas de identidade são aquelas que eles dão espontaneamente, por sua própria vontade, ou que nascem de circunstâncias, e é, na maioria do tempo, em vão que se procure provocá-los. Vosso parente provou a sua identidade de maneira irrecusável, segundo vós; é, pois, mais que provável que recusaria responder a perguntas que, com razão, pode olhar como supérfluas e tendo em vista satisfazer a curiosidade de pessoas que lhe são indiferentes. Ele poderia responder, como freqüentemente fazem outros Espíritos em semelhante caso: "Por que me perguntar coisas que sabeis?" Acrescentarei mesmo que o estado de perturbação e de sofrimento, em que se encontra, deve lhe tornar mais penosas as procuras desse gênero; é absolutamente como se se quisesse constranger um enfermo que pode com dificuldade pensar e falar, a contar detalhes de sua vida; isso seria, seguramente, faltar à consideração que se deve em sua posição.

"Quanto ao resultado que esperais, seria nulo, estejais disto persuadido. As provas de identidade que foram fornecidas têm um valor bem maior, por isso mesmo que são espontâneas e que nada podia colocar sobre o caminho; se os incrédulos com elas não estão satisfeitos, não o estariam mais, talvez menos ainda, por perguntas previstas e que poderiam suspeitar de conivência. Há pessoas a quem nada pode convencer; elas veriam com seus olhos o Sr. vosso sogro em pessoa, e se diriam um joguete de alucinação. O que há de melhor a fazer com eles é deixá-los tranqüilos e não perder seu tempo com discursos supérfluos; não há senão que lamentá-los, porque não aprenderão senão muito depressa, às suas custas, o que custa por ter recusado a luz que Deus lhes enviava; é contra estes, sobretudo, que Deus faz manifestar-se a severidade."

"Duas palavras ainda, senhor, sobre o pedido que me fazeis de fazer essa evocação, no mesmo dia em que recebesse a vossa carta. As evocações não se fazem assim com uma varinha; os Espíritos não respondem sempre ao nosso chamado; é necessário, para isso, que possam ou que queiram; é necessário, além do mais, um médium que lhes convenha e que tenha aptidão especial necessária; que esse médium esteja disponível no momento dado; que o meio seja simpático ao Espírito, etc. Todas as circunstâncias pelas quais não se pode nunca responder, e que importa de conhecer quando se quer fazer a coisa seriamente.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 01 de Setembro de 2015, 16:38
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #33 em: 28 08 15, às 12:04 de ARenato

      DE: Sempre devemos buscar ter uma “fé raciocinada”!
....
      Renato disse: Meu nobre (nobre na alma) amigo e companheiro de jornada lconforjr; diferente talvez de companheiros nossos aqui no FE, eu sempre agradeço pelos seus questionamentos pois os mesmos me fizeram, ou obrigaram, a raciocinar melhor,

      Conf: e fico satisfeito com isso que vc disse pois é exatamente por isso que aqui coloco tantas perguntas: para provocar o raciocínio de mais alguém pois é, também exatamente isso que a doutrina recomenda fazer para que possamos entende-la: raciocinar e, sem dúvida, raciocinar profundamente! Sem raciocinar nunca vamos entendê-la, embora muitos acreditem que a estão entendendo.

      Pelo que pude constatar, nessas minhas 7 décadas de estudo, muitos simplesmente aceitam tudo que lhes vem à mão sobre a doutrina sem questionar, sem raciocinar, porq têm total confiança em suas fontes (afinal, isso acontece também com seguidores de todas as religiões). 

      Renato: muito embora em algumas vezes venha discordar da sua insistência em bater na mesma tecla com perguntas que nós ainda não temos a compreensão, o entendimento, pelo menos eu, das perguntas feitas por você a todos nós.

      Conf: meu amigo Renato, e porq vc discorda disso? O fato de eu repetir tantas vezes a mesma questão o aborrece? E já devo ter lhe dito porq insisto tanto em bater na mesma tecla! O que acontece é que, para mim, é muito difícil entender porq é que a doutrina insiste em recomendar que devemos ter uma “fé raciocinada”, se não encontramos nela (eu não encontrei! Vc encontrou?) as ferramentas para esse raciocínio, se até hoje nem mesmo sabemos qual é a causa de um ser bom e o outro ser mau! Como podemos raciocinar se nem mesmo sabemos o necessário para entender a base da doutrina, a finalidade para a qual ela existe? Se vc sabe, por favor, nos diga qual é!

      Renato: A escola da vida em muito contribui para que tenhamos uma melhor visão dos acontecimentos, isto para aqueles que não têm uma vida tão somente contemplativa, mas mesmo assim, embora já se tenha passado 20 séculos que o mestre Jesus deixou seus ensinamentos para todos nós, ainda não chegamos ao nível de evolução que possa ter a compreensão de tudo.

      Conf: e, sem dúvida, é essa mesma escola que nos faz escolher tantas vezes praticar as maiores perversidades, pois é exatamente ela que nos leva a possuir os mais monstruosos defeitos e imperfeições morais e, em consequência disso, nos faz passar por desesperadores e insuportáveis sofrimentos que o dia-a-dia nos mostra, concorda?

      Mas, meu amigo, nós somos responsáveis por não termos ainda chegado a esse nível de evolução? Se não somos, qual é a causa que nos leva a sofrer esses desesperadores sofrimentos que a vida nos mostra?

      Ren: A DE em seus 150 anos tem nos ajudado, também, a compreender melhor esta nossa vida neste mundo e nos outros, pois assim como os espíritos orientaram a Kardec nas suas codificações, deu a todos nós uma ferramenta para que através dela possamos ter essa melhor compreensão.

      Conf: e qual é essa ferramenta, meu jovem? E se a DE nos deu essa ferramenta, como vc explicará qual é causa de tantos não a usarem?!

      Um abraço e tenha, vc e os seus, um bom-dia!
..................
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 01 de Setembro de 2015, 17:39
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #15 em: 07 08 15, 15:21 de Moisés

      Moisés (resp anterior):... Não é o que parece amigo... parece-me que praticas uma celeuma... Me identifico com muitas coisas... mas há uma distância muito grande em dizer que foram escritas e ou feitas por mim...

      Conf: é possível que para o amigo pareça isso; não será essa a causa de vc nunca tentar dar respostas às questões que apresento? Observe nesta resp e nas anteriores qtas perguntas vc não respondeu! Praticamente nenhuma!

      Os amigos, inclusive vc, nem mesmo conseguem responder qual é a causa do porq uns são bons e outros são maus, pergunta que se não tivermos resposta, nunca vamos entender a DE!!

      Moisés: prossiga... o tópico é apenas de leitura... é de apresentação...

      Conf: e o que significa que “o tópico é apenas de leitura”? Sinceramente não entendi! Mas, sem dúvida, basta que seja apenas de leitura pois é pela leitura, principalmente de perguntas, que poderemos exercitar nosso raciocínio, que é exatamente o que a doutrina recomenda!
...........................
      Moisés: Não se chateie por eu não conseguir responder suas indagações. Não significa que elas não tenham respostas

      Conf: não existe motivo para ficar chateado com isso. Deve ficar chateado quem, mesmo depois de 150 anos que a codificação chegou ao nosso mundo, ainda não encontrou resposta para elas, pois são questões que, se não obtivermos respostas para elas jamais vamos entender a doutrina, concorda?

..........     
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 03 de Setembro de 2015, 13:50
Os agêneres
Revista Espírita, fevereiro de 1859

Repetimos muitas vezes a teoria das aparições, e a lembramos em nosso último número a
propósito de fenômenos estranhos que relatamos. A eles remetemos nossos leitores, para a
inteligência do que se vai seguir.

Todo mundo sabe que, no número das manifestações extraordinárias produzidas pelo senhor Home, estava a aparição de mãos, perfeitamente tangíveis, que cada um podia ver e apalpar, que pressionava e estreitava, depois que, de repente, não ofereciam senão o vazio quando as queriam agarrar de surpresa. Aí está um fato positivo, que se produziu em muitas circunstâncias, e que atestam numerosas testemunhas oculares. Por estranho e anormal que pareça, o maravilhoso cessa desde o instante em que se pode dele dar conta por uma explicação lógica; entra, então, na categoria dos fenômenos naturais, embora de ordem bem diferente daqueles que se produzem sob nossos olhos, e com os quais é preciso guardar-se para não confundi-los. Podem-se encontrar, nos fenômenos usuais, pontos de comparação, como aquele cego que se dava conta do clarão da luz e das cores pelo toque da trombeta, mas não de similitudes; é precisamente a mania de querer tudo assimilar àquilo que conhecemos, que causa decepções a certas pessoas; pensam poder operar sobre esses elementos novos como sobre o hidrogênio e o oxigênio. Ora, aí está o erro; esses fenômenos estão submetidos a condições que saem do círculo habitual de nossas observações; é preciso, antes de tudo, conhecê-las e com elas conformar-se, se se quiser obter resultados. É preciso, sobretudo, não perder de vista esse princípio essencial, verdadeira pedra principal da ciência espírita; é que o agente dos fenômenos vulgares é uma força física, material, que pode ser submetida às leis do cálculo, ao passo que nos fenômenos espíritas, esse agente é constantemente uma inteligência que tem sua vontade própria, e que não podemos submeter aos nossos caprichos.

Nessas mãos haviam a carne, pele, ossos, unhas reais? Evidentemente, não, não eram senão
uma aparência, mas tal que produzia o efeito de realidade. Se um Espírito tem o poder de
tornar uma parte qualquer de seu corpo etéreo visível e palpável, não há razão que não
possa ser do mesmo modo com os outros órgãos. Suponhamos, pois, que um Espírito
estenda essa aparência a todas as partes do corpo, creríamos ver um ser semelhante a nós,
agindo como nós, ao passo que isso não seria senão um vapor momentaneamente solidificado. Tal é o caso do fantasma de Bayonne. A duração dessa aparência está submetida
a condições que nos são desconhecidas; ela depende, sem dúvida, da vontade do Espírito,
que pode produzi-la ou fazê-la cessar à sua vontade, mas em certos limites que não está
sempre livre para transpor. Os Espíritos, interrogados quanto a esse assunto, assim também
sobre todas as intermitências de quaisquer manifestações, sempre disseram que agem em
virtude de uma permissão superior.

Se a duração da aparência corporal é limitada para certos Espíritos, podemos dizer que, em
princípio, ela é variável, e pode persistir por um maior ou menor tempo; que pode produzirse em todos os tempos e a toda hora. Um Espírito, cujo corpo todo fosse assim visível e palpável, teria para nós todas as aparências de um ser humano, e poderia falar conosco, sentar-se em nosso lar como uma pessoa qualquer, porque, para nós, seria um dos nossos semelhantes.

Partimos de um fato patente, a aparição de mãos tangíveis, para chegarmos a uma suposição
que lhe é a conseqüência lógica; e, todavia, não a teríamos insinuado se a história da criança
de Bayonne não tivesse sido colocada em nosso caminho, mostrando sua possibilidade. Um
Espírito superior, perguntado sobre esse ponto, respondeu que, com efeito, podem-se
encontrar seres dessa natureza sem disso duvidar; acrescentou que é raro, mas que isso se
vê. Como para se entender é preciso um nome para cada coisa, a Sociedade Parisiense de
Estudos Espíritas chama-os agêneres para indicar que sua origem não é o produto de uma
geração. O fato seguinte, que se passou recentemente em Paris, parece pertencer a essa
categoria:

Uma pobre mulher estava na igreja de Saint-Roch, e pedia a Deus vir em ajuda de sua
aflição. Em sua saída da igreja, na rua Saint-Honoré, ela encontrou um senhor que a abordou dizendo-lhe: "Minha brava mulher, estaríeis contente por encontrar trabalho? - Ah! meu bom senhor, disse ela, pedia a Deus que me fosse achá-lo, porque sou bem infeliz. - Pois bem! Ide em tal rua, em tal número; chamareis a senhora T...; ela vo-lo dará." Ali continuou seu caminho. A pobre mulher se encontrou, sem tardar, no endereço indicado - Tenho, com efeito trabalho a fazer, disse a dama em questão, mas como ainda não chamei ninguém, como ocorre que vindes me procurar? A pobre mulher, percebendo um retrato pendurado na parede, disse: - Senhora, foi esse senhor ali, que me enviou. - Esse senhor! Repetiu a dama espantada, mas isso não é possível; é o retrato de meu filho, que morreu há três anos. - Não sei como isso ocorre, mas vos asseguro que foi esse senhor, que acabo de encontrar saindo da igreja onde fui pedir a Deus para me assistir; ele me abordou, e foi muito bem ele quem me enviou aqui.

No que acabamos de ver, não haveria nada de surpreendente em que esse Espírito, do filho
dessa dama, para prestar serviço a essa pobre mulher, da qual havia, sem dúvida, ouvido a
prece, apareceu-lhe sob sua forma corporal para lhe indicar o endereço de sua mãe. Em que
se tornou depois? Sem dúvida, no que era antes: num Espírito, a menos que não tenha
julgado oportuno se mostrar as outras sob a mesma aparência, continuando seu passeio.
Essa mulher, assim, teria encontrado um agênere, com o qual conversou. Mas, então, dir-se-á, por que não se apresentou à sua mãe? Nessas circunstâncias, os motivos determinantes dos Espíritos nos são completamente desconhecidos; eles agem como melhor lhes parece, ou melhor, como disseram, em virtude de uma permissão sem a qual eles não podem revelar sua existência de maneira material. Compreende-se, de resto, que sua visão poderia causar uma emoção perigosa à sua mãe; e quem sabe se não se apresentou a ela, seja durante o sono, seja de outro modo? E, aliás, esse não era o meio de revelar-lhe sua existência? É mais que provável que foi testemunha invisível da entrevista.

O Fantasma de Bayonne parece-nos dever ser considerado como um agênere, pelo menos
nas circunstâncias em que se manifestou; porque para a família sempre teve o caráter de um
Espírito, caráter que ele jamais procurou dissimular: era seu estado permanente, e as
aparências corporais que tomou não foram senão acidentais; ao passo que o agênere,
propriamente dito, não revela sua natureza, e não é, aos nossos olhos, senão um homem
comum; sua aparição corporal pode, se for preciso, ter longa duração para poder estabelecer
relações sociais com um ou com vários indivíduos.

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 03 de Setembro de 2015, 13:53
Pedimos ao Espírito de São Luís consentir em nos esclarecer diferentes pontos, respondendo
às nossas perguntas.
1. O Espírito do Fantasma de Bayonne poderia se mostrar corporalmente em outros lugares e a outras pessoas senão em sua família? - R. Sim, sem dúvida.

2. Isso depende de sua vontade? - R. Não precisamente; o poder dos Espíritos é limitado;
não fazem senão o que lhes é permitido fazerem.

3. Que ocorreria se fosse apresentado a uma pessoa desconhecida? - R. Seria tomado por
uma criança comum. Mas vos direi uma coisa, é que existe, algumas vezes, na Terra,
Espíritos que revestem essa aparência, e que são tomados por homens.

4. Esses seres pertencem aos Espíritos inferiores ou superiores? - R. Podem pertencer aos
dois; esses são fatos raros. Deles tendes exemplos na Bíblia.

5. Raros ou não, basta que sejam possíveis para merecerem a atenção. Que ocorreria,
tomando semelhante ser por um homem comum, se lhe fizesse um ferimento mortal? Seria
morto? - R. Desapareceria subitamente, como o jovem de Londres. (Ver o número de
dezembro de 1858, Fenômeno de bi-corporeidade.)

6. Têm eles paixões? - R. Sim, como Espíritos, têm as paixões de Espíritos segundo a sua
inferioridade. Se tomam um corpo aparente, algumas vezes, é para gozarem as paixões
humanas; se são elevados, é para um fim útil.

7. Podem eles procriar? - R. Deus não lhes permitiria; seria contrário às leis que estabeleceu
para a Terra; elas não podem ser elididas.

8. Se um semelhante ser a nós se apresentasse, haveria um meio para reconhecê-lo? - R.
Não, apenas pela sua desaparição, que se faz de modo inesperado. É o mesmo fato do
transporte de móveis de um térreo ao sótão, fato que já lestes.

Nota. Alusão a um fato dessa natureza reportado no começo da sessão.

9. Qual é a finalidade que pode levar certos Espíritos a tomarem esse estado corporal; é
antes para o mal que para o bem? - R. Freqüentemente para o mal; os bons Espíritos
dispõem da inspiração; agem sobre a alma e pelo coração. Vós o sabeis, as manifestações
físicas são produzidas por Espíritos inferiores, e estas são desse número. Entretanto, como já
disse, os bons Espíritos também podem tomar essa aparência corpórea com um fim útil; falei
de modo geral.

10. Nesse estado, podem tomar-se visíveis ou invisíveis à vontade? - R. Sim, uma vez que
poderão desaparecer quando o quiserem.

11. Têm um poder oculto, superior ao dos outros homens? - R. Não têm senão o poder que
lhes dá sua posição como Espíritos.

12. Têm eles uma necessidade real de se alimentarem? - R. Não; o corpo não é um corpo
real.

13. Entretanto, o jovem de Londres não tinha um corpo real, e todavia almoçou com os
amigos, e lhes apertou a mão. Em que se tornou a alimentação ingerida? - R. Antes de
apertar a mão, onde estavam os dedos que pressionam? Por que não quereis compreender
que a matéria desaparece também? O corpo do jovem de Londres não era uma realidade,
uma vez que estava em Boulogne; era, pois, uma aparência; ocorria o mesmo com o
alimento que parecia ingerir.

14. Tendo-se um semelhante ser em casa, seria um bem ou um mal? - R. Seria antes um
mal; de resto, não se podem adquirir muitos conhecimentos com esses seres. Não podemos
dizer-vos muito, esses fatos são excessivamente raros e não têm, jamais, um caráter de
permanência. Suas desaparições corpóreas instantâneas, como as de Bayonne, o são muito
menos.

15. Um Espírito familiar protetor, algumas vezes, toma essa forma? - R. Não; não tem ele as
cordas interiores? Toca-as mais facilmente do que o faria sob forma visível, ou se o
tomássemos como um dos nossos semelhantes.

16. Perguntou-se se o conde de Saint-German não pertencia à categoria dos agêneres. - R.
Não; era um hábil mistificador.

A história do jovem de Londres, narrada em nosso número de dezembro, é um fato de
bicorporeidade, ou melhor, de dupla presença, que difere essencialmente daquele em
questão. O agênere não tem corpo vivo na Terra; somente seu perispírito toma forma
palpável. O jovem de Londres estava perfeitamente vivo; enquanto seu corpo dormia em
Boulogne, seu espírito, envolvido pelo perispírito, foi a Londres, onde tomou uma aparência
tangível.

Um fato quase análogo nos é pessoal. Enquanto estávamos pacificamente em nossa cama,
um dos nossos amigos viu-nos várias vezes em sua casa, embora sob uma aparência não
tangível, sentado ao seu lado e conversando com ele como de hábito. Uma vez nos viu com
roupão, outras vezes com paletó. Transcreveu nossa conversa, que nos comunicou no dia
seguinte. Ela era, pensando bem, relativa aos nossos trabalhos prediletos. Para fazer uma
experiência, ofereceu-nos refrescos, e eis nossa resposta: "Deles não necessito, uma vez que
não é meu corpo que aqui está; vós o sabeis, não há nenhuma necessidade de vos produzir
uma ilusão." Uma circunstância, bastante bizarra, se apresentou na ocasião. Seja
predisposição natural, seja resultado de nossos trabalhos intelectuais, sérios desde nossa
juventude, poderíamos dizê-lo desde a infância, o fundo do nosso caráter sempre teve uma
extrema gravidade, mesmo na idade em que não se pensa mais do que no prazer. Essa
preocupação constante nos dá um encontro muito frio, excessivamente frio mesmo; ao
menos é pelo que somos freqüentemente censurados; mas, sob essa falsa aparência glacial,
o Espírito sente, talvez mais vivamente, como se tivesse mais expansão exterior. Ora, em
nossas visitas noturnas ao nosso amigo, este ficou surpreso por nos achar diferente; éramos
mais aberto, mais comunicativo, quase alegre. Tudo respirando, em nós, a satisfação e a
calma do bem-estar. Não está aí um efeito do Espírito desligado da matéria?
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Setembro de 2015, 13:07
Fenômeno de transfiguração
Revista Espírita, março de 1859

Extraímos o fato seguinte de uma carta que nos escreveu, no mês de setembro de 1857, um de nossos correspondentes de St-Etienne. Depois de ter falado de diversas comunicações, das quais foi testemunha, acrescentou:

"Um fato mais espantoso se passa numa família de nossos vizinhos. Das mesas girantes
passou-se à poltrona que fala; depois amarrou-se um lápis nessa poltrona e essa poltrona
indicou a psicografia; foi praticada por muito tempo, antes como brinquedo do que como
coisa séria. Então a escrita designou uma das filhas da casa, ordenou passar as mãos sobre
sua cabeça depois de tê-la feito deitar; ela dormiu logo, e depois de um certo número de
experiências, essa jovem se transfigurou: tomou os traços, a voz, os gestos de ascendentes mortos, de avós que jamais conheceram, de um irmão falecido há alguns meses; essas transfigurações eram feitas sucessivamente em uma mesma sessão. Ela falava um dialeto que não era mais o da época, disse-me, porque não conhecia nem um nem o outro; mas o que posso afirmar, é que em uma sessão onde tomara a aparência de seu irmão, vigoroso gaiato, essa jovem de treze anos deu-me um rude aperto de mão.

"Há dezoito meses, ou dois anos, esse fenômeno é constantemente repetido do mesmo
modo, somente hoje produziu-se espontânea e naturalmente, sem imposição das mãos."

Esse estranho fenômeno, se bem que bastante raro, não é excepcional; já se falou de vários fatos semelhantes, e nós mesmos, várias vezes, fomos testemunha de alguma coisa análoga entre os sonâmbulos em estado de êxtase, e mesmo entre os extáticos que não estavam em sonambulismo. É certo, além do mais, que emoções violentas operam, sobre a fisionomia, uma mudança que lhe dá um caráter diferente daquele do estado normal. Não vemos, igualmente, pessoas cujos traços móveis se prestam, segundo sua vontade, a modificações que lhes permitem tomar as aparências de outras certas pessoas? Vê-se, pois, por aí, que a rigidez da face não é tal que não possa sujeitar-se a modificações passageiras, mais ou menos profundas, e nada há de espantoso em que um fato semelhante possa produzir-se, no caso em que se trata, embora, talvez, por um causa independente da vontade.

Eis as respostas que obtivemos de São Luís a esse respeito, na sessão da Sociedade, de 25
de fevereiro último.

1. O fato de transfiguração, do qual acabamos de falar, é real? -R. Sim.

2. Nesse fenômeno, há um efeito material? - R. O fenômeno de transfiguração pode ocorrer
de modo material, a tal ponto que, nas diversas fases que apresenta, poder-se-ia reproduzi-lo em daguerreotipia.

3. Como esse efeito se produziu? - R. A transfiguração, como a entendeis, não é senão uma modificação da aparência, uma mudança, uma alteração nos traços que pode ser produzida pela ação do próprio Espírito sobre seu envoltório, ou por uma influência exterior. O corpo nunca muda, mas, em conseqüência de uma contração nervosa, ele submete-se a aparências diversas.

4. Pode ocorrer que os espectadores sejam enganados por uma falsa aparência? - R. Pode
ocorrer também que o perispírito desempenhe o papel que conheceis. No fato citado, ocorreu contração nervosa, e a imaginação aumentou-a muito; de resto, esse fenômeno é bastante raro.

5. O papel do perispírito seria análogo ao que se passa no fenômeno de bicorporeidade? - R. Sim.

6. É preciso, então, que, no caso de transfiguração, haja desaparição do corpo real, para os espectadores que não vêem mais que o perispírito sob uma forma diferente? - R. Desaparição, não física, mas oclusão. Entendei-vos sobre as palavras.

7. Parece resultar disso que acabais de dizer que, no fenômeno da transfiguração, pode haver dois efeitos: 15 Alteração dos traços do corpo real, em conseqüência de uma contração, nervosa. 2° Aparência variável do perispírito que se torna visível. É assim que devemos entender? - R. Certamente.

8. Qual é a causa primeira desse fenômeno? - R. A vontade do Espírito.

9. Todos os Espíritos podem produzi-lo? - R. Não: os Espíritos não podem sempre fazer o que querem.

10. Como explicar a força anormal dessa jovem transfigurada na pessoa de seu irmão? - R. O Espírito não possui uma grande força? De resto, é a do corpo em seu estado normal.
Nota. Esse fato nada tem de surpreendente; freqüentemente, vêem-se as pessoas mais
fracas dotadas momentaneamente de uma força muscular prodigiosa, por uma causa
superexcitante.

11. Uma vez que, no fenômeno da transfiguração, o olhar do observador pode ver uma
imagem diferente da realidade, ocorre o mesmo em certas manifestações físicas? Quando por exemplo uma mesa se eleva sem o contato das mãos, e que é vista acima do solo, é
verdadeiramente a mesa que se destacou? - R. Podeis perguntá-lo?

12. O que é que a ergue? - R. A força do Espírito.

Nota. Esse fenômeno já foi explicado por São Luís, e tratamos essa questão, de modo
completo, nos números de maio e junho de 1858, a propósito da teoria das manifestações
físicas. Foi-nos dito que, nesse caso, a mesa, ou o objeto qualquer que se mova, se anima de uma vida factícia, momentânea, que lhe permite obedecer à vontade do Espírito.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Setembro de 2015, 13:12
Certas pessoas quiseram ver, nesse fato, uma simples ilusão de ótica que faria ver, por uma
espécie de miragem, a mesa no espaço, ao passo que ela estaria realmente sobre o solo.
Ainda que a coisa fosse assim, ela não seria menos digna de atenção; é notável que aqueles
que querem contestar ou denegrir os fenômenos espíritas, expliquem-nos por causas que
seriam, elas mesmas, verdadeiros prodígios, e bem mais difíceis de compreender-se; ora, por que, pois, tratar isso com tanto desdém? Se a causa que assinalam é real, por que não
aprofundá-la? O físico procura se render conta do menor movimento anormal da agulha
imantada; o químico na mais leve mudança na atração muscular por que, pois, ver-se com
indiferença fenômenos tão bizarros quanto aqueles dos quais falamos, fossem o resultado de um simples desvio do raio visual e uma nova aplicação de leis conhecidas? Isso não é lógico.

Não seria certamente impossível que, por um efeito de ótica análogo àquele que nos faz ver
um objeto na água mais alto do que está, em conseqüência da refração do raio luminoso,
uma mesa nos aparecesse no espaço, enquanto estivesse sob o sol; mas, há um fato que
resolve peremptoriamente a questão, é quando a mesa cai bruscamente sobre o solo e
quando ela se quebra; isso não nos parece ser uma ilusão de ótica. Voltemos à transfiguração.

Se uma contração muscular pode modificar os traços do rosto, isso não pode ser senão em
um certo limite; mas, seguramente, se uma jovem toma a aparência de um velho, nenhum
efeito psicológico far-lhe-á produzir a barba; é preciso, pois, procurar-lhe a causa em outro
lugar. Querendo-se reportar-se ao que dissemos precedentemente, sobre o papel do
perispírito em todos os fatos de aparições, mesmo de pessoas vivas, compreender-se-á que lá está ainda a chave do fenômeno da transfiguração. Com efeito, uma vez que o perispírito pode se isolar do corpo, que pode tornar-se visível, que pela sua extrema sutilidade pode tomar diversas aparências à vontade do Espírito, conceber-se-á, sem dificuldade, que ele esteja assim numa pessoa transfigurada: o corpo fica o mesmo, só o perispírito muda de aspecto. Mas, então, dir-se-á, em que se torna o corpo? De um lado o corpo real e de outro o perispírito transfigurado? Fatos estranhos, dos quais iremos falar oportunamente, provam que, em conseqüência da fascinação que se opera nessa circunstância no observador, o corpo real pode estar, de alguma sorte, velado pelo perispírito.

O fenômeno objeto desse artigo nos foi transmitido já há muito tempo, e se não falamos dele ainda, foi porque não nos propusemos fazer de nossa Revista um simples catálogo de fatos próprios para alimentar a curiosidade, uma árida compilação sem apreciação e sem
comentário; nossa tarefa seria muito fácil, e a tomamos mais a sério; dirigimo-nos, antes de tudo, aos homens de raciocínio, àqueles que, como nós, querem se render conta das coisas, tanto quanto isso seja possível. Ora, a experiência nos ensinou que os fatos, por estranhos e multiplicados que sejam, não são elementos de convicção; e o são tanto menos quanto sejam estranhos; quanto mais um fato é extraordinário, tanto mais parece anormal, menos se está disposto a crer nele; quer-se ver, e quando se viu, duvida-se ainda; desconfia-se de ilusões e conivências. Não ocorre assim quando se acha, nos fatos, uma razão de ser por uma causa plausível. Vemos todos os dias pessoas que rejeitaram outrora os fenômenos espíritas, à conta da imaginação e de uma cega credulidade, e que hoje são adeptos fervorosos, precisamente porque esses fenômenos não têm agora nada que repugne à sua razão; elas se os explicam, compreendem-lhes a possibilidade, e crêem neles mesmo sem terem visto.

Antes de falarmos de certos fatos, temos, pois, que esperar que os princípios fundamentais
estejam suficientemente desenvolvidos, para deles render-se conta; o da transfiguração está entre esse número. O Espiritismo é para nós mais que uma crença: é uma ciência, e estamos felizes em ver que os nossos leitores nos compreenderam.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Setembro de 2015, 15:26
Valor da prece

Revista Espírita - Agosto de 1862


 A mesma pessoa referida no fato precedente recebeu um dia a comunicação que se segue, espontaneamente, mas a princípio não compreendeu a sua origem.

 
“Vós não me esquecestes e jamais o vosso Espírito teve para mim um sentimento de perdão. É verdade que vos causei muito mal, mas há muito tempo sou castigada. Não parei de sofrer. Vejo-vos cumprindo os vossos deveres com tanta coragem para prover às necessidades de vossa família, e a inveja não cessou de me devorar o coração. Vossa... (Aqui paramos para perguntar quem era esse ser. O Espírito acrescentou: ‘Não me interrompais. Darei o nome quando terminar’) ... vossa resignação, que acompanhei, foi um dos meus maiores sofrimentos. Tende um pouco de compaixão de mim, se realmente sois discípula do Cristo. Eu estava muito só na Terra, embora entre os meus, e a inveja foi o meu maior defeito. Foi por inveja que dominei vosso marido. Parecia que retomáveis o domínio sobre ele, quando vos conheci, e me coloquei entre vós. Perdoai-me e tende coragem. Deus terá misericórdia de vós, por sua vez. Minha irmã, que oprimi durante minha vida, foi a única a orar por mim, mas são as vossas preces que me faltam. As outras não trazem para mim o selo do perdão. Adeus. Perdoai.

ANGÈLE ROUGET”
 
Acrescenta aquela senhora: “Então lembrei-me perfeitamente daquela criatura, falecida há uns vinte e cinco anos, e na qual não pensava há muitos anos. Pergunto-me como as preces de sua irmã, criatura suave e virtuosa, dedicada, piedosa e resignada, não seriam mais frutuosas do que as minhas. Diante disso, certamente admitireis que orei e perdoei”.
 
Resposta: O próprio Espírito o explica, quando diz: “As preces dos outros não trazem para mim o selo do perdão”. Com efeito, sendo aquela senhora a principal ofendida e tendo sofrido mais pela conduta da outra, envolvia o perdão em suas preces, o que deveria tocar ainda mais o Espírito culpado. Orando, sua irmã, por assim dizer, apenas cumpria um dever; do outro lado havia um ato de caridade. A ofendida tinha mais direito e mais mérito para pedir graça; seu perdão, pois, deveria tranquilizar mais o Espírito. Ora, sabe-se que o principal efeito da prece é agir sobre o moral do Espírito, tanto para acalmá-lo quanto para conduzi-lo ao bem. Trazendo-o ao bem, ela apressa a clemência do Juiz supremo, que sempre perdoa o pecador arrependido.
Imperfeita como é, em face da justiça divina, a justiça humana com frequência nos oferece exemplos semelhantes. Se um homem for levado ao tribunal, por ofensas a alguém, ninguém o defenderá melhor e lhe conseguirá a absolvição com mais facilidade do que o próprio ofendido, vindo generosamente retirar a queixa.
Tendo sido lida a comunicação acima na Sociedade de Paris, provocou a seguinte pergunta de um de seus membros:

“Os Espíritos pedem, sem cessar, preces aos mortais. Será que os bons Espíritos não oram pelos sofredores? E, nesse caso, por que as dos homens são mais eficazes?”
 
A resposta que se segue foi dada na mesma sessão, por Santo Agostinho, através do médium Sr. E. Vézy:
 
Orai sempre, filhos; eu já vos disse: a prece é um orvalho benfazejo que deve tornar menos árida a terra ressequida. Venho repetir ainda, e acrescentar algumas palavras em resposta à vossa pergunta.
Perguntais por que os Espíritos sofredores preferem pedir preces a vós do que a nós. As preces dos mortais são mais eficazes que as dos bons Espíritos?
- Quem vos disse que nossas preces não tinham a virtude de espargir consolação e dar força aos Espíritos fracos que não podem ir a Deus senão com esforço e muitas vezes sem coragem? Se imploram as vossas preces, é porque elas têm o mérito das emanações terrenas, que sobem voluntariamente a Deus. Essas eles sempre apreciam, por virem da vossa caridade e do vosso amor.
Para vós, orar é abnegação; para nós, um dever. O encarnado que ora pelo próximo cumpre a nobre tarefa de puros Espíritos; sem possuir a coragem e a força destes, realiza as suas maravilhas. É apanágio de nossa vida consolar o Espírito que pena e sofre, mas uma de vossas preces é o colar que tirais do vosso pescoço para dar ao indigente; é o pão que retirais de vossa mesa para dá-lo ao que tem fome, eis porque vossas preces são agradáveis ao que as escuta. Um pai não acede sempre à prece do filho pródigo? Não chama todos os seus servidores para matar o vitelo gordo pela volta do filho culpado? Como não faria ainda mais por este último que de joelhos lhe vem dizer: “Ó meu pai, sou muito culpado; não vos peço graça, mas perdoai a meu irmão arrependido, mais fraco e menos culpado que eu!” Oh! É então que o pai se enternece; é então que arranca do peito tudo o que ele pode conter de dons e de amor. Ele diz: “Estavas cheio de iniquidades; te disseste criminoso; mas, compreendendo a enormidade de tuas faltas, não me pediste graça para ti; tu aceitas o sofrimento de meu castigo e, a despeito de tuas torturas, tua voz tem força bastante para pedir por teu irmão!” Pois bem! O pai não quer ser menos caridoso que o filho: ele perdoa a ambos; a um e ao outro ele segurará as mãos, para que possam marchar em linha reta no caminho que leva à sua glória.
Eis, meus filhos, por que os Espíritos sofredores que vagam em torno de vós, imploram as vossas preces; nós devemos orar; vós podeis orar. Prece do coração, tu és a alma das almas, se assim me posso exprimir; quintessência sublime que se eleva sempre casta, bela e radiosa na alma mais vasta de Deus.

SANTO AGOSTINHO
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Setembro de 2015, 21:20
Revista Espírita
Setembro /1869

(Paris, 14 de agosto de 1869)

A opinião dos homens pode dispersar-se momentaneamente, mas a justiça de Deus, eterna e imutável, sabe recompensar, quando a justiça humana castiga, perdida pela iniqüidade e pelo interesse pessoal. Apenas cinco séculos (um segundo na eternidade) se passaram desde o nascimento do
obscuro e modesto trabalhador e já a glória humana, à qual ele não
se prende mais, substituiu a sentença infamante e a morte ignominiosa, incapazes de abalar a firmeza de suas convicções.

Como és grande, meu Deus, e como é infinita a tua sabedoria! Sob o teu sopro poderoso minha morte tornou-se um instrumento de progresso. A mão que me feriu alcançou, com o mesmo golpe, os terríveis erros seculares de que se encharcou o espírito humano. Minha voz encontrou eco nos corações
indignados pela injustiça de meus algozes, e meu sangue, derramado como um orvalho benfazejo sobre um solo generoso, fecundou e desenvolveu nos espíritos adiantados de meu tempo os princípios da eterna verdade. Eles compreenderam, refletiram, analisaram, trabalharam e, sobre bases informes, rudimentares das primeiras crenças liberais, edificaram, na sucessão das eras, doutrinas filosóficas verdadeiramente generosas, profundamente
religiosas e eternamente progressivas.

Graças a eles, graças aos seus trabalhos perseverantes, o mundo sabe que João Huss viveu, sofreu e morreu por suas crenças; é muito, meu Deus, para os meus frágeis esforços, e meu espírito reabilitado tem dificuldade em resistir aos sentimentos de reconhecimento e de amor que o arrebatam. Reconhecer que se enganaram ao me condenar, era justiça; as homenagens e os testemunhos de simpatia com que me glorificam são excessivos
para os meus fracos méritos.

O Espírito humano tem caminhado desde que o fogo consumiu meu corpo. Uma chama não mais destrutiva, mas regeneradora, abarca a Humanidade; seu contato purifica, seu calor faz crescer e vivifica. Nesse foco benfazejo vêm reanimar-se todos os feridos pela dor, todos os torturados pela provação da dúvida e da incredulidade. O sofredor se afasta consolado e forte; o indeciso, o incrédulo e o desesperado, cheios de ardor, de firmeza e de
convicção, vêm engrossar o exército ativo e fecundo das falanges
emancipadoras do futuro.

Aos que me pediam uma retratação, respondi que só renunciaria às minhas crenças diante de uma doutrina mais completa, mais satisfatória, mais verdadeira. Pois bem! desde esse tempo meu Espírito se engrandeceu; encontrei algo melhor do que havia conquistado e, fiel aos meus princípios, repeli sucessivamente o que minhas antigas convicções tinham de errôneo, para acolher as verdades novas, mais largas, mais consentâneas com a idéia que eu fazia da natureza e dos atributos de Deus. Espírito, progredi no
espaço; voltando à Terra, progredi também. Hoje, voltando novamente à pátria das almas, estou na fila da frente ao lado de todos os que, sob este ou aquele nome, marcham sincera e ativamente para a verdade e se dedicam, de coração e de espírito, ao desenvolvimento progressivo do espírito humano.

Obrigado a todos os que reverenciam em minha personalidade terrestre a memória de um defensor da verdade; obrigado, sobretudo, aos que sabem que, acima do homem há o Espírito, libertado pela morte dos entraves materiais, a inteligência livre que trabalha em acordo com as inteligências exiladas, a alma que gravita incessantemente para o centro de atração de todas as criações: o infinito, Deus!
- João Huss (Espírito de:)

(Paris, 17 de agosto de 1869)

Analisando através das eras a história da Humanidade, o filósofo e o pensador logo reconhecem, na origem e no desenvolvimento das civilizações, uma gradação insensível e contínua. – De um conjunto homogêneo e bárbaro surge, em primeiro lugar, uma inteligência isolada, desconhecida e perseguida, mas que, não obstante, faz época e serve de baliza, de ponto de
referência para o futuro. – A tribo, ou se quiserdes, a nação, o Universo avançam em idade e as balizas se multiplicam, semeando aqui e ali os princípios de verdade e de justiça que serão a partilha das gerações que chegam. Essas balizas esparsas são os precursores; eles semeiam uma idéia, desenvolvem-na durante sua vida terrena, vigiam-na e a protegem no estado de Espírito, e voltam periodicamente através dos séculos para trazerem seu concurso e sua atividade ao seu desenvolvimento.

Tal foi João Huss e tantos outros precursores da filosofia espírita.

Semearam, laboraram e fizeram a primeira colheita; depois voltaram para semear ainda, esperando que o futuro e a intervenção providencial viessem fecundar sua obra.

Feliz aquele que, do alto do espaço, pode contemplar as diversas etapas percorridas e os trabalhos realizados por amor à verdade e à justiça; o passado não lhe dá senão satisfação, e se suas tentativas foram incompletas e improdutivas no presente, se a perseguição e a ingratidão por vezes ainda vêm perturbar a sua tranqüilidade, ele pressente as alegrias que lhe reserva o futuro.

Glória na Terra e nos espaços a todos os que consagraram a existência inteira ao desenvolvimento do espírito humano. Os séculos futuros os veneram e os mundos superiores lhes reservam a recompensa devida aos benfeitores da Humanidade.
João Huss encontrou no Espiritismo uma crença mais completa, mais satisfatória que suas doutrinas e o aceitou sem restrição. – Como ele, eu disse aos meus adversários e contraditores: “Fazei algo de melhor e me reunirei a vós.”

O progresso é a eterna lei dos mundos, mas jamais seremos ultrapassados por ele, porque, do mesmo modo que João Huss, sempre aceitaremos como nossos os princípios novos, lógicos e verdadeiros que cabe ao futuro nos revelar.

-Allan Kardec (Espírito de:)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Setembro de 2015, 15:29
Revista Espírita
(fevereiro / 1865)


Poesia Espírita
INSPIRAÇÃO DE UM EX-INCRÉDULO A PROPÓSITO
DE O LIVRO DOS ESPÍRITOS


Pelo Dr. Niéger
27 de dezembro de 1864

Tal aquele que um dia, em naufrágio encontrado,
Nos destroços do barco em desespero, a nado,
Sem força ante a fadiga e a esperança a perder
De a seu país chegar e nunca mais rever,
Lembra-se então de orar, que a fé sua alma afaga;
Quando súbito emerge um clarão sobre a vaga
De uma terra ignorada acesso lhe indicando,
O náufrago cansado, esforços redobrando,
Rapidamente alcança a margem protetora,
E agradecido a Deus antes de tudo ele ora,
Sentindo, assim, que a fé lhe renasce com ardor,
Obedecer-Lhe a lei promete ao Salvador!

Isso eu senti um dia, o vosso livro ao ler,
Senti no coração coragem renascer.
Muito tempo ocupado em buscar os segredos
Da vida corporal que contava nos dedos,
Mas nada de apanhar-lhe as causas e a razão
Que pareciam sempre escapar-me à visão.
Vosso livro ao me abrir mais novos horizontes
Para os trabalhos meus fez surgir outras fontes.
Aí vi que tinha feito errada rota então,
E dúvida não mais, só fé no coração.
De fato, o homem que sai das mãos do Criador,
Não pode ser lançado aqui ao desamor,
Pois uma santa lei por Deus mesmo outorgada,
A reger o Universo inteiro é destinada!
Progresso é o nome seu, para bem a cumprir
Os homens, entre si, procurem se reunir.

Que cenários de luz, que páginas sinceras
Nesse livro que aborda o homem das priscas eras,
Que mostra antes de tudo os primeiros humanos,
Colhendo o bem-estar sem trabalhos insanos!
A guiá-lo da vida a tão belo proscênio,
Somente o instinto, sim! E só mais tarde o gênio.
Do homem nascerá esse fogo sagrado,
E o espírito do bem sempre muito inspirado,
Do demônio vencido as cadeias quebrando
A partir de então irá mais sendas devassando.
Lá, sobre um frágil barco, ousados marinheiros
Afrontam vagalhões quais valentes guerreiros
A lançarem-se ao mar... E vaga antes temida
A desafio tal recua enfim batida.
Além, da águia a imitar o vôo audacioso,
Vê-se o homem a ensaiar assalto aos céus, brioso!
Mais longe de um rochedo, em sua audácia incrível,
Na imensidão do céu perscruta o indefinível;
Do Universo sem-fim ele descobre a lei,
E do mundo se faz em breve o único rei!

Nem aí se detém seu incrível ardor:
Em um tubo reter o impalpável vapor,
Que avança então montando esse dragão de fogo;
As mais rudes ações não são mais do que um jogo
Do gênio em tudo a expor sua marcha devida,
Onde reinava a morte ele faz nascer vida.
Parecia que aqui o seu vôo ele finda;
Mas inflexível lei lhe exige mais ainda,
E veremos da terra esse senhor então
De uma nuvem espessa arrancar o trovão,
Em dócil instrumento alterar seu furou,
E de um poste fazer humilde servidor!

Limites pois não há para o saber humano.
Para o cosmo fez Deus do homem um soberano;
A ele cabe encontrar por esforços constantes
Do corpo e da alma os bens sublimes e brilhantes.
E que ele descartando a rota assaz batida,
Descortine afinal a luz desconhecida
Já por tão longo tempo oculta ao seu olhar.
Busquemos do progresso o lábaro elevar;
Abordemos e já a trilha e vasta messe
Ao nosso esforço aberta... Ante o amor e ante a prece:
Que normas divinas em nosso pavilhão!
Prossigamos enfim em fraterna união.
Se for preciso um dia em luta sucumbirmos,
Nós rogamos, Senhor, que ao menos ao cairmos
A coragem na fé nossos filhos, assim,
Inspires a cumprir a tua lei, enfim.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 30 de Setembro de 2015, 21:21
César, Clóvis e Carlos Magno
 (julho / 1862)

- Ensinamentos e dissertações espíritas

Sociedade Espírita de Paris, 24 de janeiro de 1862;
assunto proposto - Médium Sr. A. Didier


 
Esta não é apenas uma questão material, mas também muito espiritualista. Antes de abordar o ponto principal, há outro do qual falaremos em primeiro lugar.

O que é a guerra? A guerra, respondemos de saída, é permitida por Deus, pois existe, existiu e existirá sempre. É erro, na educação da inteligência, não ver em César senão um conquistador; em Clóvis um bárbaro e em Carlos Magno um déspota cujo sonho insensato era fundar um imenso império. Ah! Meu Deus! como geralmente se diz, os conquistadores são, eles próprios, joguetes de Deus. Como sua audácia, seu gênio os fez chegar ao primeiro posto, viram em torno de si não só homens armados, mas ideais, progresso, civilizações que era necessário lançar sobre as outras nações.

Eles partiram, como César, para levar Roma a Lutécia; como Clóvis, para levar os germes de uma solidariedade monárquica; como Carlos Magno para fazer raiar o facho do Cristianismo para os povos cegos, nas nações já corrompidas pelas heresias dos primeiros tempos da Igreja.

Ora, eis o que aconteceu:

César, o mais egoísta desses três grandes gênios, faz servir a tática militar, a disciplina, a lei, numa palavra, para impô-las às Gálias. Na retaguarda do exército, seguia a ideia imortal e as populações vencidas e indomáveis sofriam o jugo de Roma, é certo, mas se tornavam províncias romanas.

A orgulhosa Marselha teria existido sem Roma? Lugdunum, e tantas outras cidades célebres nos anais, tornaram-se centros imensos, focos de luz para as ciências, as letras e as artes.

César é, pois, um grande propagador, um desses homens universais que se servem do homem para civilizar o homem, um desses homens que sacrificam homens em proveito da ideia.

O sonho de Clóvis foi estabelecer uma monarquia, bases, uma regra para o seu povo. Mas, como a graça do Cristianismo não o iluminava ainda, foi um propagador bárbaro. Devemos encará-lo na sua conversão. De imaginação ativa, febril, belicosa, viu na vitória sobre os visigodos um prêmio da proteção de Deus, e daí por diante, certo de estar sempre com ele, fez-se batizar. Eis que o batismo se propaga nas Gálias e o Cristianismo se expande cada vez mais. É o momento de dizer, com Corneille, que Roma não era mais Roma. Os bárbaros invadiam o mundo romano.

Depois do abalo de todas as civilizações esboçadas pelos romanos, eis que um homem sonha espalhar pelo mundo, não mais os mistérios e o prestígio do Capitólio, mas as crenças formidáveis de Aix-la-Chapelle. Eis um homem que está, ou que julga estar com Deus. Um culto odioso, rival do Cristianismo, ainda ocupa os bárbaros. Carlos Magno cai sobre essa gente, e Witikind, depois de lutas e de vitórias alternadas, submete-se, por fim, humildemente, e recebe o batismo.

Eis aí, por certo, um quadro imenso, onde se desenrolam tantos fatos, tantos golpes da Providência, tantas quedas e tantas vitórias. Mas qual a conclusão? A ideia, universalizando-se, propagando-se mais e mais, não esbarrando nem nos desmembramentos das famílias, nem no desânimo dos povos, e tendo por objetivo, por toda parte, a implantação da cruz do Cristo em todos os pontos da Terra, não é um imenso fato espiritualista?

É necessário, pois, encarar esses três homens como grandes propagadores que, por ambição ou por crença, introduziram a luz no Ocidente, quando o Oriente sucumbia na embriagadora preguiça e na inatividade.

Ora, a Terra não é um mundo em que o progresso se faça rapidamente e por via da persuasão e da mansuetude. Não vos admireis, pois, que muitas vezes seja preciso tomar da espada, em vez da cruz.

LAMENNAIS

P. - Dissestes que existirá sempre a guerra. Contudo, parece que o progresso moral, destruindo as suas causas, a fará cessar.

R. - Ela existirá sempre, no sentido em que sempre haverá lutas. Mas as lutas mudarão de forma. É verdade que o Espiritismo deve espalhar no mundo a paz e a fraternidade. Mas, bem o sabeis, se o bem triunfa, não obstante, sempre haverá luta. Evidentemente o Espiritismo cada vez mais fará compreender a necessidade da paz, mas o mal vela sempre. Ainda será necessário muito tempo, na Terra, lutar pelo bem. Apenas as lutas se irão tornando cada vez mais raras.

(Mesmo assunto - Médium: Sr. Leymar)

A influência dos homens de gênio sobre o futuro dos povos é incontestável. Nas mãos da Providência eles são instrumentos para abreviar as grandes reformas que, sem eles, só viriam depois de muito tempo. São eles que semeiam os germes das ideias novas, e muitas vezes eles voltam alguns séculos mais tarde, sob outros nomes, para continuar ou completar a obra que começaram.

César, essa grande figura da Antiguidade, nos representa o gênio da guerra, a lei organizada. As paixões por ele levadas ao extremo abalaram profundamente a sociedade romana. Ela muda de face, e na sua evolução tudo se transforma a seu redor. Os povos sentem mudar a sua antiga constituição. Uma lei implacável, a da força, une o que não devia separar-se, conforme a época em que vivia César.

Sob sua mão triunfante as Gálias se transformam e, após dez anos de combates, constituem uma unidade poderosa. Mas dessa época data a decadência romana. Levada ao excesso, essa potência que fazia tremer o mundo, cometia as faltas do poder extremo.

Tudo quanto cresce além das proporções assinaladas por Deus deve cair também. Esse grande império foi invadido por uma nuvem de povos saídos de regiões então desconhecidas. O renome tinha levado, com as armas de César, as novas ideias aos países do Norte, que se precipitaram sobre ele como sobre uma torrente.

Vede essas tribos bárbaras lançando-se rapaces sobre as províncias onde o sol era melhor, o vinho mais doce, as mulheres mais belas. Elas atravessavam as Gálias, os Alpes, os Pirineus, para ir fundar suas colônias em toda parte e desagregar o grande corpo chamado Império Romano.

Só o gênio de César tinha bastado para levar sua nação ao auge do poder. Dele data a época da renovação, em que todos os povos se confundem, se atritam uns com outros, buscando outras coesões, outros elementos.

Entretanto, durante vários séculos, que ódio entre essa gente! Quantos combates! Quantos crimes! Quanto sangue!

BARBARET

Com sua mão bárbara, Clóvis devia ser o ponto de partida de uma nova era para os povos. Obedecia ao costume e, para formar uma nação, não recuava ante coisa alguma. Formava-a com o punhal e a astúcia. Criava um novo elemento, adotando o batismo, iniciando seus rudes soldados numa nova crença. Entretanto, depois dele, tudo ia à deriva, apesar da ideia, apesar do Cristianismo. Eram necessários Carlos Martel, Pepino e depois Carlos Magno.

Saudemos essa figura poderosa, essa natureza enérgica que sabe, novo César, reunir num feixe todos os povos dispersos, mudar as ideias e dar uma forma a esse caos. Carlos Magno é a grandeza na guerra, na lei, na política, na moralidade nascente, que devia fundir os povos e lhes dar a intuição da conservação, da unidade, da solidariedade.

Dele datam os grandes princípios que formaram a França. Dele datam nossas leis e nossas ciências aplicadas. Transformador, era ele marcado pela Providência para ser o traço de união entre César e o futuro. Também o chamam o Grande porque, se empregou terríveis meios de execução, foi para dar forma e um pensamento único a essa reunião de povos bárbaros que não podiam obedecer senão a quem era poderoso e forte.

BARBARET

NOTA: Como o nome era desconhecido, pediu-se ao Espírito que desse alguns esclarecimentos sobre a sua pessoa.

Eu vivia no tempo de Henrique IV. Era entre todos humilde. Perdido nessa Paris onde tão bem se esquece aquele que se esconde e só busca o estudo, eu gostava de ser só, de ler e comentar à minha maneira. Pobre, eu trabalhava, e o labor diário me dava essa alegria inefável que se chama liberdade. Eu copiava livros e fazia essas maravilhosas vinhetas, prodígios de paciência e de saber que me davam apenas o pão e a água em troca de toda a minha paciência. Mas eu estudava, amava a minha pátria e buscava a verdade na Ciência. Ocupava-me de História e para a minha França bem-amada eu desejava a liberdade. Eu desejava a realização de todas as aspirações sonhadas na minha humildade.

Desde então, estou num mundo melhor, e Deus me recompensou de minha abnegação, dando-me essa tranquilidade de espírito, em que todas as obsessões do corpo estão ausentes, e eu sonho pelo meu país, pelo mundo inteiro, pela nossa Terra, pelo amor e pela liberdade.

Venho muitas vezes para vos ver e vos ouvir. Gosto dos vossos trabalhos e deles participo com todo o meu ser. Desejo-vos perfeitos e satisfeitos no futuro. Que sejais felizes, como eu o desejo. Mas não o sereis completamente se não vos despojardes da roupagem velha que desde muito veste o mundo inteiro. Falo do egoísmo. Estudai o passado, a história do vosso país e aprendereis mais com o sofrimento dos vossos irmãos do que com qualquer outra ciência.

Viver é saber, é amar, é auxiliar-se mutuamente. Ide, pois, e fazei segundo o vosso Espírito. Deus vos vê e vos julga.

(texto recebido por e-mail pela IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Outubro de 2015, 15:28
Epidemia demoníaca na Sabóia
(Revista Espírita, abril de 1862)


Há tempos os jornais falaram de uma monomania epidêmica que aconteceu numa região da Alta Saboia e contra a qual falharam todos os recursos da medicina e da religião. O único meio que produziu resultados mais ou menos satisfatórios foi a dispersão dos indivíduos por diversas cidades.

A respeito recebemos do capitão B..., membro da Sociedade Espírita de Paris, atualmente em Annecy, a seguinte carta:

“Annecy, 7 de março de 1862.

“Sr. Presidente,

“Querendo ser útil à Sociedade, tenho a honra de remeter-lhe uma brochura, enviada por um de meus amigos, o Dr. Caille, encarregado pelo ministro de acompanhar o inquérito feito pelo Sr. Constant, inspetor das casas de alienados, sobre os casos muito numerosos de demonomania observados na comuna de Morzine, departamento de Thonon, na Alta Saboia.

“Ainda hoje essa infeliz população se acha sob a influência da obsessão, a despeito dos exorcismos, dos tratamentos médicos, das medidas tomadas pelas autoridades e do internamento nos hospitais do departamento. Os casos diminuíram um pouco, mas não cessaram e o mal existe, por assim dizer, em estado latente.

“Com o objetivo de exorcizar esses infelizes, na maioria crianças, o cura mandou trazê-los à igreja, conduzidos por homens vigorosos. Apenas pronunciou as primeiras palavras latinas, e produziu-se uma cena terrificante: gritos, saltos furiosos, convulsões, etc., a tal ponto que mandaram chamar a polícia e uma companhia de infantaria para restabelecer a ordem.

"Não me foi possível obter todas as informações que desejava mandar-vos hoje, mas os fatos me parecem bastante sérios e dignos de vosso exame.

O alienista Dr. Arthaud, de Lyon, fez um relatório para a sociedade médica desta cidade, que foi publicado pela Gazette Médicale de Lyon e que o senhor poderá obter através do seu correspondente.

“No hospital desta cidade temos duas senhoras de Morzine, em tratamento. O Dr. Caille concluiu por uma afecção nervosa epidêmica rebelde a toda espécie de tratamento e de exorcismo. Só o isolamento produziu bons resultados. Todos esses infelizes obsedados, em suas crises, pronunciam palavras sujas; dão saltos prodigiosos por cima das mesas; trepam em árvores; sobem nos telhados e às vezes profetizam.

“Se fatos idênticos ocorreram nos séculos dezesseis e dezessete nos conventos e nos campos, não é menos certo que no nosso século dezenove eles oferecem a todos os espíritas um assunto de estudo do ponto de vista da obsessão epidêmica, generalizando-se e persistindo durante anos, pois o primeiro caso observado foi há cinco anos.

“Terei a honra de vos enviar todos os documentos e informações que puder obter.

“Receba, etc.

“B...”

As duas comunicações que se seguem foram dadas sobre o assunto, na Sociedade de Paris, por nossos Espíritos habituais:

“Não são médicos, mas magnetizadores, espiritualistas ou espíritas que deveriam ser enviados para dissipar a legião de Espíritos malévolos extraviados no vosso planeta. Digo extraviados porque eles estão apenas de passagem. Entretanto, por muito tempo a infeliz população, manchada ao seu impuro contato, sofrerá, moral e fisicamente.

“Onde o remédio? perguntais. Surgirá do mal, porque os homens, apavorados com essas manifestações, acolherão com entusiasmo o benéfico contato dos bons Espíritos que as sucederão, como a aurora sucede à noite. Essa pobre população, alheia a qualquer trabalho intelectual, não teria conhecido as comunicações inteligentes dos Espíritos, ou nem mesmo as teria percebido. A iniciação e os males causados por essa turba impura abrem olhos fechados, e as desordens, os atos de demência, são apenas o prelúdio da iniciação, porque todos devem participar da grande luz espírita.

“Não vos lamenteis por essa maneira cruel de proceder. Tudo tem um fim e os sofrimentos devem fecundar, assim como as tempestades que destroem a colheita de uma região enquanto fertilizam outras.

“GEORGES” (Médium: Sra. Costel)

“Os casos de demonomania que agora ocorrem na Saboia também se produzem em muitos outros lugares, notadamente na Alemanha, mas muito principalmente no Oriente.

“Esse fato anormal é mais característico do que pensais. Em verdade, ao observador atento revela uma situação análoga à que se manifestou nos últimos anos do paganismo. Ninguém ignora que quando o Cristo, nosso bem-amado mestre, encarnou-se na Judeia, sob a personalidade do carpinteiro Jesus, aquela região havia sido invadida por legiões de maus Espíritos que, pela possessão, como hoje, se apoderavam das classes sociais mais ignorantes; dos Espíritos encarnados mais fracos e menos adiantados, numa palavra, dos indivíduos que guardavam os rebanhos ou que se dedicavam aos trabalhos do campo.

“Não percebeis uma grande analogia na reprodução desses fenômenos idênticos de possessão? Ah! Nisto existe um ensinamento muito profundo! Disto deveis concluir que cada vez mais se aproximam os tempos preditos e que o Filho do Homem em breve virá expulsar de novo a turba de Espíritos impuros que se abateram sobre a Terra e reavivar a fé cristã, dando a sua alta e divina sanção às consoladoras revelações e aos regeneradores ensinamentos do Espiritismo.

“Voltando aos casos atuais de demonomania, é preciso lembrar que os cientistas e os médicos do século de Augusto trataram, conforme os processos hipocráticos, os infelizes possessos da Palestina e que toda a sua ciência fracassou ante esse poder desconhecido.

“Ora! Ainda hoje todos os vossos inspetores de epidemias; todos os vossos mais notáveis alienistas, sábios doutores em materialismo puro, fracassam do mesmo modo ante essa doença exclusivamente moral; diante dessa epidemia exclusivamente espiritual.

“Mas, que importa! Meus amigos, vós que fostes tocados pela graça nova, sabeis quanto esses males passageiros são curáveis pelos que têm fé. Esperai, pois. Esperai com confiança a vinda dAquele que já resgatou a Humanidade; a hora se aproxima; o Espírito precursor já está encarnado. Em breve, pois, se efetivará o desenvolvimento completo desta doutrina que tomou por divisa: Fora da Caridade não há salvação!

 “ERASTO”

(Médium: Sr. d’Ambel)

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Outubro de 2015, 15:30
Do que precede, deve-se concluir que não se trata de uma afecção orgânica, mas de uma influência oculta. Pouco nos custa crer, tendo em vista a constatação de numerosos casos isolados idênticos a este, devidos à mesma causa; a prova disto é que os meios ensinados pelo Espiritismo bastaram para fazer cessar a obsessão.

Está demonstrado pela experiência que os Espíritos perversos não só agem sobre o pensamento, mas também sobre o corpo, com o qual se identificam e do qual se servem como se lhes pertencesse. Eles provocam atos ridículos, gritos, movimentos desordenados com toda a aparência da loucura ou da monomania.

A explicação disso encontra-se em O Livro dos Médiuns, no capítulo “Da obsessão”. Num próximo artigo citaremos alguns fatos que o demonstram de modo incontestável.

Com efeito, é uma espécie de loucura, de vez que se pode dar esse nome a todo estado anormal em que o espírito não age livremente. Nesse ponto de vista, a embriaguez é uma verdadeira loucura acidental.

É necessário, pois, distinguir a loucura patológica da loucura obsessional. A primeira é produzida por uma desordem nos órgãos da manifestação do pensamento. Notemos que nesse estado de coisas não é o Espírito que é louco, porque ele conserva a plenitude de suas faculdades, como o demonstra a observação. Contudo, estando desorganizado o instrumento de que se serve para manifestar-se, o pensamento, ou melhor, a expressão do pensamento é incoerente.

Na loucura obsessional não há lesão orgânica. É o próprio Espírito que é afetado pela subjugação de um Espírito estranho que o domina e comanda. No primeiro caso é preciso tentar curar o órgão doente; no segundo, basta livrar o Espírito enferno do hóspede importuno, a fim de restituir-lhe a liberdade.

Casos semelhantes são muito frequentes e comumente consideram loucura o que não passa de obsessão, para a qual deveriam empregar-se meios morais e não duchas. Pelo tratamento físico, e sobretudo pelo contato com os verdadeiros alienados, muitas vezes tem sido determinada uma loucura real onde esta não existia.

O Espiritismo, que abre novos horizontes a todas as ciências, vem esclarecer também a questão muito obscura das doenças mentais, assinalando uma causa que até agora não era levada em conta, uma causa real, evidente, provada pela experiência e cuja verdade mais tarde será reconhecida. Mas como convencer a admitirem tal causa aqueles que estão sempre dispostos a mandar para os hospitais de alienados quem quer que tenha a fraqueza de acreditar que temos alma; que essa tem um papel nas funções vitais, que ela sobrevive ao corpo e pode atuar sobre os vivos?

Graças a Deus as ideias espíritas, para o bem da Humanidade, fazem maior progresso entre os médicos do que era dado esperar, e tudo leva a crer que em futuro não muito remoto a Medicina sairá, enfim, da rotina materialista.

Averiguados os casos isolados de obsessão física ou de subjugação, compreende-se que tal qual uma nuvem de gafanhotos, um bando de maus Espíritos pode cair sobre certo número de criaturas, delas apoderar-se e produzir uma espécie de epidemia moral.

A ignorância, a fraqueza das faculdades e a falta de cultura intelectual, naturalmente lhes oferece maiores facilidades, por isso eles atuam de preferência sobre certas classes, embora as pessoas inteligentes e instruídas nem sempre estejam isentas.

Como diz Erasto, provavelmente foi uma epidemia desse gênero que ocorreu ao tempo do Cristo, de que frequentemente se fala no Evangelho. Mas por que só a sua palavra bastava para expulsar os chamados demônios? Isso prova que o mal não podia ser curado senão por uma influência moral. Ora, quem poderá negar a influência moral do Cristo? Contudo, dirão, empregamos o exorcismo, que é um remédio moral, e nada foi obtido. Se nada produziu é que o remédio é ineficaz, e outro deve ser encontrado, evidentemente. Estudai o Espiritismo e compreendereis a razão. Só o Espiritismo, assinalando a verdadeira causa do mal, pode dar os meios de combater os flagelos de tal natureza. Mas quando aconselhamos a estudá-lo, entendemos um estudo sério e não com a esperança de encontrar nele uma receita banal, para uso do primeiro que aparecer.

O que acontece na Saboia, chamando a atenção, possivelmente apressará o momento em que será reconhecida a parcela de ação do mundo invisível nos fenômenos da Natureza. Uma vez entrando nesse caminho, a Ciência possuirá a chave de muitos mistérios e verá cair a mais formidável barreira que detém o progresso: o materialismo, que restringe o círculo da observação, em vez de ampliá-lo.

(texto recebido por e-mail pela IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Outubro de 2015, 15:32
A Pentecoste

(Revista Espírita, agosto de 1862 - Dissertações espíritas
GRUPO DE SAINTE-GEMME -TARN - Médium: SR. C...)

 
O Espírito de Deus sopra sobre o mundo, a fim de regenerar os seus filhos. Se, como ao tempo dos apóstolos, não se mostra sob a forma de línguas de fogo, não está menos realmente presente entre vós. Orai, pois, com fervor ao Todo-Poderoso, a fim de que ele se digne fazer-vos tirar proveito de todas as vantagens morais, de todos os dons imperecíveis que ele então houve por bem derramar sobre a cabeça dos apóstolos e do Cristo. Pedi e recebereis, e nada do que pedirdes de bom e útil para o vosso progresso espiritual vos será recusado. Mais uma vez, orai com fervor, mas que seja o vosso coração que fale, e não os lábios; ou se os vossos lábios se agitarem, que digam apenas o que o coração houver pensado. A felicidade que sentireis quando estiverdes animados pelo espírito de Deus será tão grande que não podereis fazer ideia. Depende de vós obtê-la. E, a partir desse momento, considerareis os dias que restam como um pedaço de caminho a percorrer para chegardes ao destino e onde encontrareis, no fim do dia, a vossa ceia e um abrigo para a noite.

Mas que aquela pouca importância relativa que deveis ligar às coisas terrenas não vos impeça de considerar os vossos deveres materiais como muito sérios. Aos olhos de Deus cometeríeis grave falta se não vos entregásseis conscientemente aos vossos deveres cotidianos. Nada se deve desprezar do que saiu das mãos do Criador. Deveis, em certa medida, desfrutar os bens materiais que vos foram concedidos. Vosso dever é não guardá-los exclusivamente para vós, mas fazer deles partilharem os irmãos aos quais eles foram recusados. Uma consciência pura, uma caridade e uma humildade sem limites, eis a melhor das preces para chamar a si o Espírito Santo. É o verdadeiro Veni Creator,não que este cantado nas igrejas não seja uma prece que será exalçada, sempre que feita de bom coração, mas, como já vos foi dito tantas vezes, o fundo é tudo, a forma quase nada.

Então pelos atos pedi que o Espírito Santo venha visitar-vos e derramar em vossa alma essa força que dá a fé para superar as misérias da existência terrena e para estender a mão àqueles dos vossos irmãos a quem a fraqueza de espírito impede de ver a luz, sem a qual só marchareis tateantes, com o risco de vos chocardes com todos os obstáculos semeados no caminho. A verdadeira felicidade, pela qual todos suspirais, lá se acha. Cada um a tem sob a mão. Basta querer para alcançá-la.

Tomai hoje resoluções firmes e boas, e o Espírito de Deus não vos faltará, tende certeza. Amai ao vosso próximo como a vós mesmos, por amor a Deus, e tereis dignamente solenizado o dia em que o Espírito Santo veio visitar os apóstolos do Cristianismo.

HIPPOLYTE FORTOUL

(texto recebido por e-mail pela IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 14 de Outubro de 2015, 00:07
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #49 em: 13 10 15, às 15:32, de Moisés

      DE: todos devemos raciocinar para entender a doutrina, para ter uma “fé raciocinada”!
...............

      Conf: Moisés trouxe texto que, como manda a doutrina, convido os amigos a raciocinar pra entender:

      Meu amigo, vou lhe fazer apenas duas perguntinhas, pois já percebi que quando faço mais do que isso, dificilmente os amigos me  respondem:

      Pergunta: se Deus "sopra" para “regenerar” seus filhos, e regenerar significa “reformar o que foi deformado", "refazer o que foi desfeito”, “reconstruir o que foi destruído”, “fazer voltar à forma original”, o que foi que nos degenerou ou nos deformou o espírito, que, agora, Deus vem nos "regenerar"? Afinal, o que é que precisa ser refeito, ou reconstruído, voltar à forma original? O que é que nos deforma espiritualmente?

      Moisés cita: Pedi e recebereis, e nada do que pedirdes de bom e útil para o vosso progresso espiritual vos será recusado... A felicidade que sentireis quando estiverdes animados pelo espírito de Deus será tão grande que não podereis fazer ideia. Depende de vós obtê-la.

      Conf: Moisés, se vc postou esse texto certamente o entendeu, concorda? Assim, lhe pergunto: é isso que vc vê no mundo? Que todos aqueles que pedem o que lhes é bom e útil para seu progresso, sempre recebem o que pediram? 

      Abraços para todos!
................
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 14 de Outubro de 2015, 18:15

      Pergunta: se Deus "sopra" para “regenerar” seus filhos, e regenerar significa “reformar o que foi deformado", "refazer o que foi desfeito”, “reconstruir o que foi destruído”, “fazer voltar à forma original”, o que foi que nos degenerou ou nos deformou o espírito, que, agora, Deus vem nos "regenerar"? Afinal, o que é que precisa ser refeito, ou reconstruído, voltar à forma original? O que é que nos deforma espiritualmente?

O que nos degenerou foi o machucado
Tipo assi:

O Filhinho  machuca odedinho e chora e ai vai até sua mãezinha e mostra-lhe o dedidnho...aí a mãezinha dele lhe sopra o seu dedinho para sarar e ai sara
Entendeu !
Por isto que tem ventos circulando o planeta diariamente...  eles passam por algumas e se não todas as cabeças ,
para regenerar.

È isso...
De vez em quando recomendam -mse tirar o boné

Citar
      Moisés cita: Pedi e recebereis, e nada do que pedirdes de bom e útil para o vosso progresso espiritual vos será recusado... A felicidade que sentireis quando estiverdes animados pelo espírito de Deus será tão grande que não podereis fazer ideia. Depende de vós obtê-la.

      Conf: Moisés, se vc postou esse texto certamente o entendeu, concorda? Assim, lhe pergunto: é isso que vc vê no mundo? Que todos aqueles que pedem o que lhes é bom e útil para seu progresso, sempre recebem o que pediram? 

      Abraços para todos!
................

Sim!
Concordo

Novamente o filhinho vai até a mãezinha dele
e mostra um vidro de remédio que está na prateleira de remédios , a uma altura que o filhinho não alcança e ele quer beber este remédio (sem causa e sem conhecimento)
ele pede a sua mãezinha
e recebe um não de sua mãezinha
mas ele tem uma fé nata e pede outra vez
e a mãezinha lhe nega novamente
ai ele faz birra e se joga no chão por que ele quer de toda a maneira
ai a mãezinha dele
pega-lhe pela orelha e da-lhe uma sovazinha

Ai ele recebe o que o fará crescer espiritualmente

É isso

por isto que nem todas as pergguntas que fazemos aos outros amiguinhos de Fórum
obtemos a respostas

por que Jesus disse também

" Não estais Pronto ainda ó criancinhas! "

Entendeu irmãozinho ?

Pedi se pede o que quizer
a questão é compreender o que recebe

por esta razão Deus colocou uma pedra e uns degraus em nosso caminhos
Entedeu ?
e um dedão certeiro entre os cinco existente (na maioria é assim)

Abraços Irmãozinho

me desculpe não conseguir te responder tudo
eu também nem quero
por enqunato

Se pudesse eu te mandaria um abraços de minha amiga espiritual, mas eu te mando um Deus te abençoe
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 14 de Outubro de 2015, 20:20
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #51 em: 14 10 15, às 18:15, de Moisés

      Pergunta de lconforjr em 14 10 15, às 00:07: se Deus "sopra" para “regenerar” seus filhos, e regenerar significa “reformar o que foi deformado", "refazer o que foi desfeito”, “reconstruir o que foi destruído”, “fazer voltar à forma original”, o que foi que nos degenerou ou nos deformou o espírito, que, agora, Deus vem nos "regenerar"? Afinal, o que é que precisa ser refeito, ou reconstruído, ou voltar à forma original? O que é que nos deforma espiritualmente?

      Moisés: O que nos degenerou foi o machucado, tipo assim: O Filhinho machuca o dedinho... aí a mãezinha dele lhe sopra o seu dedinho para sarar e ai sara! Entendeu?!

      Conf: não, Moisés, nem mesmo lendo todo seu texto! Se vc puder ser mais claro talvez eu entenda!

      Abraços!
.....................
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 14 de Outubro de 2015, 22:40
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #51 em: 14 10 15, às 18:15, de Moisés

      Pergunta de lconforjr em 14 10 15, às 00:07: se Deus "sopra" para “regenerar” seus filhos, e regenerar significa “reformar o que foi deformado", "refazer o que foi desfeito”, “reconstruir o que foi destruído”, “fazer voltar à forma original”, o que foi que nos degenerou ou nos deformou o espírito, que, agora, Deus vem nos "regenerar"? Afinal, o que é que precisa ser refeito, ou reconstruído, ou voltar à forma original? O que é que nos deforma espiritualmente?

      Moisés: O que nos degenerou foi o machucado, tipo assim: O Filhinho machuca o dedinho... aí a mãezinha dele lhe sopra o seu dedinho para sarar e ai sara! Entendeu?!

      Conf: não, Moisés, nem mesmo lendo todo seu texto! Se vc puder ser mais claro talvez eu entenda!

      Abraços!
.....................

Estou com a cabeça aos ventos

valeu !
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Outubro de 2015, 12:59
Lacordaire e as mesas girantes‏

(Revista Espírita, fevereiro de 1867)

Extrato de uma carta do abade Lacordaire à Sra. Swetchine, datada de Flavigny, 29 de junho de 1853, tirada de sua correspondência publicada em 1865.


"Vistes girar e ouvistes falar das mesas? - Desdenhei vê-las girar, como uma coisa muito simples, mas ouvi e fiz que elas falassem. Elas me disseram coisas muito admiráveis sobre o passado e sobre o presente. Por mais extraordinário que isto seja, é para um cristão que acredita nos Espíritos um fenômeno muito vulgar e muito pobre. Em todos os tempos houve modos mais ou menos bizarros para se comunicar com os Espíritos; apenas outrora se fazia mistério desses processos, como se fazia mistério da Química. A Justiça, por meio de execuções terríveis, enterrava essas estranhas práticas na sombra. Hoje, graças à liberdade dos cultos e à publicidade universal, o que era um segredo tornou-se uma fórmula popular. Talvez, também, por essa divulgação, Deus queira harmonizar o desenvolvimento das forças espirituais ao desenvolvimento das forças materiais, para que o homem não esqueça, em presença das maravilhas da mecânica, que há dois mundos inseridos um no outro: o mundo dos corpos e o mundo dos Espíritos.

É provável que esse desenvolvimento paralelo continue crescendo até o fim do mundo, o que trará um dia o reino do Anticristo, onde se verá, de um lado e do outro, para o bem e para o mal, o emprego de armas sobrenaturais e prodígios pavorosos. Disto não concluo que o Anticristo esteja próximo, porque as operações que testemunhamos nada têm, salvo a publicidade, de mais extraordinário do que o que se via outrora. Os pobres incrédulos devem estar bastante inquietos com sua razão, mas eles têm o recurso de acreditar em tudo para fugir da verdadeira fé, e não falharão. Ó profundeza dos desígnios de Deus!"

   O abade Lacordaire escrevia isto em 1853, isto é, quase no começo das manifestações, numa época em que esses fenômenos eram muito mais um objeto de curiosidade do que assunto de meditações sérias. Embora nessa época eles não se tivessem constituído em ciência nem em corpo de doutrina, ele tinha entrevisto sua importância e, longe de considerá-los como uma coisa efêmera, previa o seu desenvolvimento no futuro. Sua opinião sobre a existência e a manifestação dos Espíritos é categórica. Ora, como ele é tido, geralmente, por todo mundo, como uma das altas inteligências deste século, parece difícil colocá-lo entre os loucos, depois de havê-lo aplaudido como homem de grande senso e de progresso. Pode-se, portanto, ter senso comum e crer nos Espíritos.

Diz ele que as mesas falantes são “um fenômeno muito vulgar e muito pobre”; bem pobre, com efeito, quanto à maneira de comunicar-se com os Espíritos, porque se não se tivessem tido outros, o Espiritismo quase não teria avançado; naquele tempo, mal se conheciam os médiuns escreventes e não se suspeitava o que iria sair desse meio aparentemente tão pueril. Quanto ao reino do Anticristo, Lacordaire parece não se amedrontar muito, porque não o vê chegar tão depressa. Para ele, essas manifestações são providenciais; elas devem perturbar e confundir os incrédulos; nelas ele admira a profundeza dos desígnios de Deus; elas não são, pois, obra do diabo, que deve estimular a renegar Deus e a não reconhecer o seu poder.

O trecho acima, da correspondência de Lacordaire, foi lido na Sociedade de Paris, na sessão de 18 de janeiro; nessa mesma sessão o Sr. Morin, um de seus médiuns escreventes habituais, adormeceu espontaneamente sob a ação magnética dos Espíritos; era a terceira vez que nele se produzia esse fenômeno, pois habitualmente só adormece pela magnetização ordinária. Em seu sono ele falou sobre vários assuntos e de diversos Espíritos presentes, cujo pensamento nos transmitiu. Entre outras coisas disse o seguinte:

“Um Espírito que todos conheceis, e que também reconheço; um Espírito de grande reputação terrena, elevado na escala intelectual dos mundos, está aqui. Espírita antes do Espiritismo, eu o vi ensinando a doutrina, não mais como encarnado, mas como Espírito. Vi-o pregando com a mesma eloquência, com o mesmo sentimento de convicção íntima que quando vivo, o que não teria ousado pregar abertamente do púlpito, mas aquilo a que conduziam os seus ensinamentos. Vi-o pregar a doutrina aos seus, à sua família, a todos os seus amigos. Vi-o desesperar-se, embora em estado espiritual, quando encontrava um cérebro refratário ou uma resistência obstinada às inspirações que ele insuflava, sempre vivo e impetuoso, querendo fazer penetrar a convicção nas inteligências, como se faz penetrar na rocha viva o buril impulsionado por vigorosa martelada. Mas este não entra tão depressa; contudo, sua eloquência converteu vários. Este Espírito é o do abade Lacordaire.

   “Ele pede uma coisa, não por orgulho, por um interesse pessoal qualquer, mas no interesse de todos e para o bem da Doutrina: a inserção na Revista do que ele escreveu há treze anos. Se peço tal inserção, diz ele, é por dois motivos: o primeiro porque mostrareis ao mundo que, como dizeis, pode-se não ser tolo e crer nos Espíritos, e o segundo é que a publicação dessa primeira citação permitirá que se descubram em meus escritos outras passagens que serão consideradas como concordes com os princípios do Espiritismo”.

(texto recebido por e-mail pela IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 02 de Novembro de 2015, 11:43
Poder do ridículo

Revista Espírita, fevereiro de 1869

Lendo um jornal, encontramos esta frase proverbial: Na Franca o ridículo sempre mata. Isto nos sugeriu as seguintes reflexões:

Porque na Franca, antes que alhures? É que aqui, mais que alhures, o espírito, ao mesmo tempo fino, caustico e jovial, apreende logo de saída o lado alegre ou ridículo das coisas; busca-o por instinto, sente-o, adivinha-o, por assim dizer fareja-o; descobre-o onde os outros não o percebiam e o põe em relevo com habilidade. Mas o espírito francês quer, antes de tudo, o bom gosto, a urbanidade ate na troça; ri de boa vontade de uma pilheria fina, delicada, sobretudo espirituosa, ao passo que as troças sem sal, a critica pesada, grosseira, causticante, semelhante à pata de urso ou ao soco do rústico, lhe repugnam, porque tem uma repulsa instintiva pela trivialidade.

Talvez digam que certos sucessos modernos parecem desmentir essas qualidades. Haveria muito a dizer sobre as causas desta desvio, que não deixa de ser muito real, mas que É apenas parcial, e não pode prevalecer sobre o fundo do caráter nacional, como demonstraremos qualquer dia. Apenas diremos, de passagem, que esses sucessos que admiram as pessoas de bom gosto, em grande parte são devidos à curiosidade muito vivaz, também, no caráter francês. Mas escutai a multidão à saída de certas exibições; o julgamento que domina, mesmo na boca do povo, resume-se nestas palavras: É desagradável! contudo a gente veio unicamente para poder dizer que viu uma excentricidade. Lá não voltam, mas, esperando que a multidão de curiosos tenha desfilado, o sucesso esta feito, e é tudo o que pedem. Dá-se o mesmo em certos sucessos supostamente literários.

A aptidão do espírito francês para captar o lado cômico das coisas faz do ridículo uma verdadeira potencia, maior na Franca do que em outros paises: mas É certo dizer que sempre mata?

Ha que distinguir o que se pode chamar o ridículo intrínseco, isto É, inerente à coisa mesma e o ridículo extrínseco, vindo de fora e derramado sobre uma coisa. Sem duvida, este ultimo pode ser lançado sobre tudo, mas só fere o que É vulnerável; quando ataca as coisas que não dão margem, desliza sem alcançá-las. A mais grotesca caricatura de uma estatua irrepreensível nada tira de seu mérito e não a faz decair na opinião, pois cada um pode apreciá-la.

O ridículo não tem forca senão quando fere com precisão, quando ressalta com espírito e finura os caprichos reais: É então que mata; mas quando cai no falso, absolutamente não mata, ou antes ele se mata. Para que o adágio acima seja completamente verdadeiro, seria preciso dizer: "Na Franca o ridículo sempre mata o que É ridículo". O que realmente É verdadeiro, bom e belo jamais É ridículo. Se se leva à troça uma personalidade notoriamente respeitável, como, por exemplo, o cura Viannet, inspira-se desgosto, mesmo aos incrédulos, tanto que É verdade que o que É respeitável em si É sempre respeitado pela opinião publica.

Como nem todos tem o mesmo gosto, nem a mesma maneira de ver, o que É verdadeiro, bom e belo para uns, pode não o ser para outros. Então quem será o juiz? O ser coletivo que se chama todo o mundo, e contra cujas decisões em vão protestam as opiniões isoladas. Algumas individualidades podem ser momentaneamente desviadas pela critica ignorante, malévola ou inconsciente, mas não as massas, cujas opiniões sempre acabam triunfando. Se a maioria dos convivas num banquete acha um prato a seu gosto, por mais que digais que É ruim, não impedireis que o comam, ou pelo menos que o provem.

Isto nos explica porque o ridículo, derramado em profusão sobre o Espiritismo, não o matou. Se ele não sucumbiu, não É por não ter sido revirado em todos os sentidos, transfigurado, desnaturado, grotescamente ridicularizado por seus antagonistas. E contudo, apos dez anos de encarnecida agressão, ele esta mais forte do que nunca. É porque ele É como a estatua de que falamos ha pouco.

Em definitivo, sobre o que se exerceu particularmente o sarcasmo, a propósito do Espiritismo? Em que realmente apresenta o flanco à critica: os abusos, as excentricidades, as exibições, as explorações, o charlatanismo sob todos os aspectos, as praticas absurdas que são apenas a sua parodia, de que o Espiritismo serio jamais tomou a defesa, mas que ao contrario, tem sempre desautorizado. Assim, o ridículo não feriu, e não pode morder senão o que era ridículo na maneira por que certas pessoas pouco esclarecidas concebem o Espiritismo. Se ainda não matou inteiramente esses abusos, deu-lhes um golpe mortal, e era de justiça.

Então o Espiritismo verdadeiro não pode senão ganhar em se desembaraçar da chaga de seus parasitas, e foram os seus inimigos que disso se encarregaram. Quanto à Doutrina propriamente dita, É de notar que quase sempre ela ficou fora de debate. E, contudo, É a parte principal, a alma da causa. Seus adversários bem compreenderam que o ridículo não poderia atingi-lo; sentiram que a fina lamina da troça,a espirituosa deslizava sobre a couraça, por isso a atacaram com o tacape da injuria grosseira e o soco rústico, mas com tão pouco sucesso.

Desde o principio, o Espiritismo pareceu a certas pessoas, à cata de expedientes, uma fecunda mina a explorar por sua novidade; alguns, menos tocados pela pureza de sua moral do que pelas chances que ai entreviam, meteram-se sob a égide de seu nome, com a esperança de fazer dele um meio. São os que podem ser chamados espíritas de circunstancia.

Que teria acontecido a esta doutrina se ela tivesse usado toda a sua influencia para frustrar e desacreditar as manobras da exploração? Ter-se-iam visto os charlatões pululando de todos os lados, fazendo uma aliança sacrílega daquilo que ha de mais sagrado: o respeito aos mortos com a suposta arte dos feiticeiros, adivinhos, tiradores de cartas, ledores da sorte, suprindo os Espíritos pela fraude, quando estes não vem. Logo ter-se-iam visto manifestações levadas para os palcos, truncadas pelos passes de escamoteação; gabinetes de consultas espíritas anunciados publicamente e revendidos, como agencias de emprego, conforme a importância da clientela, como se a faculdade mediúnica pudesse transmitir-se, à maneira de um fundo de comercio.

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 02 de Novembro de 2015, 11:44
Por seu silencio, que teria sido uma aprovação tácita, a doutrina ter-se-ia tornado solidária com esses abusos, diremos mais: cúmplice deles. Então a critica teria feito um belo jogo, porque com todo o direito, poderia ter tomado o partido da doutrina, que por sua tolerância, teria assumido a responsabilidade do ridículo e, por conseguinte, da justa reprovação lançada sobre os abusos; talvez tivesse ela levado mais de um século para erguer-se desse choque. Seria preciso não compreender o caráter do Espiritismo e, ainda menos, seus verdadeiros interesses, para crer que tais auxiliares possam ser úteis à sua propagação e sejam próprios para o fazer considerar como uma coisa santa e respeitável

Estigmatizando a exploração, como temos feito, temos a certeza de haver preservado a doutrina de um verdadeiro perigo, perigo maior que a má vontade de seus antagonistas confessos, porque ela lhes teria apresentado um lado vulnerável, ao passo que eles se detiveram ante a pureza de seus princípios. Não ignoramos que contra nos suscitamos a animosidade dos exploradores e que nos afastamos de seus partidários. Mas que importa? Nosso dever É tomar em mãos a causa da doutrina e não os interesses deles; e esse dever nos cumpriremos com perseverança e firmeza, atÉ o fim.

Não era insignificante lutar contra a invasão do charlatanismo, num século como este, sobretudo um charlatanismo acompanhado, por vezes suscitado pelos mais implacáveis inimigos do Espiritismo. Porque, depois de haver fracassado pelos argumentos, bem compreendiam que o que lhes poderia ser mais fatal era o ridículo. Por isso o mais seguro meio seria fazê-lo explorar pelo charlatanismo, a fim de desacreditá-lo na opinião publica.

Todos os espíritas sinceros compreenderam o perigo assinalado e nos acompanharam em nossos esforços, reagindo por seu lado contra as tendências que ameaçavam desenvolver-se. Não são alguns casos de manifestações, supondo-os reais, dados como espetáculo, como aperitivo à minoria, que dão verdadeiros prosélitos ao Espiritismo porque, em tais condições, eles autorizam a suspeita. Os próprios incrédulos são os primeiros a dizer que, se os Espíritos realmente se comunicam, não será para servirem de comparsas ou parceiros a tanto por sessão; por isso riem deles; acham ridículo que nessas cenas se misturem nomes respeitáveis, e estão cem vezes com a razão. Para uma pessoa que seja levada ao Espiritismo por essa via, sempre supondo um fato real, haverá cem que serão desviadas, sem mais querer ouvir dele falar. A impressão será outra nos meios onde nada de equivoco pode fazer suspeitar da sinceridade, da boa-fé e de desinteresse, onde a notória honorabilidade das pessoas impõe respeito. Se dai não se sai convencido, pelo menos não se leva a idéia de uma charlatanice.

Assim, o Espiritismo nada tem a ganhar, e só poderia perder, apoiando- se na exploração, ao passo que os exploradores É que se beneficiariam de seu credito. Seu futuro não esta na crença de um individuo por tal ou qual caso de manifestação: esta inteirinho no ascendente que conquistar pela moralidade. Foi por ai que triunfou e triunfara ainda das manobras dos adversários. Sua forca esta no seu caráter moral, e é o que lhe não poderão tirar.

O Espiritismo entra numa fase solene, mas na qual ainda terá que sustentar grandes lutas. É necessário, pois, que seja forte por si mesmo e, para ser forte, É preciso que seja respeitável. Cabe aos seus adeptos dedicados fazê-lo respeitar, inicialmente. pregando pela palavra e pelo exemplo; depois, em nome da doutrina, desaprovando tudo quanto possa prejudicar a consideração de que deve ser rodeado. É assim que poderá desafiar as intrigas, a troça,a e o ridículo.

Allan Kardec.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Novembro de 2015, 20:42
O gênio

Revista Espírita 1867 » Maio »
Dissertações espíritas »

(Douay, 13 de março de 1867 ─ Médium, Sra. M...)


Pergunta. ─ O gênio é conferido a cada Espírito conforme sua conquista, ou conforme uma lei divina, em relação com as necessidades de um povo ou de uma Humanidade?

Resposta. ─ O gênio, caros filhos, é a radiação das conquistas anteriores. Essa radiação é o estado do Espírito no desprendimento ou nas encarnações superiores. Há, pois, duas distinções a fazer.

O gênio mais comum entre vós é simplesmente o estado de um Espírito, do qual uma ou duas faculdades ficaram descobertas e em estado de agir livremente; ele recebeu um corpo que permite sua expansão na plenitude adquirida. A outra espécie de gênio é o Espírito que vem dos mundos felizes e adiantados, onde a aquisição é universal sobre todos os pontos; onde todas as faculdades da alma chegaram a um grau eminente, desconhecido na Terra. Estas espécies de gênio se distinguem dos primeiros por uma excepcional aptidão para todos os talentos, para todos os estudos. Eles concebem todas as coisas por uma intuição segura que confunde a Ciência ensinada pelos mais sábios. Eles se destacam em bondade, em grandeza de alma, em verdadeira nobreza, em obras excelentes. Eles são faróis, iniciadores, exemplos, São homens de outras terras, vindos para fazer resplandecer a luz do Alto num mundo obscuro, assim como se enviam entre os bárbaros, para instruí-los, alguns sábios de uma capital civilizada. Tais foram, entre vós, os homens que em diversas épocas fizeram avançar a Humanidade, os sábios que ampliaram os limites dos conhecimentos e dissiparam as trevas da ignorância. Eles viram e pressentiram o destino terrestre, por mais longe que estivessem da realização desse destino. Todos lançaram os fundamentos de alguma ciência, ou foram o seu ponto culminante.

O gênio, portanto, não é gratuito e não está subordinado a uma lei; ele sai do próprio homem e de seus antecedentes. Refleti que os antecedentes são todo o homem. O criminoso o é por seus antecedentes; o homem de mérito, o homem de gênio, são superiores pela mesma causa. Nem tudo é velado na encarnação a ponto de nada penetrar nosso ser interior. A inteligência e a bondade são luzes muito vivas, focos muito ardentes para que a vida terrena os reduza à obscuridade.

As provas a sofrer bem podem velar, atenuar algumas de nossas faculdades, adormecê-las, mas se elas tiverem chegado a um alto grau, o Espírito não pode perder inteiramente a sua posse e exercício. Ele guarda em si a certeza de que as mantém sempre à sua disposição; muitas vezes mesmo, ele não pode consentir em delas privar-se. Eis o que causa as vidas tão dolorosas de certos homens adiantados que preferiram sofrer por suas altas faculdades do que deixar que estas se apagassem por algum tempo.

Sim, todos nós somos pela esperança, e alguns pela lembrança, cidadãos dessas altas esferas celestes, onde o pensamento irradia puro e poderoso. Sim, todos nós seremos Platões, Aristóteles, Erasmos; nosso Espírito não verá mais empalidecer suas aquisições sob o peso da vida do corpo, ou extinguir-se sob o peso da velhice e das enfermidades.

Amigos, eis verdadeiramente a mais sublime esperança. Que são junto a tudo isto as dignidades e os tesouros que eram postos aos pés desses homens? Os soberanos mendigavam suas obras, eles disputavam sua presença. ─ Credes que essas honras vãs os lisonjeavam? Não. A lembrança de sua gloriosa pátria era muito viva. Eles voltaram felizes sobre o brilho de sua glória aos mundos que seus Espíritos desejavam incessantemente.

Terra! Terra! Região fria, obscura, agitada; Terra cega, ingrata e rebelde! Tu não lhes podias fazer esquecer a pátria celeste onde viveram, onde voltariam a viver.

Adeus, amigos! Ficai certos de que todo homem de bem tornar-se-á cidadão desses mundos felizes, dessas Jerusaléns esplêndidas, onde o Espírito vive livre num corpo etéreo, possuindo sem nuvens e sem véus todas as suas conquistas. Então conhe­cereis tudo quanto aspirais conhecer, compreendereis tudo quanto procurais compreender, mesmo o meu nome, caro médium, que não te quero dizer.

UM ESPÍRITO.


ALLAN KARDEC.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Novembro de 2015, 21:30
Uma lembrança de vidas passadas
Revista Espírita 1864 » Novembro »

Num artigo biográfico sobre Méry, publicado pelo Journal Littéraire de 25 de setembro de 1864, encontra-se a seguinte passagem:

“Há teorias singulares que para ele são convicções.

“Assim, ele crê firmemente que viveu várias vezes; lembra-se das menores circunstâncias de suas existências precedentes e as detalha com uma nota de certeza que impõe como uma autoridade.

“Assim, ele foi um dos amigos de Virgílio e de Horácio, conheceu Augustus Germanicus e fez a guerra nas Gálias e na Germânia. Era general e comandava as linhas romanas quando estas atravessaram o Reno. Reconhecia nas montanhas lugares onde havia acampado, e nos vales os campos de batalha onde combateu. Ele se lembra de conversas em casa de Mecenas, que são o eterno objeto de seus pesares. Chamava-se Minius.

