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CONVÍVIO => Off-topic => Espiritualismo => Tópico iniciado por: Filipa Matos em 10 de Dezembro de 2012, 11:57

Título: A Arte da Meditação
Enviado por: Filipa Matos em 10 de Dezembro de 2012, 11:57

Texto de Jiddu Krishnamurti

"Toda a meditação que envolve esforço deixa de ser meditação. Não se trata de nenhum ato de realização nem algo que deva ser praticado diariamente de acordo com um sistema ou método qualquer, para obtenção de um fim almejado. Ao contrário, toda a imaginação e medida devem cessar. A meditação não constitui um meio para atingir um fim; é um fim em si mesma. No entanto aquele que medita deve deixar de existir para que a meditação possa ocorrer.

A meditação não é uma experiência nem uma lembrança erguida em torno de um dado prazer futuro. Aquele que experimenta move-se sempre dentro dos limites das suas próprias projeções de tempo e pensamento. Uma vez inserida nos limites do pensamento, a liberdade não passará de uma ideia e uma fórmula; o pensador jamais poderá alcançar o movimento da meditação.

A meditação diz sempre respeito ao presente enquanto que o pensamento pertence sempre ao passado. Toda a consciência é pensamento, porém, o estado de meditação não ocorre dentro das suas fronteiras. A meditação consciente é somente o ato de redefinir ainda mais esses limites destruindo assim toda a liberdade. Mas somente em liberdade poderá haver meditação.

Se não meditardes sereis sempre um escravo do tempo, cuja sombra é a dor. O tempo