“Um dia, na sua vida atual, ele estava em Roma e visitava a biblioteca do Vaticano. Ali foi recebido por gente moça, noviços em longas vestes escuras, que se puseram a lhe falar no latim mais puro. Méry era bom latinista, no que se refere à teoria e às coisas escritas, mas ainda não havia experimentado conversar familiarmente na língua de Juvenal. Ouvindo esses romanos de hoje, admirando esse magnífico idioma, tão harmonizado com aqueles monumentos, com os costumes da época em que era usado, pareceu-lhe que um véu caía de seus olhos; pareceu-lhe que ele próprio havia conversado, em outros tempos, com amigos que se serviam dessa linguagem divina. Frases feitas e impecáveis saiam-lhe da boca; ele encontrou imediatamente a elegância e a correção; enfim, falou latim como fala francês; teve em latim o espírito que tem em francês. Nada disso podia fazer-se sem um aprendizado, e se ele não tivesse sido um súdito de Augusto, se não tivesse atravessado aquele século de todos os esplendores, não teria improvisado uma ciência, impossível de adquirir em poucas horas.

“Sua outra passagem na Terra aconteceu na Índia, por isso ele a conhece tão bem. Eis por que, quando ele publicou Guerre du Nizam, nenhum de seus leitores duvidou que ele tivesse morado muito tempo na Ásia. Suas descrições são vivas, seus quadros são originais, ele toca com o dedo os mínimos detalhes e é impossível não tenha visto o que conta, pois lá está o cunho da verdade.

“Ele afirma ter entrado naquele país com uma expedição muçulmana em 1035. Viveu lá durante cinquenta anos, viveu ali belos dias e ali se fixou para não mais sair. Lá ele ainda era poeta, mas menos letrado do que em Roma e em Paris. Inicialmente guerreiro e depois sonhador, guardou na alma as imagens empolgantes das margens do Rio Sagrado e dos ritos hindus. Ele tinha várias moradas, na cidade e no campo; orou nos templos dos elefantes; conheceu a civilização avançada de Java; viu de pé as esplêndidas ruínas que assinala e que ainda são tão pouco conhecidas.

É preciso ouvi-lo contar esses poemas, pois são verdadeiros poemas essas lembranças à maneira de Swedenborg. Ele é muito sério, não tenhais dúvida. Isto não é uma mistificação arranjada à custa dos ouvintes, é uma realidade de que ele consegue vos convencer.

“E suas doutrinas sobre a história, que ele possui admiravelmente! E suas pilhérias tão finas, que lançam uma luz nova sobre tudo quanto elas tocam! E seus relatos, que são romances, que quase nos fazem chorar, depois de não termos podido conter o riso! Tudo isto faz de Méry um dos mais maravilhosos homens dos tempos em que viveu, e mesmo daqueles em que sua alma errante esperava a vez para entrar num corpo e novamente fazer que dela falassem as gerações sucessivas.

“PIERRE DANGEAU”

 

O autor do artigo não acompanha este fato de nenhuma reflexão. Depois de ter exaltado o alto mérito de Méry e sua grande inteligência, teria sido inconsequente taxá-la de loucura. Se, pois, Méry é um homem de bom senso, de alto valor intelectual; se a crença de já ter vivido é nele uma convicção; se essa convicção nele não é produto de um sistema à sua maneira, mas o resultado de uma lembrança retrospectiva e de um fato material, não há aí alguma coisa que possa despertar a atenção de todo homem sério? Vejamos a que incalculáveis consequências nos conduz este simples fato.

Se Méry já viveu, não deve isto ser exceção, porque as leis da Natureza são as mesmas para todos, e assim, todos os homens também devem ter vivido; se se viveu, não é certamente o corpo que renasce, é, entretanto, o princípio inteligente, a alma, o Espírito, portanto, temos uma alma. Considerando-se que Méry conservou a lembrança de várias existências, porquanto os lugares lhe trazem à lembrança o que já viu outrora, com a morte do corpo a alma não se perde no todo universal. Ela conserva, pois, a sua individualidade, a consciência do seu eu.

Lembrando-se Méry do que ele foi há aproximadamente dois mil anos, em que se tornou sua alma no intervalo? Abismou-se no oceano do infinito ou perdida nas profundezas do espaço? Não, porque assim ela não reencontraria sua individualidade de outrora. Então deve ter ficado na esfera da atividade terrestre, vivendo a vida espiritual, em nosso meio ou no espaço que nos rodeia, até tomar um novo corpo. Considerando-se que Méry não está sozinho no mundo, deve haver em torno de nós uma população inteligente invisível.

Renascendo para a vida corpórea, após um intervalo mais ou menos longo, a alma renasce no estado primitivo, no estado de alma nova, ou aproveita as ideias adquiridas em suas existências anteriores? A lembrança retrospectiva resolve a questão por um fato: se Méry tivesse perdido as ideias adquiridas, não teria readquirido a língua que falava outrora; a visão dos la­gares nada lhe teria trazido à lembrança.

Mas se já vivemos, por que não viveríamos novamente? Por que esta existência seria a última? Se renascemos com o desenvolvimento intelectual realizado, a intuição que trazemos das ideias adquiridas é um fundo que ajuda na aquisição de novas ideias, que tornam o estudo mais fácil. Se um homem for medianamente matemático numa existência, menos trabalho lhe será preciso em nova existência para ser um matemático completo. É uma consequência lógica. Se se tornou bom pela metade, se se corrigiu de alguns defeitos, necessitará de menos esforço para tornar-se melhor, e assim por diante.

Nada do que adquirimos em inteligência, em saber e em moralidade fica perdido. Quer morramos jovens ou velhos; quer tenhamos ou não tempo de desfrutar da existência presente, colheremos os seus frutos em existências subsequentes. As almas que animam os franceses civilizados de hoje podem, portanto, ser as mesmas que animavam os bárbaros francos, ostrogodos, visigodos, os gauleses selvagens, os conquistadores romanos, os fanáticos da idade média, mas que, a cada existência, deram um passo à frente, apoiando-se nos passos anteriores, e que avançarão ainda mais.

Eis, pois, resolvido o grande problema do progresso da Humanidade, esse problema contra o qual se chocaram tantos filósofos. Ele está resolvido pelo simples fato da pluralidade das existências. Mas quantos outros problemas vão encontrar a sua solução na solução deste! Que horizontes novos isto não abre! É toda uma revolução nas crenças e nas ideias.

Assim raciocinará o pensador sério, o homem refletido. Um fato é um ponto de partida, do qual ele tira consequências. Ora, quais são os pensamentos que o caso de Méry desperta no autor do artigo? Ele próprio os resume nestas palavras: “Há teorias singulares, que para ele são convicções.”

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Novembro de 2015, 21:30
Mas se esse autor nisto vê apenas uma coisa bizarra, pouco digna de sua atenção, o mesmo não se daria com todo mundo. Uma pessoa encontra em seu caminho um diamante bruto, que não se digna apanhar, porque desconhece o seu valor, ao passo que outra saberá apreciá-lo e dele tirar proveito.

As ideias espíritas hoje se produzem sob todas as formas; estão na ordem do dia e a imprensa, sem querer confessá-las, as registra e as semeia em profusão, acreditando que apenas enriquece suas colunas de facécias. Não é admirável que todos os adversários da ideia, sem exceção, trabalhem sem tréguas na sua propagação? Eles gostariam de calar o que a força das coisas os arrasta a falar. Assim o quer a Providência ─ para os que creem na Providência.

Dirão que argumentamos com base num fato isolado, que não constitui lei, porque, se a pluralidade das existências é uma condição inerente à Humanidade, por que nem todos os homens se recordam, como Méry? A isto respondemos: Dai-vos ao trabalho de estudar o Espiritismo e o sabereis. Não repetiremos, pois, o que cem vezes foi demonstrado relativamente à inutilidade da lembrança para aproveitar a experiência adquirida em vidas precedentes e o perigo dessa lembrança para as relações sociais.

Há, porém, uma outra causa para o esquecimento, de certo modo fisiológica, devida, ao mesmo tempo à materialidade do nosso envoltório e à identificação do nosso Espírito pouco adiantado com a matéria. À medida que o Espírito se depura, os laços materiais são menos tenazes e o véu que obscurece o passado é menos opaco. A faculdade da lembrança retrospectiva é consequência, portanto, do desenvolvimento do Espírito. O fato é raro em nossa Terra, porque a Humanidade ainda é muito material, mas seria um erro supor que Méry seja um exemplo único. Deus permite, de vez em quando, que ele se apresente, a fim de conduzir os homens ao conhecimento da grande lei da pluralidade das existências, a única que explica a origem das qualidades boas ou más, mostra-lhe a justiça das misérias que suporta aqui e lhe traça a rota do futuro.

A inutilidade da lembrança para tirar proveito do passado é o que têm mais dificuldade de compreender os que não estudaram o Espiritismo. Para os espíritas é uma questão elementar. Sem repetir o que a respeito foi dito, a seguinte comparação poderá facilitar a compreensão.

O estudante percorre a série de classes, desde a oitava até a filosofia. O que aprendeu na oitava lhe serve para aprender o que ensinam na sétima. Suponhamos agora que no fim da oitava ele tenha perdido a lembrança do tempo passado nessa classe; nem por isso seu espírito será menos desenvolvido e equipado com os conhecimentos adquiridos; apenas não se lembrará nem onde nem como os adquiriu, mas, à vista do progresso realizado, estará apto a aproveitar as lições da sétima. Suponhamos, ainda, que na oitava tenha sido preguiçoso, colérico, indócil, mas que, tendo sido castigado e moralizado, seu caráter se tenha transformado, tornando-se laborioso, manso e obediente; ele levará essas qualidades para a nova classe, que lhe parecerá ser a primeira. De que lhe serviria saber que foi fustigado pela preguiça, se agora ele não é mais preguiçoso? O essencial é que ele chegue à sétima classe melhor e mais capaz do que era na oitava. Assim será de classe em classe.

Pois bem! O que não acontece ao escolar, nem ao homem nos diversos períodos de sua vida atual, existe para ele como lembrança de uma existência anterior: eis toda a diferença, mas o resultado é exatamente o mesmo, posto que em maior escala.

 (Vide outro exemplo de lembrança do passado relatado na Revista de julho de 1860).
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Novembro de 2015, 13:03
O Livre Arbítrio e Presciência Divina
Revista Espírita, outubro de 1863

(Thionville, 5 de janeiro de 1863. - Médium, Sr. doutor R...)
Revista Espírita - 6° Ano - n° 10 – Outubro de 1863 – Edição IDE, Araras

Há uma grande lei que domina todo o Universo, a lei do progresso. E em virtude dessa lei que o homem, criatura essencialmente imperfeita, deve, como tudo o que existe sobre nosso globo, percorrer todas as fases que o separam da perfeição.

Sem dúvida, Deus sabe quanto tempo cada um porá para chegar ao objetivo; mas como todo progresso deve resultar de um esforço feito para cumpri-lo, não haveria nenhum mérito se o homem não tivesse a liberdade de tomar tal ou tal caminho. O verdadeiro mérito, com efeito, não pode resultar senão de um trabalho operado pelo Espírito para vencer uma resistência mais ou menos considerável.

Como cada um ignora um número de existências consagradas por ele para o seu adiantamento moral, ninguém pode nada prejulgar sobre essa grande questão, e é aí sobretudo que brilha de maneira admirável a infinita bondade de nosso Pai celeste que, ao lado do livre arbítrio que nos deixou, no entanto, semeou nosso caminho de mourões indicadores que lhe aclaram os desvios. E, pois, por um resto de predomínio da matéria que muitos homens se obstinam em permanecerem surdos às advertências que lhes chegam de todos os lados, e preferem estragar, nos prazeres enganadores e efêmeros, uma vida que lhes fora concedida para o adiantamento de seu espírito.

Não se poderia, pois, sem blasfemar, afirmar que Deus haja querido a infelicidade de suas criaturas, uma vez que os infelizes expiam sempre, seja uma vida anterior mal empregada, seja a sua recusa de seguir o bom caminho, que então lhe estava claramente indicado.

Depende, pois, de cada um abreviar a prova que deve sofrer, e para isso guias seguros bastante numerosos lhe são concedidos, para que seja inteiramente responsável por sua recusa de seguir seus conselhos; e ainda neste caso existe um meio certo de abrandar uma punição merecida, dando sinais de um arrependimento sincero, e recorrendo à prece, que não falta nunca de ser atendida, quando é feita com fervor. O livre arbítrio existe, pois, muito realmente no homem, mas com um guia: a consciência.

Todos vós que tendes acesso ao grande centro da nova ciência, não negligencieis de vos penetrar das eloqüentes verdades que ela vos revela, e dos admiráveis princípios que lhe são as conseqüências; segui-os fielmente, é aí que brilha sobretudo o vosso livre arbítrio.

Pensai, de uma pane, nas fatais conseqüências que arrastariam para vós a recusa de seguir o bom caminho, como nas recompensas magníficas que vos esperam, no caso em que obedeçais às instruções dos bons Espíritos; é aí que brilhará, a seu turno, a presciência divina.

Os homens se esforçam em vão procurando a verdade por todos os meios que crêem ter da ciência; esta verdade que parece lhes escapar, os costeia sempre, e os cegos não a percebem!

Espíritos sábios de todos os países, aos quais é dado levantar um canto do véu, não negligencieis os meios que vos são oferecidos pela Providência! Provocai nossas manifestações, fazei aproveitá-las sobretudo vossos irmãos menos aquinhoados do que vós; inculcar em todos os preceitos que vos chegam do mundo espírita, e tereis muito merecido, porque tereis contribuído para uma grande pane no cumprimento dos desígnios da Providência.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 20 de Novembro de 2015, 16:49
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #60 em: 19 11 15, às 13:03, de Moisés

      Conf: meu caro amigo Moisés, de novo estou aqui para aborrecê-lo com perguntas:

      - o que vc compreende do que leu na Revista Espírita, que “o homem é uma criatura ‘essencialmente’ imperfeita”?

      - se deve percorrer todas as fases que o separam da perfeição, porq é que se tornou imperfeito e porq essas fases vêm sempre e sempre acompanhadas de assustadores sofrimentos?

      - e qual é a causa que faz que tomemos caminhos diferentes e que os tempos para que cheguemos ao objetivo tb sejam diferentes?

      - se o homem tem a liberdade tomar tal ou tal caminho, porq é que cerca de 7 bilhões, afinal toda população deste pequeno planeta, escolheram tomar o caminho do mal, se podem todos sempre escolher tomar o caminho do bem?

      - se o verdadeiro mérito não pode resultar senão de um trabalho operado pelo Espírito para vencer uma resistência mais ou menos considerável, qual é a causa de existir essa resistência e de ela ser “mais ou menos” considerável? Se essa resistência é mais considerável para uns, e menos para outros, como explicar isso?

      Amigo, Moisés, paro aqui! Se vc tentar responder as perguntas que coloquei, já teremos dado, hoje, um bom passo para entender a doutrina!

      Abraços!
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Novembro de 2015, 19:08
Advertências de além-túmulo.
O oficial da Criméia

Revista Espírita, novembro de 1859

O Independência belga, que não nos acusará de um excesso de benevolência a respeito das
crenças Espíritas, narrou o fato seguinte, que vários outros jornais repetiram, e que
reproduzimos, por nossa vez, com todas as reservas, não tendo ocasião para constatar-lhe a
realidade.

"Seja porque nossa imaginação inventa e habita um mundo de almas ao lado e acima de nós,
seja porque o mundo no qual estamos, vivemos e nos movemos, existe realmente, é fora de
dúvida, para mim pelo menos, que inexplicáveis acidentes se produzem, os quais provocam a ciência e desafiam a razão.

"Na guerra da Criméia, durante uma dessas noites tristes e lentas, que se prestam
maravilhosamente à melancolia, ao pesadelo, a todas as nostalgias do céu e da Terra, um
jovem oficial, de repente, se levantou, saiu de sua tenda, foi procurar um dos seus
camaradas e lhe disse:

- Acabo de receber a visita de minha prima, da senhorita T...
- Tu sonhas.
- Não. Ela entrou, pálida, sorridente e roçando apenas o solo muito duro, muito grosseiro
para seus pés delicados. Olhou-me, depois que sua voz doce bruscamente me despertou, e
ela me disse: "Tu tardas muito! Preste atenção! Algumas vezes se morre da guerra sem ir à
guerra!" Quis falar-lhe, erguer-me, correr para ela; ela recuou! E colocando um dedo sobre
os lábios: "Silêncio, disse-me, tenha coragem e paciência, nós nos reveremos." Ah! meu
amigo, ela estava muito pálida, e estou certo de que está doente, que me chama.

- Tu dormes todo desperto, és louco, replicou o amigo.
- É possível, mas, então, o que é esse movimento do meu coração que a evoca e que me faz
vê-la?
"Os dois jovens conversaram, e, pela madrugada, o amigo reconduziu à sua tenda o oficial
visionário, quando este estremeceu de repente.
- Ei-la, meu amigo; ei-la, disse, ela está diante de minha tenda.. Ela me faz sinal de que me
falta fé e confiança.

"O amigo, evidentemente, não via nada. Fez o melhor para consolar seu camarada. O dia
apareceu, e com o dia as ocupações bastante sérias para que não fosse mais questão os
fantasmas da noite. Mas, por uma precaução muito razoável, no dia seguinte, uma carta
partiu para a Franca, pedindo, instantaneamente, novidades da senhorita T... Alguns dias depois, respondia-se que a senhorita T... estava bastante e seriamente doente, e que se o
jovem oficial pudesse obter uma licença, pensava-se que a sua visão teria o melhor efeito.
"Pedir uma licença no momento das mais rudes fadigas, talvez à véspera de um ataque
decisivo, e fazer valer medos sentimentais, não era preciso sonhar muito com isso. Todavia,
creio lembrar-me que a licença foi pedida e obtida, e que o jovem oficial ia partir para a
França, quando teve ainda uma visão. Aquela era assustadora. A senhorita de T... veio,
pálida e muda, insinuar-se uma noite em sua tenda e lhe mostrou o longo vestido branco que
trajava. O jovem oficial não duvidou, um só instante, que sua noiva não estivesse morta; ele
estendeu a mão, tomou uma de suas pistolas e fez saltar os miolos.
"Com efeito, na mesma noite, à mesma hora, a senhorita de T... dera o último suspiro.

"Essa visão era o resultado do magnetismo? Disso nada sei. Era da loucura? Eu o quero
muito. Mas era alguma coisa que escapa aos gracejos dos ignorantes, e aos escárnios, mais
malsãos ainda, dos sábios.

"Quanto à autenticidade desse fato, eu a garanto. Interrogai os oficiais que passaram esse
longo inverno na Criméia, e não serão poucos os que vos contarão fenômenos de
pressentimento, de visão, de miragem da pátria e de parentes, análogos ao que acabo de
dizer-vos.
"Que é necessário disso concluir? Nada A não ser que termine minha correspondência de um
modo lúgubre, e que saiba talvez o meio de dormir sem saber magnetizar.
"THÉCEL."

Assim como dissemos no começo, não pudemos constatar a autenticidade do fato; mas o que
podemos garantir é a sua possibilidade. Os exemplos averiguados, antigos e recentes, de
advertências de além-túmulo, são tão numerosos, que este nada tem de mais extraordinário
que aqueles dos quais muitas pessoas, dignas de fé, foram testemunhas. Puderam parecer
sobrenaturais em outros tempos; mas hoje que sua causa é conhecida, e psicologicamente
explicada, graças à teoria Espírita, nada têm que escape às leis da Natureza Não lhe
acrescentaremos senão uma só nota, é que, se esse oficial conhecesse o Espiritismo, saberia
que o meio de reencontrar sua noiva não era o de se mata, porque essa ação pode dela
distanciá-lo por um tempo bem mais longo do que aquele que tivesse passado na Terra. O
Espiritismo ter-lhe-ia dito, por outro lado, que uma morte gloriosa, no campo de batalha, serlhe-ia mais proveitosa do que a que se deu voluntariamente, por um ato de fraqueza.
Eis um outro fato de advertência de além-túmulo, reportado pela Gazefte d'Arad (Hungria),
do mês de novembro de 1858.

"Dois irmãos israelitas, de Gyek (Hungria), foram a Grosswardien, conduzirem, num
pensionato, suas duas filhas com a idade de 14 anos. Durante a noite que seguiu à sua
partida, uma outra filha de um deles, com a idade de 10 anos, e que ficara na casa,
despertou em sobressalto, e contou, chorando, à sua mãe, que viu em sonho seu pai e seu
tio, cercados de vários camponeses, que queriam fazer-lhes mal.
"De início, sua mãe não teve em nenhuma conta as suas palavras; mas vendo que não
conseguiu acalmar a sua criança, levou-a à casa do chefe do lugar; esta contou-lhe de novo
seu sonho, acrescentando que havia reconhecido dois de seus vizinhos entre os camponeses,
e que o acontecimento se passara na orla de uma floresta.

"O chefe do lugar enviou imediatamente ao domicílio dos dois camponeses que, com efeito,
estavam ausentes; depois, a fim de se assegurar da verdade, expediu na direção indicada
outros emissários, que encontraram cinco cadáveres nos confins de um bosque. Eram os dois
pais, com as duas filhas e o cocheiro que os conduzira; os cadáveres foram lançados num
braseiro para torná-los irreconhecíveis. Logo a polícia começou as investigações; ela deteve
os dois camponeses designados no momento em que procuravam trocar várias cédulas sujas
de sangue. Uma vez na prisão, confessaram seu crime, dizendo que reconheciam o dedo de
Deus na pronta descoberta do crime.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Dezembro de 2015, 13:40
HISTÓRIA DE UMA MÚMIA

(Revista Espírita, novembro de 1862 - Os mistérios da Torre de Saint Michel em Bordeaux)

Nos subterrâneos da torre de Saint Michel, em Bordeaux, há um certo número de cadáveres mumificados que, parece, não remontam a mais de dois ou três séculos e que certamente ficaram naquele estado pela natureza do solo. São uma das curiosidades da cidade, que os estranhos não deixam de visitar. Todos os corpos têm a pele pergaminhada. Na maioria estão conservados de maneira a permitir distinguir os traços do rosto e a expressão fisionômica. Alguns têm as unhas de uma frescura notável, e outros conservam restos das roupas e até rendas finas.

Entre essas múmias, uma em particular chama a atenção. É a de um homem cujas contrações do corpo, do rosto e dos braços, levados à boca, não deixam dúvida quanto ao gênero de morte. É evidente que ele foi enterrado vivo e morreu nas convulsões de terrível agonia.

Um novo jornal de Bordeaux publica um romance-folhetim, sob o título de Mistérios da torre de Saint Michel. Só conhecemos a obra de nome e pelos cartazes pregados nos muros da cidade, representando o subterrâneo da torre. Assim, não sabemos com que espírito foi concebido, nem a fonte onde o autor coligiu os fatos que descreve. O que vamos relatar, ao menos tem o mérito de não ser fruto da imaginação humana, pois vem diretamente do além-túmulo, o que talvez faça rir o autor em questão.

Como quer que seja, cremos que o relato não é um episódio dos menos chocantes dos dramas passados naquele lugar. Será lido pelos espíritas com tanto mais interesse quanto encerra um profundo ensinamento.

É a história do homem enterrado vivo e de duas outras pessoas ligadas ao caso, obtida numa série de evocações feitas na Sociedade Espírita de Saint-Jean d’Angély, em agosto último, e que nos contaram quando por lá passamos.

No que concerne à autenticidade dos fatos, falaremos na observação que fecha este artigo.

(Saint-Jean d’Angély, 9 de agosto de 1862 - médium: Sr. Del..., pela tiptologia)

l. Pergunta ao guia protetor:

- Podemos evocar o Espírito que animou o corpo que se vê no subterrâneo da torre de Saint Michel, em Bordeaux, que parece ter sido enterrado vivo?

- Sim, e que isso vos sirva de ensinamento.

2. Evocação.

(O Espírito manifesta a sua presença).

3. - Poderíeis dizer o vosso nome, quando animáveis o corpo de que falamos?

- Guillaume Remone.

4. - Vossa morte foi uma expiação ou uma prova escolhida a fim de progredir?

- Meu Deus! Por que, na tua bondade, seguir a tua sagrada justiça? Sabeis que a expiação é sempre obrigatória, e que quem cometeu um crime não a evita. Eu estava nesse caso, e é tudo o que tenho a dizer. Após muito sofrimento, cheguei a reconhecer meus erros e experimento o arrependimento necessário para me achar em graça ante o Eterno.

5. - Podeis dizer qual o vosso crime?

- Eu havia assassinado minha mulher em seu leito.

(10 de agosto - médium: Sra. Guérin, pela psicografia)

6. - Quando, antes da reencarnação, escolhestes o gênero de provas, sabíeis que seríeis enterrado vivo?

- Não. Apenas sabia que devia cometer um crime odioso, que encheria minha vida de remorsos causticantes e que essa vida terminaria em dores atrozes. Em breve reencarnarei. Deus teve piedade da minha dor e do meu arrependimento.

Observação: A frase “sabia que devia cometer um crime” é explicada nas perguntas 30 e 31.

7. - A justiça perseguiu alguém por ocasião da morte de vossa esposa?

- Não. Acreditaram numa morte súbita. Eu a tinha sufocado.

8. - Que motivo vos levou a esse ato criminoso?

- O ciúme.

9. - Foi por engano que vos enterraram vivo?

- Sim.

10. - Tendes lembrança dos instantes da morte?

- É algo de horrível, impossível de descrever. Imaginai estar numa cova, com dez pés de terra em cima, querer respirar e faltar o ar, querer gritar: “Estou vivo!” e sentir a voz abafada; ver-se morrer e não poder pedir socorro; sentir-se cheio de vida e riscado do rol dos vivos; ter sede e não poder saciá-la; sentir as dores da fome e não poder pará-la; numa palavra, morrer numa raiva de danado.

11. - Naquele momento supremo pensastes que aquele era o começo de vossa punição?

- Nada pensei. Morri enraivecido, batendo nas paredes do caixão e querendo sair e viver a todo custo.

Observação: Esta resposta é lógica e se justifica pelas contorções nas quais se observa, examinando-se o cadáver, em que condições o indivíduo deve ter morrido.

12. - Ao se desprender, vosso Espírito viu o corpo de Guillaume Remone?

- Logo depois da morte eu me via ainda na Terra.

13. - Quanto tempo ficastes nesse estado, isto é, com o Espírito ligado ao corpo, mas não o animando?

- Aproximadamente quinze a dezoito dias.

14. - Logo que deixastes vosso corpo, em que lugar vos vistes?

- Vi-me cercado por uma porção de Espíritos, como eu cheios de dor, não ousando levantar para Deus seus corações ainda ligados à Terra e desesperançados de receber o perdão.

Observação: Ligado ao próprio corpo e sofrendo ainda as torturas dos últimos instantes, pois se achava entre Espíritos sofredores, sem esperança de perdão, não é o inferno com o choro e ranger de dentes? Será necessário construir um forno com chamas e tridentes? Como é sabido, a crença na perpetuidade dos sofrimentos é um dos castigos infligidos aos Espíritos culpados. Tal estado dura enquanto os Espíritos não se arrependem, e duraria para sempre se nunca se arrependessem, pois Deus só perdoa o pecador arrependido. Desde que o arrependimento lhe entre no coração, um raio de esperança deixar-lhe-á entrever a possibilidade de um termo aos seus males. Mas não basta o simples arrependimento. Deus quer a expiação e a reparação, e é pelas reencarnações sucessivas que Deus dá aos Espíritos imperfeitos a possibilidade de melhora. Na erraticidade eles tomam resoluções que tentam executar na vida corpórea. É assim que, a cada existência, deixando algumas impurezas, gradativamente se aperfeiçoam e dão um passo à frente para a felicidade eterna. Jamais lhes é fechada a porta da felicidade, que atingem num tempo mais ou menos longo, conforme a vontade e o trabalho que fizerem sobre si mesmos para merecê-la.

Não se pode admitir a onipotência de Deus sem a presciência. Assim sendo, pergunta-se por que Deus, ao criar uma alma, sabendo que deveria falir sem poder erguer-se, tirou-a do nada para votá-la a tormentos eternos? Ele quis, então, criar almas infelizes?

Tal proposição é inconciliável com a ideia de bondade infinita, que é um de seus atributos essenciais. De duas uma: ou ele sabia, ou não sabia. Se não sabia, não é onipotente. Se sabia, não é justo nem bom. Ora, tirar uma parcela do infinito de seus atributos é negar a Divindade. Ao contrário, tudo se concilia com a possibilidade de deixar o Espírito reparar suas faltas. Deus sabia que, em virtude de seu livre-arbítrio, o Espírito faliria, mas também sabia que se ergueria. Ele sabia que, tomando o mau caminho, retardaria sua chegada à meta, mas que, mais cedo ou mais tarde, chegaria. É para fazê-lo chegar mais depressa que Deus multiplica os avisos sobre o caminho. Se ele não os escuta, é mais culpado, e merece o prolongamento das provas. Qual a mais racional das duas doutrinas?

A.K.


 
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Dezembro de 2015, 13:43
11 de agosto
 
15. - Nossas perguntas vos seriam desagradáveis?

- Isso me lembra pungentes recordações, mas agora que entrei em graça, pelo arrependimento, sinto-me feliz por dar minha vida como exemplo, a fim de premunir os irmãos contra as paixões que poderiam arrastá-los, como a mim.

16. - Comparado com o de vossa esposa, vosso gênero de morte nos leva a supor vos tenha sido aplicada a pena de Talião, e que em vós se realizaram as palavras do Cristo: “O que fere com a espada morrerá pela espada”. Quereis dizer como sufocastes a vossa vítima?

- Em seu leito, como disse, entre dois travesseiros, depois de haver aplicado uma mordaça, para que não gritasse.

17. - Tínheis boa reputação entre os vizinhos?

- Sim. Eu era pobre, mas honesto e estimado. Minha mulher também era de uma família honrada. Foi uma noite em que o ciúme me deixara acordado, que vi sair um homem de seu quarto. Louco de raiva, não sabendo o que fazia, tornei-me culpado do crime que vos revelei.

18. - Revistes a esposa no mundo espírita?

- Foi o primeiro Espírito que me apareceu, como que para censurar meu crime. Eu a vi durante muito tempo, também infeliz. Só depois que foi decidida a minha reencarnação é que me livrei de sua presença.
 
Observação: A visão contínua das vítimas é um dos castigos mais comumente infligidos aos Espíritos criminosos. Os que são mergulhados nas trevas, o que é muito frequente, nem sempre podem escapar. Nada veem senão aquilo que lhes lembra o crime.

19. - Pedistes perdão a ela?

- Não. Nós fugíamos continuamente um do outro e nos encontrávamos sempre frente a frente, para nos torturarmos reciprocamente.

20. - Contudo, a partir do momento em que vos arrependestes tivestes que lhe pedir perdão?

- Desde o momento em que me arrependi não a vi mais.

21. - Sabeis onde se acha ela agora?

- Não sei o que lhe aconteceu, mas ser-vos-á fácil vos informardes com São João Batista, vosso guia espiritual.

22. - Quais foram os vossos sofrimentos como Espírito?

- Eu estava rodeado de Espíritos desesperados. Supunha jamais sair desse estado infeliz. Nenhum clarão de esperança brilhava para minha alma endurecida. A visão da vítima coroava o meu martírio.

23. - Como fostes conduzido a um estado melhor?

- Do meio de meus irmãos em desespero, certo dia vislumbrei um fim que eu logo compreendi que só poderia atingir pelo arrependimento.

24. - Qual foi aquele fim?

- Deus, do qual todos têm uma ideia, queiram ou não queiram.

25. - Já dissestes duas vezes que iríeis reencarnar logo. Seria indiscrição perguntar que gênero de prova escolhestes?

- A morte recolherá todos os seres que me serão caros, e eu sofrerei as mais abjetas moléstias.

26. - Sois feliz agora?

- Relativamente sim, pois entrevejo um termo aos sofrimen­tos. Efetivamente, não.

27. - Do momento em que caístes em letargia, até o momento em que despertastes no caixão, vistes ou ouvistes o que se passava em redor?

- Sim, mas tão vagamente que me parecia um sonho.

28. - Em que ano morrestes?

- Em 1612.

29. (A São João Batista) - Certamente G. Remone não foi obrigado, por punição, a confessar o crime em nossa evocação. Isso parece resultar de sua primeira resposta, na qual fala da justiça de Deus.

- Sim. Ele foi forçado, mas se resignou de boa vontade, pois viu um meio a mais de agradar a Deus, servindo-vos em vossos estudos.

30. - Certamente o Espírito enganou-se quando, na sexta resposta, disse: “Eu sabia que devia cometer um crime”. Provavelmente sabia estar exposto a cometer um crime, mas, tendo o livre-arbítrio, bem podia resistir à tentação.

- Ele explicou-se mal. Deveria ter dito: “Sabia que minha vida estaria cheia de remorsos”. Ele tinha liberdade de escolher o gênero de prova. Ora, para sentir remorsos, é preciso admitir que cometeria uma ação má.

31. - Não se poderia admitir que só tivesse tido o livre-arbítrio no estado de erraticidade, escolhendo tal ou qual prova, mas que, uma vez escolhida essa prova, como encarnado, não mais teria liberdade de não cometer a ação, e assim, necessariamente, o crime deveria ser cometido por ele?

- Ele podia evitá-lo. Ele tinha seu livre-arbítrio como Espírito e como encarnado. Podia, pois, resistir, mas suas paixões o arrastaram.

Observação: É evidente que o Espírito não se tinha dado conta de sua exata situação. Ele havia confundido a prova, isto é, a tentação de fazer, com a ação. Como sucumbiu, acreditou numa ação fatal, por si próprio escolhida, o que não seria racional.

O livre-arbítrio é o mais belo privilégio do espírito humano e uma prova brilhante da justiça de Deus, que torna o Espírito árbitro de seu destino, pois que de si depende abreviar os sofrimentos, ou prolongá-los pelo endurecimento e pela má vontade. Supor que ele pudesse perder a liberdade moral como encarnado seria tirar-lhe a responsabilidade de seus atos.

Pode-se ver, por aí, que se não devem admitir, após maduro exame, certas respostas dos Espíritos, quando não se con­formam com a lógica em todos os pontos.

A. K.

32. - Devemos supor possa um Espírito escolher como prova uma vida de crimes, desde que tenha escolhido o remorso, que não é mais que a consequência da infração da lei divina?

- Ele pode escolher a prova de expor-se a isso, mas, tendo o livre-arbítrio, também pode não falir. Assim, G. Remone tinha escolhido uma vida cheia de desgostos domésticos, que suscitar-lhe-iam a ideia do crime que devia encher-lhe a vida de remorsos se ele os consumasse. Ele quis, portanto, enfrentar essa prova, para tentar sair dela vitorioso.

Vossa linguagem está tão pouco em harmonia com a maneira de se comunicarem os Espíritos que por vezes acontece devam ser retificadas certas frases ditas pelos médiuns, sobretudo quando intuitivos. Pela combinação dos fluidos, nós lhes transmitimos as ideias, que traduzem mais ou menos bem, conforme seja mais ou menos fácil a combinação entre o fluido do nosso perispírito e o fluido animal do médium

SENHORA REMONE
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Dezembro de 2015, 13:48
12 de agosto

33. (A São João) - Poderíamos evocar o Espírito da esposa de G. Remone?

- Não. Ela está encarnada.

34. - Na Terra?

- Sim.

35. - Se não a podemos evocar como Espírito errante, poderíamos fazê-lo como encarnado? Não poderíeis dizer-nos quando estará dormindo?

- Podeis fazê-lo neste momento, pois as noites para esse Espírito são os dias para vós.

36. Evocação do Espírito da Sra. Remone (O Espírito se manifesta).

37. - Lembrai-vos da existência em que fostes a Sra. Remone?

- Sim. Oh! Por que fazer-me recordar minha vergonha e minha infelicidade?

38. - Se estas perguntas vos fazem sofrer, nós pararemos.

- Peço que continueis.

39. - Nosso objetivo não é vos fazer sofrer. Não vos conhecemos e talvez jamais vos conheçamos. Queremos apenas fazer estudos espíritas.

- Meu Espírito está tranquilo. Por que agitá-lo com penosas lembranças? Não podeis fazer estudos com Espíritos errantes?

40. (A São João) - Devemos cessar as perguntas que parecem despertar nesse Espírito uma lembrança dolorosa?

- Eu vo-lo aconselho. É ainda uma criança, e a fadiga do seu Espírito teria uma penosa reação sobre o corpo. Aliás, seria mais ou menos a repetição do que disse o seu marido.

41. - G. Remone e sua esposa se perdoaram reciprocamente?

- Não. Para isso é preciso que cheguem a um mais alto grau de perfeição.

42. - Se esses dois Espíritos se encontrassem na Terra como encarnados, que sentimentos experimentariam reciprocamente?

- Apenas antipatia.

43. - Se G. Remone revisse, como visitante, o seu corpo na caverna de Saint Michel, experimentaria uma sensação desconhecida pelos outros curiosos?

- Sim, mas tal sensação parecer-lhe-ia muito natural.

44. - Ele reviu o seu corpo depois que foi retirado da terra?

- Sim.

45. - Quais foram as suas impressões?

- Nulas. Sabeis bem que, desprendidos de seu envoltório, os Espíritos veem as coisas daqui debaixo de modo diverso dos encarnados.

46. - Poderíamos obter alguns informes sobre a posição atual da Sra. Remone?

- Perguntai.

47. - Qual é hoje o seu sexo?

- Feminino.

48. - Seu país natal?

- Está nas Antilhas, como filha de um rico negociante.

49. - As Antilhas pertencem a várias nações. Qual a sua?

- Ela mora em Havana.

50. - Poderíamos saber o seu nome?

- Não o pergunteis.

51. - Qual a sua idade?

- Onze anos.

52. - Quais serão as suas provas?

- A perda de sua fortuna e um amor ilegítimo e sem esperanças, aliados à miséria e a duros trabalhos.

53. - Dizeis um amor ilegítimo. Amará, talvez, seu pai, o irmão ou um dos seus?

- Ela amará um homem consagrado a Deus, só e sem esperança de correspondência.

54. - Agora que conhecemos as provas desse Espírito, se o evocássemos uma vez ou outra, durante o sono, em seus dias infelizes, não poderíamos dar alguns conselhos para restaurar sua coragem e fazê-la esperar em Deus? Isso influiria sobre as resoluções que ela poderia tomar no estado de vigília?

- Muito pouco. Essa jovem já tem uma imaginação fértil e a cabeça dura.

55. - Dissestes que no país em que ela vive as noites são os dias para nós. Ora, entre Havana e Saint-Jean d’Angély a diferença é de apenas cinco horas e meia. Como no momento da evocação eram duas horas aqui, em Havana deveria ser oito horas e meia da manhã.

- Ora, ela cochilava ainda quando a evocastes, ao passo que despertastes há bastante tempo. Naquelas regiões dorme-se tarde, quando se é rico e não se tem o que fazer.

Observação: Desta evocação ressaltam vários ensinamentos. Se, na vida exterior de relação, o Espírito encarnado não se recorda de seu passado, lembra-se quando desprendido no sono. Não há, pois, solução de continuidade na vida do Espírito que, nos momentos de emancipação, pode lançar um olhar retrospectivo sobre suas existências anteriores e disso trazer uma intuição, que poderá dirigi-lo quando em vigília.

Em diversas ocasiões ressaltamos os inconvenientes que, em vigília, apresentaria a lembrança precisa do passado. Essas evocações nos fornecem um exemplo. Foi dito que se G. Remone e sua esposa se encontrassem, experimentariam um recíproco sentimento de antipatia. Que seria se se lembrassem das antigas relações! O ódio recíproco despertaria inevitavelmente. Em vez de dois seres apenas antipáticos ou indiferentes um para com o outro, talvez fossem inimigos mortais. Com sua ignorância, são mais eles mesmos e marcham mais livremente no novo caminho a percorrer. A lembrança do passado os perturbaria, humilhando-os aos seus próprios olhos e aos dos outros. O esquecimento não lhes faz perder o fruto da experiência, porque nascem com aquilo que adquiriram em inteligência e moralidade. São aquilo que se fizeram. Isso lhes é um novo ponto de partida. Se, com as novas provas que G. Remone terá que sofrer, se aliasse à lembrança das torturas da derradeira morte, seria um suplício atroz que Deus quis evitar, lançando um véu sobre o passado.

A. K.

JACQUES NOULIN
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Dezembro de 2015, 13:51
15 de agosto

 
56. (A São João) - Podemos evocar o cúmplice da Sra. Remone?

- Sim.

57. Evocação. (O Espírito se manifesta).

58. - Jurai em nome de Deus que sois o Espírito do que foi rival de Remone.

- Jurarei em nome de tudo o que quiserdes.

- Jurai em nome de Deus.

- Juro em nome de Deus.

59. - Parece que não sois um Espírito muito adiantado.

- Cuidai dos vossos negócios e deixai que me vá.

Observação: Como não há portas fechadas para os Espíritos, se este pede que o deixem ir, é que um poder superior o obriga a ficar, certamente para sua instrução.

60. - Ocupamo-nos dos nossos negócios porque queremos saber como, na outra vida, a virtude é recompensada e o vício castigado.

- Sim, caríssimo, cada um recebe recompensa ou punição, conforme as suas obras. Tratai, pois, de andar direito.

61. - Vossas fanfarronadas não nos intimidam. Temos confiança em Deus. Mas pareceis ainda muito atrasado.

- Como antes, sou sempre o João Grandão.

62. - Então não podeis responder seriamente a perguntas sérias?

- Ó gente séria, por que vos dirigis a mim? Estou sempre mais disposto a rir do que a filosofar. Sempre gostei da boa mesa, das mulheres agradáveis e do bom vinho.

63. (Ao anjo da guarda do médium). - Podeis dar-nos alguns informes sobre este Espírito?

- Ele não é suficientemente adiantado para vos dar boas razões.

64. - Haveria perigo em entrar em comunicação com ele? Poderíamos induzi-lo a melhores sentimentos?

- Poderia ser mais proveitoso para ele do que para vós. Tentai. Talvez possais convencê-lo a encarar as coisas de outro ponto de vista.

65. (Ao Espírito). - Sabeis que o Espírito deve progredir? Que deve, por encarnações sucessivas, chegar até Deus, de que pareceis muito afastado?

- Jamais havia pensado nisto, por isso estou tão longe dessa meta. Não quero empreender tão longa jornada.

Observação: Eis aqui um Espírito que, em razão de sua leviandade e pouco adiantamento, não se preocupa com a reencarnação. Quando lhe chegar o momento de tomar uma nova existência, que escolha poderá fazer? Evidentemente uma escolha em relação com seus hábitos e seu caráter, a fim de gozar e não com vistas a expiar, até que seu Espírito se ache bastante desenvolvido para compreender as consequências disso. É a história do menino inexperiente que se atira esturdiamente a todas as aventuras e que faz experiência às próprias custas. Lembremos aqui que, para os Espíritos atrasados, incapazes de fazer uma escolha com conhecimento de causa, há encarnações obrigatórias.

A. K.

66. - Conhecestes G. Remone?

- Sim, na verdade um pobre diabo.

67. - Suspeitastes que ele houvesse assassinado a esposa?

- Eu era um pouco egoísta e me ocupava mais de mim que dos outros. Quando soube de sua morte, chorei sinceramente, mas não procurei a causa.

68. - Qual era, então, a vossa posição?

- Eu era um simples auxiliar de portaria do tribunal; um contínuo, como dizeis hoje.

69. - Depois da morte daquela senhora, pensastes nela alguma vez?

- Mas não me lembreis tudo isso!

70. - Nós queremos vo-lo recordar, porque pareceis melhor do que demonstrais.

- Pensei muito, algumas vezes. Mas como era naturalmente despreocupado, sua lembrança passava como um relâmpago, sem deixar traços.

71. - Qual era o vosso nome?

- Sois muito curiosos. Se eu não fosse forçado, já vos teria deixado na mão com a vossa moral e os vossos sermões.

72. - Vivíeis num século religioso. Então nunca orastes por aquela mulher que era por vós amada?

- É isso mesmo.

73. - Revistes G. Remone e sua esposa no mundo dos Espíritos?

- Fui encontrar a rapaziada como eu, e quando aqueles chorões queriam mostrar-se eu lhes dei as costas. Não gosto de me comover e...

74. - Continuai.

- Não sou tão falador quanto vós. Ficarei nisso, se quiserdes.

75. - Sois feliz hoje?

- Por que não? Divirto-me em pregar peças aos descuidados, que julgam tratar com bons Espíritos. Quando se ocupam conosco nós pregamos boas peças.

76. - Isso não é felicidade. A prova de que não sois feliz é que dissestes que fostes forçado a vir. Ora, não há felicidade em fazer aquilo que nos desagrada.

- A gente não tem sempre superiores? Isso não impede de ser feliz. Cada um busca a sua felicidade onde a encontra.

77. - Com algum esforço, sobretudo pela prece, poderíeis atingir a felicidade daqueles que vos comandam.

- Não pensei nisso. Vós ireis tornar-me ambicioso. Não me enganais? Não ireis inquietar à toa o meu pobre Espírito.

78. - Não vos enganamos. Trabalhai pelo vosso avanço.

- É preciso muito sacrifício, e eu sou preguiçoso.

79. - Quando se é preguiçoso, pede-se ajuda a um amigo. Então nós vos ajudaremos, orando por vós.

- Orai, então, para que eu mesmo me decida a orar.

80. - Oraremos, mas orai também.

- Credes que se eu orasse ganharia ideias no sentido das vossas?

81. - Sem dúvida, mas orai do vosso lado. Nós vos evocaremos na quinta-feira, dia 21, para ver o progresso que tiveres feito e vos dar conselhos, caso concordeis.

- Então, até logo.

82. - Agora quereis dizer o vosso nome?

- Jacques Noulin.

No dia seguinte, o Espírito foi evocado novamente e foram feitas perguntas diferentes a respeito da Sra. Remone. Suas respostas foram muito pouco edificantes e do gênero das primeiras. Consultado, São João respondeu: “Enganaste-vos perturbando esse Espírito e nele despertando suas antigas paixões. Teria sido melhor esperar o dia marcado. Ele se achava em nova perturbação. Vossa evocação o havia lançado em ideias de outra ordem, completamente diversas das suas ideias habituais. Ele ainda não tinha podido tomar uma decisão firme, posto se dispusesse a experimentar a prece. Esperai até o dia marcado. Daqui até lá, se ele escutar os bons Espíritos que vos querem ajudar nas boas obras, podereis dele obter alguma coisa”.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Dezembro de 2015, 13:52
Quinta-feira, 21


83. (A São João). - Depois da última evocação, Jacques Noulin emendou-se?

- Ele orou, e a luz se fez para a sua alma. Agora acredita que está destinado a tornar-se melhor e se dispõe a trabalhar.

84. - Que caminho devemos tomar em seu interesse?

- Perguntai-lhe pelo estado atual de sua alma e fazei-o olhar para si mesmo, a fim de que se dê conta da mudança.

85. (A Jacques Noulin). - Refletistes, conforme prometestes, e podeis dizer qual é hoje a vossa maneira de encarar as coisas?

- Antes de tudo quero vos agradecer. Poupastes-me muitos anos de cegueira. Desde alguns dias compreendo que Deus é o meu objetivo; que devo fazer todo o esforço para me tornar digno de a ele chegar. Abre-se para mim uma era nova. As trevas se dissiparam e agora vejo o caminho a seguir. Tenho o coração cheio de esperança e sou sustentado pelos bons Espíritos que vêm em auxílio aos fracos. Vou seguir essa nova via, na qual já encontrei tranquilidade e que me deve levar à felicidade.

86. - Éreis realmente feliz, como nos dissestes?

- Eu era muito infeliz. Vejo-o agora. Mas eu me sentia feliz como todos aqueles que não olham para cima. Eu não pensava no futuro, e andava pela Terra como um ser despreocupado, não me dando ao trabalho de pensar seriamente. Oh! Como deploro a cegueira que me fez perder um tempo precioso! Vós ganhastes um amigo, não o esqueçais. Chamai-me quando quiserdes e, se puder, virei.

87. - Que pensam de vossa disposição os Espíritos com os quais vos reuníeis habitualmente?

- Zombam de mim por ter escutado os bons Espíritos, cuja presença e conselhos todos nós detestávamos.

88. - Seria permitido que fôsseis vê-los?

- Agora só me ocupo do meu progresso. Aliás, os bons anjos que velam por mim e me cercam de cuidados não me permitem mais olhar para trás, senão para me mostrarem o meu aviltamento.

Observação: Indubitavelmente não há qualquer meio material de constatar a identidade dos Espíritos que se manifestaram nas evocações acima. Assim, não o afirmaremos de maneira absoluta. Fazemos essa ressalva para os que creem que aceitamos cegamente tudo quanto vem dos Espíritos. Pecamos antes por um excesso de desconfiança. É que nos devemos guardar de dar como verdade absoluta aquilo que não pode ser controlado. Ora, na ausência de provas positivas, devemos limitar-nos a constatar a possibilidade e buscar as provas morais, em falta de provas físicas.

Do fato em questão, as respostas têm um caráter evidente de probabilidade, e sobretudo de alta moralidade: Não há contradições; nenhuma dessas faltas de lógica chocam o bom senso e delatam o embuste; tudo se liga e se encadeia perfeitamente; tudo está de acordo com o que a experiência já demonstrou. Pode-se, pois, dizer que a história é ao menos verossímil, o que já é muito. O que é certo é que não se trata de um romance inventado pelos homens, mas de uma obra mediúnica. Se fosse uma fantasia de Espírito, não viria senão de um Espírito leviano, pois os Espíritos sérios não se divertem em fazer contos, e os levianos sempre deixam perceber o seu objetivo.

Acrescentamos que a Sociedade Espírita de Saint-Jean d’Angély é um dos centros mais sérios e melhor dirigidos que já vimos, constituída por pessoas tão recomendáveis pelo caráter quanto pelo saber e que, se se pode dizer, levam o escrúpulo ao excesso. Ela pode ser julgada pela sabedoria e pelo método com que as perguntas são apresentadas e formuladas. Assim, todas as comunicações ali obtidas atestam a superioridade dos Espíritos que se manifestam. As evocações acima, portanto, foram feitas em excelentes condições, tanto para o meio quanto para a natureza dos médiuns. Para nós é, pelo menos, uma garantia de sinceridade absoluta.

Acrescentamos que a veracidade do relato foi atestada da maneira mais explícita pelos melhores médiuns da Sociedade de Paris.

Olhando a coisa apenas do ponto de vista moral, apresenta-se grave questão. Eis dois Espíritos, Remone e Noulin, tirados de sua situação e trazidos a melhores sentimentos pela evocação e pelos conselhos que lhes foram dados. Pode-se perguntar se teriam continuado infelizes caso não tivessem sido evocados, e o que acontece com todos os Espíritos sofredores não evocados? A resposta já foi dada na História de um danado (O Espírito de Castelnaudary), publicada na Revista de 1860. Acrescentaremos que esses dois Espíritos, tendo chegado o momento em que poderiam ser tocados pelo arrependimento e receber luzes, circunstâncias providenciais, posto que aparentemente fortuitas, provocaram sua evocação, seja para o seu bem, seja para nossa instrução. A evocação era um meio, mas, em falta desta, a Deus não faltam recursos para vir em auxílio aos infelizes, e podemos ainda ter a certeza de que todo Espírito que quer progredir, sempre encontra assistência, de uma maneira ou de outra.

Allan Kardec

(Texto enviado por IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Dezembro de 2015, 13:24
Efeitos da prece
Revista Espírita de novembro de 1861

(15 de outubro de 1860)
 
(Publicado na Revista Espírita de novembro de 1861, extraída da procura O Espiritismo ou Espiritualismo em Metz, publicada pela Sociedade Espírita de Metz)
 
A prece é uma aspiração sublime, à qual Deus concedeu um poder tão mágico que os Espíritos a reivindicam constantemente.
Orvalho suave como um refrigério para o pobre exilado na Terra e uma organização fecunda para a alma em prova.
A prece age diretamente sobre o Espírito para o qual é dirigida.
Ela não transforma seus espinhos em rosas, mas modifica sua vida de sofrimentos (nada podendo sobre a vontade imutável de Deus) imprimindo-lhe esse impulso de vontade que levanta a sua coragem, ao dar-lhe força para lutar contra as provas e dominá-las. Por esse meio é abreviado o caminho que conduz a Deus e, como efeito maravilhoso, nada pode ser comparado à prece.

Aquele que blasfema contra a prece não passa de Espírito inferior, de tal modo terreno e atrasado que nem mesmo compreende que deve apegar-se a essa tábua de salvação.

Orai, pois a prece é uma palavra descida do Céu;
 é a gota de orvalho no cálice de uma flor;
é o sustentáculo do caniço durante a borrasca;
é a tábua do pobre náufrago na tempestade;
é o abrigo do mendigo e do órfão;
é o berço para a criança dormir.
Emanação divina, a prece nos liga a Deus pela linguagem, chamando sua atenção para nós. Orar por nós é amá-lo. Suplicar-lhe por um irmão é um ato de amor dos mais meritórios. A prece que vem do coração é a chave dos tesouros da graça; é o ecônomo que dispensa benefícios em nome da misericórdia infinita.
A alma que se eleva para Deus por um desses impulsos sublimes da prece, desprendida de seu envoltório grosseiro, parece apresentar-se cheia de confiança perante ele, certa de obter o que pede com humildade.
Orai! Orai!
Fazei um reservatório de vossas santas aspirações, que será aberto no dia da justiça. Preparai o celeiro da abundância, tão precioso durante a carestia. Escondei o tesouro de vossas preces até o dia escolhido por Deus para distribuir o rico depósito.
Acumulai para vós e para os vossos irmãos, o que diminuirá as vossas angústias e vos fará transpor mais rapidamente o espaço que vos separa de Deus.
Reflete em tua miserável natureza; conta as tuas decepções e teus riscos; sonda o abismo profundo para onde podem arrastar-te as paixões; olha em torno de ti os que caem, e sentirás a necessidade imperiosa de recorrer à prece.
É âncora de salvação que impedirá o esfacelamento do teu navio, tão sacudido pelas tormentas do mundo.

Teu Espírito familiar
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 17 de Dezembro de 2015, 19:10
O Espiritismo obriga
Revista Espírita 1866 » Maio »


(Paris, abril de 1866 ─ Médium: Sra. B...)


O Espiritismo é uma ciência essencialmente moral. Então, os que se dizem seus adeptos não podem, sem cometer uma grave inconsequência, subtrair-se às obrigações que ele impõe.

Essas obrigações são de duas ordens.

A primeira concerne o indivíduo que, ajudado pelas claridades intelectuais que a doutrina espalha, pode melhor compreender o valor de cada um de seus atos, melhor sondar todos os refolhos de sua consciência, melhor apreciar a infinita bondade de Deus, que não quer a morte do pecador mas que ele se converta e viva, e que para lhe deixar a possibilidade de erguer-se de suas quedas, lhe deu a longa série de existências sucessivas, em cada uma das quais, levando o peso de suas faltas passadas, ele pode adquirir novos conhecimentos e novas forças, fazendo-o evitar o mal e praticar o que é conforme à justiça e à caridade. Que dizer daquele que, assim esclarecido sobre os seus deveres para com Deus, para com os irmãos, permanece orgulhoso, cúpido, egoísta? Não parece que a luz o tenha enceguecido, porque não estava preparado para recebê-la? Desde então marcha nas trevas, embora esteja em meio à luz. Ele só é espírita de nome. A caridade fraterna dos que veem realmente, deve esforçar-se por curá-lo dessa cegueira intelectual. Mas, para muitos dos que se lhe assemelham, será necessária a luz que o túmulo traz, porque seu coração está muito ligado aos prazeres materiais e seu espírito não está maduro para receber a verdade. Numa nova encarnação compreenderão que os planetas inferiores, como a Terra, não passam de uma espécie de escola mútua, onde a alma começa a desenvolver suas faculdades, suas aptidões, para em seguida aplicá-las ao estudo dos grandes princípios da ordem, da justiça, do amor e da harmonia que regem as relações das almas entre si e as funções que elas desempenham na direção do Universo. Eles sentirão que, chamada a uma tão alta dignidade, qual a de se tornar mensageira do Altíssimo, a alma humana não deve aviltar-se, degradar-se ao contato dos prazeres imundos da volúpia; das ignóbeis tentações da avareza que subtrai a alguns filhos de Deus o gozo dos bens que ele deu para todos; compreenderão que o egoísmo, nascido do orgulho, cega a alma e a faz violar os direitos da justiça, da humanidade, porquanto ele engendra todos os males que fazem da Terra um lugar de dores e expiações. Instruído pelas duras lições da adversidade, seu espírito será amadurecido pela reflexão, e seu coração, depois de ter sido ralado pela dor, se tornará bom e caridoso. É assim que aquilo que nos parece um mal, por vezes é necessário para reconduzir os endurecidos. Esses pobres retardatários, regenerados pelo sofrimento, esclarecidos por essa luz interior que podemos chamar de batismo do Espírito, velarão com cuidado sobre si mesmos, isto é, sobre os movimentos do seu coração e o emprego de suas faculdades, para dirigi-los conforme as leis da justiça e da fraternidade. Eles compreenderão que não são apenas obrigados, eles próprios, a se melhorarem, cálculo egoísta que impede o atingimento do objetivo visado por Deus, mas que a segunda ordem das obrigações do espírita, que decorre necessariamente da primeira e a completa, é a do exemplo, que é o melhor meio de propagação e renovação.

Com efeito, aquele que está convencido da excelência dos princípios que lhe são ensinados e que devem, se a eles conformar a sua conduta, proporcionar-lhe uma felicidade duradoura, não pode, se estiver verdadeiramente animado dessa caridade fraterna que está na própria essência do Espiritismo, senão desejar que sejam compreendidos por todos os homens. Daí a obrigação moral de conformar sua conduta com a sua crença e de ser um exemplo vivo, um modelo, como o Cristo o foi para a Humanidade.

Vós, fracas centelhas oriundas do eterno foco do amor divino, certamente não podeis pretender uma tão vasta radiação quanto a do Verbo de Deus encarnado na Terra, mas cada um, na vossa esfera de ação, pode espalhar os benefícios do bom exemplo. Podeis fazer com que a virtude seja amada, cercando-a do encanto dessa benevolência constante que atrai, cativa e mostra, enfim, que a prática do bem é coisa fácil; que gera a felicidade íntima da consciência que se colocou sob sua lei, pois ela é o cumprimento da vontade divina que nos fez dizer, por intermédio do seu Cristo: Sede perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.

Ora, o Espiritismo não é senão a aplicação verdadeira dos princípios da moral ensinada por Jesus, porque não é senão com o objetivo de fazê-la por todos compreendida, a fim de que por ela todos progridam mais rapidamente, que Deus permite esta universal mani­festação do Espírito, vindo explicar-vos o que vos parecia obscuro e vos ensinar toda a verdade. Ele vem, como o Cristianismo bem compreendido, mostrar ao homem a absoluta necessidade de sua renovação interior pelas próprias consequências de cada um de seus atos, de cada um de seus pensamentos, porque nenhuma emanação fluídica, boa ou má, escapa do coração ou do cérebro do homem sem deixar uma impressão em algum lugar. O mundo invisível que vos cerca é para vós esse Livro de Vida onde tudo se inscreve com uma incrível fidelidade, e a Balança da Justiça divina não é senão uma figura que revela cada um dos vossos atos, cada um dos vossos sentimentos. É, de certo modo, o peso que sobrecarrega a vossa alma e a impede de elevar-se, ou que traz o equilíbrio entre o bem e o mal.

Feliz aquele cujos sentimentos partem de um coração puro. Ele espalha em seu redor uma suave atmosfera que faz amar a virtude e atrai os bons Espíritos; seu poder de radiação é tanto maior quando mais humilde for, e consequentemente mais desprendido das influências materiais que atraem a alma e a impedem de progredir.

As obrigações impostas pelo Espiritismo são, portanto, de uma natureza essencialmente moral, porque são uma consequência da crença; cada um é juiz e parte em sua própria causa; mas as claridades intelectuais que ele traz a quem realmente quer conhecer-se a si mesmo e trabalhar em seu melhoramento são tais que amedrontam os pusilânimes, e é por isso que ele é rejeitado por tantas pessoas. Outros tratam de conciliar a reforma que sua razão lhes demonstra ser uma necessidade com as exigências da Sociedade atual. Daí uma mistura heterogênea, uma falta de unidade que faz da época atual um estado transitório. É muito difícil para a vossa pobre natureza corporal despojar-se de suas imperfeições para revestir o homem novo, isto é, o homem que vive segundo os princípios de justiça e de harmonia desejados por Deus. Com esforços perseverantes, nada obstante, lá chegareis, porque as obrigações impostas à consciência, quando suficientemente esclarecida, têm mais força do que jamais terão as leis humanas baseadas no constrangimento de um obscurantismo religioso que não suporta exame. Mas se, graças às luzes do alto, fordes mais instruídos e compreenderdes mais, também deveis ser mais tolerantes e não empregar, como meio de propagação, senão o raciocínio, porque toda crença sincera é respeitável. Se vossa vida for um belo modelo em que cada um possa achar bons exemplos e sólidas virtudes, onde a dignidade se alia a uma graciosa amenidade, rejubilai-vos, porque tereis compreendido, pelo menos em parte, a que obriga o Espiritismo.

LUÍS DE FRANÇA
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Dezembro de 2015, 12:15
O Espiritismo nas prisões
Revista Espírita, fevereiro de 1864
 
 
      Na Revista de novembro de 1863, publicamos uma carta de um condenado detido numa penitenciária, como prova da influência moralizadora do Espiritismo. A carta abaixo transcrita, de um condenado em outra prisão, é um exemplo dessa poderosa influência. É de 27 de dezembro de 1863. Transcrevemo-la textualmente, quanto ao estilo. Corrigimos apenas os erros ortográficos.
 
      “Senhor,
 
      Há poucos dias, quando me falaram pela primeira vez de Espiritismo e de revelação de além-túmulo, eu ri e disse que isto não era possível. Eu falava como um ignorante, que sou. Alguns dias depois tiveram a bondade de me confiar, em minha horrível posição em que me acho agora, vosso bom e excelente Livro dos Espíritos. A princípio li algumas páginas com incredulidade, não querendo, ou melhor, não crendo nessa ciência. Enfim, pouco a pouco e sem me aperceber, por ele tomei gosto; depois levei a coisa a sério; depois li pela segunda vez o vosso livro, mas então com um outro espírito, isto é, com calma e com toda a pouca inteligência que Deus me deu.
 
      Senti então despertar essa velha fé que minha mãe me tinha posto no coração e que dormitava há longo tempo. Senti o desejo de me esclarecer sobre o Espiritismo. A partir desse momento tive um pensamento muito decidido, o de tomar conhecimento, aprender, ver e depois julgar. Pus-me à obra com toda a crença que se pode ter e que é preciso ter em Deus e em seu poder. Eu desejava ver a verdade. Orei com fervor e comecei as experiências.
 
      As primeiras foram nulas, sem resultado algum, mas não me desencorajei. Perseverei em minhas experiências e, palavra, redobrei minhas preces, que talvez não fossem bastante fervorosas e mergulhei no trabalho com toda a convicção de uma alma crente e que espera.
 
      Ao cabo de algumas noites, pois só posso fazer as experiências à noite, senti, por cerca de dez minutos, frêmitos nas pontas dos dedos e uma leve sensação no braço, como se tivesse sentido correr um riachinho de água morna, que parava no punho. Eu estava então bem recolhido, todo atenção e cheio de fé. Meu lápis traçou algumas linhas perfeitamente legíveis, mas não bastante corretas para não crer que estivesse sob o peso de uma alucinação. Esperei então com paciência a noite seguinte para recomeçar as experiências, e dessa vez agradeci a Deus, de todo o coração, pois tinha obtido mais do que ousava esperar.

      Desde então, de duas em duas noites, entretenho-me com os Espíritos que são bastante bons para responder ao meu apelo e, em menos de dez minutos, respondem sempre com caridade. Escrevo meia página ou páginas inteiras que minha inteligência não poderia fazer sozinha, porque, às vezes, são tratados filosófico-religiosos em que jamais pensei nem pus em prática; porque dizia-me, aos primeiros resultados: Não serás joguete de uma alucinação ou da tua vontade? E a reflexão e o exame me provavam que eu estava bem longe dessa inteligência que havia traçado aquelas linhas. Eu baixava a cabeça, cria e não podia ir contra a evidência, a menos que estivesse inteiramente louco.

      Remeti duas ou três dessas comunicações à pessoa que tinha feito a caridade de me confiar o vosso bom livro, para que ela sancione se estou certo. Venho pedir-vos, senhor, vós que sois a alma do Espiritismo, que tenhais a bondade de me permitir vos envie o que obtiver de sério em minhas conversas de além-túmulo, se, todavia, achardes bom. Se isto for de vosso agrado, vos enviarei as conversas mantidas com Verger, aquele que feriu o arcebispo de Paris. Para bem me assegurar de que o manifestante era ele mesmo, evoquei São Luís, que me respondeu afirmativamente, bem como outro Espírito no qual tenho muita confiança, etc...............”
 
      As consequências morais deste fato se deduzem por si mesmas. Eis um homem que tinha abjurado toda crença e que, ferido pela lei, se acha confundido com o rebotalho da Sociedade. Esse homem, no meio do pântano moral, voltou à fé. Ele vê o abismo em que caiu; ele se arrepende; ele ora e, digamo-lo, ah! Ele ora com mais fervor do que muita gente que exibe devoção. Para isto bastou a leitura de um livro onde encontrou elementos de fé que a sua razão pôde admitir, que reanimaram as suas esperanças e lhe fizeram compreender o futuro. Além disso, o que é digno de nota, é que a princípio leu com prevenção e sua incredulidade só foi vencida pelo ascendente da lógica.

      Se tais resultados são produzidos por uma simples leitura, feita, por assim dizer, às ocultas, o que seria se a ela se pudesse juntar a influência das exortações verbais! É bem certo que, na disposição de espírito em que hoje se encontram, esses dois homens (ver o fato relatado no número de novembro último), não apenas não terão, durante sua detenção, qualquer conduta reprovável, mas entrarão no mundo com a resolução de aí viverem honestamente.
 
      Considerando-se que estes dois culpados puderam ser reconduzidos ao bem pela fé que acharam no Espiritismo, é evidente que se eles tivessem tido essa fé previamente, não teriam cometido o mal. A Sociedade é, pois, interessada na propagação de uma doutrina de tão grande poder moralizador. É o que se começa a compreender.

      Uma outra consequência a tirar do fato relatado é que os Espíritos não são detidos pelos ferrolhos, e que vão até o fundo das prisões levar suas consolações. Assim, não está no poder de ninguém impedir que eles se manifestem de uma ou de outra maneira. Se não for pela escrita, será pela audição. Eles enfrentam todas as proibições, riem-se de todas as interdições, transpõem todos os cordões sanitários. Que barreira podem, então, lhes opor os inimigos do Espiritismo?
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 20 de Dezembro de 2015, 18:51
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #69 em: 16 12 15, às 19:10, de Moisés

      Amigos, Moisés citou da Revista Espírita o texto: “O Espiritismo obriga”; à medida que o vamos lendo, vamos adicionar uns poucos comentários:

      Comentários provocados pelo texto:

      - se os que se dizem adeptos do espiritismo não podem, sem cometer uma "grave inconsequência", subtrair-se às "obrigações" que ele impõe, qual é a causa de todos os espiritas deste planeta estarem condenados por Deus a viverem neste mundo de sofrimentos tão severos? Isso não se deve, exatamente, ao fato de não terem cumprido as obrigações que a DE impõe??!!

      Mas, será isso mesmo, meu amigo Moisés, que a doutrina diz?!!!  Que o espiritismo “obriga” seus adeptos a fazerem o que ele determina? Fazer o bem por obrigação muda o íntimo de alguém?!

      Por ex: aquele que é mau, se faz o bem porq a Doutrina determina que faça, deixará de ser mau e se transformará em homem bom?! Sinceramente, não entendo!! Para mim, esse que faz o bem por obrigação, se esforça a fazer o que a doutrina manda, com medo das consequências da lei de causa e efeito, que Deus lhe imporá!!

      - porq é que, mesmo a doutrina espalhando "claridades intelectuais", tantos ainda cometem, de propósito, ações maldosas, e, vc sabe, que nem os espíritas estão livres de praticar essas ações?

      - sendo “infinita a bondade de Deus”, porq é que Ele nos impõe penalidades desesperadoras e mesmo tão insuportáveis que, a cada ano, de 20 a 40 milhões de irmãos nossos escolhem se suicidar por não os suportarem?

      - tb não consigo entender que se diga que “Deus quer que os pecadores se convertam”, se não nos permite nem mesmo que entendamos o que é básico para que se entenda a doutrina: qual é a causa de uns serem bons e outros serem maus!

      A DE diz que é devido ao livre-arbítrio; no entanto, essa faculdade não obriga que tantos se tornem maus; apenas nos dá a liberdade de escolher entre mal e bem! Sendo assim, qual é a causa de espíritos, que são criados perfeitamente iguais em todos os requisitos que interessam à evolução, com o livre-arbítrio uns escolherem o caminho do bem e outros o do mal?!!

      E a doutrina ainda ensina que isso acontece “desde o princípio”; que uns "desde o princípio" tomam o caminho do "bem absoluto", ao passo que outros, tb "desde o princípio" tomam o caminho do mal absoluto!!!!!

      - e já que carregamos o “peso de faltas passadas”, que sem dúvida implicam em sofrimentos muitas vezes terríveis, porq as cometemos no passado, e mesmo ainda no presente, se podemos não cometê-las?

      Um forte abraço Kaza!
...............
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Dezembro de 2015, 21:52
Que fizeram de mim?

(Publicado na Revista Espírita, setembro de 1868 - Instruções dos Espíritos)

 
Extraímos a comunicação seguinte do jornal espírita le Salut, que é publicado em Nova Orleans, número de 1º de junho de 1868:

- Filhos, eu vos escrevi: “Quando vossa boa união me chamar, virei a vós.” E vossa boa união me chamou; eis-me aqui.

Eis-vos agora como meus apóstolos de outrora. Fazei como os bons e não façais como os maus; que ninguém renegue, que ninguém traia! Ides assentar-vos à mesma mesa que reunia os amigos da minha fé e do meu coração; que ninguém seja nem Pedro nem Judas!

Ó meus bons filhos, olhai em torno de vós e vede! Minha cruz, o instrumento glorioso de meu vil suplício, domina os edifícios da tirania ... e eu, eu não tinha vindo senão para pregar a liberdade e a felicidade. Com a minha cruz, afogaram os corpos no sangue e as consciências na mentira! Com a minha cruz, disseram aos homens: “Obedecei aos vossos senhores; curvai-vos ante os opressores!” E eu dizia: “Sois todos filhos de um mesmo pai, sem distinção a não ser a de vossos méritos, resultantes da vossa liberdade.”

Eu tinha dito aos grandes: “Humilhai-vos!” e aos pequenos: “Erguei-vos!” e exaltaram os grandes e rebaixaram os pequenos.

O que fizeram de mim, de minha memória, de minha lembrança, de meu apostolado? Um sabre! - Sim, e há ainda aqueles que se fizeram agentes dessa infâmia! ... Oh! Se fosse possível sofrer na morada celeste, eu sofreria!... e vós, vós deveis sofrer... e deveis estar prontos a tudo para a redenção que comecei, ainda que seja apenas para arvorar sobre a mesma montanha o mesmo sinal de união!... Ele será visto e compreendido, e deixarão tudo para defendê-lo, para abençoá-lo, para amá-lo.

Filhos, ide para o Céu com a fé, e toda a Humanidade vos seguirá sem medo e com amor! Logo sabereis, na prática, o que é o mundo, se a teoria não vos tiver mostrado.

Tudo quanto vos foi dito para a prática do verdadeiro Cristianismo não é senão a sombra da verdade! O triunfo que vos espera está tão acima dos triunfos humanos e dos vossos pensamentos, quanto as estrelas do céu estão acima dos erros da Terra!

Oh! Quando eles verão como Tomé! Quando tiverem tocado!... Vós vereis! Vós vereis! As paixões vos criarão obstáculos, depois elas vos socorrerão, porque serão as boas paixões após as más paixões.

Pensai em mim quando fordes partir o meu pão e beber o meu vinho, dizendo que arvorais, para a eternidade, a bandeira dos mundos... Oh! sim, dos mundos, porque ela unirá o passado, o presente e o futuro a Deus.

JESUS.

Comentário de Kardec:
O jornal publica esta comunicação sem dar informação sobre as circunstâncias em que foi obtida. Parece, contudo, que deve ter sido numa festa comemorativa da ceia, ou qualquer ágape fraterno entre os adeptos. Seja como for, ela traz, no fundo e na forma dos pensamentos, na simplicidade unida à nobreza do estilo, um cunho de identidade que não poderíamos ignorar. Ela atesta, da parte dos assistentes, disposições de natureza a lhes merecer esse favor, e não podemos senão felicitá-los. Pode-se ver que as instruções dadas na América sobre a caridade e a fraternidade não cedem em nada às que são dadas na Europa. É o elo que unirá os habitantes dos dois mundos.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 25 de Dezembro de 2015, 12:12
COMUNICAÇÃO ESPÍRITA.
A propósito de A Imitação do Evangelho.

(Bordeaux, maio de 1864; grupo de Saint-Jean. - Médium, Sr. Rui.)

Um novo livro acaba de aparecer; é uma luz mais brilhante que vem clarear o vosso
caminho.

Há dezoito séculos eu vim, por ordem de meu Pai, trazer a palavra de Deus aos
homens de vontade. Esta palavra foi esquecida pela maioria, e a incredulidade, o materialismo,vieram abafar o bom grão que eu tinha depositado sobre vossa Terra. Hoje, por ordem do Eterno, os bons Espíritos, seus mensageiros, vêm sobre todos os pontos do
globo fazer ouvir a trombeta retumbante. Escutai suas vozes; são aquelas destinadas a
vos mostrar o caminho que conduz aos pés do Pai celeste. Sede dóceis aos seus ensinos;
os tempos preditos são chegados; todos as profecias serão cumpridas.
Pelos frutos se reconhece a árvore. Vede quais são os frutos do Espiritismo: casais,
onde a discórdia havia substituído a harmonia, viu-se retornar à paz e à felicidade; os homens que sucumbiam sob o peso de suas aflições, despertados aos assentos melodiosos das vozes de além-túmulo, compreenderam que caminhavam em falso caminho, e, ruborizados de suas fraquezas, arrependeram-se, e pediram ao Senhor a força de suportar suas provas.
Provas e expiações, eis a condição do homem sobre a Terra. Expiação do passado, provas para fortalecê-los contra a tentação, para desenvolver o Espírito pela atividade da luta, habituá-lo a dominar a matéria, e prepará-lo para os gozos puros que o esperam no
mundo dos Espíritos.
Há várias moradas na casa de meu Pai, eu lhes disse há dezoito séculos. Estas palavras,
o Espiritismo veio fazer compreendê-las. E vós, meus bem-amados, trabalhadores que suportais o ardor do dia, que credes ter a vos lamentar da injustiça da sorte, bendizei
vossos sofrimentos; agradecei a Deus que vos dá os meios de quitar as dívidas do passado; orai, não dos lábios, mas do vosso coração melhorado, para vir tomar, na casa de meu Pai, a melhor morada; porque os grandes serão rebaixados; mas, vós o sabeis, os
pequenos nos e os humildes serão elevados. 

O ESPÍRITO DE VERDADE.   

Nota.
- Sabe-se que tomamos tanto menos a responsabilidade dos nomes quanto
pertençam a seres mais elevados. Nós não garantimos mais essa assinatura do que muitas
outras, nos limitando a entregar esta comunicação à apreciação de todo Espírita esclarecido.Diremos, no entanto, que não se pode nela desconhecer a elevação do pensamento, a nobreza e a simplicidade das expressões, a sobriedade da linguagem, a ausência de todo supérfluo. Se se a compara àquelas que estão reportadas em A Imitação do Evangelho (prefácio, e cap. III: O Cristo consolador), e que levam a mesma assinatura,
embora obtidas por médiuns diferentes e em diferentes épocas, nota-se entre elas uma
analogia evidente de tom, de estilo e de pensamentos que acusa uma fonte única. Por
nós, dizemos que ela pode ser de O Espírito de Verdade, porque ela é digna dele; ao
passo que delas vimos massas assinadas com este nome venerado, ou o de Jesus, cuja
prolixidade, verborragia, vulgaridade, às vezes mesmo a trivialidade das idéias, traem a
origem apócrifa aos olhos dos menos clarividentes. Somente uma fascinação completa
pode explicar a cegueira daqueles que nisso se deixam prender, se não for também o orgulho de se crer infalível e o intérprete privilegiado dos puros Espíritos, orgulho sempre
punido, cedo ou tarde, por decepções, mistificações ridículas e por infelicidades reais nesta
vida. À vista desses nomes venerados, o primeiro sentimento do médium modesto é o
da dúvida, porque não se crê digno de um tal favor.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Dezembro de 2015, 12:24
Festa de Natal

Revista Espírita, abril de 1863


- Dissertações espíritas

(Sociedade Espírita de Tours, 24 de dezembro de 1862 -  Médium, Sr. N...)
 

É nesta noite que, no mundo cristão, se festeja o nascimento do Menino Jesus. Mas vós, meus irmãos, deveis também alegrar-vos e festejar o nascimento da nova Doutrina Espírita. Vê-la-eis crescer como essa criança. Ela virá, como ele, esclarecer os homens e lhes mostrar o caminho que devem percorrer. Em breve vereis os reis, como os magos, virem pessoalmente a esta doutrina pedir o socorro que não encontram nas ideias antigas. Eles não vos trarão incenso e mirra, mas prosternar-se-ão de coração ante as ideias novas do Espiritismo. Já não vedes brilhar a estrela que deve guiá-los? Coragem, pois, meus irmãos! Coragem, e em breve podereis, com o mundo inteiro, celebrar a grande festa da regeneração da Humanidade.

Meus irmãos, durante muito tempo encerrastes no vosso coração o germe desta doutrina; mas hoje eis que ele surge em plena luz com o apoio de um tutor solidamente plantado e que não deixará que verguem seus galhos tenros. Com esse sustentáculo providencial, ele crescerá dia a dia e tornar-se-á a árvore da criação divina. Dessa árvore colhereis frutos dos quais não conservareis a exclusividade para vós, mas para os vossos irmãos que tiverem fome e sede da fé sagrada. Oh! Então apresentai-lhes esse fruto, e gritai-lhes do fundo do vosso coração: “Vinde, vinde partilhar conosco o que alimenta o nosso espírito e alivia as nossas dores físicas e morais.”

Mas não esqueçais, meus irmãos, que Deus vos fez fermentar o primeiro germe; que esse germe cresceu e já se tornou uma árvore capaz de dar o seu fruto. Resta-vos algo a utilizar: os galhos que podereis transplantar. Mas, antes, vede se o terreno ao qual confiais esse germe não oculta sob sua camada aparente algum verme roedor, que poderia devorar o que o Mestre vos confiou.

SÃO LUÍS
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 29 de Dezembro de 2015, 16:42
Princípio Vital das Sociedades Espíritas

Revista Espírita, junho de 1862


...Examinai bem em vosso redor se não há falsos irmãos, curiosos,incrédulos.
Se os encontrardes, rogai-lhes com doçura, com caridade, que se retirem.
Se resistirem, contentai-vos em orar com fervor para que o Senhor os esclareça e, de outra vez, não os admitais em vossos trabalhos.
Não recebais em vosso meio se-não os homens simples, que querem buscar a verdade e o progresso.
Isto é, em outros termos, desembaraçar-vos
polidamente dos que vos entravam.”


Allan Kardec –
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 29 de Dezembro de 2015, 17:57
Revista Espírita, junho de 1862

Ensinos e Dissertações Espíritas
O ESPIRITISMO FILOSÓFICO

(Bordeaux, 4 de abril de 1862 – Médium: Sra. Collignon)


Meus amigos, falamos do Espiritismo do ponto de vista religioso; agora que está bem estabelecido que ele não é uma religião nova, mas a consagração dessa religião universal cujas bases lançou o Cristo, e que hoje vem levar ao coroamento, vamos encarar o
Espiritismo do ponto de vista moral e filosófico.

Antes de mais, expliquemo-nos quanto ao exato sentido da palavra filosofia. A filosofia não é uma negação das leis estabelecidas pela divindade, da religião. Longe disto, a filosofia é a
busca do que é sábio, do que é o mais exatamente razoável. E o que pode ser mais sábio, mais razoável que o amor e o reconhecimento que se deve ao seu Criador e, conseguintemente, o culto, seja qual for, que pode servir para lhe provar esse reconhecimento e esse amor?
A religião, e tudo quanto a ela vos pode levar é, pois, uma filosofia, porque é uma sabedoria do homem que a ela se submete com alegria e docilidade. Feitos esses reparos, vejamos o que podeis tirar do Espiritismo, posto em prática seriamente.
Qual o fim para onde tendem todos os homens, seja qual for a posição em que se encontrem?
O melhoramento de sua posição presente. Ora, para o conseguir, correm para todos os
lados e se extraviam na maior parte, porque, enceguecidos pelo orgulho, arrastados pela ambição, não vêem a única rota que pode conduzir a esse melhoramento; buscam-na na satisfação do orgulho, de seus instintos brutais, de sua ambição, ao passo que só poderão encontrá-la no amor e na submissão devidos ao Criador.

O Espiritismo vem, pois, dizer aos homens: Deixai esses atalhos tenebrosos, cheios de precipícios, cercados de espinhos e urzes e entrai no caminho que leva à felicidade que sonhais. Sede prudentes, a fim de serdes felizes; compreendei, meus amigos, que para os homens os bens da Terra não passam de emboscadas, que devem evitar. Eis por que finalmente o Senhor permitiu vísseis a luz desse farol, que deve vos conduzir ao porto.
As dores e os males que sofreis com impaciência e revolta são o ferro em brasa que o cirurgião aplica sobre a ferida aberta, a fim de impedir a gangrena de perder todo o corpo.

Vosso corpo, meus amigos, o que representa para o Espírito?
que deve ele salvar?
que deve preservar do contágio?
que deve cicatrizar, por todos os meios possíveis, senão a chaga que rói o Espírito, a enfermidade que o entrava e o impede de lançar-se radioso para o seu Criador?

Voltai sempre os olhos para este pensamento filosófico, isto é, cheio de sabedoria: Somos uma essência criada pura, mas decaída; pertencemos a uma pátria onde tudo é pureza; culpados, fomos exilados por algum tempo, mas só por algum tempo. Empreguemos, pois, todas as nossas forças, todas as energias em diminuir o tempo de exílio; esforcemo-nos por todos os meios que o Senhor pôs à nossa disposição para reconquistar essa pátria perdida e abreviar o tempo de ausência. (Vide o número de janeiro de 1862: Doutrina dos anjos decaídos.)

Compreendei bem que vossa sorte futura está em vossas mãos; que a duração de vossas provas depende inteiramente de vós; que o mártir tem sempre direito à palma da vitória e que, para ser mártir, não é necessário, como aconteceu com os primeiros cristãos, servir de pasto aos animais ferozes. Sede mártires de vós mesmos; quebrai, aniquilai em vós todos os instintos carnais que se revoltam contra o Espírito; estudai com cuidado as vossas inclinações, os vossos gostos, as vossas idéias; desconfiai de tudo quanto a vossa consciência reprova. Por mais baixo que ela vos fale, porque muitas vezes pode ser repelida; por mais baixo que ela vos fale, essa voz do vosso protetor vos dirá que eviteis o que vos pode prejudicar. Em todos os tempos a voz do vosso anjo-da-guarda vos falou, mas quantos ficaram surdos! Hoje, meus amigos, o Espiritismo vem explicar-vos a causa dessa voz íntima; vem dizer positivamente, vem vos mostrar, fazer tocar com o dedo aquilo que podeis esperar se a escutardes docilmente; aquilo que deveis temer se a rejeitardes.

Eis, meus amigos, para o homem em geral, o lado filosófico: a vós compete salvar-vos a vós mesmos. Meus filhos: não procureis distrações materiais nem satisfação à curiosidade,
como fazem os ignorantes. Não chameis a vós, sob o menor pretexto, Espíritos dos quais não tendes a mínima necessidade; contentai-vos em vos entregardes sempre aos cuidados e ao amor de vossos guias espirituais; eles jamais vos faltarão. Quando vos reunirdes num objetivo comum, qual seja o melhoramento de vossa Humanidade, elevai o coração ao Senhor, mesmo que seja para lhe pedir suas bênçãos e a assistência dos Espíritos bons, aos quais vos confiou. Examinai bem em vosso redor se não há falsos irmãos, curiosos, incrédulos. Se os encontrardes, rogai-lhes com doçura, com caridade, que se retirem. Se resistirem, contentai-vos em orar com fervor para que o Senhor os esclareça e, de outra vez, não os admitais em vossos trabalhos. Não recebais em vosso meio senão os homens simples, que querem buscar a verdade e o progresso.

Quando estiverdes certos de que vossos irmãos se acham reunidos em presença do Senhor, chamai os vossos guias e pedi-lhes instruções; eles vo-las darão sempre, proporcionadas às vossas necessidades, à vossa inteligência; mas não busqueis satisfazer a curiosidade da maioria dos que pedem evocações. Quase sempre saem menos convencidos e mais dispostos à zombaria. Aqueles que desejam evocar seus parentes e amigos não o façam jamais senão com um objetivo de utilidade e de caridade; é um ato sério, muito sério, chamar os Espíritos que erram em redor de vós. Se não trouxerdes a fé e o recolhimento necessários, os Espíritos maus tomarão o lugar daqueles que esperais, enganarvos-ão e vos farão cair em erros profundos e algumas vezes vos arrastarão em quedas terríveis!

Não esqueçais, pois, meus amigos, que o Espiritismo é a confirmação do Cristianismo, porque o Cristianismo entra completamente nestas palavras: Amar ao Senhor sobre todas as
coisas, e ao próximo como a si mesmo. Sob o ponto de vista filosófico, é a linha de conduta reta e sábia que vos deve conduzir à felicidade que todos ambicionais; e esta linha vos é traçada partindo de um ponto seguro, demonstrado: a imortalidade da alma, para chegar a outro ponto que ninguém pode negar: Deus!
Eis, meus amigos, o que vos tenho a dizer por hoje. Em breve continuaremos nossas conversas íntimas.

Bernardin

Observação – Esta comunicação faz parte de uma série de ditados sob o mesmo título: O Espiritismo para todos, marcadas todos eles pelo mesmo cunho de profundidade e de simplicidade paternal. Como nem todas podem ser publicadas na Revista, farão parte das coletâneas especiais que preparamos. Dá-se o mesmo com as que nos são dirigidas por outros médiuns de Bordeaux e de outras cidades. Essas publicações serão tanto mais úteis quanto feitas com ordem e método, e tanto mais produziriam um efeito
contrário quanto mais o fossem sem discernimento e sem escolha. Há comunicações que são excelentes para a intimidade, mas que seriam inconvenientes se tornadas públicas. Outras, para serem compreendidas e não darem lugar a falsas interpretações necessitam de comentários e de desenvolvimentos. Nas comunicações muitas vezes é preciso fazer a parte da opinião pessoal do Espírito que fala, e que, se não for muito adiantado, pode formar dos homens e das coisas idéias e sistemas nem sempre justos. Publicadas sem corretivo, essas idéias falsas apenas lançarão descrédito sobre o Espiritismo, fornecerão armas aos seus inimigos e semearão a dúvida e a incerteza entre os neófitos. Com os comentários e as explicações dados a propósito, o próprio mal por vezes se torna instrutivo. Sem isto poderiam responsabilizar a doutrina por todas as utopias enunciadas por certos Espíritos mais orgulhosos que lógicos. Se o Espiritismo pudesse ser retardado em sua marcha, não seria pelos ataques abertos de seus inimigos declarados, mas pelo zelo irrefletido dos amigos imprudentes. Não se trata, pois, de fazer coletâneas indigestas, onde tudo se acha
amontoado confusamente e cujo menor inconveniente seria aborrecer o leitor; é preciso evitar com cuidado tudo quanto possa falsear a opinião sobre o Espiritismo. Ora, tudo isto exige um trabalho que justifica a demora de tais publicações.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Janeiro de 2016, 12:49
O Espírito e o Jurado

(Revista Espírita, novembro de 1859)

Um dos nossos correspondentes, homem de grande saber e portador de títulos científicos oficiais, o que não o impede de cometer a fraqueza de acreditar que temos uma alma e que essa alma sobrevive ao corpo, que depois da morte fica errante no espaço e ainda pode comunicar-se com os vivos, tanto mais quanto ele próprio é um bom médium e mantém conversas com os seres de além-túmulo, dirige-nos a seguinte carta:

“Senhor,

Talvez julgueis acertado agasalhar na vossa interessante revista o fato seguinte:

Há algum tempo eu era jurado. O tribunal devia julgar um moço, apenas saído da adolescência, acusado de ter assassinado uma senhora idosa em circunstâncias horríveis. O acusado confessava e contava os detalhes do crime com uma impassibilidade e um cinismo que faziam fremir a assembleia.

Entretanto é fácil prever, em virtude da sua idade, da sua absoluta falta de educação e dados os estímulos recebidos em família, que fossem apresentadas em seu favor circunstâncias atenuantes, tanto mais que ele fora levado pela cólera, agindo contra uma provocação por injúrias.

Eu quis consultar a vítima a respeito do grau de sua culpabilidade. Chamei-a, no decorrer da sessão, por uma evocação mental. Ela me fez saber que estava presente e eu pus minha mão à sua disposição. Eis a conversação que tivemos - eu, mentalmente, ela pela escrita:

Pergunta: O que a senhora pensa de seu assassino?

Resposta: - Não serei eu quem o acusará.

P. Por quê?

R. - Porque ele foi levado ao crime por um homem que me fez a corte há cinquenta anos e que, nada tendo conseguido de mim, jurou vingar-se. Conservou, após a sua morte, o desejo de vingança e aproveitou as disposições do acusado para lhe inspirar o desejo de matar-me.

P. Como sabe disso?

R. - Porque ele mesmo me disse, quando cheguei a este mundo que hoje habito.

P. Compreendo sua reserva diante dos estímulos que o seu assassino não repeliu como deveria e poderia. Mas a senhora não pensa que a inspiração criminosa, à qual ele voluntariamente obedeceu, não teria sobre ele o mesmo poder, se não houvesse nutrido ou entretido, durante muito tempo, sentimentos de inveja, de ódio e de vingança contra a senhora e a sua família?

R. - Com certeza. Sem isso ele teria sido mais capaz de resistir. Eis por que digo que aquele que quis vingar-se aproveitou as disposições desse moço. O senhor compreende que ele não se teria dirigido a alguém que se dispusesse a resistir.

P. Ele goza com a sua vingança?

R. - Não, pois vê que isso lhe custará caro. Além disso, em lugar de me fazer mal, ele me prestou um serviço, fazendo-me entrar mais cedo no mundo dos Espíritos, onde sou mais feliz. Foi, pois, uma ação má sem proveito para ele.

Circunstâncias atenuantes foram admitidas pelo júri, baseadas nos motivos acima indicados, e a pena de morte foi descartada.

A respeito do que acabo de contar, deve fazer-se uma observação moral de grande importância. É necessário concluir, com efeito, que o homem deve vigiar os seus menores pensamentos malévolos e até mesmo os seus maus sentimentos, aparentemente os mais fugidios, pois eles podem atrair para si Espíritos maus e corrompidos, e expô-lo, fraco e desarmado, às suas inspirações culposas: é uma porta que ele abre ao mal, sem compreender o perigo. Foi, pois, com um profundo conhecimento do homem e do mundo espiritual que Jesus Cristo disse: ‘Todo aquele que olhar para uma mulher para cobiçá-la, já em seu coração adulterou com ela.’ (Mat. 5:28).

Tenho a honra, etc.

SIMON M…”
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 10 de Janeiro de 2016, 21:18
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #77 em: 06 01 16, 12:49, de Moisés

      O texto da Revista Espirita/Nov 1859, suscita os comentários e perguntas abaixo:

      O texto conta a história de um adolescente, que mata alguém e, no tribunal, confessa o crime com frieza e cinismo de estarrecer.

      Numa sessão mediúnica, a vítima diz que o que o menor fizera era até mesmo fácil de prever, devido a sua idade, à absoluta falta de educação e aos estímulos recebidos da família e que fora levado pela cólera devido a injúrias que sofrera, e q praticara o crime por influência de um espírito que queria se vingar dela.

      Pergunta: vc não acredita q o menor poderia não ter cometido o crime, se resistisse àquela má influencia com vontade, repelindo-a como deveria e poderia? Não acredita q a má influência não teria o poder que teve, se o menor não houvesse nutrido, durante muito tempo, sentimentos de inveja, de ódio e de vingança contra vc?

      A vítima responde: Com certeza. Sem isso ele teria sido mais capaz de resistir.
........ 

      O texto termina dizendo que, do que foi relatado, é necessário concluir que o homem deve vigiar os seus menores pensamentos e sentimentos maus, pois eles podem atrair para si Espíritos corrompidos, e expô-lo a inspirações maldosas; q os maus pensamentos e sentimentos são uma porta que o homem abre para o mal, sem compreender o perigo. 

       Agora, para que se entenda perfeitamente o texto, devemos perguntar:

      - qual é a causa de, se somos todos criados perfeitamente iguais, surgir essa gigantesca desigualdade, que faz q uns, “desde o princípio”, escolham seguir o caminho do bem absoluto, e outros, também “desde o princípio”, escolham seguir o caminho do mal absoluto?

      - qual é a causa de uns escolherem ser profundamente frios e cínicos como esse rapaz, e outros não?

      - se, segundo a doutrina, podemos resistir às más influências, porq não resistimos? E porq o menor teve sentimentos de inveja, de ódio, de vingança já que, tendo o livre-arbítrio, poderia escolher, segundo a doutrina, não ter qualquer sentimento mau?

      - e se ele não tivesse nutrido sentimentos de inveja, de ódio e de vingança teria sido capaz de resistir ao mal, porq os nutriu? Não podia ter escolhido não ter esses sentimentos?
........ 
      O texto termina dizendo que, do que foi relatado, é necessário concluir que o homem deve vigiar os seus menores pensamentos e sentimentos maus, pois eles podem atrair para si Espíritos maus e corrompidos, e expô-lo a inspirações maldosas; q os maus pensamentos e sentimentos são uma porta que o homem abre para o mal, sem compreender o perigo.  E que foi, portanto, com um profundo conhecimento do homem e do mundo espiritual que Jesus disse: ‘Todo aquele que olhar para uma mulher para cobiçá-la, já em seu coração adulterou com ela.’ (Mat. 5:28).

      Meu amigo, observe q todos os bem intencionados, ensinamentos de Jesus (como as doutrinas os comunicam para nós), a codificação etc, só sabem ensinar “o que fazer”, mas absolutamente ninguém sabe ensinar o “como fazer”. Com o texto da Revista acontece a mesma coisa; diz “o que fazer”: vigiar pensamentos e sentimentos maus; mas, meu amigo, onde está quem diga o “como fazer” isso? Vc sabe? E nisso, Moisés, há uma agravante: os pensamentos, os sentimentos, não são verdadeiramente nossos; apenas acreditamos que sejam!!

      Um abraço!
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Janeiro de 2016, 14:18
Olá Inconfort

Me desculpe
Eu tenho dificuldades de dialogar qualquer assunto com o amigo
Pois ainda não consigo acompanhar o vosso raciocínio
Compreendo claramente a minha posição

Espero que me compreenda.

Valeu!

Abraços
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Janeiro de 2016, 18:39
A Carne é fraca
Estudo psicológico e moral
Revista Espírita 1869 -Março


Há inclinações viciosas que evidentemente são mais inerentes ao espírito, porque têm a ver mais com a moral do que com o físico; outras mais parecem consequência do organismo e, por este motivo, a gente se julga menos responsável. Tais são as predisposições à cólera, à moleza, à sensualidade, etc.
Está hoje perfeitamente reconhecido pelos filósofos espiritualistas que os órgãos cerebrais correspondentes às diversas aptidões devem o seu desenvolvimento à atividade do espírito; que esse desenvolvimento é, assim, um efeito e não uma causa. Um homem não é músico porque tem a bossa da música, mas tem a bossa da música porque seu espírito é músico (Revista de julho de 1860 e abril de 1862).
Se a atividade do espírito reage sobre o cérebro, deve reagir igualmente sobre as outras partes do organismo. Assim, o espírito é o artífice de seu próprio corpo, por assim dizer, modela-o, a fim de apropriá-lo às suas necessidades e à manifestação de suas tendências. Assim sendo, a perfeição do corpo nas raças adiantadas seria o resultado do trabalho do espírito que aperfeiçoa o seu utensílio à medida que aumentam as suas faculdades. (A Gênese segundo o Espiritismo, cap. XI, Gênese Espiritual).
Por uma consequência natural desse princípio, as disposições morais do espírito devem modificar as qualidades do sangue, dar-lhe maior ou menor atividade, provocar uma secreção mais ou menos abundante de bile ou de outros fluidos. É assim, por exemplo, que o glutão sente vir a saliva, ou, como se diz vulgarmente, vir água à boca à vista de um prato apetitoso. Não é o alimento que pode superexcitar o órgão do paladar, pois não há contato; é, portanto, o espírito, cuja sensualidade é despertada, que age pelo pensamento sobre esse órgão, ao passo que, sobre um outro Espírito, a visão daquele prato nada produz. Dá-se o mesmo em todas as cobiças, todos os desejos provocados pela visão. A diversidade das emoções não pode ser compreendida, numa porção de casos, senão pela diversidade das qualidades do espírito. Tal é a razão pela qual uma pessoa sensível facilmente derrama lágrimas; não é a abundância das lágrimas que dá a sensibilidade ao espírito, mas a sensibilidade do espírito que provoca a abundante secreção de lágrimas. Sob o império da sensibilidade, o organismo modelou-se sob esta disposição normal do espírito, como se modelou sob a do espírito glutão.
Seguindo esta ordem de ideias, compreende-se que um espírito irascível deve levar ao temperamento bilioso, de onde se segue que um homem não é colérico porque é bilioso, mas que é bilioso porque é colérico. Assim acontece com todas as outras disposições instintivas; um espírito mole e indolente deixará o seu organismo num estado de atonia em relação com o seu caráter, ao passo que, se ele for ativo e enérgico, dará ao seu sangue, aos seus nervos, qualidades bem diferentes. A ação do espírito sobre o físico é de tal modo evidente, que por vezes se veem graves desordens orgânicas produzidas por efeito de violentas comoções morais. A expressão vulgar: A emoção lhe fez subir o sangue, não é assim despida de sentido quanto se podia crer. Ora, o que pôde alterar o sangue senão as disposições morais do espírito?
Este efeito é sensível sobre tudo nas grandes dores, nas grandes alegrias, nos grandes pavores, cuja reação pode chegar a causar a morte. Vemos pessoas que morrem do medo de morrer. Ora, que relação existe entre o corpo do indivíduo e o objeto que causa pavor, objeto que, muitas vezes, não tem qualquer realidade? Diz-se que é o efeito da imaginação; seja, mas o que é a imaginação senão um atributo, um modo de sensibilidade do espírito? Parece difícil atribuir a imaginação aos músculos e aos nervos, pois então não compreenderíamos por que esses músculos e esses nervos não têm imaginação sempre; por que não a têm após a morte; por que o que nuns causa um pavor mortal, noutros excita a coragem.
Seja qual for a sutileza que usemos para explicar os fenômenos morais exclusivamente pelas propriedades da matéria, cairemos inevitavelmente num impasse, no fundo do qual se percebe, com toda a evidência, e como única solução possível, o ser espiritual independente, para quem o organismo não é senão um meio de manifestação, como o piano é o instrumento das manifestações do pensamento do músico. Assim como o músico afina o seu piano, pode-se dizer que o Espírito afina o seu corpo para pô-lo no diapasão de suas disposições morais.
É realmente curioso ver o materialismo falar incessantemente da necessidade de elevar a dignidade do homem, quando se esforça para reduzi-lo a um pedaço de carne que apodrece e desaparece sem deixar qualquer vestígio; de reivindicar para si a liberdade como um direito natural, quando o transforma num mecanismo, marchando como um boneco, sem responsabilidade por seus atos.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Janeiro de 2016, 18:40
Com o ser espiritual independente, preexistente e sobrevivente ao corpo, a responsabilidade é absoluta. Ora, para a maioria, o primeiro, o principal móvel da crença no niilismo, é o pavor que causa essa responsabilidade, fora da lei humana, e à qual crê escapar fechando os olhos. Até hoje essa responsabilidade nada tinha de bem definido; não era senão um medo vago, fundado, há que reconhecer, em crenças nem sempre admissíveis pela razão. O Espiritismo a demonstra como uma realidade patente, efetiva, sem restrição, como uma consequência natural da espiritualidade do ser. Eis por que certas pessoas temem o Espiritismo, que as perturbaria em sua quietude, erguendo à sua frente o temível tribunal do futuro. Provar que o homem é responsável por todos os seus atos é provar a sua liberdade de ação, e provar a sua liberdade é revelar a sua dignidade. A perspectiva da responsabilidade fora da lei humana é o mais poderoso elemento moralizador: é o objetivo ao qual conduz o Espiritismo pela força das coisas.
Portanto, conforme as observações fisiológicas que precedem, podemos admitir que o temperamento é, pelo menos em parte, determinado pela natureza do espírito, que é causa e não efeito. Dizemos em parte, porque há casos em que o físico evidentemente influi sobre o moral: é quando um estado mórbido ou anormal é determinado por uma causa externa, acidental, independente do espírito, como a temperatura, o clima, os vícios hereditários de constituição, um mal-estar passageiro, etc. O moral do Espírito pode, então, ser afetado em suas manifestações pelo estado patológico, sem que sua natureza intrínseca seja modificada.
Escusar-se de suas más ações com a fraqueza da carne não é senão um subterfúgio para eximir-se da responsabilidade. A carne não é fraca senão porque o espírito é fraco, o que derruba a questão e deixa ao espírito a responsabilidade de todos os seus atos. A carne, que não tem nem pensamento nem vontade, jamais prevalece sobre o Espírito, que é o ser pensante e voluntarioso. É o espírito que dá à carne as qualidades correspondentes aos instintos, como um artista imprime à sua obra material o cunho de seu gênio. Liberto dos instintos da bestialidade, o espírito modela um corpo que não é mais um tirano para as suas aspirações à espiritualidade de seu ser; então o homem come para viver, porque viver é uma necessidade, mas não vive para comer.
A responsabilidade moral dos atos da vida, portanto, permanece íntegra. Mas, diz a razão que as consequências dessa responsabilidade devem ser proporcionais ao desenvolvimento intelectual do Espírito, pois quanto mais esclarecido ele for, menos escusável será, porque, com a inteligência e o senso moral, nascem as noções do bem e do mal, do justo e do injusto. O selvagem, ainda vizinho da animalidade, que cede ao instinto do animal, comendo o seu semelhante, é, sem contradita, menos culpável que o homem civilizado que comete uma simples injustiça.
Esta lei ainda encontra sua aplicação na Medicina e dá a razão do seu insucesso em certos casos. Considerando-se que o temperamento é um efeito, e não uma causa, os esforços tentados para modificá-lo podem ser paralisados pelas disposições morais do espírito que opõe uma resistência inconsciente e neutraliza a ação terapêutica. É, pois, sobre a causa primeira que devemos agir; se se consegue mudar as disposições morais do espírito, o temperamento modificar-se-á por si mesmo, sob o império de uma vontade diferente ou, pelo menos, a ação do tratamento médico será ajudada, em vez de ser tolhida. Se possível, dai coragem ao poltrão, e vereis cessarem os efeitos fisiológicos do medo. Dá-se o mesmo com as outras disposições.
Mas, perguntarão, pode o médico do corpo fazer-se médico da alma? Está em suas atribuições fazer-se moralizador de seus doentes? Sim, sem dúvida, em certos limites; é mesmo um dever que um bom médico jamais negligencia, desde o instante que vê no estado da alma um obstáculo ao restabelecimento da saúde do corpo. O essencial é aplicar o remédio moral com tato, prudência e convenientemente, conforme as circunstâncias. Deste ponto de vista, sua ação é forçosamente circunscrita, porque, além de ele ter sobre o seu doente apenas uma ascendência moral, em certa idade é difícil uma transformação do caráter. É, pois, à educação, e sobretudo à primeira educação, que incumbem os cuidados dessa natureza. Quando a educação, desde o berço, for dirigida nesse sentido; quando nos aplicarmos em abafar, em seus germes, as imperfeições morais, como fazemos com as imperfeições físicas, o médico não mais encontrará no temperamento um obstáculo contra o qual a sua ciência muitas vezes é impotente.
Como se vê, é todo um estudo, mas um estudo completamente estéril, enquanto não levarmos em conta a ação do elemento espiritual sobre o organismo. Participação incessantemente ativa do elemento espiritual nos fenômenos da vida, tal é a chave da maior parte dos problemas contra os quais se choca a Ciência. Quando ela levar em consideração a ação desse princípio, verá abrir-se à sua frente horizontes completamente novos. É a demonstração desta verdade que o Espiritismo traz.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 13 de Janeiro de 2016, 20:04
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #79 em: 12 01 16, às 14:18, de Moisés

      Olá amigo Moisés, devido a sua reposta, tenho de lhe perguntar: como é que o amigo está entendendo a doutrina se, me parece pela sua resposta acima, que vc nem mesmo consegue responder aquilo que é fundamental para entendê-la, o básico dos básicos da DE: se todos os efeitos têm suas causas, verdade inquestionável, quais são as causas que têm como efeito o fato de um ser bom e outro ser Mal?!! Quem não sabe qual é a resposta, certamente não estará entendendo a doutrina, concorda?

      Abraço!
..............
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 14 de Janeiro de 2016, 13:25
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #79 em: 12 01 16, às 14:18, de Moisés

      Olá amigo Moisés, devido a sua reposta, tenho de lhe perguntar: como é que o amigo está entendendo a doutrina se, me parece pela sua resposta acima, que vc nem mesmo consegue responder aquilo que é fundamental para entendê-la, o básico dos básicos da DE: se todos os efeitos têm suas causas, verdade inquestionável, quais são as causas que têm como efeito o fato de um ser bom e outro ser Mal?!! Quem não sabe qual é a resposta, certamente não estará entendendo a doutrina, concorda?

      Abraço!
..............

Olá Amigo
Acredito que foste feliz em suas colocações
Os espíritos me solicitam que eu tenha paciência
E que continue acreditando e estudando

E que um dia eu compreenderei um pouco mais sobre aquilo que ainda não compreendo

Visto assim
Entendo que minha estrada ainda possui um longo trajeto a ser percorrido
nestas tarefas que no momento me envolvo

Desde já
Minhas considerações a sua pessoa

Valeu mesmo

A paz do Cristo.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 14 de Janeiro de 2016, 21:03
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #83 em: 14 01 16, às 13:25, de Moisés

      Conf (resp ant): Olá amigo Moisés, devido a sua reposta  tenho de lhe perguntar: como é que o amigo está entendendo a doutrina se, me parece pela sua resposta acima, que vc nem mesmo consegue responder aquilo que é fundamental para entendê-la, o básico dos básicos da DE: se todos os efeitos têm suas causas, verdade inquestionável, quais são as causas que têm como efeito o fato de um ser bom e outro ser mal?!! Quem não sabe qual é a resposta, certamente não estará entendendo a doutrina, concorda?

      Moisés respondeu: Olá Amigo,... Os espíritos me solicitam que eu tenha paciência e que continue acreditando e estudando e que um dia eu compreenderei um pouco mais sobre aquilo que ainda não compreendo.

      Conf: mas, meu amigo, sendo assim, porq é que vc está aqui neste mundo de sofrimentos? Veja q a doutrina afirma que só merecem sofrer aqueles q escolhem, de propósito portanto, transgredir as leis de Deus! E se vc está aqui por ainda não compreender o que deve compreender, e ainda deve ter paciência que um dia compreenderá, onde nisso está a sua transgressão a essas leis? Porq é que vc continua vivendo aqui, condenado por Deus aos sofrimentos deste mundo? Se o que vc deve ter feito de mal, o fez porq ainda não compreendia, onde está a causa de vc estar aqui? Onde em sua condenação de viver aqui está a soberana justiça divina?

      Um abraço!
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Janeiro de 2016, 18:01
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #83 em: 14 01 16, às 13:25, de Moisés

      Conf (resp ant): Olá amigo Moisés, devido a sua reposta  tenho de lhe perguntar: como é que o amigo está entendendo a doutrina se, me parece pela sua resposta acima, que vc nem mesmo consegue responder aquilo que é fundamental para entendê-la, o básico dos básicos da DE: se todos os efeitos têm suas causas, verdade inquestionável, quais são as causas que têm como efeito o fato de um ser bom e outro ser mal?!! Quem não sabe qual é a resposta, certamente não estará entendendo a doutrina, concorda?

      Moisés respondeu: Olá Amigo,... Os espíritos me solicitam que eu tenha paciência e que continue acreditando e estudando e que um dia eu compreenderei um pouco mais sobre aquilo que ainda não compreendo.

      Conf: mas, meu amigo, sendo assim, porq é que vc está aqui neste mundo de sofrimentos? Veja q a doutrina afirma que só merecem sofrer aqueles q escolhem, de propósito portanto, transgredir as leis de Deus! E se vc está aqui por ainda não compreender o que deve compreender, e ainda deve ter paciência que um dia compreenderá, onde nisso está a sua transgressão a essas leis? Porq é que vc continua vivendo aqui, condenado por Deus aos sofrimentos deste mundo? Se o que vc deve ter feito de mal, o fez porq ainda não compreendia, onde está a causa de vc estar aqui? Onde em sua condenação de viver aqui está a soberana justiça divina?

      Um abraço!


Agradeço a preocupação do amigo
Mas
Lhe informo que estou bem
Mesmo sem saber muitas coisas

Os espíritos me dizem que estou vivendo aqui
por que ainda não desencarnei
mas que eu tenha paciência
pois pode ocorrer que,
mesmo desencarnado, aqui eu permaneça
Para reflexões , estudos e aprendizados

Mas se o caro amigo entender que deve seguir a própria vida,
não se preocupe
Siga que é  seu mister

Novamente agradeço as suas instruções
tens me servido como um termômetro
a indicar me coisas sobre o que eu sei
e muito mais sobre o que não sei

Muita gentileza de sua parte
Muita humildade

Sem mais!
Abraços
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 16 de Janeiro de 2016, 19:52
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resop #85 em: 15 01 16, às 18:01, de Moisés

      Conf (resp ant): Olá amigo Moisés, devido a sua reposta  tenho de lhe perguntar: como é que o amigo está entendendo a doutrina se, me parece pela sua resposta acima, que vc nem mesmo consegue responder aquilo que é fundamental para entendê-la, o básico dos básicos da DE: se todos os efeitos têm suas causas, verdade inquestionável, quais são as causas que têm como efeito o fato de um ser bom e outro ser mal?!! Quem não sabe qual é a resposta, certamente não estará entendendo a doutrina, concorda?

      Moisés (resp ant): Olá Amigo,... Os espíritos me solicitam que eu tenha paciência e que continue acreditando e estudando e que um dia eu compreenderei um pouco mais sobre aquilo que ainda não compreendo.

      Conf (resp ant): mas, meu amigo, sendo assim, porq é que vc está aqui neste mundo de sofrimentos? Veja q a doutrina afirma que só merecem sofrer aqueles q escolhem, de propósito portanto, transgredir as leis de Deus! E se vc está aqui por ainda não compreender o que deve compreender, e ainda deve ter paciência que um dia compreenderá, onde nisso está a sua transgressão a essas leis? Porq é que vc continua vivendo aqui, condenado por Deus aos sofrimentos deste mundo? Se o que vc deve ter feito de mal, o fez porq ainda não compreendia, onde está a causa de vc estar aqui? Onde em sua condenação de viver aqui está a soberana justiça divina?
.................

      Moisés respondeu:... Lhe informo que estou bem, mesmo sem saber muitas coisas; os espíritos me dizem que estou vivendo aqui
por que ainda não desencarnei, mas que eu tenha paciência pois pode ocorrer que, mesmo desencarnado, aqui eu permaneça para reflexões, estudos e aprendizados.

      Conf: que bom! Mas, e amanhã?! Os sofrimentos aqui são para todos, e muitas vezes insuportáveis! Tantas coisas nos fazem sofrer: a perda das esperanças, a perda de um filho, da esposa, coisas que, inevitavelmente, ocorrerão!

      Todos, sem exceção, humanos e não humanos, sofrem mais dia, menos dia (e nem nos explicam porq sofremos!). Estamos todos, os cerca de 7 bilhões só neste pequeno planeta, sentenciados por Deus porq, segundo a doutrina, de propósito, não cumprimos Suas leis; escolhemos, em vez de cumpri-las, com nosso insignificante poder, desafiar aquele que ó próprio Todo Poder!

      Um abraço!
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 18 de Janeiro de 2016, 12:03

Metades Eternas

revista Espírita -Maio de 1858

“Extraímos a seguinte passagem da carta de um de nossos assinantes. “(…)
Há alguns anos perdi uma esposa boa e virtuosa e, malgrado me houvesse deixado seis filhos, sentia-me em completo isolamento, quando ouvi falar das manifestações espíritas. Logo me encontrava no seio de um pequeno grupo de bons amigos, que todas as noites se ocupavam desse assunto. Nas comunicações obtidas, cedo aprendi que a verdadeira vida não está na Terra, mas no mundo dos Espíritos; que minha Clémence lá era feliz e que, como os outros, trabalhava pela felicidade dos que aqui havia conhecido. Ora, eis um ponto sobre o qual desejo ardentemente ser por vós esclarecido.

“Uma noite, dizia eu à minha Clémence: querida amiga, por que, apesar de todo o nosso amor, acontecia que nem sempre nos púnhamos de acordo nas diferentes circunstâncias de nossa vida comum, e por que muitas vezes éramos forçados a nos fazer mútuas concessões para vivermos em boa harmonia?

“Ela me respondeu isto: meu amigo, éramos pessoas honradas e honestas; vivemos juntos, e poderíamos dizer, do melhor modo possível nesta Terra de provas; mas não éramos nossas metades eternas. Tais uniões são raras na Terra; podem ser encontradas, entretanto representam um grande favor de Deus. Os que desfrutam dessa felicidade experimentam alegrias que te são desconhecidas.

“Podes dizer-me – repliquei – se vês tua metade eterna? – Sim, diz ela, é um pobre coitado que vive na Ásia; só poderá reunir-se a mim dentro de 175 anos, segundo a vossa maneira de contar. – Reunir-vos-eis na Terra ou num outro mundo? – Na Terra. Mas escuta: não te posso descrever bem a felicidade dos seres assim reunidos; rogarei a Heloísa e Abelardo que te venham informar. – Então, senhor, esses dois seres felizes vieram nos falar dessa indizível felicidade. “À nossa vontade”, disseram eles, “dois não fazem mais que um; viajamos nos espaços; desfrutamos de tudo; amamo-nos com um amor sem-fim, acima do qual só pode existir o amor de Deus e dos seres perfeitos. Vossas maiores alegrias não valem um só de nossos olhares, um só de nossos apertos de mão.”

“A idéia das metades eternas me alegra. Ao criar a Humanidade, parece que Deus a fez dupla e, ao separar suas duas metades, teria dito: Ide por esse mundo e procurai encarnações. Se fizerdes o bem, a viagem será curta e permitirei a vossa união; do contrário, muitos séculos se passarão antes que possais desfrutar dessa felicidade. Tal é, parece-me, a causa primeira do movimento instintivo que leva a Humanidade a buscar a felicidade; felicidade que não compreendemos e que não nos damos ao trabalho de compreender.

“Desejo ardentemente, senhor, ser esclarecido sobre essa teoria das metades eternas e ficaria feliz se encontrasse uma explicação sobre o assunto em um dos vossos próximos números (…)”

Abelardo e Heloísa, interrogados sobre esse ponto, nos deram as seguintes respostas:

P. As almas foram criadas duplas?

Resp. – Se tivessem sido criadas duplas as simples seriam imperfeitas.

P. É possível reunirem-se duas almas na eternidade e formarem um todo?

Resp. – Não.

P. Tu e Heloísa formastes, desde a origem, dois seres bem distintos?

Resp. – Sim.

P. Formai-vos ainda, neste momento, duas almas distintas?

Resp. – Sim; mas sempre unidas.

P. Todos os homens se encontram na mesma condição?

Resp. – Conforme sejam mais ou menos perfeitos.

P. Todas as almas são destinadas a um dia se unirem a uma outra alma?

Resp. – Cada Espírito tem a tendência de procurar um outro Espírito que lhe seja afim; a isso chamas simpatia.

P. Nessa união há uma condição de sexo?

Resp. – As almas não têm sexo. Tanto para satisfazer o desejo de nosso assinante quanto para nossa própria instrução, dirigimos ao Espírito São Luís as seguintes perguntas:

1. As almas que devem unir-se estão, desde suas origens, predestinadas a essa união e cada um de nós tem, nalguma parte do Universo, sua metade, a que fatalmente um dia se reunirá?

Resp. – Não; não há união particular e fatal, de duas almas. A união que há é a de todos os Espíritos, mas em graus diversos, segundo a categoria que ocupam, isto é, segundo a perfeição que tenham adquirido. Quanto mais perfeitos, tanto mais unidos. Da discórdia nascem todos os males humanos; da concórdia resulta a completa felicidade.

2. Em que sentido se deve entender a palavra metade, de que alguns Espíritos se servem para designar os Espíritos simpáticos?

Resp. – A expressão é inexata. Se um Espírito fosse a metade do outro, separados os dois, estariam ambos incompletos;

3. Se dois Espíritos perfeitamente simpáticos se reunirem, estarão unidos para todo o sempre, ou poderão separar-se e se unirem a outros Espíritos?

Resp. – Todos os Espíritos estão reciprocamente unidos. Falo dos que atingiram a perfeição. Nas esferas inferiores, desde que um Espírito se eleva, já não simpatiza, como dantes, com os que lhe ficaram abaixo.

4. Dois Espíritos simpáticos são complemento um do outro, ou a simpatia entre eles existente é resultado de identidade perfeita?

Resp. – A simpatia que atrai um Espírito a outro resulta da perfeita concordância de seus pendores e instintos. Se um tivesse que completar o outro, perderia a sua individualidade.

5. A identidade necessária à existência da simpatia perfeita apenas consiste na analogia dos pensamentos e sentimentos, ou também na uniformidade dos conhecimentos adquiridos?

Resp. – Na igualdade dos graus de elevação.

6. Podem tornar-se simpáticos futuramente Espíritos que no momento não o são?

Resp. – Todos o serão. Um Espírito, que hoje está numa esfera inferior, ascenderá, aperfeiçoando-se, à em que se acha tal outro Espírito. E ainda mais depressa se dará o encontro dos dois, se o mais elevado, suportando mal as provas a que se submeteu, demorou-se no mesmo estado.

7. Podem deixar de ser simpáticos um ao outro, dois Espíritos que já o sejam?

Resp. – Certamente, se um deles for preguiçoso.

Essas respostas resolvem perfeitamente a questão. A teoria das metades eternas encerra uma simples figura, representativa da união de dois Espíritos simpáticos. Trata-se de uma expressão usada até na linguagem vulgar e que se não deve tomar ao pé da letra. Não pertencem, decerto, a uma ordem elevada os Espíritos que a empregaram. Sendo necessariamente limitado o campo de suas idéias, exprimiram seus pensamentos com os termos de que se teriam utilizado na vida corporal. Não se deve, pois, aceitar a ideia de que, criado um para o outro, dois Espíritos tenham fatalmente de reunir-se um dia na eternidade, depois de estarem separados por tempo mais ou menos longo.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Janeiro de 2016, 14:20
ENTERRO ESPÍRITA       
Revista Espírita de abril de 1865

     Sob esse título, o Monde Musical de Bruxelas, de 5 de março último, dá conta, nos seguintes termos, das exéquias da Sra. Vauchez, mãe de um dos nossos excelentes irmãos em Espiritismo:
 
     “Nossos amigos e colaboradores irmãos Vauchez perderam sua mãe há alguns dias. Os cuidados com que, nos últimos tempos, um e outro cercaram essa dama respeitável eram o sinal e o efeito de uma ternura que não nos propomos descrever.
 
     “Os dois irmãos são Espíritas. Reunidos a amigos da mesma crença, acompanharam o corpo de sua mãe até o túmulo. Ali, o Vauchez mais velho exprimiu, em palavras tão simples quão justas, ao Espírito de sua mãe, que, na fé Espírita, estaria presente e os escutaria, a tristeza que essa separação entre eles espalhava, ainda mesmo quando, por outra parte, devesse estar persuadido que ela entrava numa vida melhor, e que não cessaria de estar em comunicação com eles, e de os inspirar, confirmando-os sem descuido na via do bem. Repetiu a segurança de que seus votos de agonizante seriam realizados pela consagração a boas obras, entre outras dos gastos economizados no enterro, puramente civil e sem qualquer cerimonial. Esses votos são: que seja feita uma fundação em favor da creche de Saint-Josse-tem-Noode, e uma contribuição de assistência em favor dos velhos pobres.
 
     “Depois desta espécie de conversa entre o filho e a alma de sua mãe, o Hereska, um dos amigos espíritas da família, exprimiu em  versos, com a mesma simplicidade, algumas palavras, cuja reprodução vai dar a conhecer uma parte do que há de bom e de bem numa crença que, diariamente e por toda a parte, se torna a de um maior número de homens, que se contam entre gente instruída. Eis as palavras do Sr. Hereska à alma da morta:
 
A fossa está largamente aberta;
Breve ao túmulo escancarado
Descerão teus despojos;
Mas, livre do fardo vil,
Tu te vais, no espaço planando,
Seguir o traço do progresso.
 
Não mais dúvida nem dor!
A corrente do mal está quebrada,
Só o bem mora em teu coração,
Com o corpo morto está o ódio.
Que o amor e a caridade
Te guiem à eternidade!
 
Para os nossos irmãos dos outros mundos
Vai levar nossos votos fraternais.
Dize-lhes que aqui almas fecundas,
Eternos frutos amadurecendo,
Aqui, nesta Terra revelaram
O suave mistério da morte.
 
Dize-lhes: “Vossos amigos de lá
Contra a orgulhosa ignorância
Vão travar os combates mortais;
Para esta tarefa gloriosa
Vossos concursos invocam.
Espíritos! Vamos em seu auxílio!”
 
Vem sempre acalmar as nossas dores;
Oh! vem! vem falar-nos desses céus
Em nossos momentos de desfalecimento.
E faze aos nossos olhos resplender
Aquela centelha luminosa
Que vem da fonte imortal.
 
     Após essas palavras, os irmãos Vauchez e seus amigos se retiraram sem ruído, sem ostentação, sem emoção dolorosa e como se tivessem vindo acompanhar alguém que empreende uma longa viagem, em todas as condições desejáveis de bem-estar e segurança. Mesmo sem ser Espírita, tínhamos participado do cortejo. Aqui somos apenas o narrador de um fato: a cerimônia tão tocante quanto notável pela simplicidade e pela sinceridade da crença e das intenções. (ROSELLI).
 
     A Sra.  Vauchez sucumbiu após trinta e dois anos de uma moléstia que há vinte anos a retinha no leito. Tinha aceitado com alegria as crenças espíritas e nelas tinha colhido grandes consolações, em seus longos e cruéis sofrimentos. Vimo-la  quando de nossa última viagem a Bruxelas e ficamos edificado com sua coragem, sua resignação e sua confiança na misericórdia da Deus. Eis as primeiras palavras por ela ditadas aos filhos, pouco depois de seu último suspiro:
 
     “O véu que ainda vos cobre o mundo extraterrestre acaba de ser levantado para mim. Vejo, sinto, vivo! Deus Onipotente obrigado! Vós meus guias, meus anjos de guarda e protetores, obrigado! Vós, meus filhos, tu, minha filha, resignação, pois sois espíritas. Não me choreis: vivo a vida eterna, vivo na luz etérea; vivo e não sofro mais; minhas dores cessaram, minha prova terminou. Obrigado a vós, meus amigos, por terdes pensado em evocar-me logo. Fazei-o muitas vezes. Eu vos assistirei, estarei convosco.
 
     Deus teve piedade de meus sofrimentos. Oh! meus amigos, como é bela a vida da alma, quando desprendida da matéria! Bons Espíritos velam sobre vós; tornai-vos dignos de sua proteção. Neste momento estou assistida por vosso protetor, o bom São Vicente de Paulo."       
 
                                                                                                 MARGUERITE  VAUCHEZ
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 21 de Janeiro de 2016, 12:11
A criança elétrica
Revista Espírita, abril de 1869
 
 
Vários jornais reproduziram o seguinte fato:
 
A aldeia de Saint-Urbain, nos limites de Loire e do Ardèche, está toda inquieta. Escrevem-nos que ali se passam coisas estranhas. Uns as imputam ao diabo, outros aí veem o dedo de Deus, marcando com o selo da predestinação uma de suas criaturas privilegiadas.
Eis, em duas palavras, de que se trata, diz o Memorial de la Loire:
 
“Há uns quinze dias nasceu nesta aldeia uma criança que desde a sua entrada no mundo manifestou as mais admiráveis virtudes, as mais singulares propriedades, diriam os sábios. Logo depois de batizada, tornou-se impalpável e intangível! Intangível, não como a sensitiva, mas à maneira de uma garrafa de Leyde carregada de eletricidade, que não se pode tocar sem sentir uma viva comoção. Além do mais, ela é luminosa! De todas as suas extremidades se desprendem, por momentos, eflúvios brilhantes, que a fazem assemelhar-se a uma lucíola.
À medida que o bebê se desenvolve e se fortalece, esses curiosos fenômenos se acentuam com mais energia e intensidade. Até se produzem novos. Conta-se, por exemplo, que em certos dias, quando se aproxima das mãos e dos pés do menino algum objeto de pequeno volume, como uma colher, uma faca, uma taça, mesmo um prato, os utensílios são tomados de um frêmito e de uma vibração sutis, que nada pode explicar.
É particularmente à tarde e à noite que esses fatos extraordinários se acentuam, quer em estado de sono, quer em vigília. Por vezes, então - e aqui está um prodígio - o berço parece encher-se de uma claridade esbranquiçada, semelhante a essas belas fosforescências que tomam as águas do mar na esteira dos navios, e que a Ciência ainda não explicou perfeitamente.
Contudo, o menino não parece absolutamente incomodado com as manifestações de que sua minúscula pessoa é o misterioso teatro. Ele mama, dorme, passa muito bem e nem é menos chorão nem mais impaciente do que os seus semelhantes. Ele tem dois irmãozinhos de quatro a cinco anos, que nasceram e vivem à maneira dos mais vulgares pequerruchos.
Acrescentemos que os pais, valentes agricultores, o marido chegando aos quarenta e a mulher aos trinta, são os esposos menos elétricos e luminosos do mundo. Eles só brilham pela honestidade e pelo cuidado com que criam sua pequena família.
Chamaram o cura da comuna vizinha, que declarou, após um longo exame, não compreender absolutamente nada disso; depois o cirurgião, que apalpou, reapalpou, tocou de novo, auscultou e percutiu o paciente, sem querer pronunciar-se claramente sobre o caso, mas que prepara um relatório científico à Academia, do qual se falará no mundo médico.
Um malandro da região, e os há em toda a parte, farejando uma boa especulaçãozinha, propôs alugar o menino à razão de 200 francos por mês, ‘para mostrá-lo nas feiras’. É um belo negócio para os pais. Mas naturalmente o pai e a mãe querem acompanhar um filho tão precioso - a 2 francos por dia - e esta condição ainda impede a conclusão do negócio.
O correspondente que nos dá esses estranhos detalhes nos certifica, ‘sob palavra de honra’, que eles são a mais exata expressão da verdade e que ele teve o cuidado de fazer subscrever sua carta ‘pelos quatro maiores proprietários da região.’”
 
Certamente nenhum Espírita verá neste fato algo de sobrenatural nem miraculoso. É um fenômeno puramente físico, uma variante, quanto à forma, do que apresentam as pessoas ditas elétricas. Sabe-se que certos animais, como o peixe-elétrico e o gimnoto, têm propriedades análogas.
Eis a instrução dada a respeito por um dos guias instrutores da Sociedade de Paris:
 
“Como vos temos dito com frequência, os mais singulares fenômenos se multiplicam dia a dia, para atrair a atenção da Ciência. O menino em questão é, pois, um instrumento, mas não foi escolhido para esse efeito senão em razão da situação criada em seu passado. Por excêntrico que seja, em aparência, um fenômeno qualquer, produzido num encarnado, tem sempre como causa imediata a situação intelectual e moral desse encarnado e uma relação com seus antecedentes, pois todas as existências são solidárias. Sem dúvida é um assunto de estudo para os que o testemunham, mas secundariamente. É sobretudo para aquele que dele é objeto, uma provação ou uma expiação. Há, pois, o fato material, que é do campo da Ciência, e a causa moral, que pertence ao Espiritismo.
Mas, perguntareis, como semelhante estado pode ser uma provação para um menino dessa idade? Para o menino, certamente não, mas para o Espírito, que não tem idade, a provação é certa.
Achando-se, como encarnado, numa situação excepcional, cercado de uma auréola física que não passa de uma máscara, mas que pode passar aos olhos de certa gente por um sinal de santidade ou de predestinação, o Espírito, desprendido durante o sono, se orgulha da impressão que produz. Era um taumaturgo de uma espécie particular que passou sua última existência a brincar de pessoa santa, em meio aos prodígios que se tinha exercitado a realizar, e que quis continuar seu papel nesta existência. Para atrair o respeito e a veneração, ele quis nascer, como menino, em condições excepcionais. Se viver, será um falso profeta do futuro, e não será o único.
Quanto ao fenômeno em si mesmo, é certo que terá pouca duração. A Ciência deve, pois, apressar-se, se quiser estudá-lo de visu. Mas ela nada fará, temerosa de encontrar dificuldades embaraçosas. Ela contentar-se-á em considerar o menino como um peixe-elétrico humano.”
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 22 de Janeiro de 2016, 21:55
CENAS DA VIDA ESPÍRITA
Revista Espírita, maio/1859


Em nosso último número apresentamos o quadro da vida espírita em conjunto; seguimos os Espíritos desde o instante em que deixam o corpo terreno e fizemos um rápido esboço de suas ocupações. Propomo-nos hoje mostrá-los em ação, reunindo num mesmo quadro diversas cenas íntimas, cujo testemunho nos foi dado através das comunicações. As numerosas conversas familiares de além-túmulo, já publicadas nesta revista, podem dar
uma idéia da situação dos Espíritos, conforme o seu grau de adiantamento, mas aqui há um caráter especial de atividade, que nos faz conhecer ainda melhor o papel que, mau grado nosso, representam entre nós. O tema do estudo, cujas peripécias vamos relatar, se nos ofereceu espontaneamente; apresenta interesse maior porque tem, como herói principal, não um desses Espíritos superiores que habitam mundos desconhecidos, mas um desses que, por sua própria natureza, ainda estão presos à Terra, um contemporâneo que nos deu provas manifestas de sua identidade. É entre nós que a ação se passa e cada um de nós nela representa um papel.

Além disso, esse estudo dos costumes espíritas tem de particular o fato de nos mostrar a progressão dos Espíritos na erraticidade e como podemos concorrer para a sua educação.

Um de nossos amigos, após longas experiências infrutíferas, das quais triunfou a sua paciência, de repente tornou se excelente médium escrevente e audiente. Certa vez ele estava ocupado a psicografar com outro médium, seu amigo, quando, a uma pergunta dirigida a um Espírito, obteve resposta bastante estranha e pouco séria, na qual não reconhecia o caráter do Espírito
evocado. Tendo interpelado o autor da resposta, depois de o haver intimado em nome de Deus para se dar a conhecer, aquele assinou Pierre Le Flamand, nome completamente desconhecido do médium. Estabeleceu-se, então, entre ambos, e mais tarde entre nós e esse Espírito, uma série de conversas que passaremos a relatar.

PRIMEIRA CONVERSA

1. Quem és? Não conheço ninguém com esse nome.
Resp. – Um de teus antigos camaradas de colégio.

2. Não tenho a menor lembrança.
Resp. – Lembra-te da surra que um dia levaste?

3. É possível; entre escolares isso acontece algumas vezes. Realmente, lembro-me de algo assim, mas também me recordo de ter pago com a mesma moeda.
Resp. – Era eu; mas não te quero mal.

4. Obrigado. Tanto quanto me recordo, tu eras um biltre bastante mau.
Resp. – Eis tua memória que volta. Enquanto vivi não mudei. Eu tinha a cabeça dura, mas no fundo não era mau; batia me com o primeiro que aparecesse: em mim isso era uma necessidade. Depois, ao dar as costas, já não pensava em nada.

5. Quando e com que idade morreste?
Resp. – Há quinze anos; eu tinha cerca de vinte anos.

6. De que faleceste?
Resp. – Uma leviandade de rapaz... conseqüência de minha falta de juízo...

7. Ainda tens família?
Resp. – Perdi meus pais há muito tempo; morava com um tio, meu único parente...; se fores a Cambrai promete procurá- lo; é um bravo homem, a quem muito aprecio, embora me tenha tratado duramente; mas eu o merecia.

8. Ele tem o teu mesmo nome?
Resp. – Não; em Cambrai não há mais ninguém com o meu nome; ele se chama W...; mora na rua... no ...; verás que sou eu mesmo que te falo.

Observação – O fato foi verificado pelo próprio médium numa viagem que empreendeu algum tempo depois. Encontrou o Sr. W... no endereço indicado; disse-lhe este que realmente havia tido um sobrinho com esse nome, bastante estouvado e inconveniente, falecido em 1844, pouco tempo depois de ter sido sorteado para o serviço militar. Esta circunstância não havia sido
indicada pelo Espírito; mais tarde ele o fez espontaneamente.

Veremos em que ocasião.

9. Por obra de que acaso vieste à minha casa?
Resp. – Por acaso, se quiseres; creio, porém, que foi o meu bom gênio que me impeliu a ti, por me parecer que só teremos a ganhar com o restabelecimento de nossas relações... Eu estava aqui ao lado, na casa do teu vizinho, ocupado em olhar os quadros... nada de retratos de igreja...; de repente eu te avistei e vim. Percebi que estavas ocupado, a conversar com outro Espírito, e quis intrometer-me na conversa.

10. Mas por que respondeste às perguntas que eu fazia a outro Espírito? Isso não parece provir de um bom camarada.
Resp. – Encontrava-me na presença de um Espírito sério e que não parecia disposto a responder; respondendo em seu lugar, eu imaginava que ele soltasse a língua, mas não tive êxito. Não dizendo a verdade, eu queria obrigá-lo a falar.

11. Isto não é certo, pois poderia ter resultado em coisas desagradáveis, caso eu não tivesse percebido o embuste.
Resp. – Haverias de o saber sempre, mais cedo ou mais tarde.

12. Dize-me mais ou menos como entraste aqui.
Resp. – Bela pergunta! Acaso temos necessidade de puxar o cordão da campainha?

13. Podes, então, ir a toda parte, entrar em qualquer lugar?
Resp. – Claro!... E sem me fazer anunciar! Não somos Espíritos a troco de nada.

14. Entretanto eu julgava que certos Espíritos não tivessem o poder de penetrar em todas as reuniões.
Resp. – Acreditas, por acaso, que teu quarto é um santuário e que eu seja indigno de nele penetrar?

15. Responde com seriedade à minha pergunta e deixa de lado as graçolas de mau gosto. Vês que não tenho humor para suportá-las e que os Espíritos mistificadores são mal recebidos em minha casa.
Resp. – É verdade que há reuniões onde Espíritos tratantes, como nós outros, não podem entrar; mas são os Espíritos superiores que nos impedem e não os homens. Aliás, quando vamos a algum lugar, sabemos muito bem manter-nos calados e afastados, se necessário. Escutamos e, quando nos aborrecemos, vamo-nos embora... Ah!... sim! Parece que não estás satisfeito com a minha visita.

16. É que não recebo de bom grado o primeiro que aparece e, francamente, não fiquei satisfeito por vires perturbar uma conversa séria.
Resp. – Não te zangues..., não desejo perturbar-te... sou sempre um bom rapaz...; de outra vez far-me-ei anunciar.

17. Lá se vão quinze anos que estás morto...
Resp. – Entendamo-nos. Quem está morto é meu corpo; mas eu, que te falo, não estou morto.

Observação – Muitas vezes, mesmo entre os Espíritos levianos e brincalhões, encontram-se palavras de grande profundidade. Esse eu que não está morto é absolutamente filosófico.

18. É bem assim que compreendo. A propósito, conta me uma coisa: tal como agora te encontras, podes ver-me com tanta clareza como se estivesses em teu corpo?
Resp. – Vejo-te ainda melhor; eu era míope; foi por isso que quis me livrar do serviço militar.

19. Lá se vão, dizia eu, quinze anos que estás morto e me pareces tão estouvado quanto antes; não avançaste, pois?
Resp. – Sou o que era antes: nem melhor, nem pior.

20. Como passas o tempo?
Resp. – Não tenho outras ocupações, a não ser divertirme e informar-me dos acontecimentos que podem influenciar o meu destino. Vejo muito. Passo parte do tempo ora em casa de amigos, ora no teatro... Por vezes surpreendo coisas muito engraçadas... Se as pessoas soubessem que têm testemunhas
quando pensam estar sós!... Enfim, procedo de maneira que o tempo me seja o menos pesado possível... Dizer quanto tempo isso haverá de durar, eu não o saberia e, entretanto, há algum tempo que vivo assim... Tens explicações convincentes para isso?

21. Em suma, és mais feliz do que eras quando estavas vivo?
Resp. – Não

22. O que te falta? Não tens necessidade de coisa alguma; não sofres mais; não temes ser arruinado; vais a toda parte e tudo vês; não temes as preocupações, nem as doenças, nem as enfermidades da velhice. Não será isto uma existência feliz?
Resp. – Falta-me a realidade dos prazeres; não sou bastante evoluído para fruir uma felicidade moral; Desejo tudo que vejo, e é isso que me tortura; aborreço-me e procuro matar o tempo como posso!... Mas, até quando?... Experimento um mal-estar que não posso definir...; preferia sofrer as misérias da vida a esta ansiedade que me oprime.

Observação – Não está aqui um quadro eloqüente dos sofrimentos morais dos Espíritos inferiores? Invejar tudo quanto vêem; ter os mesmos desejos e realmente nada desfrutar, deve ser verdadeira tortura.


Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 22 de Janeiro de 2016, 22:05
23. Disseste que ias ver os amigos; não será uma distração?
Resp. – Meus amigos não percebem que estou com eles; aliás, nem mesmo pensam em mim. Isso me faz mal.

24. Não tens amigos entre os Espíritos?
Resp. – Estouvados e tratantes como eu, que como eu se aborrecem. Sua companhia não é muito agradável; aqueles que são felizes e raciocinam afastam-se de mim.

25. Pobre rapaz! Eu te lamento e, se te pudesse ser útil, o faria com prazer.
Resp. – Se soubesses o quanto essas palavras me fazem bem! É a primeira vez que as ouço.

26. Não poderias encontrar ocasião de ver e ouvir coisas boas e úteis que contribuiriam para o teu progresso?
Resp. – Sim, mas para isso é necessário que eu saiba aproveitar as lições. Confesso que prefiro assistir às cenas de amor e de deboche, que não têm influenciado o meu Espírito para o bem. Antes de entrar em tua casa, lá me achava a considerar quadros que despertavam em mim certas idéias...; mas, deixemos isso de lado... No entanto eu soube resistir à vontade de pedir para
reencarnar, a fim de desfrutar os prazeres de que tanto abusei. Vejo, agora, quanto teria errado. Vindo à tua casa, sinto que fiz bem.

27. Muito bem! Espero, futuramente, que me dês o prazer, caso queiras a minha amizade, de não mais concentrar a atenção nesses quadros que podem despertar más idéias e que, ao contrário, possas pensar naquilo que aqui ouvirás de bom e de útil para ti. Tu te sentirás bem, podes crer.
Resp. – Se esse é o teu pensamento, também será o meu.

28. Quando vais ao teatro experimentas as mesmas emoções que sentias quando vivo?
Resp. – Várias emoções diferentes; a princípio, aquelas; depois me misturo nas conversas... e escuto coisas singulares.

29. Qual o teu teatro predileto?
Resp. – “Les Variétés”. Muitas vezes acontece que eu os veja todos na mesma noite. Também vou aos bailes e às reuniões onde há divertimento.

30. De modo que, enquanto te divertes, te instruis, visto ser impossível observar bastante na tua posição.
Resp. – Sim, mas o que mais aprecio são certos colóquios. É realmente curioso ver a manobra de algumas criaturas, sobretudo das que ainda querem passar por jovens. Em toda essa lengalenga ninguém diz a verdade: assim como o rosto, o coração se maquia, de modo que ninguém se entende. Acerca disso realizei um estudo dos costumes.

31. Pois bem! Não vês que poderíamos ter boas conversas, como esta, da qual ambos podemos tirar proveito?
Resp. – Sempre; como dizes, a princípio para ti; depois, para mim. Tens ocupações necessárias ao teu corpo; quanto a mim, posso dar todos os passos possíveis para instruir-me sem prejudicar a minha existência.

32. Já que é assim, continuarás as tuas observações ou, como dizes, teus estudos sobre os costumes; até o momento não os aproveitaste muito. É preciso que eles sirvam ao teu esclarecimento e, para isso, é necessário que o faças com um objetivo sério, e não como diversão e para matar o tempo. Dir-me-ás o que viste: raciocinaremos e tiraremos as conclusões para a nossa mútua instrução.
Resp. – Será realmente bastante interessante. Sim, com certeza estou a teu serviço.

33. Não é tudo. Gostaria de proporcionar-te ocasião para praticares uma boa ação. Queres?
Resp. – De todo o coração! Dir-se-á que poderei servir para alguma coisa. Fala-me logo o que é preciso que eu faça.

34. Nada de pressa! Não confio missões tão delicadas assim àqueles a quem não tenho confiança. Tens boa vontade, não há dúvida; mas terás a perseverança necessária? Eis a questão. É preciso, pois, que eu te ensine a te conheceres melhor, para saber de que és capaz e até que ponto posso contar contigo.Conversaremos sobre isso uma outra vez.
Resp. – Tu o verás.

35. Adeus, pois, por hoje.
Resp. – Até breve.

SEGUNDA CONVERSA

36. Então, meu caro Pierre, refletiste seriamente naquilo que conversamos o outro dia?
Resp. – Mais seriamente do que imaginas, pois faço questão de te provar que valho mais do que pareço. Sinto-me mais à vontade, desde que tenho algo a fazer. Agora tenho um objetivo e não mais me aborreço.

37. Falei de ti ao Sr. Allan Kardec; comuniquei-lhe nossas conversas e ele ficou muito contente; deseja entrar em contato contigo.
Resp. – Já o sei; estive em sua casa.

38. Quem te conduziu até lá?
Resp. – Teu pensamento. Voltei aqui depois daquele dia. Vi que querias falar-lhe a meu respeito e disse a mim mesmo: Vamos lá primeiro; provavelmente encontrarei material de observação e, quem sabe, uma ocasião de ser útil.

39. Gosto de ver-te com esses pensamentos sérios. Que impressão tiveste da visita?
Resp. – Oh! Muito grande. Ali aprendi coisas que nem suspeitava e que me esclareceram quanto ao futuro. É como uma luz que se fizesse em mim. Agora compreendo tudo quanto tenho a ganhar no meu aperfeiçoamento... É preciso...; é preciso.

40. Posso, sem cometer indiscrição, perguntar-te o que viste na casa dele?
Resp. – Certamente. Lá, como na casa de outras pessoas, vi tantas coisas que não falarei senão quando quiser... ou quando puder.

41. O que queres dizer com isso? Não podes dizer tudo quanto queres?
Resp. – Não. Desde alguns dias vejo um Espírito que parece seguir-me por toda parte, que me impele ou me contém; dirse-ia que me dirige; sinto um impulso, do qual não me dou conta e ao qual obedeço, mau grado meu. Se quero dizer ou fazer algo inconveniente, posta-se à minha frente..., olha-me... e eu me calo... e me detenho.

42. Quem é esse Espírito?
Resp. – Nada sei; mas ele me domina.

43. Por que não lho perguntas?
Resp. – Não tenho coragem. Quando lhe quero falar ele me olha e sinto a língua travada.
Observação – É evidente que aqui a palavra língua é uma
figura, já que os Espíritos não possuem linguagem articulada.

44. Deves ver se é bom ou mau.
Resp. – Deve ser bom, pois que me impede de dizer tolices; mas é severo... Por vezes tem um ar irritado; doutras, parece olhar-me com ternura... Veio-me a idéia de que poderia ser o Espírito de meu pai, que não quer se dar a conhecer.

45. Isso parece plausível. Ele não deve estar muito satisfeito contigo. Ouve-me bem. Vou dar-te um conselho a respeito. Sabemos que os pais têm por missão educar os filhos e encaminhá-los na senda do bem. Conseqüentemente, são responsáveis pelo bem ou pelo mal que eles praticam, conforme a educação que receberam, com o que sofrem ou são felizes no mundo dos Espíritos. A conduta dos filhos, pois, influi até certo
ponto sobre a felicidade ou a infelicidade dos pais após a morte. Como tua conduta na Terra não foi muito edificante, e como desde a tua morte não fizeste grande coisa de bom, teu pai deve sofrer por isso, caso tenha algo a censurar-se por não te haver guiado bem...
Resp. – Se não me tornei um homem de bem, não foi por me ter faltado, mais de uma vez, a corrigenda necessária.

46. Talvez não tivesse sido a melhor maneira de corrigir-te; seja como for, sua afeição por ti é sempre a mesma e ele to prova aproximando-se de ti, se de fato é ele, como presumo. Deve sentir-se feliz com a tua mudança, o que explica a alternância de ternura e de irritação. Quer auxiliar-te no bom caminho em que acabas de entrar e, quando te vir realmente empenhado nisso, estou certo de que se dará a conhecer. Desse modo, trabalhando por tua própria felicidade, trabalharás pela dele. Nem mesmo me surpreenderia caso tivesse sido ele próprio quem te impeliu a vir à minha casa. Se não o fez antes foi porque quis dar-te o tempo de compreender o vazio de tua existência sem realizações e sentir-lhes os dissabores.
Resp. – Obrigado! Obrigado...! Ele lá está, atrás de ti... Pôs a mão na tua cabeça, como se te ditasse as palavras que acabas de proferir.

47. Voltemos ao Sr. Allan Kardec.
Resp. – Fui à sua casa anteontem à noite. Estava ocupado, escrevendo em seu gabinete..., trabalhando numa nova obra em preparo... Ah! Ele cuida bem de nós, pobres Espíritos; se não nos conhecem não é por sua culpa.7

48. Estava só?
Resp. – Só, sim, isto é, não havia ninguém com ele; mas havia ao seu redor uma vintena de Espíritos que murmuravam acima de sua cabeça.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 22 de Janeiro de 2016, 22:07
49. Ele os escutava?
Resp. – Ouvia-os tão bem que olhava para todos os lados de onde provinha o ruído, para ver se não eram milhares de moscas; depois abriu a janela para olhar se não seria o vento ou a chuva.

Observação – O fato era absolutamente exato.

50. Entre tantos Espíritos reconheceste algum?
Resp. – Não; não são aqueles com quem me reunia. Eu tinha a impressão de ser um intruso e pus-me a um canto a fim de observar.

51. Esses Espíritos pareciam estar interessados por
aquilo que ele escrevia?
( N. do T.: Trata-se da obra O que é o Espiritismo? Vide a Revista Espírita
de julho de 1859.)

Resp. – Creio que sim. Dois ou três, sobretudo, sopravam o que ele escrevia e davam a impressão de ouvir a opinião dos outros; quanto a Kardec, acreditava piamente que as idéias eram suas, parecendo satisfeito com isso.

52. Foi tudo o que viste?
Resp. – Depois chegaram oito ou dez pessoas que se reuniram num outro aposento com Kardec. Puseram-se a conversar; faziam perguntas; ele respondia e explicava.

53. Conheces as pessoas que lá estavam?
Resp. – Não; sei apenas que havia pessoas importantes,
pois a uma deles se referiam sempre como príncipe, e a outra como
sr. duque. Os Espíritos também chegaram em massa; havia pelo
menos uma centena, dos quais vários tinham sobre a cabeça uma
espécie de coroa de fogo. Os outros se mantinham afastados e
ouviam.

54. E tu, que fazias?
Resp. – Eu também ouvia, mas sobretudo observava. Veio-me, então, a idéia de fazer uma artimanha para ser útil a Kardec; dir-te-ei mais tarde o que era, quanto eu tiver alcançado êxito. Então deixei a reunião e, vagando pelas ruas, divertia-me em frente às lojas, misturando-me com a multidão.

55. De sorte que, em vez de ir aos teus negócios, perdias o tempo?
Resp. – Não o perdi, pois que impedi um roubo.

56. Ah! Tu te metes também em assuntos da polícia?
Resp. – Por que não? Passando defronte de uma loja fechada, notei que lá dentro se passava algo estranho; entrei e vi um rapaz muito agitado, indo e vindo, como se quisesse ir ao caixa do lojista. Com ele havia dois Espíritos, um dos quais lhe soprava ao ouvido: Vamos, covarde! A gaveta está cheia; poderás te divertir à vontade, etc.; o outro tinha o semblante de uma mulher, bela e cheia de nobreza, qualquer coisa de celeste e de bondade no olhar;
dizia-lhe: Vai embora, vai embora! Não te deixes tentar; e lhe soprava as palavras: prisão, desonra. O rapaz hesitava. No momento em que se aproximava do caixa, interpus-me à sua frente para o deter. O Espírito mau
pediu-me que não me metesse. Eu lhe disse que queria impedir o moço de cometer uma má ação e, talvez, de ser condenado às galés. Então o Espírito bom aproximou-se de mim e me disse: É preciso que ele sofra a tentação; é uma prova; se sucumbir, será por sua culpa. O ladrão ia triunfar quando o Espírito mau empregou um artifício abominável, que deu resultado: fez-lhe ver uma garrafa sobre uma mesinha: era aguardente; inspirou-lhe a idéia de beber, para criar coragem. O infeliz está perdido, pensei comigo... procuremos ao menos salvar alguma coisa. Eu não tinha outro recurso, a não ser advertir o patrão... depressa! Num piscar de olhos, eis-me em sua casa. Estava jogando cartas com a esposa; era preciso encontrar um meio de fazê-lo sair.

57. Se ele fosse médium, ter-lhe-ias feito escrever o que quiséssemos. Ele acreditaria pelo menos nos Espíritos?
Resp. – Não tinha bastante espírito para saber o que é isso.

58. Eu te ignorava o talento para fazer trocadilhos.
Resp. – Se me interrompes não direi mais nada. Provoquei-lhe um violento espirro; ele quis aspirar rapé, mas havia deixado na loja a tabaqueira. Chamou o filho, que dormia num canto, e disse-lhe para ir buscá-la...; não era bem isso que eu desejava; o menino despertou resmungando... Soprei à mãe, que dissesse: Não acorde a criança; tu podes muito bem ir buscá-la. – Finalmente ele se decidiu... e eu o acompanhei, para que fosse mais depressa. Chegando à porta percebeu luz na loja e ouviu um ruído. Ficou tomado de medo; tremiam-lhe as pernas; empurrei-o para que avançasse; se tivesse entrado subitamente pegaria o ladrão como numa armadilha. Em vez disso, o imbecil pôs-se a gritar:Pega o ladrão! O ladrão escapou, mas, em sua precipitação, perturbado também pela aguardente, esqueceu de apanhar o boné. O dono da loja entrou quando já não havia ninguém... O que acontecerá com o boné não é da minha conta... Aquele sujeito está metido em maus lençóis. Graças a mim não houve tempo de consumar-se o furto, do qual livrou-se o comerciante pelo medo. Isso, porém, não o impediu de dizer, ao retornar à sua casa, que havia derrubado um homem de seis pés de altura. – “Veja só – disse ele – como as coisas acontecem! Se eu não tivesse tido a idéia de aspirar rapé!...” – “E se eu não te houvesse impedido de mandar o menino!” – retrucou a mulher. – “É preciso convir que tivemos sorte. Olha o que é o acaso!” Eis, meu amigo, como nos agradecem!

59. És um bravo rapaz, meu caro Pierre, parabéns. Não te desanimes com a ingratidão dos homens; encontrarás muitos outros assim, agora que te comprometes a lhes prestar serviço, até mesmo entre os que crêem na intervenção dos Espíritos.
Resp. – Sim, e sei que os ingratos um dia serão pagos com ingratidão.

60. Vejo agora que posso contar contigo e que te tornas verdadeiramente sério.
Resp. – Mais tarde verás que serei eu a te ensinar moral.

61. Como qualquer outro, eu o necessito e receberei de bom grado os conselhos, venham de onde vierem. Eu te disse que queria que praticasses uma boa ação; estás disposto?
Resp. – Podes duvidar disso?

62. Creio que um de meus amigos está ameaçado de grandes decepções, se continuar seguindo o mau caminho em que se encontra; suas ilusões poderão perdê-lo. Gostaria que tentasses reconduzi-lo ao bom caminho, por meio de algo que o pudesse impressionar vivamente. Compreendes o meu pensamento?
Resp. – Sim; gostarias que eu lhe produzisse alguma manifestação agradável, uma aparição, por exemplo; mas isso não depende de mim. Entretanto, posso dar provas sensíveis da minha presença quando isso me for permitido. Bem o sabes.

Observação – O médium ao qual este Espírito parece estar ligado é advertido de sua presença por uma impressão muito sensível, mesmo quando não pensa em chamá-lo. Reconhece-o por uma espécie de arrepio que sente nos braços, no dorso e nas espáduas; mas algumas vezes os efeitos são mais enérgicos. Numa reunião que ocorreu em nossa casa, no dia 24 de março passado, este Espírito respondeu às perguntas através de outro médium. Falava-se de sua força física; de repente, como que para dar uma prova, ele agarrou um dos assistentes pela perna e, por meio de um abalo violento, levantou-o da cadeira e o atirou, assombrado, do outro lado da sala.

63. Farás o que quiseres, ou melhor, o que puderes. Aviso-te que ele possui alguma mediunidade.
Resp. – Tanto melhor; tenho meu plano.

64. Que esperas fazer?
Resp. – Primeiro vou estudar a situação; ver de que Espíritos ele se acha cercado e se há meios de fazer algo com estes. Uma vez em sua casa eu me anunciarei, como fiz na tua. Interpelarme-ão e responderei: “Sou eu, Pierre Le Flamand, mensageiro espiritual, que venho pôr-me ao vosso serviço e que, ao mesmo tempo, desejaria vos agradecer. Ouvi dizer que acalentais certas
esperanças que vos transtornam a cabeça e já vos fazem virar as costas aos amigos; creio de meu dever, em vosso próprio interesse, advertir-vos de quanto vossas idéias estão longe de ser proveitosas à vossa felicidade futura. Palavra de Le Flamand, posso garantir que vos venho visitar imbuído das melhores intenções. Temei a cólera dos Espíritos e, mais ainda, a de Deus, e crede nas palavras de vosso servidor, que garante que a sua missão é inteiramente voltada ao bem.” (sic) Se me expulsarem, voltarei três vezes e depois verei o que terei a fazer. É isso?

65. Muito bem, meu amigo, mas não digas nem mais, nem menos.
Resp. – Palavra por palavra.

66. Mas se te perguntarem quem te encarregou dessa missão, o que responderás?
Resp. – Que foram os Espíritos Superiores. Para o bem, posso não dizer toda a verdade.

67. Tu te enganas; desde que agimos para o bem, é sempre por inspiração dos Espíritos bons. Assim, tua consciência pode ficar tranqüila, porquanto os Espíritos maus jamais nos impelem a fazer boas coisas.
Resp. – Está entendido.

68. Agradeço-te e te felicito pelas tuas boas disposições. Quando queres ser chamado para me dares conta do resultado de tua missão?
Resp. – Eu te avisarei.

(Continua no próximo número)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 29 de Janeiro de 2016, 12:53
Pode um Espírito recuar ante a prova?
 
Revista Espírita, outubro /1862
 
       Uma senhora amiga escreve-nos o seguinte:
 
    Um dia minha filha recebeu a seguinte comunicação espontânea de um Espírito, que começou assinando Euphrosine Bretel. Como o nome não lembrasse ninguém, perguntamos: - Quem és?
- Sou um pobre Espírito sofredor. Necessito de preces. Dirijo-me a ti porque me conheceste quando eu não era mais que uma criança.
     Rebuscamos a memória e admiti lembrar-me que tal nome de família era o de uma criança de nove a dez anos, que se achava no mesmo internato que minha filha e que adoecera pouco depois da chegada desta. Seu pai veio buscá-la de carro, e as meninas guardaram a lembrança daquela doente, toda embrulhada e gemente. Ela morreu em casa. Em desespero, a mãe a seguiu pouco depois. O pai ficou cego de tanto chorar e morreu no mesmo ano. Desde que admitimos haver reconhecido o nome, o Espírito escreveu:
"Sou eu. Minha última existência deveria ser uma prova terrível, mas recuei covardemente e desde então sofro sempre. Eu te peço que rogues a Deus para que me conceda a graça de uma nova prova. Submeter-me-ei a ela, por mais dura que seja. Sou tão infeliz! Amo a meu pai e a minha mãe e eles me têm horror. Eles fogem de mim e meu castigo é o de buscá-los incessantemente, para me ver repelida. Vim a ti porque minha lembrança não se apagou inteiramente de tua memória, e dos que podem orar por mim, és a única que conhece o Espiritismo. Adeus! Não me esqueças. Em breve nos veremos."

Minha filha então lhe perguntou gracejando:
_Então vou morrer logo?’
A isso o Espírito respondeu:
_O tempo, que é longo para vós, não tem medida para nós.
Verificamos depois que o prenome e o nome de família estavam perfeitamente corretos.
Agora me pergunto se é possível a um Espírito encarnado recuar ante uma prova começada.
 
     A essa pergunta respondemos:
     Sim, os Espíritos recuam com frequência ante as provas escolhidas e que eles não têm coragem de suportar, e até de enfrentá-las quando chegado o momento. É a causa da maior parte dos suicídios. Eles recuam também quando se desesperam e murmuram, e assim perdem os benefícios da prova.
     Eis por que o Espiritismo, dando a conhecer a causa, o objetivo e as consequências das atribulações da vida, dá, ao mesmo tempo, tantas consolações e tanta coragem, e desvia o pensamento de abreviar os dias.

Qual a filosofia que produziu tais resultados sobre os homens?

...
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 30 de Janeiro de 2016, 16:46
RESPEITO DEVIDO ÀS CRENÇAS PASSADAS
Revista Espírita – março/1867

(Paris, Grupo Delanne, 4 de fevereiro de 1867 – Médium: Sr. Morin)

A fé cega é o pior de todos os princípios!
Crer com fervor num dogma qualquer, quando a sã razão se recusa a aceitá lo como uma verdade, é fazer ato de nulidade e privar-se voluntariamente do mais belo de todos os dons que nos concedeu o Criador; é renunciar à liberdade de julgar, ao livre-arbítrio que deve presidir a todas as coisas na medida da justiça e da razão.

Geralmente os homens são negligentes e não creem numa religião senão por desencargo de consciência e para não rejeitar inteiramente as boas e doces preces que embalaram a sua juventude e que sua mãe lhes ensinou ao pé do fogo, quando a noite trazia consigo a hora do sono. Mas se esta lembrança por vezes se apresenta ao seu espírito, é, no mais das vezes, com um sentimento de pesar que eles fazem um retorno a esse passado, onde as preocupações da idade madura ainda estavam mergulhadas na noite do futuro. Sim, todo homem tem saudade desta idade despreocupada e pouquíssimos podem pensar em seus jovens anos!...

Mas, que deles resta um instante depois?...
– Nada!...

Comecei dizendo que a fé cega era perniciosa; mas nem sempre se deve rejeitar como essencialmente mau tudo quanto parece manchado de abuso, composto de erros e, sobretudo, inventado à vontade, para a glória dos orgulhosos e benefício dos interessados. Espíritas, deveis saber melhor que ninguém que nada se realiza sem a vontade do Senhor supremo; cabe a vós refletir antes de formular o vosso julgamento.

Os homens são vossos irmãos encarnados e é possível que numerosos trabalhos dos tempos antigos sejam obras vossas, realizadas numa existência anterior.

Os espíritas devem, antes de tudo, ser lógicos com seu ensino e não atirar pedra às instituições e às crenças de outros tempos, só porque são de outra época.

A sociedade atual precisou, para ser o que é, que Deus lhe concedesse, pouco a pouco, a luz e o saber.

Não vos cabe, pois, julgar se os meios empregados por ele eram bons ou maus.

Não aceiteis senão o que vos pareça racional e lógico; mas não vos esqueçais de que as coisas velhas tiveram a sua juventude e que o que ensinais hoje se tornará velho por sua vez.

Respeito, pois, à velhice!
Os velhos são vossos pais, como as coisas velhas foram precursoras das coisas novas.

Nada envelhece, e se faltais a esse princípio por tudo o que é venerável, faltais ao vosso dever, mentis à doutrina que professais.

As velhas crenças elaboraram a renovação que começa a realizar-se!

... Todas, conquanto não fossem exclusivamente materiais, possuíam uma centelha da verdade. Lamentai os abusos que se introduziram no ensino filosófico, mas perdoai os erros de outra época, se, por vossa vez, quiserdes ser desculpados pelos vossos, ulteriormente.

Não deis vossa fé ao que vos parece mau, mas não creiais também que tudo quanto hoje vos é ensinado seja expressão da verdade absoluta.

Crede que em cada época Deus alarga os horizontes dos conhecimentos, em razão do desenvolvimento intelectual da Humanidade.

Lacordaire
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 03 de Fevereiro de 2016, 23:33
Um caso de possessão - Senhorita Júlia
 
(Revista Espírita, dezembro de 1863 - Primeiro artigo)
 
 
Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar do vocábulo, mas subjugados. Mudamos de opinião sobre essa afirmativa absoluta, porque agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, posto que parcial, de um Espírito encarnado por um Espírito errante.
 
Eis um primeiro fato que o prova, e que apresenta o fenômeno em toda a sua simplicidade.
Várias pessoas se achavam um dia na casa de uma senhora que é médium sonâmbula. De repente ela toma atitudes absolutamente masculinas. Sua voz muda e, dirigindo-se a um dos assistentes, ela exclama: “Ah! meu caro amigo, como estou contente de te ver!” Surpresos, perguntam o que isto significa. A senhora continua: “Como, meu caro? Não me reconheces? Ah! É verdade. Estou coberto de lama! Sou Charles Z...” A este nome, os assistentes se lembraram de um senhor, falecido meses antes, vítima de uma apoplexia, à beira de uma estrada. Ele tinha caído num fosso, de onde o haviam retirado coberto de lama.
 
Ele declara que, querendo conversar com seu velho amigo, aproveitava o momento em que o Espírito da Sra. A..., a sonâmbula, estava afastado do corpo, para tomar-lhe o lugar. Com efeito, tendo-se renovado a cena vários dias seguidos, a Sra. A... tomava todas as vezes as atitudes e maneiras habituais do Sr. Charles, espreguiçando-se no encosto da cadeira, cruzando as pernas, torcendo o bigode, passando os dedos pelos cabelos, de tal sorte que, não fosse pelas roupas, poder-se-ia crer estar em presença do Sr. Charles. Contudo, não havia transfiguração, como vimos noutras circunstâncias. Eis algumas de suas respostas.
 
- Já que tomastes posse do corpo da Sra. A... poderíeis nele ficar?
- Não, mas vontade não me falta.
- Por que não podeis?
- Porque seu Espírito está sempre ligado ao seu corpo. Ah! Se eu pudesse romper esse laço eu lhe pregaria uma peça.
- O que faz, neste momento, o Espírito da Sra. A...?
- Está aqui ao lado, olha-me e ri, vendo-me em suas vestes.
 
Estas conversas eram muito divertidas. O Sr. Charles tinha sido um boêmio e não desmentia o seu caráter. Dado à vida material, era pouco adiantado como Espírito, mas naturalmente bom e benevolente. Apoderando-se do corpo da Sra. A..., ele não tinha qualquer má intenção, de sorte que aquela senhora nada sofria com a situação, a que se prestava de boa vontade. É bom que se diga que ela não havia conhecido esse senhor, e não podia saber de suas maneiras. É ainda importante notar que os assistentes nele não pensavam, portanto, a cena não foi provocada, e ele veio espontaneamente.
 
Aqui a possessão é evidente e ressalta ainda melhor dos detalhes, cuja enumeração seria muito longa. No entanto, é uma possessão inocente e sem inconvenientes. Não acontece o mesmo quando se trata de um Espírito malévolo e mal-intencionado, porque ela pode ter consequências tanto mais graves quanto mais tenazes são esses Espíritos, e muitas vezes torna-se difícil livrar o paciente que eles fazem de vítima.
 
Eis um exemplo recente, que observamos pessoalmente e que foi objeto de sério estudo na Sociedade de Paris:
 
A senhorita Júlia, doméstica, nascida na Sabóia, com vinte e três anos de idade, de caráter muito suave, sem qualquer instrução, há algum tempo era sujeita a acessos de sonambulismo natural que duravam semanas inteiras. Nesse estado ela ocupava-se em seu trabalho habitual, sem que as pessoas suspeitassem de sua situação. Seu trabalho até era muito mais bem feito. Sua lucidez era notável. Ela descrevia lugares e acontecimentos distantes com perfeita exatidão.
 
Há cerca de seis meses ela tornou-se presa de crises de um caráter estranho, que sempre ocorriam no estado sonambúlico, que, de certo modo, se tornara seu estado normal. Ela se torcia, rolava pelo chão, com se se debatesse em luta com alguém que a quisesse estrangular e, com efeito, apresentava todos os sintomas de estrangulamento. Acabava vencendo esse ser fantástico, tomava-o pelos cabelos, dava-lhe sopapos e lhe dirigia injúrias e imprecações, apostrofando-o incessantemente com o nome de Fredegunda, infame regente, rainha impudica, criatura vil e manchada por todos os crimes, etc. Pisoteava como se a calcasse aos pés com raiva e lhe arrancava as vestes. Coisa bizarra, tomando-se ela própria por Fredegunda, dava em si própria redobrados golpes nos braços, no peito e no rosto, dizendo: “Toma! Toma! É bastante, infame Fredegunda? Queres me sufocar, mas não o conseguirás; queres meter-te em minha caixa, mas eu te expulsarei.”
 
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 03 de Fevereiro de 2016, 23:34
Minha caixa era o termo de que ela se servia para designar o próprio corpo. Ninguém poderia pintar a expressão frenética com que ela pronunciava o nome de Fredegunda, rangendo os dentes, nem as torturas que ela sofria nesses momentos.
 
Um dia, para se livrar de sua adversária, ela tomou de uma faca e vibrou contra si mesma, mas foi socorrida a tempo de evitar-se um acidente.
Coisa não menos notável é que ela jamais tomou um dos presentes por Fredegunda. A dualidade estava sempre nela mesma. Era contra si mesma que ela dirigia o seu furor, quando o Espírito estava nela, e contra um ser invisível quando dela se havia desembaraçado. Para os outros ela era suave e benevolente, mesmo nos momentos de maior exasperação.
 
Essas crises, verdadeiramente apavorantes, por vezes duravam horas, e se repetiam várias vezes por dia. Quando tinha acabado de vencer Fredegunda, ela caía num estado de prostração e de abatimento de que só saía pouco a pouco, mas que lhe deixava uma grande fraqueza e dificuldade de falar. Sua saúde estava profundamente alterada; nada podia comer e por vezes ficava oito dias sem alimento. Os melhores petiscos tinham gosto horrível para ela, que lhe faziam rejeitá-los. Dizia ela que era obra de Fredegunda, que queria impedi-la de comer.
 
Dissemos acima que a moça não tinha qualquer instrução. Em estado de vigília ela jamais ouviu falar de Fredegunda, nem de seu caráter nem do papel que tinha tido. No estado sonambúlico, ao contrário, ela sabe tudo perfeitamente, e diz ter vivido em seu tempo. Não era Brunehaut, como a princípio se supôs, mas outra pessoa, ligada à sua corte.
 
Outra observação, não menos essencial, é que, até o começo das crises, a senhorita Júlia jamais se tinha ocupado de Espiritismo, cujo nome lhe era desconhecido. Ainda hoje, no estado de vigília, ela o ignora e não o aceita. Só o conhece no estado sonambúlico e depois que começou a ser tratada. Assim, tudo quanto ela disse foi espontâneo.
 
Em face de uma situação tão estranha, uns atribuem o seu estado a uma afecção nervosa; outros a uma loucura de caráter especial, e força é convir que, à primeira vista, esta última opinião tinha uma aparência de realidade. Um médico declarou que, no estado atual da ciência, nada podia explicar semelhantes fenômenos, e que não via qualquer remédio. Contudo, pessoas experimentadas no Espiritismo reconheceram sem esforço que ela estava sob o império de uma subjugação das mais graves e que lhe poderia ser fatal.
 
Sem dúvida, quem só a tivesse visto nos momentos de crise e só tivesse considerado a estranheza de seus atos e palavras, teria dito que era louca, e lhe teria infringido o tratamento dos alienados que, sem a menor dúvida, teria determinado uma loucura verdadeira. Mas tal opinião deveria ceder ante os fatos.
 
No estado de vigília sua conversa é a de uma criatura de sua condição e compatível com sua falta de instrução. Sua inteligência é mesmo vulgar. Já a coisa é completamente outra no estado de sonambulismo. Nos momentos de calma, ela raciocina com muito senso, justeza e profundidade. Ora, seria singular uma loucura que aumentasse a dose de inteligência e discernimento.
 
Só o Espiritismo pode explicar essa aparente anomalia. No estado de vigília, sua alma ou Espírito está comprimida por órgãos que lhe não permitem senão um desenvolvimento incompleto. No estado de sonambulismo, a alma, emancipada, está em parte liberta dos laços e goza da plenitude de suas faculdades. Nos momentos de crise, suas palavras e atos não são excêntricos senão para os que não creem na ação dos seres do mundo invisível. Não vendo senão o efeito, e não remontando à causa, eis por que todos os obsedados, subjugados e possessos passam por loucos. Nos manicômios houve, em todos os tempos, pretensos loucos dessa natureza, que seriam facilmente curados se não se obstinassem em neles ver apenas uma doença orgânica.
 
Diante de tais fatos, como a senhorita Júlia não tinha recursos, uma família de verdadeiros e sinceros espíritas concordou em tomá-la a seu serviço, mas na sua situação ela deveria ser mais um embaraço do que uma utilidade, e seria preciso um verdadeiro devotamento para cuidar dela. Mas essas pessoas foram bem recompensadas, primeiro pelo prazer de praticar uma boa ação, depois pela satisfação de haver poderosamente contribuído para a sua cura, hoje completa. Dupla cura, porque não só a senhorita Júlia se libertou, mas sua inimiga converteu-se a melhores sentimentos.
 
Eis o que testemunhamos numa dessas lutas terríveis, que não durou menos de duas horas, quando pudemos observar o fenômeno nos mínimos detalhes, e no qual reconhecemos uma analogia completa com o dos possessos de Morzine1. A única diferença é que em Morzine os possessos se entregavam a atos contra as pessoas que os contrariavam e que eles falavam do diabo que eles tinham em si, pois os haviam persuadido de que era o diabo. Em Morzine, a senhorita Júlia teria chamado Fredegunda de diabo.
 
Num próximo artigo exporemos com detalhes as diversas fases desta cura e os meios para isto empregados. Além disso, reportar-nos-emos às notáveis instruções que os Espíritos deram a respeito, assim como as importantes observações a que deu lugar, relativamente ao magnetismo.
 
1 Ver os artigos sob o título “Estudos sobre os possessos de Morzine”, na Revista Espírita de dezembro de 1862 e de janeiro, fevereiro, abril e maio de 1863.

(texto recebido por; IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 05 de Fevereiro de 2016, 21:22
HOMEOPATIA NAS DOENÇAS MORAIS
Um estudo muito especial e que serve aos dias de hoje.


Revista Espírita
 MARÇO /1867


A Homeopatia nas Doenças Morais

Pode a homeopatia modificar as disposições morais? Tal é a pergunta que se fazem alguns médicos homeopatas e à qual não hesitam em responder afirmativamente, apoiando-se em fatos. Levando-se em conta a sua extrema gravidade, vamos examiná-la com cuidado, de um ponto de vista que nos parece ter sido negligenciado por aqueles senhores, por mais espiritualistas e mesmo espíritas que sem dúvida o sejam, porque há pouquíssimos médicos homeopatas que não sejam uma ou outra coisa. Mas, para a compreensão de nossas conclusões, algumas explicações preliminares sobre as modificações dos órgãos cerebrais são necessárias, sobretudo para as pessoas estranhas à fisiologia.

Um princípio que a simples razão faz admitir, que a Ciência constata diariamente, é que nada há de inútil na Natureza, que, até nos mais imperceptíveis detalhes, tudo tem um fim, uma razão de ser, uma destinação. Este princípio é particularmente evidente no que respeita ao organismo dos seres vivos.

Em todos os tempos o cérebro foi considerado como o órgão da transmissão do pensamento e a sede das faculdades intelectuais e morais. Hoje é reconhecido que certas partes do cérebro têm funções especiais e são afetadas por uma ordem particular de pensamentos e de sentimentos, pelo menos no que concerne à generalidade; é assim que se colocam, instintivamente, na parte anterior, as faculdades do domínio da inteligência, e que uma fronte fortemente deprimida e estreitada, é, para todo o mundo, um sinal de inferioridade intelectual. As faculdades afetivas, os sentimentos e as paixões se acham, por isto mesmo, como tendo sua sede em outras partes do cérebro.

Ora, se se considera que os pensamentos e os sentimentos são excessivamente múltiplos, e partindo do princípio de que tudo tem sua destinação e sua utilidade, é permitido concluir que cada feixe fibroso do cérebro não só corresponde a uma faculdade geral distinta, mas que cada fibra corresponde à manifestação de uma das nuanças desta faculdade, como cada corda de um instrumento corresponde a um som particular. É uma hipótese, sem dúvida, mas que tem todos os caracteres da probabilidade, e cuja negação não infirmaria as conseqüências que deduziremos do princípio geral; ela nos ajudará em nossa explicação.

O pensamento é independente do organismo. Não há por que discutir aqui esta questão, nem refutar a opinião materialista, segundo a qual o pensamento é secretado pelo cérebro, como a bile o é pelo fígado, nasce e morre com esse órgão; além de suas funestas conseqüências morais, esta doutrina tem contra si o fato de nada explicar.

[Nota do Aprendiz à Ver Flammarion – Deus na Natureza, onde ele examina e refuta todas as consequências e desdobramentos do entendimento materialista]

Segundo as doutrinas espiritualistas, que são as da imensa maioria dos homens, não podendo a matéria produzir o pensamento, este é um atributo do Espírito, do ser inteligente, que, quando unido ao corpo, serve-se dos órgãos especialmente destinados à sua transmissão, como se serve dos olhos para ver, dos pés para andar. Sobrevivendo o Espírito ao corpo, o pensamento também lhe sobrevive.

Segundo a Doutrina Espírita, não só o Espírito sobrevive, mas preexiste ao corpo; não é um ser novo; traz, ao nascer, as idéias, as qualidades e as imperfeições que possuía; assim se explicam as idéias, as aptidões e os pendores inatos. O pensamento é, pois, preexistente e sobrevivente ao organismo. Este ponto é capital e é por não o terem reconhecido que tantas questões ficaram insolúveis.

Estando na Natureza todas as faculdades e aptidões, o cérebro encerra os órgãos, ou, pelo menos, o germe dos órgãos necessários à manifestação de todos os pensamentos. A atividade do pensamento do Espírito sobre um ponto determinado impele ao desenvolvimento da fibra ou, se se quiser, do órgão correspondente; se uma faculdade não existir no Espírito, ou se, existindo, deve ficar em estado latente, o órgão correspondente, estando inativo, não se desenvolve ou se atrofia. Se o órgão for atrofiado congenitamente, não podendo manifestar-se a faculdade, o Espírito parece dele privado, embora de fato o possua, desde que lhe é inerente. Enfim, se o órgão, primitivamente em seu estado normal, se deteriora no curso da vida, a faculdade, de brilhante que era, vai perdendo a cor, depois se apaga, mas não se destrói; é apenas um véu que a obscurece.


Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 05 de Fevereiro de 2016, 21:26
Conforme os indivíduos, há faculdades, aptidões, tendências que se manifestam desde o começo da vida, enquanto outras se revelam em épocas mais tardias e produzem as mudanças de caráter e de disposições que se notam em certas pessoas. Neste último caso, geralmente não são disposições novas, mas aptidões preexistentes, que dormitam até que uma circunstância as venha estimular e despertar. Pode-se estar certo de que as disposições viciosas, que por vezes se manifestam subitamente e tardiamente, tinham seu germe preexistente nas imperfeições do Espírito, porque este, marchando sempre para o progresso, se for essencialmente bom não pode tornar-se mau, ao passo que de mau pode tornar-se bom.

O desenvolvimento ou o enfraquecimento dos órgãos cerebrais acompanha o movimento que se opera no Espírito. Essas modificações são favorecidas em todas as idades, mas, sobretudo, na juventude, pelo trabalho íntimo de renovação que se opera incessantemente no organismo, da seguinte maneira:

Como se sabe, os principais elementos do organismo são o oxigênio, o hidrogênio, o azoto [nitrogênio] e o carbono que, por suas múltiplas combinações, formam o sangue, os nervos, os músculos, os humores e as diferentes variedades de substâncias. Pela atividade das funções vitais, as moléculas orgânicas são incessantemente expelidas do corpo pela transpiração, pela exalação e por todas as secreções, de sorte que se não fossem substituídas, o corpo se reduziria e acabaria por definhar. O alimento e a aspiração incessantemente trazem novas moléculas, destinadas a substituir as que se vão, de onde se segue que, num dado tempo, todas as moléculas orgânicas são inteiramente renovadas e, numa certa idade, não existe mais uma só das que formavam o corpo em sua origem. É o caso de uma habitação, da qual se arrancassem as pedras uma a uma, substituindo-as à medida por uma nova pedra da mesma forma e tamanho, e assim por diante, até a última. Ter-se-ia sempre a mesma casa, mas formada de pedras diferentes.

Dá-se o mesmo com o corpo, cujos elementos constitutivos são, conforme os fisiologistas, totalmente renovados de sete em sete anos. As diversas partes do organismo sempre subsistem, mas os materiais são mudados. Dessas mudanças gerais ou parciais nascem as modificações que sobrevêm, com a idade, no estado sanitário de certos órgãos, as variações que sofrem os temperamentos, os gostos, os desejos que influem sobre o caráter.

Nem sempre as aquisições e as perdas estão em perfeito equilíbrio. Se as aquisições superam as perdas, o corpo cresce, aumenta; se se dá o contrário, o corpo diminui. Assim se explicam o crescimento, a obesidade, o emagrecimento, a decrepitude.

A mesma causa produz a expansão ou a interrupção do desenvolvimento dos órgãos cerebrais, conforme as modificações que se operam nas preocupações habituais, nas idéias e no caráter. Se as circunstâncias e as causas que agem diretamente sobre o Espírito, provocando o exercício de uma aptidão ou de uma paixão, forem mantidas em estado de inércia, a atividade que se produz no órgão correspondente aí faz afluir o sangue e, com ele, as moléculas constituintes do órgão, que cresce e toma força em proporção desta atividade. Pela mesma razão, a inatividade da faculdade produz o enfraquecimento do órgão, do mesmo modo que uma atividade muito intensa e persistente também pode levar à sua desorganização ou enfraquecimento, por uma espécie de gasto, tal como acontece com uma corda muito esticada.

As aptidões do Espírito são, pois, sempre uma causa, e o estado dos órgãos um efeito. Pode suceder, entretanto, que o estado dos órgãos seja modificado por uma causa estranha ao Espírito, tal como doença acidental, influência atmosférica ou climática; então são os órgãos que reagem sobre o Espírito, não alterando as suas faculdades, mas perturbando a sua manifestação.

Um efeito semelhante pode resultar das substâncias ingeridas no estômago, como alimentos ou medicamentos. Essas substâncias aí se decompõem, e os princípios essenciais que encerram, misturados ao sangue, são levados, pela corrente da circulação, a todas as partes do corpo. É reconhecido pela experiência que os princípios ativos de certas substâncias são levados mais particularmente a tal ou qual víscera: o coração, o fígado, os pulmões, etc., e aí produzem efeitos reparadores ou deletérios, conforme sua natureza e propriedades especiais. Algumas, agindo desta maneira sobre o cérebro, podem exercer sobre o conjunto, ou sobre partes determinadas, uma ação estimulante ou estupefaciente, conforme a dose e o temperamento, por exemplo, as bebidas alcoólicas, o ópio e outras.

Nós nos estendemos um pouco sobre os detalhes que precedem, a fim de dar a compreender o princípio sobre o qual pode apoiar-se, com aparência de lógica, a teoria das modificações do estado moral por meios terapêuticos. Esse princípio é o da ação direta de uma substância sobre uma parte do organismo cerebral, tendo por função especial servir à manifestação de uma faculdade, de um sentimento ou de uma paixão, porque não pode vir ao pensamento de ninguém que tal substância possa agir sobre o Espírito.

Admitido, pois, que o princípio das faculdades esteja no Espírito, e não na matéria, suponhamos que se reconheça numa substância a propriedade de modificar as disposições morais, neutralizar uma inclinação má: isto só poderia ser por sua ação sobre o órgão correspondente a essa inclinação, ação que teria por efeito interromper o desenvolvimento desse órgão, atrofiá-lo ou paralisá-lo, se for desenvolvido. Torna-se evidente que, neste caso, não se suprime a inclinação, mas a sua manifestação, absolutamente como se ao músico se tirasse o seu instrumento.

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 05 de Fevereiro de 2016, 21:27
Provavelmente são efeitos desta natureza que certos homeopatas observaram, e que os levaram a crer na possibilidade de corrigir, com o auxílio de medicamentos apropriados, vícios tais como o ciúme, o ódio, o orgulho, a cólera, etc. Uma tal doutrina, se verdadeira, seria a negação de toda responsabilidade moral, a sanção do materialismo, porque, então, a causa de nossas imperfeições estaria só na matéria; a educação moral se reduziria a um tratamento médico; o pior homem poderia tornar-se bom sem grandes esforços, e a Humanidade poderia ser regenerada com o auxílio de algumas pílulas. ** Se, ao contrário, como não padece dúvida, as imperfeições forem inerentes à própria inferioridade do Espírito, não se o melhorará pela modificação de seu invólucro carnal, como não se endireitaria um corcunda, dissimulando sua deformidade sob os tecidos de suas roupas.

[** N. do T.: É perfeitamente lógico este raciocínio de Allan Kardec, considerando-se o estado em que se achava a ciência médica do seu tempo. Então não se dispunham dos avanços conquistados no campo da farmacologia, da bioquímica, da genética, da biologia e da engenharia moleculares, que permitiram a síntese de medicamentos de real valor, hoje usados com sucesso nos distúrbios mentais. Embora não curem a doença em si, cujo substrato está no Espírito imortal, é inegável que trazem certo alívio às partes lesadas, ou supostas como tais, alcançando, quem sabe, o próprio perispírito, e propiciando uma trégua ao doente, seguida de visível melhora, a fim de que a sua reforma moral, esta sim, e os recursos da prece e da fluidoterapia possam operar a cura definitiva, na atual ou no curso de outras existências.]

Contudo, não duvidamos que tais resultados sejam obtidos em alguns casos particulares, porquanto, para afirmar um fato tão grave, é preciso ter observado; mas estamos convictos de que se enganaram com a causa e o efeito. Por sua natureza etérea os medicamentos homeopáticos têm uma ação de certa forma molecular; sem dúvida podem agir, mais que outros, sobre certas partes elementares e fluídicas dos órgãos e lhes modificar a constituição íntima. Se, pois, como é racional admitir, todos os sentimentos da alma têm sua fibra cerebral correspondente para a sua manifestação, um medicamento que agisse sobre essa fibra, quer para a paralisar, quer para exaltar sua sensibilidade, paralisaria ou exaltaria, por isso mesmo, a expressão do sentimento, do qual fosse instrumento, mas o sentimento não deixaria de subsistir. O indivíduo estaria na posição de um assassino a quem se tirasse a possibilidade de cometer homicídios, cortando-lhe os braços, mas que conservasse o desejo de matar. Seria, pois, um paliativo, mas não um remédio curativo. Não se pode agir sobre o ser espiritual senão por meios espirituais; a utilidade dos meios materiais, se fosse constatado o efeito acima, talvez fosse de dominar mais facilmente o Espírito, de o tornar mais flexível, mais dócil e mais acessível às influências morais; mas nos embalaríamos em ilusões se esperássemos de uma medicação qualquer um resultado definitivo e duradouro.

Seria completamente diferente se se tratasse de ajudar a manifestação de uma faculdade existente. Suponhamos um Espírito inteligente encarnado, não tendo ao seu serviço senão um cérebro atrofiado e não podendo, por conseguinte, manifestar suas idéias: será para nós um idiota. Admitindo, o que julgamos possível à homeopatia, mais do que a qualquer outro gênero de medicação, que se possa dar mais flexibilidade e sensibilidade às fibras cerebrais, o Espírito manifestaria seu pensamento, como um mudo, ao qual se tivesse desatado a língua. Mas se o Espírito fosse idiota por si mesmo, ainda que tivesse ao seu serviço o cérebro do maior gênio, nem por isso seria menos idiota. Não podendo um medicamento qualquer agir sobre o Espírito, não lhe poderia dar o que não tem, nem tirar o que tem; mas agindo sobre o órgão da transmissão do pensamento, pode facilitar essa transmissão sem que, por isto, nada seja mudado no estado do Espírito. O que é difícil, o mais das vezes mesmo impossível no idiota de nascença, porque há interrupção completa e quase sempre geral do desenvolvimento nos órgãos, torna-se possível quando a alteração é acidental e parcial. Neste caso, não é o Espírito que se aperfeiçoa, são os meios de comunicação.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Fevereiro de 2016, 18:37
A RELIGIÃO E O PROGRESSO   
Revista Espírita - julho - 1864     

     Muito geralmente se pensa que hoje a Igreja admite o fogo do inferno como um fogo moral e não como um fogo material. Tal é, pelo menos, a opinião da maioria dos teólogos e de muitos padres esclarecidos. Contudo, não passa de opinião individual; não é uma crença adquirida pela ortodoxia. Do contrário seria universalmente professada. Pode julgar-se pelo quadro abaixo, que um pregador traçou do inferno, durante a última quaresma, em Montreuil-sur-Mer:

     "O fogo do inferno é milhões de vezes mais intenso que o da terra; e se um dos corpos que ali se queimam sem se consumir viesse a ser atirado ao nosso planeta, empestiá-lo-ia de ponta a ponta!

     "O inferno é uma vasta e sombria caverna herissada de pregos pontiagudos, de lâminas de espadas afiadas, de navalhas bem cortantes, onde são precipitadas as almas dos danados!"

     Seria supérfluo refutar esta descrição. Contudo, poder-se-ia perguntar ao orador onde colheu um conhecimento tão preciso do lugar que descreve. Certo não foi no Evangelho, onde não se trata de pregos, nem de espadas ou navalhas. Para saber se essas lâminas são bem amoladas e bem afiadas, é preciso tê-las visto e experimentado. Será que, novo Enéas ou Orfeu, ele próprio teria descido a essa caverna sombria, que aliás tem um grande traço de família com o Tártaro dos pagãos? Além disso, deveria ele ter explicado a ação que pregos e navalhas podem ter sobre as almas e a necessidade de serem bem afiados e de boa têmpera. Desde que ele conhece tão bem os detalhes interiores do local, também deveria ter dito onde está situado. Não é no centro da Terra, pois supõe o caso de um desses corpos que ela encerra ser lançado em nosso planeta. Então é no espaço? Mas a astronomia aí lançou o seu olhar muito antes, sem nada descobrir. É verdade que não olhou com os olhos da fé.

     Seja como for, o quadro é feito para atrair os incrédulos? É mais que duvidoso, pois é mais próprio para diminuir o número dos crentes.

     Em contrapartida, citaremos o seguinte fragmento de uma carta escrita de Riom, e referida pelo jornal la Vérité, no número de 20 de março de 1864:

     "Ontem, para minha grande surpresa e grande satisfação, ouvi em pessoa esta confissão positiva sair da boca de um eloquente pregador, em presença de numeroso auditório admirado: Não há mais inferno... o inferno não existe mais... foi substituído por uma admirável substituição: os fogos da caridade, os fogos do amor resgatam as nossas faltas!

     "Nossa divina doutrina (o Espiritismo) não está encerrada inteiramente nestas poucas palavras?"

     É inútil dizer qual dos dois teve mais simpatias do auditório: mas o segundo poderia, até, ser acusado de heresia pelo primeiro. Outrora teria expiado, infalivelmente, na fogueira ou numa prisão, a audácia de haver proclamado que Deus não faz queimar as suas criaturas.

     Esta dupla citação nos sugere as seguintes reflexões:

     Se uns acreditam na materialidade das penas, e outros, não, necessariamente uns têm razão, e outros não a têm.

     Este ponto é mais capital do que parece à primeira vista, porque é o caminho aberto às interpretações numa religião fundada na unidade absoluta da crença e que, em princípio, repele a interpretação.

     É bem certo que até hoje a materialidade das penas fez parte das crenças dogmáticas da Igreja. Porque, então, nem todos os teólogos nelas acreditam? Como nem uns, nem outros o verificaram por si mesmos, que é o que leva alguns a ver apenas uma imagem onde outros veem a realidade, senão a razão que, nestes, supra a fé cega? Ora, a razão é o livre exame.

     Eis, pois, a razão e o livre exame entrando na Igreja pela força da opinião. Poder-se-ia dizer, sem metáfora, ter entrado pela porta do inferno; a mão posta no santuário dos dogmas, não pelos leigos, mas pelo próprio clero.

     Não se julgue esta uma questão de mínima importância; ela contém em si o germe de toda uma revolução religiosa e de um imenso cisma, muito mais radical que o protestantismo, porque não ameaça apenas o catolicismo, mas o protestantismo, a Igreja grega e todas as seitas cristãs. Com efeito, entre a materialidade das penas e as penas puramente morais, há toda a distância do sentido próprio ao sentido figurado, da alegoria à realidade. Desde que se admitam as chamas do inferno como alegoria, torna-se evidente que as palavras de Jesus: "Ide ao inferno eterno" têm um sentido alegórico. Daí a consequência de que o mesmo deve dar-se com muitas outras de suas palavras.

     
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Fevereiro de 2016, 18:37
Mas a consequência mais grave é esta: Do momento em que se admita a interpretação deste ponto, não há motivo para  a rejeitar sobre outros; é, pois, como dissemos, a porta aberta à a livre discussão, um golpe mortal no princípio absoluto da fé cega. A crença na materialidade das penas liga-se inteiramente a outros artigos de fé, que lhes são corolários; transformada essa crença, as outras transformar-se-ão pela força das coisas e, assim, pouco a pouco.

     Eis, já, uma explicação. Há poucos anos ainda, o dogma Fora da Igreja não há salvação, estava em toda a sua força; o batismo era condição tão imperiosa, que bastava que o filho de um herético o recebesse clandestinamente e mau grado a vontade dos pais, para ser salvo, porque tudo quanto fosse rigorosamente ortodoxo era irremissivelmente condenado. Mas se tendo levantado a razão humana ao pensamento nos milhões de almas votadas às torturas eternas, quando não tinha dependido deles ser esclarecidas na verdadeira fé, inúmeras crianças que morrem antes de adquirir a consciência de seus atos e que, por isso, não são menos danadas, se a negligência ou a fé religiosa de seus pais as privou do batismo, a Igreja, a esse respeito, separou-se de seu absolutismo. Hoje, ela diz, ou, pelo menos, dizem os seus teólogos em maioria, que essas crianças não são responsáveis pelas faltas dos pais; que a responsabilidade só começa no momento em que, tendo a possibilidade de se esclarecerem, o recusam e que, desde então, essas crianças não são danadas por não haverem recebido o batismo; que o mesmo se dá com os selvagens e os idólatras de todas as seitas. Alguns vão mais longe: reconhecem que, pela prática das virtudes cristãs, isto é, a humildade e a caridade, pode-se ser salvo em todas as religiões, porque depende, também, da vontade de um indu, de um judeu, de um muçulmano, de um protestante, quanto de um católico, viver cristãmente; que aquele que vive assim está na Igreja pelo Espírito, mesmo que não o esteja pela forma. Não está aí o princípio Fora da Caridade não há salvação? É precisamente o que ensina o Espiritismo, e é exatamente por isto que ele é declarado obra do demônio. Porque essas máximas seriam antes o sopro do demônio na boca dos Espíritas do que na dos ministros da Igreja? Se a ortodoxia da fé está ameaçada, então não é pelo Espiritismo, mas pela própria Igreja, porque esta sofre, mau grado seu, a pressão da opinião geral e porque, entre os seus membros, alguns se encontram que veem mais alto e nos quais a força da lógica supera a fé cega.

     Sem dúvida pareceria temerário dizer que a Igreja marcha ao encontro do Espiritismo; é, entretanto, uma verdade que reconhecerão mais tarde. Mesmo marchando para o combater, nem por isso deixa de, pouco a pouco, assimilar os seus princípios, sem o suspeitar.

     Esta nova maneira de encarar o problema da salvação é grave. Posto acima da forma, o Espírito é um princípio eminentemente revolucionário na ortodoxia. Sendo reconhecida possível a salvação fora da Igreja, a eficácia do batismo é relativa, e não absoluta: torna-se um símbolo. Não trazendo a criança não batizada a pena da negligência, ou da má vontade dos pais, em que se torna a incorrida por todo o gênero humano pela falta do primeiro homem? em que se torna o pecado original, tal qual o entende a Igreja?

     O maiores efeitos por vezes decorrem de pequenas causas. O direito de interpretação e de livre exame, uma vez admitido na questão, aparentemente pueril, da materialidade das penas futuras, é um primeiro passo cujas consequências são incalculáveis, porque uma brecha na imutabilidade dogmática e uma pedra arrancada arrasta outras. A posição da Igreja é embaraçosa, temos que convir. Contudo, só há um dos dois partidos a tomar: ficar estacionária, a despeito de tudo, ou ir para a frente. Mas então não poderá escapar deste dilema: se se imobilizar de modo absoluto nos erros do passado, será infalivelmente superada, como já o é, pelo fluxo das ideias novas, depois isolada e, por fim, desmembrada, como o seria hoje, se tivesse persistido em expulsar de seu seio os que creem no movimento da terra, nos períodos geológicos da criação; se entrar na via da interpretação dos dogmas, transforma-se e aí entra pelo simples fato de renunciar à materialidade das penas e à necessidade absoluta do batismo.

     O perigo de uma transformação, aliás, está clara e energicamente formulado na seguinte passagem de uma brochura publicada pelo Pe. Marin de Boylesve, da Companhia de Jesus, sob o título de O Milagre do Diabo, em resposta à Revue des Deux-Mondes.

     "Há, entre outras, uma questão que, para a religião cristã, é de vida ou de morte, a questão do milagre. A do diabo não o é menos. Tirai o diabo, e o cristianismo desaparece. Se o diabo não passar de um mito, a queda de Adão e o pecado original entrarão nas regiões da fábula. Por conseguinte a redenção, o batismo, a Igreja, o cristianismo, numa palavra, não têm mais razão de ser. Assim, a ciência não se poupa para apagar o milagre e suprimir o diabo".

     De sorte que se a ciência descobrir uma lei da natureza, que faça entrar nos fatos naturais um fato que é reputado miraculoso; se ela provar a anterioridade da raça humana e a multiplicidade de suas origens, todo o edifício se esboroa. Uma religião é muito frágil quando uma descoberta científica é para ela uma questão de vida e morte. Eis uma confissão desajeitada. Por nossa conta estamos longe de partilhar das apreensões do Pe. Boylesve em relação ao cristianismo. Dizemos que o cristianismo, tal qual saiu da boca de Jesus, mas apenas tal qual saiu, é invulnerável, porque é a lei de Deus.

     A conclusão é esta: Nenhuma concessão, sob pena de morrer. O autor esquece de examinar se há mais chances de viver na imobilidade. Nossa opinião é que há menos e que ainda é melhor viver transformado do que não viver mesmo.

     Num caso, como no outro, a cisão é inevitável. Pode, até, dizer-se que já existe; a unidade doutrinária está rompida, desde que não há acordo perfeito no ensino; desde que uns aprovam o que outros censuram; uns absolvem o que outros condenam. Assim, veem-se fiéis indo de preferência àqueles cujas ideias mais lhes convêm. Dividindo-se os pastores, o rebanho igualmente se divide.  Dessa divergência à separação a distância não é grande; um passo a mais e os que estão à frente serão tratados como heréticos pelos que ficarem na retaguarda. Ora, eis o cisma estabelecido; aí está o perigo da imobilidade.

     A religião, ou melhor, todas as religiões sofrem, mau grado seu, a influência do movimento progressivo das ideias. Uma necessidade fatal as obriga a se manter no nível do movimento ascencional, sob pena de serem submergidas. Assim, todas têm sido constrangidas, de tempos em tempos, a fazer concessões à ciência, fazer dobrar o sentido literal de certas crenças, ante a evidência dos fatos. A que repudiasse as descobertas da ciência e as suas consequências, do ponto de vista religioso, mais cedo ou mais tarde perderia sua autoridade e o seu crédito e aumentaria o número dos incrédulos. Se uma religião qualquer pode ser comprometida pela ciência, a falta não é da ciência, mas da religião fundada sobre dogmas absolutos, em contradição com as leis da natureza, que são leis divinas. Repudiar a ciência é, pois, repudiar as leis da natureza e, por isto mesmo, renegar a obra de Deus. Fazê-lo em nome da religião seria pôr Deus em contradição consigo mesmo e fazê-lo dizer: Eu estabeleci leis para reger o mundo; mas não acrediteis nessas leis.

     Em todas as idades, o homem não foi capaz de conhecer todas as leis da natureza; a descoberta sucessiva dessas leis constitui o progresso. Daí, para as religiões, a necessidade de pôr suas crenças e os seus dogmas em harmonia com o progresso, sob pena de receberem o desmentido dos fatos constatados pela ciência. Só com esta condição a religião é invulnerável. Em nosso entender, a religião deveria fazer mais do que se pôr a reboque do progresso, que apenas acompanha constrangida e forçada: deveria ser uma sentinela avançada porque proclamar a grandeza e a sabedoria de suas leis é honrar a Deus.

     A contradição existente entre certas crenças religiosas e as leis naturais fez a maioria dos incrédulos, cujo número aumenta à medida que se populariza o conhecimento dessas leis. Se fosse impossível o acordo entre a ciência e a religião, não haveria religião possível. Proclamamos altamente a possibilidade e a necessidade desse acordo porque, em nossa opinião, a ciência e a religião são irmãs para a maior glória de Deus e se devem completar reciprocamente, em vez de se desmentirem mutuamente. Estender-se-ão as mãos, quando a ciência não vir na religião nada de incompatível com os fatos demonstrados e a religião não mais tiver que temer a demonstração dos fatos. Pela revelação das leis que regem as relações entre o mundo visível e o invisível, o Espiritismo será o traço de união que lhes permitirá olhar-se face a face, uma sem rir, a outra sem tremer. É pela concordância da fé e da razão que diariamente tantos incrédulos são trazidos a Deus.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 18 de Fevereiro de 2016, 13:10
Um caso de possessão - Senhorita Júlia
Revista Espírita, janeiro de 1864
 
Segundo artigo
 
(Ver o primeiro artigo na Revista de dezembro de 1863)
 
 
No artigo anterior descrevemos a triste situação dessa moça e as circunstâncias que provavam uma verdadeira possessão. Sentimo-nos felizes ao confirmar o que dissemos a respeito de sua cura, hoje completa.

Depois de liberta de seu Espírito obsessor, os violentos abalos que ela havia sofrido por mais de seis meses a haviam levado a grave perturbação da saúde. Agora ela está inteiramente recuperada, mas não saiu do estado sonambúlico, o que não a impede de ocupar-se de suas atividades habituais.

Vamos expor as circunstâncias dessa cura.
Várias pessoas tinham tentado magnetizá-la, mas sem muito sucesso, salvo leve e passageira melhora no estado patológico. Quanto ao Espírito, era cada vez mais tenaz, e as crises haviam atingido um grau de violência dos mais inquietantes. Ali teria sido necessário um magnetizador nas condições indicadas no artigo acima para os médiuns curadores, isto é, penetrando a doente com um fluido bastante puro para eliminar o fluido do mau Espírito. Se há um gênero de mediunidade que exige uma superioridade moral, é sem contradita o caso de obsessão, pois é preciso ter a faculdade de impor sua autoridade ao Espírito.
Os casos de possessão, segundo o que é anunciado, devem multiplicar-se com grande energia daqui a algum tempo, para que fique bem demonstrada a impotência dos meios empregados até agora para combatê-los.

Até mesmo uma circunstância da qual não podemos ainda falar, mas que tem uma certa analogia com o que se passou ao tempo do Cristo, contribuirá para desenvolver essa espécie de epidemia demoníaca. Não é de duvidar que surgirão médiuns especiais com o poder de expulsar os maus Espíritos, como os apóstolos tinham o de expulsar os demônios, seja por que Deus sempre põe o remédio ao lado do mal, seja para dar aos incrédulos uma nova prova da existência dos Espíritos.

Para a senhorita Júlia, como em todos os casos análogos, o magnetismo simples, por mais enérgico que fosse, era, assim, insuficiente. Era preciso agir simultaneamente sobre o Espírito obsessor, para dominá-lo, e sobre o moral da doente, perturbado por todos esses abalos. O mal físico era apenas consecutivo; era um efeito e não a causa. Assim, havia que tratar-se a causa antes do efeito. Destruído o mal moral, o mal físico deveria desaparecer por si mesmo. Mas para isto é preciso identificar-se com a causa; estudar com o maior cuidado e em todas as suas nuanças o curso das ideias, para lhe imprimir tal ou qual direção mais favorável, porque os sintomas variam conforme o grau de inteligência do paciente, o caráter do Espírito e os motivos da obsessão, motivos cuja origem remonta quase sempre a existências anteriores.

O insucesso do magnetismo com a senhorinha Júlia levou várias pessoas a tentar. Entre essas pessoas estava um jovem dotado de grande força fluídica, mas que infelizmente não tinha qualquer experiência e, sobretudo, os conhecimentos necessários em casos semelhantes. Ele se atribuía um poder absoluto sobre os Espíritos inferiores que, segundo ele, não podiam resistir à sua vontade. Tal pretensão, levada ao excesso e baseada em sua força pessoal e não na assistência dos bons Espíritos, deveria atrair-lhe mais de um insucesso. Só isto deveria ter bastado para mostrar aos amigos da jovem que a ele faltava a primeira das qualidades requeridas para ser um socorro eficaz. Mas o que, acima de tudo, deveria tê-los esclarecido, é que sobre os Espíritos em geral tinha ele uma opinião inteiramente falsa. Segundo ele, os Espíritos superiores têm uma natureza fluídica por demais etérea para poderem vir à Terra comunicar-se com os homens e assisti-los, pois isto só seria possível aos Espíritos inferiores, em razão de sua natureza mais grosseira. Mesmo nos momentos de crise, ele cometia o grave erro de sustentar diante da doente essa opinião, que não passa da doutrina da comunicação exclusiva dos demônios. Com esta maneira de ver, ele não devia contar senão consigo mesmo, e não podia invocar a única assistência que poderia ajudá-lo, assistência da qual, é verdade, ele julgava poder prescindir.

A consequência mais prejudicial era para a doente, que ele desencorajava, tirando-lhe a esperança da assistência dos bons Espíritos. No estado de enfraquecimento em que estava o seu cérebro, tal crença, que dava todo poder ao Espírito obsessor, poderia tornar-se fatal para a sua razão, podendo mesmo matá-la. Assim, ela repetia sem cessar, nos momentos de crise: “Louca... louca... ele me deixará louca... completamente louca... eu ainda não estou, mas ficarei.”

Falando de seu magnetizador, ela pintava perfeitamente sua ação, dizendo: “Ele me dá a força do corpo, mas não a força do espírito.” Esta expressão era profundamente significativa, contudo, ninguém lhe dava importância.

Quando vimos a senhorita Júlia, o mal estava no apogeu e a crise a que assistimos foi uma das mais violentas. Foi precisamente no momento em que procurávamos levantar-lhe o moral; em que tentávamos inculcar-lhe o pensamento de que ela podia dominar esse mau Espírito com a assistência dos bons e de seu anjo guardião, cujo apoio era preciso invocar. Foi nesse momento, dizíamos, que o jovem magnetizador, que estava presente, por uma circunstância sem dúvida providencial, veio, sem qualquer provocação, afirmar e desenvolver sua teoria, destruindo por um lado o que fazíamos por outro. Tivemos que lhe expor com energia que ele praticava uma ação má e que assumia a terrível responsabilidade da razão e da vida dessa moça infeliz.

Um fato dos mais singulares, que todos tinham observado, mas ninguém lhe deduzira as consequências, se produzia na magnetização. Quando era feita durante a luta com o mau Espírito, ele sozinho absorvia todo o fluido, que lhe dava mais força, enquanto a doente enfraquecia e sucumbia aos seus ataques. Deve-se levar em conta que ela estava sempre em estado de sonambulismo; consequentemente, ela via o que se passava, e foi ela mesma que deu essa explicação. Eles não viram nesse fato senão uma malícia do Espírito, e contentaram-se em abster-se de magnetizar nesses momentos e ficar assistindo a festa.
Com o conhecimento da natureza dos fluidos, é fácil dar-se conta desse fenômeno. É evidente, para começar, que absorvendo o fluido para aumentar sua própria força em detrimento da doente, o Espírito queria convencer o magnetizador da inutilidade de sua pretensão. Se havia malícia de sua parte, era contra o magnetizador, pois ele se servia da mesma arma com a qual o outro pretendia vencê-lo. Pode-se dizer que lhe tomava o bastão das mãos. Era não menos evidente que a sua facilidade de apropriar-se do fluido do magnetizador denotava uma afinidade entre esse fluido e o seu próprio, ao passo que fluidos de natureza contrária se teriam repelido, como água e óleo. Só esse fato basta para demonstrar que havia outras condições a preencher. É, pois, um erro dos mais graves e, podemos dizer, dos mais funestos, não ver na ação magnética mais que simples emissão fluídica, sem levar em conta a qualidade íntima dos fluidos. Na maioria dos casos, o sucesso repousa inteiramente nessas qualidades, como na terapêutica depende da qualidade do medicamento. Não seria demais chamar a atenção para este ponto capital, demonstrado, ao mesmo tempo, pela lógica e pela experiência.

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 18 de Fevereiro de 2016, 13:12
Para combater a influência da doutrina do magnetizador, que já havia influenciado as ideias da doente, dissemos a ela:
- Minha filha, tenha confiança em Deus! Olhe em sua volta. Você não vê bons Espíritos?
- É verdade, disse ela, vejo Espíritos luminosos, que Fredegunda não ousa encarar.
- Então! São eles que a protegem e não permitirão que o mau Espírito vença. Implore a sua assistência; ore com fervor; ore sobretudo por Fredegunda.
- Oh! Por ela jamais poderei.
- Cuidado! Veja que a estas palavras os bons Espíritos se afastam. Se você quer sua proteção, é preciso merecê-la por seus bons sentimentos, esforçando-se sobretudo para ser melhor que a sua inimiga. Como você quer que eles a protejam, se não for melhor que ela? Pense que em outras existências você também teve censuras a se fazer, e o que lhe acontece é uma expiação. Se você quer que ela cesse, terá que se melhorar, e para provar suas boas intenções, você terá que começar mostrando-se boa e caridosa para com seus inimigos. A própria Fredegunda será tocada, e talvez você faça o arrependimento penetrar seu coração. Reflita.
- Eu o farei.
- Faça-o agora mesmo, e diga comigo: “Meu Deus, eu perdoo a Fredegunda o mal que me fez; aceito-o como uma prova e uma expiação que mereci. Perdoai minhas próprias faltas, como eu perdoo as dela. E vós, bons Espíritos que me cercais, abri o seu coração a melhores sentimentos e dai-me a força que me falta.

- Você promete orar por ela todos os dias?
- Prometo.
- Está bem. Por meu lado, vou cuidar de você e dela. Tenha confiança.
- Oh! Obrigada. Algo me diz que isto em breve vai acabar.
Tendo levado este fato ao conhecimento da Sociedade, foram dadas a respeito as seguintes instruções:
 
“O assunto de que vos ocupais comoveu os próprios bons Espíritos que, por sua vez, querem vir em auxílio dessa moça com seus conselhos. Com efeito, ela apresenta um caso de obsessão muito grave, e entre os que vistes e vereis ainda, pode-se pôr este entre os mais importantes, mais sérios, e sobretudo mais interessantes, pelas particularidades instrutivas já apresentadas e pelas novidades que ainda oferecerá.

“Como já vos disse, esses casos de obsessão renovar-se-ão frequentemente, e fornecerão dois assuntos distintos e de utilidade, primeiro para vós, depois para os que as sofrerem.
“Primeiro para vós, porque assim como vários eclesiásticos contribuíram poderosamente para divulgar o Espiritismo entre os que lhe eram completamente estranhos, assim esses obsedados, cujo número tornar-se-á bastante importante para que deles se ocupem de maneira não superficial, mas larga e profunda, abrirão bem as portas da Ciência para que a filosofia espírita possa com eles nela penetrar e ocupar entre a gente de ciência e os médicos de todos os sistemas, o lugar a que ela tem direito.

“Depois para eles, porque no estado de Espírito, antes de encarnar-se entre vós, eles aceitaram essa luta que lhes proporciona a possessão que sofrem, em vista de seu adiantamento, e essa luta, acreditai, faz sofrer cruelmente seu próprio Espírito que, quando seu corpo, de certo modo, não é mais seu, têm a perfeita consciência do que se passa. Conforme tiverem suportado essa prova, cuja duração lhes podereis abreviar poderosamente por vossas preces, eles terão progredido mais ou menos. Porque, tende certeza disto, malgrado essa possessão, sempre momentânea, eles guardam suficiente consciência de si mesmos para discernir a causa e a natureza de sua obsessão.

“Para esta de que vos ocupais, é necessário um conselho. As magnetizações que lhe faz suportar o Espírito encarnado de que falastes lhe são funestas sob todos os aspectos. Aquele Espírito é sistemático. E que sistema! Aquele que não reporta todas as suas ações à maior glória de Deus e que se envaidece das faculdades que lhe foram concedidas, será sempre confundido. Os presunçosos serão rebaixados, às vezes neste mundo, infalivelmente no outro.
“Tratai, portanto, meu caro Kardec, de conseguir que essas magnetizações cessem imediatamente, ou os mais graves inconvenientes resultarão de sua continuação, não só para a moça, mas ainda para o imprudente que pensa ter às suas ordens todos os Espíritos das trevas e comandá-los como chefe.

“Eu vos afirmo que vereis esses casos de obsessão e de possessão se desenvolverem durante um certo tempo, porque eles são úteis ao progresso da Ciência e do Espiritismo. É por aí que os médicos e os sábios enfim abrirão os olhos e compreenderão que há moléstias cujas causas não estão na matéria, e que não devem ser tratadas pela matéria. Esses casos de possessão vão igualmente abrir horizontes totalmente novos ao magnetismo, e fazer com que ele dê um grande passo para a frente, pelo estudo dos fluidos, até aqui tão imperfeito. Ajudado por esses novos conhecimentos e por sua aliança com o Espiritismo, ele obterá grandes coisas.
“Infelizmente, no magnetismo, como na medicina, durante muito tempo ainda, haverá homens que julgarão nada terem a aprender.
“Essas obsessões frequentes terão, também, um lado muito bom, pelo fato de que estando penetrado pela prece e pela força moral, pode-se fazê-las cessar e pode-se adquirir o direito de expulsar os maus Espíritos e, pelo melhoramento de sua conduta, cada um procurará adquirir esse direito, que o Espírito de Verdade, que dirige este globo, conferirá quando for merecido.

“Tende fé e confiança em Deus, que não permite que se sofra inutilmente e sem motivo”
 
HAHNEMANN.
(Médium: Sr. Albert)
 
“Serei breve. Será muito fácil curar essa infeliz possessa. Os meios estavam implicitamente contidos nas reflexões há pouco emitidas por Allan Kardec. Não só é necessária uma ação material e moral, mas ainda uma ação puramente espiritual.

“Para o Espírito encarnado que se acha, como Júlia, em estado de possessão, é necessário um magnetizador experimentado e perfeitamente convicto da verdade espírita. É necessário que ele seja, além disso, de uma moralidade irreprochável e sem presunção. Mas, para agir sobre o Espírito obsessor, é necessária a ação não menos enérgica de um bom Espírito desencarnado. Assim, pois, dupla ação: terrena e extraterrena; encarnado sobre encarnado; desencarnado sobre desencarnado; eis a lei. Se até agora tal ação não foi realizada, foi justamente para vos trazer ao estudo e à experimentação dessa interessante questão. É por isto que Júlia não se livrou mais cedo. Ela devia servir aos vossos estudos.

“Isto vos demonstra o que deveis fazer de agora em diante, nos casos de possessão manifesta. É indispensável chamar em vossa ajuda o concurso de um Espírito elevado, gozando ao mesmo tempo de força moral e fluídica, como, por exemplo, o excelente cura d’Ars, e sabeis que podeis contar com a assistência desse digno e Santo Vianney. Além disso, nosso concurso será dado a todos os que nos chamarem em seu auxílio, com pureza de coração e fé verdadeira.

“Resumindo: Quando magnetizarem Júlia, será preciso começar pela fervorosa evocação do cura d’Ars e de outros bons Espíritos que se comunicam habitualmente entre vós, pedindo-lhes que ajam contra os maus Espíritos que perseguem essa moça, os quais fugirão ante as falanges luminosas. Também é preciso não esquecer que a prece coletiva tem uma força muito grande, quando feita por certo número de pessoas agindo em sintonia, com uma fé viva e um ardente desejo de aliviar.”
 
ERASTO
(Médium: Sr. d’Ambel
 
Estas instruções foram seguidas. Vários membros da Sociedade se entenderam para agir pela prece nas condições desejadas. Um ponto essencial era levar o Espírito obsessor a emendar-se, o que necessariamente deveria facilitar a cura. Foi o que se fez, evocando-o e lhe dando conselhos. Ele prometeu não mais atormentar a senhorita Júlia, e manteve a palavra. Um dos nossos colegas foi especialmente encarregado por seu guia espiritual, de sua educação moral, com o que ficou satisfeito. Hoje esse Espírito trabalha seriamente em sua melhora e pede uma nova encarnação para expiar e reparar as suas faltas.

A importância do ensinamento que decorre deste fato e das observações a que deu lugar, não escapará a ninguém, e cada um poderá aí colher úteis instruções sobre a ocorrência.
Uma observação essencial que o caso permitiu constatar, e que se compreende sem esforço, é a influência do meio. É evidente que se o meio secunda pela unidade de vistas, de intenção e de ação, o doente se acha numa espécie de atmosfera homogênea de fluidos benéficos, o que deve necessariamente facilitar e apressar o sucesso. Mas se houver desacordo, oposição; se cada um quiser agir à sua maneira, resultarão repelões, correntes contrárias que forçosamente paralisarão e por vezes anularão os esforços tentados para a cura. Os eflúvios fluídicos, que constituem a atmosfera moral, se forem maus, são tão funestos a certos indivíduos quanto as exalações das regiões pantanosas.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 19 de Fevereiro de 2016, 21:46
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #93 em: 29 01 16, 12:53, de Moisés

      Texto trazido por Moisés:... Eis por que o Espiritismo, dando a conhecer a causa, o objetivo e as consequências das atribulações da vida, dá, ao mesmo tempo, tantas consolações e tanta coragem, e desvia o pensamento de abreviar os dias.

      Conf: não posso entender o que está escrito acima pois, até hoje, já passados milênios e século da chegada dos ensinamentos de Jesus e da codificação, ainda o espiritismo não nos fez conhecer quais são as causas de uns serem bons, e outros serem maus; e se não as conhecemos como vamos poder evitar de incidir e reincidir nelas, para que nos seja possível sermos o “homem bom”, a que se referem Jesus e a doutrina?

      E qto à pergunta, “Qual a filosofia que produziu tais resultados sobre os homens?”, ninguém poderá respondê-la se antes não conhecer, como a própria doutrina recomenda, pelo menos as mais importantes e difundidas doutrinas do mundo! 

...............
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 20 de Fevereiro de 2016, 13:14
Re: Apreciando a Revista Espírita

      Ref resp #93 em: 29 01 16, 12:53, de Moisés

      Texto trazido por Moisés:... Eis por que o Espiritismo, dando a conhecer a causa, o objetivo e as consequências das atribulações da vida, dá, ao mesmo tempo, tantas consolações e tanta coragem, e desvia o pensamento de abreviar os dias.

      Conf: não posso entender o que está escrito acima pois, até hoje, já passados milênios e século da chegada dos ensinamentos de Jesus e da codificação, ainda o espiritismo não nos fez conhecer quais são as causas de uns serem bons, e outros serem maus; e se não as conhecemos como vamos poder evitar de incidir e reincidir nelas, para que nos seja possível sermos o “homem bom”, a que se referem Jesus e a doutrina?

      E qto à pergunta, “Qual a filosofia que produziu tais resultados sobre os homens?”, ninguém poderá respondê-la se antes não conhecer, como a própria doutrina recomenda, pelo menos as mais importantes e difundidas doutrinas do mundo! 

...............


Não se desespere colega
faça preces e não desanime

A compreensão não é assim tão dificultosa
Há coisas que compreendemos e mesmo assim
Não precisamos aceitar

O importante é não desistir
Abraços
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 20 de Fevereiro de 2016, 13:38
Ensinos e Dissertações Espíritas
A REENCARNAÇÃO
(Enviado de Haia – Médium: barão de Kock)
Revista Espírita - Março / 1862


A doutrina da reencarnação é uma verdade que não pode ser contestada; desde que o homem só quer pensar no amor, na sabedoria e na justiça de Deus, não pode admitir nenhuma outra doutrina.

É verdade que nos livros sagrados só se encontram estas palavras: “Depois da morte, o homem será recompensado segundo suas obras”. Mas não se presta suficiente atenção a uma infinidade de citações, que vos dizem ser absolutamente inadmissível que o homem atual seja punido pelas faltas e pelos crimes dos que viveram antes de Cristo. Não posso voltar a tantos exemplos e demonstrações dados pelos que acreditam na reencarnação; vós mesmos o podeis fornecer, os Espíritos bons os ajudarão e será um trabalho agradável. Podeis acrescentar isto aos ditados que vos dei e vos darei ainda, se Deus o permitir. Estais convencidos do amor de Deus pelos homens; ele só deseja a felicidade de seus filhos. Ora, o único meio que têm de um dia alcançar essa suprema felicidade está inteiramente nas reencarnações sucessivas.

Já vos disse que o que Kardec escreveu sobre os anjos decaídos é pura verdade. Os Espíritos que povoam vosso globo, na maioria sempre o habitaram. Se são os mesmos que retornam há tantos séculos, é que pouquíssimos mereceram a recompensa prometida por Deus.

O Cristo disse: “Esta raça será destruída e em breve esta profecia será cumprida.” Se se acredita num Deus de amor e de justiça, como admitir-se que os homens que vivem atualmente e mesmo os que viveram há dezoito séculos, possam ser culpados pela morte do Cristo sem aceitar a reencarnação? Sim, o sentimento de amor a Deus, o das penas e recompensas da vida futura, a idéia da reencarnação são inatas no homem desde séculos. Vede toda a História, vede os escritos dos sábios da Antigüidade e vos convencereis de que esta doutrina em todos os tempos foi admitida por todos os homens que compreendem a justiça de Deus. Agora compreendeis o que é a nossa Terra e como é chegado o momento em que serão realizadas as profecias do Cristo.

Lamento que encontreis tão poucas pessoas que pensam como vós. Vossos compatriotas não pensam senão nas grandezas e no dinheiro, a fim de criarem um nome; repelem tudo quanto possa entravar suas paixões infelizes. Porém, que isto não vos desencoraje; trabalhai pela vossa felicidade, pelo bem daqueles que talvez se arrependam de seus erros; perseverai na vossa obra; pensai sempre em Deus, no Cristo, e a beatitude celeste será a vossa recompensa.

Se se quiser examinar a questão sem preconceito, refletir sobre a existência do homem nas diferentes condições da sociedade e coordenar essa existência com o amor, a sabedoria e a justiça de Deus, toda a dúvida concernente ao dogma da reencarnação deve logo desaparecer. Efetivamente, como conciliar esta justiça e esse amor com uma existência única, onde todos nascem em posições tão diferentes? Onde um é rico e poderoso, enquanto o outro é pobre e miserável? Em que um goza de saúde, ao passo que o outro é afligido de males de toda a sorte? Aqui se encontram a alegria e a vivacidade; mais longe, tristeza e dor; em uns a inteligência é mais desenvolvida; em outros, apenas se eleva acima dos brutos. Pode-se crer que um Deus todo amor tenha feito nascer criaturas condenadas por toda a vida ao idiotismo e à demência? Que tenha permitido que crianças na primavera da vida fossem arrebatadas à ternura dos pais? Ouso mesmo perguntar se se poderia atribuir a Deus o amor, a sabedoria e a justiça à vista desses povos mergulhados na ignorância e na barbárie, comparados às nações civilizadas, onde imperam as leis, a ordem, onde se cultivam as artes e as ciências? Não basta dizer: “Em sua sabedoria, Deus assim regulou todas as coisas.” Não; a sabedoria de Deus, que antes de tudo é amor, deve tornar-se clara para o entendimento humano. O dogma da reencarnação tudo esclarece. Este princípio, dado pelo próprio Deus, não se pode opor aos princípios das Santas Escrituras; longe disso, explica os princípios dos quais emanam para o homem o melhoramento moral e a perfeição. Este futuro, revelado pelo Cristo, está de acordo com os atributos infinitos de Deus. Disse o Cristo: “Os homens todos não são apenas filhos de Deus, mas, também, irmãos e irmãs da mesma família.” Ora, essas expressões devem ser bem compreendidas.

Um bom pai terrestre dará a algum de seus filhos aquilo que recusa aos outros? Lançará um no abismo da miséria, enquanto cumula o outro de riquezas, honras e dignidades? Acrescentai ainda que o amor de Deus, sendo infinito, não poderia ser comparado ao do homem por seus filhos. As diferentes posições do homem têm uma causa, e essa causa tem por princípio o amor, a sabedoria, a bondade e a justiça de Deus. Assim, a sua razão de ser só se encontra na doutrina da reencarnação.

Deus criou todos os Espíritos iguais, simples, inocentes, sem vícios e sem virtudes, mas com o livre-arbítrio de regular suas ações conforme um instinto, que se chama consciência, e que lhes dá o poder de distinguir o bem e o mal. Cada Espírito está destinado a alcançar a mais elevada perfeição, atrás de Deus e do Cristo. Para atingi-la, deve adquirir todos os conhecimentos pelo estudo de todas as ciências, iniciar-se em todas as verdades e depurar-se pela prática de todas as virtudes. Ora, como essas qualidades superiores não podem ser obtidas numa única vida, todos devem percorrer várias existências, a fim de adquirirem os diversos graus do saber.

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 20 de Fevereiro de 2016, 13:39
A vida humana é a escola da perfeição espiritual e uma série de provas. É por isso que o Espírito deve conhecer todas as condições da sociedade e, em cada uma delas, aplicar-se em cumprir a vontade divina. O poder e a riqueza, assim a pobreza e a humildade, são provas; dores, idiotismo, demência, etc., são punições pelo mal cometido numa existência anterior.

Do mesmo modo que pelo livre-arbítrio o indivíduo se encontra em condições de realizar as provas a que está submetido, também pode falir. No primeiro caso, a recompensa não se fará esperar, consistindo numa progressão na perfeição espiritual. No segundo caso, recebe a punição, isto é, deve reparar em nova vida o tempo perdido na vida anterior, da qual não soube tirar vantagem para si mesmo.

Antes de sua reencarnação, os Espíritos planam nas esferas celestes: os bons gozando a felicidade, os maus entregandose ao arrependimento, expostos à dor de serem desamparados por Deus. Mas, conservando a lembrança do passado, o Espírito se recorda das infrações aos mandamentos divinos e Deus lhe permite escolher, em nova existência, suas provas e sua condição, o que explica por que, muitas vezes, encontramos nas classes inferiores da sociedade sentimentos elevados e entendimento desenvolvido, ao passo que nas classes superiores encontramos tendências ignóbeis e Espíritos embrutecidos. Pode-se falar de injustiça quando o homem, que empregou mal a sua vida, pode reparar suas faltas numa outra existência e alcançar sua meta? Não estaria a injustiça na condenação imediata e sem apelação? A Bíblia fala de castigos eternos, mas isto não se deveria entender por uma só existência, tão triste, e tão curta; para este instante, para este piscar em relação à eternidade. Deus quer dar a felicidade eterna como recompensa do bem, mas é preciso merecê-la e uma vida única, de curta duração, não basta para alcançá-la.

Muitos perguntam por que Deus, durante tanto tempo, teria ocultado aos homens um dogma cujo conhecimento é útil à sua felicidade. Teria amado aos homens menos do que agora?

O amor de Deus é de toda a eternidade. Para os esclarecer enviou sábios, profetas e Jesus-Cristo, o Salvador. Não é uma prova de seu infinito amor? Mas como receberam os homens esse amor? Melhoraram?

O Cristo disse: “Eu poderia ainda vos dizer muitas coisas, mas não seríeis capazes de compreendê-las, devido à vossa imperfeição.” Se tomarmos as Santas Escrituras no seu verdadeiro sentido intelectual, aí encontraremos muitas citações que parecem indicar que o Espírito deve percorrer várias vidas antes de chegar ao fim. Também não se encontram nas obras dos filósofos antigos as mesmas idéias sobre a reencarnação dos Espíritos?

O mundo progrediu bastante, sob o aspecto material, nas ciências, nas instituições sociais; mas, do ponto de vista moral ainda está muito atrasado. Os homens desconhecem a lei de Deus e não ouvem mais a voz do Cristo. Eis por que, em sua bondade e como último recurso para chegar a conhecer os princípios da felicidade eterna, Deus lhes dá a comunicação direta com os Espíritos e o ensino da doutrina da reencarnação, palavras repletas de consolação e que brilham nas trevas dos dogmas de tantas religiões diferentes.

À obra! E que a busca se realize com amor e confiança. Lede sem preconceitos; refleti sobre tudo quanto Deus, desde a criação do mundo, se dignou fazer pelo gênero humano e sereis confirmados na fé que a reencarnação é uma verdade santa e divina.

Observação – Não tínhamos a honra de conhecer o Sr. barão de Kock. Esta comunicação, que concorda com todos os princípios do Espiritismo, não é, pois, o produto de nenhuma influência pessoal.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 24 de Fevereiro de 2016, 20:42
Um caso de possessão - Senhorita Júlia
Revista Espírita, janeiro de 1864
Terceiro artigo
 
Palestras de além-túmulo - Fredegunda
 
 
Damos a seguir as duas evocações do Espírito de Fredegunda, feitas na Sociedade, com um mês de intervalo, e que formam o complemento dos dois precedentes artigos sobre a possessão da senhorita Júlia.
O Espírito não se manifestou com sinais de violência, mas escrevia com grande dificuldade e fatigava extremamente o médium, que até ficou indisposto e cujas faculdades pareciam, de certo modo, paralisadas. Na previsão desse resultado, tínhamos tido o cuidado de não confiar essa evocação a um médium muito delicado.
 
Em outra circunstância, interrogado a respeito de Fredegunda1, um outro Espírito disse que há muito tempo ela procurava reencarnar-se, mas que isso não lhe havia sido permitido, porque seu objetivo ainda não era melhorar-se, mas, ao contrário, ter mais facilidade para fazer o mal, auxiliado por um corpo material. Essa disposição deveria tornar sobremaneira difícil a sua conversão, no entanto não foi tão difícil quanto se esperava, graças, sem dúvida, ao concurso benevolente de todas as pessoas que participaram dos trabalhos, e talvez também porque já era chegado o momento em que esse Espírito deveria entrar na via do arrependimento.
 
(16 de outubro de 1863 - médium: Sr. Leymarie)
 
1. Evocação.
- Não sou Fredegunda. Que quereis de mim?
 
2. Então, quem sois?
- Um Espírito que sofre.
 
3. Desde que sofreis, deveis desejar não mais sofrer. Nós vos assistiremos, pois lamentamos todos os que sofrem neste mundo e no outro. Mas é necessário que nos acompanheis, e para isto é preciso que oreis.
- Agradeço-vos, mas não posso orar.
 
4. Nós vamos orar, e isto vos ajudará. Tende confiança na bondade de Deus, que perdoa sempre àquele que se arrepende.
- Eu acredito. Orai, orai. Talvez eu possa converter-me.
 
5. Mas não basta que oremos. É preciso que também oreis.
- Eu quis orar e não pude. Agora vou tentar com o vosso auxílio.
 
6. Dizei conosco: Meu Deus, perdoai-me, pois pequei. Arrependo-me do mal que fiz.
- Di-lo-ei depois.
 
7. Isto não basta. É preciso escrever.
- Meu... (Aqui o Espírito não consegue escrever a palavra Deus. Só após muito encorajamento ele consegue terminar a frase, de maneira irregular e pouco legível.)
 
8. Não se deve dizer isto pro forma. É preciso pensar e tomar a resolução de não mais fazer o mal e vereis que logo sereis aliviada.
- Eu vou orar.
 
9. Como orastes sinceramente, não experimentais melhora?
- Oh! Sim!
 
10. Agora dai-nos alguns detalhes sobre a vossa vida e as causas do vosso encarniçamento contra Júlia!
- Mais tarde... direi... mas não posso hoje.
 
11. Prometeis deixar Júlia sossegada? O mal que lhe fazeis cai sobre vós e aumenta o vosso sofrimento.
- Sim, mas sou levada por outros Espíritos piores que eu.
 
12. Esta é uma desculpa ruim, que dais para vos escusardes. Em todo caso, deveis ter uma vontade, e com os recursos da vontade sempre se pode resistir às más sugestões.
- Se eu tivesse tido vontade não sofreria. Sou castigada porque não soube resistir.
 
13. Entretanto, demonstrastes muita vontade para atormentar Júlia. Como acabais de tomar boas resoluções, nós aconselhamos a nelas persistirdes, e pediremos aos bons Espíritos que vos ajudem.
 
OBSERVAÇÃO: Durante esta evocação um outro médium recebeu de seu guia uma comunicação contendo, entre outras coisas, o seguinte: “Não vos inquieteis com as recusas que notais nas respostas desse Espírito. Sua ideia fixa de reencarnar-se lhe faz repelir toda solidariedade com o passado, se bem que suporta bem pouco os efeitos disso. Ela é o Espírito que foi evocado, mas nem consigo mesmo quer concordar.”
 
 (13 de novembro de 1863)
 
14. Evocação.
- Estou pronta para responder.
 
15. Persististes na boa resolução em que estáveis da última vez?
- Sim.
 
16. Como vos achais?
- Muito bem, porque orei, estou bem calma e muito mais feliz.
 
17. Com efeito, sabemos que Júlia não foi mais atormentada. Como podeis comunicar-vos mais facilmente, quereis dizer por que vos encarniçáveis contra ela?
- Eu estava esquecida há séculos e desejava que a maldição que cobre o meu nome cessasse um pouco, a fim de que uma prece, uma única, me viesse consolar. Eu oro, eu creio em Deus; agora posso pronunciar o seu nome, e certamente isto é mais do que eu podia esperar do benefício que me concedeis.
 
OBSERVAÇÃO: No intervalo das duas comunicações, o Espírito era chamado todos os dias pelo nosso colega que ficou encarregado de instruí-la. Um fato positivo é que, a partir desse momento, a senhorita Júlia deixou de ser atormentada.
 
18. É muito duvidoso que apenas o desejo de obter uma prece tenha sido o móvel que vos levava a atormentar aquela moça. Sem dúvida buscais ainda um paliativo para os vossos erros. Em todo caso, era uma forma ruim de atrair a compaixão dos homens.
- Contudo, se eu não tivesse atormentado tanto a Júlia, não teríeis pensado em mim e eu não teria saído do miserável estado em que languescia. Disso resultou uma instrução para vós e um grande bem para mim, pois me abristes os olhos.
 
19. (Ao guia do médium). Foi mesmo Fredegunda que deu esta resposta?
- Sim, foi ela, um pouco auxiliada, é verdade, porque se humilhou. Mas este Espírito é muito mais adiantado em inteligência do que pensais; falta-lhe o progresso moral, no qual a ajudais a dar os primeiros passos. Ela não vos disse que Júlia tirará grande proveito do que se passou para o seu avanço pessoal.
 
20. (A Fredegunda.) A senhorita Júlia vivia em vosso tempo? Poderíeis dizer quem era ela?
- Sim. Era uma do meu séquito, chamada Hildegarde. Uma alma sofredora e resignada, que fez a minha vontade. Ela suportou o tormento de seus serviços muito humildes e muito complacentes a meu respeito.
 
21. Desejais uma nova encarnação?
- Sim, desejo. Ó meu Deus! Sofri mil torturas, e se mereci uma pena muito justa, ah! é tempo para que eu possa, com a ajuda de vossas preces, começar uma existência melhor, a fim de me lavar das antigas sujeiras. Deus é justo. Orai por mim. Até hoje eu tinha desconhecido toda a extensão de minha pena. Eu tinha o olhar velado e como que uma vertigem, mas agora vejo, compreendo, desejo o perdão do Senhor juntamente com o das minhas vítimas. Meu Deus! Como é suave o perdão!
 
22. Dizei-nos algo de Brunehaut. 2
- Brunehaut!... Este nome me dá vertigem... Ela é o grande erro de minha vida e senti o meu velho ódio despertar ao ouvir o seu nome!... Mas meu Deus me perdoará, e de agora em diante poderei escrever esse nome sem estremecer. Mais feliz do que eu, ela reencarnou pela segunda vez, desempenhando um papel que desejo: o de uma irmã de caridade.
 
23. Ficamos felizes com a vossa mudança. Nós vos enco­rajaremos e sustentaremos com nossas preces.
- Obrigada! Obrigada, bons Espíritos! Deus vos pagará.
 
OBSERVAÇÃO: Um fato característico dos maus Espíritos é a impossibilidade em que muitas vezes se acham de escrever ou pronunciar o nome de Deus. Isto denota, sem dúvida, uma natureza má, mas, ao mesmo tempo, um fundo de medo e de respeito que não sentem os Espíritos hipócritas, aparentemente menos maus. Longe de recuar ante o nome de Deus, estes últimos dele se servem afrontosamente, para captar a confiança. Eles são infinitamente mais perversos e mais perigosos que os Espíritos francamente maus. É nessa classe que se encontra a maioria dos Espíritos fascinadores, dos quais é muito mais difícil desembaraçar-se do que dos outros, porque é do próprio Espírito que eles se apoderam, com o auxílio de uma falsa demonstração de saber, de virtude ou de religião, ao passo que os outros só se apoderam do corpo. Um Espírito que, como o de Fredegunda, recua ante o nome de Deus, está mais próximo de sua conversão do que aqueles que se cobrem com a máscara do bem. Dá-se o mesmo entre os homens, onde encontrais estas duas categorias de Espíritos encarnados.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 03 de Março de 2016, 14:39
Identidade dos Espíritos nas comunicações particulares
 
Revista Espírita, julho de 1866 -
Questões e problemas

 
 
Por que os Espíritos evocados por um sentimento de afeição muitas vezes se recusam a dar provas incontestáveis de sua identidade?
 
Compreende-se todo o valor ligado às provas de identidade da parte dos Espíritos que nos são caros. Tal sentimento é muito natural e parece que pelo fato dos Espíritos poderem manifestar-se deve ser-lhes muito fácil atestar a sua personalidade. A falta de provas materiais é, para certas pessoas, sobretudo para as que não conhecem o mecanismo da mediunidade, isto é, a lei das relações entre os Espíritos e os homens, uma causa de dúvida e de penosa incerteza. Embora tenhamos tratado várias vezes desta questão, vamos examiná-la novamente, para responder a algumas perguntas que nos são dirigidas.
Nada temos a acrescentar ao que foi dito sobre a identidade dos Espíritos que vêm unicamente para a nossa instrução, e que deixaram a Terra há algum tempo. Sabemos que ela não pode ser atestada de maneira absoluta e que devemo-nos limitar ao julgamento do valor da linguagem.

A identidade não pode ser constatada com certeza senão para os Espíritos que partiram recentemente, cujo caráter e hábitos se refletem em suas palavras. Nestes, a identidade se revela por mil particularidades. Algumas vezes a prova ressalta de fatos materiais, característicos, mas o mais das vezes de nuanças da própria linguagem e de uma porção de pequenos nadas que, por serem pouco evidentes, não são menos significativos.
Muitas vezes as comunicações deste gênero encerram mais provas do que se pensa, e que descobrimos com mais atenção e menos prevenção. Infelizmente, na maior parte do tempo, as pessoas não se contentam com o que o Espírito quer ou pode dar; querem provas à sua maneira; pedem-lhe para dizer ou fazer isto ou aquilo; que lembre um nome ou um fato, e isso num momento dado, sem pensar nos obstáculos que por vezes a isto se opõem, e paralisam a sua boa vontade. Depois, obtido o que desejam, muitas vezes querem mais. Acham que ainda não é bastante concludente; após um fato, pedem outro e mais outro. Numa palavra, nunca têm bastante para se convencer. É então que, muitas vezes, fatigado por tal insistência, o Espírito cessa completamente de se manifestar, esperando que a convicção chegue por outros meios. Mas muitas vezes também sua abstenção lhe é imposta por uma vontade superior, como punição ao solicitante muito exigente, e também como prova para a sua fé, porque, se por algumas decepções e não obtenção do que quer e pela maneira pela qual o quer, ele viesse a abandonar os Espíritos, esses por sua vez o abandonariam, deixando-o mergulhado nas angústias e nas torturas da dúvida, feliz quando o seu abandono não tem consequências mais graves.

Mas, numa porção de casos, as provas materiais de identidade são independentes da vontade do Espírito e do desejo que ele tem de as dar. Isto se deve à natureza ou ao estado do instrumento pelo qual ele se comunica. Há na faculdade mediúnica uma infinita variedade de nuanças que tornam o médium apto ou impróprio à obtenção de tais ou quais efeitos que, à primeira vista, parecem idênticos, mas que dependem de influências fluídicas diferentes. O médium é como um instrumento de muitas cordas, e não pode emitir som pelas cordas que lhe faltam.
 
Eis um exemplo notável:
 
Conhecemos um médium que pode ser posto entre os de primeira ordem, tanto pela natureza das instruções que recebe quanto pela aptidão para se comunicar com quase todos os Espíritos, sem distinção. Inúmeras vezes, em evocações particulares, obteve irrefutáveis provas de identidade, pela reprodução da linguagem e do caráter de pessoas que jamais tinha conhecido. Há algum tempo, fez para uma pessoa que acabava de perder subitamente vários filhos, a evocação de um destes últimos, uma menina. A comunicação refletia perfeitamente o caráter da menina e era tanto mais satisfatória porque respondia a uma dúvida do pai acerca de sua posição como Espírito. Contudo, só havia provas de certo modo morais. O pai achava que um outro filho teria podido dizer o mesmo; queria algo que só a filha pudesse dizer; admirava-se, sobretudo de que o chamasse de pai, em vez do apelido familiar que lhe dava, e que não era um nome francês, partindo da ideia de que se ela dizia uma palavra, podia dizer-lhe outra. Tendo o pai perguntado a razão, eis a resposta que, a respeito, deu o guia do médium:
 
“Embora inteiramente desprendida, vossa filhinha não estaria em condições de vos fazer compreender por que ela não pode fazer com que o médium repita os termos por vós conhecidos que ela lhe transmite. Ela obedece a uma lei em se comunicando, mas não a compreende suficientemente para explicar o seu mecanismo. A mediunidade é uma faculdade cujas nuanças variam ao infinito e os médiuns que de ordinário tratam de assuntos filosóficos só obtém raramente, e sempre espontaneamente, essas particularidades que fazem reconhecer a personalidade do Espírito de maneira evidente. Quando os médiuns desse gênero pedem uma prova de identidade, no desejo de satisfazer o evocador, as fibras cerebrais tensas por seu desejo já não são bastante maleáveis para que o Espírito as faça mover-se à sua vontade. Daí se segue que as palavras características não podem ser reproduzidas. O pensamento fica, mas a forma não mais existe. Não há, pois, nada de estranhável que vossa filha vos tenha chamado de pai em vez de vos dar a qualificação familiar que esperáveis. Por um médium especial obtereis resultados que vos satisfarão. É só ter um pouco de paciência.”
 
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 03 de Março de 2016, 14:39
Depois de alguns dias, achando-se esse senhor no grupo de um dos nossos membros, obteve de outro médium, pela tiptologia, e em presença do primeiro, não só o nome que desejava, sem que tivesse pedido especialmente, mas outros fatos de notável precisão. Assim, a faculdade do primeiro médium, por mais desenvolvida e flexível que fosse, não se prestava a esse gênero de produção mediúnica. Ele podia reproduzir as palavras que são a tradução do pensamento transmitido, e não termos que exigem um trabalho especial. Por isso, o conjunto da comunicação refletia o caráter e a disposição das ideias do Espírito, mas sem sinais materiais característicos. Um médium não é um mecanismo próprio para todos os efeitos. Assim como não se encontram duas pessoas inteiramente semelhantes no físico e no moral, não há dois médiuns cuja faculdade seja absolutamente idêntica.

É de notar que as provas de identidade quase sempre vêm espontaneamente, no momento em que menos se pensa, ao passo que são dadas raramente quando pedidas. Capricho da parte do Espírito? Não; há uma causa material, que é a seguinte.
As disposições fluídicas que estabelecem as relações entre o Espírito e o médium oferecem nuanças de extrema delicadeza, inapreciáveis por nossos sentidos e que variam de um momento a outro no mesmo médium. Muitas vezes um efeito que não é possível num desejado momento, sê-lo-á uma hora, um dia ou uma semana mais tarde, porque as disposições ou a energia das correntes fluídicas terão mudado. Dá-se aqui como se dá na fotografia, em que uma simples variação na intensidade ou na direção da luz basta para favorecer ou impedir a reprodução da imagem. Um poeta faz versos à vontade? Não. É-lhe necessária a inspiração; se não estiver em condições favoráveis, por mais que cave o cérebro, nada obtém. Perguntai-lhe por quê. Nas evocações, o Espírito deixado à vontade aproveita disposições que encontra no médium, aproveita o momento propício. Mas, quando essas disposições não existem, ele não pode mais que o fotógrafo com a ausência de luz. A despeito de seu desejo, portanto, ele não pode sempre satisfazer instantaneamente a um pedido de provas de identidade. Eis por que é preferível esperá-las em vez de solicitá-las.
Além disto, é preciso considerar que as relações fluídicas que devem existir entre o Espírito e o médium jamais se estabelecem completamente desde a primeira vez, pois a assimilação só se faz com o tempo e gradualmente. Disso resulta que, inicialmente, o Espírito sempre experimenta uma dificuldade que influi na clareza, na precisão e no desenvolvimento das comunicações, ao passo que, quando o Espírito e o médium estão habituados um ao outro, quando seus fluidos estão identificados, as comunicações se dão naturalmente, porque não há mais resistências a vencer.

Vê-se por aí quantas considerações há que levar em conta no exame das comunicações. É por não fazê-lo e por não conhecer as leis que regem essas espécies de fenômenos que muitas vezes se pede o que é impossível. É absolutamente como se alguém que não conhecesse as leis da eletricidade se admirasse que o telégrafo pudesse experimentar variações e interrupções e concluísse que a eletricidade não existe.

O fato da constatação da identidade de certos Espíritos é um acessório no vasto conjunto dos resultados que o Espiritismo abarca. Se essa constatação fosse impossível, ela nada prejulgaria contra as manifestações em geral, nem contra as consequências morais daí decorrentes. Seria preciso lamentar os que se privassem das consolações que ela proporciona, por não terem obtido uma satisfação pessoal, pois isto seria sacrificar o todo à parte.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Março de 2016, 15:39
As Mulheres têm Alma?
Revista Espírita, janeiro / 1866


As mulheres têm alma? Sabe-se que a coisa nem sempre foi tida por certa, pois, ao que se diz, foi posta em deliberação num concílio. A negação ainda é um princípio de fé em certos povos. Sabe-se a que grau de aviltamento essa crença as reduziu na maior parte dos países do Oriente. Embora hoje, nos povos civilizados, a questão esteja resolvida em seu favor, o preconceito de sua inferioridade moral perpetuou-se a tal ponto que um escritor do
século passado, cujo nome não nos vem à memória, assim definia a mulher: “Instrumento de prazer do homem”, definição mais muçulmana que cristã. Desse preconceito nasceu a sua
inferioridade legal, ainda não apagada de nossos códigos. Durante muito tempo elas aceitaram essa submissão como uma coisa natural, tão poderosa é a força do hábito. Dá-se o mesmo com os que, votados à servidão de pai a filho, acabam por se julgar de natureza diversa da dos seus senhores.

Não obstante, o progresso das luzes resgatou a mulher na opinião. Muitas vezes ela se afirmou pela inteligência e pelo gênio e a lei, conquanto ainda a considerasse menor, pouco a pouco afrouxou os laços da tutela. Pode-se considerá-la como emancipada moralmente, se não o é legalmente. É a este último resultado que ela chegará um dia, pela força das coisas.

Ultimamente lia-se nos jornais que uma jovem senhorita de vinte anos acabava de defender o bacharelado com pleno sucesso perante a faculdade de Montpellier. Dizia-se que era o quarto diploma concedido a uma mulher. Ainda não faz muito tempo foi agitada a questão de saber se o grau de bacharel podia ser conferido a uma mulher. Embora a alguns isto parecesse uma monstruosa anomalia, reconheceu-se que os regulamentos sobre a matéria não faziam menção às mulheres e, assim, elas não se achavam excluídas legalmente. Depois de terem reconhecido que elas tinham alma, lhes reconheceram o direito à conquista dos graus da Ciência, o que já é alguma coisa. Mas a sua libertação parcial é apenas resultado do desenvolvimento da urbanidade, do abrandamento dos costumes ou, se quiserem, de um sentimento mais exato da justiça; é uma espécie de concessão que lhes fazem e,
é preciso que se diga, que lhes regateiam o mais possível.

Hoje, pôr em dúvida a alma da mulher seria ridículo; mas outra questão muito séria sob outro aspecto, aqui se apresenta, e cuja solução só pode ser estabelecida se a igualdade de posição social entre o homem e mulher for um direito natural, ou uma concessão feita pelo homem. Notemos, de passagem, que se esta igualdade não passar de uma concessão do homem por condescendência, aquilo que ele der hoje pode ser retirado amanhã, e que tendo para si a força material, salvo algumas exceções individuais, em massa ele sempre levará vantagem. Ao passo que se essa igualdade estiver na Natureza, seu reconhecimento será o
resultado do progresso e, uma vez reconhecido, será imprescritível.

Teria Deus criado almas masculinas e femininas, fazendo estas inferiores àquelas? Eis toda a questão. Se assim fosse, a inferioridade da mulher estaria nos decretos divinos e nenhuma
lei humana poderá transgredi-los. Tê-las-ia, ao contrário, criado iguais e semelhantes? Nesse caso as desigualdades, baseadas na ignorância e na força bruta, desaparecerão com o progresso e o reinado da justiça.

Entregue a si mesmo, o homem não podia estabelecer a respeito senão hipóteses mais ou menos racionais, mas sempre questionáveis. Nada no mundo poderia dar-lhe a prova material do erro ou da verdade de suas opiniões. Para se esclarecer, seria preciso remontar à fonte, pesquisar nos arcanos do mundo extracorpóreo, que não conhece. Estava reservado ao Espiritismo resolver a questão, não mais pelos raciocínios, mas pelos fatos, quer pelas revelações de além-túmulo, quer pelo estudo que diariamente pode fazer sobre o estado das almas depois da morte. E, coisa capital, esses estudos não são o fato nem de um só homem, nem das revelações de um só Espírito, mas o produto de inúmeras observações idênticas, feitas todos os dias por milhares de indivíduos, em todos os países, e que assim receberam a sanção poderosa do controle universal, sobre o qual se apoiam todas as
doutrinas da ciência espírita. Ora, eis o que resulta dessas observações.

As almas ou Espíritos não têm sexo. As afeições que os unem nada têm de carnal e, por isto mesmo, são mais duráveis, porque fundadas numa simpatia real e não são subordinadas às
vicissitudes da matéria.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 06 de Março de 2016, 16:03
As almas se encarnam, isto é, revestem temporariamente um envoltório carnal, para elas semelhante a uma pesada vestimenta, de que a morte as desembaraça. Esse invólucro
material, pondo-as em contato com o mundo material, nesse estado elas concorrem ao progresso material do mundo que habitam; a atividade a que são obrigadas a desenvolver, seja para a conservação da vida, seja para alcançarem o bem-estar, auxilia-lhes o avanço intelectual e moral. A cada encarnação a alma chega mais desenvolvida; traz novas idéias e os conhecimentos adquiridos nas existências anteriores. Assim se efetua o progresso dos povos; os homens civilizados de hoje são os mesmos que viveram na Idade Média e nos tempos de barbárie, e que progrediram; os que viverem nos séculos futuros serão os de hoje, porém mais avançados, intelectual e moralmente.

Os sexos só existem no organismo; são necessários à reprodução dos seres materiais. Mas os Espíritos, sendo criação de Deus, não se reproduzem uns pelos outros, razão pela qual os sexos seriam inúteis no mundo espiritual.

Os Espíritos progridem pelos trabalhos que realizam e pelas provas que devem sofrer, como o operário se aperfeiçoa em sua arte pelo trabalho que faz. Essas provas e esses trabalhos variam conforme sua posição social. Devendo os Espíritos progredir em tudo e adquirir todos os conhecimentos, cada um é chamado a concorrer aos diversos trabalhos e a sujeitar-se aos diferentes gêneros de provas. É por isso que, alternadamente, nascem ricos ou pobres, senhores ou servos, operários do pensamento ou da matéria.

Assim se acha fundado, sobre as próprias leis da Natureza, o princípio da igualdade, pois o grande da véspera pode ser o pequeno do dia seguinte e reciprocamente. Desse princípio decorre o da fraternidade, visto que, em nossas relações sociais, reencontramos antigos conhecimentos, e no infeliz que nos estende a mão pode encontrar-se um parente ou um amigo.

É com o mesmo objetivo que os Espíritos se encarnam nos diferentes sexos; aquele que foi homem poderá renascer mulher, e aquele que foi mulher poderá nascer homem, a fim de
realizar os deveres de cada uma dessas posições, e sofrer-lhes as provas.

A Natureza fez o sexo feminino mais fraco que o outro, porque os deveres que lhe incumbem não exigem igual força muscular e seriam até incompatíveis com a rudeza masculina. Nela
a delicadeza das formas e a finura das sensações são admiravelmente apropriadas aos cuidados da maternidade. Aos homens e às mulheres, são, pois, atribuídos deveres especiais, igualmente importantes na ordem das coisas; são dois elementos que se completam um pelo outro.

Sofrendo o Espírito encarnado a influência do organismo, seu caráter se modifica conforme as circunstâncias e se dobra às necessidades e exigências que lhe impõe esse mesmo organismo. Esta influência não se apaga imediatamente após a destruição do envoltório material, assim como não perde instantaneamente os gostos e hábitos terrenos. Depois, pode acontecer que o Espírito percorra uma série de existências no mesmo sexo, o que faz que, durante muito tempo, possa conservar, no estado de Espírito, o caráter de homem ou de mulher, cuja marca nele ficou impressa. Somente quando chegado a um certo grau de adiantamento e de desmaterialização é que a influência da matéria se apaga completamente e, com ela, o caráter dos sexos. Os que se nos apresentam como homens ou como mulheres, é para nos lembrar a existência em que os conhecemos.

Se essa influência se repercute da vida corporal à vida espiritual, o mesmo se dá quando o Espírito passa da vida espiritual à vida corporal. Numa nova encarnação ele trará o caráter e as inclinações que tinha como Espírito; se for avançado, será um homem avançado; se for atrasado, será um homem atrasado. Mudando de sexo, sob essa impressão e em sua nova encarnação, poderá conservar os gostos, as inclinações e o caráter inerentes ao sexo que acaba de deixar. Assim se explicam certas anomalias aparentes que se notam no caráter de certos homens e de certas mulheres.

Não existe, pois, diferença entre o homem e a mulher, senão no organismo material, que se aniquila com a morte do corpo; mas quanto ao Espírito, à alma, ao ser essencial, imperecível, ela não existe, porque não há duas espécies de almas. Assim o quis Deus em sua justiça, para todas as suas criaturas. Dando a todas um mesmo princípio, fundou a verdadeira igualdade. A desigualdade só existe temporariamente no grau de adiantamento; mas todas têm direito ao mesmo destino, ao qual cada uma chega por seu trabalho, porque Deus não favoreceu ninguém à custa dos outros.

A doutrina materialista coloca a mulher numa inferioridade natural, da qual só é elevada pela boa vontade do homem. Com efeito, segundo essa doutrina, a alma não existe ou, se existe, extingue-se com a vida ou se perde no todo universal, o que vem a dar no mesmo. Assim, só resta à mulher a sua fraqueza corporal, que a põe sob a dependência do mais forte. A superioridade de algumas não passa de uma exceção, de uma bizarria da Natureza, de um jogo de órgãos, e não poderia fazer lei. A doutrina espiritualista vulgar reconhece a existência da alma individual e imortal, mas é impotente para provar que não há diferença entre a do homem e a da mulher e, por conseguinte, uma superioridade natural de uma sobre a outra.

Com a Doutrina Espírita, a igualdade da mulher não é mais uma simples teoria especulativa; já não é uma concessão da força à fraqueza, mas um direito fundado nas próprias leis
da Natureza. Dando a conhecer essas leis, o Espiritismo abre a era da emancipação legal da mulher, como abre a da igualdade e da fraternidade.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Março de 2016, 16:46
Instrução das mulheres
(Joinville ─ Haute-Marne ─ 10 de março de 1868. Médium: Sra.P...)
Revista Espírita - abril / 1868


Neste momento, a instrução da mulher é uma das mais graves questões, porque não contribuirá pouco para realizar as grandes ideias de liberdade que dormem no fundo dos corações.
Honra aos homens de coragem que tomaram a sua iniciativa!
Eles podem, de antemão, estar certos do sucesso de seus trabalhos.
Sim, soou a hora da libertação da mulher; ela quer ser livre, e para isto há que libertar a sua inteligência dos erros e dos preconceitos do passado.
É pelo estudo que ela alargará o círculo de seus conhecimentos estreitos e mesquinhos.
Livre, ela fundará a sua religião sobre a moral, que é de todos os tempos e de todos os países.
Ela quer ser e será a companheira inteligente do homem, sua conselheira, sua amiga, a instrutora de seus filhos e não um joguete de que se servem como uma coisa, e que depois se despreza para tomar outra coisa.
Ela quer trazer sua pedra ao edifício social que se ergue neste momento ao poderoso sopro do progresso.
É verdade que, uma vez instruída, ela escapa das mãos daqueles que a convertem num instrumento.
Como um pássaro cativo, ela quebra a sua gaiola e voa para os vastos campos do infinito.
É verdade que, pelo conhecimento das leis imutáveis que regem mundos, ela compreenderá Deus de modo diferente do que lhe ensinam; não acreditará mais num Deus vingador, parcial e cruel, porque sua razão lhe dirá que a vingança, a parcialidade e a crueldade não podem conciliar-se com a justiça e a bondade.
O seu Deus, o dela, será todo amor, mansuetude e perdão.
Mais tarde ela conhecerá os laços de solidariedade que unem os povos entre si, e os aplicará em seu redor, espalhando com profusão tesouros de caridade, de amor e de benevolência para com todos.
A qualquer seita a que pertença, saberá que todos os homens são irmãos e que o mais forte não recebeu a força senão para proteger o fraco e elevá-lo na Sociedade ao verdadeiro nível que ele deve ocupar.
Sim, a mulher é um ser perfectível como o homem, e suas aspirações são legítimas;
seu pensamento é livre, e nenhum poder no mundo tem o direito de escravizá-la aos seus interesses e às suas paixões.
Ela reclama sua parte de atividade intelectual, e a obterá, porque há uma lei mais poderosa do que todas as leis humanas, é a do progresso, à qual toda a criação está submetida.
UM ESPÍRITO

OBSERVAÇÃO:
Temos dito e repetido muitas vezes, a emancipação da mulher será a consequência da difusão do Espiritismo, porque ele funda os seus direitos, não numa ideia filosófica generosa, mas na própria identidade da natureza do Espírito. Provando que não há Espíritos homens e Espíritos mulheres; que todos têm a mesma essência, a mesma origem e o mesmo destino, ele consagra a igualdade dos direitos. A grande lei da reencarnação vem, além disto, sancionar esse princípio. Considerando-se que os mesmos Espíritos podem encarnar-se tanto como homens quanto como mulheres, disso resulta que o homem que escraviza a mulher poderá ser escravizado por sua vez; que assim, trabalhando pela emancipação das mulheres, os homens trabalham pela emancipação geral e, por consequência, em proveito próprio. As mulheres têm, pois, um interesse direto na propagação do Espiritismo, porque este fornece ao apoio de sua causa os mais poderosos argumentos que jamais foram invocados.
(Vide a Revista Espírita de janeiro de 1866 e junho de 1867).
ALLAN KARDEC.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Março de 2016, 20:55
Identidade de um Espírito encarnado
 
Revista Espírita, janeiro / 1863
 
 
Estando em viagem, nosso colega, Sr. Delanne, nos transmite o relato seguinte, sobre a evocação do Espírito de sua esposa, viva, que ficara em Paris.
 
"...A 11 de dezembro último, estando em Lille, evoquei o Espírito de minha mulher, às 11h30 da noite. Ela me disse que uma de suas parentes casualmente havia dormido com ela. O fato deixou-me dúvidas, pois não julgava isso possível, mas, dois dias depois, dela recebi uma carta confirmando a realidade. Remeto a minha conversa, embora nada encerre de particular, porque oferece uma prova de identidade.
 
1. Estás aí, querida amiga?
- Sim, meu gordo. (É seu termo favorito).
 
2. Vês os objetos que me rodeiam?
- Vejo-os bem. Estou feliz por estar perto de ti. Espero que estejas bem agasalhado! (Eram 11h30; eu acabara de chegar de Arras; o quarto não tinha aquecimento; eu estava envolvido na capa de viagem e ainda não tinha tirado meu cachenê).
 
3. Estás contente por ter vindo sem o corpo?
- Sim, meu amigo. Eu te agradeço. Tenho o corpo fluídico, o perispírito.
 
4. És tu que me fazes escrever? Onde te postas?
- Junto a ti. Certamente tua mão ainda tem dificuldade em mover-se.
 
5. Estás bem adormecida?
- Não, ainda não muito bem.
 
6. Teu corpo te retém?
- Sim, sinto que me retém. Meu corpo está um pouco doente, mas o Espírito não sofre.
 
7. Durante o dia tiveste a intuição de que te evocaria esta noite?
- Não, contudo não posso definir o que me dizia que eu te veria. (Neste instante tive um acesso de tosse). Tu tosses sempre, amigo; cuida-te um pouco.
 
8. Podes ver meu perispírito?
- Não. Só posso distinguir o corpo material.
 
9. Tu te sentes mais livre e melhor do que com o corpo?
- Sim, porque não sofro mais. (Em carta posterior eu soube que ela efetivamente havia estado indisposta).
 
10. Vês Espíritos em volta de mim?
- Não, posto o deseje muito.
 
11. Receias estar só em casa?
- Adélia está comigo. (Esta parente jamais dorme em nossa casa; só a vemos raramente).
 
12. Como é que Adélia está contigo? Ela dormiu contigo?
- Sim, por acaso.
 
13. És tu mesma que falas comigo, cara esposa?
- Sim, amigo, sou eu mesma.
 
14. Vês bem claro aqui?
- Sim, tudo irradia melhor que tua fraca lâmpada. (Eu não tinha senão uma vela, num quarto grande).
 
15. Tu te comunicas comigo por intuição ou mecanicamente?
- Eu toco mais particularmente em teu cérebro que é próprio para receber mais facilmente, mas apesar disso dirijo tua mão ao mesmo tempo.
 
16. Como podes ver que meu cérebro é apto a receber as comunicações espíritas?
- É pelo desenvolvimento adquirido por teus órgãos há pouco tempo, o que prova que foi preciso... (Neste instante soa meia noite e o Espírito para).
 
17. Ouves o som do pêndulo?
- Sim, mas eu continuo impressionada com esse som inusitado. Ele é parecido com a música celeste que eu ouvi no sonho que te contei. (Com efeito, pouco antes de minha partida ela tinha tido um sonho delicioso, no qual ouvira uma harmonia singular. Nesse momento, tenho certeza de que eu não pensava no sonho, que havia esquecido completamente. Assim, não podia ser reflexo de meu pensamento, porque, como ninguém mais dele tinha conhecimento, e na ocasião eu estava só, vi nessa revelação espontânea uma nova prova da identidade do Espírito de minha mulher. O Espírito termina espontaneamente a frase começada acima) ... muita força em tão pouco tempo.
 
18. Queres que eu evoque meu anjo guardião para controlar tua identidade? Isto te aborreceria?
- Podes fazê-lo.
 
19. (Ao meu anjo guardião) - É mesmo o Espírito de minha mulher que acaba de me falar?
- É tua esposa que te fala e está satisfeita por te ver.
 
20. (À minha mulher) - Viste meu anjo guardião?
- Sim. Ele é resplandecente de luz. Apenas apareceu e desapareceu.
 
21. Ele te viu?
- Sim, olhou-me com olhos de uma celeste clemência, e eu, confusa, prostrei-me. Adeus, meu gordo. Sinto-me forçada a deixar-te.
 
Observação: Se o controle se tivesse limitado à resposta do anjo guardião, teria sido insuficiente, pois, por sua vez, teria sido preciso controlar o anjo guardião, quanto à identidade, porque um Espírito enganador poderia perfeitamente ter usurpado o nome. Nada há, nessa simples afirmação, que revele a sua qualidade. Em casos semelhantes, é sempre preferível controlar por um médium estranho que não esteja sob a mesma influência. Invocar um Espírito para controlar outro nem sempre oferece uma garantia suficiente, sobretudo se se pede permissão ao suspeito. Na circunstância de que se trata, encontramos uma prova na descrição que o Espírito faz do anjo guardião. Um Espírito enganador não poderia ter tomado aquele aspecto celeste. Aliás, reconhece-se, em todas as suas respostas, um caráter de veracidade que a charlatanice não poderia simular.
 
 
Sessão da noite seguinte
 
22. Estás aqui?
- Sim. Vou dizer o que te preocupa: É Adélia. Então! Sim, ela dormiu realmente comigo, eu te juro.
 
23. Teu corpo está melhor?
- Sim, não era nada.
 
24. Hoje vês Espíritos perto de ti?
- Ainda não vejo nada, mas pressinto algum, pois estou inquieta por estar só.
 
25. Ora, minha boa amiga, e talvez te sintas melhor.
- Sim. É o que vou fazer. Dize comigo: “Meu Deus, grande e justo, abençoai-nos e absolvei-nos de nossas iniquidades; fazei graça aos vossos filhos que vos amam; dignai-vos inspirar-lhes vossas virtudes e concedei-lhes a graça insigne de um dia serem contados entre os vossos eleitos. Que a dor terrestre nada lhes pareça em comparação com a felicidade que reservais aos que vos amam sinceramente. Absolvei-nos, Senhor, e prodigalizai-nos vossos benefícios pela intercessão divina da pura e angélica Santa Maria, mãe dos pecadores e a misericórdia encarnada”.
 
Observação: Esta prece improvisada pelo Espírito, é de uma tocan­te simplicidade. O Sr. Delanne não conhecia o fato relativo a Adélia senão pelo que havia dito o Espírito de sua esposa, e era tal fato que lhe suscitava dúvidas. Tendo-lhe escrito a respeito, recebeu a seguinte resposta:
“...Adélia veio realmente ontem à tarde, por acaso. Convidei-a a ficar, não por medo, do qual me rio, mas para tê-la comigo. Vês que ela ficou e dormiu comigo. Fiquei um pouco perturbada estas duas últimas noites; sentia um certo mal-estar, do qual não me dava bem conta; era uma força invencível que me forçava a dormir; eu estava como que aniquilada. Mas me sinto tão feliz por ter ido ver-te!...”
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 24 de Março de 2016, 17:47
Os Pandus e os Kurus

A REENCARNAÇÃO NA ANTIGUIDADE
Revista Espírita, agosto / 1862


Um dos nossos assinantes nos escreve de Nantes:

“Lendo um livro que trata de algumas obras em sânscrito, encontrei, numa passagem de um poema chamado Maha-Barata, uma exposição da crença daqueles tempos remotos.
Grande foi a minha admiração ao encontrar aí a reencarnação, doutrina que, na época, parece ter sido bem compreendida. Eis o fato que levou o Deus Krishna a explicar ao chefe dos Pandus a teoria dos brâmanes.

“Tendo estourado a guerra civil entre os descendentes de Pandu, legítimos herdeiros do trono e os descendentes de Kuru, que o usurparam, vêm os Pandus, à frente de um exército
comandado pelo herói Arjuna, atacar os usurpadores. A batalha foi longa e a vitória era ainda incerta; um armistício permitiu aos dois exércitos retemperar suas forças; de repente soaram as trombetas e os dois contendores puseram-se em marcha para o combate. Cavalos brancos puxam o carro de Arjuna, junto ao qual se mantém Krishna. De repente o herói pára no meio do espaço que separa os dois exércitos e os abarca com o olhar: ‘Irmãos contra irmãos, diz ele; parentes contra parentes, prestes a se estrangularem sobre os cadáveres de seus irmãos!’ É tomado de profunda melancolia e de súbita dor.

“Krishna! exclama ele, eis os nossos parentes armados, de pé, dispostos a se estrangularem. Vê! meus membros tremem, meu rosto empalidece, meu sangue gela; um frio mortal circula-me nas veias e meus cabelos se eriçam de horror. O arco fiel cai-me da mão, incapaz de o sustentar; vacilo; não posso avançar nem recuar e minha alma, embriagada de dor, parece querer abandonar-me. Deus dos cabelos louros, ah!, dize-me, serei feliz quando tiver assassinado todos os meus? Que significarão a vitória, o império, a vida, quando aqueles para os quais o quero obter e conservar tiverem perecido no combate? Ó conquistador celeste, quando o mundo tríplice fosse o preço de sua morte, eu não os quereria
degolar por este globo miserável. Não, não o quero, embora eles se preparem para matar-me impiedosamente.

“– Esses cuja morte choras, respondeu o deus, não merecem que os chores; quer vivam, quer morram, o sábio não tem lágrimas para a vida nem para a morte. O tempo em que eu não existia, em que tu não existias, em que esses guerreiros não existiam, jamais existiu e jamais virá a hora que anunciará nossa morte. Introduzidas em nossos corpos, a alma atravessa a juventude, a idade madura, a decrepitude e, passando a um novo corpo, ali recomeça sua jornada. Indestrutível e eterno, um deus desdobra de suas mãos o Universo onde estamos. Quem aniquilará a alma que ele criou? quem, pois, destruirá a obra do Indestrutível?

O corpo, envoltório frágil, altera-se, corrompe-se e morre; mas a alma, a alma eterna que não podemos conceber, jamais perece. Ao combate, Arjuna! Avança os teus corcéis no combate; tu não destróis a alma; a alma não será morta; jamais nasce, jamais morre,
ela não conhece presente, passado ou futuro; é antiga, eterna, sempre virgem, sempre jovem, imutável, inalterável. O que significa cair no combate, degolar os inimigos, senão deixar uma vestimenta ou tirar a vestimenta de alguém? Vai! nada temas; atira sem escrúpulo uma roupa usada; vê sem terror os teus inimigos e os teus irmãos deixarem os corpos perecíveis e suas almas revestirem formas novas. A alma é uma coisa que o gládio não penetra, que o fogo não pode consumir, que as águas não deterioram, que o vento
sul não resseca. Pára, pois, de gemer.”

Observação – Com efeito, a idéia da reencarnação está muito bem definida nesta passagem, como aliás, todas as crenças espíritas o estavam na Antigüidade. Só faltava um princípio: o da caridade. Ao Cristo estava reservado proclamar esta suprema lei, fonte de todas as felicidades terrestres e celestes.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Março de 2016, 14:15
Bom!
Este texto abaixo que coloco
Não  faz parte dos textos que venho extraindo das Revistas Espíritas
Coordenadas por Kardec

Mas creio
Que será de grande utilidade para nós nos posicionarmos
ante tantas críticas que recebem os paladinos da caridade
da grande Sera Espírita


Viagem Espírita 1862
Allan Kardec

(...)
Eis, senhores que rides, o que produz o Espiritismo, esta utopia do século dezenove, parcialmente ainda, é verdade, mas cuja influência já se reconhece e logo compreenderão que têm tudo a ganhar com a sua promulgação; que sua influência é uma garantia de segurança para as relações sociais, por ser o mais poderoso freio às más paixões, às efervescências desordenadas, mostrando o laço de amor e de fraternidade que deve unir o grande ao pequeno e o pequeno ao grande. Fazei, pois, por vosso exemplo que logo se possa dizer:

Praza a Deus que todos os homens sejam espíritas de coração!

Caros irmãos espíritas, venho mostrar-vos a rota, fazer-vos ver o objetivo. Possam minhas palavras, por mais fracas que sejam, permitir que compreendais a sua grandeza! Mas outros virão depois de mim, que vo-la mostrarão também, e cuja voz, mais poderosa que a minha, terá para as nações o estrondo retumbante da trombeta. Sim, meus irmãos, Espíritos, mensageiros de Deus para estabelecer o seu reino na Terra, logo surgirão entre vós e os conhecereis por sua sabedoria e pela autoridade de sua linguagem.

À sua voz, os incrédulos e os ímpios serão tomados de admiração e de estupor, e curvarão a cabeça, pois não ousarão tratá-los de loucos. Meus irmãos, não vos posso revelar ainda tudo quanto vos prepara o futuro! Mas, aproxima-se o tempo em que todos os mistérios serão desvendados, para confundir os maus e glorificar os justos.

Enquanto ainda é tempo, revesti-vos, pois, da túnica branca: sufocai todas as discórdias, pois que as discórdias pertencem ao reino do mal, que vai ter fim. Que vos possais confundir todos numa mesma família e vos dar, do fundo do coração e sem pensamento premeditado, o nome de irmãos.

Se, entre vós, houver dissidências, causas de antagonismo; se os grupos, que devem todos marchar para um objetivo comum, estiverem divididos, eu o lamento, sem me preocupar com as causas, sem examinar quem cometeu os primeiros erros e me coloco, sem vacilar, do lado daquele que tiver mais caridade, isto é, mais abnegação e verdadeira humildade, pois aquele a quem falta a caridade está sempre em erro, ainda que coberto de algum tipo de razão, porquanto Deus maldiz a quem diz a seu irmão: Raca.

Os grupos são indivíduos coletivos que devem viver em paz, como os indivíduos, se, realmente, são espíritas; são os batalhões da grande falange. Ora, em que se tornaria uma falange, cujos batalhões se dividissem? Os que vissem os outros com olhos ciumentos provariam, só por isso, que estão sob má influência, desde que o Espírito do bem não pode produzir o mal. Como bem o sabeis, reconhece-se a árvore pelos seus frutos. Ora, o fruto do orgulho, da inveja e do ciúme é um fruto envenenado que mata quem dele se nutre.

O que digo das dissidências entre os grupos, digo-o igualmente para as que pudessem existir entre os indivíduos. Em semelhante circunstância, a opinião de pessoas imparciais é sempre favorável àquele que dá provas de maior grandeza e generosidade. Aqui na Terra, onde ninguém é infalível, a indulgência recíproca é uma conseqüência do princípio de caridade que nos leva a agir para com os outros como gostaríamos que os outros agissem para conosco. Ora, sem indulgência não há caridade, sem caridade não há verdadeiro espírita. A moderação é um dos sinais característicos desse sentimento, como a acrimônia, como o rancor é a sua negação; com acrimônia e espírito vingativo estragam-se as melhores causas, mas com moderação sempre agimos dentro dos preceitos do bom direito.

Se, pois, eu tivesse de opinar em uma divergência, eu me preocuparia menos com a causa e mais com a conseqüência. A causa, sobretudo em querelas de palavras, pode ser o resultado de um primeiro movimento, de que nem sempre se é senhor; a conduta ulterior dos dois adversários é o resultado da reflexão: eles agem de sanguefrio e é então que se forja o verdadeiro caráter normal de cada um. Uma cabeça ruim e um bom coração muitas vezes caminham juntos, mas rancor e bom coração são incompatíveis. Minha medida de apreciação seria, pois, a caridade, isto é, eu observaria aquele que falasse menos mal de seu adversário, que fosse mais moderado em suas recriminações. E com esta medida que Deus nos julgará, pois que Ele será indulgente para quem tiver sido indulgente e inflexível para quem tiver sido inflexível.

O caminho traçado pela caridade é claro, infalível e sem equívocos. Poder-se-ia defini-lo assim: "Sentimento de benevolência, de justiça e de indulgência para com o próximo, baseado no que quereríamos que o próximo nos fizesse." Tomando-a por guia, podemos estar certos de não nos afastar do reto caminho, daquele que conduz a Deus; quem quer que deseje, de maneira sincera e séria, trabalhar por sua própria melhoria, deve analisar a caridade em seus mais minuciosos detalhes e por ela conformar sua conduta, pois ela se aplica a todas as circunstâncias da vida, pequenas ou grandes. Quando estivermos em dúvida sobre que partido tomar, no interesse alheio, basta que interroguemos a caridade e ela responderá sempre de maneira justa. Infelizmente escutamos, na maioria das vezes, a voz do egoísmo.

Sondai, pois, os refolhos de vossa alma, para arrancardes dela os últimos vestígios das más paixões, se ainda restarem; e se experimentardes algum ressentimento contra alguém, apressai-vos em abafá-lo e dizei: Irmão, esqueçamos o passado; os maus Espíritos nos haviam separado: que os bons nos reúnam! Se ele recusar a mão que lhe estendeis, oh! então o lamentai, pois Deus, por sua vez, lhe dirá: Por que pedes perdão, tu que não perdoaste? Cuidai, pois, para que se não vos possa aplicar estes dizeres fatais: E tarde demais!

Tais são, caros irmãos espíritas, os conselhos que tenho a vos dar. A confiança que houvestes por bem me conceder é uma garantia de que eles produzirão bons frutos. Os bons Espíritos que vos assistem vos dizem todos os dias as mesmas coisas, mas julguei um dever apresentá-las em conjunto, para melhor ressaltar as suas conseqüências. Venho, pois, em nome deles, lembrar-vos a prática da grande lei de amor e de fraternidade que em breve deverá reger o mundo e nele fazer reinarem a paz e a concórdia, sob o estandarte da caridade para com todos, sem acepção de seitas, de castas, nem de cores.
Com este estandarte, o Espiritismo será o traço de união que aproximará os homens divididos pelas crenças e pelos preconceitos mundanos; ele derrubará as mais fortes barreiras que separam os povos: o antagonismo nacional. À sombra dessa bandeira, que será o seu ponto de concentração, os homens se habituarão a ver irmãos naqueles que só viam como inimigos. Daqui até lá ainda haverá lutas, porque o mal não abandona facilmente sua presa, e os interesses materiais são tenazes. Sem dúvida não vereis com os olhos do corpo a realização dessa obra, para a qual concorreis, embora esse momento não esteja muito distante; ademais, os primeiros anos do século próximo devem assinalar essa era nova, cujo fim deste prepara seus caminhos.

Mas gozareis, com os olhos do Espírito, o bem que tiverdes feito, como os mártires do Cristianismo rejubilaram-se vendo os frutos produzidos pelo sangue que derramaram.
Coragem, pois, e perseverança. Não vos insurjais contra os obstáculos: um campo não se torna fértil sem suor. Assim como um pai, mesmo na velhice, constrói uma casa para seus filhos, crede que construís, para as gerações futuras, um templo à fraternidade universal, no qual as únicas vítimas imoladas serão o egoísmo, o orgulho e todas as paixões más que ensanguentaram a Humanidade.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 31 de Março de 2016, 01:28
A comuna de Koenigsfeld, mundo futuro em miniatura
Revista Espírita - julho/1865 » Julho

Lê-se no Galneur de Colmar:

“A comuna de Koenigsfeld, perto de Villingen, na Floresta Negra, que tem cerca de 400 habitantes, forma um estado modelo em miniatura. Há cinquenta anos, que é o tempo de existência dessa comuna, jamais aconteceu que um só habitante tivesse tido envolvimento com a polícia; jamais houve casos de delitos ou de crimes; durante cinquenta anos, jamais houve hasta pública ou nasceu um filho natural. Jamais foi aberto um processo nessa comuna. Também ali não há mendigos.”

Esta interessante notícia foi lida na Sociedade de Paris e deu lugar à seguinte comunicação espontânea:

“É belo ver a virtude num centro restrito e pobre; ali todos se conhecem, todos se veem; a caridade ali é simples e grande. Não é o mais expressivo exemplo da solidariedade universal essa pequena comuna? Não é, em miniatura, o que um dia será o resultado da verdadeira caridade, quando esta for praticada por todos os homens? Tudo se resume nisto, espíritas: a caridade, a tolerância. Entre vós, a não ser o socorro ao infortúnio, que é exequível, as relações inteligentes, isentas de inveja, de ciúme e de dureza, o são sempre.”

LAMENNAIS

(Médium: Sr. A. Didier)

Qual a causa da maior parte dos males da Terra, senão o contacto incessante dos homens maus e perversos?
O egoísmo mata a benevolência, a condescendência, a indulgência, o devotamento, a afeição desinteressada e todas as qualidades que fazem o encanto e a segurança das relações sociais. Numa sociedade de egoístas não há segurança para ninguém, porque cada um, buscando apenas o próprio interesse, sacrifica sem escrúpulos o do vizinho. Muitas pessoas se creem perfeitamente honestas porque são incapazes de assassinar e de assaltar pelas estradas. Mas será que aquele que, por cupidez e dureza, causa a ruína de um indivíduo e o leva ao suicídio; que reduz toda uma família à miséria, ao desespero, não é pior que um assassino e um ladrão? Ele assassina em fogo lento, e porque a lei não o condena, porque os seus semelhantes aplaudem a sua maneira de agir e a sua habilidade, julga-se isento de censuras e caminha de cabeça erguida! Além disto, os homens sempre desconfiam uns dos outros; sua vida é uma ansiedade perpétua; se não temem a espada nem o veneno, estão às voltas com a astúcia, a inveja, o ciúme, a calúnia, numa palavra, com o assassinato moral. Que seria preciso para fazer cessar esse estado de coisas? Praticar a caridade. Tudo se resume nisto, como diz Lamennais.

A comunidade de Koenigsfeld nos oferece em miniatura o que será o mundo quando for regenerado. O que é possível em pequena escala sê-lo-á em grande escala? Duvidar seria negar o progresso. Dia virá em que os homens, vencidos pelos males engendrados pelo egoísmo, compreenderão que seguem o caminho errado, e Deus quer que eles encontrem o caminho à sua custa, porque lhes deu o livre-arbítrio. O excesso do mal lhes fará sentir a necessidade do bem, e eles se voltarão para este lado, como para a única tábua de salvação. Quem os levará a isto? A fé séria no futuro, e não a crença no nada após a morte; a confiança num Deus bom e misericordioso, e não o medo dos suplícios eternos.

Tudo está submetido à lei do progresso; os mundos também progridem fisicamente e moralmente; mas, se a transformação da Humanidade deve esperar o resultado da melhora individual; se nenhuma causa vier apressar essa transformação, quantos séculos, quantos milhares de anos serão ainda necessários? Tendo a Terra chegado a uma de suas fases progressivas, basta que não seja mais permitido aos Espíritos atrasados aqui encarnarem e que, na medida das extinções, Espíritos mais adiantados venham tomar o lugar dos que partem, para que em uma ou duas gerações o caráter geral da Humanidade seja mudado. Suponhamos, pois, que em vez de Espíritos egoístas, a Humanidade seja, num dado tempo, formada de Espíritos imbuídos de sentimentos de caridade. Em vez de procurarem prejudicar-se, eles se ajudarão mutuamente. Viverão felizes e em paz. Não mais ambição de povo a povo e, portanto, não mais guerras. Não mais soberanos governando ao seu talante. A justiça em vez do arbítrio, portanto, não mais revoluções. Não mais os fortes esmagando e explorando o fraco. Equidade voluntária em todas as transações, portanto, não mais querelas nem trapaças. Tal será o estado do mundo depois de sua transformação. De um mundo de expiação e de provas, de um lugar de exílio para os Espíritos imperfeitos, ele se tornará um mundo feliz, um lugar de repouso para os bons Espíritos; de um mundo de punição, passará a ser um mundo de recompensa.

A comuna de Koenigsfeld incontestavelmente é composta de Espíritos adiantados, ao menos moralmente, senão cientificamente, e que praticam entre si a lei da caridade e do amor ao próximo. Esses Espíritos se reúnem por simpatia nesse recanto abençoado da Terra, para aí viver em paz, esperando que possam fazê-lo em toda a sua superfície. Suponhamos que alguns Espíritos embusteiros, egoístas e malévolos aí venham encarnar-se. Em breve semearão a perturbação e a confusão; ver-se-ão reviverem, como alhures, as querelas, os processos, os delitos e os crimes. Assim aconteceria com a Terra, após a sua transformação, se Deus a abrisse ao acesso dos maus Espíritos. Progredindo a Terra, aí eles estariam deslocados. É por isso que eles irão expiar seu endurecimento e refazer sua educação moral em mundos menos adiantados.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 02 de Abril de 2016, 15:48
Aproveito este espaço
Para colocar um pouco do Allan Kardec
Autor dos textos acima.

Allan Kardec
Modelo de circunspecção e recolhimento

Poderíamos imaginar, nos dias de hoje, um jovem naturalmente calmo, recolhido, circunspecto?

Essas qualidades naturais em um jovem são raras e indicam um Espírito elevado aí encarnado. Em se tratando de um Espírito superior, essas qualidades lhe são inerentes desde a infância. Pois Kardec deve ter sido uma tal criança, um tal jovem.
Nós o surpreendemos, num artigo publicado na Revista Espírita, falando um pouco sobre si mesmo; trata-se da visita que fez em espírito, quando emancipado pelo sono, a um amigo, para trabalhar. Reproduzimos aqui uma parte de sua fala:

“Enquanto eu estava calmamente na cama, um de nossos amigos me viu várias vezes em sua casa, posto que sob uma aparência não tangível, sentando-me a seu lado e conversando com ele, como de hábito. Uma vez ele me viu de roupão, outras vezes de paletó. Transcreveu nossa conversa e no-la remeteu no dia seguinte. Percebe-se bem que era relativa a nossos trabalhos prediletos. Querendo fazer uma experiência, ofereceu-me refresco. Eis a minha resposta: ‘Não tenho necessidade disto, porque não é o meu corpo que está aqui, vós o sabeis. Não há a menor necessidade, portanto, de criar para vós uma ilusão.'

Uma circunstância muito estranha apresentou-se naquela ocasião. Seja por disposição natural, ou seja resultado de nossos trabalhos intelectuais, sérios desde a minha juventude, poderíamos dizer, desde a infância, o fundo de meu caráter foi sempre de extrema gravidade, mesmo na idade em que não se pensa senão no prazer. Esta preocupação constante me dá uma aparência de frieza, mesmo de muita frieza. É isto, pelo menos, o que muitas vezes me tem sido censurado. Mas sob esse envoltório aparentemente glacial, talvez o Espírito sinta mais vivamente do que se tivesse uma maior expansão exterior. Ora, em minhas visitas noturnas ao nosso amigo, ele ficou muito surpreso por me ver completamente diferente; estava mais aberto, mais comunicativo, quase alegre. Tudo respirava em mim a satisfação e a calma do bem-estar. Não estará aí um efeito do Espírito desprendido da matéria?"[1]

Em suas obras Kardec chama a nossa atenção para a necessidade da seriedade, do recolhimento, da pureza de intenções como condição indispensável para a assistência dos bons Espíritos e das boas comunicações. Vamos reproduzir, nestas reflexões sobre o recolhimento, alguns trechos das recomendações dadas pelo nosso Mestre, e que poderão servir ao espírita, individualmente, e aos grupos espíritas que desejam bem se conduzir.
Disse ele: “O concurso dos bons Espíritos, tal é, com efeito, a condição sem a qual não se pode esperar a Verdade. Ora, depende de nós obter esse concurso. A primeira de todas as condições para merecermos a sua simpatia é o recolhimento e a pureza das intenções. Os Espíritos sérios vão aonde são chamados seriamente, com fé, fervor e confiança. Eles não gostam de ser usados em experiências, nem de dar espetáculo. Ao contrário, gostam de instruir aqueles que os interrogam sem ideias preconcebidas. Os Espíritos levianos, que se divertem de todos os modos, vão a toda parte e de preferência aos lugares onde encontram ocasião para mistificar. Os maus são atraídos pelos maus pensamentos, e por maus pensamentos devemos compreender todos aqueles que não se conformam com os princípios da caridade evangélica. Assim, pois, quem quer que traga a uma reunião sentimentos contrários a esses preceitos, traz consigo Espíritos desejosos de semear a perturbação, a discórdia e os desafetos.

A comunhão de pensamentos e de sentimentos para o bem é, assim, uma condição primordial e não é possível encontrar essa comunhão num meio heterogêneo, onde têm acesso paixões inferiores como o orgulho, a inveja e o ciúme, paixões que sempre se revelam pela malevolência e pela acrimônia da linguagem, por mais espesso que seja o véu com que se procure encobri-las. Eis o abc da Ciência Espírita. Se quisermos fechar a porta desse recinto aos maus Espíritos, comecemos por fechar-lhes a porta de nossos corações e evitemos tudo quanto lhes possa conferir poder sobre nós. Se algum dia a Sociedade se tornasse joguete dos Espíritos enganadores, é que a ela teriam sido atraídos. Por quem? Por aqueles nos quais eles encontram eco, pois eles vão apenas aonde sabem que são escutados. É conhecido o provérbio: Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és. Podemos parodiá-lo em relação aos nossos Espíritos simpáticos, dizendo: Dize-me o que pensas e dir-te-ei com quem andas.

Ora, os pensamentos se traduzem por atos. Se admitirmos que a discórdia, o orgulho, a inveja e o ciúme não podem ser inspirados senão por maus Espíritos, aqueles que aqui trouxessem elementos de desunião suscitariam entraves, com o que indicariam a natureza de seus satélites ocultos. Então só poderíamos lamentar sua presença no seio da Sociedade. Queira Deus - e assim o espero - que isto nunca aconteça, e que, auxiliados pelos bons Espíritos, se a estes nos tornarmos favoráveis, a Sociedade se consolide, tanto pela consideração que tiver merecido, quanto pela utilidade de seus trabalhos.

(…) Se tivéssemos em mira apenas experiências para satisfação de nossa curiosidade, a natureza das comunicações seria mais ou menos indiferente, pois nelas veríamos somente o que elas são. Como, porém, em nossos estudos não buscamos uma diversão para nós, nem para o público, mas o que queremos são comunicações verdadeiras, para isso necessitamos da simpatia dos bons Espíritos, e essa simpatia só é conseguida pelos que afastam os maus com a sinceridade de seu coração.[2]

"O perigo está no império que os maus Espíritos exercem sobre as pessoas”.

“Dizer que Espíritos levianos jamais se introduziram em nosso meio, para encobrirmos qualquer ponto vulnerável de nossa parte, seria muita presunção de perfeição. Os Espíritos superiores podem até mesmo permiti-lo, a fim de experimentar a nossa perspicácia e o nosso zelo na busca da verdade. Entretanto, o nosso raciocínio deve pôr-nos em guarda contra as ciladas que nos podem ser armadas e em todos os casos dá-nos os meios de evitá-las.
O objetivo da Sociedade não é apenas a pesquisa dos princípios da Ciência Espírita. Ela vai mais longe. Estuda também as suas consequências morais, pois é principalmente nestas que está a sua verdadeira utilidade.

Ensinam os nossos estudos que o mundo invisível que nos circunda reage constantemente sobre o mundo visível e no-lo mostram como uma das forças da Natureza. Conhecer os efeitos dessa força oculta que nos domina e nos subjuga malgrado nosso, não será ter a chave de muitos problemas, as explicações de uma porção de fatos que passam despercebidos? Se esses efeitos podem ser funestos, conhecer a causa do mal não é ter um meio de preservar-se contra ele, assim como o conhecimento das propriedades da eletricidade nos deu o meio de atenuar os desastrosos efeitos do raio? Se então sucumbirmos, não nos poderemos queixar senão de nós mesmos, porque a ignorância não nos servirá de desculpa. O perigo está no império que os maus Espíritos exercem sobre as pessoas, o que não é apenas uma coisa funesta do ponto de vista dos erros de princípios que eles podem propagar, como ainda do ponto de vista dos interesses da vida material.

Uma das táticas do maus Espíritos para alcançar os seus fins é semear a desunião
“Ensina a experiência que jamais nos abandonamos impunemente ao domínio dos maus Espíritos, porque suas intenções jamais podem ser boas. Uma de suas táticas para alcançar os seus fins é a desunião, pois sabem muito bem que podem facilmente dominar quem estiver sem apoio. Assim, o seu primeiro cuidado, quando querem apoderar-se de alguém, é sempre inspirar-lhe a desconfiança e o isolamento, a fim de que ninguém possa desmascará-los esclarecendo-o com conselhos salutares. Uma vez senhores do terreno, podem à vontade fascinar a pessoa com promessas sedutoras; subjugá-la por meio da lisonja às suas inclinações, para o que aproveitam o lado fraco que descobrem a fim de melhor fazê-la sentir, depois, a amargura das decepções; feri-la nas suas afeições; humilhá-la no seu orgulho e, muitas vezes, elevá-la por um instante apenas para precipitá-la de mais alto.
Eis, senhores, o que nos mostram os exemplos que a cada momento se desdobram aos nossos olhos, tanto no mundo dos Espíritos quanto no mundo corpóreo, circunstância que podemos aproveitar para nós próprios, ao mesmo tempo que procuramos torná-la proveitosa aos outros.

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 02 de Abril de 2016, 15:49
(…) Uma sociedade espírita requer outra condição - a assistência dos bons Espíritos - se quisermos obter comunicações sérias, porque dos maus, caso lhes permitamos tomarem pé, nada obteremos senão mentiras, decepções e mistificação. Este é o preço de sua própria existência, pois os maus serão os primeiros agentes de sua destruição. Eles a minarão pouco a pouco, caso não a derrubem logo de início.

Sem homogeneidade não haverá comunhão de pensamentos e, portanto, não serão possíveis nem calma nem recolhimento. Ora, os bons só se apresentam onde encontram tais condições. Como encontrá-las numa reunião onde as crenças são divergentes, onde alguns nem mesmo creem e, por conseguinte, onde domina incessantemente o espírito de oposição e de controvérsia? Eles só assistem aos que desejam ardentemente esclarecer-se para o bem, sem segundas intenções, e não para satisfazer uma vã curiosidade.

Querer formar uma sociedade espírita fora destas condições seria dar provas da mais absoluta ignorância dos princípios mais elementares do Espiritismo.

(…) Aliás, nós possuímos um meio infalível para não temer nenhuma rivalidade. É o que nos dá São Luís: Que haja entre vós compreensão e amor, disse-nos ele. Trabalhemos, pois, para nos compreendermos. Lutemos com os outros, mas lutemos com caridade e com abnegação. Que o amor ao próximo esteja inscrito em nossa bandeira e seja a nossa divisa. Com isto desafiaremos a zombaria e a influência dos maus Espíritos.(…)[3]
(…) "A tática ora em ação pelos inimigos dos espíritas, mas que vai ser empregada com novo ardor, é a de tentar dividi-los, criando sistemas divergentes e suscitando entre eles a desconfiança e a inveja. Não vos deixeis cair na armadilha, e tende certeza de que quem quer que procure, seja por que meio for, romper a boa harmonia, não pode ter boas intenções. Eis por que vos advirto para que tenhais a maior circunspeção na formação dos vossos grupos, não só para a vossa tranquilidade, mas no próprio interesse dos vossos trabalhos.

A natureza dos trabalhos espíritas exige calma e recolhimento. Ora, isto não é possível se somos distraídos pelas discussões e pela expressão de sentimentos malévolos. Se houver fraternidade, não haverá sentimentos malévolos, mas não pode haver fraternidade com egoístas, ambiciosos e orgulhosos. Com orgulhosos que se chocam e se ferem por tudo; com ambiciosos que se desiludem quando não têm a supremacia; com egoístas que só pensam em si mesmos, a cizânia não tardará a ser introduzida. Daí, vem a dissolução. É o que queriam nossos inimigos e é o que tentarão fazer.

Se um grupo quiser estar em condições de ordem, de tranquilidade, de estabilidade, é preciso que nele reine um sentimento fraterno. Todo grupo ou sociedade que se formar sem ter por base a caridade efetiva não terá vitalidade, enquanto os que se formarem segundo o verdadeiro espírito da doutrina olhar-se-ão como membros de uma mesma família que, não podendo viver todos sob o mesmo teto, moram em lugares diversos. Entre eles, a rivalidade seria uma insensatez, pois ela não poderia existir onde reina a verdadeira caridade, porque a caridade não pode ser entendida de duas maneiras. Reconhecei, pois, o verdadeiro espírita pela prática da caridade em pensamentos, palavras e atos, e dizei a vós mesmos que aquele que em sua alma nutre sentimentos de animosidade, de rancor, de ódio, de inveja e de ciúme mente para si mesmo se deseja compreender e praticar o Espiritismo.

O egoísmo e o orgulho matam as sociedades particulares, como matam os povos e as sociedades em geral. Lede a história e vereis que os povos sucumbem sob o amplexo desses dois mortais inimigos da felicidade humana. Quando se apoiarem nas bases da caridade, serão indissolúveis, porque estarão em paz entre si e consigo mesmos, cada um respeitando os bens e os direitos dos vizinhos. Essa será a nova era predita, da qual o Espiritismo é o precursor, e para a qual todo espírita deve trabalhar, cada um na sua esfera de atividade. É uma tarefa que lhes incumbe, e da qual serão recompensados conforme a maneira pela qual a tenham realizado, pois Deus saberá distinguir os que no Espiritismo só procuraram a sua satisfação pessoal daqueles que ao mesmo tempo trabalharam pela felicidade de seus irmãos.[4]
Encerramos aqui essas breves reflexões sobre o que Allan Kardec considera importante para o bom andamento dos grupos sérios, e de que ele mesmo deu o exemplo. Aos final de cada trecho extraído de suas orientações nós incluímos a referência ao texto integral, a fim de que cada um que queira lê-lo na íntegra saiba onde encontrá-lo.
Incluímos aqui as definições de termos que foram utilizados por Kardec nos textos acima, encontrados em dicionários franceses do século XIX.

Circunspecção: Vigilância prudente que se exerce sobre suas palavras e suas ações, atento a todas as circunstâncias. Discrição, reflexão, reserva, moderação, sabedoria. Agir, falar com circunspecção. Atenção, discernimento, precaução, critério. Contrários: imprudência, leviandade, temeridade.

Circunspecto: que presta muita atenção ao que diz e faz; atento, ajuizado, discreto, prudente, refletido, reservado, sábio. Contrários: aventureiro, imprudente, leviano, temerário.

Recolhimento: ação de se recolher. Buscar o recolhimento na solitude. Estado de uma pessoa que se recolhe.
Recolher-se: reunir em si mesmo toda sua atenção, para ocupar-se somente de uma coisa. Recolher-se antes de falar. Reunir, recolher suas forças. Inferir, tirar alguma dedução. (Nouveau Dictionnaire Universel, de Lachâtre. Paris 1865)

[1] Revista Espírita, fevereiro de 1859 - Os agêneres
[2] Revista Espírita, julho de 1859 - Sociedade Parisiense - Discurso de encerramento do ano social 1858-1859.
[3] Revista Espírita, julho de 1859 - Sociedade Parisiense - Discurso de encerramento do ano social 1858-1859.
[4] Revista Espírita, fevereiro de 1862 - Cumprimentos de ano-novo.


( texto recebido por IPEAK
Instituto de Pesquisas Espíritas Allan kardec)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 16 de Abril de 2016, 20:03
VARIEDADES -
CURA POR UM ESPÍRITO
Revista Espírita - fevereiro/1863

Recebemos várias cartas que comprovam a excelente aplicação do remédio indicado na Revista Espírita de novembro de 1862 (ver também a Errata do mês de dezembro), cuja receita foi dada por um Espírito. Um oficial de cavalaria nos disse que o farmacêutico de seu regimento teve o cuidado de prepará-la para os casos muito frequentes de acidentes causados pelos coices dados pelos cavalos. Sabemos que outros farmacêuticos fizeram o mesmo em certas cidades.

A propósito da origem do remédio, um de nossos assinantes do Eure-et-Loir transmite-nos o seguinte fato, de seu conhecimento pessoal.

Autheusel, 6 de novembro de 1862.

“Um carregador chamado Paquine, que reside numa comuna próxima, veio ver-me, há um mês, andando de muletas.”

Admirado de o ver assim, indaguei do acidente. Respondeu-me que, desde algum tempo, suas pernas estavam muito inchadas e cobertas de úlceras, e que nenhum remédio fazia efeito. Esse homem é espírita e tem alguma mediunidade. Disse-lhe que era necessário dirigir-se a Espíritos bons e fazê-lo com ardor. No dia de Todos os Santos vi-o na missa, com um simples bastão. No dia seguinte veio ver-me e contou o que se segue:

Senhor, disse ele, desde que me recomendastes utilizar os Espíritos bons para obter minha cura, não deixei uma noite e, muitas vezes de dia, de invocá-los e lhes mostrar quanto meu mal me prejudicava para ganhar a vida. Havia apenas cinco ou seis dias que assim orava quando uma noite, estando meio adormecido, vi um homem todo de branco aparecer no meio do quarto. Avançou para o meu aparador, tomou um pequeno pote, no qual havia o ungüento de que me servia para acalmar as dores das pernas. Mostrou-me o recipiente e depois, tomando fumo que eu guardava num papel, mostrou-mo também. Em seguida foi buscar uma garrafinha com extrato de saturno, depois uma garrafa com essência de terebentina e, mostrando tudo, gesticulou que era preciso fazer uma mistura. Indicou-me a dose e a despejou no pote. Depois de fazer sinais de amizade, desapareceu. No dia seguinte fiz o que o Espírito havia prescrito e desde então minhas pernas entraram em franco processo de cura.

Hoje só me resta uma inflamação no pé, que, graças à eficiência da medicação, vai aos poucos desaparecendo. Em breve espero estar livre de todo o mal.

“Eis, senhores, um fato que quase poderia ser classificado no número das curas milagrosas, e creio que seria levar longe demais o espírito de partido para aí ver apenas um fato demoníaco.

“Examinando a vulgaridade e, quase sempre, a simplicidade dos remédios indicados pelos Espíritos em geral, eu me pergunto se daí não se poderia concluir que o remédio em si não passa de simples fórmula e que é a influência fluídica do Espírito que opera a cura. Penso que esta questão poderia ser estudada.”

“L. de Tarragon.
A  última questão não nos parece duvidosa, sobretudo quando se conhecem as propriedades que a ação magnética pode dar às substâncias mais benignas, à água, por exemplo. Ora, como os Espíritos também magnetizam, certamente podem dar, conforme as circunstâncias, propriedades curativas a certas substâncias. Se o Espiritismo nos revela todo um mundo de seres que pensam e agem, revela-nos também forças materiais desconhecidas, que a Ciência um dia aproveitará.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 21 de Abril de 2016, 16:15
A EMBRIAGUEZ O FUMO E A LOUCURA
Revista Espírita, abril /1858

Variedades
 
 
Lê-lê-se num jornal: “Conforme a Gazette des Hôpitaux[1], neste momento contam-se no hospital de “alienados” de Zurique 25 pessoas que perderam a razão graças às mesas girantes e aos Espíritos batedores”.

Para começar, perguntamos se está bem averiguado que esses 25 alienados devem todos a perda da razão aos Espíritos batedores, o que é contestável, pelo menos até haver provas autênticas.
Admitindo que esses estranhos fenômenos tenham podido impressionar de modo prejudicial certos caracteres fracos, perguntaríamos se, por outro lado, o medo do diabo não fez mais loucos do que a crença nos Espíritos.
Ora, de vez que os Espíritos não são impedidos de bater, o perigo está na crença de que todos aqueles que se manifestam são demônios.
Afaste-se esta ideia, dando a conhecer a verdade, e não haverá mais medo do que dos vaga-lumes.
A ideia de que se é assediado pelo diabo é feita sob medida para perturbar a razão.
Em contraposição, temos uma outra notícia, de outro jornal, que diz:
“Há um curioso documento estatístico das funestas consequências a que, entre os ingleses, arrasta o hábito da intemperança e das bebidas fortes. De cada 100 indivíduos entrados no hospital de alienados de Hamwel, há 72 cuja alienação mental deve ser atribuída à embriaguez”.
 
Recebemos de nossos assinantes numerosos relatos de fatos muito interessantes que nos apressaremos a publicar em nossas próximas edições, de vez que a falta de espaço não nos permite fazê-lo nesta.
 
ALLAN KARDEC
 
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 21 de Abril de 2016, 16:17
O FUMO E A LOUCURA
Revista Espírita, maio /1865

Variedades
 
 
Lê-se no Siècle de 15 de abril último:
 
“Os casos de paralisia e de alienação mental aumentam na França, em razão direta da arrecadação de impostos sobre o tabaco. De 1812 a 1832, os recursos trazidos ao orçamento pelo imposto sobre o fumo chegava a 28 milhões, e os hospícios de alienados contavam 8.000 insanos. Hoje a cifra do imposto atinge 180 milhões e contam-se 44.000 alienados ou paralíticos nos hospitais especiais.

Essas comparações, fornecidas pelo Sr. Jolly na última sessão da Academia de Ciências, devem fazer refletir os amantes dos vapores nicotinizados. O Sr. Jolly terminou seu estudo por esta frase ameaçadora para a geração atual: “O uso imoderado do tabaco, sobretudo do cachimbo, ocasiona uma debilidade no cérebro e na medula espinhal, de onde resulta a loucura.”
 
Se ainda fosse preciso refutar, depois de tudo quanto foi dito, as alegações dos que pretendem que o Espiritismo enche as casas de alienados, estas cifras forneceriam um argumento sem réplica, porque não só repousam sobre um fato material e um princípio científico lógico, mas constatam que o crescimento do número de alienados remonta a mais de vinte anos antes que se cogitasse do Espiritismo. Ora, não é lógico admitir que o efeito tenha precedido a causa. Os espíritas não estão ao abrigo das causas materiais que podem afetar o cérebro, como dos acidentes que podem quebrar braços e pernas. Não é, pois, de admirar que haja espíritas entre os loucos. Mas, ao lado das causas materiais, há causas morais. É contra estas que os espíritas têm um poderoso preservativo, em suas crenças. Se, pois, um dia for possível ter uma estatística exata, conscienciosa, feita sem prevenções, dos casos de loucura por causas morais, ver-se-á incontestavelmente o número diminuir com o desenvolvimento do Espiritismo. Ele diminuirá igualmente o número dos casos ocasionados pelos excessos e abuso de bebidas alcoólicas, mas não impedirá a febre ardente acompanhada de delírio e muitas outras causas de distúrbios da razão.

É notório que tais homens de letras de renome morreram loucos em consequência do uso imoderado do absinto, cujos efeitos deletérios sobre o cérebro e a medula espinhal estão hoje demonstrados. Se esses homens se tivessem ocupado do Espiritismo, não deixariam de afirmar que ele teria sido responsável por isso. Quanto a nós, não receamos afirmar que se dele se tivessem ocupado seriamente, teriam sido mais moderados em tudo, e não se teriam exposto a essas tristes consequências da intemperança. Um paralelo semelhante ao que faz o Sr. Jolly poderia, com tanta razão, e talvez mais, ser feito entre a proporção de alienados e o consumo de absinto.
 
Mas eis outra causa assinalada pelo Siècle de 21 de abril, no fato seguinte.
 
Lê-se no Droit:
 
“Joséphine-Sophie D..., de dezenove anos, operária polidora, residente com os pais na Rua Bourbon-Villeneuve, dava-se com ardor incrível à leitura de romances que encerram as publicações ditas populares a cinco cêntimos. Os sentimentos exagerados, os caracteres arrebatados, os acontecimentos inverossímeis de que geralmente essas obras estão cheias, tinham influído de maneira prejudicial sobre sua inteligência. Ela se julgava chamada aos mais altos destinos. Seus pais, que, numa posição pouco folgada, tinham feito sacrifícios para lhe dar instrução, aos seus olhos não passavam de pobres criaturas, incapazes de compreendê-la e de elevar-se até a esfera que ela aspirava.

Há muito tempo Sophie entregava-se a esses pensamentos romanescos. Vendo, enfim, que nenhum ser sobrenatural se ocupava dela e que sua vida devia escoar-se, como a das outras operárias, em meio ao trabalho e aos cuidados da família, ela resolveu pôr fim aos seus dias, sem dúvida esperando que no outro mundo os seus sonhos se realizassem.
Ontem pela manhã, como se admirassem de não vê-la aparecer à hora em que devia entrar no trabalho, sua jovem irmã foi chamá-la. Abrindo a porta, foi tomada de um tremor nervoso, ao ver Sophie enforcada, pendurada no gancho que sustentava o espaldar de seu leito. Chamou os pais, que correram e se apressaram em cortar a corda, mas todas as tentativas para chamar a filha à vida foram infrutíferas.”
 
Eis, pois, um caso de loucura e suicídio causado por aqueles mesmos que acusam o Espiritismo de povoar os hospícios. Os romances podem, pois, exaltar a imaginação a tal ponto que a razão fique perturbada? Poder-se-ia citar bom número de casos semelhantes, sem contar os loucos feitos pelo medo do diabo sobre os espíritos fracos. Mas veio o Espiritismo e cada um se apressou em fazer dele o bode expiatório de seus próprios malefícios.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 30 de Abril de 2016, 15:17
ORGANIZAÇÃO DO ESPIRITISMO
Revista Espírita - dezembro /1861

1. Até o presente, embora muito numerosos, os espíritas se têm disseminado por todos os países, o que não é um dos caracteres menos salientes da Doutrina. Como uma semente levada pelo vento, ela fixou raízes em todos os pontos do globo, prova evidente de que sua propagação não é efeito de uma camarilha, nem de uma influência local e pessoal. A princípio isolados, os adeptos se surpreenderam hoje com seu número, e como a similitude de ideias inspira o desejo de aproximação, procuram reunir-se e fundar sociedades. Assim, de toda parte nos pedem instruções a propósito, manifestando o desejo de união à Sociedade central de Paris. É, pois, chegado o momento de nos ocuparmos do que se pode chamar a organização do Espiritismo. Sobre a formação das sociedades espíritas, o Livro dos Médiuns (2.ª edição) contém observações importantes, às quais remetemos os interessados, pedindo-lhes que meditem com cuidado. Diariamente a experiência vem confirmar-lhes a justeza, que lembraremos de modo sucinto, acrescentando instruções mais circunstanciadas.

2. Inicialmente falemos dos adeptos ainda isolados em meio a uma população hostil ou ignorante das ideias novas. Diariamente recebemos cartas de pessoas que estão neste caso e que perguntam o que podem fazer na ausência de médiuns e de coparticipantes do Espiritismo. Eles estão na situação em que, apenas há um ano, se achavam os primeiros espíritas dos mais numerosos centros de hoje. Pouco a pouco multiplicaram-se os adeptos e há cidades onde praticamente se contaram por unidades isoladas, mas hoje o são por centenas e milhares. Em breve dar-se-á o mesmo em toda parte. É uma questão de paciência. Quanto ao que devem fazer, é muito simples. A princípio podem trabalhar por conta própria e penetrar-se da doutrina pela leitura e meditação das obras especiais. Quanto mais se aprofundarem, mais verdades consoladoras descobrirão, confirmadas pela razão. Em seu isolamento, devem julgar-se felizes por terem sido os primeiros favorecidos. Mas se se limitassem a colher na Doutrina uma satisfação pessoal, seria uma espécie de egoísmo. Em razão de sua própria posição, têm uma bela e importante missão a cumprir: a de espalhar a luz em seu redor. Os que aceitarem essa missão e não se deixarem deter pelas dificuldades, serão largamente recompensados pelo sucesso e pela satisfação de haver feito uma coisa útil. Sem dúvida encontrarão oposição. Serão motivo da troça e dos sarcasmos dos incrédulos, e mesmo da malevolência das pessoas interessadas em combater a doutrina, mas onde estaria o mérito se não houvesse obstáculos a vencer? Assim, aos que fossem detidos pelo medo pueril do que diriam, nada temos a dizer, nenhum conselho a dar. Mas aos que têm a coragem de sua opinião, e que estão acima das mesquinhas considerações mundanas, diremos que o que têm a fazer se limita a falar abertamente do Espiritismo, sem afetação, como de uma coisa muito simples e muito natural, sem pregá-la, e sobretudo sem buscar nem forçar convicções, nem fazer prosélitos a todo custo. O Espiritismo não deve ser imposto. Vem-se a ele porque dele se necessita, e porque ele dá o que não dão as outras filosofias. Convém mesmo não entrar em explicações com os incrédulos obstinados, pois seria dar-lhes muita importância e levá-los a pensar que se depende deles. Os esforços que se façam para atraí-los afastam-nos, e, por amor-próprio, eles resistem na sua oposição. Eis por que é inútil perder tempo com eles. Quando a necessidade se fizer sentir, virão por si mesmos. Enquanto se espera, é preciso deixá-los tranquilos, satisfeitos no seu ceticismo que, acreditai, muitas vezes lhes pesa mais do que eles gostariam de deixar transparecer, porque, por mais que digam em contrário, a ideia do nada após a morte tem algo de mais apavorante, de mais pungente que a própria morte.

Ao lado dos trocistas se encontrarão pessoas que irão perguntar: “Que é isto?” Esforçai-vos, então, para satisfazê-las, proporcionando-lhes explicações conforme as disposições que neles encontrardes. Quando se fala do Espiritismo em geral, é preciso considerar as palavras que se pronunciam como grãos lançados a esmo. Muitos caem nas pedras e nada produzem, mas se um único tiver caído em terra fértil, considerai-vos felizes. Cultivai-o e ficai certos de que essa planta, frutificando, terá renovos. Para alguns adeptos a dificuldade é responder a certas objeções. A leitura atenta das obras lhes fornecerá os meios, mas sobretudo poderão servir-se, com esse objetivo, da brochura que vamos publicar sob o título de: Refutação das críticas contra o Espiritismo, do ponto de vista materialista, científico e religioso.[1]

3. Falemos agora da organização do Espiritismo nos centros já numerosos. O aumento incessante dos adeptos demonstra a impossibilidade material de constituir numa cidade, sobretudo numa cidade populosa, uma sociedade única. Além do número, há a dificuldade das distâncias, que é obstáculo para muitos. Por outro lado, é sabido que as grandes reuniões são menos favoráveis às belas comunicações, e que as melhores são obtidas nos pequenos grupos. É necessário, pois, empenhar-se em multiplicar os grupos particulares. Ora, como dissemos, vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão mais pela propaganda do que uma sociedade única de quatrocentos membros. Os grupos se formam naturalmente, pela afinidade de gostos, de sentimentos, de hábitos e de posição social. Todos ali se conhecem e, como são reuniões particulares, tem-se liberdade de definir a quantidade e de selecionar os que são admitidos.

4. O sistema da multiplicação dos grupos tem ainda como resultado, conforme o dissemos em várias ocasiões, de impedir os conflitos e as rivalidades por supremacia e presidência. Cada grupo naturalmente é dirigido pelo chefe da casa, ou por aquele que para isso for designado. Não há, a bem dizer, presidente oficial, pois tudo se passa em família. O dono da casa, como tal, tem toda a autoridade para manter a boa ordem. Com uma sociedade propriamente dita, há necessidade de um local especial, de um pessoal administrativo, de um orçamento, numa palavra, uma complicação de engrenagens que a má vontade de alguns dissidentes mal intencionados poderia comprometer.

5. A essas considerações, longamente desenvolvidas no Livro dos Médiuns, adicionaremos uma que é preponderante. O Espiritismo ainda não é visto com bons olhos por todo o mundo. Dentro em pouco compreender-se-á que é de todo o interesse favorecer uma crença que torna os homens melhores é uma garantia da ordem social. Mas, até que estejam convencidos de sua benéfica influência sobre o espírito das massas e de seus efeitos moralizadores, os adeptos devem esperar que, seja por ignorância do verdadeiro objetivo da doutrina, seja em vista do interesse pessoal, lhe suscitarão embaraços. Não serão apenas ridicularizados, mas, quando se quebrarem as armas do ridículo, serão caluniados. Serão acusados de loucura, de charlatanismo, de irreligião, de feitiçaria, a fim de contra eles incitar o fanatismo. De loucura! Sublime loucura esta que faz crer em Deus e no futuro da alma! Para os que em nada creem, é de fato uma loucura acreditar na comunicação entre mortos e vivos, loucura que faz a volta ao mundo e atinge os homens mais eminentes. De charlatanismo! Eles têm uma resposta peremptória: o desinteresse, pois o charlatanismo jamais é desinteressado. De irreligião! Eles que, desde que se tornaram espíritas, são mais religiosos do que antes. De feitiçaria e comércio com o diabo! Eles, que negam a existência do diabo e só reconhecem a Deus como senhor onipotente, soberanamente justo e bom. Singulares feiticeiros estes que renegariam o seu senhor e agiriam em nome de seu antagonista! Na verdade, o diabo não deveria estar contente com seus adeptos. Mas as boas razões são a menor preocupação dos que querem travar discussões. Quando alguém quer matar seu cão, diz que ele está raivoso. Felizmente a Idade Média lança os últimos e pálidos clarões sobre o nosso século. Como o Espiritismo lhe vem dar o golpe de misericórdia, não é de admirar vê-la tentar um supremo esforço. Mas, tenhamos certeza, a luta não será longa. Contudo, que a certeza da vitória não nos torne imprudentes, porque uma imprudência poderia, senão comprometer, pelo menos retardar o sucesso. Por esses motivos, a constituição de sociedades numerosas talvez encontrasse obstáculos em certas localidades, ao passo que o mesmo não ocorreria com as reuniões familiares.

6. Acrescentemos mais uma consideração. As sociedades propriamente ditas estão sujeitas a numerosas vicissitudes; mil causas, dependentes ou não de sua vontade, podem conduzi-la à dissolução. Suponhamos que uma sociedade espírita tenha reunido todos os adeptos de uma mesma cidade e que, por uma circunstância qualquer, deixe de existir. Eis os membros dispersos e desorientados. Agora, se em vez disto houver cinquenta grupos, se alguns desaparecerem sempre restarão outros, e outros se formarão. São outras tantas plantas vivazes que brotam, apesar de tudo. Não tenhais num campo somente uma grande árvore, pois um raio pode abatê-la. Tende cem, e o mesmo raio não atingiria todas, e quanto menores, menos expostas estarão.

Assim, tudo milita em favor do sistema que propomos; quando um primeiro grupo, fundado em qualquer parte, se tornar muito numeroso, que faça como as abelhas: que enxames saídos da colmeia-mãe fundem novas colmeias que por sua vez formarão outras. Serão outros tantos centros de ação irradiando em seu respectivo círculo, mais poderosos para a propaganda do que uma Sociedade única.

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 30 de Abril de 2016, 15:17
7. A formação dos grupos estando, pois, admitida em princípio, muitas questões importantes restam para examinar. A primeira de todas é a uniformidade na doutrina. Essa uniformidade não seria melhor garantida por uma Sociedade compacta, pois os dissidentes sempre teriam facilidade de se retirar, formando grupo à parte. Quer a sociedade seja una ou fracionada, a uniformidade será a consequência natural da unidade de base que os grupos adotarem. Ela será completa em todos os grupos que seguirem a linha traçada pelo Livro dos Espíritos e o Livro dos Médiuns. Um contém os princípios da filosofia da ciência; o outro, as regras da parte experimental e prática. Essas obras estão escritas com bastante clareza para não dar lugar a interpretações divergentes, condição essencial de toda nova doutrina.

Até o presente essas obras servem de regulador à imensa maioria dos espíritas, e por toda parte são acolhidas com inequívoca simpatia. Os que delas quiseram afastar-se puderam reconhecer, por seu isolamento e pelo decrescente número de seus partidários, que não tinham a seu favor a opinião geral. Tal assentimento, dado pelo maior número, tem grande valor. É um julgamento que não poderia ser suspeito de influência pessoal, desde que espontâneo e declarado por milhares de pessoas que nos são completamente desconhecidas. Uma prova desse assentimento é que nos pediram para traduzi-las para diversas línguas: espanhol, inglês, português, alemão, italiano, polonês, russo e até tártaro. Sem presunção podemos, pois, recomendar o seu estudo e a sua prática nas diversas reuniões espíritas, e isto com tanto mais razão quanto são as únicas, até o momento, em que a ciência é tratada de maneira completa. Todas as que foram publicadas sobre a matéria apenas abordaram alguns pontos isolados da questão. Aliás, não temos absolutamente a pretensão de impor as nossas ideias. Emitimo-las por ser direito nosso. Que as adotem aqueles a quem elas convêm. Os demais têm o direito de rejeitá-las. As instruções que damos são, pois, e naturalmente, para os que marcham conosco; para os que nos honram com o título de seu chefe espírita e de modo algum pretendemos regulamentar os que querem seguir outra via. Entregamos a doutrina que professamos à apreciação geral. Ora, temos encontrado muitos aderentes para nos dar confiança e nos consolar de algumas dissidências isoladas. Aliás, o futuro será o juiz em última instância. Com os homens atuais desaparecerão, pela força das coisas, as susceptibilidades do amor-próprio ferido, as causas de ciúme, de ambição e de frustração de esperanças materiais. Não mais considerando as pessoas, ver-se-á apenas a doutrina, e o julgamento será imparcial. Quais as ideias novas que, no seu aparecimento, não tiveram seus contraditores mais ou menos interessados? Quais os propagadores dessas ideias que não foram alvo dos ataques da inveja, sobretudo se o sucesso lhes coroou os esforços? Mas voltemos ao nosso assunto.

8. O segundo ponto é a constituição dos grupos. Uma das primeiras condições é a homogeneidade, sem a qual não haveria comunhão de pensamento. Uma reunião não pode ser estável, nem séria, se não houver simpatia entre os componentes. E não pode haver simpatia entre pessoas que têm ideias divergentes e que fazem uma oposição surda, quando não aberta. Longe de nós com isso dizer que seja necessário abafar a discussão, porque, ao contrário, recomendamos o exame escrupuloso de todas as comunicações e de todos os fenômenos. Fica, pois, bem entendido que cada um pode e deve emitir sua opinião, mas há pessoas que discutem para impor a sua e não para esclarecer. É contra o espírito de oposição sistemática que nos levantamos; contra as ideias preconcebidas que não cedem nem mesmo ante a evidência. Tais pessoas incontestavelmente são uma causa de perturbação que é preciso evitar. A este respeito, as reuniões espíritas estão em condições excepcionais. O que elas requerem, acima de tudo, é o recolhimento. Ora, como estar recolhido se a cada momento a gente é distraída por uma polêmica acrimoniosa? Se reina entre os assistentes um sentimento de azedume e quando se sente em torno de si, seres que sabemos hostis e em cujo rosto se lê o sarcasmo e o desdém por tudo quanto não está de acordo com a sua opinião?

9. No Livro dos Médiuns (nº 28) traçamos o caráter das principais variedades de espíritas; sendo tal distinção importante para o assunto que nos ocupa, julgamos dever lembrá-la.

Pode-se pôr em primeira linha os que acreditam pura e simplesmente nas manifestações. Para eles o Espiritismo é apenas uma ciência de observação, uma série de fatos mais ou menos curiosos; a filosofia e a moral são acessórios de que pouco se ocupam e cujo alcance não os preocupa. Chamamo-los espíritas experimentadores.

Vêm a seguir os que veem no Espiritismo algo além dos fatos. Compreendem o seu alcance filosófico; admiram a moral dele decorrente, mas não a praticam; extasiam-se ante as belas comunicações, como ante um sermão eloquente que ouvem, mas do qual não tiram proveito. A influência sobre o seu caráter é insignificante ou nula. Em nada mudam seus hábitos e não se privam de nenhum prazer: o avarento é sempre sovina, o orgulhoso sempre cheio de si, o invejoso e o ciumento sempre hostis. Para eles a caridade cristã é apenas uma bela máxima e os bens deste mundo prevalecem, em sua estima, sobre os do futuro. São os espíritas imperfeitos.

Ao lado destes há outros, mais numerosos do que se pensa, que não se limitam a admirar a moral espírita, mas que a praticam e a aceitam em todas as suas consequências. Convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, tratam de aproveitar estes curtos instantes para avançar na via do progresso, esforçando-se por fazer o bem e reprimir suas más inclinações. Suas relações são sempre seguras, porque a convicção os afasta de todo mau pensamento. Em tudo a caridade é sua regra de conduta. São os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 30 de Abril de 2016, 15:18
10. Se bem compreendido o que precede, compreender-se-á também que um grupo formado exclusivamente por elementos desta última classe estaria nas melhores condições, porque somente entre praticantes da lei de amor e de caridade é que se pode estabelecer uma séria ligação fraternal. Entre homens para quem a moral é mera teoria, a união não seria durável. Como eles não impõem nenhum freio ao orgulho, à ambição, à vaidade e ao egoísmo, não o imporão, também, às suas palavras; quererão ser os primeiros, quando deveriam diminuir-se; irritar-se-ão com as contradições e não terão escrúpulos em semear a perturbação e a discórdia. Entre verdadeiros espíritas, ao contrário, reina um sentimento de confiança e de benevolência recíproca. Nesse meio simpático é possível sentir-se à vontade, ao passo que há constrangimento e ansiedade num ambiente misto.

11. Isto está na natureza das coisas e nada inventamos a respeito. Daí se segue que na formação de grupos deva exigir-se a perfeição? Seria simplesmente absurdo, pois seria querer o impossível, e nessas condições ninguém poderia pretender dele fazer parte. Tendo por objetivo a melhora dos homens, o Espiritismo não vem procurar os perfeitos, mas os que se esforçam em tornar-se perfeitos pondo em prática os ensinos dos Espíritos. O verdadeiro espírita não é o que alcançou o objetivo, mas o que seriamente quer atingi-lo. Sejam quais forem os seus antecedentes, será bom espírita desde que reconheça suas imperfeições e seja sincero e perseverante no propósito de emendar-se. Para ele o Espiritismo é uma verdadeira regeneração, porque ele rompe com o seu passado. Indulgente para com os outros, como quereria que fossem para consigo, de sua boca não sairá nenhuma palavra malévola nem cortante contra ninguém. Aquele que, numa reunião, se afastasse das conveniências, não só provaria uma falta de cortesia e de urbanidade, mas uma falta de caridade. Aquele que se chocasse com a contradição e pretendesse impor a sua personalidade ou as suas ideias, daria prova de orgulho. Ora, nem um nem outro estariam no caminho do verdadeiro Espiritismo, isto é, do Espiritismo cristão. Aquele que pensa ter uma opinião mais justa que os outros, poderá fazê-la mais bem aceita pela doçura e pela persuasão. O azedume, de sua parte, seria uma péssima opção.

12. A simples lógica demonstra, pois, a quem quer que conheça as leis do Espiritismo, quais os melhores elementos para a composição dos grupos realmente sérios, e não hesitamos em dizer que são estes que têm a maior influência na propagação da doutrina. Pela consideração com que são dirigidos, e pelo exemplo que dão de suas consequências morais, provam a sua gravidade e impõem silêncio à troça que, quando se contrapõe ao bem, é mais do que ridícula, porque é odiosa. Mas que quereis que pense um crítico incrédulo que assiste a experiências cujos assistentes são os primeiros a considerá-la um brinquedo? Dela sai ainda mais incrédulo do que entrou.

13. Acabamos de indicar a melhor composição dos grupos; mas a perfeição não é mais possível nos conjuntos do que nos indivíduos; nós indicamos o objetivo e dizemos que quanto mais nos aproximarmos dele, mais satisfatórios serão os resultados. Por vezes pode-se ser dominado pelas circunstâncias, mas é para subtrai-se aos obstáculos que se devem direcionar todos os cuidados. Infelizmente, quando um grupo é criado, não se é suficientemente rigoroso na escolha, porque, antes de tudo, se quer formar um núcleo; para nele ser admitido, quase sempre basta um simples desejo ou uma adesão qualquer às ideias mais gerais do Espiritismo. Mais tarde, percebe-se que se foi demasiado fácil.

14. Num grupo sempre há o elemento estável e o flutuante. O primeiro é composto de pessoas assíduas, que formam a base; o segundo, das que são admitidas temporária e acidentalmente. É à composição do elemento estável que é essencial prestar escrupulosa atenção, e neste caso não se deve hesitar em sacrificar a quantidade à qualidade, porque é ele que impulsiona e serve de regulador. O elemento flutuante é menos importante, porque se tem liberdade de modificá-lo à vontade. Não se deve perder de vista que as reuniões espíritas, como aliás todas as reuniões em geral, têm as fontes de sua vitalidade na base sobre as quais se assentam. Neste particular, tudo depende do ponto de partida. Aquele que tem a intenção de organizar um grupo em boas condições deve, antes de tudo, assegurar-se do concurso de alguns adeptos sinceros, que levem a doutrina a sério e cujo caráter conciliatório e benevolente seja conhecido. Formado esse núcleo, ainda que de três ou quatro pessoas, se estabelecerá regras precisas, quer para as admissões, quer para a realização de sessões e para a ordem dos trabalhos, regras às quais os recém-vindos terão que se conformar. Essas regras podem sofrer modificações conforme as circunstâncias, mas há algumas que são essenciais.

15. Sendo a unidade de princípios um dos pontos essenciais, ela não pode existir naqueles que, não tendo estudado, não podem ter opinião formada. A primeira condição a impor se não se quiser distrair a cada instante por objeções ou por questões inúteis é, portanto, o estudo prévio. A segunda é uma profissão de fé categórica e uma adesão formal à doutrina do Livro dos Espíritos, além de outras condições especiais julgadas convenientes. Isto quanto aos membros titulares e dirigentes; para os ouvintes, que geralmente vêm para adquirir um pouco mais de conhecimentos e de convicção, pode-se ser menos rigoroso; contudo, como existem os que poderiam causar perturbação com observações fora de propósito, é importante assegurar-se de suas disposições. É necessário sobretudo, e sem exceção, afastar os curiosos e quem quer que seja atraído por motivo frívolo.

16. A ordem e a regularidade dos trabalhos são igualmente essenciais. Consideramos eminentemente útil abrir cada sessão pela leitura de algumas passagens do Livro dos Médiuns e do Livro dos Espíritos. Por esse meio ter-se-ão sempre presentes à memória os princípios da ciência e os meios de evitar os escolhos encontrados a cada passo na prática. Assim, a atenção se fixará sobre muitos pontos que por vezes escapam numa leitura particular e poderão dar lugar a comentários e discussões instrutivas, das quais os próprios Espíritos poderão participar.

Não é menos necessário recolher em pastas todas as comunicações recebidas, por ordem de data, com indicação do médium que serviu de intermediário. Esta última referência é útil para o estudo do gênero da faculdade de cada um. Muitas vezes, porém, acontece que tais comunicações são esquecidas, tornando-se letra morta. Isto desencoraja os Espíritos que as haviam dado visando a instrução dos assistentes. É essencial, pois, fazer uma coletânea das mais instrutivas e lê-las de tempos em tempos. Muitas vezes essas comunicações são de interesse geral e não são dadas pelos Espíritos apenas para a instrução de uns poucos e para serem abandonadas nos arquivos. Assim, é útil que sejam levadas ao conhecimento de todos, pela publicidade. Examinaremos esta questão em artigo no próximo número, indicando o modo mais simples, o mais econômico e ao mesmo tempo o mais próprio para alcançar o objetivo.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 30 de Abril de 2016, 15:18
17. Como se vê, nossas instruções se dirigem exclusivamente aos grupos formados por elementos sérios e homogêneos; aos que querem seguir a rota do Espiritismo moral, visando o progresso de cada um, objetivo essencial e único da doutrina; enfim, aos que nos querem mesmo aceitar por guia e levar em conta os conselhos de nossa experiência. É incontestável que um grupo formado nas condições indicadas funcionará com regularidade, sem entraves e de maneira proveitosa. O que um grupo pode fazer, outros também o podem. Suponhamos, então, numa cidade, um número qualquer de grupos constituídos nas mesmas bases; haverá necessariamente entre eles unidade de princípios, pois seguem a mesma bandeira; união simpática, pois têm por máxima amor e caridade; são, numa palavra, os membros de uma mesma família, entre os quais não poderia ter concorrência, nem rivalidade de amor-próprio, se estão todos animados dos mesmos sentimentos para o bem.

18. Entretanto, seria útil que houvesse entre eles um ponto de ligação, um centro de ação. Conforme as circunstâncias e as localidades, os diversos grupos, pondo de lado questões pessoais, poderiam designar para isto aquele que, por sua posição e sua importância relativa, fosse o mais apto para dar ao Espiritismo um impulso salutar. Conforme a necessidade, e se fosse preciso evitar susceptibilidades, um grupo central, formado de delegados de todos os grupos, tomaria o nome de grupo diretor. Na impossibilidade de nos correspondermos com todos, com este teríamos relações mais diretas. Também poderíamos, em certos casos, designar uma pessoa encarregada mais especialmente para nos representar.

Sem prejuízo das relações que se estabelecerão pela força das coisas, entre os grupos de uma mesma cidade que trilham caminhos idênticos, uma assembleia geral anual poderia reunir os espíritas dos diversos grupos numa festa familiar, que seria, ao mesmo tempo, a festa do Espiritismo. Seriam pronunciados discursos e lidas as comunicações mais notáveis, ou as mais apropriadas às circunstâncias.

O que é possível entre os grupos de uma mesma cidade, também o é entre os grupos diretores de diversas cidades, desde que entre eles haja comunhão de vistas e de sentimentos, isto é, desde que possam manter relações recíprocas. Indicaremos os meios para isto, quando falarmos do modo de publicidade.

19. Como se vê, tudo isto é de execução muito simples e sem engrenagens complicadas, mas tudo depende do ponto de partida, isto é, da composição dos grupos primitivos. Se eles forem constituídos por bons elementos, serão outras tantas boas raízes que darão bons renovos. Se, ao contrário, forem formados por elementos heterogêneos e antipáticos; por espíritas duvidosos, mais ocupados com a forma do que com o fundo, que consideram a moral como parte acessória e secundária, há que esperar polêmicas irritantes e sem saída; pretensões pessoais; choques de susceptibilidades e, em consequência, conflitos precursores da desorganização. Entre verdadeiros espíritas, tais quais os definimos, que veem o objetivo essencial do Espiritismo na moral, que é a mesma para todos, haverá sempre abnegação da personalidade, condescendência e benevolência e, por conseguinte, segurança e estabilidade nas relações. Eis por que temos insistido tanto sobre as qualidades fundamentais.

20. Talvez digam que estas severas restrições constituem um obstáculo à propagação; é um erro. Não acrediteis que abrindo a porta ao primeiro que aparecer fareis mais prosélitos. A experiência aí está para mostrar o contrário. Seríeis assaltados por uma multidão de curiosos e indiferentes, que ali viriam como para um espetáculo. Ora, os curiosos e os indiferentes são embaraços e não auxiliares. Quanto aos incrédulos por sistema ou por orgulho, por mais que lhes mostreis, não tratarão disso senão com zombaria, porque não o compreenderão e não querem dar-se ao trabalho de compreender. Já o dissemos, e não seria demais repetir, que a verdadeira propagação, a que é útil e frutífera, é feita pelo ascendente moral das reuniões sérias. Se houvessem acontecido apenas reuniões desse tipo, os espíritas seriam ainda mais numerosos, porque, é bom que se diga, muitos foram desviados da doutrina porque só assistiram a reuniões fúteis, sem ordem e sem seriedade. Sede, pois, sérios, na plena acepção da palavra, e as pessoas sérias virão a vós. São esses os melhores propagadores, porque falam com convicção e tanto pregam pelo exemplo quanto pela palavra.

21. Do caráter essencialmente sério das reuniões não se deve inferir que se tenha de proscrever sistematicamente as manifestações físicas. Como dissemos no Livro dos Médiuns (nº. 326), elas são de incontestável utilidade, do ponto de vista do estudo dos fenômenos e para a convicção de certas pessoas. No entanto, para obter-se proveito sob esse duplo ponto de vista, há que excluir-se todo pensamento frívolo. Uma reunião que possuísse um bom médium de efeitos físicos e que se ocupasse desse gênero de manifestações com ordem, método e seriedade, cuja condição moral oferecesse toda a garantia contra o charlatanismo e a fraude, não só poderia obter coisas notáveis, do ponto de vista fenomênico, mas produziria o bem em abundância. Assim, aconselhamos a não desprezar esse gênero de experiência, desde que se disponha de médiuns adequados e para tanto se organizem sessões especiais, independentes daquelas dedicadas a comunicações morais e filosóficas. Os médiuns poderosos dessa categoria são raros, mas há fenômenos que, embora mais vulgares, não são menos interessantes e concludentes porque provam, de maneira evidente, a independência do médium. Deste número, são as comunicações pela tiptologia alfabética que às vezes dão os mais imprevistos resultados. A teoria desses fenômenos é necessária para que se compreenda a maneira pela qual se operam, pois é raro que levem uma convicção profunda aos que não os compreendem. Ela tem, além disso, a vantagem de dar a conhecer as condições normais em que esses fenômenos podem produzir-se, e, consequentemente, de evitar as tentativas inúteis e de permitir que se descubra a fraude, caso ocorra em qualquer parte.

Equivocaram-se supondo que fôssemos sistematicamente contrário às manifestações físicas. Preconizamos e preconizaremos sempre as comunicações inteligentes, sobretudo as que têm alcance moral e filosófico, porque só elas tendem para o objetivo essencial e definitivo do Espiritismo. Quanto às outras, jamais lhes contestamos a utilidade, mas nos levantamos contra o deplorável abuso que delas fazem, ou que podem fazer; contra a exploração feita pelo charlatanismo; contra as más condições em que são realizadas as mais das vezes, e que se prestam ao ridículo. Dissemos e repetimos que as manifestações físicas são o começo da ciência e que não se avança ficando no á-bê-cê; que se o Espiritismo não tivesse saído das mesas girantes, não teria crescido como cresceu, e que talvez hoje nem mais se falasse dele. Eis por que nos esforçamos por fazê-lo entrar na via filosófica, certo de que então, dirigindo-se mais à inteligência do que aos olhos, tocaria o coração e deixaria de ser um modismo. É com esta única condição que poderia fazer a volta ao mundo e implantar-se como doutrina. Ora, o resultado ultrapassou, e de muito, a nossa expectativa. Às manifestações físicas só damos uma importância relativa e não absoluta. Aí está o nosso erro, aos olhos de certas pessoas que delas fazem uma ocupação exclusiva e nada mais veem. Se delas não nos ocupamos pessoalmente é porque nada de novo nos ensinariam e porque temos coisas mais essenciais a fazer. Longe de censurar os que delas se ocupam, ao contrário, encorajamo-los, desde que o façam em condições realmente proveitosas. Sempre que conhecermos reuniões desse gênero, dignas de confiança, seremos os primeiros a recomendá-las à atenção dos novos adeptos. Tal é, sobre esta questão, a nossa profissão de fé categórica.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 30 de Abril de 2016, 15:19
22. Dissemos no começo que diversas reuniões espíritas pediram para unir-se à Sociedade de Paris. Usaram até a palavra afiliar; a esse respeito faz-se necessária uma explicação.

A Sociedade de Paris foi a primeira a constituir-se regular e legalmente. Por sua posição e pela natureza de seus trabalhos, teve uma grande participação no desenvolvimento do Espiritismo e, em nossa opinião, justifica o título de Sociedade Iniciadora, que lhe deram certos Espíritos. Sua influência moral se fez sentir longe e, embora ela seja numericamente restrita, tem consciência de ter feito mais pela propaganda do que se tivesse aberto suas portas ao público. Formou-se com o único objetivo de estudar e aprofundar a Ciência Espírita. Para isto não necessita de um auditório numeroso nem de muitos membros, pois sabe que a verdadeira propaganda é feita pela influência dos princípios. Como não é movida por qualquer interesse material, um excesso numérico lhe seria mais prejudicial que útil. Assim, com satisfação, ela verá multiplicarem-se ao seu redor as reuniões particulares formadas em boas condições, e com as quais poderia estabelecer relações de confraternidade. Ela não seria coerente com seus princípios, nem estaria à altura de sua missão, se pudesse conceber a sombra da inveja; os que a julgam capaz disto não a conhecem.

Estas observações bastam para mostrar que a Sociedade de Paris não poderia ter a pretensão de absorver as outras sociedades que se pudessem formar em Paris ou alhures, com os mesmos procedimentos habituais. A palavra afiliação seria, pois, imprópria, porque suporia uma espécie de supremacia material, a que absolutamente não aspira, e que até teria inconvenientes. Como Sociedade iniciadora e central, pode estabelecer com os outros grupos ou Sociedades relações puramente científicas, mas a isto se limita o seu papel. Ela não exerce qualquer controle sobre essas sociedades, que em nada dependem dela e ficam inteiramente livres para constituir-se como bem o entenderem, sem ter que prestar contas a ninguém, e sem que a Sociedade de Paris tenha que imiscuir-se seja no que for em seus negócios. Assim, as sociedades estrangeiras podem formar-se nas mesmas bases; declarar que adotam os mesmos princípios, sem depender dela senão pela concentração dos estudos e pelos conselhos que lhe podem pedir e que ela terá prazer em dar.

Por outro lado, a Sociedade de Paris não se gaba de estar, mais que as outras, ao abrigo das vicissitudes. Se, por assim dizer, as tivesse em suas mãos e se, por uma causa qualquer, cessasse de existir, a falta de um ponto de apoio resultaria em perturbação. Os grupos ou Sociedades devem buscar um ponto de apoio mais sólido que numa instituição humana, necessariamente frágil. Eles devem adquirir sua vitalidade nos princípios da doutrina, que são os mesmos para todas e que a todas sobrevivem, estejam ou não esses princípios representados por uma sociedade constituída.

23. Estando claramente definido o papel da Sociedade de Paris para evitar qualquer equívoco ou falsa interpretação, as relações que estabelecerá com as sociedades estrangeiras são extremamente simplificadas, limitando-se a relações morais, científicas e de mútua benevolência, sem qualquer sujeição. Elas permutarão o resultado de suas observações, quer através de publicações, quer de correspondência. Para que a Sociedade de Paris possa estabelecer essas relações, é preciso necessariamente que ela tenha informações exatas das sociedades estrangeiras que entendem marchar pelo mesmo caminho e adotar a mesma bandeira. Ela então as incluirá na lista de seus correspondentes. Se houver vários grupos numa cidade, serão representados pelo grupo central de que falamos no parágrafo 18.

24. Indicaremos agora alguns trabalhos com os quais as diversas Sociedades poderão colaborar de uma maneira útil; mais tarde indicaremos outros.

Sabe-se que os Espíritos, não possuindo todos a soberana ciência, podem encarar certos princípios de um ponto de vista pessoal e, consequentemente, nem sempre estarem de acordo. O melhor critério da verdade está naturalmente na concordância dos princípios ensinados sobre diversos pontos, por Espíritos diferentes e por meio de médiuns estranhos uns aos outros. Assim foi composto o Livro dos Espíritos. Mas ainda restam muitas questões importantes que podem ser resolvidas dessa maneira, e cuja solução terá tanto maior autoridade quanto obtida por uma grande maioria. Assim, a Sociedade de Paris poderá ocasionalmente dirigir perguntas dessa natureza a todos os grupos correspondentes que, através de seus médiuns, pedirão a solução a seus guias espirituais.

Outro trabalho consiste nas pesquisas bibliográficas. Existe um grande número de obras antigas e modernas, nas quais se encontram testemunhos mais ou menos diretos em favor das ideias espíritas. Uma coletânea desses testemunhos seria tarefa muito preciosa, mas é quase impossível ser feita por uma só pessoa. Torna-se fácil, ao contrário, se cada um se dispuser a colher alguns elementos em suas leituras e estudos e transmiti-los à Sociedade de Paris, que os coordenará.

25. No estado atual das coisas, esta é a única organização possível do Espiritismo. Mais tarde as circunstâncias poderão modificá-la, mas nada se deve fazer de inoportuno. Já é muito que em tão pouco tempo os adeptos se tenham multiplicado a ponto de conduzir a este resultado. Há nesta simples disposição um panorama que pode estender-se ao infinito, pela própria simplicidade das engrenagens. Não busquemos, pois, complicá-las, com receio de encontrar obstáculos. Os que fizerem a gentileza de testemunhar-nos alguma confiança, podem estar certos de que não os deixaremos para trás e que tudo virá a seu tempo. É somente a esses, como dissemos, que nos dirigimos nestas instruções, sem a pretensão de nos impormos aos que não marcham conosco.

Para denegrir, disseram que queríamos fazer escola no Espiritismo. E por que não teríamos esse direito? O Sr. de Mirville não tentou fundar uma escola demoníaca? Por que seríamos obrigados a seguir a reboque deste ou daquele? Não temos o direito de ter uma opinião, formulá-la, publicá-la e proclamá-la? Se ela encontra tão numerosos aderentes, é que aparentemente não a julgam destituída de todo senso comum. Mas aí está nosso erro aos olhos de certas pessoas que não nos perdoam por havermos chegado mais rápido que elas, e sobretudo por termos triunfado. Que isto seja então uma escola, já que assim o querem. Para nós será uma glória escrever em sua fachada: Escola do Espiritismo moral, filosófico e cristão. Para ela convidamos todos os que têm por divisa amor e caridade. Aqueles que se ligam a esta bandeira adquirem todas as nossas simpatias, e o nosso concurso jamais faltará.

ALLAN KARDEC




Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Maio de 2016, 17:53
Dissertação Espírita
MISSÃO DA MULHER
Revista Espírita abril / 1867

(Lyon, 6 de julho de 1866 – Grupo da Sra. Ducard – Médium: Sra. B...)
Cada dia os acontecimentos da vida vos trazem ensinamentos susceptíveis de vos servir de exemplo e, contudo, passais sem os compreender, sem tirar uma dedução útil das circunstâncias que os provocaram. Entretanto, nesta união íntima da Terra e do espaço, dos Espíritos livres e dos Espíritos cativos, ligados à realização de sua tarefa, há desses exemplos, cuja lembrança deve perpetuar-se entre vós: é a paz proposta na guerra. Uma mulher, cuja posição social atrai todos os olhares, vai-se, humilde irmã de caridade, levar a todos a consolação de sua palavra, a afeição de seu coração, a carícia de seus olhos. Ela é
imperatriz; sobre sua fronte brilha a coroa de diamantes, mas ela esquece a sua posição, esquece o perigo para acorrer ao meio do sofrimento e dizer a todos: “Consolai-vos; eis-me aqui! Não sofrais mais: eu vos falo; não vos inquieteis: eu tomarei conta de vossos
órfãos!...” O perigo é iminente, o contágio está no ar e, contudo, ela passa, calma e radiosa, em meio a estes leitos, onde jaz a dor. Nada calculou, nada temeu, foi aonde a chamava o coração, como a brisa vai refrescar as flores murchas e endireitar suas frágeis hastes.

Este exemplo de devotamento e de abnegação, quando os esplendores da vida deveriam engendrar o orgulho e o egoísmo, por certo é um estimulante para as mulheres que sentem vibrar em si essa delicadeza de sentimento que Deus lhes deu para cumprir sua tarefa; porque elas estão encarregadas principalmente de espalhar a consolação e, sobretudo, a conciliação. Não têm a graça e o sorriso, o encanto da voz e a doçura da alma? É a elas que Deus confia os primeiros passos de seus filhos; ele as escolheu como as nutrizes das meigas criaturas que vão nascer.

Este Espírito rebelde e orgulhoso, cuja existência será uma luta constante contra a desgraça, não lhes vem pedir que lhe inculque idéias diferentes das que traz ao nascer? É para elas que estende suas mãozinhas; sua voz, outrora rude, e seus acentos, que vibravam como o cobre, se abrandarão como um doce eco, quando disser: mamãe.

É a mulher que ele implora, esse doce querubim, que vem aprender a ler no livro da Ciência; é para lhe agradar que fará todos os esforços para se instruir e tornar-se útil à Humanidade. –É ainda para ela que ele estende as mãos, esse jovem que se transviou na estrada e quer voltar ao bem; não ousaria implorar a seu pai, cuja cólera receia, mas sua mãe, tão doce e tão generosa, não terá para ele senão esquecimento e perdão.

Não são elas as flores animadas da vida, os devotamentos inalteráveis, essas almas que Deus criou mulheres? Atraem e encantam. Chamam-nas a tentação, mas deviam chamá-las a lembrança, porque sua imagem fica gravada em caracteres indeléveis no coração de seus filhos, quando não mais existem; não é no presente que são apreciadas, mas no passado,
quando a morte as restituiu a Deus. – Então seus filhos as buscam no espaço, como o marinheiro busca a estrela que o deve conduzir ao porto. Elas são a esfera de atração, a bússola do Espírito que ficou na Terra e que espera encontrá-las no céu. São ainda a mão
que conduz e sustenta, a alma que inspira e a voz que perdoa; e, assim como foram o anjo do lar terreno, elas se tornam o anjo consolador que ensina a orar.

Oh! vós que tendes sido oprimidas na Terra, mulheres que sois tidas como escravas do homem, porque vos submetestes à sua dominação, vosso reino não é deste mundo! Contentai-vos, pois, com a sorte que vos está reservada; continuai vossa tarefa; ficai como medianeiras entre o homem e Deus, e compreendei bem a influência de vossa intervenção. – Este é um Espírito ardente, impetuoso; o sangue lhe ferve nas veias; vai se exaltar, será injusto; mas Deus pôs a doçura em vossos olhos, a carícia em vossa voz; olhai-o, falai-lhe: a cólera se apaziguará e a injustiça será afastada. Talvez tenhais sofrido, mas tereis poupado uma falta ao vosso companheiro de jornada e vossa tarefa foi cumprida. Aquele ainda
é infeliz, sofre, a fortuna o abandona, julga-se um pária!... Mas aí há um devotamento à prova, uma abnegação constante para levantar esse moral abatido, para restituir a esse Espírito a esperança que o havia abandonado.

Mulheres, sois as companheiras inseparáveis do homem; com ele formais uma cadeia indissolúvel que a desgraça não pode romper, que a ingratidão não deve manchar, e não poderia quebrar-se, porque o próprio Deus a formou e, embora às vezes tenhais na alma essas preocupações sombrias, que acompanham a luta, contudo rejubilai-vos, porque nesse imenso trabalho de harmonia terrestre, Deus vos deu a mais bela parte.

Coragem, pois! Ó vós que viveis humildemente, trabalhando pela vossa melhora íntima, Deus vos sorri, porque vos deu essa amenidade que caracteriza a mulher; sejam imperatrizes, irmãs de caridade, humildes trabalhadoras ou doces mães de família, estão todas envolvidas na mesma bandeira, e trazem escrito na fronte e no coração estas duas palavras mágicas, que enchem a eternidade: Amor e Caridade.

Cárita
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Maio de 2016, 14:53
Resposta à réplica do abade Chesnel
Revista Espírita, julho /1859
 
"Em seu número de 28 de maio último, o jornal L’Univers inseriu a resposta que demos ao artigo do Abade Chesnel sobre o Espiritismo, fazendo-a seguir de uma réplica do abade. A esse segundo artigo, que reedita os argumentos do primeiro, sem a urbanidade da forma a que todo mundo concordou em fazer justiça, não poderíamos responder senão repetindo quanto já tínhamos dito, o que nos parece completamente inútil.

O Abade Chesnel não mede esforços para provar que o Espiritismo é, deve ser e não pode deixar de ser senão um religião nova, porque dele decorre uma filosofia e porque nele nos ocupamos da constituição física e moral dos mundos. Sob esse aspecto, todas as filosofias seriam religiões. Ora, como são abundantes os sistemas e que têm partidários mais ou menos numerosos, isto restringiria singularmente o círculo do catolicismo. Não sabemos até que ponto seria imprudente e perigoso proclamar uma tal doutrina, porque seria provocar uma cisão que não existe. É pelo menos dar a ideia.

Observai bem a que consequências chegais. Quando a Ciência contestou o sentido do texto bíblico dos seis dias da Criação, lançaram anátemas; disseram que era um ataque à religião. Hoje, que os fatos deram razão à Ciência; que já não há meios de contestá-los, a não ser negando a luz, a Igreja se pôs de acordo com a Ciência.

Suponhamos que então se tivesse dito que aquela teoria científica era uma religião nova, uma seita, porque parecia em contradição com os livros sagrados; porque destruía uma interpretação dada há séculos. Disso resultaria que não era possível ser católico e adotar essas ideias novas.
 
Pensemos, pois, a que se reduziria o número dos católicos, se fossem excluídos todos os que não acreditam que Deus tenha feito a Terra em seis vezes vinte e quatro horas.
 
Dá-se o mesmo com o Espiritismo. Se o considerardes como uma religião nova, é que aos vossos olhos ele não é católico. Ora, acompanhai o meu raciocínio. De duas uma: ou é uma realidade, ou é uma utopia. Se for uma utopia, não há preocupação, porque cairá por si mesmo. Se for uma realidade, nem todos os raios o impedirão de ser, do mesmo modo que outrora a Terra não foi impedida de girar.

Se há verdadeiramente um mundo invisível que nos circunda; se podemos comunicar-nos com esse mundo e dele obter ensinamentos sobre o estado de seus habitantes - e nisto está todo o Espiritismo - em pouco tempo isto parecerá tão natural como ver o Sol ao meio-dia ou encontrar milhares de seres vivos e invisíveis numa gota de água cristalina. Essa crença será tão vulgarizada que sereis forçados a vos render à evidência.

Se aos vossos olhos essa crença é uma religião nova, ela está fora do catolicismo, pois não pode ser simultaneamente a religião católica e uma religião nova. Se pela força das coisas e da evidência ela se generaliza, e não pode deixar de ser assim, pois se trata de uma lei da Natureza, do vosso ponto de vista não haverá mais católicos e vós mesmos não sereis mais católico, porque sereis forçado a agir como todos.

Eis, senhor abade, o terreno para o qual nos arrasta a vossa doutrina, e ela é tão absoluta que já me gratificais com o título de sumo sacerdote dessa religião, honra de que, realmente, eu não suspeitava. Mas ides mais longe. Na vossa opinião, todos os médiuns são os sacerdotes dessa religião.

Aqui eu vos detenho em nome da lógica. Até aqui me havia parecido que as funções sacerdotais eram facultativas; que se era sacerdote apenas por um ato da própria vontade; que não se era malgrado seu e em virtude de uma faculdade natural. Ora, a faculdade dos médiuns é uma faculdade natural que depende da sua organização, como a faculdade sonambúlica; que não requer sexo, nem idade, nem instrução, pois a encontramos nas crianças, nas senhoras e nos velhos; entre os sábios, como entre os ignorantes. Seria compreensível que rapazes e moças fossem sacerdotes sem o querer e sem o saber?

Realmente, senhor abade, é abusar do direito de interpretar as palavras. Como eu disse, o Espiritismo está fora de todas as crenças dogmáticas, com as quais não se preocupa. Nós o consideramos uma ciência filosófica, que nos explica uma porção de coisas que não compreendemos e, por isto mesmo, em vez de abafar as ideias religiosas, como certas filosofias, fá-las brotar naqueles em que elas não existem.

Se, entretanto, quiserdes elevá-lo a todo custo ao plano de uma religião, vós o atirais num caminho novo. É o que compreendem perfeitamente muitos eclesiásticos que, longe de empurrar para o cisma, esforçam-se por conciliar as coisas, em virtude deste raciocínio: se há manifestações do mundo invisível, isto não pode ser senão pela vontade de Deus e nós não podemos ir contra a sua vontade, a menos se dissermos que neste mundo acontece alguma coisa sem a sua permissão, o que seria uma impiedade. Se eu tivesse a honra de ser sacerdote, disso me serviria em favor da religião.

Faria disso uma arma contra a incredulidade e diria aos materialistas e ateus:
Pedis provas? Ei-las, é Deus que as manda.”

(texto recebido por IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 18 de Maio de 2016, 17:12
Curas de obsessões
Revista Espírita, fevereiro /1866)
 
Escreveram-nos de Cazères, a 7 de janeiro de 1866:
 
“Eis um segundo caso de obsessão que assumimos e levamos a bom termo no mês de julho último. A obsedada tinha vinte e dois anos; gozava de saúde perfeita; apesar disso, de repente foi acometida de um acesso de loucura. Seus pais a trataram com médicos, mas inutilmente, pois o mal, em vez de desaparecer, tornava-se cada vez mais intenso, a ponto de, durante as crises, ser impossível contê-la. Vendo isso, os pais, a conselho dos médicos, obtiveram sua internação num hospício, onde seu estado não apresentou qualquer melhora. Nem eles nem a doente jamais haviam cogitado do Espiritismo, que nem mesmo conheciam; mas, tendo ouvido falar na cura de Jeanne R..., de que vos falei, eles vieram procurar-nos e saber se poderíamos fazer alguma coisa por sua filha infeliz. Respondemos nada poder garantir antes de conhecer a verdadeira causa do mal. Consultados em nossa primeira sessão, os guias disseram que a jovem era subjugada por um Espírito muito rebelde, mas que acabaríamos trazendo-o ao bom caminho e que a cura consequente nos daria a prova dessa afirmação. Assim, escrevi aos pais, residentes a 35 quilômetros de nossa cidade, dizendo que a moça seria curada e que a cura não demoraria muito, sem, contudo, precisarmos a época.

Evocamos o Espírito obsessor durante oito dias seguidos e fomos bastante felizes para mudar suas más disposições e fazê-lo renunciar a seu propósito de atormentar a vítima. Com efeito, a doente ficou curada, como nossos guias haviam anunciado.

Os adversários do Espiritismo repetem incessantemente que a prática desta doutrina conduz ao hospício. Ora! Nós lhes podemos dizer, nesta circunstância, que o Espiritismo dele faz sair aqueles que lá haviam entrado.
 
Entre mil outros, este fato é uma nova prova da existência da loucura obsessional, cuja causa é totalmente diferente da causa da loucura patológica, e ante a qual a Ciência falhará enquanto se obstinar em negar o elemento espiritual e sua influência sobre a organização fisiológica. Aqui o caso é bem evidente: Eis uma jovem, de tal modo apresentando os caracteres da loucura, a ponto de se enganarem os médicos, que é curada a léguas de distância por pessoas que jamais a viram, sem nenhum medicamento ou tratamento médico, apenas pela moralização do Espírito obsessor.
 
Há, pois, Espíritos obsessores cuja ação pode ser perniciosa à razão e à saúde. Não é certo que se a loucura tivesse sido ocasionada por uma lesão orgânica qualquer, esse meio teria sido impotente? Se objetassem que essa cura espontânea pode ser devida a uma causa fortuita, responderíamos que se tivéssemos somente um fato para citar, sem dúvida seria temerário daí deduzir a afirmação de um princípio tão importante, mas os exemplos de curas semelhantes são muito numerosos. Eles não são privilégio de um indivíduo e se repetem todos os dias em diversos lugares, sinais indubitáveis de que repousam sobre uma lei da Natureza.
 
Citamos várias curas do mesmo gênero, notadamente em fevereiro de 1864 e janeiro de 1865, que contêm dois relatos completos eminentemente instrutivos.
 
Eis outro fato, não menos característico, obtido no grupo de Marmande:
 
Numa aldeia a algumas léguas desta cidade, havia um camponês atingido por uma loucura tão furiosa, que perseguia as pessoas a golpes de forcado para matá-las, e que, na falta de pessoas, atacava os animais no pátio. Corria incessantemente pelos campos e não voltava mais para casa. Sua presença era perigosa; assim, foi fácil obter autorização para interná-lo no hospício de Cadilac. Não foi sem vivo pesar que sua família se viu obrigada a tomar essa atitude. Antes de levá-lo, tendo um dos parentes ouvido falar das curas obtidas em Marmande, em casos semelhantes, foi procurar o Sr. Dombre e lhe disse:

- Senhor, disseram-me que curais os loucos, por isso vim vos procurar.

Depois contou-lhe de que se tratava, acrescentando:

- Como vedes, dá tanta pena separarmo-nos desse pobre J..., que antes eu quis ver se não havia um meio de evitar essa separação.

- Meu bravo homem, disse-lhe o Sr. Dombre, não sei quem me dá esta reputação; é verdade que algumas vezes consegui dar a razão a pobres insensatos, mas isto depende da causa da loucura. Embora não vos conheça, não obstante verei se vos posso ser útil.

Tendo ido imediatamente com o indivíduo à casa do seu médium habitual, obteve do guia a certeza de que se tratava de uma obsessão grave, mas que com perseverança ela chegaria a termo. Então disse ao camponês:

- Esperai ainda alguns dias, antes de levar o vosso parente a Cadilac; vamos ocupar-nos do caso; voltai de dois em dois dias para dizer-nos como ele se acha.

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 18 de Maio de 2016, 17:13
No mesmo dia puseram-se em ação. A princípio, como em casos semelhantes, o Espírito mostrou-se pouco tratável; pouco a pouco acabou por humanizar-se e finalmente renunciou ao propósito de atormentar aquele infeliz. Um fato muito particular é que declarou não ter qualquer motivo de ódio contra aquele homem; que, atormentado pela necessidade de fazer o mal, havia se agarrado a ele como a qualquer outro; que agora reconhecia estar errado, pelo que pedia perdão a Deus.

O camponês voltou depois de dois dias, e disse que o parente estava mais calmo, mas ainda não tinha voltado para casa e se ocultava nas sebes.

Na visita seguinte, ele tinha voltado para casa, mas estava sombrio e mantinha-se afastado; já não procurava bater em ninguém.

Alguns dias depois ia à feira e fazia seus negócios, como de hábito. Assim, oito dias haviam bastado para trazê-lo ao estado normal, e sem nenhum tratamento físico.

É mais que provável que se o tivessem encerrado com os loucos ele teria perdido a razão completamente.

Os casos de obsessão são tão frequentes que não é exagero dizer que nos hospícios de alienados mais da metade apenas têm a aparência de loucura e que, por isto mesmo, a medicação vulgar não faz efeito.

O Espiritismo nos mostra na obsessão uma das causas perturbadoras da saúde física, e, ao mesmo tempo, nos dá o meio de remediá-la; é um de seus benefícios. Mas, como foi reconhecida essa causa, senão pelas evocações? Assim, as evocações servem para alguma coisa, digam o que disserem os seus detratores.

É evidente que os que não admitem nem a alma individual nem a sua sobrevivência, ou que, admitindo-a, não se dão conta do estado do Espírito após a morte, devem olhar a intervenção de seres invisíveis em tais circunstâncias como uma quimera; mas o fato brutal dos males e das curas aí está.
 
Não poderiam ser levadas à conta da imaginação as curas operadas à distância, em pessoas que jamais foram vistas, sem o emprego de qualquer agente material. A doença não pode ser atribuída ao Espiritismo, porque ela atinge também os que nele não acreditam, bem como crianças que dele não têm qualquer ideia. Entretanto, aqui nada há de maravilhoso, mas efeitos naturais que existiram em todos os tempos, que então não eram compreendidos, e que se explicam do modo mais simples, agora que se conhecem as leis em virtude das quais se produzem.

Não se veem, entre os vivos, seres maus atormentando outros mais fracos, até deixá-los doentes e mesmo até matá-los, e isto sem outro motivo senão o desejo de fazer o mal?
 
Há dois meios de levar paz à vítima: subtraí-la à autoridade de sua brutalidade, ou neles desenvolver o sentimento do bem. O conhecimento que agora temos do mundo invisível no-lo mostra povoado dos mesmos seres que viveram na Terra, uns bons, outros maus. Entre estes últimos, uns há que se comprazem ainda no mal, em consequência de sua inferioridade moral e ainda não se despojaram de seus instintos perversos; eles estão em nosso meio, como quando vivos, com a única diferença que em vez de terem um corpo material visível, eles têm um corpo fluídico invisível; mas não deixam de ser os mesmos homens, com o senso moral pouco desenvolvido, buscando sempre ocasiões de fazer o mal, encarniçando-se sobre os que lhes são presa e que conseguem submeter à sua influência. Obsessores encarnados que eram, são obsessores desencarnados, tanto mais perigosos quanto agem sem ser vistos. Afastá-los pela força não é fácil, visto que não se pode apreender-lhes o corpo. O único meio de dominá-los é o ascendente moral, com cuja ajuda, pelo raciocínio e sábios conselhos, chega-se a torná-los melhores, ao que são mais acessíveis no estado de Espírito do que no estado corporal. A partir do instante em que são convencidos a voluntariamente deixar de atormentar, o mal desaparece, quando causado pela obsessão. Ora, compreende-se que não são as duchas nem os remédios administrados ao doente que podem agir sobre o Espírito obsessor. Eis todo o segredo dessas curas, para as quais não há palavras sacramentais nem fórmulas cabalísticas: conversamos com o Espírito desencarnado, moralizamo-lo, educamo-lo, como teríamos feito enquanto ele era vivo. A habilidade consiste em saber tomá-lo pelo seu caráter, em dirigir com tato as instruções que lhe são dadas, como o faria um instrutor experimentado. Toda a questão se reduz a isto: Há ou não Espíritos obsessores? A isto respondemos o que dissemos acima: Os fatos materiais aí estão.

Por vezes perguntam por que Deus permite que os maus Espíritos atormentem os vivos. Poderíamos igualmente perguntar por que ele permite que os vivos se atormentem entre si. Perdemos muito de vista a analogia, as relações e a conexão que existem entre o mundo corporal e o mundo espiritual, que se compõem dos mesmos seres em dois estados diferentes. Aí está a chave de todos esses fenômenos considerados sobrenaturais.

Não nos devemos admirar mais das obsessões do que das doenças e outros males que afligem a Humanidade. Eles fazem parte das provas e das misérias devidas à inferioridade do meio onde nossas imperfeições nos condenam a viver, até que estejamos suficientemente melhorados para merecer dele sair. Os homens sofrem aqui as consequências de suas imperfeições, porque se fossem mais perfeitos, aqui não estariam.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 29 de Maio de 2016, 16:02
ESTRANHA VIOLAÇÃO DE SEPULTURA
Revista Espírita, janeiro /1868

"O Observateur, de Avesnes (20 de abril de 1867) relata o caso seguinte:

Há três semanas um operário de Louvroil, chamado Magnan, de vinte e três anos, teve a infelicidade de perder a mulher, atingida por uma doença do peito. A mágoa profunda que ele por isto sentiu, em breve foi aumentada pela morte de seu filho, que não sobreviveu à mãe senão alguns dias. Magnan falava sem cessar de sua mulher, não podendo acreditar que ela o tivesse deixado para sempre e imaginando que não tardaria a voltar. Era em vão que os amigos buscavam oferecer-lhe algum consolo; ele os repelia a todos e se fechava em sua aflição.

Quinta-feira última, após muitas dificuldades, seus camaradas de oficina decidiram acompanhar até a estrada de ferro um amigo comum, militar em férias que voltava ao regimento. Mas logo depois de chegarem à estação, Magnan esquivou-se e voltou sozinho à cidade, ainda mais preocupado do que de costume. Num cabaré tomou alguns copos de cerveja que acabaram de perturbá-lo, e foi nessas disposições que entrou em casa, pelas nove horas da noite. Achando-se só, o pensamento de que sua mulher não mais estava lá o superexcitou ainda mais, e ele experimentou um desejo invencível de vê-la. Então tomou uma velha cavadeira e uma pá ordinária, foi ao cemitério, e, a despeito da escuridão e da chuva horrível que caía no momento, logo começou a tirar a terra que cobria sua cara defunta.

Só depois de várias horas de trabalho sobre-humano conseguiu retirar o caixão de sua cova. Só com as mãos, e quebrando as unhas, ele arrancou a tampa; depois, tomando nos braços o corpo de sua pobre companheira, levou-o para casa e o pôs na cama. Deveria ser, então, aproximadamente três horas da manhã. Depois de ter feito um bom fogo, descobriu o rosto da morta; então, quase alegre, correu à casa da vizinha que o tinha enterrado, para lhe dizer que sua mulher tinha voltado, como ele havia predito.

Sem dar qualquer importância às palavras de Magnan, que, dizia ela, tinha visões, levantou-se e o acompanhou até a casa dele, a fim de acalmá-lo e fazê-lo deitar-se. Imagine-se a sua surpresa e o seu pavor, vendo o corpo exumado. O infeliz operário falava à morta como se ela pudesse escutá-lo e procurava com uma tenacidade tocante obter uma resposta, dando à sua voz uma doçura e toda a persuasão de que era capaz. Essa afeição além do túmulo oferecia um espetáculo pungente.

Entretanto, a vizinha teve a presença de espírito de induzir o pobre alucinado a repor sua mulher no caixão, o que ele prometeu, vendo o silêncio obstinado daquela que julgava ter chamado à vida. Acreditando em tal promessa, ela voltou para casa, mais morta do que viva.

Mas Magnan não se deu por vencido e foi despertar dois vizinhos, que se levantaram, como a que a enterrara, para tentar tranquilizar o infortunado. Como ela, passado o primeiro momento de estupefação, eles o aconselharam a levar a morta para o cemitério, e dessa vez, sem hesitar, ele tomou a mulher nos braços e voltou a depositá-la na cova de onde a havia tirado, recolocou-a na fossa e a recobriu de terra.

A mulher de Magnan estava enterrada há dezessete dias; não obstante, ainda se achava em perfeito estado de conservação, porque a expressão de seu rosto era exatamente a mesma que no momento em que foi enterrada.
Quando interrogaram Magnan, no dia seguinte, ele pareceu não se lembrar do que havia feito nem do que se havia passado algumas horas antes. Apenas disse que acreditava ter visto sua mulher durante a noite.” (Siècle, 29 de abril de 1867).

INSTRUÇÕES SOBRE O FATO PRECEDENTE


(Sociedade de Paris, 10 de maio de 1867; Médium, Sr. Morin, em sonambulismo espontâneo)

“Os fatos se mostram em toda parte, e tudo quanto se produz parece ter uma direção especial que leva aos estudos espirituais. Observai bem, e vereis a cada instante coisas que à primeira vista parecem anomalias na vida humana, e cuja causa inutilmente encontraríeis em qualquer lugar que não fosse na vida espiritual. Sem dúvida, para muita gente são apenas fatos curiosos, nos quais não pensam mais, desde que virada a página; mas outros pensam mais seriamente; procuram uma explicação e, à força de ver a vida espiritual erguer-se diante deles, serão obrigados a reconhe­cer que somente aí está a solução do que não podem compreender. Vós, que conheceis a vida espiritual, examinai bem os detalhes do fato que acaba de vos ser lido, e vede se ela não se mostra com evidência.

Não penseis que os estudos que fazeis sobre esses assuntos de atualidade e outros sejam perdidos para as massas, porque, até agora, eles vão quase exclusivamente aos espíritas, aos que já se acham convencidos. Não. Para começar, tende a certeza que os escritos espíritas vão além dos adep­tos; há pessoas muito interessadas na questão para não se manterem ao corrente de tudo o que fazeis e da marcha da Doutrina. Sem que o pareça, a Sociedade, que é o centro onde se elaboram os trabalhos, é um ponto em mira, e as soluções sábias e raciocinadas que dela saem fazem refletir mais do que supondes. Mas dia virá em que esses mesmos escritos serão lidos, comentados, analisados publicamente; aí as pessoas colherão a mancheias os elementos sobre os quais devem assentar-se as novas ideias, porque aí encontrarão a verdade. Ainda uma vez, ficai convencidos que nada do que fazeis está perdido, mesmo para o presente, com mais forte razão para o futuro.

Tudo é assunto de instrução para o homem que reflete. No fato que vos ocupa, vedes um homem possuindo suas faculdades intelectuais, suas forças materiais, e que parece, no momento, completamente despojado das primeiras; ele pratica um ato que à primeira vista parece insensato. Ora! Aí está um grande ensinamento.

Isto aconteceu? perguntarão algumas pessoas. O homem estava em estado de sonambulismo natural, ou sonhou? O Espírito da mulher estava metido nisso? Tais são as perguntas que podem ser feitas a este respeito. Pois bem! O Espírito da senhora Magnan esteve muito envolvido nesse acontecimento, e muito mais do que podiam supor os próprios espíritas.

Se seguirdes o homem com atenção, desde o momento da morte de sua mulher, velo-eis mudar pouco a pouco; desde as primeiras horas da partida de sua mulher, vedes seu Espírito tomar uma direção que se acentua cada vez mais, para chegar ao ato de loucura da exumação do cadáver. Há, nesse ato, algo além do pesar, e, como ensina O Livro dos Espíritos e todas as comunicações, não é na vida presente, é no passado que se deve procurar a causa. Não estamos aqui na Terra senão para cumprir uma missão ou pagar uma dívida. No primeiro caso, realizais uma tarefa voluntária; no segundo, fazei a contrapartida dos sofrimentos que experimentais, e tereis a causa de vossos sofrimentos.

Quando a mulher morreu, lá ficou em Espírito, e como a união dos fluidos espirituais e do corpo era difícil de romper, em razão da inferioridade do Espírito, foi-lhe preciso um certo tempo para retomar sua liberdade de ação, um novo trabalho para a assimilação dos fluidos; depois, quando ela estava na medida, apoderou-se do corpo do homem e o possuiu. Eis aqui, pois, um verdadeiro caso de possessão.

O homem não é mais ele, e notai: ele não é mais ele mesmo senão quando vem a noite. Seria preciso entrar em longas explicações para vos fazer compreender a causa desta singularidade; mas, em duas palavras: a mistura de certos fluidos, como em Química a de certos gases, não pode suportar o brilho da luz. Eis por que certos fenômenos espontâneos ocorrem mais vezes à noite do que de dia. Ela possui esse homem; ela o induz a fazer o que ela quer; foi ela que o conduziu ao cemitério para obrigá-lo a fazer um trabalho sobre-humano e fazê-lo sofrer. E no dia seguinte, quando perguntam ao homem o que se passou, ele fica estupefato e só se lembra de haver sonhado com sua mulher. O sonho era a realidade; ela tinha prometido voltar e voltou; ela voltará e arrastá-lo-á.

Numa outra existência, foi cometido um crime; o que queria vingar-se deixou o primeiro encarnar-se e escolheu uma existência que, pondo-o em relação consigo, lhe permitia realizar sua vingança. Perguntareis por que essa permissão? Mas Deus nada concede que não seja justo e lógico. Um quer vingar-se; é preciso que tenha, como prova, ocasião de superar seu desejo de vingança, e o outro deve sofrer a prova e pagar pelo que fez sofrer o primeiro. Aqui o caso é o mesmo; apenas, não estando terminados os fenômenos, não se estendem mais por muito tempo: ainda existirá outra coisa.”

(texto recebido por IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 01 de Junho de 2016, 23:53
MEDIUNIDADE DE VIDÊNCIA NAS CRIANÇAS
Revista Espírita, setembro / 1866
 
    De Caen escreve um dos nossos correspondentes:
 
   “Há alguns dias eu estava no hotel São Pedro, em Caen. Tomava um copo de cerveja, lendo um jornal. A filhinha da casa, de aproximadamente quatro anos, estava sentada na escadaria e comia cerejas. Ela não notava que eu a via, e parecia inteiramente envolvida numa conversa com seres invisíveis aos quais oferecia cerejas. Tudo o indicava: a fisionomia, os gestos, as inflexões da voz. Logo ela se voltava bruscamente dizendo:
    - Tu, tu não as terás, porque não és boazinha.
    - Eis para ti! dizia ela a uma outra.
    - Então, o que é que me atiras? perguntava a uma terceira.

    Dir-se-ia que ela estava rodeada por outras crianças. Ora estendia as mãos oferecendo o que tinha, ora seus olhos seguiam objetos invisíveis para mim, que a entristeciam ou faziam gargalhar. Essa pequena cena durou mais de meia hora e a conversa só terminou quando a menina percebeu que eu a observava. Sei que muitas vezes as crianças se divertem em apartes deste gênero, mas aqui era completamente diferente; o rosto e as maneiras refletiam impressões reais que não eram as de uma representação. Eu pensava que sem dúvida se tratava de uma médium vidente em seu nascedouro, e dizia, de mim para mim, que se todas as mães de família fossem iniciadas nas leis do Espiritismo, aí colheriam numerosos casos de observação e compreenderiam muitos fatos que passam desapercebidos, cujo conhecimento lhes seria útil para a direção de seus filhos.”
 
    É lamentável que o nosso correspondente não tenha tido a ideia de interrogar essa menina quanto às pessoas com quem conversava. Teria podido assegurar-se se a conversa realmente tinha sido com seres invisíveis. Nesse caso, daí poderia ter saído uma instrução tanto mais importante quanto, sendo espírita o nosso correspondente, e muito esclarecido, poderia dirigir utilmente essas perguntas. Seja como for, muitos outros fatos provam que a mediunidade vidente, se não é geral, é pelo menos muito comum nas crianças, e isto é providencial. Quando a criança sai da vida espiritual, seus guias vêm conduzi-la ao porto de desembarque para o mundo terreno, como vêm buscá-la em seu retorno. Eles se mostram a ela nos primeiros tempos, para que não haja transição muito brusca; depois se apagam pouco a pouco, à medida que a criança cresce e pode agir em virtude de seu livre-arbítrio. Então a deixam às suas próprias forças, desaparecendo de seus olhos, mas sem perdê-la de vista. A menina em questão, em vez de ser, como pensa o nosso correspondente, médium vidente nascente, bem poderia estar em seu declínio, e não mais gozar dessa faculdade para o resto da vida. (Vide a Revista de fevereiro de 1865: Espíritos instrutores da infância).
 
ALLAN KARDEC

(texto recebido por IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Junho de 2016, 14:39
ORIGEM DA LINGUAGEM
Revista Espírita, novembro / 1862

(Sociedade Espírita de Paris - Médium: Sr. d’Ambel)
 
            Meus caros e bem-amados amigos ouvintes, pedis-me hoje que eu dite ao meu médium a história da linguagem. Tentarei satisfazer-vos. Deveis, porém, compreender que me será impossível, nalgumas linhas, tratar inteiramente da importante questão, à qual se liga forçosamente outra mais importante, a da origem das raças humanas.
            Que Deus Todo-Poderoso, tão benevolente para com os espíritas, me conceda a lucidez necessária para afastar de minha dissertação toda confusão, toda obscuridade e sobretudo todo erro.
            Entro na matéria dizendo-vos que admitamos, inicialmente, como princípio, esta eterna verdade: O Criador deu a todos os seres da mesma raça um modo especial, mas seguro, para se entenderem reciprocamente. Não obstante, esse modo de comunicação, essa linguagem, era tanto mais restrita quanto mais inferiores eram as espécies. É em virtude dessa verdade, dessa lei, que os selvagens e os povos pouco civilizados possuem línguas tão pobres que uma porção de termos usados nas regiões favorecidas pela civilização lá não encontram vocábulos correspondentes, e é em obediência a essa mesma lei que as nações que progridem criam novas expressões para novas descobertas e novas necessidades.
            Como eu disse alhures, a Humanidade já atravessou três grandes períodos: a fase bárbara, a fase hebraica e pagã e a fase cristã. A esta última sucederá o grande período espírita, cujos alicerces lançamos entre vós.
            Examinemos, pois, a primeira fase e o começo da segunda, e aqui só posso repetir o que eu já disse. A primeira fase humana, que poderemos chamar pré-hebraica ou bárbara, arrastou-se por muito tempo e lentamente em todos os horrores e convulsões de uma barbárie terrível. Aí o homem é peludo como um animal selvagem e, como as feras, abriga-se em cavernas e nos bosques. Vive de carne crua e se repasta de seu semelhante, como de uma excelente caça. É o mais absoluto reino da antropofagia. Não há sociedade nem família! Alguns grupos dispersos aqui e ali, vivem na mais completa promiscuidade, sempre prontos a se entredevorarem. Tal é o quadro desse período cruel.
            Nenhum culto, nenhuma tradição, nenhuma ideia religiosa. Apenas as necessidades animais a satisfazer, eis tudo!
            Prisioneira de uma matéria estupidificante, a alma fica morna e latente em sua prisão carnal. Ela nada pode contra os muros grosseiros que a encerram, e sua inteligência mal pode mover-se nos compartimentos de um cérebro estreito.
            O olho é embaciado, a pálpebra pesada, o lábio grosso, o crânio achatado, e alguns sons guturais bastam como linguagem.
            Nada prenuncia que desse animal bruto sairá o pai das raças hebraicas e pagãs. Contudo, com o tempo, eles sentem a necessidade de se defenderem contra os outros carnívoros, como o leão e o tigre, cujas presas terríveis e garras afiadas facilmente dominavam o homem isolado. Assim realiza-se o primeiro progresso social. Não obstante, o reinado da matéria e da força bruta se manteve durante toda essa fase cruel.
            No homem dessa época, não procureis sentimentos nem razão, nem linguagem propriamente dita. Ele obedece apenas à sua sensação grosseira, e só tem como objetivo comer, beber e dormir. Nada além disso. Pode-se dizer que o homem inteligente ainda está em germe, mas que não existe ainda.
            Contudo, é preciso constatar que entre as raças brutais já aparecem alguns seres superiores, Espíritos encarnados, com a tarefa de conduzir a Humanidade ao seu objetivo e apressar o advento da era hebraica e pagã.
            Devo acrescentar que, além desses Espíritos encarnados, o globo terrestre era frequentemente visitado por esses ministros de Deus cuja memória foi conservada pela tradição sob os nomes de anjos e de arcanjos, que quase diariamente se punham em contato com os seres superiores, Espíritos encarnados, dos quais falei. A missão de alguns desses anjos continuou durante uma grande parte da segunda fase humanitária. Devo acrescentar que o rápido quadro que acabo de fazer dos primeiros tempos da Humanidade vos ensina, um pouco, a que leis rigorosas são submetidos os Espíritos que se exercitam a viver nos planetas de formação recente.
            A linguagem propriamente dita, como a vida social, não começa a ter um caráter certo senão a partir da era hebraica e pagã, durante a qual o Espírito encarnado, sempre sujeito à matéria, começa a se revoltar e a quebrar alguns elos de sua pesada cadeia. A alma fermenta e se agita em sua prisão carnal; por seus esforços reiterados reage energicamente contra as paredes do cérebro, cuja matéria ela sensibiliza; ela melhora e aperfeiçoa por um trabalho constante o desempenho de suas faculdades e, consequentemente, os órgãos físicos se desenvolvem; enfim, o pensamento se deixa ler num olhar límpido e claro. Já estamos longe das frontes achatadas! É que a alma se sente, se reconhece, tem consciência de si mesma e começa a compreender que ela é independente do corpo. Também, a partir deste momento, ela luta com ardor para se desvencilhar da opressão de sua robusta rival. O homem se modifica cada vez mais e a inteligência se move mais livremente num cérebro mais desenvolvido. Todavia, constatamos que nessa época o homem ainda é cercado e registrado como o gado, o homem escravo do homem; a escravidão é consagrada pelo Deus dos Hebreus, tanto quanto pelos deuses pagãos, e Jeová, assim como Júpiter Olímpico, pede sangue e vítimas vivas.
            Essa segunda fase oferece aspectos curiosos do ponto de vista filosófico; sobre o que já tracei um quadro rápido, que meu médium logo vos comunicará.
            Como quer que seja, e para voltar ao tema deste estudo, tende por certo que não foi senão na época dos grandes períodos pastorais e patriarcais que a linguagem humana tomou uma marcha regular e adotou formas e sons especiais.
            Durante essa época primitiva, em que a Humanidade saía dos cueiros e balbuciava na primeira infância, poucas palavras bastavam aos homens, para os quais ainda não tinha nascido a ciência, cujas necessidades eram muito restritas, e cujas relações sociais paravam à porta das tendas, à soleira da família, e mais tarde nos confins da tribo. Era a época em que o pai, o pastor, o ancião, o patriarca, numa palavra, dominava como senhor absoluto, com direito de vida e de morte.
            A língua primitiva foi uniforme; mas, à medida que crescia o número de pastores, estes, deixando por sua vez a tenda paterna, foram fundar nas regiões desabitadas novas famílias, novas tribos. Então a língua por eles usada se diferenciou gradativamente, de geração em geração, da que era usada na tenda paterna; foi assim que os diversos idiomas foram criados.
            De resto, ainda que minha intenção não seja dar um curso de linguística, não vos passa despercebido que, nas línguas mais díspares, encontrais palavras cujo radical pouco variou e cuja significação é quase a mesma. Por outro lado, posto tenhais a pretensão de ser um velho mundo, o mesmo motivo que corrompeu a língua primitiva, reina ainda soberano em vossa França tão orgulhosa de sua civilização, onde vedes as consonâncias, os termos e a significação variarem, não direi de província a província, mas de comuna a comuna. Apelo para o testemunho daqueles que viajaram pela Bretagne, como para os que percorreram a Provence e o Languedoc. É uma variedade de idiomas e de dialetos que espanta aquele que os quisesse coligir num único dicionário.
            Uma vez que os homens primitivos, ajudados nisso pelos missionários do Eterno, emprestaram a certos sons especiais certas ideias especiais, foi criada a língua falada, e as modificações que ela sofreu mais tarde foram sempre em razão do progresso humano; por conseguinte, conforme a riqueza de uma língua, pode-se estabelecer facilmente o grau de civilização atingido pelo povo que a fala. O que posso acrescentar é que a Humanidade marcha para uma língua única, como consequência forçada de uma comunidade de ideias em moral, em política, e sobretudo em religião. Tal será a obra da filosofia nova, o Espiritismo, que hoje vos ensinamos.

 (texto recebido por IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Junho de 2016, 15:30
Sermão sobre o Progresso
Revista Espírita abril / 1865

Escrevem-nos de Montauban:

“Nestes dias passou-se em nossa cidade um fato que impressionou de diferentes maneiras a população. Um pregador protestante, o Sr. Rewile, capelão do rei da Holanda, num discurso pronunciado perante duas mil pessoas, afirmou-se claramente partidário das ideias novas. Sentimo-nos feliz ao ouvir, pela primeira vez, estas sublimes verdades proclamadas do alto de um púlpito cristão, e desenvolvidas com um talento e uma eloquência excepcionais. Ele deve ter sido brilhante, pois os fanáticos se apressaram em lhe dar o título de anticristo. Lamento não poder transmitir o sermão inteiro, mas tentarei analisar algumas passagens.

“O orador tinha tomado como tema o texto: ‘Não vim destruir a lei e os profetas, mas dar-lhes cumprimento. Amai-vos de todo o vosso coração, de toda a vossa alma, de todo o vosso entendi­mento e ao vosso próximo como a vós mesmos.’

“Segundo o Sr. Rewile, a missão do Cristo entre os homens foi uma missão de caridade e de espiritualidade; sua doutrina parecia, pois, estar em oposição à dos judeus, cujo princípio era: ‘Observância estrita da lei’, princípio que engendraria o egoísmo. Entretanto, a expressão dar-lhes cumprimento explica essa contradição aparente, porque significa completar, tornar mais perfeita. Ora, substituir o egoísmo pela caridade e o culto da matéria pelo culto da espiritualidade era dar cumprimento, completar a lei. Em vão o Cristo tentou fazer essa nação romper as cadeias da matéria, elevando o seu pensamento e fazendo-a encarar seu destino a partir de um ponto de vista mais alto. Ela jamais pôde compreender a profundidade de sua moral. Assim, quando ele quis atacar os abusos de toda sorte, as práticas exteriores, e suavizar os rigores da lei mosaica, foi acusado e covardemente condenado. Os judeus esperavam um messias conquistador que, armado de um cetro de ferro, deveria dar-lhes em partilha o poder temporal, e não compreendiam o que havia de grande, de sublime naquele que, com um frágil caniço na mão, vinha trazer à Humanidade, como dádiva de sua força espiritual, a lei do amor e da caridade.

“Mas os desígnios de Deus sempre se realizam, malgrado todas as resistências, e se os judeus, como obreiros de má vontade, recusaram-se a trabalhar na vinha, nem por isso a Humanidade avançou menos e avançará menos, arrastando em sua passagem tudo o que constitui obstáculo para chegar ao progresso. Sob pena de fracasso, a Igreja cristã deve seguir essa marcha ascendente, porque a Humanidade não foi feita para a Igreja, mas a Igreja para a Humanidade. Infeliz de quem resistisse, pois seria pulverizado pela mão do progresso. O passado não foi construído para responder pelo futuro?

“Que os filhos do século dezenove, contrariamente à conduta dos judeus antigos, compreendam e realizem sua obra! Eles já não experimentam esse frêmito involuntário que agita todas as inteligências de escol e que as impele espontaneamente para a conquista das ideias de espiritualidade, garantia única de felicidade para a Humanidade, porque sem espiritualidade só existe matéria e sem liberdade só há escravidão? Por que, então, resistir por mais tempo a esses nobres impulsos da alma e atribuir ao demônio esses novos sinais dos tempos modernos? Por que não ver aí as inspirações dos mensageiros celestes de um Deus de amor e de caridade, anunciando-nos a renovação da Humanidade?

“Que a Igreja cristã volte ao espírito. Com efeito, que é a Igreja sem o espírito, senão um cadáver, um verdadeiro cadáver na acepção da palavra?... Quem tiver ouvidos que ouça! A verdadeira Igreja, nestes dias críticos, tem o direito de contar com seus filhos... Vamos, de pé, e à obra! Que cada um faça o seu dever. Deus assim o quer! Deus o quer!

“Se o Cristo veio para dar cumprimento, isto é, para completar a lei pela prática do amor a Deus e aos homens, é que ele considerava este preceito como resumo da perfeição humana. A lei de amor a Deus e aos homens é, como ensina o próprio Cristo, uma lei maior, à qual estão subordinadas todas as outras. É, pois, necessário praticá-la na sua mais larga acepção, a fim de se aproximar dele e, consequentemente, de Deus, de que ele foi a mais alta expressão na Terra. Para amar a Deus é preciso amar a verdade, o belo e o bem; é necessário sentir-se transportado interiormente para esses atributos da perfeição moral, mas também é preciso amar a seus irmãos, seus semelhantes, em quem Deus se reflete no que há de verdade, de belo e de bem.

“Por que o Cristo amou a Humanidade até dar a vida por ela? Porque sendo também a mais alta expressão da perfeição humana, ele sentiu no mais alto grau os efeitos dessa lei de amor a Deus e aos homens, e teve que praticá-la de maneira sublime... Praticar a caridade, amar, é marchar a passos largos no caminho da verdade, do belo, do bem. É caminhar para Deus! Amar é viver, é avançar para a imortalidade!”

Segundo estou informado, o Sr. Rewile teria abordado com sucesso a questão das manifestações, em duas conferências para os alunos da Faculdade. Teria respondido vitoriosamente a todas as objeções. Lamento não ter podido ouvi-lo nessa circunstância tão interessante.

OBSERVAÇÃO: Bem tinham dito os Espíritos que o Espiritismo iria encontrar defensores nas próprias fileiras adversárias. Um tal discurso na boca de um ministro da religião e pronunciado do alto do púlpito, é um acontecimento sério. Esperemos ver outros, porque o exemplo da coragem de opinião é contagioso. As ideias novas não tardarão mais a encontrar campeões confessos na alta ciência, na literatura e na imprensa. Elas aí já têm mais simpatias do que se crê. Só o primeiro passo é difícil. Até os dias de hoje pode-se dizer que, com exceção dos órgãos especiais do Espiritismo, que não se dirigem à massa do público indiferente, somente os nossos adversários estiveram com a palavra, e Deus sabe se a usaram! Agora trava-se a luta. Que dirão eles quando virem nomes justamente honrados e estimados saírem de suas fileiras para tomar abertamente nas mãos a bandeira da doutrina? Está dito que tudo se cumprirá.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Junho de 2016, 20:11
Manifestações de Fives, perto de Lilie (Norte)
Revista Espírita 1865 » Agosto

Lê-se no Indépendant de Douai, de 6 e 8 de julho de 1865, o relato seguinte, dos fatos que acabam de se passar em Fives:

I

“Há uns quinze dias, na Rua du Prieuré, em Fives, ocorrem fatos ainda não explicados e que causam uma profunda sensação em todo o bairro. A certos intervalos, no pátio de duas casas dessa rua, cai uma chuva de projéteis que quebram vidraças e por vezes atingem os moradores, sem que se possa descobrir nem o lugar de onde partem nem a pessoa que os atira. As coisas chegaram a tal ponto que um dos inquilinos teve que proteger suas janelas com tela, temeroso de ser atingido.

“A princípio os interessados observaram atentamente, depois recorreram à polícia, que exerceu a mais ativa vigilância durante vários dias. Isto não impediu que pedaços de tijolos, carvão de pedra, etc. caíssem abundantemente nos dois pátios. Um agente chegou a ser atingido nos rins, no momento em que procurava explicar a um de seus camaradas a parábola que as pedras descreviam antes de cair.

“O vidraceiro, substituindo os vidros quebrados na véspera por pedaços de tijolo, foi igualmente atingido nas costas. Logo se adiantou, jurando descobrir o autor desses atos censuráveis, mas não foi mais feliz que os outros.

“Há alguns dias constata-se uma notável diminuição no volume dos projéteis, mas são mais numerosos, de sorte que a movimentação continua. Entretanto, esperam em breve descobrir o que há de misterioso neste caso.

II

"Os fenômenos bizarros que se produzem na Rua du Prieuré, em Fives, desde quinta-feira, 14 de junho, e dos quais já tínhamos falado, desde sábado entraram numa nova fase, diz o jornal de onde tiramos o primeiro relato.

“Não se trata mais de projéteis atirados de fora com um barulho extraordinário às portas e janelas, e muito menos violentamente nas pessoas.

“Eis o que se passa agora numa das duas casas de que falamos, pois a outra ficou perfeitamente tranquila.

“No sábado, caíram no pátio oito cêntimos e cinco moedas de dois cêntimos belgas. A dona da casa, vendo ao mesmo tempo vários móveis se mexerem e cadeiras caindo, foi chamar pessoas da vizinhança. Levantaram as cadeiras; por várias vezes elas caíram de novo. Ao mesmo tempo foram vistos no jardim os tamancos deixados à entrada pela criada pularem em cadência, como se estivessem nos pés de alguém que dançasse.

“À noite, um calendário posto em cima de uma lareira saltou e turbilhonou no ar; sapatos, postos no chão, também saltavam e caíam emborcados.

“Vindo a noite, o Sr. M..., dono da casa, resolveu velar.

“Tão logo ficou só, ouviu um barulho: era um candeeiro que caía sobre a lareira; enquanto ele o ergueu, uma concha rolou por terra; ele se abaixou para apanhá-la e outro candeeiro lhe caiu nas costas. Essas manobras duraram uma parte da noite.

“Nesse ínterim, a empregada, que dorme no andar de cima, gritou por socorro. Encontraram-na tão apavorada que não duvidaram de sua sinceridade, quando afirmou que haviam batido nela. Fizeram-na descer e deitar-se no quarto ao lado; logo ouviram os seus lamentos e escutaram até mesmo as pancadas que ela recebia.

“Essa moça ficou doente e teve que voltar para a casa dos pais.

“No domingo de manhã e no dia seguinte ainda caíram moedas belgas no pátio.

“À tarde, a Sra. X... saiu com uma de suas amigas, depois de haver examinado toda a casa e sem encontrar coisa alguma fora de ordem.

“A porta foi fechada cuidadosamente. Ninguém podia entrar. Voltando, a Sra. X... encontrou desenhado sobre a cama um grande 8 com meias e tecidos que estavam trancados armário.

“À noite, com seu marido, seu sobrinho e um pensionista, que com ela constituem todo o pessoal da casa, ela fez uma vistoria em todas as peças. Na manhã seguinte, subindo ao quarto outrora ocupado pela empregada, encontrou sobre o leito um desenho esquisito, formado com barretes, e, ao pé da escada, dez degraus cobertos com paletós de seu marido, de seu sobrinho e do pensionista, estendidos e encimados por um chapéu.

“Na terça-feira de manhã ainda caiu no pátio um cêntimo belga. Eles tinham intenção de dá-lo aos pobres, com as moedas caídas dois dias anteriores, mas eis que o estojo onde elas estavam depositadas saltou de uma peça a outra e o dinheiro desapareceu, bem como a chave da escrivaninha.

“Varrendo a sala de jantar, de repente foram vistas duas facas se fincarem no soalho e outra no teto.

“De repente uma chave caiu no pátio. É a da porta da rua; depois veio a da escrivaninha; depois xales e lenços enrolados e em nós, que haviam desaparecido há algum tempo.

“À tarde viu-se no leito do Sr. M... uma roda formada com roupas, e no celeiro um desenho do mesmo gênero, formado com um capote velho e uma cesta.

“Todos estes fatos, bem como os de que falamos sábado, são atestados pelas pessoas da casa, cujo caráter está longe de ser levado ao exagero ou à ilusão. Eles parecem tanto mais singulares porque a vizinhança é perfeitamente bem habitada, e uma vigilância ativa não deixou de ser exercida há três semanas.

“Pode imaginar-se quanto as pessoas da casa sofrem com esse estado de coisas. Depois de ter começado por lacrar as janelas do lado do pátio, decidiram-se a abandonar as peças onde se produziam os fatos relatados, e agora estão, de certo modo, acampadas em duas ou três peças, esperando o fim de seus aborrecimentos.

“Pela crônica: TH. DENIS.”

Como se vê, esses fatos têm uma certa analogia com os de Poitiers, do Boulevard Chave, em Marselha, da Rua des Grès e dos de Noyers, em Paris, de Hoerdt, perto de Estrasburgo, e de uma porção de outras localidades. Por toda parte eles puseram em cheque a mais ativa vigilância e as investigações da polícia. Graças à sua multiplicação, eles acabarão por abrir os olhos. Se eles se produzissem num único lugar, seríamos levados a atribuí-los a uma causa local, mas quando ocorrem em pontos tão afastados e em tempos diferentes, seremos forçados a reconhecer que a causa está no mundo invisível, pois não a encontramos aqui. Em presença desses fatos tão multiplicados e que, por consequência, têm tão numerosas testemunhas, a negação já não é possível, e assim vemos as notícias se limitarem, geralmente, a meros relatos.

Os Espíritos anunciaram que manifestações de toda natureza iam produzir-se em todos os pontos. Com efeito, se examinarmos o que se passa há algum tempo, veremos que eles são fecundos em recursos para atestarem sua presença. Os incrédulos pedem fatos; os Espíritos lhos apresentam a todo instante, com um valor tanto maior pelo fato de não serem provocados e se produzirem sem o concurso da mediunidade ordinária e na maior parte do tempo entre pessoas alheias ao Espiritismo. Parece que os Espíritos lhes dizem: Acusais os médiuns de compadrio, de prestidigitação, de alucinações; nós vos damos fatos que não são suspeitos. Se depois disto não credes, é porque quereis fechar os olhos e os ouvidos.

As manifestações de Fives, além do mais, nos são atestadas pelo Sr. Mallet, de Douai, oficial superior e homem de Ciência, que se informou de sua realidade nos próprios locais e junto a pessoas interessadas. Podemos, pois, garantir a sua perfeita exatidão.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 16 de Junho de 2016, 15:04
Uma paixão de além-túmulo

Maximiliano V..., criança de doze anos, suicida-se por amor
Revista Espírita, maio  /1862

- Palestras familiares de além-túmulo
 
        Lê-se no Siècle de 13 de janeiro de 1862:
 
       “Maximilien V..., rapazinho de doze anos, morava com os pais na Rua des Cordiers e estava empregado como aprendiz de tapeceiro. Ele tinha o hábito de ler romances seriados. Todos os momentos que podia subtrair ao trabalho dedicava-os à leitura, que lhe superexcitava a imaginação e lhe inspirava ideias acima de sua idade. Foi assim que ele imaginou sentir uma paixão por uma criatura que tinha ocasião de ver algumas vezes e que estava longe de pensar que tivesse inspirado tal sentimento. Desesperançoso de ver a realização dos sonhos produzidos pelas leituras, resolveu matar-se. Ontem, o porteiro da casa onde ele estagiava encontrou-o sem vida num quartinho no terceiro andar, onde trabalhava sozinho. Enforcara-se em uma corda que afixara numa viga, com um enorme prego.”
 
       As circunstâncias dessa morte, em uma idade tão precoce, deram a pensar que a evocação desse menino poderia fornecer assunto para um ensino útil. Foi feita na sessão da Sociedade a 24 de janeiro último, pelo médium Sr. E. Vézy.
No caso, há um difícil problema de moral, quiçá impossível de resolver pelos argumentos da filosofia ordinária, e ainda menos pela filosofia materialista. Pensam que tudo está explicado dizendo que é uma criança precoce. Mas isto nada explica. É absolutamente como se se dissesse que é dia porque o sol saiu. De onde vem a precocidade? Por que certas crianças ultrapassam a idade normal para o desenvolvimento das paixões e da inteligência? Eis uma das dificuldades contra as quais esbarram todas as filosofias, porque suas soluções deixam sempre uma questão não resolvida e a gente sempre pode indagar por quê. Admita-se a existência da alma e o desenvolvimento anterior, e tudo se explica da maneira mais natural. Com esse princípio, remontais à causa e à fonte de tudo.
 
       1. (Ao guia espiritual do médium): - Poderia dizer-nos se podemos evocar o Espírito do menino a que acabamos de nos referir?
- Sim. Conduzi-lo-ei, porque ele está sofrendo. Que a sua aparição em vosso meio sirva de exemplo e seja uma lição.
 
       2. (A Maximilien.) Você se dá conta de sua situação?
- Não sei bem onde estou. Há alguma coisa como se fosse um véu em minha frente. Falo, mas não sei como falo e como me escutam. Mas aquilo que até há pouco ainda era obscuro, já posso ver. Eu estava sofrendo, e neste instante me sinto aliviado.
 
       3. Você se lembra bem das circunstâncias de sua morte?
- Elas me parecem muito vagas. Eu sei que me suicidava sem motivo. Entretanto, como poeta numa outra encarnação, eu tinha uma espécie de intuição de minha vida passada. Criava sonhos e quimeras. Enfim, eu amava.
 
       4. Como foi possível chegar a tal extremo?
       - Acabo de responder.
 
       5. É singular que um menino de doze anos seja levado ao suicídio, sobretudo por um motivo como esse que o arrastou.
       - Vocês são estranhos! Não disse eu que era poeta numa outra encarnação e que minhas faculdades tinham ficado mais amplas e desenvolvidas que nos outros? Oh! Na noite em que ainda me encontro, vejo passar essa sílfide de meus sonhos na Terra, e esse é o castigo que Deus me inflige, por vê-la bela e leviana como sempre, passar à minha frente e eu, ébrio de loucura e de amor, quero me atirar... mas, ah! É como se estivesse preso a um anel de ferro... Chamo... mas em vão. Ela nem vira a cabeça... Oh! Como sofro então!
 
       6. Você pode descrever a sensação que experimentou quando se reconheceu no mundo dos Espíritos?
       - Oh! Agora que estou em contato com vocês, sim. Meu corpo lá estava, inerte e frio e eu planava em volta dele. Eu chorava lágrimas quentes. Vocês se admiram das lágrimas de uma alma. Oh! Como são quentes e escaldantes! Sim, eu chorava, porque acabava de reconhecer a enormidade de meu erro e a grandeza de Deus!... Entretanto não tinha certeza de minha morte e pensava que meus olhos se fossem abrir... Elvira! chamava eu... supondo vê-la... Ah! É que eu a amo há muito tempo. Eu amá-la-ei sempre! Que importa se tiver de sofrer por toda a eternidade, se puder um dia possuí-la noutras encarnações?
 
       7. Que sensação você sente por estar aqui?
       - Faz-me bem e mal ao mesmo tempo. Bem, porque sei que compartilham de meu sofrimento. Mal, porque apesar de toda a vontade que tenho de agradá-los, aceitando as suas preces, não posso, porque então deveria seguir outro caminho, diferente daquele de meus sonhos.
 
       8. O que podemos fazer que lhe seja útil?
       - Orar, porque a prece é o orvalho divino que refresca o coração das nossas pobres almas em pena e em sofrimento. Orar. Entretanto, parece que se vocês me arrancassem do coração o meu amor e o substituíssem pelo amor divino, então!... Não sei... creio... Olhem! Neste instante eu choro... Ah... Ah!... Orem por mim!
 
       9. (Ao guia do médium.) - Qual a punição para este Espírito por se haver suicidado? À vista de sua idade, sua ação é tão culposa quanto a dos outros suicidas?
       - A punição será terrível porque ele foi mais culpado que os outros. Ele já possuía grandes faculdades: a força de amar a Deus de maneira poderosa e de fazer o bem. Se os suicidas sofrem longos castigos, Deus pune ainda mais os que se matam com grandes ideias na mente e no coração.
 
       10. Dissestes que a punição de Maximilien será terrível. Poderíeis dizer-nos em que consistirá? Parece que ela já começa. Ser-lhe-á reservado mais do que o que pressente?
       - Sem dúvida, pois ele sofre um fogo que o consome e o devora e que não cessará senão pelos esforços da prece e do arrependimento.
 
       OBSERVAÇÃO: Ele sofre um fogo que o consome e o devora. Não é a imagem do fogo do inferno, apresentado como um fogo material?
 
       11. Há possibilidade de ser atenuada a sua punição?
       - Sim, orando-se por ele, e sobretudo se Maximilien se unir às vossas preces.
 
       12. O objeto da paixão compartilha de seus sentimentos? Esses dois seres estarão destinados a unir-se um dia? Quais as condições de sua união e quais os obstáculos que agora a impedem?
       - Os poetas amam as mulheres na Terra? Eles o acreditam por um dia, ou uma hora. O que eles amam é o ideal; é uma quimera criada por sua imaginação ardente, amor que não pode ser satisfeito senão por Deus. Todos os poetas têm uma ficção no coração: a beleza ideal que julgam ver passar na Terra. Quando encontram uma linda criança que não deverão possuir jamais, então dizem que a realidade tomou o lugar do sonho. Mas, se caem na realidade, despencam das regiões etéreas na matéria e não mais reconhecendo o ser com o qual sonhavam, criam outras quimeras.
 
       13. (A Maximilien) - Desejamos ainda fazer outras perguntas, que talvez lhe deem alívio. Em que época você viveu como poeta? Você tinha um nome conhecido?
       - No reinado de Luiz XV. Eu era pobre e desconhecido, e amava uma mulher, um anjo que vi passar num parque, num dia de primavera. Desde então, só a revi em meus sonhos, e meus sonhos prometiam que eu a possuiria um dia.
 
       14. O nome Elvira nos parece muito romântico e nos leva a pensar que se trate de um nome imaginário.
       - Sim, era uma mulher. Sei o seu nome porque um cavalheiro que passava a seu lado a chamou Elvira. Ah! Era exatamente a mulher que a minha imaginação havia sonhado. Eu a vejo ainda, sempre bela e embriagadora. Ela é capaz de me fazer esquecer Deus para vê-la e segui-la.
 
       15. Você sofre e poderá sofrer ainda por muito tempo. De você depende abreviar os tormentos.
       - Que me importa o sofrimento? Vocês não sabem o que é um desejo insatisfeito! Meus desejos são carnais? Entretanto me queimam e as pulsações, ao pensar nela, são mais fortes do que seriam se pensasse em Deus.
 
     16. Nós o lamentamos sinceramente. Para trabalhar por seu próprio adiantamento, você deve tornar-se útil e pensar em Deus mais do que o faz. É necessário pedir uma reencarnação visando apenas reparar os erros e a inutilidade das últimas existências. Não lhe dizemos que deva esquecer Elvira, mas que pense um pouco menos exclusivamente nela e um pouco mais em Deus, que pode abreviar os seus tormentos, se você fizer o que é necessário. Pela prece, nós o auxiliaremos nos seus esforços.
      - Obrigado! Orem e tentem arrancar Elvira de meu coração. Talvez um dia eu lhes agradeça.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Junho de 2016, 14:49
Conselhos sobre a mediunidade curadora
Revista Espírita, outubro /1867
 
I
 
(Paris, 12 de março de 1867. Grupo Desliens - Médium, Sr. Desliens)
 
Como já vos foi dito muitas vezes nas diferentes instruções, a mediunidade curadora, conjuntamente com a faculdade de vidên­cia, é chamada a desempenhar um grande papel no período atual da revelação. São os dois agentes que cooperam com a maior força na regeneração da Humanidade e para a fusão de todas as crenças numa crença única, tolerante, progressiva, universal.
Quando, recentemente, me comuniquei numa reunião da Sociedade, onde me haviam evocado, eu disse e repito que todo mundo possui em maior ou menor grau a faculdade curadora, e se cada um quisesse consagrar-se seriamente ao estudo dessa faculdade, muitos médiuns que se ignoram poderiam prestar úteis serviços a seus irmãos em humanidade. Nessa oportunidade o tempo não me permitiu desenvolver todo o meu pensamento a esse respeito. Aproveitarei o vosso apelo para fazê-lo hoje.
Em geral, aqueles que buscam a faculdade curadora têm como único desejo o restabelecimento da saúde material, de obter a liberdade de ação de tal órgão, impedido nas suas funções por uma causa material qualquer. Mas, sabei-o bem, é o menor dos serviços que esta faculdade está chamada a prestar, e só a conheceis em suas primícias e de maneira inteiramente rudimentar, se lhe conferis esse único papel... Não, a faculdade curadora tem missão mais nobre e mais extensa!... Se ela pode dar aos corpos o vigor da saúde, também deve dar às almas toda a pureza de que são susceptíveis, e é somente neste caso que poderá ser chamada curativa, no sentido absoluto da palavra.
Muitas vezes vos disseram, e vossos instrutores nunca se cansariam de repetir, que o efeito material aparente, o sofrimento, tem quase constantemente uma causa mórbida imaterial, residindo no estado moral do Espírito. Se, pois, o médium curador ataca os males do corpo, só ataca o efeito, e a causa primeira do mal continuando, o efeito pode reproduzir-se, quer sob a forma primordial, quer sob qualquer outra aparência. Muitas vezes aí está uma das razões pelas quais tal doença, subitamente curada pela influência de um médium, reaparece com todos os seus acidentes, desde que a influência benéfica se afaste, porque não resta nada, absolutamente nada para combater a causa mórbida.
Para evitar essas recidivas, é necessário que o remédio espiritual ataque o mal em sua base, como o fluido material o destrói em seus efeitos; numa palavra, é preciso tratar, ao mesmo tempo, o corpo e a alma.
Para ser bom médium curador, não só é preciso que o corpo esteja apto a servir de canal aos fluidos materiais reparadores, mas é preciso, ainda, que o Espírito possua uma força moral que ele não pode adquirir senão por seu próprio melhoramento. Para ser médium curador, portanto, é preciso preparar-se, não só pela prece, mas pela depuração de sua alma, a fim de tratar fisicamente do corpo pelos meios físicos e de influenciar a alma pela força moral.
Uma última reflexão. Aconselham-vos a procurar de preferência os pobres que não têm outros recursos além da caridade do hospital. Não estou inteiramente de acordo com este conselho. Jesus dizia que o médico tem por missão cuidar dos doentes e não dos que estão com saúde. Lembrai-vos que na questão de saúde moral há doentes por toda parte, e que o dever do médico é ir a todos os lugares onde o seu socorro é necessário.
 
Abade Príncipe DE HOHENLOHE.
 
II
 
(Sociedade de Paris, 15 de março de 1867 - Médium, Sr. Desliens.)
 
Numa comunicação recente, eu falava da mediunidade curadora, de um ponto de vista mais amplo do que o que até aqui foi considerado, e a fazia consistir antes no tratamento moral que no tratamento físico dos doentes ou, pelo menos, reunia esses dois tratamentos em um só. Pedirei me permitais dizer algumas palavras a esse respeito.
O sofrimento, a doença, a própria morte, nas condições sob as quais as conheceis, não são mais especialmente o quinhão dos mundos habitados por Espíritos inferiores ou pouco adiantados? O desenvolvimento moral não tem por objetivo principal conduzir a Humanidade à felicidade, fazendo-a adquirir conhecimentos mais completos, desembaraçando-a das imperfeições de toda natureza, que retardam sua marcha ascensional para o infinito? Ora, melhorando o Espírito dos doentes, ele não os põe em melhores condições para suportar seus sofrimentos físicos? Combatendo os vícios, as más inclinações, que são a fonte de quase todas as desorganizações físicas, não se põem essas desorganizações na impossibilidade de se reproduzirem? Destruindo a causa, necessariamente se impede o efeito de manifestar-se novamente.
A mediunidade curadora pode, portanto, comportar duas formas, e essa faculdade não estará em seu apogeu, naqueles que a possuem, senão quando eles reunirem em si essas duas maneiras de ser. Ela pode compreender unicamente o alívio material dos doentes, e então se dirige aos encarnados; ela pode compreender a melhora moral dos indivíduos e, neste caso, se dirige tanto aos Espíritos quanto aos homens; ela pode compreender, enfim, tanto o melhoramento moral quanto o alívio material e, neste caso, tanto a causa quanto o efeito poderão ser combatidos vitoriosamente. O tratamento dos Espíritos obsessores é, com efeito, alguma coisa além de uma espécie de influência semelhante à mediunidade curadora exercida de comum acordo por médiuns e Espíritos sobre uma personalidade desencarnada?
A mediunidade curadora abarca, portanto, ao mesmo tempo, a saúde moral e a saúde física, o mundo dos encarnados e o mundo dos Espíritos.
 
Abade Príncipe DE HOHENLOHE.
 
III
 
(Paris, 24 de março de 1867 - Médium, Sr. Rul)
 
Venho continuar a instrução que dei a um médium da Sociedade. Por que duvidáveis que tivesse vindo ao vosso apelo? Não sabeis que um bom Espírito se sente sempre feliz por ajudar os seus irmãos da Terra na via do melhoramento e do progresso?
Hoje sabeis o que eu disse do vasto papel reservado à mediunidade curadora; sabeis que, conforme o estado de vossa alma e as aptidões do vosso organismo, podeis, se Deus vo-lo permitir, tanto curar as dores físicas quanto os sofrimentos morais, ou ambos. Duvidais de vossa capacidade de fazer uma ou outra coisa, porque conheceis as vossas imperfeições, mas Deus não pede a perfeição, a pureza absoluta dos homens da Terra. Sob esse ponto de vista, ninguém entre vós seria digno de ser médium curador. Deus pede que vos melhoreis, que façais esforços constantes para vos purificardes e leva em conta a vossa boa vontade.
Considerando-se que desejais seriamente aliviar os vossos irmãos que sofrem física e moralmente, tende confiança e esperai que o Senhor vos conceda esse favor. No entanto, repito, não sejais exclusivistas na escolha dos vossos doentes. Todos, sejam quem forem, ricos ou pobres, crentes ou incrédulos, bons ou maus, todos têm direito ao vosso socorro. Acaso o Senhor priva os maus do benéfico calor do sol que aquece, que reanima, que vivifica? Acaso a luz é recusada a quem quer que não se prosterne ante a bondade do Todo-Poderoso? Curai, pois, quem quer que sofra, e aproveitai o bem que proporcionastes ao corpo para purificar a alma ainda mais sofredora e para ensiná-la a orar. Não vos magoeis pelas negações que encontrardes; fazei sempre a vossa obra de caridade e de amor e não duvideis que o bem, embora adiado para uns, jamais ficará perdido. Melhorai-vos pela prece, pelo amor ao Senhor e aos vossos irmãos, e não duvideis que o Todo-Poderoso não vos dê ocasiões frequentes de exercer vossa faculdade mediúnica. Ficai felizes quando, após a cura, vossa mão apertar a do vosso irmão reconhecido e ambos, prosternados aos pés de vosso Pai celeste, orardes juntos para agradecer-lhe e adorá-lo. Ficai mais felizes ainda quando, acolhidos pela ingratidão, depois de haverdes curado o corpo, impotentes para curar a alma endurecida, elevardes o vosso pensamento ao Criador, porque vossa prece será a primeira centelha destinada a acender mais tarde o facho que brilhará aos olhos do vosso irmão curado de sua cegueira, e vós vos direis que quanto mais um doente sofre, mais cuidados lhe deve dar o médico.
Coragem, irmãos, esperai e aguardai que os bons Espíritos que vos dirigem, vos inspirem quando devereis começar, junto aos vossos irmãos que sofrem, a aplicação de vossa nova faculdade mediúnica. Até lá orai, progredi pela caridade moral, pela influência do exemplo, e não deixeis jamais fugir a menor ocasião de esclarecer os vossos irmãos. Deus vela sobre cada um de vós, e aquele que hoje é o mais incrédulo, poderá amanhã ser o mais fervoroso e o mais crente.

Abade Príncipe DE HOHENLOHE
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 13 de Julho de 2016, 14:59
Grupo Curador de Marmande

INTERVENÇÃO DOS PARENTES NAS CURAS
Revista Espírita junho / 1867

“Marmande, 12 de maio de 1867.

“Caro senhor Kardec,

“Há algum tempo vos entretive com o resultado de nossos trabalhos espíritas, que continuamos com perseverança e, sinto-me feliz em dizê-lo, com sucessos satisfatórios. Os obsidiados e os doentes são sempre objeto de nossos cuidados exclusivos. A moralização e os fluidos são os principais meios indicados por nossos guias.

“Nossos Espíritos bons, que se devotam à propagação do Espiritismo, tomaram também a tarefa de vulgarizar o magnetismo. Em quase todas as consultas, para os diversos casos
de moléstias, eles pedem o auxílio dos parentes: um pai, uma mãe, um irmão ou uma irmã, um vizinho, um amigo são requisitados para dar passes. Essas bravas criaturas ficam surpresas de debelar crises, de acalmar dores. Parece-me que este meio é engenhoso e
seguro para fazer adeptos; por isso a confiança se estende cada vez mais em nosso país. Os grupos que se ocupam de curas talvez fizessem bem em dar os mesmos conselhos; os felizes resultados obtidos provariam de maneira evidente a verdade do magnetismo,
e dariam a certeza de que a faculdade de curar ou aliviar o semelhante não é privilégio exclusivo de algumas pessoas; que, para tanto, não é preciso senão boa vontade e confiança em Deus. Não falo aqui de uma boa saúde, que é condição indispensável,
compreende-se. Reconhecendo-se que se tem tal poder em si mesmo, adquire-se a certeza de que não há astúcia, nem sortilégio, nem pacto com o diabo. É, pois, um meio de destruir as idéias supersticiosas.

“Eis alguns exemplos de curas obtidas.

“Uma menina de 6 ou 7 anos estava acamada, com uma dor de cabeça contínua, febre, tosse freqüente com expectoração e dor viva do lado esquerdo e também nos olhos, que, de vez em quando, se cobriam de uma substância leitosa, formando uma espécie de belida. Sob os cabelos, a pele do crânio estava coberta de películas brancas; urina espessa e turva. Fraca e abatida, a criança não comia nem dormia. O médico acabara por suspender as visitas. A mãe, pobre, em presença de sua filha doente e abandonada, veio me procurar. Consultados, nossos guias prescreveram como único remédio a imposição das mãos, os passes fluídicos por parte da mãe, recomendando-me que fosse, durante alguns dias, fazer-lhe ver como deveria se conduzir. Comecei por drenar as vesículas e fazer secá-las. Depois de três dias de passes e de imposição das mãos sobre a cabeça, os rins e o peito, efetuadas a título de lições, mas feitas com alma, a criança pediu para se levantar; a febre tinha passado e todos os acidentes descritos acima desapareceram ao
cabo de dez dias.

“Esta cura, que a mãe qualificava de miraculosa, fez que me chamassem dois dias mais tarde, junto a outra menina de 3 ou 4 anos, que tinha febre. Depois dos passes e imposição das mãos, a febre cessou, desde o primeiro dia.

“As curas de algumas obsessões não nos dão menos satisfação e confiança. Maria B..., jovem de 21 anos, de Samazan, perto de Marmande, punha-se nua como um bicho, corria nos campos e ia deitar-se ao lado do cachorro num buraco de palheiro. A moralização do obsessor por nossa parte e os passes fluídicos feitos pelo marido, conforme as nossas instruções, logo a livraram. Toda a comuna de Samazan foi testemunha da impotência da Medicina para curá-la, e da eficácia do meio simples empregado para trazê-la ao estado normal.

“A Sra. D..., de 22 anos, da comuna de Santa Marta, não muito longe de Marmande, caía em crises extraordinárias e violentas; berrava, mordia, rolava-se, sentia golpes terríveis no
estômago, desfalecia e, às vezes, ficava quatro ou cinco horas inconsciente; uma vez passou oito dias sem recobrar a lucidez. Em vão o Dr. D... lhe havia prestado cuidados. O marido, depois de ter corrido à busca de profissionais, sacerdotes da região reputados como curadores e exorcistas, adivinhos, pois confessou os haver consultado, dirigiu-se a nós, pedindo que nos ocupássemos de sua mulher, se, como lhe haviam contado, estivesse em nós o poder de curá-la. Prometemos escrever-lhe, para indicar o que deveria fazer.

“Consultados, nossos guias disseram: Cessem qualquer tratamento médico: os remédios seriam inúteis; que o marido eleve sua alma a Deus, imponha as mãos sobre a fronte da esposa e lhe dê passes fluídicos com amor e confiança; que observe pontualmente as recomendações que lhe vamos fazer, por mais contrariado que possa ficar (seguem as recomendações, absolutamente pessoais), e bem se compenetre da ideia que estas são necessárias em benefício de sua pobre atormentada, e em breve terá a sua recompensa.

“Também nos disseram que chamássemos e moralizássemos o Espírito obsessor, sob o nome de Lucie Cédar. Este Espírito revelou a causa que o levava a atormentar a Sra. D...
Esta causa se ligava precisamente às recomendações feitas ao marido. Tendo este último se conformado a tudo, teve a satisfação de ver sua mulher completamente livre no espaço de dez dias. Disse-me: Já que os Espíritos se comunicam, não me admiro de que vos tenham dito o que só era conhecido por mim, mas estou muito mais admirado que nenhum remédio tenha podido curar minha mulher; se me tivesse dirigido a vós desde o começo, teria 150 francos no bolso, que aí não estão mais, pois os gastei em medicamentos.

“Aperto a vossa mão muito cordialmente.”

Dombre

Estes casos de cura nada têm de mais extraordinários que os que já temos citado, provenientes do mesmo centro; mas provam, pela persistência do sucesso, há vários anos, o que se pode obter pela perseverança e pela dedicação, razão por que nunca lhes falta a assistência dos Espíritos bons. Eles só abandonam os que deixam o bom caminho, o que é fácil de reconhecer pelo declínio do sucesso, ao passo que sustentam, até o último momento, mesmo contra os ataques da malevolência, aqueles cujo zelo, sinceridade,
abnegação e humanidade são à prova das vicissitudes da vida. Elevam o que se humilha e humilham o que se eleva. Isto se aplica a todos os gêneros de mediunidade.

Nada desanimou o Sr. Dombre. Ele lutou energicamente contra todos os entraves que lhe foram suscitados e deles triunfou; desprezou as injúrias e as ameaças dos nossos adversários comuns e os forçou ao silêncio por sua firmeza; não poupou seu tempo, nem seu esforço, nem os sacrifícios materiais; jamais procurou prevalecer-se do que faz para pôr-se em evidência ou disso fazer um trampolim qualquer; seu desinteresse moral iguala o seu desinteresse material; se é feliz por triunfar, é porque cada sucesso o é para a doutrina. Eis os títulos sérios ao reconhecimento de todos os espíritas presentes e futuros, títulos
aos quais é preciso associar os membros do grupo que o secundam com tanto zelo e abnegação, e cujos nomes lamentamos não poder citar.

O fato mais característico assinalado nesta carta é o da intervenção dos parentes e amigos dos doentes nas curas. É uma ideia nova, cuja importância não escapará a ninguém, porque sua propagação não pode deixar de ter resultados consideráveis. É a vulgarização anunciada da mediunidade curadora. Os espíritas notarão quanto os Espíritos são engenhosos nos meios tão variados que empregam, para fazer penetrar a ideia nas massas.
Como não o seria, desde que se lhe abrem, incessantemente, novos canais e lhe são dados os meios de bater em todas as portas?

Esta prática, pois, nunca seria demasiado encorajada. Todavia, não se deve perder de vista que os resultados estarão na razão da boa direção dada à coisa pelos chefes dos grupos
curadores, e do impulso que souberem imprimir por sua energia, seu devotamento e seu próprio exemplo.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 14 de Julho de 2016, 14:36
Diferentes maneiras de fazer a caridade
Revista Espírita, outubro / 1861

 
(Sociedade Espírita de Lyon)
 
       NOTA: A comunicação seguinte foi recebida em nossa presença, no grupo de Perrache:
 
       “Sim, meu amigos, virei sempre ao vosso meio, sempre que for chamado. Ontem senti-me muito feliz entre vós, quando ouvi o autor dos livros que vos abriram os olhos testemunhar o desejo de vos ver reunidos, para vos dirigir palavras benevolentes. Para vós todos é ao mesmo tempo um grande ensinamento e poderosa lembrança. Apenas, quando vos falou do amor e da caridade, senti que diversos entre vós se perguntavam: 'Como fazer a caridade? Às vezes não tenho nem o necessário.'

       A caridade, meus amigos, se faz de muitas maneiras. Podeis fazê-la por pensamento, palavras e em ações. Em pensamento, orando pelos pobres abandonados, que morreram sem ao menos ter visto a luz. Uma prece de coração os alivia. Por palavras, dirigindo aos vossos colegas de todos os dias alguns conselhos bons. Dizei aos homens amargurados pelo desespero e pelas privações, e que blasfemam o nome do Todo-Poderoso: 'Eu era como vós. Eu sofria, era infeliz, mas acreditei no Espiritismo e, vede, estou agora radiante'. Aos velhos que vos disserem: 'É inútil; estou no fim da carreira; morrerei como vivi'. Respondei-lhes: 'Deus tem para vós todos uma justiça igual. Lembrai-vos dos trabalhadores da última hora'. Às crianças, já viciadas por seu ambiente, que vão vagar pelas estradas, prontas a sucumbir a todas as más tentações, dizei: 'Deus vos vê, caros meninos', e não temais repetir-lhes muitas vezes estas suaves palavras. Elas acabarão germinando em suas jovens inteligências e, em vez de pequenos vagabundos, tereis feito homens. Também isto é caridade.

       Vários dentre vós também dizem: ‘Ora essa! Somos tão numerosos na Terra que Deus não pode ver-nos todos’. Escutai bem isto, meus amigos. Quando estais no pico de uma montanha, vosso olhar não abarca os milhares de grãos de areia que formam essa montanha? Então! É assim que Deus vos vê. Ele vos dá o livre-arbítrio, da mesma forma que dais a esses grãos de areia a liberdade de ir e vir, ao sabor do vento que os dispersa. Apenas Deus, em sua infinita misericórdia, pôs no fundo de vosso coração uma sentinela vigilante, chamada consciência. Escutai-a. Ela só vos dará bons conselhos. Por vezes vós a entorpeceis, opondo-lhe o Espírito do mal, e então ela se cala. Tende certeza, porém, que a pobre abandonada se fará ouvir, tão logo lhe tenhais deixado perceber a sombra do remorso. Escutai-a; interrogai-a, e muitas vezes vos achareis consolados pelo conselho que tiverdes recebido.

       Meus amigos, a cada regimento novo o general entrega uma bandeira. Eu vos dou esta máxima do Cristo: 'Amai-vos uns aos outros'. Praticai esta máxima. Uni-vos em torno desta bandeira e dela recebereis a felicidade e a consolação”.

 
Vosso Espírito protetor
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 20 de Julho de 2016, 14:28
Transmissão do pensamento
 
Meu fantástico
 
Revista Espírita, outubro / 1864
 

 
       Sob este último título, lê-se na Presse Littéraire de 15 de março de 1854, o artigo seguinte, assinado por Émile Deschamps:
 
       “Se o homem só acreditasse no que compreende, não acreditaria em Deus, nem em si mesmo, nem nos astros que rolam sobre sua cabeça, nem na erva que cresce sob seus pés.
       Milagres, profecias, visões, fantasmas, prognósticos, pressentimentos, coincidências sobrenaturais, etc., que pensar de tudo isto? Os espíritos fortes se saem com duas palavras: mentira ou acaso. Nada de mais cômodo. As almas supersticiosas se saem bem, ou não se saem. Prefiro mais estas almas que aqueles espíritos. Com efeito, é preciso ter imaginação para que ela seja doente, ao passo que basta ser eleitor e assinante de dois ou três jornais industriais para saber muito sobre isso e crer tão pouco quanto Voltaire. E depois, prefiro a loucura à tolice, a superstição à incredulidade; mas o que prefiro acima de tudo é a verdade, a luz, a razão; busco-as com uma fé viva e um coração sincero; examino todas as coisas e tomo o partido de não tomar partido por coisa alguma.
       Vejamos. Que! O mundo material e visível está cheio de impenetráveis mistérios, de fenômenos inexplicáveis, e não se quereria que o mundo intelectual, que a vida da alma, que já é um milagre, também tivesse os seus milagres e os seus mistérios! Por que tal bom pensamento, tal fervorosa prece, tal outro desejo não teriam o poder de produzir ou atrair certos acontecimentos, bênçãos ou catástrofes? Por que não existiriam causas morais, como existem causas físicas, das quais não nos damos conta? E por que os germes de todas as coisas não seriam depostos e fecundados na terra do coração e da alma, para desabro­char mais tarde, sob a forma palpável de fatos? Ora, quando Deus, em raras circunstâncias, e para alguns de seus filhos, se dignou levantar a ponta do véu eterno e espalhar sobre sua fronte um raio fugidio da chama da presciência, guardemo-nos de gritar que é absurdo e assim blasfemar contra a luz e a própria verdade.
       Eis uma reflexão que tenho feito muitas vezes: Foi dado às aves e a certos animais prever e anunciar a tempestade, as inundações, os terremotos. Diariamente os barômetros nos dizem o tempo que fará amanhã; e o homem não poderia, por um sonho, uma visão, um sinal qualquer da Providência, ser advertido algumas vezes de algum acontecimento futuro que interessa à sua alma, à sua vida, à sua eternidade? Não tem pois também o Espírito a sua atmosfera, cujas variações possa pressentir? Enfim, seja qual for a miséria do maravilhoso neste século muito positivo, haveria ainda encanto e utilidade em retirá-lo, se todos aqueles que lhe refletem fracos clarões levassem a um foco comum todos esse raios divergentes; se cada um, depois de haver conscientemente interrogado suas recordações, redigisse de boa-fé e depositasse nos arquivos uma ata circunstanciada do que experimentou, do que lhe adveio de sobrenatural e de miraculoso. Talvez um dia se encontrasse alguém que, analisando os sintomas e os acontecimentos, chegasse a recompor, em parte, uma ciência perdida. Em todo caso, ele comporia um livro que valeria muitos outros.
       Quanto a mim, sou aparentemente o que se chama um sujeito, porque tive de tudo isto em minha vida, aliás tão obscura; e sou o primeiro a depositar aqui o meu tributo, persuadido de que essa visão interior tem sempre uma espécie de interesse. Por menor que seja o maravilhoso que vos dou, leitores, isso passou-se em minha vida real. Desde quando aprendi a ler, tudo o que acontece de sobrenatural eu registro no papel. São memórias de um gênero singular.
 
       “Em fevereiro de 1846, eu viajava pela França. Chegando a uma rica e grande cidade, fui passear na frente dos seus abundantes e belos magazines. Começou a chover; abriguei-me numa elegante galeria; de repente fiquei imóvel; meus olhos não se podiam desviar da figura de uma jovem, sozinha atrás de uma vitrina de joias. A moça era muito bela, mas não era a sua beleza que me atraía. Não sei que interesse misterioso, que laço inexplicável dominava e prendia todo o meu ser. Era uma simpatia súbita e profunda, desligada de qualquer mistura sensual, mas de uma força irresistível, como o desconhecido em todas as coisas. Fui empurrado como uma máquina para a loja, por um poder sobrenatural. Comprei alguns pequenos objetos e paguei, dizendo:
       - Obrigado, senhorita Sara. A jovem olhou-me com um ar um pouco surpreendido.
      - Admirai-vos, continuei, que um estranho saiba o vosso nome, um dos vossos nomes; mas se quiserdes pensar atentamente em todos os vossos nomes, eu os direi sem hesitar. Pensareis?
       - Sim, senhor, respondeu ela, meio risonha, meio trêmula.
       - Pois bem! continuei, olhando-a fixamente no rosto, chamais-vos Sara, Adèle, Benjamine N...
     - Está certo, replicou ela, e depois de alguns segundos de estupor, começou a rir francamente, e eu vi que ela pensava que eu tivesse tido informações na vizinhança, o que me divertiu.
       Mas eu, que sabia bem que disso não sabia uma palavra, fiquei chocado com essa adivinhação instantânea.
      No outro dia, e nos seguintes, corri à bela loja. Minha adivinhação se renovava a cada momento. Eu lhe pedia que pensasse em algo, sem mo dizer e quase que imediatamente lia em sua fronte esse pensamento não verbalizado. Eu lhe pedia que escrevesse com um lápis, algumas palavras que me ocultava e, depois de olhá-la um minuto, eu escrevia as mesmas palavras, na mesma ordem. Eu lia no seu pensamento como num livro aberto, e ela não lia no meu, eis a minha superioridade, mas ela me impunha suas ideias e emoções. Se ela pensasse seriamente num objeto; se ela repetisse intimamente as palavras de um escrito, de súbito eu adivinhava tudo. O mistério estava entre o seu cérebro e o meu, e não entre minhas faculdades de intuição e as coisas materiais. Seja como for, havia-se estabelecido entre nós uma relação tanto mais íntima quanto mais pura.
       Uma noite escutei no ouvido uma voz forte que me gritava: Sara está doente, muito doente! Corri à sua casa; um médico a velava e esperava uma crise. Na véspera, à noite, Sara tinha voltado com febre ardente; o delírio tinha continuado durante toda a noite. O médico chamou-me à parte e me disse que temia muito. Dessa peça eu via em cheio o rosto de Sara, e com minha intuição superando a própria inquietude, eu lhe disse baixinho: Doutor, quer saber de que imagens está povoado o seu sono febril? Neste momento ela se julga na grande Ópera de Paris, onde jamais esteve, e uma dançarina corta, entre outras ervas, uma planta de cicuta e lha atira dizendo: É para ti. O médico julgou-me em delírio. Alguns minutos depois a doente despertou pesadamente, e suas primeiras palavras foram: ‘Oh! Como a Ópera é bonita! Mas, por que essa cicuta que me atira aquela bela ninfa?’ O médico ficou estupefato. Foi administrada a Sara uma poção em que entrava a cicuta e ela ficou curada nalguns dias.”
 
       Os exemplos de transmissão do pensamento são muito frequentes, não talvez de maneira tão característica quanto no fato acima, mas sob formas diversas. Quantos fenômenos assim se passam diariamente aos nossos olhos, que são como os fios condutores da vida espiritual, e aos quais, contudo, a Ciência não se digna conceder a menor atenção! Certamente os que os repelem não são todos materialistas; muitos admitem uma vida espiritual, mas sem relação direta com a vida orgânica. No dia em que essas relações forem reconhecidas como lei fisiológica, ver-se-á realizar-se um imenso progresso, porque só então a Ciência terá a chave de uma porção de efeitos aparentemente misteriosos, que prefere negar, por não poder explicá-los à sua maneira e com os seus meios limitados às leis da matéria bruta.
       Ligação íntima entre a vida espiritual e a vida orgânica durante a vida terrena; destruição da vida orgânica e persistência da vida espiritual após a morte; ação do fluido perispiritual sobre o organismo; reação incessante do mundo invisível sobre o mundo visível e reciprocamente, tal é a lei que o Espiritismo vem demonstrar, e que abre à Ciência e ao homem moral horizontes completamente novos.
       Por que lei da fisiologia puramente material poder-se-iam explicar os fenômenos do gênero do acima referido? Para que o Sr. Deschamps pudesse ler tão claramente no pensamento da moça, era preciso um intermediário entre ambos, um elo qualquer. Medite-se bem o artigo precedente e reconhecer-se-á que esse elo não passa da radiação fluídica, que dá a visão espiritual, visão que não é barrada pelos corpos materiais.
     
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 20 de Julho de 2016, 14:29
 Sabe-se que os Espíritos não necessitam da linguagem articulada. Eles se entendem sem o recurso da palavra, pela só transmissão do pensamento, que é a linguagem universal. Assim acontece por vezes entre os homens, porque os homens são Espíritos encarnados e, por essa razão, gozam, em maior ou menor grau, dos atributos e faculdades do Espírito.
       Mas, então, por que a moça não lia o pensamento do Sr. Deschamps? Porque num a visão espiritual era desenvolvida, no outro, não. Segue-se que ele poderia tudo ver, ler nos espelhos espirituais, por exemplo, ou ver à distância, à maneira dos sonâmbulos? Não, porque sua faculdade podia ser desenvolvida apenas num sentido especial e parcialmente. Poderia ele ler com a mesma facilidade o pensamento de todo mundo? Ele não o diz, mas é provável que não, porque podem existir relações fluídicas que facilitem essa transmissão de indivíduo a indivíduo e não existir do próprio indivíduo para uma outra pessoa. Ainda não conhecemos senão imperfeitamente as propriedades desse fluido universal, agente tão poderoso e que desempenha tão importante papel nos fenômenos da Natureza. Conhecemos o princípio, e já é muito para nos darmos conta de muitas coisas; os detalhes virão a seu tempo.
     
Comunicado o fato acima à Sociedade de Paris, um Espírito deu a respeito a instrução seguinte:
 
(Sociedade Espírita de Paris, 8 de julho de 1864 - Médium: Sr. A. Didier)
 
       Os ignorantes - e os há muitos - ficam cheios de dúvidas e de inquietude quando ouvem falar de fenômenos espíritas. Segundo eles, a face do mundo está derrubada, a intimidade do coração, dos sentimentos, a virgindade do pensamento são lançadas através do mundo e entregues à mercê do primeiro que vier. Com efeito, o mundo estaria singularmente mudado, e a vida privada não mais ficaria oculta por trás da personalidade de cada um, se todos os homens pudessem ler no espírito uns dos outros.
       Um ignorante nos diz com muita ingenuidade: Mas a justiça, as perseguições da polícia, as operações comerciais, governamentais, poderiam ser consideravelmente revistas, corrigidas, esclarecidas, etc., com o auxílio desses processos. Os erros estão muito difundidos. A ignorância tem a particularidade de esquecer completamente o objetivo das coisas para lançar o espírito inculto numa série de incoerências.
       Jesus tinha razão de dizer: ‘Meu reino não é deste mundo’, o que também significava que neste mundo as coisas não se passam como no seu reino. O Espiritismo, que em tudo e por tudo é o espiritualismo do Cristianismo, pode igualmente dizer às ambiciosas e terroristas ignorâncias, que o seu grande objetivo não é de dar montanhas de ouro a um; de deixar a consciência de um ser fraco à vontade de um ser forte e de reunir a força e a fraqueza num duelo eternamente inevitável e iminente. Não. Se o Espiritismo proporciona satisfações, são as da calma, da esperança e da fé. Se às vezes ele adverte por pressentimentos, ou pela visão adormecida ou desperta, é que os Espíritos sabem perfeitamente que um fato caritativo e particular não transtornará a superfície do globo. Ademais, se observarmos a marcha dos fenômenos, o mal aí tem uma parte mínima. A ciência funesta parece relegada aos alfarrábios dos velhos alquimistas, e se Cagliostro voltasse, certamente não viria armado com a varinha mágica ou o frasco encantado, mas com sua força elétrica, comunicativa, espiritualista e sonambúlica, força que todo ser superior possui em si mesmo, e que toca ao mesmo tempo o cérebro e o coração.
       A adivinhação era o maior dom de Jesus, como eu dizia ultimamente. (O Espírito alude a outra comunicação). Destinados a nos tornarmos superiores, como Espíritos, peçamos a Deus uma parte das luzes que ele concedeu a certos seres privilegiados, que a mim próprio concedeu, e que eu poderia ter espalhado mais santamente.
 
MESMER
 
       OBSERVAÇÃO: Não há uma só das faculdades concedidas ao homem da qual ele não possa abusar, em virtude de seu livro-arbítrio. Não é a faculdade que é má em si mesma, mas o uso que dela se faz. Se os homens fossem bons, nenhuma delas seria temível, porque ninguém as usaria para o mal. No estado de inferioridade em que ainda se acham os homens na Terra, a penetração do pensamento, se fosse geral, sem dúvida seria uma das mais perigosas, porque se tem muito a ocultar, e muitos podem abusar. Mas, sejam quais forem os inconvenientes, se ela existe, é um fato que deve ser aceito, de bom grado ou de mau grado, pois não se pode suprimir um efeito natural. Mas Deus, que é soberanamente bom, mede a extensão dessa faculdade pela nossa fraqueza. Ele no-la mostra de vez em quando, para melhor nos fazer compreender nossa essência espiritual, e nos advertir a trabalhar a nossa depuração para não termos que temê-la.

Allan Kardec
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 24 de Julho de 2016, 18:22
SOBRE A EXPIAÇÃO E A PROVA
Revista Espírita Setembro / 1863

Moulins, 8 de julho de 1863.
 
Venho submeter à vossa apreciação uma questão que foi discutida em nosso pequeno grupo e não pudemos resolver por nossas próprias luzes. Os próprios Espíritos que consultamos não responderam muito categoricamente para nos tirar da dúvida.

Redigi uma pequena nota, que tomo a liberdade de vos remeter, na qual reuni os motivos de minha opinião pessoal, que difere da de vários colegas. A opinião destes últimos é que a expiação ocorre efetivamente durante a encarnação, apoiando-se no fato de que essa expressão foi empregada em muitas comunicações, e notadamente no Livro dos Espíritos.

Venho, pois, vos pedir a extrema bondade de nos dar a vossa opinião sobre essa questão. Vossa decisão para nós será lei, e de boa vontade cada um sacrificará sua maneira de ver, para colocar-se sob a bandeira que plantastes e sustentais de maneira tão firme e tão sábia.

Recebei, senhor e caro mestre, etc.

T. T.

“Várias comunicações dadas por Espíritos diferentes qualificam indistintamente como expiações e provas, males e tribulações que formam o quinhão de cada um de nós durante a encarnação na Terra.

Dessa aplicação à mesma ideia, de duas palavras muito diversas na sua significação, resulta uma certa confusão, sem dúvida pouco importante para os Espíritos desmaterializados, mas que, entre os encarnados, dá lugar a discussões que seria bom fazer cessar por uma definição clara e precisa e explicações fornecidas pelos Espíritos superiores que fixariam, de modo irrevogável, esse ponto de doutrina.

“Para começar, tomando os dois vocábulos no sentido absoluto, parece que a expiação seria o castigo, a pena imposta para o resgate de uma falta, com o perfeito conhecimento, por parte do culpado punido, da causa do castigo, isto é, da falta a expiar. Compreende-se que, neste sentido, a expiação seja sempre imposta por Deus.

“A prova não implica qualquer ideia de reparação. Ela pode ser voluntária ou imposta, mas não é a consequência rigorosa e imediata das faltas cometidas.

“A prova é um meio de constatar o estado de uma coisa, para reconhecer se é de boa qualidade. Assim, submete-se a uma prova uma corda, uma ponte, uma peça de artilharia, não por causa de seu estado anterior, mas para certificar-se de que estão adequadas ao serviço a que se destinam.

“Assim, por extensão, tem-se chamado de provas da vida ao conjunto de meios físicos ou morais que revelam a existência ou ausência das qualidades da alma que estabelecem a sua perfeição ou os progressos por ela feitos na busca dessa perfeição final.

“Parece, pois, lógico admitir que a expiação propriamente dita, e no sentido absoluto do vocábulo, ocorre na vida espiritual, após a desencarnação ou morte corpórea; que ela possa ser mais ou menos longa, mais ou menos penosa, de acordo com a gravidade das faltas, mas que é completa no outro mundo e termina sempre por um ardente desejo de ter uma nova reencarnação, durante a qual as provas escolhidas ou impostas deverão permitir que a alma faça um progresso para a perfeição que as faltas anteriores lhe impediram de realizar.

“Assim, pois, não conviria admitir que há expiação na Terra, mesmo que excepcionalmente, porque seria preciso admitir, também, o conhecimento das faltas punidas. Ora, tal conhecimento só existe na vida de além-túmulo. A expiação sem tal conhecimento seria uma barbárie sem utilidade e não se conformaria nem com a justiça nem com a bondade de Deus.

“Durante a encarnação, não se pode conceber senão provas, porque, sejam quais forem os males e tribulações desta Terra, é impossível considerá-los como podendo constituir uma expiação suficiente para faltas de qualquer gravidade. Pensa-se que um culpado, entregue à justiça dos homens, estaria bem punido se o condenassem a viver como o menos feliz de nós?

Não exageremos, pois, a importância dos males desta Terra para nos atribuirmos o mérito de havê-los suportado. A prova consiste mais na maneira pela qual os males foram suportados do que na sua intensidade que, como a felicidade terrena, é sempre relativa para cada indivíduo.

“Os caracteres distintivos da expiação e da prova são que a primeira é sempre imposta, e sua causa deve ser conhecida por aquele que a sofre, ao passo que a segunda pode ser voluntária, isto é, escolhida pelo Espírito, ou mesmo imposta por Deus, na falta de escolha. Além disso, ela se concebe muito bem sem causa conhecida, pois não é necessariamente a consequência de faltas passadas.

“Numa palavra: a expiação cobre o passado; a prova abre o futuro.

“O número de julho da Revista Espírita contém um artigo intitulado Expiação terrena, que pareceria contrário à opinião emitida acima. Contudo, lendo-o atentamente, ver-se-á que a expiação verdadeira se deu na vida espírita, e que a posição que Max ocupou na sua última encarnação realmente não é senão o gênero de provas que ele escolheu, ou que lhe foram impostas, e das quais saiu vitorioso, mas que, durante toda essa encarnação, ignorando sua posição anterior, ele não poderia em nada aproveitar uma expiação sem objetivo.

“Talvez esta seja mais uma questão de palavras que de princípios. Com efeito, foi dito muitas vezes: “Não vos atenhais às palavras; vede o fundo do pensamento.” Em todo o caso, para nós que nos entendemos por meio de palavras, convém estarmos bem fixados no sentido que a elas ligamos.”

Resposta. A distinção estabelecida pelo autor da nota acima, entre o caráter da expiação e o das provas é perfeitamente justa. Contudo, não poderíamos partilhar de sua opinião no que concerne à aplicação desta teoria à situação do homem na Terra.

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 24 de Julho de 2016, 18:22
A expiação implica necessariamente a ideia de um castigo mais ou menos penoso, resultado de uma falta cometida. A prova implica sempre a de uma inferioridade real ou presumível, porque o que chegou ao ponto culminante a que aspira, não mais necessita de provas.

Em certos casos, a prova se confunde com a expiação, isto é, a expiação pode servir de prova, e reciprocamente. O candidato que se apresenta para receber uma graduação, passa por uma prova. Se falhar, terá que recomeçar um trabalho penoso. Esse novo trabalho é a punição da negligência no primeiro. A segunda prova se torna, assim, uma expiação.

Para o condenado a quem se faz esperar um abrandamento ou uma comutação, se se conduzir bem, a pena é ao mesmo tempo uma expiação por sua falta e uma prova para sua sorte futura. Se, à sua saída da prisão, não estiver melhor, sua prova é nula e um novo castigo conduzirá a uma nova prova.

Agora, se considerarmos o homem na Terra, veremos que ele aí suporta males de toda sorte, e por vezes cruéis. Esses males têm uma causa. Ora, a menos que os atribuamos ao capricho do Criador, somos forçados a admitir que a causa está em nós mesmos, e que as misérias que experimentamos não podem ser resultado de nossas virtudes. Então elas têm sua fonte nas nossas imperfeições.

Se um Espírito encarnar-se na Terra em meio à fortuna, às honras e a todos os prazeres materiais, poder-se-á dizer que sofre a prova do arrastamento. Para aquele que cai na desgraça por sua conduta ou sua imprevidência, é a expiação de suas faltas atuais, e pode-se dizer que é punido por onde pecou. No entanto, o que dizer daquele que, desde seu nascimento, está a braços com necessidades e privações; que arrasta uma existência miserável e sem esperança de melhora; que sucumbe ao peso de enfermidades congênitas, sem ter ostensivamente nada feito para merecer tal sorte? Quer seja uma prova, quer uma expiação, a posição não é menos penosa e não seria mais justa do ponto de vista do nosso correspondente, porque se o homem não se lembra da falta, também não se lembra de haver escolhido a prova. Assim, há que buscar alhures a solução da questão.

Como todo efeito tem uma causa, as misérias humanas são efeitos que devem ter uma causa. Se essa causa não estiver na vida atual, deve estar numa vida anterior. Além disso, admitindo a justiça de Deus, tais efeitos devem ter uma relação mais ou menos íntima com os atos precedentes, dos quais eles são, ao mesmo tempo, castigo para o passado e prova para o futuro. São expiações no sentido de que são consequência de uma falta, e provas em relação ao proveito delas tirado. Diz-nos a razão que Deus não pode ferir um inocente. Logo, se somos feridos e se não somos inocentes, o mal que sentimos é o castigo, e a maneira de suportá-lo é a prova.

Mas, acontece muitas vezes que a falta não se acha nesta vida. Então acusa-se a justiça de Deus, nega-se a sua bondade, duvida-se, até, de sua existência. Aí, precisamente, está a prova mais escabrosa: a dúvida sobre a Divindade. Quem quer que admita um Deus soberanamente justo e bom deve dizer que ele só agirá com sabedoria, mesmo naquilo que não compreendamos, e que se sofremos uma pena, é porque fizemos por merecer. É, pois uma expiação.

Pela grande lei da pluralidade das existências, o Espiritismo levanta completamente o véu sob o qual essa questão deixava obscuridade. Ele nos ensina que se a falta não tiver sido cometida nesta vida, tê-lo-á sido em outra, e que assim a justiça de Deus segue o seu curso, punindo-nos por onde havíamos pecado.

Vem a seguir a grave questão do esquecimento que, segundo o nosso correspondente, tira aos males da vida o caráter de expiação. É um erro. Dai-lhe o nome que quiserdes, mas não fareis que não sejam a consequência de uma falta. Se o ignorais, o Espiritismo vo-lo ensina.

Quanto ao esquecimento das faltas em si, ele não tem as consequências que lhe atribuís. Temos demonstrado alhures que a lembrança precisa dessas faltas teria inconvenientes extremamente graves, porque isso nos perturbaria e nos humilharia aos nossos próprios olhos e aos do próximo; porque traria uma perturbação nas relações sociais e porque, por isso mesmo, entravaria o nosso livre-arbítrio.

Por outro lado, o esquecimento não é tão absoluto quanto o supõem. Ele só se dá na vida exterior de relação, no próprio interesse da Humanidade, mas a vida espiritual não sofre solução de continuidade. Tanto na erraticidade quanto nos momentos de emancipação, o Espírito se lembra perfeitamente, e essa lembrança lhe deixa uma intuição que se traduz na voz da consciência, que o adverte do que deve ou não deve fazer. Se ele não a escuta, então é culpa sua. Além disso, o Espiritismo dá ao homem um meio de remontar ao seu passado, senão aos atos precisos, ao menos aos caracteres gerais desses atos que ficaram mais ou menos desbotados na sua vida atual. Pelas tribulações que suporta, expiações ou provas, ele deve concluir que foi culpado. Pela natureza dessas tribulações, ajudado pelo estudo de suas tendências instintivas, e apoiando-se no princípio de que a mais justa punição é a consequência da falta, ele pode deduzir seu passado moral. Suas tendências más lhe ensinam o que resta de imperfeito a corrigir em si. A vida atual é para ele um novo ponto de partida. Ele aí chega rico ou pobre de boas qualidades, basta-lhe, pois, estudar-se a si mesmo para ver o que lhe falta, e dizer para si mesmo: “Se sou punido, é porque pequei.” E a própria punição lhe dirá o que fez.

Citemos uma comparação.

Suponhamos um homem condenado a tantos anos de trabalhos forçados, e aí sofrendo um castigo especial, mais ou menos rigoroso, conforme à sua falta; suponhamos, ainda, que ao entrar na prisão ele perca a lembrança dos atos que para lá o conduziram. Não poderá ele dizer para si mesmo: “Se estou na prisão, é que fui culpado, pois não se condena gente virtuosa, portanto, tratemos de nos tornarmos bom, para não voltarmos quando daqui sairmos.” Quer ele saber o que fez? Estudando a lei penal, saberá quais os crimes que para ali conduzem, porque não se é posto a ferros por uma estroinice; da duração e da severidade da pena, concluirá o gênero dos que deve ter cometido. Para ter uma ideia mais exata, terá apenas que estudar aqueles para os quais ele se sente instintivamente arrastado. Saberá, então, o que daí em diante deverá evitar para conservar a liberdade, e a isso será ainda excitado pelas exortações dos homens de bem, encarregados de instruí-lo e de guiá-lo no bom caminho. Se ele não tira proveito disso, sofrerá as consequências. Tal a situação do homem na Terra onde, como o grilheta, não pode ter sido posto por suas perfeições, desde que é infeliz e obrigado a trabalhar. Deus lhe multiplica os ensinamentos proporcionais ao seu adiantamento. Adverte-o incessantemente e o fere, até, para despertá-lo de seu torpor. Aquele que persiste no endurecimento não pode desculpar-se com a ignorância.

Em resumo, se certas situações da vida humana têm, mais particularmente, o caráter das provas, outras incontestavelmente têm o do castigo, e todo castigo pode servir de prova.

É um erro pensar que o caráter essencial da expiação seja o de ser imposta. Vemos diariamente na vida expiações voluntárias, sem falar dos monges que se maceram e se fustigam com a disciplina e o cilício. Assim, nada há de irracional em admitir que um Espírito na erraticidade escolha ou solicite uma existência terrena que o leve a reparar seus erros passados. Se tal existência lhe tivesse sido imposta, não teria sido menos justa, malgrado a ausência momentânea da lembrança, pelos motivos acima desenvolvidos. As misérias daqui são, pois, expiação, por seu lado efetivo e material, e provas, por suas consequências morais. Seja qual for o nome que se lhes dê, o resultado deve ser o mesmo: o melhoramento. Em presença de um objetivo tão importante, seria pueril fazer uma questão de princípio de uma questão de palavra. Isto provaria que se liga mais importância às palavras do que à coisa.

Temos prazer de responder às perguntas sérias e de elucidá-las, quando possível. A discussão é tanto mais útil com pessoas de boa-fé, que estudaram e querem aprofundar as coisas, pois é trabalhar para o progresso da ciência, quanto é ociosa com os que julgam sem conhecimento e querem saber sem se darem ao trabalho de aprender.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 29 de Julho de 2016, 15:19
Morte de um Espírita
Revista Espírita, setembro / 1859
 
(Sociedade de Paris, 8 de julho de 1859)
 
O Sr. J..., negociante do departamento de La Sarthe, falecido a 15 de junho de 1859, era, sob todos os pontos de vista, um homem de bem e de uma caridade sem limites. Tinha feito um estudo sério do Espiritismo e era um de seus fervorosos adeptos. Como assinante da Revista Espírita, estava em contato indireto conosco, sem que nos tivéssemos visto. Evocando-o, temos como objetivo não só corresponder ao desejo de seus parentes e amigos, como de lhe dar pessoalmente um testemunho de nossa simpatia e agradecer-lhe as gentilezas que ele dizia e pensava a nosso respeito. Além disso, era para nós motivo de estudo interessante, do ponto de vista da influência que pode ter o conhecimento aprofundado do Espiritismo sobre o estado da alma depois da morte.
1. - (Evocação).
- Aqui estou há muito tempo.
 
2. - Jamais tive o prazer de ver-vos. Não obstante, vós me reconheceis?
- Reconheço-vos muito bem, visto que frequentemente vos visitei e tive mais de uma conversa convosco, como Espírito, durante a minha vida.
 
OBSERVAÇÃO: Isto confirma o fato muito importante, do qual temos numerosos exemplos, das comunicações que entre si têm os homens, sem o saberem, durante a vida. Assim, durante o sono do corpo, os Espíritos viajam e se visitam reciprocamente. Despertando, conservam intuição das ideias que adquiriram nessas conversas ocultas, e cuja fonte ignoram. Desta maneira, temos durante a vida uma existência dupla: a corporal, que nos dá a vida de relação exterior, e a espírita, que nos dá a vida de relação oculta.
 
3. - Sois mais feliz do que na Terra?
- E sois vós que me perguntais?
 
4. - Compreendo. Entretanto, desfrutáveis de uma fortuna honradamente adquirida, que vos proporcionava os prazeres da vida. Tínheis a estima e a consideração granjeadas pela vossa bondade e vossa beneficência. Poderíeis dizer-nos em que consiste a superioridade de vossa felicidade atual?
- Consiste naturalmente na satisfação que me proporciona a lembrança do pouco bem que fiz, e na certeza do futuro que ele me promete. Além disso, não levais em conta a ausência das inquietudes e dificuldades da vida; dos sofrimentos corporais e de todos esses tormentos que nós criamos para satisfazer às necessidades do corpo? Durante a vida, a agitação, a ansiedade, as angústias incessantes, mesmo em meio à fortuna. Aqui a tranquilidade e o repouso. É a calma depois da tempestade.
 
5. - Seis semanas antes de morrer, dizíeis ter ainda que viver cinco anos. De onde vinha essa ilusão, quando tantas pessoas pressentem a morte próxima?
- Um Espírito benevolente queria afastar da minha mente esse momento que, sem o confessar, eu tinha a fraqueza de temer, embora soubesse do futuro do Espírito.
 
6. - Havíeis mergulhado profundamente na ciência espírita. Poderíeis dizer-nos se, ao entrar no mundo dos Espíritos, encontrastes as coisas como as imagináveis?
- Quase exatamente iguais, exceto por algumas questões de detalhes que eu havia compreendido mal.
 
7. - A leitura atenta que fazíeis da Revista Espírita e do Livro dos Espíritos vos ajudaram bastante nisso?
- Incontestavelmente. Foi isso principalmente o que preparou a minha entrada na verdadeira vida.
 
8. - Sentistes algum espanto quando vos encontrastes no mundo dos Espíritos?
- Impossível que fosse de outro modo. Contudo, espanto não é bem o termo. Melhor seria dizer admiração. Estais muito longe de conceber uma ideia do que significa isto!
 
OBSERVAÇÃO: Aquele que antes de mudar-se para uma região a estudou nos livros; identificou-se com os costumes dos seus habitantes; verificou sua topologia e seu aspecto por meio de desenhos, de plantas e de descrições, fica sem dúvida menos surpreso do que outro que não tem nenhuma ideia disso. Entretanto, a realidade lhe mostra uma porção de detalhes que não tinha previsto e que o impressionam. Deve-se dar o mesmo no mundo dos Espíritos, cujas maravilhas não podemos compreender totalmente, porque há coisas que ultrapassam o nosso entendimento.
 
9. - Deixando o corpo, vistes e reconhecestes imediatamente alguns Espíritos junto a vós?
- Sim, e Espíritos queridos.
 
10. - Que pensais agora do futuro do Espiritismo?
- Um futuro mais belo do que pensais, apesar da vossa fé e do vosso desejo.
 
11. - Vossos conhecimentos relativos a assuntos espíritas sem dúvida vos permitirão responder com precisão a algumas perguntas. Poderíeis descrever claramente o que se passou convosco no momento em que o corpo deu o último suspiro e o vosso Espírito se achou livre?
- Pessoalmente, acho muito difícil encontrar um meio de vos explicar de maneira diferente da que já foi feita, isto é, comparando a sensação que a gente experimenta ao despertar de um sono profundo. Esse despertar é mais ou menos lento e difícil, na razão direta da situação moral do Espírito, e nunca deixa de ser fortemente influenciado pelas circunstâncias que acompanham a morte.
 
OBSERVAÇÃO: Isto está de acordo com todas as observações feitas sobre o estado do Espírito no momento de separar-se do corpo. Vimos sempre as circunstâncias morais e materiais que acompanham a morte reagirem poderosamente sobre o estado do Espírito, nos primeiros momentos.
 
12. - Vosso Espírito conservou a consciência de sua existência até o último momento e a recobrou imediatamente? Houve um momento de falta de lucidez? Qual foi a sua duração?
- Houve um instante de perturbação, quase que imperceptível para mim.
 
13. - O momento de despertar teve algo de penoso?
- Não, pelo contrário. Eu me sentia, se assim posso falar, alegre e disposto, como se respirasse ar puro ao sair de uma sala cheia de fumaça.
 
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 29 de Julho de 2016, 15:19
OBSERVAÇÃO: Comparação engenhosa, que só pode ser a pura expressão da verdade.
 
14. - Lembrai-vos da existência que tivestes antes desta que acabais de deixar? Como foi ela?
- Lembro-me dela da melhor forma possível. Eu era um bom criado junto de um bom senhor que, em companhia de outros, me recebeu, à minha entrada neste mundo bem-aventurado.
 
15. - Creio que o vosso irmão se ocupa menos das questões espíritas do que vos ocupáveis.
- Sim, eu farei alguma coisa para que ele tenha mais interesse, caso me seja permitido. Se ele soubesse o que a gente ganha com isso, dar-lhe-ia mais importância.
 
16. - O vosso irmão pediu ao Sr. D... que me comunicasse a vossa morte. Ambos esperam ansiosos o resultado de nossa conversa. Ficarão, entretanto, mais sensibilizados com uma mensagem direta de vossa parte, se quiserdes confiar-me algumas palavras para eles ou para outras pessoas que sentem a vossa falta.
- Por vosso intermédio dir-lhes-ei o que eu mesmo teria dito, mas receio muito não ter mais influência junto a alguns deles, como outrora. Entretanto, em meu nome e no de seus amigos, que bem vejo, concito-os a refletir e estudar seriamente esta grave questão do Espiritismo, ainda que fosse tão somente pelo auxílio que ela traz para passar este momento tão temido pela maior parte das pessoas, e tão pouco temível para aquele que se preparou previamente pelo estudo do futuro e pela prática do bem. Dizei-lhes que sempre estou com eles, em seu meio; que os vejo, e que serei feliz se suas disposições lhes puderem assegurar, no mundo onde me encontro, um lugar do qual não terão senão que se felicitarem. Dizei-o sobretudo ao meu irmão, cuja felicidade é o meu mais profundo desejo, do qual não me esqueço, embora eu seja mais feliz que ele.
 
17. - A simpatia que tivestes a bondade de me testemunhar em vida, mesmo sem me conhecer, faz-me esperar que nos encontremos facilmente quando eu estiver em vosso meio. Até lá, serei feliz se quiserdes assistir-me nos trabalhos que me resta fazer para concluir a minha tarefa.
- Julgais-me com muita benevolência. Não obstante, convencei-vos de que, se vos puder ser de alguma utilidade, não deixarei de fazê-lo, talvez mesmo sem que o suspeiteis.
 
18. - Agradecemos por terdes gentilmente atendido ao nosso apelo, e pelas instrutivas explicações que nos destes.
- À vossa disposição. Estarei muitas vezes convosco.
 
OBSERVAÇÃO: Esta comunicação é incontestavelmente uma das que descrevem a vida espírita com a maior clareza. Oferece um poderoso ensino relativamente à influência que as ideias espíritas exercem sobre o nosso estado depois da morte.
 
Esta conversa parece haver deixado algo a desejar ao amigo que nos participou a morte do Sr. J..., pois nos disse: “Ele não conservou na linguagem o cunho de originalidade que tinha conosco. Manteve uma reserva que não observava com pessoa alguma. Seu estilo incorreto, brusco, revelava inspiração; ousava tudo; vencia quem quer que formulasse uma objeção às suas crenças; reduzia-nos a nada para nos converter. Em seu perfil psicológico não revela nenhuma particularidade das numerosas relações que tinha com uma porção de pessoas que frequentava. Todos nós gostaríamos de nos vermos citados por ele, não para satisfazer nossa curiosidade, mas para nossa instrução. Gostaríamos que nos tivesse falado claramente de algumas ideias por nós emitidas em sua presença, nas nossas conversas. A mim, pessoalmente, poderia ter dito se eu tinha ou não tinha razão de insistir em tal ou qual consideração; se aquilo que eu lhe havia dito era verdadeiro ou falso. Absolutamente não falou de sua irmã, ainda viva e tão digna de interesse”.
Depois desta carta evocamos novamente o Sr. J..., e lhe dirigimos as perguntas seguintes:
19. - Tendes conhecimento da carta que recebi em resposta à remessa da vossa evocação?
- Sim, vi quando a escreviam.
 
20. - Teríeis a bondade de dar algumas explicações sobre certas passagens dessa carta e, como bem compreendeis, com um fim instrutivo, unicamente para me fornecer elementos para uma resposta?
- Se o considerais útil, sim.
 
21. - Acham estranho que a vossa linguagem não tenha conservado o cunho da originalidade. Parece que em vida éreis esmagador na discussão.
- Sim, mas o Céu e a Terra são muito diferentes e aqui eu encontrei mestres. Que quereis? Eles me impacientavam com suas objeções absurdas. Eu lhes mostrava o Sol e não queriam vê-lo. Como conservar o sangue frio? Aqui não há necessidade de discutir; todos nos entendemos.
 
22. - Esses senhores admiram-se de que não os tenhais interpelado nominalmente para refutá-los, como fazíeis em vida.
- Que se admirem! Eu os espero. Quando vierem juntar-se a mim, verão qual de nós está com a razão. Será preciso que venham para este lado, quer queiram, quer não queiram, e uns mais cedo do que pensam. Sua jactância cairá como a poeira abatida pela chuva. Sua bazófia... (Aqui o Espírito para e se recusa a concluir a frase).
 
23. - Eles inferem que não lhes demonstrais todo o interesse que tinham direito a esperar de vós.
- Eu lhes desejo o bem, mas nada farei contra sua própria vontade.
 
24. - Também se admiram de que nada tenhais dito relativamente à vossa irmã.
- Por acaso eles estão entre mim e ela?
 
25. - O Sr. B... gostaria que tivésseis dito algo que vos contou na intimidade. Para ele e para outros, isto teria sido um meio de esclarecimento.
- Qual a vantagem de repetir o que ele sabe? Pensa que não tenho outra coisa a fazer? Não têm eles os mesmos meios de esclarecimento que eu tive? Que os aproveitem. Garanto-lhes que se sentirão bem. Quanto a mim, dou graças aos céus por me haverem enviado a luz que me franqueou o caminho da felicidade.
 
26. - Mas é esta luz que eles desejam e que seriam felizes se a recebessem de vós.
- A luz brilha para todo mundo. Cego é aquele que não quer ver. Esse cairá no precipício e amaldiçoará a sua cegueira.
 
27. - Vossa linguagem me parece marcada por grande severidade.
- Não me acharam eles muito brando?
 
28. - Nós vos agradecemos por terdes vindo e pelos esclarecimentos que nos destes.
- Sempre ao vosso serviço, pois sei que é para o bem.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Agosto de 2016, 14:10
Um irmão morto à sua irmã viva
Revista Espírita, novembro / 1860
 
Minha irmã, tu não me evocas frequentemente; isso não me impede de vir ver-te todos os dias. Conheço teus aborrecimentos: tua vida é penosa, eu o sei, mas é preciso sofrer a sorte nem sempre alegre. Contudo, há por vezes um alívio nas penas. Por exemplo, aquele que faz o bem à custa de sua própria felicidade, pode, por si mesmo ou pelos outros, desviar o rigor de muitas provas.

Neste mundo, é raro ver-se fazer o bem com essa abnegação. Sem dúvida é difícil, mas não impossível, e os que têm essa sublime virtude são realmente os eleitos do Senhor. Se nos déssemos conta dessa pobre peregrinação na Terra, compreenderíamos isto. Mas assim não é: os homens se apegam à busca dos bens, como se devessem ficar sempre em seu exílio. Contudo, o bom-senso comum e a mais simples lógica demonstram, diariamente, que aqui não passamos de aves de arribação e que os que têm menos penas nas asas são os que chegam mais depressa.

Minha boa irmã, para que serve a esse rico todo esse luxo, todo esse supérfluo? Amanhã estará despojado de todos esses vãos ouropéis para descer ao túmulo, para onde nada levará! É verdade que fez uma linda viagem; nada lhe faltou; não sabia mais o que desejar e esgotou as delícias da vida. Também é certo que, em seu delírio, por vezes lançou, sorrindo, uma esmola nas mãos de seu irmão. Por isso terá retirado algo de sua boca? Não, porque não se privou de um só prazer, de uma só fantasia. Contudo, esse irmão é também um filho de Deus, Pai de todos, a que tudo pertence. Compreendes, minha irmã, que um bom pai não deserda um de seus filhos para enriquecer o outro? Eis por que recompensará o que foi privado de sua parte nesta vida.

Assim, pois, os que se julgam deserdados, abandonados e esquecidos, alcançarão em breve a margem bendita, onde reinam a justiça e a felicidade. Mas infelizes dos que fizeram mau uso dos bens que nosso Pai lhes confiou. Infeliz, também, o homem aquinhoado com o dom precioso da inteligência, se dela abusou! Acredita-me, Maria, quando se crê em Deus, nada existe na Terra que se possa invejar, a não ser a graça de praticar suas leis.
 
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Agosto de 2016, 14:02
O Espiritismo em Lyon
Revista Espírita, outubro / 1861
 

       Fomos novamente a Lyon este ano, em atenção a reiterados convites dos espíritas daquela cidade. Embora conhecêssemos, pela correspondência, os progressos do Espiritismo naquela cidade, o resultado ultrapassou muito a nossa expectativa. Certamente os leitores nos agradecerão as informações que lhes damos a respeito. Nelas verão um indício da marcha irresistível da doutrina e uma prova patente de suas consequências morais.

       Antes, porém, de falar dos espíritas de Lyon, não devemos esquecer os de Sens e de Mâcon, que visitamos de passagem, e lhes agradecer a simpática acolhida. Lá, também, pudemos constatar um notável progresso, quer no número de adeptos, quer na opinião que eles têm a respeito do Espiritismo em geral. Por toda parte os trocistas se esclarecem, e aqueles que ainda não creem observam uma prudente reserva, imposta pelo caráter e pela posição social dos que hoje não mais temem confessar-se publicamente partidários e propagadores das novas ideias. Em face da opinião que se pronuncia e se generaliza, os incrédulos se dizem que bem poderia haver algo, e que, em resumo, cada um é livre em suas crenças. Antes de falar, querem pelo menos saber do que se trata, enquanto anteriormente falavam sem saber do que. Ora, não se pode negar que para muita gente aí não haja um verdadeiro progresso. Mais tarde voltaremos a esses dois centros, ainda novos numericamente falando, ao passo que Lyon já atingiu a maturidade.

       Com efeito, não é mais por centenas que ali se contam os espíritas, como no ano passado, mas por milhares. Melhor dizendo, não mais são contados, e calcula-se que, seguindo a mesma progressão, em um ou dois anos serão mais de trinta mil. O Espiritismo os recruta em todas as classes, mas é sobretudo na classe operária que se propaga com mais rapidez, o que não é de admirar, pois sendo essa a classe que mais sofre, volta-se para onde encontra mais consolações. Vós que gritais contra o Espiritismo, por que não lhe ofereceis o mesmo? Ela se voltaria para vós. Mas, em vez disto, quereis tirar-lhe aquilo que a ajuda a carregar seu fardo de misérias. É a maneira mais apropriada para vos distanciardes das suas simpatias e de engrossardes as fileiras de vossos opositores. O que vimos pessoalmente é de tal modo característico e encerra tão grande ensinamento, que preferimos dedicar aos trabalhadores a maior parte do nosso relatório.

       No ano passado havia um único centro de reunião, o de Brotteaux, dirigido pelo Sr. Dijoud, chefe de oficina, e sua mulher. Outros se formaram depois, em diferentes pontos da cidade, em Guillotière, em Perrache, em Croix-Rousse, em Vaise, em Saint-Juste, etc., sem contar um grande número de reuniões particulares. No ano passado havia somente dois ou três médiuns ainda neófitos. Hoje há médiuns em todos os grupos, e vários de primeira categoria. Só num grupo vimos cinco, escrevendo simultaneamente. Vimos também uma jovem, muito boa vidente, na qual pudemos constatar a faculdade desenvolvida em grau muito alto.

     Observamos uma coleção de desenhos extremamente notáveis, de um médium desenhista que não sabe desenhar. Pela execução e pela complicação, rivalizam com os desenhos de Júpiter, embora sejam de um outro gênero. Não devemos esquecer um médium curador, tão recomendável por seu devotamento quanto pela potência de sua faculdade.

       Sem dúvida é verdade que os adeptos se multiplicam, mas o que vale ainda mais que o número é a qualidade. Ora! Nós declaramos alto e bom som que em parte alguma vimos reuniões espíritas mais edificantes que as dos operários de Lyon, quanto à ordem, ao recolhimento e à atenção que prestam às instruções de seus guias espirituais. Lá havia homens, velhos, senhoras, moços, e até crianças cuja atitude respeitosa e recolhida contrasta com a sua idade. Jamais uma delas perturbou, por um instante, o silêncio de nossas reuniões, por vezes muito longas. Elas pareciam quase tão ávidas quanto seus pais em recolher nossas palavras. Isto não é tudo. O número das metamorfoses morais, nos operários, é quase tão grande quanto entre os adeptos. São hábitos viciosos reformados, paixões acalmadas, ódios apaziguados, intimidades pacificadas, numa palavra, desenvolvidas as virtudes mais cristãs, e isto pela confiança, agora inquebrantável, que as comunicações espíritas lhes dão do futuro, em que não acreditavam. Para eles é uma felicidade assistir a essas instruções, de onde saem reconfortados contra a adversidade. Também se veem alguns que fazem mais de uma légua com qualquer tempo, inverno ou verão, e que tudo enfrentam para não perderem uma sessão. É que neles não há uma fé vulgar, mas uma fé baseada em convicção profunda, raciocinada, e não cega.

       Os Espíritos que os instruem sabem admiravelmente pôr-se à altura de seus ouvintes. Os ditados não são trechos de eloquência, mas boas instruções familiares, despretensiosas, e que, por isto mesmo, vão ao coração. As conversas com os parentes e amigos mortos ali representam um grande papel, de onde saem quase sempre lições úteis. Muitas vezes uma família inteira se reúne e a noite se passa em suave enlevo com os que se foram. Eles querem ter notícias dos tios, das tias, dos primos e das primas; saber se são felizes. Ninguém é esquecido. Cada um quer que o avô lhe diga algo, e a cada um ele dá um conselho.

       - E pra mim, vovô, perguntava um dia um rapazinho, não direis nada?

       - Para ti, meu filho, sim, dir-te-ei alguma coisa: não estou contente contigo. Outro dia, em vez de ir direto ao trabalho, discutiste por uma tolice, no meio do caminho. Isto não é bom.
   
       - Como sabeis disto, vovô?

       - Sem dúvida eu sei. Será que nós Espíritos não vemos tudo o que fazeis, desde que estamos ao vosso lado?

       - Perdão, vovô. Prometo não fazer mais isto.

       Não existe algo de tocante nesta comunicação dos mortos com os vivos? A vida futura aí está, palpitante aos seus olhos; não mais há morte, nem mais a separação eterna, nem o nada; o céu está mais perto da Terra e é melhor compreendido. Se isto é uma superstição, praza a Deus que jamais tivesse havido outras!

       Um fato digno de nota, e que constatamos, é a facilidade com que esses homens, na maioria iletrados e endurecidos nos mais rudes trabalhos, compreendem o alcance da doutrina. Pode-se dizer que só lhe veem o lado sério. Nas instruções que lhes demos em diversos grupos, em vão procuramos despertar a curiosidade pelo relato das manifestações físicas, contudo, nenhum deles viu uma mesa mover-se, ao passo que tudo quanto dizia respeito às apreciações morais cativava seu interesse no mais alto grau.

       A alocução seguinte nos foi dirigida quando de nossa visita ao grupo de Saint-Just. Publicamo-la, não para satisfazer a uma vaidade tola e pueril, mas como prova dos sentimentos que dominam nas fábricas onde penetrou o Espiritismo, e porque sabemos ser agradável aos que nos quiseram dar esse testemunho de simpatia. Transcrevemo-la textualmente, pois teríamos escrúpulo de lhe acrescentar uma só palavra. Só a ortografia foi revista.

       “Senhor Allan Kardec, discípulo de Jesus, intérprete do Espírito de Verdade, sois nosso irmão em Deus. Estamos reunidos todos com o mesmo coração, sob a proteção de São João Batista, protetor da Humanidade e precursor do grande mestre Jesus, nosso Salvador.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 11 de Agosto de 2016, 14:02

       “Nós vos rogamos, nosso caro mestre, que mergulheis vosso olhar no fundo de nossos corações, a fim de que possais dar-vos conta da simpatia que temos por vós. Somos pobres trabalhadores, sem artifícios. Uma grossa cortina, desde a nossa infância, foi estendida sobre nós, para abafar a nossa inteligência, mas vós, caro mestre, pela vontade do Todo-Poderoso, rasgais a cortina. Essa cortina, que eles julgavam impenetrável, não pôde resistir à vossa digna coragem. Oh! sim, nosso irmão, tomastes a pesada enxada para descobrir a semente do Espiritismo, que se tinha encerrado num terreno de granito. Vós a semeais nos quatro cantos do globo, e até nos pobres bairros de ignorantes, que começam a saborear o pão da vida.

       “Todos o dizemos do fundo do coração; estamos animados do mesmo fogo e repetimos todos: Glória a Allan Kardec e aos bons Espíritos que o inspiraram! E vós, bons irmãos Sr. e Sra. Dijoud, os abençoados por Deus, por Jesus e por Maria, estais gravados em nossos corações, para jamais sair, porque por nós sacrificastes vossos interesses e vossos prazeres materiais. Deus o sabe; nós lhe agradecemos por vos haver escolhido para esta missão e agradecemos também ao nosso protetor superior São João Batista.

      “Obrigado, Sr. Allan Kardec; mil vezes obrigado, em nome do grupo de Saint-Just, por estar entre nós, simples operários e ainda muito imperfeitos em Espiritismo. Vossa presença nos causa uma grande alegria em meio de nossas tribulações, que são grandes neste momento de crise comercial. Vós nos trazeis o bálsamo benfazejo que chamam esperança, que acalma os ódios e reacende no coração do homem o amor e a caridade. Nós nos aplicaremos, caro mestre, em seguir vossos bons conselhos e os dos Espíritos superiores que tiverem a bondade de nos ajudar e instruir, a fim de nos tornarmos, todos, verdadeiros e bons espíritas. Caro mestre, tende certeza de que levais convosco a simpatia de nossos corações para a eternidade, nós o prometemos. Somos e seremos sempre vossos adeptos sinceros e submissos. Permiti a mim e ao médium, que vos demos o beijo de amor fraterno em nome de todos os irmãos e irmãs que aqui estão. Ficaríamos muito felizes também se quisésseis brindar conosco.”
 
       Nós vínhamos de longe e tínhamos subido às alturas de Saint-Just com um calor extenuante. Alguns refrescos tinham sido preparados, em meio dos instrumentos do trabalho: pão, queijo, frutas, um copo de vinho; verdadeiro ágape oferecido com a simplicidade antiga e um coração sincero. Um copo de vinho! ah! em nossa intenção, porque essa boa gente não o bebe todos os dias; mas era uma festa para eles: ia-se falar de Espiritismo. Oh! Foi com o coração alegre que brindamos com eles, e seu modesto lanche, aos nossos olhos, tinha cem vezes mais valor do que os mais esplêndidos repastos. Que eles recebam aqui a confirmação disto.

       Alguém nos dizia em Lyon: “O Espiritismo penetra nos meios operários pelo raciocínio; não seria tempo de procurar que penetrasse pelo coração?” Certamente esta pessoa não conhece os operários; seria desejável que se encontrasse tanto coração em todas as pessoas. Se tal linguagem não for inspirada pelo coração; se o coração nada significa para aquele que no Espiritismo encontra a força de vencer suas más inclinações; de lutar com resignação contra a miséria; de abafar seus rancores e animosidades; para aquele que partilha seu pedaço de pão com um mais infeliz, confessamos não saber onde está o coração.

(Texto recebido por IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Agosto de 2016, 19:41
...

Poesias Espíritas

PEREGRINAÇÕES DA ALMA
Revista Espírita - setembro / 1862

À maneira do sangue, em gotas pequeninas
Que sai do coração por nossas veias finas,
Nossa vida a emanar da Luz da Divindade
Gravita ao infinito em busca à Eternidade

Nosso globo é local de prova e sofrimento;
É aí que estão o choro, os rangeres de dentes;
O inferno está aí, sim, e dele o livramento
Está na proporção dos males precedentes.

É assim que cada ser que deixa um mundo umbroso,
Mais ou menos se eleva a um outro mais etéreo.
Conforme puro então ou menos maculoso,
Seu ser se desenvolva ou ache outro critério.

Dos eleitos ninguém pode ao posto chegar
Sem que tenha expiado enfim seus malefícios,
Se com remorso, prece e constante pesar,
Seus males não cobrir um véu de benefícios.

O Espírito imperfeito ou alma em punição
Vem tomar novo corpo, aqui, para sofrer,
Renascer em família a cujo exemplo então
Depurar-se no bem, e de novo morrer.

Sua santa missão uma vez terminada,
Logo Deus o transporta a celeste esplendor,
E, progressivamente, é sua alma elevada
Ao infinito lar do oceano do amor.

Se em nossa marcha ocorre o término da prova,
Elevados com amor às santas regiões,
Iremos com triunfo, em harmonia nova,
Dos eleitos fazer crescer as legiões.

Para maior ventura e cúmulo de graça,
Aos que caros nos são Deus, lá, nos reunirá;
E unidos na afeição que santifica e enlaça,
No seu tão puro céu nos abençoará.


No bem, no belo, o modo enfim de ser mudando,
Alçar-nos-emos nós à sagrada cidade,
Onde veremos mais bem-estar alcançando,
Um tesouro sem fim de alta felicidade.

Desses mundos de luz galgando a escada imensa,
Mais depurados sempre e transpondo os confins,
Iremos terminar no ponto de nascença,
A renascer do amor radiosos serafins.

E de uma nova raça os primeiros seremos,
Os anjos guardiães dos homens que hão de vir,
Mensageiros de Deus dos ensinos que iremos
Enriquecer então os mundos do porvir.

De Deus tal é, eu creio, o seu real querer,
No imenso caminhar de nossa Humanidade,
Curvemo-nos, irmãos, sua ordem é poder;
Cantemos: “Glória a Deus por toda a Eternidade!”,

B. Joly, ervanário de Lyon

Observação –
Procurando bem, os críticos meticulosos talvez possam encontrar alguns defeitos nesses versos. Deixamos-lhes o encargo e consideramos apenas a ideia, cuja justeza, do ponto de vista espírita, ninguém pode ignorar. É bem a alma em suas peregrinações para chegar, pelo trabalho depurador, à felicidade infinita. Um verso, entretanto, parece dominar esse fragmento, aliás muito ortodoxo e não o poderíamos admitir; é o que está expresso na quadra da epígrafe: “Gravita ao infinito em busca à eternidade” Se por isto entende o autor que a alma sobe incessantemente, resulta que jamais chegaria à felicidade perfeita. Diz a razão que a alma, sendo um ser finito, sua ascensão para o bem absoluto deve ter um limite; que, chegada a um certo ponto, não ficará em perpétua contemplação, aliás, pouco atraente e que seria uma perpétua inutilidade, mas terá uma atividade incessante e bem-aventurada, como auxiliar da Divindade.

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 24 de Agosto de 2016, 13:23
Instruções de Ciro* a seus filhos no momento da morte
Revista Espírita, maio /1864
 
(Extraído DA Ciropedia de XENOFONTE, livro VIII, cap. VII)

 
         “Eu vos conjuro, meus filhos, em nome dos deuses de nossa pátria, a ter consideração um pelo outro, se conservardes algum desejo de me agradar, pois não imagino que considereis como certo que eu não seja mais nada quando houver deixado de viver. Até agora minha alma ficou oculta aos vossos olhos, mas por suas operações reconheceríeis que ela existia.

         Não notastes nem mesmo os terrores pelos quais são atormentados os homicidas, pelas almas inocentes daqueles que eles levaram à morte, e que vinganças elas tomam desses ímpios? Pensais que o culto que se presta aos mortos teria sido constantemente mantido se se acreditasse que suas almas eram destituídas de todo poder? De minha parte, meus filhos, jamais pude convencer-me de que a alma, que vive enquanto está num corpo mortal, se extinga desde que dele saiu, porque vejo que é ela que vivifica esses corpos destrutíveis enquanto os habita. Também jamais me pude persuadir de que ela perca a sua faculdade de raciocinar no momento em que se separa de um corpo que não tem capacidade de raciocínio. É natural crer que a alma, então mais pura e desprendida da matéria, goze plenamente de sua inteligência. Quando um homem morre, veem-se as diversas partes que o compunham unir-se aos elementos a que pertenciam. Só a alma escapa aos olhares, quer durante sua estada no corpo, quer quando o deixa.

         Sabeis que é durante o sono, imagem da morte, que mais a alma se aproxima da Divindade, e que nesse estado muitas vezes prevê o futuro, sem dúvida porque então está inteiramente livre.

         Ora, se as coisas são como eu penso, e a alma sobrevive ao corpo que abandona, fazei, em respeito à minha, o que vos recomendo. Se eu não estiver errado; se a alma ficar com o corpo e morrer com ele, ao menos temei os deuses, que não morrem, que tudo veem, que tudo podem, que sustentam no Universo essa ordem imutável, inalterável, invariável cuja magnificência e majestade são inexprimíveis.

         Que esse temor vos preserve de toda ação, de todo pensamento que fira a piedade ou a justiça... Mas eu sinto que minha alma me abandona; sinto-o pelos sintomas que de ordinário anunciam a nossa dissolução.”
 
       OBSERVAÇÃO: Bem pouco teria um espírita a acrescentar a essas notáveis palavras, dignas de um filósofo cristão, nas quais se acham admiravelmente descritos os atributos especiais do corpo e da alma: o corpo material, destrutível, cujos elementos se dispersam para unir-se aos elementos similares e que, durante a vida, só age por impulsão do princípio inteligente; depois a alma, sobrevivendo ao corpo, conservando sua individualidade e gozando maiores percepções quando desprendida da matéria; a liberdade da alma durante o sono; enfim, a ação da alma dos mortos sobre os vivos.

         Pode-se ainda notar a distinção feita entre os deuses e a Divindade propriamente dita. Os deuses nada mais eram que os Espíritos em vários graus de elevação, encarregados de presidir, cada um na sua especialidade, todas as coisas deste mundo, na ordem moral e na material. Os deuses da pátria eram os Espíritos protetores da pátria, como os deuses lares eram os protetores da família.    Os deuses, ou Espíritos superiores, não se comunicavam com os homens senão por meio de Espíritos subalternos, chamados demônios.

         O vulgo não ia além, mas os filósofos e os iniciados reconheciam um Ser Supremo, criador e ordenador de todas as coisas. Allan Kardec

* Ciro II, mais conhecido como Ciro, o Grande, foi rei da Pérsia entre 559 e 530 a.C, ano em que morreu em batalha com os Massagetas.

...........

Adendo por conta:
(O Império Persa foi um dos maiores e mais temidos impérios da Antiguidade, com extensão gigantesca, mesmo para os padrões atuais, sendo comparado a outros grandes impérios do mundo, como o Império Romano, por exemplo.

E um de seus maiores líderes foi Ciro II, rei da Pérsia entre os anos de 559 e 530 a. C., também conhecido como Ciro, o Grande. Vamos conhecer um pouco de sua história?

A história em torno do nascimento de Ciro é muito confusa, pois envolve uma série de lendas, ao passo que a versão mais aceita pelos historiadores é a contada pelo historiador grego Heródoto.

Essa história conta que o avô de Ciro, Astiages, que era rei dos medos (um povo originário da Ásia Central), havia tido um sonho onde via uma videira nascendo nas costas de sua filha, chamada Mandame (que seria a mãe de Ciro). Essa videira apresentava gavinhas que cobriam toda a Ásia.

Ao consultar os sacerdotes, o rei foi alertado de que a videira seria o seu neto, Ciro, que havia nascido há pouco tempo, e que ele um dia, acabaria por tomar o seu lugar no trono.

Astiages mandou que seu mordomo matasse a criança, ao passo que esse não acatou a ordem por causa da beleza da criança, e a entregou a um pastor.

Astiages mandou então, que esquartejassem o filho de seu mordomo como punição, e mandou que servissem para ele as partes de seu corpo, sendo que o mordomo só se daria conta do que comia quando viu a bandeja com a cabeça de seu filho.

Ciro cresceu, e acabou por se tornar rei dos persas, para cumprir a profecia do sonho de seu avô, que havia sido derrotado por uma rebelião organizada pelo seu mordomo.

Ele tomou a cidade de Média, capital do reino dos medos, e teve seu avô aos seus pés para ser julgado.

Ciro não matou seu avô, mas invadiu a Média e se tornou também o rei dos medos, exatamente como a profecia dizia que seria feito.

Ciro, o Grande, ganhou essa alcunha muito por conta de suas conquistas, que foram muitas, já que ele criou um dos maiores impérios que o mundo já viu.

Entre suas principais conquistas, estão o Império Medo, o Império Lídio e a Ásia Menor, além da Babilônia, fazendo com que o Império Persa (ou Aquemênida) se tornasse um dos maiores de todos e o maior em seu tempo.)

...

(A Bíblia relata em Esdras 1:1-11 e em 6:3-5, o Rei Ciro como sendo o Rei que proclamou a libertação do povo judeu depois de 70 anos de cativeiro nas mãos do povo Babilônico. Ele não só emitiu ordem liberando como autorizou que eles retornassem a Jerusalém, reconstruíssem o Templo e lhe devolveu todos os utensílios roubados por Nabucodonosor. Foi ele também que deu permissão real ao povo para importar madeira do Líbano para o Templo e usar a poupança do Rei para cobrir as despesas com a obra.

Segundo contam os historiadores, Ciro - o Persa, governava de forma autoritária e era tolerante com os povos conquistados. Um motivo desse comportamento pode ter sido a própria Religião. Dados apontam que Ciro seguia os ensinos do profeta persa Zoroastro e que adorava ao deus Aúra Mazda, deu considerado o criador de tudo o que era bom.

Ciro chamado na Bíblia de o Ungido de Deus ficou conhecido por volta de 560/559 a.c. quando sucedeu ao Pai Cambises I, na Cidade Anxã, na Antiga Pérsia. Ciro revoltou-se contra o domínio Meda e passou ater sobre o seu domínio tanto os Medas quanto os Persas

Assim passou a existir o governo Medo Persa. Com o super-exército, ele avançava e conquistava muitas terras, tornando-se o rival da Babilônia, que na época era a Grande Super-potência na Área da Conquista.

Ciro, o Rei Persa , passa a figurar nas Profecias Bíblicas quando se levanta contra a Babilônia justamente com o objetivo da Conquista e acaba sendo usado pelo poder sobrenatural do Senhor. Aliás, séculos antes do confronto, o Criador já havia mencionado que um governando persa derrubaria Babilônia e libertaria o povo. Isso você pode conferir em Isaías 44:26-28.

A queda da Grande Babilônia foi em 539a.c e a princípio não haveria condição humana disso acontecer. Babilônia era cercada por enormes muralhas duplas e um fosso fundo e largo formado pelo Rio Eufrates. Porém, séculos antes, o nosso Pai predisse a secura das águas o que está relatado em Jeremias 50:38. Fiel a profecia - sem saber - Ciro desviou as águas do Eufrates para alguns quilômetros ao norte de Babilônia e o Exercito dele pode passar de pés enxutos pelo Rio, subir pelas ribanceiras até as muralhas e invadir a cidade da Grande Babilônia... porque os portões, tinham ficado abertos por um guarda descuidado.
Graça e Paz,)

Extraído da internet: Jornal Evangelista
http://jornalevangelista.blogspot.com.br/2006/01/voc-sabe-quem-foi-o-rei-ciro-o-persa.html
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Agosto de 2016, 13:53
O ESPIRITISMO
Revista Espírita, abril / 1860

(Sociedade, 3 de fevereiro de 1860 – Médium: Sra. M.)

O Espiritismo é chamado a esclarecer o mundo, mas necessita de um certo tempo para progredir.
 
Existiu desde a Criação, mas só era conhecido por algumas pessoas, porque, em geral, a massa pouco se ocupa em meditar sobre questões espíritas.

Hoje, com o auxílio desta pura doutrina, haverá uma luz nova.

Deus, que não quer deixar a criatura na ignorância, permite que os Espíritos mais elevados venham em nosso auxílio, para contrabalançar a ação do Espírito das trevas, que tende a envolver o mundo.
 
O orgulho humano obscurece a razão e a faz cometer muitas faltas na Terra. São necessários Espíritos simples e dóceis, para comunicarem a luz e atenuarem todos os nossos males.

Coragem!
Persisti nesta obra, que é agradável a Deus, porque ela é útil para a sua maior glória, e dela resultarão grandes bens para salvação das almas.

Francisco de Sales
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 26 de Agosto de 2016, 14:00
FILOSOFIA
Revista Espírita, abril / 1860

(Sociedade, 3 de fevereiro de 1860 – Médium: Sr. Colin)

Escrevei isto: O homem!
Que é ele?
De onde veio?
Para onde vai?
Deus?
A Natureza?
A Criação?
O mundo?
Sua eternidade no passado, no futuro! Limite da Natureza, relações do ser infinito com o ser particular?
Passagem do infinito ao finito?

Perguntas que devia fazer o homem, criança ainda, quando viu pela primeira vez, com sua razão, acima da cabeça, a marcha misteriosa dos astros; sob seus pés a terra, alternativamente revestida com roupas de festa, sob o hálito tépido da primavera, ou coberta de um manto de luto, debaixo do sopro gelado do inverno; quando ele próprio se viu, pensando e sentindo, ser lançado por um instante nesse imenso turbilhão vital entre o ontem, dia de seu nascimento, e o amanhã, dia de sua morte. Perguntas que foram propostas a todos os povos, em todas as idades e em todas as suas escolas e que, no entanto, não permaneceram menos enigmáticas para as gerações seguintes.

Contudo, questões dignas de cativar o espírito investigador do vosso século e o gênio do vosso país. – Se, pois, houvesse entre vós um homem, dez homens, tendo consciência da alta gravidade de uma missão apostólica e vontade de deixar um traço de sua passagem aqui, para servir de ponto de referência à posteridade, eu lhe diria: Durante muito tempo transigistes com os erros e preconceitos de vossa época; para vós, o período das manifestações materiais e físicas passou; aquilo a que chamais de evocações experimentais já não vos pode ensinar grandes coisas, porque, no mais das vezes, apenas a curiosidade está em jogo.

Mas a era filosófica da doutrina se aproxima. Não permaneçais por muito tempo fixados nas fasquias do pórtico, em breve carcomidas, e penetrai sem hesitação no santuário celeste, conduzindo altivamente a bandeira da filosofia moderna, na qual escrevei sem medo: misticismo, racionalismo. Fazei ecletismo no ecletismo moderno; fazei-o como os Antigos, apoiando-vos na tradição histórica, mística e legendária, mas sempre cuidando de não sair da revelação, facho que a todos nos faltou, recorrendo às luzes dos Espíritos superiores, votados missionariamente à marcha do espírito humano.

Por mais elevados que sejam, esses Espíritos não sabem tudo; só Deus o sabe. Além disso, de tudo quanto sabem, nem tudo podem revelar.

Com efeito, em que se tornaria o livre arbítrio do homem, sua responsabilidade, o mérito e o demérito?

E, como sanção, o castigo e a recompensa?

Entretanto, posso balizar o caminho que vos mostramos, com alguns princípios fundamentais. Escutai, pois, isto:

1o A alma tem o poder de subtrair-se à matéria;

2o De elevar-se muito acima da inteligência;

3o Esse estado é superior à razão;

4o Ele pode colocar o homem em relação com aquilo que escapa às suas faculdades;

5o O homem pode provocá-lo pela prece a Deus, por um esforço constante da vontade, reduzindo a alma, por assim dizer, ao estado de pura essência, privada da atividade sensível e exterior; numa palavra, pela abstração de tudo que há de diverso, de múltiplo, de indeciso, de turbilhonamento, de exterioridade na alma;

6o Existe no eu concreto e complexo do homem uma força completamente ignorada até hoje. Procurai-a, portanto.

Moisés, Platão, depois Juliano
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 31 de Agosto de 2016, 13:49
Os Espíritos incrédulos e materialistas
Revista Espírita, maio / 1863

Questões e problemas
 
(Sociedade Espírita de Paris, 27 de março de 1863)

 
     Pergunta: - Na evocação do Sr. Viennois, feita na última sessão, encontra-se esta frase: “Vossa prece comoveu muitos Espíritos levianos e incrédulos.” Como podem os Espíritos ser incrédulos? O meio em que se acham não é a negação da incredulidade?
       Pedimos aos Espíritos que quiserem comunicar-se, que tratem desta questão, se a julgarem propositada.
 
      Resposta (Médium, Sr. d’Ambel): - A explicação que me pedis não está toda escrita ao longo de vossas obras? Perguntais por que os Espíritos incrédulos ficaram comovidos. Mas vós mesmo não tendes dito que os Espíritos que se achavam na erraticidade aí haviam entrado com suas aptidões, conhecimentos e maneira de ver antigos? Meus Deus! Sou ainda muito noviço para resolver a vosso contento as questões espinhosas da doutrina. Não obstante posso, por experiência, por assim dizer recentemente adquirida, responder às questões sobre fatos. No mundo em que habitais, acreditava-se geralmente que a morte vem de repente modificar as opiniões dos que partem, e que o véu da incredulidade é violentamente arrancado aos que na Terra negavam Deus. Aí está o erro, porque a punição começa justamente, para esses, em permanecer na mesma incerteza relativamente ao Senhor de todas as coisas e conservar a mesma dúvida que tinha na Terra. Não, crede-me, a vista obscurecida da inteligência humana não percebe a luz instantaneamente. Procede-se, na erraticidade, pelo menos com tanta prudência quanto na Terra, e não são projetados os raios da luz elétrica sobre os olhos dos doentes a fim de curá-los.
       A passagem da vida terrena à espiritual oferece, é certo, um período de confusão e de turbação para a maioria dos que desencarnam, mas há alguns, já em vida desprendidos dos bens terrenos, que realizam essa transição tão facilmente como uma pomba que se eleva nos ares. É fácil vos dardes conta dessa diferença examinando os hábitos dos viajantes que embarcam para atravessar os oceanos. Para alguns a viagem é um prazer; para a maioria é um sofrimento vulgar, mas afligente, que durará até o desembarque. Pois bem! É isso que acontece, por assim dizer, para quem viaja da Terra para mundo dos Espíritos. Alguns se desprendem rapidamente, sem sofrimento e sem perturbação, ao passo que outros são submetidos ao mal da travessia etérea. Mas acontece o seguinte: Assim como os viajantes que desembarcam em terra, ao sair do navio, recobram o aprumo e a saúde, também o Espírito que transpôs todos os obstáculos da morte acaba por se achar, como no seu ponto de partida, com a consciência límpida e clara de sua individualidade.
      É certo, portanto, meu caro senhor Kardec, que os incrédulos e os materialistas absolutos conservam sua opinião além do túmulo, até o momento em que a razão ou a graça tiver despertado em seu coração o pensamento verdadeiro ali escondido. Daí essa difusão de ideias nas manifestações e essa divergência nas comu­nicações dos Espíritos de além-túmulo. Daí alguns ditados ainda manchados de ateísmo ou de panteísmo.
       Permiti-me, ao terminar, voltar às questões que me são pes­soais. Eu vos agradeço por me terdes evocado. Isto me ajudou a reconhecer-me. Agradeço-vos também as consolações dirigidas à minha mulher e vos peço continueis vossas boas exortações em relação a ela, a fim de sustentá-la nas provas que a esperam.
         Quanto a mim, estarei sempre junto a ela e inspirá-la-ei.
 
Viennois
 
      Pergunta: - Compreende-se a incredulidade em certos Espíritos, mas não se compreenderia o materialismo, pois seu estado é um protesto contra o reino absoluto da matéria e o nada após a morte.
 
     Resposta: (Médium, Sr. d’Ambel) - Só uma palavra: Todos os corpos sólidos ou fluídicos pertencem à substância material, isto está bem demonstrado. Ora, os que em vida só admitiam um princípio na Natureza - a matéria - muitas vezes não percebem, mesmo após a morte, senão esse princípio único, absoluto.
       Se refletísseis sobre os pensamentos que os dominaram por toda sua vida, certamente encontrá-los-íeis, ainda hoje, sob o inteiro domínio dos mesmos pensamentos. Outrora eles se consideravam como corpos sólidos; hoje se olham como corpos fluídicos, eis tudo. Notai bem, eu vos peço, que eles se apercebem sob uma forma claramente circunscrita, embora vaporosa, mas idêntica à que tinham na Terra, em estado sólido ou humano, de sorte que eles não veem em seu novo estado senão uma transformação de seu ser naquele em que não tinham pensado, mas ficam convencidos de que é um encaminhamento para o fim a que chegarão, quando estiverem suficientemente desprendidos, para se dissolverem no grande todo universal. Nada mais teimoso do que um douto, e eles persistem a pensar que, nem por ser demorado, esse fim é menos inevitável.
       Uma das condições de sua cegueira moral é a de encerrá-los mais violentamente nos laços da materialidade e, consequentemente, de impedi-los de se afastarem das regiões terrestres ou similares à Terra. E da mesma forma que a grande maioria dos encarnados aprisionados na carne não podem perceber as formas vaporosas dos Espíritos que os cercam, também a opacidade do envoltório dos materialistas lhes veda a contemplação dos seres espirituais que se movem, tão belos e tão radiosos, nas altas esferas do império celeste.
 
Erasto.
 
     Outra: (Médium, Sr. A. Didier) - A dúvida é a causa das penas e muitas vezes dos erros deste mundo. Ao contrário, o conhecimento do Espiritualismo causa as penas e os erros dos Espíritos.
      Onde estaria o castigo se os Espíritos não reconhecessem os seus erros pela consequência, que é a realidade penitenciária da outra vida? Onde estaria o seu castigo se sua alma e seu coração não sentissem todo o erro do cepticismo terreno e o nada da matéria? O Espírito vê o Espírito como a carne vê a carne. O erro do Espírito não é o erro da carne, e o homem materialista que aqui duvidou não mais duvida lá em cima.
       O suplício dos materialistas é lamentar as alegrias e as satisfações terrenas, eles que ainda não podem compreender nem sentir as alegrias e as perfeições da alma. E vede o rebaixamento moral desses Espíritos que vivem completamente na esterilidade moral e física, de lamentar esses bens que momentaneamente constituíram a sua alegria e atualmente constituem o seu suplício.
       Agora, é verdade que sem ser materialista pela satisfação de suas paixões terrenas, pode-se sê-lo mais no campo das ideias e do espírito do que nos atos da vida. É o que se chama livres-pensadores, e são esses que não ousam aprofundar a causa de sua existência.
       Esses, no outro mundo, serão igualmente punidos. Eles na­dam na verdade, mas não são por ela penetrados. Seu orgulho abatido os faz sofrer, e eles lamentam aqueles dias terrenos em que, ao menos, tinham liberdade de duvidar.
 
Lamennais
 
       OBSERVAÇÃO: À primeira vista esta apreciação parece em contradição com a de Erasto. Este admite que certos Espíritos podem conservar as ideias materialistas, enquanto Lamennais pensa que essas ideias são apenas o pesar dos prazeres materiais, mas que esses Espíritos estão perfeitamente esclarecidos quanto ao seu estado espiritual. Os fatos parecem vir em apoio à opinião de Erasto. Se vemos Espíritos que mesmo muito depois da morte ainda se julgam vivos, vagam ou creem vagar nas ocupações terrenas, é que eles têm completa ilusão quanto à sua posição e não se dão conta de seu estado espiritual. Se não se julgam mortos, não seria de admirar que tivessem conservado a ideia do nada após a morte, que para eles ainda não veio. Foi sem dúvida neste sentido que quis falar Erasto.
 
       Resposta: - Evidentemente eles têm a ideia do nada, mas é uma questão de tempo. Chega o momento em que no alto se rompe o véu e as ideias materialistas se tornam inaceitáveis. A resposta de Erasto se refere a fatos particulares e momentâneos. Eu não falava senão de fatos gerais e definidos.
 
Lamennais.
 
      OBSERVAÇÃO: A divergência era apenas aparente e provinha do ponto de vista a partir do qual cada um encarava a questão. É evidente que um Espírito não pode ficar perpetuamente materialista. Perguntávamos se essa ideia seria necessariamente destruída logo após a morte. Ora, ambos os Espíritos são concordes nesse ponto, pronunciando-se pela negativa. Acrescentemos que a persistência da dúvida sobre o futuro é um castigo para o Espírito incrédulo. É para ele uma tortura tanto mais pungente quando não tem as preocupações terrenas para distraí-lo.
 
Allan Kardec
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: lconforjr em 04 de Setembro de 2016, 00:07
Moisés, vc me desculpe novamente, mas como é que vamos estudar a doutrina espírita (que é disto que este tópico trata) se ninguém sabe dizer porq uns são bons e outros maus?
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 04 de Setembro de 2016, 15:57
Moisés, vc me desculpe novamente, mas como é que vamos estudar a doutrina espírita (que é disto que este tópico trata) se ninguém sabe dizer porq uns são bons e outros maus?

Vamos observando
Vamos na cautela
Não deixe que eles nos percebam
E percebam que estamos observando

Lá na frente
Das coisas que observarmos
Faremos um ajunto
E deste ajunto
Faremos uma separação

E destas coisas separadas
Daremos uma classificação
E daremos nome
E saberemos

O que é bem
O que é mal
E faremos sutilmente
A nossa escolha

Abraços

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 08 de Setembro de 2016, 13:56
Recordação de uma vida anterior
Revista Espírita, junho / 1860
 
(Sociedade Espírita, 25 de maio de 1860)
 
           Um dos nossos assinantes nos envia uma carta de um de seus amigos, da qual extraímos o seguinte:

       Perguntastes a minha opinião, ou antes, se acredito na presença ou não, junto a nós, das almas dos que amamos. Pedis ainda explicações relativas à minha convicção de que nossas almas mudam de envoltório muito rapidamente.

       Por mais ridículo que pareça, direi que minha convicção sincera é a de ter sido assassinado durante os massacres de São Bartolomeu. Eu era muito criança quando tal lembrança veio ferir-me a imaginação. Mais tarde, quando li essa triste página de nossa História, pareceu que muitos detalhes me eram conhecidos, e ainda creio que se a velha Paris fosse reconstruída eu reconheceria essa velha aleia sombria onde, fugindo, senti o frio de três punhaladas dadas pelas costas. Há detalhes desta cena sangrenta em minha memória que jamais desapareceram. Por que tinha eu essa convicção antes de saber o que tinha sido o São Bartolomeu? Por que, lendo o relato desse massacre eu me perguntei: é sonho, esse sonho desagradável que tive em criança, cuja lembrança me ficou tão viva? Por que, quando quis consultar a memória, forçar o pensamento, fiquei como um pobre louco ao qual surge uma ideia e que parece lutar para lhe descobrir a razão? Por que? Nada sei. Certo me achareis ridículo, mas nem por isso guardarei menos a lembrança, a convicção.

       Se eu vos dissesse que tinha sete anos quando tive um sonho e que ele era assim: Eu tinha vinte anos, era um rapaz bem posto e parece que era rico. Vim bater-me em duelo e fui morto. Se eu vos dissesse que a saudação que se faz com a arma antes de se bater, eu a fiz na primeira vez que tive um florete na mão; se eu vos dissesse que cada preliminar mais ou menos graciosa que a educação ou a civilização pôs na arte de se matar me era conhecida antes de minha educação nas armas, certamente diríeis que sou louco ou maníaco. Bem pode ser, mas às vezes me parece que um clarão atravessa essa névoa e tenho a convicção de que a lembrança do passado se restabelece em minha alma.

       Se me perguntásseis se creio na simpatia entre as almas, em seu poder de se porem em contato entre elas, a despeito da distância, apesar da morte, eu vos responderia: Sim, e este sim seria pronunciado com toda a força de minha convicção. Aconteceu de encontrar-me a vinte e cinco léguas de Lima, após vinte e seis dias de viagem, e de despertar em lágrimas, com uma verdadeira dor no coração. Uma tristeza mortal apoderou-se de mim o dia todo. Registrei o fato em meu diário. Àquela hora, na mesma noite, meu irmão tinha sido atingido por um ataque de apoplexia, que comprometeu gravemente a sua vida. Confrontei o dia e a hora. Tudo exato. Eis um fato; as pessoas existem. Direis que eu sou louco?

       Não li qualquer autor tratando de tal assunto. Fá-lo-ei em minha volta. Talvez dessa leitura jorre alguma luz para mim.”
 
       O. Sr. V..., autor desta carta, é oficial de marinha e atualmente está em viagem. Poderia ser interessante ver se, evocando-o, confirmaria suas lembranças, mas havia a impossibilidade de preveni-lo de nossa intenção e, por outro lado, à vista de seu serviço, poderia ser difícil achar um momento propício. Contudo, disseram-nos que chamássemos o seu anjo da guarda, quando quiséssemos evocá-lo, e ele nos diria se poderíamos fazê-lo.
 
       1. Evocação do anjo da guarda do Sr. V...
       - Atendo ao vosso chamado.
     
       2. Conheceis o motivo que nos leva a querer evocar o vosso protegido. Não se trata de satisfazer a uma vã curiosidade, mas de constatar, se possível, um fato interessante para a ciência espírita, o da recordação de sua vida anterior.
       - Compreendo o vosso desejo, mas no momento seu Espírito não está livre. Ele está ocupado ativamente pelo corpo e numa inquietude moral que o impede de repousar.
     
       3. Ele ainda está no mar?
       - Está em terra. Mas poderei responder a algumas das vossas perguntas, porque aquela alma foi sempre confiada à minha guarda.
     
       4. Desde que tendes a bondade de responder, perguntaremos se a lembrança que ele julga conservar de sua morte numa existência anterior é uma ilusão.
       - É uma intuição muito real. Essa pessoa estava muito bem na Terra, nessa época.
 
       5. Por que motivo essa lembrança lhe é mais precisa do que para outros? Há nisso alguma causa fisiológica ou alguma utilidade particular para ele?
       - Essas lembranças vivas são muito raras. Deve-se um pouco ao gênero de morte que de tal modo o impressionou que está, por assim dizer, encarnado em sua alma. Contudo, muitas outras pessoas tiveram morte tão terrível e não lhes ficou a lembrança. Só raramente Deus o permite.
 
       6. Depois dessa morte no São Bartolomeu, teve ele outras existências?
       - Não.
 
       7. Que idade tinha quando morreu?
       - Uns trinta anos.
 
       8. Pode-se saber o que era ele?
       - Ele era ligado à casa de Coligny.
     
       9. Se tivéssemos podido evocá-lo teríamos perguntado se recorda o nome da rua onde foi assassinado, a fim de ver se, indo a esse lugar, quando ele voltar a Paris, a lembrança da cena lhe seria ainda mais precisa.
       - Foi no cruzamento de Bucy.
 
       10. A casa onde ele foi morto ainda existe?
       - Não. Ela foi reconstruída.
 
       11. Com o mesmo objetivo teríamos perguntado se ele se recorda do nome que tinha.
       - Seu nome não é conhecido na História, pois era simples soldado. Chamava-se Gaston Vincent
 
       12. Seu amigo, aqui presente, desejaria saber se ele recebeu suas cartas?
       - Ainda não.
 
       13. Éreis o seu anjo da guarda nessa época?
       - Sim. Naquela época e agora.
 
       OBSERVAÇÃO: Céticos, antes mais trocistas do que sérios, poderiam dizer que o anjo da guarda o guardou mal e perguntar por que não desviou a mão que o feriu. Posto tal pergunta mal mereça uma resposta, talvez algumas palavras a respeito não sejam inúteis.
       Para começar diremos que, se morrer pertence à natureza humana, nenhum anjo de guarda tem o poder de opor-se ao curso das leis da Natureza. Do contrário, razão não haveria para que não impedissem a morte natural, tanto quanto a acidental. Em segundo lugar, estando o momento e o gênero de morte no destino de cada um, é preciso que se cumpra o destino. Diremos, por fim, que os Espíritos não encaram a morte como nós. A verdadeira vida é a do Espírito, da qual as várias existências corpóreas não passam de episódios. O corpo é um envoltório que o Espírito reveste momentaneamente e que ele deixa, como se faz com uma roupa usada ou rasgada. Pouco importa, pois, que se morra um pouco mais cedo ou mais tarde, de uma ou de outra maneira, pois que, em definitivo, sempre é preciso chegar à morte, que longe de prejudicar o Espírito, pode ser-lhe muito útil, conforme a maneira por que se realiza. É o prisioneiro que deixa a prisão temporária pela liberdade eterna. Pode ser que o fim trágico de Gaston Vincent lhe tenha sido uma coisa útil, como Espírito, o que o seu anjo da guarda compreendia melhor do que ele, porque um deles só via o presente, ao passo que o outro via o futuro. Espíritos retirados deste mundo por uma morte prematura, na flor da idade, por vezes nos responderam que era um favor de Deus, que assim os havia preservado dos males aos quais, sem isto, estariam expostos.

(Texto enviado por IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 14 de Setembro de 2016, 14:25
Concordância Espírita e Cristã
Revista Espírita, agosto / 1860

A carta seguinte foi dirigida à Sociedade de Estudos Espíritas pelo Dr. de Grand-Boulogne, antigo vice-cônsul da França.

Senhor Presidente,

Desejando ardentemente fazer parte da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, mas forçado a deixar a França brevemente, venho solicitar a honra de ser aceito como membro correspondente. Tenho a vantagem de vos conhecer pessoalmente e não necessito vos dizer com que interesse e simpatia acompanho os trabalhos da Sociedade. Li vossas obras, bem como as do barão Guldenstubbé e, conseqüen-temente, conheço os pontos fundamentais do Espiritismo, cujos princípios adoto sinceramente, tais quais vos são ensinados. Como protesto aqui a minha firme
vontade de viver e morrer como cristão, esta declaração me leva a vos fazer a minha profissão de fé, e talvez vejais com que interesse minha fé religiosa acolhe naturalmente os princípios do Espiritismo.
Na minha opinião, eis como as duas coisas se associam:

1. Deus: criador de todas as coisas.

2. Objetivo e fim de todos os seres criados: concorrer para a harmonia universal.

3. No universo criado, três reinos principais: o reino material, ou inerte; o orgânico ou vital; o intelectual e moral.

4. Tudo é criado e submetido a leis.

5. Os seres compreendidos nos dois primeiros reinos obedecem irresistivelmente, e por eles a harmonia jamais é perturbada.

6. Como os dois primeiros, o terceiro reino está submetido a leis, mas goza do estranho poder de subtrair-se a elas; possui a temível faculdade de desobedecer a Deus: é o que constitui o livre-arbítrio.
O homem pertence simultaneamente aos três reinos: é um Espírito encarnado.

7. As leis que regem o mundo moral estão formuladas no decálogo, mas se resumem neste admirável preceito de Jesus: Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos.

8. Toda derrogação da lei constitui uma perturbação na harmonia universal. Ora, Deus não permite que tal perturbação persista e a ordem deve ser necessariamente restabelecida.

9. Existe uma lei destinada à reparação da desordem no mundo moral, e esta lei está contida por inteiro na palavra: expiação.

10. A expiação efetua-se:
1o – pelo arrependimento e os atos de virtude;
2o – pelo arrependimento e as provas;
3o – pelas preces e as provas do justo, unidas ao arrependimento do culpado.

11. A prece e as provas do justo, embora concorram da maneira mais eficaz para a harmonia universal, são insuficientes para a expiação absoluta da falta; Deus exige o arrependimento do pecador; mas com esse arrependimento, a prece do justo e sua penitência em favor do culpado bastam, à eterna justiça, e o crime é perdoado.

12. A vida e a morte de Jesus põem em evidência esta adorável verdade.

13. Sem livre-arbítrio não há pecado, mas também não há virtude.

14. O que é a virtude?
A coragem no bem.

15. O que há de mais belo no mundo não é, como disse um filósofo, o espetáculo de uma grande alma lutando contra a adversidade; é o esforço perpétuo de uma alma progredindo no bem e, de virtude em virtude, elevando-se até o Criador.

16. Qual a mais bela de todas as virtudes?
A caridade.

17. O que é a caridade?
É o atributo especial da alma que, em suas ardentes aspirações para o bem, esquece de si mesma e se consome em esforços pela felicidade do próximo.

18. O saber está muito abaixo da caridade; ele nos eleva na hierarquia espírita, mas não contribui para o restabelecimento da ordem perturbada pelo mau. O saber nada expia, nada resgata, em nada influi sobre a justiça de Deus: a caridade, ao contrário,
expia e apazigua. O saber é uma qualidade; a caridade, uma virtude.

19. Ao encarnar os Espíritos, qual foi o desígnio de Deus?
Criar, para uma parte do mundo espiritual, uma situação sem a qual não existiria nenhuma das grandes virtudes que nos enchem de respeito e de admiração. Com efeito, sem o sofrimento não há caridade; sem o perigo não há coragem; sem o infortúnio não há devotamento; sem a perseguição não há estoicismo (resignação); sem a cólera não há paciência, etc. Ora, sem a corporeidade, com o desaparecimento desses males, desapareceriam essas virtudes.

Para o homem um pouco desprendido dos laços da matéria, neste conjunto do bem e do mal há uma harmonia, uma grandeza de ordem mais elevada que a harmonia e a grandeza do mundo exclusivamente material.
Isto responde em poucas palavras às objeções fundadas sobre a incompatibilidade do mal com a bondade e a justiça de Deus.

Seria preciso escrever volumes e mais volumes para desenvolver convenientemente essas diversas proposições. Entretanto, o objetivo desta comunicação não é oferecer à Sociedade uma tese filosófica e religiosa; eu quis apenas formular algumas verdades cristãs em harmonia com a Doutrina Espírita.

Em minha opinião, tais verdades constituem a base fundamental da religião e, longe de enfraquecer-se, fortificam-se com as revelações espíritas. Permito-me, também, externar uma queixa contra os ministros do culto, que, enceguecidos pela demoniofobia, recusam o esclarecimento e condenam sem exame. Se os cristãos abrissem os ouvidos às revelações dos Espíritos, tudo quanto no ensino religioso perturba nossos corações ou revolta a nossa razão desvanecer-se-ia de repente. Sem se modificar em sua essência, a religião ampliaria o círculo de seus dogmas, e os lampejos da verdade nova consolariam e iluminariam as almas. Se é certo, como
diz o Padre Ventura, que as doutrinas filosóficas ou religiosas acabam invencivelmente por se traduzirem nos atos ordinários da vida, é bem evidente que uma nação iniciada no Espiritismo tornar-se-ia a mais admirável e a mais feliz das nações.
 
Dir-se-á que uma sociedade verdadeiramente cristã seria perfeitamente feliz. Concordo. Mas o ensino religioso tanto se faz pelo temor quanto pelo amor; e os homens, dominados por suas paixões, querendo a qualquer preço se libertar dos dogmas que os ameaçam, serão sempre tão numerosos que o grupo dos cristãos perseverantes constituirá sempre uma fraca minoria. Os cristãos são numerosos, mas os verdadeiros cristãos são raros.

Não acontece assim com o ensino espírita. Embora sua moral se confunda com a do Cristianismo e, como este, pronuncie palavras cominatórias, há tão rico tesouro de consolações; é, ao mesmo tempo, tão lógico e tão prático; lança uma luz tão intensa sobre o nosso destino; afasta tão bem as trevas que perturbam a razão e as perplexidades que atormentam os corações, que, na verdade, parece impossível a um espírita sincero negligenciar um só dia trabalhar pelo seu progresso e, assim, não contribuir para restabelecer a harmonia perturbada pelo transbordamento das paixões egoístas e cúpidas.

Pode-se, pois, afirmar que, propagando as verdades que temos a felicidade de conhecer, trabalhamos pela Humanidade e nossa obra será abençoada por Deus. Para que um povo seja feliz, é necessário que o número dos que querem o bem, que praticam a lei da caridade, supere o dos que querem o mal e só praticam o egoísmo. Creio em minha alma e estou consciente de que o Espiritismo, apoiado no Cristianismo, é chamado a operar esta revolução.

Imbuído de tais sentimentos e querendo, na medida de minhas forças, contribuir para a felicidade de meus semelhantes, ao mesmo tempo em que busco tornar-me melhor, peço, Sr. Presidente, para fazer parte de vossa Sociedade.

Aceitai, etc.

De Grand-Boulogne,
doutor em Medicina,
Antigo Vice-Cônsul da França

Observação – Esta carta dispensa comentários e cada um apreciará o elevado alcance dos princípios nela formulados, de uma maneira ao mesmo tempo tão profunda, tão simples e tão clara. São esses os princípios do verdadeiro Espiritismo, que certos homens ousam ridicularizar, pois reclamam o privilégio da razão e do bom-senso, por não saberem se têm uma alma e não fazerem diferença entre o seu e o futuro de uma máquina. Acrescentaremos apenas uma observação: Bem compreendido, o Espiritismo é a salvaguarda das ideias verdadeiramente religiosas que se extinguem; contribuindo para a melhoria das criaturas, provocará, pela força das coisas, o melhoramento das massas, e não está longe o tempo em que os homens haverão de compreender que nesta doutrina encontrarão o mais fecundo elemento da ordem, do bem-estar e da prosperidade dos povos; e isto por uma razão muito simples: é que ela destrói o materialismo, que desenvolve e alimenta o egoísmo, fonte perpétua de lutas sociais, e lhe dá uma razão de ser. Uma sociedade cujos membros fossem guiados pelo amor do próximo, que inscrevesse a caridade no frontispício de todos os seus códigos, seria feliz e em breve veria apagarem-se os ódios e as discórdias. O Espiritismo pode realizar este prodígio e o fará, apesar dos que ainda o agridem, porquanto passarão os agressores, mas o Espiritismo permanecerá.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 15 de Setembro de 2016, 14:46
A vida espiritual
Revista Espírita, maio / 1867

(Grupo Lampérière, 9 de janeiro de 1867 - Médium, Sr. Delanne)

Aqui estou, feliz por vir saudar-vos, encorajar-vos e vos dizer:
Irmãos, Deus vos cumula de benefícios, prometendo-vos nestes tempos de incredulidade, respirar a plenos pulmões o ar da vida espiritual que sopra com vigor através das massas compactas.

Crede em vosso antigo societário, crede em vosso amigo íntimo, vosso irmão pelo coração, pelo pensamento e pela fé; crede nas verdades ensinadas. Elas são tão seguras quanto lógicas; crede em mim que, há alguns dias, me contentava, como vós, em crer e esperar, ao passo que hoje a doce ficção é para mim uma imensa e profunda verdade. Eu toco, eu vejo, eu sigo, eu possuo; então, isso existe. Analiso minhas impressões de hoje e as comparo com as ainda frescas, da véspera.

Não só me é permitido comparar, sintetizar, pesar minhas ações, meus pensamentos, minhas reflexões, julgá-las pelo critério do bom-senso, mas eu as vejo, eu as sinto, eu sou testemunha ocular, sou a coisa realizada. Não são mais consoladoras hipóteses, sonhos dourados, esperanças; é mais que uma certeza moral: é o fato real, palpável, o fato material que se toca, que vos toma sob sua forma tangível, e que nos diz: isto é.

Aqui tudo respira calma, sabedoria, felicidade; tudo é harmonia; tudo diz: eis o suprassumo do senso íntimo; não mais quimeras, falsas alegrias, não mais temores pueris, não mais falsa vergonha, não mais dúvidas, não mais angústias, não mais perjúrios, nada desse cortejo vil de fabulosas dores, de erros grosseiros, como se vê diariamente na Terra.

Aqui somos penetrados de uma quietude inefável; admiramos, oramos, adoramos, rendemos ações de graças ao sublime autor de tantos benefícios; estudamos e entrevemos todas as potências infinitas; vemos o movimento das leis que regem a Natureza. Cada obra tem uma finalidade, que conduz ao amor, diapasão da harmonia geral. Vemos o progresso presidir a todas as transformações físicas e morais, porque o progresso é infinito como Deus que o criou. Tudo é compreensível; tudo é claro, preciso; nada de abstrações, porque tocamos com o dedo e a razão o porquê das coisas humanas. As legiões espirituais adiantadas só têm um objetivo, o de se tornarem úteis a seus irmãos atrasados, para elevá-los para elas.

Trabalhai, pois, sem cessar, conforme vossas forças, meus bons irmãos, para vos melhorardes e serdes úteis aos vossos semelhantes; não só fareis a doutrina, que é vossa alegria, dar um passo, mas tereis contribuído poderosamente para o progresso do vosso planeta; a exemplo do grande legislador cristão, sereis homens, homens de amor, e concorrereis para implantar o reino de Deus sobre a Terra.

Este que é ainda e mais que nunca vosso condiscípulo,
LECLERC.

OBSERVAÇÃO: Com efeito, tal é o caráter da vida espiritual; mas seria um erro crer que basta ser Espírito para encará-la deste ponto de vista. Dá-se com o mundo espiritual como com o mundo corporal: para apreciar as coisas de uma ordem elevada, é necessário um desenvolvimento intelectual e moral que não é peculiar senão a Espíritos adiantados; os Espíritos atrasados ignoram o que se passa nas altas esferas espirituais, como o eram na Terra em relação ao que constitui a admiração dos homens esclarecidos, porque não podem compreendê-lo. Não podendo seu pensamento, circunscrito num horizonte limitado, abarcar o Infinito, eles não podem ter os prazeres resultantes do alargamento da esfera de atividade espiritual. A soma de felicidades, no mundo dos Espíritos, ali é, portanto, por força das coisas, proporcional ao desenvolvimento do senso moral, de onde resulta que trabalhando aqui em baixo por nosso melhoramento e nossa instrução, aumentamos as fontes de felicidade para a vida futura. Para o materialista, o trabalho só tem um resultado limitado à vida presente, que pode acabar de um instante para outro. O espírita, ao contrário, sabe que nada do que ele adquire, mesmo à última hora, fica perdido, e que todo progresso realizado lhe será proveitoso.
As profundas considerações de nosso antigo colega, Sr. Leclerc, sobre a vida espiritual, são, pois, uma prova de seu adiantamento na hierarquia dos Espíritos, pelo que o felicitamos.

ALLAN KARDEC
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 22 de Setembro de 2016, 14:09
Conversas familiares de além-túmulo
Revista Espírita, junho / 1859


Goëthe
 
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, 25 de março de 1856.
 
 
       1. Evocação.
       - Estou convosco.
 
       2. Qual a vossa situação como Espírito: errante ou reencarnado?
       - Errante.
 
       3. Sois mais feliz do que quando vivo?
       - Sim, pois estou desvencilhado do corpo grosseiro e vejo o que não via antes.
     
       4. Parece-me que em vida não tínheis uma situação infeliz. Onde, pois, a superioridade de vossa situação atual?
       - Acabo de dizê-lo. Vós, adeptos do Espiritismo, deveis compreender tal situação.
     
       5. Qual a vossa opinião atual sobre o Fausto?
       - É uma obra que tinha por objetivo mostrar a vaidade e o vazio da Ciência humana e, por outro lado, exaltar o sentimento do amor, naquilo que ele tinha de belo e de puro, e condená-lo no que tinha de imoral e de mau.
 
       6. Foi por uma espécie de intuição do Espiritismo que descrevestes a influência dos maus Espíritos sobre o homem? Como fostes levado a fazer uma tal descrição?
       - Eu tinha a recordação quase exata de um mundo onde via exercer-se a influência dos Espíritos sobre os seres materiais.
 
       7. Tínheis, então, a recordação de uma existência precedente?
       - Sim, por certo.
 
       8. Poderíeis dizer se essa existência se passou na Terra?
       - Não, porque aqui não se veem os Espíritos agindo. Foi mesmo num outro mundo.
 
       9. Mas, então, já que podíeis ver os Espíritos em ação, deveria ser um mundo superior à Terra. Como é que viestes depois para um mundo inferior? Caístes? Tende a bondade de explicar.
       - Era um mundo superior até certo ponto, mas não como o entendeis. Nem todos os mundos têm a mesma organização, sem que, por isto, tenham uma grande superioridade. Além do mais, sabeis muito bem que entre vós eu cumpria uma missão que não podeis ignorar, pois ainda representais as minhas obras. Não houve queda, desde que servi, e ainda sirvo para a vossa moralização. Eu aplicava aquilo que podia haver de superior naquele mundo precedente para melhorar as paixões dos meus heróis.
 
       10. Sim, vossas obras ainda são representadas. Agora mesmo o Fausto acaba de ser adaptado para ópera. Assististes à sua representação?
       - Sim.
 
       11. Podeis dar-nos a vossa opinião sobre a maneira por que o Sr. Gounod interpretou o vosso pensamento através da música?
       - Gounod evocou-me sem o saber. Compreendeu-me muito bem. Como músico alemão eu não teria feito melhor. Talvez ele pense como músico francês.
 
       12. Que pensais do Werther?
       - Agora lhe reprovo o desenlace.
 
       13. Não teria essa obra feito muito mal, exaltando paixões?
       - Fez, e causou desgraças.
 
       14. Foi a causa de muitos suicídios. Sois por isso responsável?
       - Desde que houve uma influência maléfica espalhada por mim, é exatamente por isso que sofro ainda e de que me arrependo.
 
       15. Parece-me que em vida tínheis grande antipatia pelos franceses. Ainda a tendes hoje?
       - Sou muito patriota.
 
       16. Ainda vos ligais mais a um país do que a outro?
       - Amo a Alemanha por seu pensamento e por seus costumes quase patriarcais.
 
       17. Quereis dar-nos a vossa opinião sobre Schiller?
       - Somos irmãos pelo Espírito e pelas missões. Schiller tinha uma grande e nobre alma, de que eram reflexos as suas obras. Fez menos mal do que eu. É-me superior, porque era mais simples e mais verdadeiro.
 
       18. Poderíeis dar-nos a vossa opinião sobre os poetas franceses em geral, comparando-os aos alemães? Não se trata de vão sentimento de curiosidade, mas de nossa instrução. Consideramos os vossos sentimentos muito elevados para nos privarmos de vos pedir imparcialidade, deixando de lado qualquer preconceito nacional.
       - Sois curiosos, mas quero satisfazer-vos.
       Os franceses modernos escrevem muitas vezes belos poemas, mas empregam mais belas palavras do que bons pensamentos. Deveriam aplicar-se mais ao coração e menos ao espírito. Falo em geral, mas faço exceções em favor de alguns: um grande poeta pobre, entre outros.
 
       19. Um nome é sussurrado na assembleia. - É deste que falais?
       - Pobre, ou que simula pobreza.
 
       20. Gostaríamos de obter uma vossa dissertação sobre assunto de vossa escolha, para nossa instrução. Teríeis a bondade de nos ditar alguma coisa?
       - Fá-lo-ei mais tarde, por outros médiuns. Evocai-me em outra ocasião.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Setembro de 2016, 20:28
Poesias Espíritas

O MENINO E O ATEU
Revista Espírita - outubro / 1862

(Sociedade Espírita Africana – Médium: Srta. O...)

Um belo ser, ateu se proclamando,
Passeava um dia ao lado de um rapaz
Às margens de um regato, às quais sombreando,
De um sol forte os livravam vegetais.

Ao ver jorrar água tão pura,
Diz ao jovem seu sábio companheiro:
Aonde pensas tu que porventura
Vai conduzir-lhe o curso o vale inteiro?

Responde-lhe o rapaz: Talvez um lago
De suas águas ganhe-lhe o tributo,
Que ao término de esforço amargo e vago
De todos os riachos é o fim bruto.”

Pobre criança! O mestre diz, sorrindo,
Como enganado está teu ser;
Aprende, pois, tudo no mundo é findo,
Tudo se acaba no morrer.

Quando se afasta da nascente,
Onde os filetes vão jorrando,
É para achar seu termo, finalmente,
Para sempre nos mares terminando

É de nós todos essa a dura imagem;
Quando deixamos deste mundo a estada
Eis o que resta então de uma curta passagem,
Nos encontrarmos ante o nada.

Oh! Meu Deus! Diz o moço em desolada voz,
Essa é a verdade, então, tal nossa sorte?
Que! E minha mãe, só somos nós,
Terei tudo perdido em sua morte?

Eu que supunha que sua alma querida
Podia proteger sua criança,
Com ela partilhar as penas desta vida,
Tê-la perto de Deus não é minha esperança?

“Guarda sempre contigo a doce crença.”
Sussurra-lhe o bom anjo com bondade,
Sim, bom menino, a fé te seja imensa,
Sem ela, sobre a Terra, onde a felicidade?

E o tempo se esgotou; correram anos
Nosso sábio afinal desencarnou,
Mantendo-os fiel aos seus loucos enganos,
Creu-se morto a dizer que Deus nunca encontrou.

Quanto ao menino, veio-lhe a velhice
E sem receio recebeu a morte,
Porque mantendo a fé da meninice,
Nas mãos do Eterno Pai lhe redimiu a sorte.

Vede que multidão que ora apressada
Deixa o céu para o vir cá receber;
E de Espíritos bons turma sagrada
Que a um exilado irmão enfim torna a rever.

Mas quem é aquela alma só e triste
Que se esforça afinal por se ocultar?
Do desgraçado sábio é o ser que a tudo assiste
Que tudo vê e não pode aí se misturar.

Foi muito amarga a sua pena,
Por ter a Deus um dia então negado,
Deus lhe surge afinal, não juiz que condena,
Em majestade sublimado.

Oh! quanto pranto por herança
Vieram quebrar dessa alma a empáfia dura!
Ele que outrora rira da esperança
De um pobre rapazelho além da sepultura.

Mas do Senhor a bênção paternal
Não pune para sempre o pecador;
Em breve pois a alma imortal
Devolve à Terra com Amor.

Por sua vez purificada,
Em cujos erros já não cai,
De luz e glória inebriada
Vai repousar aos pés do Eterno Pai.

Assinado: Ducis
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 28 de Setembro de 2016, 12:57
Eugénie Colombe - Precocidade fenomenal
Revista Espírita, fevereiro / 1867
 
Vários jornais reproduziram o seguinte fato:
 
“A Sentinelle, de Toulon, fala de um jovem fenômeno que é admirado no momento nessa cidade.
É uma menina de dois anos e onze meses, chamada Eugénie Colombe.
Essa menina já sabe ler e escrever perfeitamente; além do mais, está em condições de sustentar o mais sério exame sobre os princípios da religião cristã, sobre gramática francesa, Geografia, História da França e sobre as quatro operações da Aritmética.
Ela conhece a rosa dos ventos e sustenta perfeitamente uma discussão científica sobre qualquer assunto.
Essa admirável menina começou a falar muito distintamente com a idade de quatro meses.
Apresentada nos salões da prefeitura marítima, Eugénie Colombe, dotada de um rosto encantador, obteve um sucesso magnífico.”
 
Este artigo nos tinha parecido, como para muitas outras pessoas, marcado de tal exagero, que não lhe tínhamos atribuído nenhuma importância. Não obstante, para saber positivamente a que nos atermos, pedimos a um dos nossos correspondentes, oficial de marinha em Toulon, a bondade de se informar do fato. Eis o que ele nos respondeu:
 
“Para me assegurar da verdade, fui à casa dos pais da menina mencionada pela Sentinelle Toulonnaise de 19 de novembro, e vi essa encantadora criança, cujo desenvolvimento físico corresponde à sua idade. Ela tem apenas três anos. Sua mãe é professora e é ela que dirige a sua instrução. Em minha presença interrogou-a sobre o catecismo, a história sagrada, desde a criação do mundo até o dilúvio, os oito primeiros reis da França e diversas circunstâncias relativas a seus reinados e ao de Napoleão I. Quanto à Geografia, a menina citou as cinco partes do mundo, as capitais dos países que as compõem e várias capitais de Departamentos da França. Também respondeu perfeitamente às primeiras noções de gramática francesa e do sistema métrico. Ela deu todas as respostas sem a menor hesitação, divertindo-se com os brinquedos que tinha nas mãos. Sua mãe me disse que ela sabe ler desde dois anos e meio e assegurou-me que pode responder do mesmo modo a mais de quinhentas perguntas.”
 
Livre do exagero do relato dos jornais e reduzido às proporções acima, o fato não é menos notável e importante em suas consequências. Ele forçosamente chama a atenção sobre fatos análogos de precocidade intelectual e conhecimentos inatos. Involuntariamente procuramos sua explicação, e com a ideia da pluralidade das existências, que circula, não se chega a nela achar uma solução racional senão numa existência anterior. Há que colocar esses fenômenos no número dos que são anunciados como devendo, por sua multiplicidade, confirmar as crenças espíritas, e contribuir para o seu desenvolvimento.
No presente caso, certamente a memória parece desempenhar um papel importante. Sendo professora a mãe da menina, sem dúvida a menina encontrava-se habitualmente na sala de aula, e teria retido as lições dadas aos alunos por sua mãe, ao passo que se veem certos alunos possuírem, por intuição, conhecimentos de certo modo inatos e independentes de qualquer ensinamento. Mas por que nela e não nos outros, essa facilidade excepcional para assimilar o que ouvia e que provavelmente não pensavam em lhe ensinar? É que aquilo que ela ouvia apenas lhe despertava a lembrança do que ela já soubera. A precocidade de certas crianças para as línguas, a música, as matemáticas, etc., todas as ideias inatas, numa palavra, igualmente não passam de lembranças. Elas se lembram do que souberam, como se veem certas pessoas lembrar-se, mais ou menos vagamente, do que fizeram ou do que lhes aconteceu. Conhecemos um menino de cinco anos que, estando à mesa, onde nada da conversa poderia ter provocado uma ideia a esse respeito, pôs-se a dizer: “Eu fui casado, e me lembro bem. Eu tinha uma mulher, pequena, jovem e linda, e tive vários filhos.” Certamente não temos nenhum meio de controlar sua asserção, mas nos perguntamos de onde lhe pode vir semelhante ideia, quando nenhuma circunstância tinha podido provocá-la.
Devemos disto tirar a conclusão que as crianças que só aprendem à custa de muito esforço foram ignorantes ou estúpidas em sua precedente existência? Certamente não. A faculdade de recordar é uma aptidão inerente ao estado psicológico, isto é, ao mais fácil desprendimento da alma em certos indivíduos do que em outros, uma espécie de visão espiritual retrospectiva que lhes lembra o passado, ao passo que naqueles que não a possuem, esse passado não deixa qualquer traço aparente. O passado é como um sonho, do qual a gente se lembra mais ou menos exatamente, ou do qual se perdeu totalmente a lembrança. (Ver a Revue Spirite de julho de 1860, página 205, e também a de novembro de 1864, página 328).
No momento de remeter a Revista para a gráfica, recebemos de um dos correspondentes da Argélia, que, de passagem por Toulon, viu a pequena Eugénie Colombe, uma carta contendo o relato seguinte, que confirma o precedente, e acrescenta detalhes que não deixam de ser interessantes:
 
“Essa menina, de uma beleza notável, é de uma vivacidade extrema, mas de uma suavidade angélica. Sentada nos joelhos de sua mãe, respondeu a mais de cinquenta perguntas sobre o Evangelho. Interrogada sobre Geografia, designou-me todas as capitais da Europa e de diversos países da América; todas as capitais dos Departamentos da França e da Argélia; explicou-me o sistema decimal e o sistema métrico. Em gramática, os verbos, os particípios e os adjetivos. Conhece, ou pelo menos define, as quatro operações básicas. Escreveu meu ditado, mas com tal rapidez que sou levado a crer que escrevia mediunicamente. Na quinta linha ela largou a pena, olhou-me fixamente com seus grandes olhos azuis, e me disse bruscamente: ‘Senhor, é bastante’. Depois desceu da cadeira e correu para os brinquedos.
Essa criança certamente é um Espírito muito adiantado, porque se vê que responde e cita sem o menor esforço de memória. Sua mãe me disse que desde os 12 ou 15 meses ela sonha à noite e parece conversar, mas numa língua incompreensível. É caridosa por instinto; chama sempre a atenção de sua mãe quando avista um pobre; não suporta que batam nos cães, nos gatos, nem em qualquer animal. Seu pai é operário do arsenal marítimo.”
 
Somente espíritas esclarecidos, como os nossos dois correspondentes, poderiam apreciar o fenômeno psicológico que apresenta essa criança e sondar-lhe a causa, porque, assim como para julgar um mecanismo é preciso ser mecânico, para julgar fatos espíritas é preciso ser espírita. Ora, em geral, a quem encarregam da constatação e da explicação dos fenômenos deste gênero? Precisamente a pessoas que não os estudaram e que, negando a causa primeira, não podem admitir-lhes as consequências.

(Texto envia por IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 03 de Outubro de 2016, 20:40
Allan Kardec

Uma vida pela Caridade
 
A abnegação, o devotamento desinteressado, a indulgência para com o próximo, a abstenção absoluta de toda palavra ou de todo ato que possam ferir o próximo, em uma palavra, a caridade em sua mais pura acepção, devem ser a regra invariável de conduta do espírita. – Allan Kardec (Viagem Espírita em 1862, Discurso III)
 
É muito comum possuirmos ideias preconcebidas a respeito de certas pessoas, das quais muito se fala, mas que são efetivamente pouco conhecidas, sobretudo na intimidade. É o que ocorre com Allan Kardec. Sempre citado pelos espíritas em seus centros, devido à importância de seu papel na elaboração da Doutrina Espírita, ele permanece, no entanto, um "ilustre desconhecido". Essa é a razão por que vemos alguns adeptos dizerem que Kardec foi um intelectual, que ficou alguns anos trancado em seu escritório, escrevendo as obras fundamentais do Espiritismo, cumpriu sua missão e desencarnou ao final dela. Alguns chegam mesmo a afirmar que ele não teve a oportunidade de praticar a caridade, posto que as tarefas que possuía não lhe deixavam tempo para isso, mas que seus continuadores, sim, puderam fazer todo o bem que ele não pôde. Ele é visto, por muitos espíritas, como um homem admirável por seus progressos intelectuais, mas quase nunca como exemplo de conduta.

Nosso objetivo, nesse pequeno artigo, é analisar a validade dessas ideias preconcebidas, não porque acreditemos que Kardec se sentiria honrado com o esforço que fizéssemos para que sua imagem fosse vista sem distorções, mas porque temos a convicção de tratar-se de um dever divulgarmos os bons exemplos, dada a importância de sua propagação para a transformação moral dos indivíduos. Deixaremos o leitor com alguns extratos do pensamento de Allan Kardec e relatos da visão que seus amigos tinham dele, de maneira que o próprio leitor possa analisar se o educador francês pode ser contado na categoria dos homens de bem...

Mesmo antes de iniciar suas observações a respeito dos fenômenos espíritas e dedicar-se à elaboração do Espiritismo, que tem como lema "Fora da Caridade não há Salvação", Rivail (seu nome de batismo) já consagrava sua vida e seus lazeres à prática da caridade. Vejamos o que diz seu contemporâneo, o Sr. E. Muller:

"Ele tinha horror à preguiça e à ociosidade: e este grande trabalhador morreu de pé, após um labor imenso, que acabou ultrapassando as forças de seus órgãos, mas não as do Espírito e do coração.

Educado na Suíça, naquela escola patriótica em que se respira um ar livre e vivificante, ocupava seus lazeres, desde a idade de quatorze anos, a dar aulas aos seus camaradas que sabiam menos que ele. (...) Não contente de utilizar suas faculdades notáveis numa profissão que lhe assegurava um tranquilo bem-estar, quis que aproveitassem os seus conhecimentos aqueles que não podiam pagar e foi um dos primeiros a organizar, nesta fase de sua vida, cursos gratuitos, mantidos na rua de Sèvres, nº 35, nos quais ensinava Química, Física, Anatomia comparada, Astronomia etc..." (Discursos Pronunciados por Ocasião da Inauguração do Monumento a Allan Kardec no Cemitério Père-Lachaise, 1870)
Foi, no entanto, ao dedicar-se ao árduo trabalho de elaboração do Espiritismo que Kardec mais teve de abnegar-se e devotar-se à causa que empreendia e a todos aqueles que dela se beneficiavam. Chegou, progressivamente, a abdicar de todas suas outras ocupações em prol da Doutrina Espírita, pois percebia, pelos efeitos por ela gerados, que efetivamente tratava-se do Consolador prometido pelo Cristo à humanidade. Dessa maneira, dedicou a ela todas as suas forças, inclusive a própria saúde, conforme ele mesmo afirmou:
"Compreendi, então, a imensidade de minha tarefa e a importância do trabalho que me restava a fazer para completá-la. Longe de me apavorar, as dificuldades e os obstáculos redobraram a minha energia; vi o objetivo, e resolvi atingi-lo com a assistência dos bons Espíritos. Eu sentia que não tinha tempo a perder e não o perdi nem em visitas inúteis, nem em cerimônias ociosas. Foi a obra de minha vida; a ela dei todo o meu tempo; a ela sacrifiquei o meu repouso, a minha saúde, porque o futuro estava escrito diante de mim em caracteres irrefutáveis." (Revista Espírita, dezembro de 1868 – Constituição Transitória do Espiritismo)

Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 03 de Outubro de 2016, 20:41
É preciso muita coragem e perseverança para devotar-se tão abnegadamente a uma causa. Com efeito, Kardec não apenas trabalhou na divulgação do ensino dos Espíritos, mas foi o primeiro a colocá-los em prática em sua vida pessoal. As palavras de Jesus não eram esquecidas por ele: "Tomai, pois, por divisa estas duas palavras: devotamento e abnegação, e sereis fortes, porque elas resumem todos os deveres que a caridade e a humildade vos impõem." (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. VI, O Cristo Consolador, 8)

Seu amigo Alexandre Delanne, que partilhava, com sua família, da intimidade do lar do casal Allan Kardec, foi testemunha de inúmeras ocasiões onde o Mestre não se recusou a praticar a caridade, fosse através do auxílio material ou do socorro moral, da maneira mais modesta e desinteressada possível:

"Ninguém saberia, melhor do que eu, reconhecer as raras qualidades de Allan Kardec e render-lhe justiça. (...) Muitas vezes eu tive a honra de ser recebido em sua intimidade. Como testemunhei algumas de suas boas ações, creio não ser descabido fazer algumas citações aqui.

Um amigo meu de Joinville, o Sr. P..., veio ver-me certo dia. Fomos juntos à vila Ségur, a fim de visitar o Mestre. No decorrer da conversa, o Sr. P... narrou a vida de privações por que passava um compatriota seu, já avançado em idade e a quem tudo faltava, inclusive agasalhos para se cobrir no inverno, e obrigado a proteger os pés desnudos em toscos tamancos. Esse homem de bem, entretanto, longe estava de se lastimar e, sobretudo, de pedir auxílio: era um pobre envergonhado.

É que uma brochura espírita lhe caíra sob os olhos, permitindo-lhe haurir na Doutrina a resignação para as suas provas e a esperança de um futuro melhor.

Vi, então, rolar uma lágrima compassiva dos olhos de Allan Kardec e, confiando ao meu amigo algumas moedas de ouro, disse-lhe: "Tomai-as para que possais prover às necessidades materiais mais prementes do vosso protegido. E, já que ele é espírita e suas condições não lhe permitem instruir-se tanto quanto ele desejaria, voltai amanhã. Sereis portador de todas as obras de que eu puder dispor, a fim de as entregar a ele". Allan Kardec cumpriu a promessa e hoje o velhinho bendiz o nome do benfeitor que, não satisfeito em socorrer sua miséria, ainda lhe dava o pão da vida, a riqueza da inteligência e da moral.
Alguns anos atrás, recomendaram-me uma pessoa reduzida à extrema miséria, expropriada violentamente de sua casa e jogada sem recursos no olho da rua, com a mulher e os filhos. Fiz-me intérprete desses infortunados junto ao mestre. No mesmo instante, sem querer conhecê-Ios, sem mesmo inquirir de suas crenças (eles não eram espíritas), Allan Kardec forneceu-me os meios de os tirar da miséria, o que lhes evitou o suicídio, pois já haviam decidido libertar-se do fardo da vida, tornado pesado demais às suas almas desalentadas, caso tivessem que renunciar à assistência dos homens.

(...) Eu não pararia de falar, se me fosse dado lembrar os milhares de fatos deste gênero, conhecidos tão-somente por aqueles que ele socorreu; porque ele não aliviava apenas a miséria material, mas também levantava, com palavras confortadoras, o moral abatido, e isto sem que sua mão esquerda soubesse o que dava a direita. Eis o coração desse filósofo, tão desconhecido durante sua vida!" (Discursos Pronunciados por Ocasião da Inauguração do Monumento a Allan Kardec no Cemitério Père-Lachaise, 1870)

Esse é o Allan Kardec que a maioria dos espíritas ainda não conhece. Ele teve na caridade, em sua concepção mais pura, sua regra invariável de conduta. Não foi um intelectual de destaque, perdido entre papéis em seu escritório, escrevendo suas obras. Foi um homem que dedicou todas as suas forças pelo próximo e que merece ser relembrado com um dos melhores seres que já viveu em nosso planeta, um verdadeiro modelo para a humanidade.
Por fim, encerramos com essas palavras de Kardec, que nos mostram mais um pouco da grandeza de um homem que não fazia nenhum tipo de acepção quando se tratava de auxiliar o próximo, fosse ele um poderoso nobre, ou um simples operário:
"Para mim, um homem é um homem, isto apenas! Meço seu valor por seus atos, por seus sentimentos, nunca por sua posição social. Pertença ele às mais altas camadas da sociedade, se age mal, se é egoísta e negligente de sua dignidade é, a meus olhos, inferior ao trabalhador que procede corretamente, e eu aperto mais cordialmente a mão de um homem humilde, cujo coração estou a ouvir, do que a de um potentado cujo peito emudeceu. A primeira me aquece, a segunda me enregela.

Personagens da mais alta posição honram-me com sua visita, porém nunca, por causa deles, um proletário ficou na antecâmara. Muitas vezes, em meu salão, o príncipe se assenta ao lado do operário. Se se sentir humilhado, eu direi que ele não é digno de ser espírita. Mas, sinto-me feliz em dizer, eu os vi, muitas vezes, apertarem-se as mãos, fraternalmente e, então, um pensamento me ocorria: "Espiritismo, eis um dos teus milagres; este é o prenúncio de muitos outros prodígios!" (...) Eu coloco em primeira instância as consolações que é preciso dar aos que sofrem; levantar a coragem dos abatidos, arrancar um homem de suas paixões, do desespero, do suicídio, detê-lo talvez no limiar do crime; não vale mais isto do que os lambris dourados? Tenho milhares de cartas que para mim mais valem do que todas as honrarias da Terra e que vejo como meus verdadeiros títulos de nobreza." (Viagem Espírita em 1862, Discurso Pronunciado nas Reuniões Gerais dos Espíritas de Lyon e Bordeaux, III)

      Que o nobre Allan Kardec, esse homem que dedicou a vida pela caridade, receba o nosso mais sincero agradecimento neste dia 03 de outubro, em que comemoramos 212 anos de seu nascimento. Que esse Espírito, que ainda acompanha de perto os homens, a quem tanto amou e a quem tão intensamente se dedicou, possa nos inspirar a força, a coragem e a perseverança para seguirmos seus passos e fazermos também da caridade a obra de nossas vidas.
 
texto por:Equipe IPEAK
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 07 de Outubro de 2016, 19:20
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LIÇÕES FAMILIARES DE MORAL
Revista espírita março / 1861

(Enviadas pela condessa F..., médium de Varsóvia. Traduzido do polonês)

I
Meus caros filhos, vossa maneira de compreender a vontade de Deus está errada, desde que tomais tudo o que acontece como expressão dessa vontade. Certamente conhece Deus tudo o que foi, que é e que será; sendo sempre a sua vontade a expressão do seu amor divino, traz, ao realizar-se, a graça e a bênção, enquanto que, afastando-se dessa via única, o homem atrai a si sofrimentos, que não passam de advertências. Infelizmente, o homem de hoje, enceguecido pelo orgulho de seu espírito, ou afogado no lamaçal das paixões, não as quer compreender. Ora, meus filhos, sabeis que se aproxima o tempo no qual começará o reinado da vontade de Deus na Terra; então, infeliz daquele que ainda ousar opor-se, pois será quebrado como o caniço, ao passo que aqueles que se tiverem emendado verão abrir-se para si os tesouros da misericórdia infinita. Vedes por aí que se a vontade de Deus é a expressão de seu amor e, por isso mesmo, imutável e eterna, todo ato de rebeldia contra essa vontade, embora suportado pela incompreensível sabedoria, é apenas temporária e passageira; antes que a expressão de sua vontade, representa uma prova da paciente misericórdia de Deus.

II

Vejo com prazer, meus filhos, que vossa fé não se arrefece, malgrado os ataques dos incrédulos. Se todos os homens acolhessem essa manifestação extraordinária da bondade divina, essa nova porta aberta ao vosso adiantamento com o mesmo zelo, a mesma perseverança e, sobretudo, com a mesma pureza de intenção, teria sido uma prova evidente de que o mundo não é assim tão mau, nem tão endurecido quanto parece, e – o que é inadmissível – que a mão de Deus se tenha tornado injustamente pesada sobre a Humanidade. Não vos admireis, pois, da oposição que o Espiritismo encontra no mundo. Destinado a combater vitoriosamente o egoísmo e a conduzir a caridade ao triunfo, é, naturalmente, o alvo das perseguições do egoísmo e do fanatismo, deste muitas vezes derivado. Lembrai-vos do que foi dito há muitos séculos: “Muitos serão chamados, mas poucos, escolhidos”. Entretanto, o bem, que vem de Deus, sempre acabará por triunfar do mal, que procede dos homens.
 
III

Deus fez descerem à Terra a fé e a caridade para auxiliar os homens a sacudir a dupla tirania do pecado e da arbitrariedade; e não há dúvida que, com esses dois divinos motores, há muito tempo eles teriam atingido uma felicidade tão perfeita quanto o comporta a natureza humana e o estado físico do vosso globo, caso os homens não tivessem deixado a fé enlanguescer e os corações secarem. Por um momento, mesmo, acreditaram poder dispensá-la e salvar-se apenas pela caridade. Foi então que se viu nascer essa multidão de sistemas sociais, bons na intenção que os ditava, mas defeituosos e impraticáveis na forma. E por que são impraticáveis? perguntareis; não se baseiam no desinteresse de cada um? Sim, sem dúvida; mas para se basear no desinteresse é preciso, primeiro, que exista o desinteresse. Ora, não basta decretá-lo, é preciso inspirá-lo. Sem a fé que dá a certeza das compensações da vida futura, o desinteresse é um logro aos olhos do egoísta. Eis por que são instáveis os sistemas que repousam apenas sobre os interesses materiais, tanto é certo que o homem nada poderia construir de harmonioso e durável sem a fé, que não somente o dota de uma força moral superior a todas as forças físicas, como lhe abre a assistência do mundo espiritual e lhe permite beber na fonte da onipotência divina.

IV

“Ainda mesmo quando cumprísseis tudo quanto vos foi ordenado, considerai-vos como servos inúteis”. Estas palavras do Cristo vos ensinam a humildade como a primeira base da fé e uma das primeiras condições da caridade. Aquele que tem fé não esquece que Deus conhece todas as imperfeições; em conseqüência, jamais pensa em querer parecer melhor do que é aos olhos do próximo. O que tem humildade sempre acolhe com doçura as censuras que lhe fazem, por mais injustas que sejam, porquanto, sabei-o bem, a injustiça jamais irrita o justo. É pondo o dedo sobre alguma chaga envenenada de vossa alma que se faz subir ao vosso rosto o rubor da vergonha, índice certo de um orgulho mal disfarçado. O orgulho, meus filhos, é o maior obstáculo ao vosso aperfeiçoamento, porque não vos deixa aproveitar as lições que vos dão. É, pois, combatendo-o sem trégua e sem quartel que melhor trabalhareis o vosso adiantamento.

V

Se lançardes o olhar sobre o mundo que vos cerca, vereis que tudo é harmonia. A harmonia da vida material é o belo. Entretanto, não é senão a parte menos nobre da Criação. A harmonia do mundo espiritual é o amor, emanação divina que enche os espaços e conduz a criatura ao seu Criador. Procurai, meus filhos, com ele encher os vossos corações. Tudo quanto pudésseis fazer de grande fora desta lei não vos seria levado em consideração. Só o amor, quando tiverdes assegurado o seu triunfo na Terra, fará vir a vós o reino de Deus prometido pelos apóstolos.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Outubro de 2016, 14:00
Tom, o cego, músico natural
Revista Espírita, fevereiro / 1867
 
 
Lemos no Spiritual Magazine, de Londres:
 
“A celebridade de Tom, o Cego, que há pouco fez o seu aparecimento em Londres, já se tinha espalhado aqui, e há alguns anos um artigo no jornal All the year round tinha descrito suas notáveis faculdades e a sensação que elas haviam produzido na América. A maneira pela qual as faculdades se desenvolveram nesse negro, escravo e cego, ignorante e totalmente iletrado; como, menino ainda, um dia surpreendido pelos sons da música na casa de seu senhor, correu sem cerimônia a sentar-se ao piano, reproduzindo nota por nota o que acabava de ser tocado, rindo e se contorcendo de alegria ao ver o novo mundo de prazeres que acabava de descobrir, tudo isto foi tão frequentemente repetido, que julgo inútil mencioná-lo mais uma vez. Mas um fato significativo e interessante me foi contado por um amigo, que foi o primeiro a testemunhar e apreciar a faculdade de Tom. Um dia tocaram uma peça de Haendel para ele. Imediatamente Tom a repetiu corretamente e, ao terminar, esfregou as mãos com uma expressão de indefinível alegria, exclamando: 'Eu o vejo, é um velho com uma grande peruca; ele tocou primeiro e eu depois.’ É incontestável que Tom tinha visto Haendel e o tinha ouvido tocar.
Tom exibiu-se várias vezes em público, e a maneira que executa os trechos mais difíceis quase faria duvidar de sua enfermidade. Ele repete sem falha, no piano, e necessariamente de memória, tudo quanto tocam para ele, quer sonatas clássicas antigas, quer fantasias modernas. Ora, gostaríamos de ver quem poderia aprender desta maneira as variações de Thalberg com os olhos fechados, como ele faz.
Este fato surpreendente de um cego, ignorante, desprovido de qualquer instrução, mostrando um talento que outros são incapazes de adquirir com todas as vantagens do estudo, provavelmente será explicado por muitos, segundo a maneira ordinária de encarar estas coisas, dizendo: ‘É um gênio e uma organização excepcional.’ Mas só o Espiritismo pode dar a chave desse fenômeno de maneira compreensível e racional.”
 
As reflexões que fizemos a propósito da menina de Toulon*, naturalmente se aplicam a Tom, o Cego. Tom deve ter sido um grande músico, ao qual basta ouvir para lembrar-se do que sabia. O que torna o fenômeno mais extraordinário é que se apresenta num negro, escravo e cego, tríplice causa que se opunha à cultura de suas aptidões nativas e a despeito das quais se manifestaram na primeira ocasião favorável, como um germe aos raios do sol. Ora, como a raça negra em geral, e sobretudo no estado de escravidão, não brilha pela cultura das artes, há que concluir que o Espírito de Tom não pertence a essa raça, mas que nela se encarnou como expiação ou como meio providencial de reabilitação dessa raça na opinião, mostrando de que ela é capaz.
Muito foi dito e escrito contra a escravidão e o preconceito da cor. Tudo quanto foi dito é justo e moral, mas não passa de uma tese filosófica. A lei da pluralidade das existências e da reencarnação vem a isto acrescentar a irrefutável sanção de uma lei da Natureza que consagra a fraternidade de todos os homens. Tom, o escravo nascido e aclamado na América, é um protesto vivo contra os preconceitos que ainda reinam nesse país. (Ver a Revista de abril de 1862: Perfectibilidade da raça negra. Frenologia espiritualista).
 
* Kardec refere-se a Eugénie Colombe - Precocidade fenomenal, publicado na Revista Espírita de fevereiro de 1867 -

(Texto enviado por IPEAK)


http://blogdoflaviogonzalez.blogspot.com.br/2016/07/blind-tom-o-ultimo-escravo.html
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 14 de Outubro de 2016, 01:46
Arsène Gautier
LEMBRANÇA DE UM ESPÍRITO
Revista Espírita outubro / 1862

A Sra. S..., de Cherbourg, transmitiu-nos o seguinte relato:

Um marujo da marinha de guerra, chamado Arsène Gautier, voltou a Cherbourg há quinze ou dezesseis anos, muito doente, em conseqüência de febres adquiridas nas costas africanas. Veio à casa de um de meus genros, que sabia ser amigo de seu irmão, capitão da marinha mercante, e que era esperado dentro de poucos dias naquele porto. Nós o recebemos bem e, como estivesse doente, minha filha J..., então com quatorze ou quinze anos, pediu-me que o chamasse para se aquecer à nossa lareira e tomar uma tisana, que não lhe seria dada em seu albergue, até que seu irmão chegasse. Essa menina teve para com ele cuidados compassivos. Ele morreu ao chegar à sua casa; depois ninguém mais pensou no caso. Seu próprio nome, escrito no início da comunicação espontânea, que recebemos em 8 de março último, por minha filha J..., hoje médium, não no-lo tinha lembrado. Só o reconhecemos pelos detalhes em que entrou. Era um homem de inteligência muito limitada e sua vida tinha sido muito difícil. Privado da afeição dos seus, a tudo se havia resignado.

Eis a sua comunicação:

“Arsène Gautier. Vós me esquecestes há muito tempo, minha amiga, mas eu não vos perdi de vista desde que deixei a Terra, porque sois a única pessoa, o único Espírito simpático que encontrei nesta terra de dores. Eu vos amei com todas as minhas forças, quando não passáveis de uma criança e não tínheis por mim senão um sentimento de piedade, devido à terrível enfermidade que me devia levar. Sou feliz... Esta era a primeira existência que Deus me tinha dado. Como meu Espírito era ainda novo e não conhecia nenhum outro Espírito, liguei-me mais a vós. Estou feliz e prestes a voltar à Terra para avançar em direção ao
Senhor. Tenho a esperança no coração; o caminho, tão difícil paraalguns, parece-me largo e fácil. Um bom começo como minha existência passada é um encorajamento tão grande! Deus me ajudará. Orareis também por mim, para que minha prova tão próxima me seja tão proveitosa quanto a outra. Infelizmente não sou adiantado, mas chegarei.”

Não fazíamos ainda a menor idéia do Espírito que dera aquela comunicação, e nos perguntávamos uma à outra quem poderia ser.

O Espírito respondeu:

“Sou irmão de um ex-capitão de Nantes, que era amigo de um de vossos parentes.” (Isto nos despertou a memória e o Espírito continuou): “Obrigado por vos lembrardes de mim. Só lamento uma coisa, ao entrever a prova que se aproxima: ser separado de vós por algum tempo. Adeus; amo-vos muito.

Arsène Gautier.”

Observação – Lida tal comunicação na Sociedade de Paris, perguntamos a um dos nossos guias espirituais se era possível que aquela tivesse sido, como dizia o Espírito, a sua primeira encarnação. Respondeu o guia:

“Sua primeira encarnação na Terra, é possível; mas, como Espírito, não. Em suas primeiras encarnações, os Espíritos encontram-se num estado quase inconsciente e este, embora pouco adiantado, já está longe de sua origem; mas é um desses Espíritos bons, que seguiram o caminho do bem. Seu progresso será rápido, pois não terá de se despojar senão de sua ignorância, nem lutar contra as más tendências dos que trilharam o caminho do mal.”
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 16 de Outubro de 2016, 20:56
Questões e Problemas
PROGRESSO NAS PRIMEIRAS ENCARNAÇÕES
Revista Espírita - janeiro / 1864


Pergunta – Duas almas, criadas simples e ignorantes, que não conhecem o bem, nem o mal, vêm à Terra. Se, numa primeira existência, uma seguir o caminho do bem, e a outra o do mal, já que, de certo modo, é o acaso que as conduz, elas não merecem castigo nem recompensa. Essa primeira viagem terrestre não deve ter servido senão para dar a cada uma delas a consciência de sua existência, consciência que antes não tinham. Para ser lógico, seria preciso admitir que as punições e as recompensas só começariam a ser infligidas ou concedidas a partir da segunda encarnação, quando os Espíritos já soubessem distinguir entre o bem e o mal, experiência que lhes faltaria por ocasião de sua criação, mas que adquiririam por meio de sua primeira encarnação. Tal opinião tem fundamento?

Resposta – Embora esta pergunta já esteja resolvida pela Doutrina Espírita, vamos respondê-la, para a instrução de todos.

Ignoramos absolutamente em que condições se dão as primeiras encarnações da alma; é um desses princípios das coisas que estão nos segredos de Deus. Apenas sabemos que são criadas simples e ignorantes, tendo todas, assim, o mesmo ponto de partida, o que é conforme à justiça; o que sabemos ainda é que o livre arbítrio só se desenvolve pouco a pouco e após numerosas evoluções na vida corpórea. Não é, pois, nem após a primeira, nem depois da segunda encarnação que a alma tem consciência bastante clara de si mesma, para ser responsável por seus atos; não é senão após a centésima, talvez após a milésima. Dá-se o mesmo com a criança, que não goza da plenitude de suas faculdades, nem um, nem dois dias após o nascimento, mas depois de anos. E, ainda, quando a alma goza do livre-arbítrio, a responsabilidade cresce em razão do desenvolvimento de sua inteligência; é assim, por exemplo, que um selvagem que come os seus semelhantes é menos castigado que o homem civilizado, que comete uma simples injustiça. Sem dúvida os nossos selvagens estão muito atrasados em relação a nós e, no entanto, já se acham bem longe de seu ponto de partida. Durante longos períodos, a alma encarnada é submetida à influência exclusiva dos instintos de conservação; pouco a pouco esses instintos se transformam em instintos inteligentes ou, melhor dizendo, se equilibram com a inteligência; mais tarde, e sempre gradualmente, a inteligência domina os instintos. Só então é que começa a séria responsabilidade.

Além disso, o autor da pergunta comete dois erros graves: o primeiro é o de admitir que o acaso decida pelo bom ou mau caminho que o Espírito segue em seu princípio. Se houvesse acaso ou fatalidade, toda responsabilidade seria injusta. Como dissemos, o Espírito fica num estado inconsciente durante numerosas encarnações; a luz da inteligência não se faz senão aos poucos e a responsabilidade real só começa quando o Espírito age livremente e com conhecimento de causa.

O segundo erro é o de admitir que as primeiras encarnações humanas ocorrem na Terra. A Terra já foi, mas não é mais, um mundo primitivo; os mais atrasados seres humanos
encontrados em sua superfície já se despojaram das primeiras fraldas da encarnação e os nossos selvagens estão em progresso, comparativamente ao que eram antes que seu Espírito viesse encarnar neste globo. Que se julgue agora o número de existências necessárias a esses selvagens para transpor todos os degraus que os separam da mais adiantada civilização; todos esses degraus intermediários se acham na Terra sem solução de continuidade e se pode segui-los observando as nuances que distinguem os diferentes
povos; só o começo e o fim aí não se encontram; para nós o começo se perde nas profundezas do passado, que não nos é dado penetrar.

Aliás, isto pouco importa, pois tal conhecimento em nada nos adiantaria. Não somos perfeitos, eis o que é positivo; sabemos que nossas imperfeições são o único obstáculo à nossa felicidade futura; portanto, estudemo-nos, a fim de nos aperfeiçoarmos. No ponto em que estamos a inteligência está bastante desenvolvida para permitir ao homem julgar sensatamente o bem e o mal, e é também deste ponto que a sua responsabilidade é mais seriamente empenhada, já que não mais se pode dizer o que dizia Jesus:

“Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem.”
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 19 de Outubro de 2016, 13:24
Livre-arbítrio e presciência divina
Revista Espírita, outubro / 1863
 
Há uma grande lei que domina tudo no Universo: a lei do progresso. É em virtude dessa lei que o homem, criatura essencialmente imperfeita, deve, como tudo quanto existe em nosso globo, percorrer todas as fases que o separam da perfeição. Sem dúvida Deus sabe quanto tempo cada um levará para chegar ao fim. Porém, como todo progresso deve resultar de um esforço tentado para realizá-lo, não haveria nenhum mérito se o homem não tivesse a liberdade de tomar este ou aquele caminho. Com efeito, o verdadeiro mérito não pode resultar senão de um trabalho operado pelo Espírito para vencer uma resistência mais ou menos considerável.

Como cada um ignora o número de existências que consagrou ao seu adiantamento moral, ninguém pode prejulgar nesta grande questão, e é sobretudo aí que brilha, de maneira admirável, a infinita bondade de nosso Pai Celeste que, ao lado do livre-arbítrio que nos conferiu, semeou em nosso caminho marcos indicadores que iluminam os desvios. É, pois, por um resto de predomínio da matéria que muitos homens se obstinam em ficar surdos às advertências que lhes chegam de todos os lados, e preferem gastar em prazeres enganadores e efêmeros uma vida que lhe havia sido concedida para o avanço de seu Espírito.

Não se poderia afirmar sem blasfêmia que Deus tenha querido a infelicidade de suas criaturas, pois os infelizes expiam sempre, tanto uma vida anterior mal empregada quanto sua recusa a seguir o bom caminho, quando este lhe era mostrado claramente.

Assim, depende de cada um abreviar a prova que deve sofrer. Por isso, guias seguros bastante numerosos lhe são concedidos para que seja inteiramente responsável por sua recusa de seguir seus conselhos, e ainda, neste caso, existe um meio certo de abrandar uma punição merecida, dando sinais de sincero arrependimento e recorrendo à prece, que jamais deixa de ser atendida, quando feita com fervor. O livre-arbítrio existe, pois, efetivamente, no homem, mas com um guia: a consciência.

Vós todos que tendes acesso ao grande foco da nova ciência, não negligencieis de vos penetrar das eloquentes verdades que ela vos revela, e dos admiráveis princípios que são a sua consequência. Segui-os fielmente, pois é aí, sobretudo, que brilha o vosso livre-arbítrio.
Pensai, por um lado, nas consequências fatais que para vós arrastaria a recusa de seguir o bom caminho, como nas magníficas recompensas que vos aguardam caso obedeçais às instruções dos bons Espíritos. É aí que brilhará, por sua vez, a presciência divina.

Em vão se esforçam os homens em busca da verdade por todos os meios que julgam ter na Ciência. Esta verdade, que lhes parece escapar, segue sempre ao seu lado, e os cegos não a percebem.

Espíritos sábios de todos os países, aos quais é dado levantar uma ponta do véu, não negligencieis os meios que vos são oferecidos pela Providência! Provocai nossas manifestações; fazei que delas aproveitem todos os vossos irmãos menos bem aquinhoados que vós; inculcai em todos os preceitos que vos chegam do mundo espírita, e tereis bem merecido, porque tereis contribuído em larga parte para a realização dos desígnios da Providência.

(Texto recebido por IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 21 de Outubro de 2016, 14:27
O arrependimento
Revista Espírita, julho / 1863


(SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS. MÉDIUM: SRA. COSTEL)

O arrependimento sobe a Deus e lhe é mais agradável que o fumo dos sacrifícios e mais precioso que o incenso espalhado nos recintos sagrados. Semelhante às tempestades que varam o ar, purificando-o, o arrependimento é um sofrimento fecundo, uma força reativa e atuante. Jesus santificou sua virtude, e as lágrimas de Madalena se espalharam como orvalho sobre os corações endurecidos que ignoravam a graça do perdão. A soberana virtude proclamou o poder do arrependimento, e os séculos repercutiram, enfraquecendo-o, a palavra do Cristo.

É chegada a hora em que o Espiritismo deve rejuvenescer e vivificar a própria essência do Cristianismo. Assim, por toda parte e para sempre, apagai a cruel sentença que despoja a alma culpada de toda esperança. O arrependimento é uma virtude militante, uma virtude viril, que só os Espíritos adiantados ou os corações ternos podem sentir. O pesar momentâneo e causticante de uma falta não arrasta consigo a expiação que dá o conhecimento da justiça de Deus, justiça rigorosa em suas conclusões, que aplica a lei de Talião à vida moral e física do homem e o castiga pela lógica dos fatos, todos decorrentes do bom ou mau uso do livre-arbítrio.

Amai os que sofrem e assisti o arrependimento, que é a expressão e o sinal que Deus imprimiu na sua criatura inte­ligente, para elevá-la e aproximá-la de si.

João, discípulo.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 22 de Outubro de 2016, 14:14
As metades eternas
Revista Espírita, 1858 / Maio

A passagem que se segue foi extraída da carta de um dos nossos assinantes.

“...Perdi, há alguns anos, uma esposa boa e virtuosa e, embora me houvesse deixado seis filhos, sentia-me em completo isolamento, quando ouvi falar de manifestações espíritas. Em breve eu me encontrava num pequeno grupo de bons amigos, que todas as noites se ocupavam desse assunto. Aprendi, então, através das comunicações obtidas, que a verdadeira vida não está na Terra, mas no mundo dos Espíritos; que a minha Clemência ali era feliz e que, como outras, trabalhava pela felicidade dos que aqui havia conhecido.

“Ora, eis um ponto sobre o qual desejo ardentemente que me esclareçais.

“Uma noite eu dizia à minha Clemência: Minha cara amiga, por que, a despeito do nosso amor, acontece que nem sempre tivemos o mesmo ponto de vista nas diversas circunstâncias de nossa vida comum, e por que tantas vezes fomos obrigados a concessões recíprocas a fim de vivermos em boa harmonia?

“Ela me respondeu:

─ “Meu amigo, nós éramos bons e honestos; vivemos juntos e, poderíamos dizer, do melhor modo possível, nessa Terra de provas, mas não éramos nossas metades eternas. Tais uniões são raras na Terra. Embora possam ser encontradas, representam um grande favor de Deus. Aqueles que desfrutam dessa felicidade experimentam alegrias que desconheces.

─ “Podes dizer-me se vês a tua metade eterna?

─ “Sim, respondeu ela. É um pobre diabo que vive na Ásia; poderá unir-se a mim só daqui a 175 anos, segundo a vossa maneira de contar.

─ “Vossa união será na Terra ou em outro mundo?

─ “Na Terra. Mas, escuta: eu não te posso descrever bem a felicidade dos seres assim reunidos. Pedirei a Heloísa e a Abelardo que te venham informar.

“Então, senhor, esses entes felizes vieram nos falar dessa indizível felicidade.

─ “À nossa vontade”, disseram eles, “dois não fazem mais que um. Viajamos pelo espaço; gozamos de tudo; amamo-nos com um amor sem fim, acima do qual só existe o amor de Deus e dos seres perfeitos. Vossas maiores alegrias não valem um só de nossos olhares e de nossos apertos de mão.”

“Alegra-me o pensamento das metades eternas. Parece que Deus, criando a Humanidade, a fez dupla e, separando as duas metades da mesma alma, lhes disse: Ide por esse mundo e procurai encarnações. Se fizerdes o bem, a viagem será curta e permitirei a vossa união. Do contrário, passar-se-ão séculos antes que possais gozar dessa felicidade. Tal é, ao que me parece, a causa primeira do movimento instintivo que arrasta a Humanidade em busca da felicidade, essa felicidade que a gente não compreende nem se empenha em compreender.

“Desejo ardentemente, senhor, um esclarecimento sobre esta teoria das metades eternas e sentir-me-ia feliz se tivesse uma explicação sobre o assunto num dos vossos próximos números...”

Interrogados sobre a matéria, Abelardo e Heloísa nos deram as respostas seguintes:

1. ─ As almas foram criadas duplas?

─ Se tivessem sido criadas duplas, simples elas seriam imperfeitas.

2. ─ É possível que duas almas possam reunir-se na eternidade, formando um todo?

─ Não.

3. ─ Você e sua Heloísa formam, desde a origem, duas almas perfeitamente distintas?

─ Sim.

4. ─ Ainda agora sois duas almas distintas?

─ Sim, mas sempre unidas.

5. ─ Os homens acham-se todos nas mesmas condições?

─ Conforme sejam mais ou menos perfeitos.

6. ─ As almas são todas destinadas a se unirem, um dia, a uma outra alma?

─ Cada Espírito tende a procurar um outro Espírito que lhe seja semelhante. É o que chamais de simpatia.

7. ─ Nessa união existe uma condição de sexo?

─ As almas não têm sexo.

Tanto para satisfazer o desejo de nosso assinante quanto para nossa própria instrução, dirigimos ao Espírito de São Luís as perguntas que seguem:

1. ─ As almas que se devem unir estão predestinadas, desde a origem, a essa união e cada um de nós tem, em qualquer parte do Universo, a sua metade, à qual deverá um dia unir-se fatalmente?

─ Não. Não existe uma união particular e fatal de duas almas. Existe a união entre todos os Espíritos, mas em graus diferentes, segundo a posição que ocupam, isto é, segundo a perfeição adquirida: quanto mais perfeitos, mais unidos. Da discórdia brotam todos os males humanos; da concórdia resulta a felicidade completa.

2. ─ Em que sentido devemos entender o vocábulo metade, de que se servem por vezes alguns Espíritos para a designação dos Espíritos simpáticos?

─ A expressão é inexata. Se um Espírito fosse metade de outro, dele separado, seria incompleto.

3. ─ Uma vez unidos, dois Espíritos perfeitamente simpáticos permanecem unidos para a eternidade ou podem separar-se e unir-se a outros Espíritos?

─ Todos os Espíritos estão unidos entre si. Falo dos que chegaram à perfeição. Nas esferas inferiores, quando um Espírito se eleva, não é mais simpático àqueles que deixou.

4. ─ Dois Espíritos simpáticos são o complemento um do outro ou essa simpatia é o resultado de uma perfeita identidade?

─ A simpatia que atrai um Espírito para outro resulta da perfeita concordância de suas inclinações e de seus instintos. Se um devesse completar o outro, perderia sua individualidade.

5. ─ A identidade necessária à simpatia perfeita consistiria apenas na similitude de pensamentos e de sentimentos, ou também na uniformidade de conhecimentos adquiridos?

─ Na igualdade do grau de elevação.

6. ─ Os Espíritos que hoje não são simpáticos poderão sê-lo mais tarde?

─ Sim, todos o serão. Assim, o Espírito que hoje se acha em esfera inferior alcançará, pelo aperfeiçoamento, a esfera onde reside um outro. Seu encontro dar-se-á mais prontamente se o Espírito mais elevado, suportando mal as provas a que se submeteu, permanecer no mesmo estado.

7. ─ Dois Espíritos simpáticos poderão deixar de sê-lo?

─ Por certo, se um deles for preguiçoso.

Estas respostas resolvem perfeitamente a questão.

A teoria das metades eternas é uma figura referente à união de dois Espíritos simpáticos; é uma expressão usada mesmo na linguagem comum, tratando-se dos esposos, e que não se deve tomar ao pé da letra. Os Espíritos que dela se serviram certamente não pertencem à mais alta ordem. A esfera de seus conhecimentos é necessariamente limitada. Eles exprimiram o seu pensamento com as palavras de que se teriam servido na vida corpórea. É, pois, necessário rejeitar esta ideia de que dois Espíritos, criados um para o outro, um dia deverão unir-se na eternidade, depois de terem estado separados durante um lapso de tempo mais ou menos longo.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Outubro de 2016, 20:28
ORGANIZAÇÃO DO ESPIRITISMO
Revista Espírita, 1861 / Dezembro

1. Até o presente, embora muito numerosos, os espíritas se têm disseminado por todos os países, o que não é um dos caracteres menos salientes da Doutrina. Como uma semente levada pelo vento, ela fixou raízes em todos os pontos do globo, prova evidente de que sua propagação não é efeito de uma camarilha, nem de uma influência local e pessoal. A princípio isolados, os adeptos se surpreenderam hoje com seu número, e como a similitude de ideias inspira o desejo de aproximação, procuram reunir-se e fundar sociedades. Assim, de toda parte nos pedem instruções a propósito, manifestando o desejo de união à Sociedade central de Paris. É, pois, chegado o momento de nos ocuparmos do que se pode chamar a organização do Espiritismo. Sobre a formação das sociedades espíritas, o Livro dos Médiuns (2.ª edição) contém observações importantes, às quais remetemos os interessados, pedindo-lhes que meditem com cuidado. Diariamente a experiência vem confirmar-lhes a justeza, que lembraremos de modo sucinto, acrescentando instruções mais circunstanciadas.

2. Inicialmente falemos dos adeptos ainda isolados em meio a uma população hostil ou ignorante das ideias novas. Diariamente recebemos cartas de pessoas que estão neste caso e que perguntam o que podem fazer na ausência de médiuns e de coparticipantes do Espiritismo. Eles estão na situação em que, apenas há um ano, se achavam os primeiros espíritas dos mais numerosos centros de hoje. Pouco a pouco multiplicaram-se os adeptos e há cidades onde praticamente se contaram por unidades isoladas, mas hoje o são por centenas e milhares. Em breve dar-se-á o mesmo em toda parte. É uma questão de paciência. Quanto ao que devem fazer, é muito simples. A princípio podem trabalhar por conta própria e penetrar-se da doutrina pela leitura e meditação das obras especiais. Quanto mais se aprofundarem, mais verdades consoladoras descobrirão, confirmadas pela razão. Em seu isolamento, devem julgar-se felizes por terem sido os primeiros favorecidos. Mas se se limitassem a colher na Doutrina uma satisfação pessoal, seria uma espécie de egoísmo. Em razão de sua própria posição, têm uma bela e importante missão a cumprir: a de espalhar a luz em seu redor. Os que aceitarem essa missão e não se deixarem deter pelas dificuldades, serão largamente recompensados pelo sucesso e pela satisfação de haver feito uma coisa útil. Sem dúvida encontrarão oposição. Serão motivo da troça e dos sarcasmos dos incrédulos, e mesmo da malevolência das pessoas interessadas em combater a doutrina, mas onde estaria o mérito se não houvesse obstáculos a vencer? Assim, aos que fossem detidos pelo medo pueril do que diriam, nada temos a dizer, nenhum conselho a dar. Mas aos que têm a coragem de sua opinião, e que estão acima das mesquinhas considerações mundanas, diremos que o que têm a fazer se limita a falar abertamente do Espiritismo, sem afetação, como de uma coisa muito simples e muito natural, sem pregá-la, e sobretudo sem buscar nem forçar convicções, nem fazer prosélitos a todo custo. O Espiritismo não deve ser imposto. Vem-se a ele porque dele se necessita, e porque ele dá o que não dão as outras filosofias. Convém mesmo não entrar em explicações com os incrédulos obstinados, pois seria dar-lhes muita importância e levá-los a pensar que se depende deles. Os esforços que se façam para atraí-los afastam-nos, e, por amor-próprio, eles resistem na sua oposição. Eis por que é inútil perder tempo com eles. Quando a necessidade se fizer sentir, virão por si mesmos. Enquanto se espera, é preciso deixá-los tranquilos, satisfeitos no seu ceticismo que, acreditai, muitas vezes lhes pesa mais do que eles gostariam de deixar transparecer, porque, por mais que digam em contrário, a ideia do nada após a morte tem algo de mais apavorante, de mais pungente que a própria morte.

Ao lado dos trocistas se encontrarão pessoas que irão perguntar: “Que é isto?” Esforçai-vos, então, para satisfazê-las, proporcionando-lhes explicações conforme as disposições que neles encontrardes. Quando se fala do Espiritismo em geral, é preciso considerar as palavras que se pronunciam como grãos lançados a esmo. Muitos caem nas pedras e nada produzem, mas se um único tiver caído em terra fértil, considerai-vos felizes. Cultivai-o e ficai certos de que essa planta, frutificando, terá renovos. Para alguns adeptos a dificuldade é responder a certas objeções. A leitura atenta das obras lhes fornecerá os meios, mas sobretudo poderão servir-se, com esse objetivo, da brochura que vamos publicar sob o título de: Refutação das críticas contra o Espiritismo, do ponto de vista materialista, científico e religioso.[1]

3. Falemos agora da organização do Espiritismo nos centros já numerosos. O aumento incessante dos adeptos demonstra a impossibilidade material de constituir numa cidade, sobretudo numa cidade populosa, uma sociedade única. Além do número, há a dificuldade das distâncias, que é obstáculo para muitos. Por outro lado, é sabido que as grandes reuniões são menos favoráveis às belas comunicações, e que as melhores são obtidas nos pequenos grupos. É necessário, pois, empenhar-se em multiplicar os grupos particulares. Ora, como dissemos, vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão mais pela propaganda do que uma sociedade única de quatrocentos membros. Os grupos se formam naturalmente, pela afinidade de gostos, de sentimentos, de hábitos e de posição social. Todos ali se conhecem e, como são reuniões particulares, tem-se liberdade de definir a quantidade e de selecionar os que são admitidos.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Outubro de 2016, 20:29
4. O sistema da multiplicação dos grupos tem ainda como resultado, conforme o dissemos em várias ocasiões, de impedir os conflitos e as rivalidades por supremacia e presidência. Cada grupo naturalmente é dirigido pelo chefe da casa, ou por aquele que para isso for designado. Não há, a bem dizer, presidente oficial, pois tudo se passa em família. O dono da casa, como tal, tem toda a autoridade para manter a boa ordem. Com uma sociedade propriamente dita, há necessidade de um local especial, de um pessoal administrativo, de um orçamento, numa palavra, uma complicação de engrenagens que a má vontade de alguns dissidentes mal intencionados poderia comprometer.

5. A essas considerações, longamente desenvolvidas no Livro dos Médiuns, adicionaremos uma que é preponderante. O Espiritismo ainda não é visto com bons olhos por todo o mundo. Dentro em pouco compreender-se-á que é de todo o interesse favorecer uma crença que torna os homens melhores é uma garantia da ordem social. Mas, até que estejam convencidos de sua benéfica influência sobre o espírito das massas e de seus efeitos moralizadores, os adeptos devem esperar que, seja por ignorância do verdadeiro objetivo da doutrina, seja em vista do interesse pessoal, lhe suscitarão embaraços. Não serão apenas ridicularizados, mas, quando se quebrarem as armas do ridículo, serão caluniados. Serão acusados de loucura, de charlatanismo, de irreligião, de feitiçaria, a fim de contra eles incitar o fanatismo. De loucura! Sublime loucura esta que faz crer em Deus e no futuro da alma! Para os que em nada creem, é de fato uma loucura acreditar na comunicação entre mortos e vivos, loucura que faz a volta ao mundo e atinge os homens mais eminentes. De charlatanismo! Eles têm uma resposta peremptória: o desinteresse, pois o charlatanismo jamais é desinteressado. De irreligião! Eles que, desde que se tornaram espíritas, são mais religiosos do que antes. De feitiçaria e comércio com o diabo! Eles, que negam a existência do diabo e só reconhecem a Deus como senhor onipotente, soberanamente justo e bom. Singulares feiticeiros estes que renegariam o seu senhor e agiriam em nome de seu antagonista! Na verdade, o diabo não deveria estar contente com seus adeptos. Mas as boas razões são a menor preocupação dos que querem travar discussões. Quando alguém quer matar seu cão, diz que ele está raivoso. Felizmente a Idade Média lança os últimos e pálidos clarões sobre o nosso século. Como o Espiritismo lhe vem dar o golpe de misericórdia, não é de admirar vê-la tentar um supremo esforço. Mas, tenhamos certeza, a luta não será longa. Contudo, que a certeza da vitória não nos torne imprudentes, porque uma imprudência poderia, senão comprometer, pelo menos retardar o sucesso. Por esses motivos, a constituição de sociedades numerosas talvez encontrasse obstáculos em certas localidades, ao passo que o mesmo não ocorreria com as reuniões familiares.

6. Acrescentemos mais uma consideração. As sociedades propriamente ditas estão sujeitas a numerosas vicissitudes; mil causas, dependentes ou não de sua vontade, podem conduzi-la à dissolução. Suponhamos que uma sociedade espírita tenha reunido todos os adeptos de uma mesma cidade e que, por uma circunstância qualquer, deixe de existir. Eis os membros dispersos e desorientados. Agora, se em vez disto houver cinquenta grupos, se alguns desaparecerem sempre restarão outros, e outros se formarão. São outras tantas plantas vivazes que brotam, apesar de tudo. Não tenhais num campo somente uma grande árvore, pois um raio pode abatê-la. Tende cem, e o mesmo raio não atingiria todas, e quanto menores, menos expostas estarão.

Assim, tudo milita em favor do sistema que propomos; quando um primeiro grupo, fundado em qualquer parte, se tornar muito numeroso, que faça como as abelhas: que enxames saídos da colmeia-mãe fundem novas colmeias que por sua vez formarão outras. Serão outros tantos centros de ação irradiando em seu respectivo círculo, mais poderosos para a propaganda do que uma Sociedade única.

7. A formação dos grupos estando, pois, admitida em princípio, muitas questões importantes restam para examinar. A primeira de todas é a uniformidade na doutrina. Essa uniformidade não seria melhor garantida por uma Sociedade compacta, pois os dissidentes sempre teriam facilidade de se retirar, formando grupo à parte. Quer a sociedade seja una ou fracionada, a uniformidade será a consequência natural da unidade de base que os grupos adotarem. Ela será completa em todos os grupos que seguirem a linha traçada pelo Livro dos Espíritos e o Livro dos Médiuns. Um contém os princípios da filosofia da ciência; o outro, as regras da parte experimental e prática. Essas obras estão escritas com bastante clareza para não dar lugar a interpretações divergentes, condição essencial de toda nova doutrina.

Até o presente essas obras servem de regulador à imensa maioria dos espíritas, e por toda parte são acolhidas com inequívoca simpatia. Os que delas quiseram afastar-se puderam reconhecer, por seu isolamento e pelo decrescente número de seus partidários, que não tinham a seu favor a opinião geral. Tal assentimento, dado pelo maior número, tem grande valor. É um julgamento que não poderia ser suspeito de influência pessoal, desde que espontâneo e declarado por milhares de pessoas que nos são completamente desconhecidas. Uma prova desse assentimento é que nos pediram para traduzi-las para diversas línguas: espanhol, inglês, português, alemão, italiano, polonês, russo e até tártaro. Sem presunção podemos, pois, recomendar o seu estudo e a sua prática nas diversas reuniões espíritas, e isto com tanto mais razão quanto são as únicas, até o momento, em que a ciência é tratada de maneira completa. Todas as que foram publicadas sobre a matéria apenas abordaram alguns pontos isolados da questão. Aliás, não temos absolutamente a pretensão de impor as nossas ideias. Emitimo-las por ser direito nosso. Que as adotem aqueles a quem elas convêm. Os demais têm o direito de rejeitá-las. As instruções que damos são, pois, e naturalmente, para os que marcham conosco; para os que nos honram com o título de seu chefe espírita e de modo algum pretendemos regulamentar os que querem seguir outra via. Entregamos a doutrina que professamos à apreciação geral. Ora, temos encontrado muitos aderentes para nos dar confiança e nos consolar de algumas dissidências isoladas. Aliás, o futuro será o juiz em última instância. Com os homens atuais desaparecerão, pela força das coisas, as susceptibilidades do amor-próprio ferido, as causas de ciúme, de ambição e de frustração de esperanças materiais. Não mais considerando as pessoas, ver-se-á apenas a doutrina, e o julgamento será imparcial. Quais as ideias novas que, no seu aparecimento, não tiveram seus contraditores mais ou menos interessados? Quais os propagadores dessas ideias que não foram alvo dos ataques da inveja, sobretudo se o sucesso lhes coroou os esforços? Mas voltemos ao nosso assunto.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Outubro de 2016, 20:29
8. O segundo ponto é a constituição dos grupos. Uma das primeiras condições é a homogeneidade, sem a qual não haveria comunhão de pensamento. Uma reunião não pode ser estável, nem séria, se não houver simpatia entre os componentes. E não pode haver simpatia entre pessoas que têm ideias divergentes e que fazem uma oposição surda, quando não aberta. Longe de nós com isso dizer que seja necessário abafar a discussão, porque, ao contrário, recomendamos o exame escrupuloso de todas as comunicações e de todos os fenômenos. Fica, pois, bem entendido que cada um pode e deve emitir sua opinião, mas há pessoas que discutem para impor a sua e não para esclarecer. É contra o espírito de oposição sistemática que nos levantamos; contra as ideias preconcebidas que não cedem nem mesmo ante a evidência. Tais pessoas incontestavelmente são uma causa de perturbação que é preciso evitar. A este respeito, as reuniões espíritas estão em condições excepcionais. O que elas requerem, acima de tudo, é o recolhimento. Ora, como estar recolhido se a cada momento a gente é distraída por uma polêmica acrimoniosa? Se reina entre os assistentes um sentimento de azedume e quando se sente em torno de si, seres que sabemos hostis e em cujo rosto se lê o sarcasmo e o desdém por tudo quanto não está de acordo com a sua opinião?

9. No Livro dos Médiuns (nº 28) traçamos o caráter das principais variedades de espíritas; sendo tal distinção importante para o assunto que nos ocupa, julgamos dever lembrá-la.

Pode-se pôr em primeira linha os que acreditam pura e simplesmente nas manifestações. Para eles o Espiritismo é apenas uma ciência de observação, uma série de fatos mais ou menos curiosos; a filosofia e a moral são acessórios de que pouco se ocupam e cujo alcance não os preocupa. Chamamo-los espíritas experimentadores.

Vêm a seguir os que veem no Espiritismo algo além dos fatos. Compreendem o seu alcance filosófico; admiram a moral dele decorrente, mas não a praticam; extasiam-se ante as belas comunicações, como ante um sermão eloquente que ouvem, mas do qual não tiram proveito. A influência sobre o seu caráter é insignificante ou nula. Em nada mudam seus hábitos e não se privam de nenhum prazer: o avarento é sempre sovina, o orgulhoso sempre cheio de si, o invejoso e o ciumento sempre hostis. Para eles a caridade cristã é apenas uma bela máxima e os bens deste mundo prevalecem, em sua estima, sobre os do futuro. São os espíritas imperfeitos.

Ao lado destes há outros, mais numerosos do que se pensa, que não se limitam a admirar a moral espírita, mas que a praticam e a aceitam em todas as suas consequências. Convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, tratam de aproveitar estes curtos instantes para avançar na via do progresso, esforçando-se por fazer o bem e reprimir suas más inclinações. Suas relações são sempre seguras, porque a convicção os afasta de todo mau pensamento. Em tudo a caridade é sua regra de conduta. São os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos.

10. Se bem compreendido o que precede, compreender-se-á também que um grupo formado exclusivamente por elementos desta última classe estaria nas melhores condições, porque somente entre praticantes da lei de amor e de caridade é que se pode estabelecer uma séria ligação fraternal. Entre homens para quem a moral é mera teoria, a união não seria durável. Como eles não impõem nenhum freio ao orgulho, à ambição, à vaidade e ao egoísmo, não o imporão, também, às suas palavras; quererão ser os primeiros, quando deveriam diminuir-se; irritar-se-ão com as contradições e não terão escrúpulos em semear a perturbação e a discórdia. Entre verdadeiros espíritas, ao contrário, reina um sentimento de confiança e de benevolência recíproca. Nesse meio simpático é possível sentir-se à vontade, ao passo que há constrangimento e ansiedade num ambiente misto.

11. Isto está na natureza das coisas e nada inventamos a respeito. Daí se segue que na formação de grupos deva exigir-se a perfeição? Seria simplesmente absurdo, pois seria querer o impossível, e nessas condições ninguém poderia pretender dele fazer parte. Tendo por objetivo a melhora dos homens, o Espiritismo não vem procurar os perfeitos, mas os que se esforçam em tornar-se perfeitos pondo em prática os ensinos dos Espíritos. O verdadeiro espírita não é o que alcançou o objetivo, mas o que seriamente quer atingi-lo. Sejam quais forem os seus antecedentes, será bom espírita desde que reconheça suas imperfeições e seja sincero e perseverante no propósito de emendar-se. Para ele o Espiritismo é uma verdadeira regeneração, porque ele rompe com o seu passado. Indulgente para com os outros, como quereria que fossem para consigo, de sua boca não sairá nenhuma palavra malévola nem cortante contra ninguém. Aquele que, numa reunião, se afastasse das conveniências, não só provaria uma falta de cortesia e de urbanidade, mas uma falta de caridade. Aquele que se chocasse com a contradição e pretendesse impor a sua personalidade ou as suas ideias, daria prova de orgulho. Ora, nem um nem outro estariam no caminho do verdadeiro Espiritismo, isto é, do Espiritismo cristão. Aquele que pensa ter uma opinião mais justa que os outros, poderá fazê-la mais bem aceita pela doçura e pela persuasão. O azedume, de sua parte, seria uma péssima opção.

12. A simples lógica demonstra, pois, a quem quer que conheça as leis do Espiritismo, quais os melhores elementos para a composição dos grupos realmente sérios, e não hesitamos em dizer que são estes que têm a maior influência na propagação da doutrina. Pela consideração com que são dirigidos, e pelo exemplo que dão de suas consequências morais, provam a sua gravidade e impõem silêncio à troça que, quando se contrapõe ao bem, é mais do que ridícula, porque é odiosa. Mas que quereis que pense um crítico incrédulo que assiste a experiências cujos assistentes são os primeiros a considerá-la um brinquedo? Dela sai ainda mais incrédulo do que entrou.

13. Acabamos de indicar a melhor composição dos grupos; mas a perfeição não é mais possível nos conjuntos do que nos indivíduos; nós indicamos o objetivo e dizemos que quanto mais nos aproximarmos dele, mais satisfatórios serão os resultados. Por vezes pode-se ser dominado pelas circunstâncias, mas é para subtrai-se aos obstáculos que se devem direcionar todos os cuidados. Infelizmente, quando um grupo é criado, não se é suficientemente rigoroso na escolha, porque, antes de tudo, se quer formar um núcleo; para nele ser admitido, quase sempre basta um simples desejo ou uma adesão qualquer às ideias mais gerais do Espiritismo. Mais tarde, percebe-se que se foi demasiado fácil.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Outubro de 2016, 20:30
14. Num grupo sempre há o elemento estável e o flutuante. O primeiro é composto de pessoas assíduas, que formam a base; o segundo, das que são admitidas temporária e acidentalmente. É à composição do elemento estável que é essencial prestar escrupulosa atenção, e neste caso não se deve hesitar em sacrificar a quantidade à qualidade, porque é ele que impulsiona e serve de regulador. O elemento flutuante é menos importante, porque se tem liberdade de modificá-lo à vontade. Não se deve perder de vista que as reuniões espíritas, como aliás todas as reuniões em geral, têm as fontes de sua vitalidade na base sobre as quais se assentam. Neste particular, tudo depende do ponto de partida. Aquele que tem a intenção de organizar um grupo em boas condições deve, antes de tudo, assegurar-se do concurso de alguns adeptos sinceros, que levem a doutrina a sério e cujo caráter conciliatório e benevolente seja conhecido. Formado esse núcleo, ainda que de três ou quatro pessoas, se estabelecerá regras precisas, quer para as admissões, quer para a realização de sessões e para a ordem dos trabalhos, regras às quais os recém-vindos terão que se conformar. Essas regras podem sofrer modificações conforme as circunstâncias, mas há algumas que são essenciais.

15. Sendo a unidade de princípios um dos pontos essenciais, ela não pode existir naqueles que, não tendo estudado, não podem ter opinião formada. A primeira condição a impor se não se quiser distrair a cada instante por objeções ou por questões inúteis é, portanto, o estudo prévio. A segunda é uma profissão de fé categórica e uma adesão formal à doutrina do Livro dos Espíritos, além de outras condições especiais julgadas convenientes. Isto quanto aos membros titulares e dirigentes; para os ouvintes, que geralmente vêm para adquirir um pouco mais de conhecimentos e de convicção, pode-se ser menos rigoroso; contudo, como existem os que poderiam causar perturbação com observações fora de propósito, é importante assegurar-se de suas disposições. É necessário sobretudo, e sem exceção, afastar os curiosos e quem quer que seja atraído por motivo frívolo.

16. A ordem e a regularidade dos trabalhos são igualmente essenciais. Consideramos eminentemente útil abrir cada sessão pela leitura de algumas passagens do Livro dos Médiuns e do Livro dos Espíritos. Por esse meio ter-se-ão sempre presentes à memória os princípios da ciência e os meios de evitar os escolhos encontrados a cada passo na prática. Assim, a atenção se fixará sobre muitos pontos que por vezes escapam numa leitura particular e poderão dar lugar a comentários e discussões instrutivas, das quais os próprios Espíritos poderão participar.

Não é menos necessário recolher em pastas todas as comunicações recebidas, por ordem de data, com indicação do médium que serviu de intermediário. Esta última referência é útil para o estudo do gênero da faculdade de cada um. Muitas vezes, porém, acontece que tais comunicações são esquecidas, tornando-se letra morta. Isto desencoraja os Espíritos que as haviam dado visando a instrução dos assistentes. É essencial, pois, fazer uma coletânea das mais instrutivas e lê-las de tempos em tempos. Muitas vezes essas comunicações são de interesse geral e não são dadas pelos Espíritos apenas para a instrução de uns poucos e para serem abandonadas nos arquivos. Assim, é útil que sejam levadas ao conhecimento de todos, pela publicidade. Examinaremos esta questão em artigo no próximo número, indicando o modo mais simples, o mais econômico e ao mesmo tempo o mais próprio para alcançar o objetivo.

17. Como se vê, nossas instruções se dirigem exclusivamente aos grupos formados por elementos sérios e homogêneos; aos que querem seguir a rota do Espiritismo moral, visando o progresso de cada um, objetivo essencial e único da doutrina; enfim, aos que nos querem mesmo aceitar por guia e levar em conta os conselhos de nossa experiência. É incontestável que um grupo formado nas condições indicadas funcionará com regularidade, sem entraves e de maneira proveitosa. O que um grupo pode fazer, outros também o podem. Suponhamos, então, numa cidade, um número qualquer de grupos constituídos nas mesmas bases; haverá necessariamente entre eles unidade de princípios, pois seguem a mesma bandeira; união simpática, pois têm por máxima amor e caridade; são, numa palavra, os membros de uma mesma família, entre os quais não poderia ter concorrência, nem rivalidade de amor-próprio, se estão todos animados dos mesmos sentimentos para o bem.

18. Entretanto, seria útil que houvesse entre eles um ponto de ligação, um centro de ação. Conforme as circunstâncias e as localidades, os diversos grupos, pondo de lado questões pessoais, poderiam designar para isto aquele que, por sua posição e sua importância relativa, fosse o mais apto para dar ao Espiritismo um impulso salutar. Conforme a necessidade, e se fosse preciso evitar susceptibilidades, um grupo central, formado de delegados de todos os grupos, tomaria o nome de grupo diretor. Na impossibilidade de nos correspondermos com todos, com este teríamos relações mais diretas. Também poderíamos, em certos casos, designar uma pessoa encarregada mais especialmente para nos representar.

Sem prejuízo das relações que se estabelecerão pela força das coisas, entre os grupos de uma mesma cidade que trilham caminhos idênticos, uma assembleia geral anual poderia reunir os espíritas dos diversos grupos numa festa familiar, que seria, ao mesmo tempo, a festa do Espiritismo. Seriam pronunciados discursos e lidas as comunicações mais notáveis, ou as mais apropriadas às circunstâncias.

O que é possível entre os grupos de uma mesma cidade, também o é entre os grupos diretores de diversas cidades, desde que entre eles haja comunhão de vistas e de sentimentos, isto é, desde que possam manter relações recíprocas. Indicaremos os meios para isto, quando falarmos do modo de publicidade.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Outubro de 2016, 20:30
19. Como se vê, tudo isto é de execução muito simples e sem engrenagens complicadas, mas tudo depende do ponto de partida, isto é, da composição dos grupos primitivos. Se eles forem constituídos por bons elementos, serão outras tantas boas raízes que darão bons renovos. Se, ao contrário, forem formados por elementos heterogêneos e antipáticos; por espíritas duvidosos, mais ocupados com a forma do que com o fundo, que consideram a moral como parte acessória e secundária, há que esperar polêmicas irritantes e sem saída; pretensões pessoais; choques de susceptibilidades e, em consequência, conflitos precursores da desorganização. Entre verdadeiros espíritas, tais quais os definimos, que veem o objetivo essencial do Espiritismo na moral, que é a mesma para todos, haverá sempre abnegação da personalidade, condescendência e benevolência e, por conseguinte, segurança e estabilidade nas relações. Eis por que temos insistido tanto sobre as qualidades fundamentais.

20. Talvez digam que estas severas restrições constituem um obstáculo à propagação; é um erro. Não acrediteis que abrindo a porta ao primeiro que aparecer fareis mais prosélitos. A experiência aí está para mostrar o contrário. Seríeis assaltados por uma multidão de curiosos e indiferentes, que ali viriam como para um espetáculo. Ora, os curiosos e os indiferentes são embaraços e não auxiliares. Quanto aos incrédulos por sistema ou por orgulho, por mais que lhes mostreis, não tratarão disso senão com zombaria, porque não o compreenderão e não querem dar-se ao trabalho de compreender. Já o dissemos, e não seria demais repetir, que a verdadeira propagação, a que é útil e frutífera, é feita pelo ascendente moral das reuniões sérias. Se houvessem acontecido apenas reuniões desse tipo, os espíritas seriam ainda mais numerosos, porque, é bom que se diga, muitos foram desviados da doutrina porque só assistiram a reuniões fúteis, sem ordem e sem seriedade. Sede, pois, sérios, na plena acepção da palavra, e as pessoas sérias virão a vós. São esses os melhores propagadores, porque falam com convicção e tanto pregam pelo exemplo quanto pela palavra.

21. Do caráter essencialmente sério das reuniões não se deve inferir que se tenha de proscrever sistematicamente as manifestações físicas. Como dissemos no Livro dos Médiuns (nº. 326), elas são de incontestável utilidade, do ponto de vista do estudo dos fenômenos e para a convicção de certas pessoas. No entanto, para obter-se proveito sob esse duplo ponto de vista, há que excluir-se todo pensamento frívolo. Uma reunião que possuísse um bom médium de efeitos físicos e que se ocupasse desse gênero de manifestações com ordem, método e seriedade, cuja condição moral oferecesse toda a garantia contra o charlatanismo e a fraude, não só poderia obter coisas notáveis, do ponto de vista fenomênico, mas produziria o bem em abundância. Assim, aconselhamos a não desprezar esse gênero de experiência, desde que se disponha de médiuns adequados e para tanto se organizem sessões especiais, independentes daquelas dedicadas a comunicações morais e filosóficas. Os médiuns poderosos dessa categoria são raros, mas há fenômenos que, embora mais vulgares, não são menos interessantes e concludentes porque provam, de maneira evidente, a independência do médium. Deste número, são as comunicações pela tiptologia alfabética que às vezes dão os mais imprevistos resultados. A teoria desses fenômenos é necessária para que se compreenda a maneira pela qual se operam, pois é raro que levem uma convicção profunda aos que não os compreendem. Ela tem, além disso, a vantagem de dar a conhecer as condições normais em que esses fenômenos podem produzir-se, e, consequentemente, de evitar as tentativas inúteis e de permitir que se descubra a fraude, caso ocorra em qualquer parte.

Equivocaram-se supondo que fôssemos sistematicamente contrário às manifestações físicas. Preconizamos e preconizaremos sempre as comunicações inteligentes, sobretudo as que têm alcance moral e filosófico, porque só elas tendem para o objetivo essencial e definitivo do Espiritismo. Quanto às outras, jamais lhes contestamos a utilidade, mas nos levantamos contra o deplorável abuso que delas fazem, ou que podem fazer; contra a exploração feita pelo charlatanismo; contra as más condições em que são realizadas as mais das vezes, e que se prestam ao ridículo. Dissemos e repetimos que as manifestações físicas são o começo da ciência e que não se avança ficando no á-bê-cê; que se o Espiritismo não tivesse saído das mesas girantes, não teria crescido como cresceu, e que talvez hoje nem mais se falasse dele. Eis por que nos esforçamos por fazê-lo entrar na via filosófica, certo de que então, dirigindo-se mais à inteligência do que aos olhos, tocaria o coração e deixaria de ser um modismo. É com esta única condição que poderia fazer a volta ao mundo e implantar-se como doutrina. Ora, o resultado ultrapassou, e de muito, a nossa expectativa. Às manifestações físicas só damos uma importância relativa e não absoluta. Aí está o nosso erro, aos olhos de certas pessoas que delas fazem uma ocupação exclusiva e nada mais veem. Se delas não nos ocupamos pessoalmente é porque nada de novo nos ensinariam e porque temos coisas mais essenciais a fazer. Longe de censurar os que delas se ocupam, ao contrário, encorajamo-los, desde que o façam em condições realmente proveitosas. Sempre que conhecermos reuniões desse gênero, dignas de confiança, seremos os primeiros a recomendá-las à atenção dos novos adeptos. Tal é, sobre esta questão, a nossa profissão de fé categórica.

22. Dissemos no começo que diversas reuniões espíritas pediram para unir-se à Sociedade de Paris. Usaram até a palavra afiliar; a esse respeito faz-se necessária uma explicação.

A Sociedade de Paris foi a primeira a constituir-se regular e legalmente. Por sua posição e pela natureza de seus trabalhos, teve uma grande participação no desenvolvimento do Espiritismo e, em nossa opinião, justifica o título de Sociedade Iniciadora, que lhe deram certos Espíritos. Sua influência moral se fez sentir longe e, embora ela seja numericamente restrita, tem consciência de ter feito mais pela propaganda do que se tivesse aberto suas portas ao público. Formou-se com o único objetivo de estudar e aprofundar a Ciência Espírita. Para isto não necessita de um auditório numeroso nem de muitos membros, pois sabe que a verdadeira propaganda é feita pela influência dos princípios. Como não é movida por qualquer interesse material, um excesso numérico lhe seria mais prejudicial que útil. Assim, com satisfação, ela verá multiplicarem-se ao seu redor as reuniões particulares formadas em boas condições, e com as quais poderia estabelecer relações de confraternidade. Ela não seria coerente com seus princípios, nem estaria à altura de sua missão, se pudesse conceber a sombra da inveja; os que a julgam capaz disto não a conhecem.

Estas observações bastam para mostrar que a Sociedade de Paris não poderia ter a pretensão de absorver as outras sociedades que se pudessem formar em Paris ou alhures, com os mesmos procedimentos habituais. A palavra afiliação seria, pois, imprópria, porque suporia uma espécie de supremacia material, a que absolutamente não aspira, e que até teria inconvenientes. Como Sociedade iniciadora e central, pode estabelecer com os outros grupos ou Sociedades relações puramente científicas, mas a isto se limita o seu papel. Ela não exerce qualquer controle sobre essas sociedades, que em nada dependem dela e ficam inteiramente livres para constituir-se como bem o entenderem, sem ter que prestar contas a ninguém, e sem que a Sociedade de Paris tenha que imiscuir-se seja no que for em seus negócios. Assim, as sociedades estrangeiras podem formar-se nas mesmas bases; declarar que adotam os mesmos princípios, sem depender dela senão pela concentração dos estudos e pelos conselhos que lhe podem pedir e que ela terá prazer em dar.

Por outro lado, a Sociedade de Paris não se gaba de estar, mais que as outras, ao abrigo das vicissitudes. Se, por assim dizer, as tivesse em suas mãos e se, por uma causa qualquer, cessasse de existir, a falta de um ponto de apoio resultaria em perturbação. Os grupos ou Sociedades devem buscar um ponto de apoio mais sólido que numa instituição humana, necessariamente frágil. Eles devem adquirir sua vitalidade nos princípios da doutrina, que são os mesmos para todas e que a todas sobrevivem, estejam ou não esses princípios representados por uma sociedade constituída.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 23 de Outubro de 2016, 20:31
23. Estando claramente definido o papel da Sociedade de Paris para evitar qualquer equívoco ou falsa interpretação, as relações que estabelecerá com as sociedades estrangeiras são extremamente simplificadas, limitando-se a relações morais, científicas e de mútua benevolência, sem qualquer sujeição. Elas permutarão o resultado de suas observações, quer através de publicações, quer de correspondência. Para que a Sociedade de Paris possa estabelecer essas relações, é preciso necessariamente que ela tenha informações exatas das sociedades estrangeiras que entendem marchar pelo mesmo caminho e adotar a mesma bandeira. Ela então as incluirá na lista de seus correspondentes. Se houver vários grupos numa cidade, serão representados pelo grupo central de que falamos no parágrafo 18.

24. Indicaremos agora alguns trabalhos com os quais as diversas Sociedades poderão colaborar de uma maneira útil; mais tarde indicaremos outros.

Sabe-se que os Espíritos, não possuindo todos a soberana ciência, podem encarar certos princípios de um ponto de vista pessoal e, consequentemente, nem sempre estarem de acordo. O melhor critério da verdade está naturalmente na concordância dos princípios ensinados sobre diversos pontos, por Espíritos diferentes e por meio de médiuns estranhos uns aos outros. Assim foi composto o Livro dos Espíritos. Mas ainda restam muitas questões importantes que podem ser resolvidas dessa maneira, e cuja solução terá tanto maior autoridade quanto obtida por uma grande maioria. Assim, a Sociedade de Paris poderá ocasionalmente dirigir perguntas dessa natureza a todos os grupos correspondentes que, através de seus médiuns, pedirão a solução a seus guias espirituais.

Outro trabalho consiste nas pesquisas bibliográficas. Existe um grande número de obras antigas e modernas, nas quais se encontram testemunhos mais ou menos diretos em favor das ideias espíritas. Uma coletânea desses testemunhos seria tarefa muito preciosa, mas é quase impossível ser feita por uma só pessoa. Torna-se fácil, ao contrário, se cada um se dispuser a colher alguns elementos em suas leituras e estudos e transmiti-los à Sociedade de Paris, que os coordenará.

25. No estado atual das coisas, esta é a única organização possível do Espiritismo. Mais tarde as circunstâncias poderão modificá-la, mas nada se deve fazer de inoportuno. Já é muito que em tão pouco tempo os adeptos se tenham multiplicado a ponto de conduzir a este resultado. Há nesta simples disposição um panorama que pode estender-se ao infinito, pela própria simplicidade das engrenagens. Não busquemos, pois, complicá-las, com receio de encontrar obstáculos. Os que fizerem a gentileza de testemunhar-nos alguma confiança, podem estar certos de que não os deixaremos para trás e que tudo virá a seu tempo. É somente a esses, como dissemos, que nos dirigimos nestas instruções, sem a pretensão de nos impormos aos que não marcham conosco.

Para denegrir, disseram que queríamos fazer escola no Espiritismo. E por que não teríamos esse direito? O Sr. de Mirville não tentou fundar uma escola demoníaca? Por que seríamos obrigados a seguir a reboque deste ou daquele? Não temos o direito de ter uma opinião, formulá-la, publicá-la e proclamá-la? Se ela encontra tão numerosos aderentes, é que aparentemente não a julgam destituída de todo senso comum. Mas aí está nosso erro aos olhos de certas pessoas que não nos perdoam por havermos chegado mais rápido que elas, e sobretudo por termos triunfado. Que isto seja então uma escola, já que assim o querem. Para nós será uma glória escrever em sua fachada: Escola do Espiritismo moral, filosófico e cristão. Para ela convidamos todos os que têm por divisa amor e caridade. Aqueles que se ligam a esta bandeira adquirem todas as nossas simpatias, e o nosso concurso jamais faltará.

ALLAN KARDEC
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 27 de Outubro de 2016, 12:06
Evocações particulares - Mamãe, aqui estou
Revista Espírita, janeiro / 1858)
 
 
     A Sra... havia perdido, meses antes, a filha única, de catorze anos, objeto de toda a sua ternura e muito digna de seus lamentos, pelas qualidades que prometiam torná-la uma senhora perfeita. A moça falecera de longa e dolorosa enfermidade. Inconsolável com a perda, dia a dia a mãe via sua saúde alterar-se e repetia incessantemente que em breve iria reunir-se à filha. Informada da possibilidade de se comunicar com os seres de além-túmulo, a Sra... resolveu procurar, na conversa com a filha, um alívio para a sua pena. Uma senhora de seu conhecimento era médium, mas pouco afeitas uma e outra a semelhantes evocações, principalmente numa circunstância tão solene, pediram-me assistência. Éramos apenas três: a mãe, a médium e eu. Eis o resultado dessa primeira sessão.
 
       A mãe: Em nome de Deus Todo-Poderoso, Espírito de Júlia, minha filha querida, peço-te que venhas, se Deus o permitir.
       Júlia: Mamãe, aqui estou!
 
       A mãe: És tu, minha filha, que me respondes? Como posso saber que és tu?
Júlia: Lili.
(Era o apelido familiar, dado à moça em sua infância. Nem a médium o sabia, nem eu, pois há muitos anos só a chamam Júlia. Com este sinal, a identidade era evidente. Não podendo dominar sua emoção, a mãe rompeu em soluços).
       Júlia: Mãe, por que te afliges? Sou feliz, muito feliz. Não sofro mais e vejo-te sempre.
 
       A mãe: Mas eu não te vejo! Onde estás?
       Júlia: Aqui ao teu lado, com a minha mão sobre a Sra. X (a médium) para que escreva o que te digo. Vê a minha letra (a letra era realmente a da moça).
 
       A mãe: Dizes: minha mão. Então tens corpo?
       Júlia: Não tenho mais o corpo que tanto me fez sofrer, mas tenho a sua aparência. Não estás contente porque não sofro mais e porque posso conversar contigo?
 
       A mãe: Se eu te visse, te reconheceria, então?
       Júlia: Sim, sem dúvida; e já me viste muitas vezes em teus sonhos.
 
       A mãe: Com efeito eu te revi nos meus sonhos, mas pensei que fosse efeito da imaginação, uma lembrança.
       Júlia: Não. Sou eu mesma que estou sempre contigo e te procuro consolar; fui eu quem te inspirou a ideia de me evocar. Tenho muitas coisas a te dizer. Desconfia do Sr. Z... Ele não é sincero.
(Esse senhor, conhecido apenas da mãe, citado assim espontaneamente, era uma nova prova de identidade do Espírito que se manifestava).
 
       A mãe: Que pode fazer contra mim o Sr. Z…?
       Júlia: Não te posso dizer. Isto me é vedado. Posso apenas te advertir que desconfies dele.
 
       A mãe: Estás entre os anjos?
       Júlia: Oh! ainda não. Não sou bastante perfeita.
 
       A mãe: Entretanto, não te conhecia nenhum defeito. Eras boa, meiga, amorosa e benevolente para com todos. Então isto não basta?
       Júlia: Para ti, mãe querida, eu não tinha defeitos, e eu o acreditava, pois mo dizias tantas vezes! Mas agora vejo o que me falta para ser perfeita.
 
       A mãe: Como adquirirás essas qualidades que te faltam?
       Júlia: Em novas existências, que serão cada vez mais felizes.
 
       A mãe: É na Terra que terás novas existências?
       Júlia: Nada sei a respeito.
 
       A mãe: Desde que não fizeste o mal em tua vida, por que sofreste tanto?
       Júlia: Prova! Prova! Eu a suportei com paciência, pela minha confiança em Deus. Hoje sou muito feliz por isto. Até breve, querida mamãe!
 
      Ante fatos como este, quem ousará falar do nada do túmulo, quando a vida futura se nos revela, por assim dizer, palpável? Essa mãe, minada pelo desgosto, experimenta hoje uma felicidade inefável em poder conversar com a filha; entre elas não há mais separação; suas almas se confundem e se expandem na intimidade espiritual, pela troca de seus pensamentos.
     Apesar da discrição em que envolvemos este relato, não o teríamos publicado se não tivéssemos tido autorização formal. Aquela mãe nos dizia: Possam todos quantos perderam suas afeições terrenas experimentar a mesma consolação que experimento!
      Acrescentaremos apenas uma palavra aos que negam a existência dos bons Espíritos. Perguntaremos como poderiam provar que o Espírito desta jovem era um demônio malfazejo!

(texto recebido por IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 29 de Outubro de 2016, 12:35
Elias e João Batista
Revista Espírita,    Dezembro / 1863

REFUTAÇÃO

Uma carta que nos chega contém a seguinte passagem:

“Acabo de ter uma discussão com o cura(PADRE) daqui sobre a Doutrina Espírita. Ao tratar da reencarnação pediu-me lhe dissesse qual dos corpos tomará o Espírito de Elias no juízo final, anunciado pela Igreja, para se apresentar ante Jesus Cristo: se será o primeiro ou o segundo. Não soube lhe responder. Ele riu e me disse que nós os espíritas não éramos fortes.”

Não sabemos qual dos dois provocou a discussão. Em todo caso, é sempre imprudente engajar-se numa controvérsia quando não se sente força para sustentá-la. Se a iniciativa foi do nosso correspondente, lembraremos o que não cessamos de repetir, que “o Espiritismo se dirige aos que não creem ou que duvidam e não aos que têm uma fé e aos quais esta basta; que ele não diz a ninguém que renuncie às suas crenças para adotar a nossa”, e nisto ele é consequente com os princípios de tolerância e de liberdade de consciência que professa. Por este motivo não poderíamos aprovar as tentativas feitas por certas pessoas, para converter às nossas ideias o clero de qualquer comunhão. Repetiremos, pois, a todos os espíritas: Acolhei com dedicação os homens de boa vontade; dai luz aos que a buscam, pois com os que julgam possuí-la não tereis êxito; não façais violência à fé de ninguém, tanto do clero quanto dos leigos, pois ireis semear em campo árido; ponde a luz em evidência, para que os que querem ver a vejam; mostrai os frutos da árvore e dai de comer aos que têm fome e não aos que se dizem fartos.

Se membros do clero vêm a vós com intenções sinceras e sem pensamento oculto, fazei por eles o que fazeis por vossos outros irmãos: instruí os que pedirem, mas não busqueis trazer à força os que julgarem sua consciência comprometida a pensar diferente de vós; deixai-lhes a fé que eles têm, como quereis que vos deixem a vossa; mostrai-lhes, enfim, que sabeis praticar a caridade segundo Jesus.

Se eles forem os primeiros a atacar, então tem-se o direito de responder e refutar. Se eles abrirem a liça, é permitido segui-los, sem contudo afastar-se da moderação, de que Jesus deu exemplo aos seus discípulos. Se os nossos adversários se afastarem por si mesmos, há que lhes deixar esse triste privilégio, que jamais é prova da verdadeira força.

Se nós próprio há algum tempo entramos na via da controvérsia, e se levantamos a luva atirada por alguns membros do clero, far-nos-ão a justiça de reconhecer que nossa polêmica jamais foi agressiva. Se eles não tivessem sido os primeiros a atacar, jamais seu nome teria sido pronunciado por nós. Sempre desprezamos as injúrias e o personalismo de que fomos objeto, mas era nosso dever tomar a defesa dos nossos irmãos atacados e da nossa doutrina indignamente desfigurada, pois chegaram a dizer em pleno púlpito que ela pregava o adultério e o suicídio. Já o dissemos, e agora repetimos que essa provocação é desajeitada, porque leva, forçosamente, ao exame de certas questões que teria sido a melhor política deixar abafadas, porque, uma vez aberto o campo, não se sabe onde se vai parar. Mas o medo é mau conselheiro.

Dito isto, vamos tentar dar ao senhor cura citado acima a resposta à pergunta feita. Contudo, não podemos deixar de notar que se o seu interlocutor não era tão forte quanto ele em teologia, ele mesmo não nos parece muito forte no Evangelho. Sua pergunta remete à que foi proposta a Jesus pelos Saduceus. Ele não tinha senão que se reportar à resposta de Jesus, que tomamos a liberdade de lha recordar, já que ele não a sabe.

“Naquele dia os Saduceus, que negam a ressurreição, vieram encontrá-lo e lhe propuseram uma pergunta, dizendo-lhe: ‘Mestre, Moisés ordenou que se alguém morresse sem filhos, seu irmão desposasse sua mulher, e suscitasse filhos a seu irmão morto. Ora, havia entre nós sete irmãos, dos quais o primeiro, tendo desposado uma mulher, morreu, e não tendo deixado filhos, deixou a mulher a seu irmão. A mesma coisa aconteceu ao segundo, ao terceiro e a todos os outros, até o sétimo. Enfim, a mulher morreu depois de todos eles. Assim, quando vier a ressurreição, de qual dos sete ela será esposa, tendo sido esposa de todos?’

“Jesus lhes respondeu: ‘Estais em erro, pois não compreendeis as Escrituras nem o poder de Deus, porque, depois da ressurreição, os homens não terão esposa, nem as mulheres marido, mas SERÃO COMO OS ANJOS DE DEUS NO CÉU. E no que concerne à ressurreição dos mortos, não lestes estas palavras que Deus vos disse: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob? Ora, Deus não é o Deus dos mortos, mas dos vivos.’” (Mat. XXII: 23-32).

Já que depois da ressurreição os homens serão como os anjos do céu, e que os anjos não têm corpo carnal, mas um corpo etéreo e fluídico, então os homens não ressuscitarão em carne e osso. Se João Batista foi Elias, não é senão uma mesma alma, tendo tido duas vestimentas deixadas em duas épocas diferentes na Terra, e não se apresentará nem com uma nem com a outra, mas com o envoltório etéreo, próprio ao mundo invisível.

Se as palavras de Jesus não vos parecem bastante claras, lede as de São Paulo, que citamos abaixo. Elas são ainda mais explícitas.

Duvidais que João Batista tenha sido Elias? Lede São Mateus, XI: 13-15: “Por que antes de João, todos os profetas, assim como a lei, profetizaram; e se quereis compreender o que vos digo, é ele mesmo que é esse Elias que deve vir. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça.” Aqui não há equívoco. Os termos são claros e categóricos, e para não entender é preciso não ter ouvidos, ou querer fechá-los. Sendo essas palavras uma afirmação positiva, de duas uma: Jesus disse a verdade, ou enganou-se. Na primeira hipótese, a reencarnação é por ele atestada; na segunda, a dúvida é lançada sobre todos os seus ensinos, pois se se enganou num ponto, pode ter-se enganado sobre os outros. Escolhei.

Agora, senhor cura, permiti que, por minha vez, vos dirija uma pergunta, que certamente vos será fácil responder.

Sabeis que o Gênesis, estabelecendo seis dias para a criação, não só da Terra, mas do Universo inteiro: Sol, estrelas, Lua, etc., não tinha contado com a Geologia e a Astronomia, e que Josué não tinha contado com a gravitação universal. Parece-me que o dogma da ressurreição da carne não contou com a Química.

É verdade que a Química é uma ciência diabólica, como todas as que fazem ver claro onde queriam que se visse turvo, mas, seja qual for a sua origem, ela nos ensina uma coisa positiva, é que o corpo do homem, como todas as substâncias orgânicas animais e vegetais, é composto de elementos diversos, dos quais os principais são: o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono. Ela ainda nos ensina ─ e notai que é um resultado da experiência ─ que com a morte, esses elementos se dispersam e entram na composição de outros corpos, de tal forma que, ao cabo de um certo tempo, o corpo inteiro é absorvido.

É também constatado que o terreno onde abundam as matérias orgânicas em decomposição são os mais férteis e é à vizinhança dos cemitérios que os maus crentes atribuem a proverbial fecundidade dos jardins dos senhores curas de aldeia.

Suponhamos, então, senhor cura, que sejam plantadas batatas nas proximidades de um sepulcro. Essas batatas vão alimentar-se dos gases e dos sais provenientes da decomposição do corpo do morto; essas batatas vão engordar galinhas; vós comereis essas galinhas, as saboreareis, de tal sorte que o vosso próprio corpo será formado de moléculas do corpo do indivíduo morto, e que não deixarão de ser dele, posto tenham passado por intermediários. Então tereis em vós partes que pertenceram a outros. Ora, quando ressuscitardes ambos, no dia de juízo, cada um com seu corpo, como fareis? Guardareis o que tendes do outro ou o outro retomará o que lhe pertence, ou ainda tereis algo da batata e da galinha?

É uma pergunta ao menos tão grave quanto a de saber se João Batista ressuscitará com o corpo de João ou com o de Elias. Eu a faço na sua maior simplicidade, mas julgai do embaraço se, como acontece de fato, tendes em vós porções de centenas de indivíduos. Aí está, a bem dizer, a ressurreição da carne. Outra, porém, é a do Espírito, que não leva consigo os seus despojos. Vede, a seguir, o que diz São Paulo.

Considerando-se que estamos no terreno das perguntas, eis outra, senhor cura, que ouvimos de incrédulos. Certamente ela é estranha ao assunto que nos ocupa, mas é trazida por um dos fatos a que nos referimos acima. Segundo o Gênesis, Deus criou o mundo em seis dias e repousou no sétimo. É esse repouso do sétimo dia que é consagrado pelo de domingo, cuja estrita observação é lei canônica. Se, pois, como o demonstra a geologia, esses seis dias, em vez de vinte e quatro horas, são alguns milhões de anos, qual será a duração do dia de descanso? Em termos de importância, esta pergunta tem tanto valor quanto as duas outras.

Não creiais, senhor cura, que estas observações sejam resultado de um desprezo pelas santas Escrituras. Não. Ao contrário, nós lhes rendemos uma homenagem talvez maior que a vossa. Tendo em conta a forma alegórica, nós lhes buscamos o espírito que vivifica; nelas encontramos grandes verdades, e dessa maneira levamos os incrédulos a crer e a respeitá-las, ao passo que apegando-se à letra que mata, fazem-nas dizerem coisas absurdas e aumenta-se o número dos cépticos.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 31 de Outubro de 2016, 14:39
O AGENTE DE PROPAGAÇÃO MAIS PODEROSO É O EXEMPLO.
Sociedade de Paris, sessão de 30 de abril de 1869.

Venho esta noite, meus amigos, vos falar alguns instantes.

Na última sessão eu não respondi, estava ocupado em outra parte.

Nossos trabalhos como Espíritos são muito mais extensos do que o podeis supor, e os instrumentos de nossos pensamentos não estão sempre disponíveis.

Tenho ainda alguns conselhos a vos dar sobre a marcha que deveis seguir frente ao público, com objetivo de fazer progredir a obra à qual devotei minha vida corpórea, cujo aperfeiçoamento prossigo na erraticidade.

O que vos recomendarei, primeiro e sobretudo, é a tolerância, a afeição, a simpatia em relação de uns para com os outros, e também em relação aos incrédulos.

Quando vedes na rua um cego, o primeiro sentimento que se vos impõe é a compaixão;
que isto ocorra do mesmo modo com os vossos irmãos cujos olhos estão fechados e velados pelas trevas da ignorância ou da incredulidade;
lamentai-os antes de censurá-los.

Mostrai, pela vossa doçura, a vossa resignação para suportar os males desta vida, a vossa humildade em meio às satisfações, às vantagens e às alegrias que Deus vos envia, mostrai que há em vós um princípio superior, uma alma obediente a uma lei, a uma verdade superior também: o Espiritismo.

As brochuras, os jornais, os livros, as publicações de todas as espécies são meios poderosos de introduzir por toda a parte a luz, mas o mais seguro, o mais íntimo e o mais acessível a todos, é o exemplo na caridade, na doçura e no amor.

Agradeço à Sociedade por vir em ajuda aos infortunados que lhe são indicados.

Eis o bom Espiritismo, eis a verdadeira fraternidade.

Ser irmãos:
é ter os mesmos interesses, os mesmos pensamentos, o mesmo coração!

Espíritas, vós sois todos irmãos na mais santa acepção da palavra.
Em vos pedindo para vos amar uns aos outros, não faço senão lembrar as divinas palavras daquele que, há mil e oitocentos anos, trouxe sobre a Terra o primeiro germe da igualdade.

Segui sua lei, ela é a vossa;
não faço senão tornar mais palpável alguns desses ensinamentos.

Obscuro operário daquele mestre, daquele Espírito superior emanado da fonte de luz, refleti essa luz como o verme luzente reflete a claridade de uma estrela.

Mas a estrela brilha nos céus e o verme luzente brilha sobre a terra, nas trevas, tal é a diferença.

Continuai as tradições que vos deixei ao partir.

Que o mais perfeito acordo, a maior simpatia, a mais sincera abnegação reine no seio da Comissão.

Ela saberá, eu o espero, cumprir com honra, fidelidade e consciência, o mandato que lhe foi confiado.

Ah! Quando todos os homens compreenderem tudo o que encerram as palavras amor e caridade, não haverá mais sobre a Terra nem soldados nem inimigos, nela não haverá mais do que irmãos;
não haverá mais o olhares irritados e ferozes, não haverá senão frontes inclinadas para Deus!

Até breve, caros amigos, e obrigado ainda em nome daquele que não esquece o copo d'água e o óbolo da viúva.

* Mensagem do Espírito de Allan Kardec
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 03 de Novembro de 2016, 11:55
Dissertações espíritas - Todos os Santos
Revista Espírita , dezembro / 1862
 
I

(Paris, 1º de novembro de1862 - médium: Sr. Perchet, sargento do 40º de linha, Caserna do Príncipe Eugênio; membro da Sociedade de Paris)
 
       Meu caro irmão, neste dia de comemoração dos mortos, sinto-me feliz por poder entreter-me contigo. Não imaginas como é grande o prazer que experimento. Chama-me, pois, com mais frequência, e ambos lucraremos.

       Aqui nem sempre posso vir a ti, porque muitas vezes estou junto às minhas irmãs, especialmente junto à minha filhinha, que quase não deixo, pois pedi a missão de ficar junto a ela. Não obstante, posso com frequência responder ao teu chamado e será sempre uma felicidade ajudar-te com meus conselhos.

       Falemos da festa de hoje. Nesta solenidade cheia de recolhimento, que aproxima o mundo visível do invisível, há felicidade e tristeza.

       Felicidade, porque une em piedoso sentimento os membros dispersos da família. Neste dia a criança vem junto ao seu túmulo encontrar sua terna mãe, que molha a pedra sepulcral com suas lágrimas. O anjinho a abençoa e mistura seus votos aos pensamentos que caem, gota a gota, com as lágrimas da mãe querida. Como são doces ao Senhor essas castas preces, temperadas na fé e na saudade! Assim, subam aos pés do Eterno, como o suave perfume das flores e, do alto do Céu, Deus lance um olhar de misericórdia sobre este pequeno recanto da Terra e envie um de seus bons Espíritos para consolar esta alma sofredora e lhe dizer: “Consolai-vos, boa mãe. Vosso filho querido está na mansão dos bem-aventurados, vos ama e vos espera.”

       Eu disse: dia de felicidade, e o repito, porque aqueles a quem a religião da saudade aqui leva a orar pelos que se foram, sabem que não é em vão, e que um dia irão rever os seres amados, dos quais se acham momentaneamente separados. Dia de felicidade, porque os Espíritos veem com alegria e ternura aqueles que lhes são caros merecerem, pela confiança em Deus, vir em breve participar da felicidade de que desfrutam.

       Nesse dia de Todos os Santos, os mortos que corajosamente sofreram todas as provas impostas em vida, que se despojaram das coisas mundanas e educaram os filhos na fé e na caridade, esses Espíritos, repito, de boa vontade vêm associar-se às preces dos que deixaram, e lhes inspiram a firme vontade de marchar com perseverança pelo caminho do bem. Crianças, pais ou amigos, ajoelhados junto aos túmulos, experimentam íntima satisfação, porque têm consciência que os restos que lá estão, sob a lápide, não passam de uma lembrança do ser que eles encerraram e que agora se acha liberto das misérias terrenas.

       Meu caro irmão, esses são os felizes. Até amanhã.
 
II

       Meu caro irmão, fiel à minha promessa, venho a ti. Como havia dito ao deixar-te, ontem à noite, fui fazer uma visita ao cemitério. Lá examinei atentamente os vários Espíritos sofredores. Eles causam pena. Esse espetáculo chocante arrancaria lágrimas do mais duro coração.

       Contudo, em grande número essas almas são aliviadas pelos vivos e pela assistência dos bons Espíritos, principalmente quando se arrependeram das faltas terrenas e fazem esforços por se despojarem de suas imperfeições, causa única de seus sofrimentos. Agora eles compreendem a sabedoria, a bondade, a grandeza de Deus, e pedem o favor de novas provas para satisfazerem à justiça divina, expiar e reparar suas faltas e conquistar um futuro melhor.

       Orai, pois, caros amigos, de todo o vosso coração, por esses Espíritos arrependidos que acabam de ser esclarecidos por uma centelha de luz. Até agora eles não haviam acreditado nas delícias eternas porque, em sua punição, o cúmulo do tormento era não poderem esperar. Julgai sua alegria quando se rompeu o véu das trevas e o anjo do Senhor lhes abriu os olhos feridos de cegueira à luz da fé.

       Eles são felizes, entretanto, em geral não têm ilusões quanto ao futuro. Muitos dentre eles sabem que devem sofrer terríveis provas. Assim, reclamam insistentemente as preces dos vivos e a assistência dos bons Espíritos, a fim de poderem suportar com resignação a tarefa difícil que lhes será imposta.

       Digo-vos, ainda, e nunca seria demasiado repeti-lo para bem vos convencer desta grande verdade: Orai do fundo do coração por todos os Espíritos que sofrem, sem distinção de casta ou seita, porque todos os homens são irmãos e se devem mútuo auxílio.

       Espíritas fervorosos, sobretudo vós, que conheceis a situação dos Espíritos sofredores e sabeis apreciar as fases da vida; vós, que conheceis as dificuldades que eles têm a vencer, vinde em seu auxílio. É uma bela caridade orar pelos pobres irmãos desconhecidos, muitas vezes por todos esquecidos, e cujo reconhecimento não sabeis avaliar, quando se veem assistidos. A prece é para eles o que o orvalho é para a terra calcinada pelo calor.

       Figurai um desconhecido, caído em qualquer obscuro desvio de um caminho, em noite escura. Seus pés estão feridos pela longa caminhada. Ele sente o aguilhão da fome e uma sede ardente. Aos sofrimentos físicos juntam-se todas as torturas morais. O desespero está a dois passos. Em vão ele solta gritos dilacerantes aos quatro ventos, mas nenhum eco amigo responde ao apelo desesperado.

       Então! Imaginai que no instante em que essa infeliz criatura chegou aos extremos do sofrimento, mão compassiva vem pousar suavemente em seu ombro e lhe trazer o socorro que sua situação reclama. Imaginai, antão, se possível, o contentamento desse homem, e tereis uma pálida ideia da felicidade dada pela prece aos Espíritos infelizes, que suportam a angústia da punição e do isolamento. Eles vos serão eternamente agradecidos porque, tende certeza, no mundo dos Espíritos não há ingratos como na vossa Terra.

       
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 03 de Novembro de 2016, 11:56
Eu disse que Todos os Santos é uma solenidade surgida da tristeza, realmente uma grande tristeza, pois também chama a atenção para a classe desses Espíritos que, na existência terrena, se votaram ao materialismo, ao egoísmo; que não quiseram reconhecer outros deuses senão as miseráveis vaidades de seu mundo ínfimo; que não temeram empregar todos os meios ilícitos para aumentar suas riquezas e muitas vezes jogar gente honesta na miséria. Entre esses se acham os que interromperam a existência por uma morte violenta, bem como aqueles que durante sua vida arrastaram-se na lama da impureza.

       Meu caro irmão, que horríveis tormentos para todos esses! É exatamente como diz a Escritura: “Haverá choro e ranger de dentes”. Eles serão mergulhados no abismo profundo das trevas. Esses infelizes são vulgarmente chamados os danados e, posto seja mais exato chamá-los os punidos, nem por isso sofrem menos as terríveis torturas que se atribuem aos danados em meio às chamas. Envoltos nas mais espessas trevas de um abismo que lhes parece insondável, posto não seja circunscrito, como vos ensinam, experimentam sofrimentos morais indescritíveis, até abrirem o coração ao arrependimento.

       Alguns, por vezes, ficam durante séculos nesse estado, sem poderem prever o fim de seus tormentos, Assim, eles se dizem condenados por toda a eternidade. Essa opinião errônea, durante muito tempo encontrou guarida entre vós. É um erro grave, porque, mais cedo ou mais tarde, esses Espíritos se abrem ao arrependimento e então, Deus, apiedado de suas desgraças, lhes envia um anjo que lhes dirige palavras consoladoras e lhes abre um caminho tanto mais largo quanto mais tiverem para ele sido feitas preces aos pés do Eterno.

       Irmão, vês que as preces são sempre úteis aos culpados, e se elas não alteram os desígnios imutáveis de Deus, nem por isso dão menos alívio aos Espíritos sofredores, trazendo-lhes o suave pensamento de ainda se acharem na lembrança de almas piedosas. Assim, o prisioneiro sente o coração pular de alegria quando, através de suas tristes grades, percebe o rosto de algum parente ou amigo que não esqueceu sua desgraça.

       Se o Espírito sofredor for muito endurecido, muito material, para que a prece lhe atinja a alma, um Espírito puro a recolhe como um aroma precioso e a deposita nas ânforas celestes, até o dia em que elas puderem servir ao culpado.

       Para que a prece dê frutos, não basta balbuciar as palavras, como faz a maioria das criaturas. A única prece agradável ao Senhor é a que parte do coração, a única que é considerada, e que alivia os Espíritos sofredores.
       De tua irmã que te ama,
     
       Marguerite
 
         Pergunta (feita na Sociedade):
 
       Que pensar da seguinte passagem desta comunicação, onde foi dito: “Eu vos asseguro que em nosso mundo não há ingratos como na vossa Terra?” Sendo as almas dos homens Espíritos encarnados, trazem consigo seus vícios e suas virtudes. As imperfeições dos homens vêm das imperfeições do Espírito, como suas qualidades vêm das qualidades adquiridas. Segundo essa ideia, e considerando-se que se encontram nos Espíritos os mais ignóbeis vícios, não se compreenderia que não se pudesse encontrar a ingratidão que frequentemente se encontra na Terra.
 
       Resposta (por intermédio do Sr. Perchet):
 
       Sem dúvida, há ingratos no mundo dos Espíritos, e podeis colocar em primeiro plano os obsessores e os maldosos, que fazem todos seus esforços por vos inculcar seus pensamentos perversos, a despeito do bem que lhes façais, orando por eles. Sua ingratidão, entretanto, é apenas momentânea, porque a hora do arrependimento soa para eles, mais cedo ou mais tarde. Então seus olhos se abrem à luz e seus corações também se abrem para sempre ao reconhecimento. Na Terra não é assim, e a cada passo encontrareis homens que, malgrado todo o bem que lhes façais, não pagam, até o fim, senão com a mais escura ingratidão.

       A passagem que provocou essa observação não é obscura senão porque lhe falta extensão. Eu só encarava a questão do ponto de vista dos Espíritos abertos ao arrependimento, e aptos, por isso mesmo, a recolher imediatamente os frutos da prece. Estando esses Espíritos comprometidos com boa via, e não podendo o Espírito retrogradar, é claro que neles não poderia extinguir-se o reconhecimento.

       Para não haver confusão, redigirei assim a frase que suscitou a observação: “Eles vos serão eternamente reconhecidos porque, tende certeza, entre os Espíritos, aqueles a quem tiverdes levado ao bom caminho não poderiam ser ingratos”.
 
Marguerite
 
       OBSERVAÇÃO: Estas duas comunicações, como muitas outras de moralidade não menos elevada, foram obtidas pelo Sr. Perchet em sua caserna, onde ele conta com vários camaradas que partilham de suas crenças espíritas e a estas conformam sua conduta. Perguntaremos aos detratores do Espiritismo se esses militares receberiam melhores conselhos de moral no cabaré. Se aí está a linguagem de Satã, ele se fez eremita. É verdade que ele está muito velho!

         Aproveitando o ensejo, perguntaremos ao Sr. Tony, o espirituoso e sobretudo muito lógico jornalista de Rochefort, que acredita que o Espiritismo é um dos males saídos da caixa de Pandora e uma dessas coisas malsãs estudadas pela higiene pública e a moral, nós lhe perguntaremos, íamos dizendo, o que há de malsão e de contrário à higiene nessa comunicação, e se esses militares perderam a moralidade e a saúde, ao renunciarem aos maus lugares em favor da prece.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Novembro de 2016, 22:30
A amizade e a prece
Revista Espírita, junho / 1863)
 
(Sociedade Espírita de Viena - Áustria)
 
(Traduzido do alemão)
 
 
Criando as almas, Deus não estabeleceu diferenças entre elas.

Que essa igualdade de direitos entre elas sirva de princípio à amizade, que nada mais é senão a unidade nas tendências e nos sentimentos.

A verdadeira amizade só existe entre os homens virtuosos, que se reúnem sob a proteção do Todo-Poderoso, para se encorajarem reciprocamente no cumprimento de seus deveres.

Todo coração verdadeiramente cristão possui o sentimento da amizade.

Ao contrário, essa virtude encontra no egoísmo das almas viciosas a pedra de tropeço que, semelhante à semente caída sobre rocha árida, a torna infecunda para o bem.

Rodeai vossa alma pelo muro protetor de uma prece cheia de fé, a fim de que o inimigo, interno ou externo, aí não possa penetrar.

A prece eleva o Espírito do homem para Deus, o desprende de todas as preocupações terrenas, o transporta para um estado de tranquilidade, de paz, que o mundo não lhe poderia oferecer.

Quanto mais confiante e fervorosa for a prece, melhor é escutada e mais agradável é a Deus.

Quando, inteiramente penetrada de zelo santo, a alma do homem se lança para os céus na prece íntima e ardente, os inimigos interiores, isto é, as paixões do homem, e os inimigos externos, isto é, os vícios do mundo, são impotentes para forçar os muros que a protegem.

Homens, orai a Deus com toda confiança, do fundo do coração, com fé e verdade!

(Texto enviado por IPEAK)
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 09 de Novembro de 2016, 23:03
JEAN JACQUES ROUSSEAU
Revista Espírita, Agosto / 1861

(MÉédium Sra. Costel)

NOTA: A médium estava ocupada com problemas muito estranhos ao Espiritismo.
 
Dispunha-se a escrever sobre assuntos pessoais, quando uma força invisível a constrangeu a escrever o que segue, apesar de seu desejo de continuar o trabalho começado. É o que explica o começo da comunicação.

“Eis-me aqui, embora não me chames. Venho falar-te de coisas muito estranhas às tuas preocupações.

Sou o Espírito de Jean-Jacques Rousseau.

Há muito esperava ocasião de comunicar-me contigo. Escuta, pois.

“Penso que o Espiritismo é um estudo puramente filosófico das causas secretas dos movimentos interiores da alma, pouco ou nada definidos até agora.

Ele explica, mais ainda do que descobre, horizontes novos.

A reencarnação e as provas sofridas antes de atingir o fim supremo, não são revelações, mas uma confirmação importante.

Estou comovido pelas verdades que esse meio põe à luz.

Digo meio com intenção, porque, a meu ver, o Espiritismo é uma alavanca que afasta a cegueira.

A preocupação com as questões morais está inteiramente por criar.

Discute-se a política que move os interesses gerais; discutem-se os interesses privados;
apaixona-se pelo ataque ou pela defesa das personalidades;

os sistemas têm partidários e detratores,

mas as verdade morais, que são o pão da alma, o pão da vida, são deixadas no pó acumulado pelos séculos.

Todos os aperfeiçoamentos são úteis aos olhos da multidão, salvo os da alma.

Sua educação, sua elevação são quimeras, boas só para encher os lazeres dos sacerdotes, dos poetas, das mulheres, quer como moda, quer como ensinamento.

“Se o Espiritismo ressuscitar o Espiritualismo, devolverá à Sociedade o impulso que dá a uns dignidade interior, a outros resignação, a todos a necessidade de elevar-se para o Ser Supremo, esquecido e desprezado por suas ingratas criaturas.

JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Novembro de 2016, 20:01
Notas Bibliográficas
A RAZÃO DO ESPIRITISMO
Por: Michel Bonnamy

Revista Espírita,novembro / 1867 

Juiz de instrução; membro dos congressos científicos de França; antigo membro do conselho geral de Tarn-et-Garonne

Quando apareceu o romance Mireta, os Espíritos disseram estas palavras notáveis na Sociedade de Paris:

“O ano de 1866 apresenta a filosofia nova sob todas as formas; mas ainda é o talo verde que encerra a espiga de trigo e, para a mostrar, espera que o calor da primavera a tenha amadurecido e feito desabrochar. 1866 preparou, 1867 amadurecerá e realizará. O ano se abre sob os auspícios de Mireta e não se escoará sem ver aparecerem novas publicações do mesmo gênero e mais sérias ainda, no sentido de que o romance tornar-se-á filosofia e a filosofia se fará história.” (Revista de fevereiro de 1867).

Anteriormente eles já haviam dito que se preparavam diversas obras sérias sobre a filosofia do Espiritismo, nas quais o nome da doutrina não seria timidamente dissimulado, mas confessado e proclamado em voz alta por homens cujo nome e posição social dariam peso à sua opinião; e acrescentaram que o primeiro apareceria provavelmente pelo fim do presente ano.

A obra que anunciamos realiza completamente esta previsão. É a primeira publicação deste gênero na qual a questão é encarada em todas as suas partes e em toda a sua grandeza. Pode-se, pois, dizer que inaugura uma das fases da existência do Espiritismo. O que a caracteriza é que não é uma adesão banal aos princípios da doutrina, uma simples profissão de fé, mas uma demonstração rigorosa, onde os próprios adeptos encontrarão novas idéias. Lendo esta argumentação cerrada, levada, a bem dizer, até a minúcia, e por um encadeamento lógico das idéias, perguntar- -se-á, sem dúvida, por que singular extensão do vocábulo se poderia aplicar ao autor o epíteto de louco. Se é um louco que assim discute, poder-se-á dizer que às vezes os loucos tapam a boca de gente que se diz sensata. É uma defesa exemplar, onde se reconhece o advogado que quer reduzir a réplica aos seus últimos limites; mas aí se reconhece, também, aquele que estudou a causa seriamente e a perscrutou nos seus mais minuciosos detalhes. O autor não se limita a emitir a sua opinião: ele a motiva e dá a razão de ser de cada coisa. É por isso que, com toda justiça, intitulou seu livro de A Razão do Espiritismo.

Publicando esta obra, sem cobrir a sua personalidade com o menor véu, o autor prova que tem a verdadeira coragem de sua opinião, e o exemplo que dá é um título ao reconhecimento de todos os espíritas. O ponto de vista em que se colocou é principalmente o das conseqüências filosóficas, morais e religiosas, as que constituem o objetivo essencial do Espiritismo e dele faz uma obra humanitária. 

Aliás, eis como ele se expressa no prefácio.

“Está nas vicissitudes das coisas humanas, ou, melhor dizendo, parece fatalmente reservado a toda idéia nova ser mal acolhida ao seu aparecimento. Como, as mais das vezes, tem por missão derrubar idéias que a precederam, encontra resistência muito grande da parte do entendimento humano.

“O homem que viveu com preconceitos não acolhe senão com desconfiança a recém-chegada, que tende a modificar, a destruir mesmo combinações e ideias fixas em seu espírito, a força- lo, numa palavra, a meter mãos à obra, para correr atrás da verdade. Aliás, sente-se humilhado em seu orgulho, por ter vivido no erro. 

“A repulsa que inspira a idéia nova é muito mais acentuada ainda quando traz consigo obrigações, deveres; quando impõe uma linha de conduta mais severa.

“Ela encontra enfim ataques sistemáticos, ardentes, obstinados, quando ameaça posições conquistadas, e sobretudo quando se defronta com o fanatismo ou com opiniões profundamente arraigadas na tradição dos séculos.

“As doutrinas novas, pois, sempre têm numerosos detratores; muitas vezes elas têm mesmo que sofrer perseguição, o que levou Fontenelle a dizer: ‘Que se tivesse todas as verdades na mão, teria o cuidado de não a abrir.’

“Tais eram o desfavor e os perigos que esperavam o Espiritismo quando do seu aparecimento no mundo das idéias. Os insultos, a zombaria, a calúnia não lhe foram poupados; e, talvez, também venha o dia da perseguição. Os adeptos do Espiritismo foram tratados de iluminados, alucinados, patetas e loucos, e a essa enxurrada de epítetos que, todavia, pareciam contradizer-se e excluir-se, acrescentaram os de impostores, charlatães e, finalmente, de partidários de Satã.

“A qualificação de louco é a que parece mais especialmente reservada a todo promotor ou propagador de idéias novas. É assim que trataram de louco o primeiro que se atreveu a dizer que a Terra girava em torno do Sol.

“Também era louco o célebre navegador que descobriu um novo mundo. Ainda era louco, para o areópago da Ciência, o que descobriu a força do vapor. E a douta assembléia acolheu, com sorriso desdenhoso, a sábia dissertação de Franklin sobre as propriedades da eletricidade e a teoria do pára-raios.

“Ele também, o divino regenerador da Humanidade, o reformador autorizado da lei de Moisés, não foi tratado de louco? Não expiou por um suplício ignominioso a propagação dos benefícios da moral divina na Terra?


“Galileu não expiou como herético, num seqüestro cruel e em amargas perseguições morais, a glória de ter sido o primeiro a ter a iniciativa do sistema planetário cujas leis Newton devia promulgar?

 “São João Batista, o precursor do Cristo, também tinha sido sacrificado à vingança dos culpados, cujos crimes condenara.

“Os apóstolos, depositários dos ensinamentos do divino Messias, tiveram que selar com sangue a santidade de sua missão. E a religião reformada por sua vez não foi perseguida e, após os massacres de São Bartolomeu, não teve que sofrer as dragonadas?

 “Enfim, remontando até o ostracismo inspirado por outras paixões, vemos Aristides exilado e Sócrates condenado a beber cicuta.

“Sem dúvida, graças aos costumes suaves que caracterizam nosso século, sob o império de nossas instituições e das luzes que põem um freio à intolerância fanática, as fogueiras não mais se erguerão para purificar com suas chamas as doutrinas espíritas, cuja paternidade pretendem fazer remontar a Satã. Mas elas também devem esperar um levante dos mais hostis e ataque de ardentes adversários.

“Entretanto, este estado militante não poderia debilitar a coragem dos que estão animados por uma convicção profunda, dos que têm a certeza de ter nas mãos uma dessas verdades fecundas, que constituem, em seus desdobramentos, um grande benefício para a Humanidade.

“Mas, seja como for o antagonismo das idéias ou das doutrinas que o Espiritismo suscitar; sejam quais forem os perigos que deva abrir sob os passos dos adeptos, o espírita não poderia deixar esta luz sob o alqueire e se recusar a lhe dar todo o brilho que ela comporta, o apoio de suas convicções e o testemunho sincero de sua consciência.

“O Espiritismo, revelando ao homem a economia de sua organização, iniciando-o no conhecimento de seus destinos, abre um campo imenso às suas meditações. Assim o filósofo espírita, chamado a levar suas investigações a esses novos e esplêndidos horizontes só tem por limites o infinito. Assiste, de certo modo, ao conselho supremo do Criador. Mas o entusiasmo é o escolho que deve evitar, sobretudo quando lança suas vistas sobre o homem, tornado tão grande e que, no entanto, por orgulho se faz tão pequeno. Não é senão quando esclarecido pelas luzes de uma prudente razão, e tomando por guia a fria e severa lógica, que deve dirigir suas peregrinações no domínio da ciência divina, cujo véu foi erguido pelos Espíritos.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Novembro de 2016, 20:02
“Este livro é o resultado de nossos próprios estudos e de nossas meditações sobre este assunto que, desde o começo, nos pareceu de importância capital e ter conseqüências da mais alta gravidade. Reconhecemos que essas idéias têm raízes profundas e nelas entrevimos a aurora de uma nova era para a sociedade. A rapidez com que se propagam é um indício de sua próxima admissão no número das crenças aceitas. Em razão mesmo de sua importância, não nos contentamos com afirmações e argumentos da doutrina; não só nos asseguramos da realidade dos fatos, mas perscrutamos com minuciosa atenção os princípios deles decorrentes; buscamos a sua razão com fria imparcialidade, sem negligenciar o estudo não menos consciencioso das objeções que opõem os antagonistas; como um juiz que escuta as duas partes contrárias, pesamos maduramente os prós e os contras. Só depois de haver adquirido a convicção de que as alegações contrárias nada destroem; que a doutrina repousa sobre bases sérias, numa lógica rigorosa, e não em devaneios quiméricos; que contém o gérmen de uma renovação salutar do estado social, minado secretamente pela incredulidade; que é, enfim, uma poderosa barreira contra a invasão do materialismo e da desmoralização, é que julgamos dever dar nossa apreciação pessoal, e as deduções que tiramos de um estudo atento.

“Assim, tendo encontrado uma razão de ser nos princípios desta nova ciência, que tem lugar reservado entre os conhecimentos humanos, intitulamos nosso livro A Razão do Espiritismo. Este título é justificado pelo ponto de vista sob o qual encaramos o assunto, e os que nos lerem reconhecerão sem dificuldade que este trabalho não é produto de um entusiasmo leviano, mas de um exame maduramente e friamente reflexivo.

“Estamos convictos de que, quem quer que, sem partido preconcebido de oposição sistemática, fizer, como nós fizemos, um estudo consciencioso da Doutrina Espírita, a considerará como uma das coisas que interessam no mais alto grau o futuro da Humanidade.

“Dando a nossa adesão a esta doutrina, usamos do direito de liberdade de consciência, que a ninguém pode ser contestado, seja qual for a sua crença. Com mais forte razão esta liberdade deve ser respeitada, quando tem por objetivo princípios da mais alta moralidade, que conduzem os homens à prática dos ensinamentos do Cristo e, por isso mesmo, são a salvaguarda da ordem social.

“O escritor que consagra sua pena em fixar no espírito a impressão que tais ensinamentos deixaram no santuário de sua consciência, deve guardar-se bem de confundir as elucubrações brotadas no seu horizonte terrestre com os raios luminosos partidos do céu. Se restam pontos obscuros ou ocultos às suas explicações, pontos que ainda não lhe é dado conhecer, é que, aos olhos da sabedoria divina, ficam reservados para um grau superior na escala ascendente de sua depuração progressiva e de sua perfectibilidade.

“Todavia, apressemo-nos em dizê-lo, todo homem convicto e consciencioso, consagrando suas meditações à difusão de uma verdade fecunda para a felicidade da Humanidade, mergulha sua pena na atmosfera celeste, onde nosso globo está imerso, e recebe incontestavelmente a centelha da inspiração.

” A indicação do título dos capítulos dará a conhecer o quadro abarcado pelo autor.

1. Definição do Espiritismo. – 2. Princípio do bem e do mal. – 3. União da alma com o corpo. – 4. Reencarnação. – 5. Frenologia. – 6. Pecado original. – 7. O inferno. – 8. Missão do Cristo. – 9. O purgatório. – 10. O céu. – 11. Pluralidade dos globos habitados. – 12. – A caridade. – 13. – Deveres do homem. – 14. Perispírito. – 15. Necessidade da revelação. – 16. Oportunidade da revelação. – 17. Os anjos e os demônios. – 18. Os tempos preditos. – 19. A prece. – 20. A fé. – 21. Resposta aos insultadores. – 22. Resposta aos incrédulos, ateus ou materialistas. – 23. Apelo ao clero.

Lamentamos que a falta de espaço não nos permita reproduzir tantas passagens quanto desejaríamos. Limitar-nosemos a algumas citações.

Cap. III, pág. 41. –  “A utilidade recíproca e indispensável da alma e do corpo para sua cooperação respectiva constitui, pois, a razão de ser de sua união. Ela constitui, a mais, para o Espírito, as condições militantes na via do progresso, onde está chamado a conquistar sua personalidade intelectual e moral.

“Como esses dois princípios realizam normalmente, no homem, o fim de sua destinação? Quando o Espírito é fiel às suas aspirações divinas, restringe os instintos animais e sensuais do corpo e os reduz à sua ação providencial na obra do Criador; desenvolve-se, cresce. É a perfeição mesma da obra que se realiza. Chega à felicidade, cujo último termo é inerente ao grau supremo da perfectibilidade.

“Se, ao contrário, abdicando da soberania que é chamado a exercer no corpo, cede ao arrastamento dos sentidos, e se aceita suas condições de prazeres terrestres como único objetivo de suas aspirações, falseia a razão de ser de sua existência e, longe de realizar os seus destinos, fica estacionário; ligado a esta vida terrestre que, entretanto, não deveria ter sido para ele senão uma condição acessória, pois não poderia ser o seu fim, o Espírito, de chefe que era, torna-se subordinado; como insensato, aceita a felicidade terrena que os sentidos lhe fazem experimentar e que lhe propõem satisfazer, assim abafando nele a intuição da felicidade verdadeira que lhe está reservada. Eis a sua primeira punição.
Título: Re: Apreciando a Revista Espírita
Enviado por: Moises de Cerq. Pereira em 12 de Novembro de 2016, 20:02
” No capítulo XII, do inferno, pág. 99, encontramos esta notável apreciação da morte e dos flagelos destruidores:

“Seria enumerando os flagelos que espalham sobre a Terra o terror e o pânico, o sofrimento e a morte, que acreditariam poder dar a prova das manifestações da cólera divina?

“Sabei, pois, temerários evocadores das vinganças celestes, que os cataclismos que assinalais, longe de ter o caráter exclusivo de um castigo infligido à Humanidade, são, ao contrário, um ato da misericórdia divina, que fecha a esta o abismo onde a precipitavam suas desordens, e lhe abre as vias do progresso, que a levarão ao caminho que deve seguir para assegurar a sua regeneração.

“Que são esses cataclismos, senão uma nova fase na existência do homem, uma era feliz, marcando para os povos e a Humanidade inteira o ponto providencial de seu adiantamento?

“Sabei, pois, que a morte não é um mal. Farol da existência do Espírito, ela é sempre, quando vem de Deus, o sinal de sua misericórdia e de sua assistência benfazeja. A morte é apenas o fim do corpo, o termo de uma encarnação e, nas mãos de Deus, é o aniquilamento de um meio corruptor e vicioso, a interrupção de uma corrente funesta, à qual, num momento solene, a Providência arranca o homem e os povos.

“A morte não é senão uma interrupção na prova terrestre. Longe de prejudicar o homem, ou antes, o Espírito, ela o chama a se recolher no mundo invisível, seja para reconhecer suas faltas e as lamentar, seja para se esclarecer e se preparar, por firmes e salutares resoluções, para retomar a prova da vida terrestre.

“A morte só gela o homem de pavor porque, muito identificado com a Terra, não tem fé em seu augusto destino, do qual este globo não passa de dolorosa oficina, na qual se deve realizar a sua depuração.

“Cessai, pois, de crer que a morte seja um instrumento de cólera e de vingança nas mãos de Deus; sabei, ao contrário, que ela é ao mesmo tempo a expressão de sua misericórdia e de sua justiça, seja detendo o mau na vida da iniqüidade, seja abreviando o tempo de provas ou de exílio do justo sobre a Terra.

“E vós, ministros do Cristo, que do alto do púlpito da verdade proclamais a cólera e a vingança de Deus, e pareceis, por vossas eloqüentes descrições da fantástica fornalha, atiçar as chamas inextinguíveis para devorar o infeliz pecador; vós que, de vossos lábios tão autorizados, deixais cair esta aterradora epígrafe: ‘Jamais! – Sempre!’ então esquecestes as instruções de vosso divino Mestre?

Ainda citaremos as seguintes passagens, extraídas do capítulo sobre o pecado original.

“Em vez de criar a alma perfeita, quis Deus que não fosse senão por longos e constantes esforços que ela chegaria a se desprender deste estado de inferioridade nativa e gravitar para seus augustos destinos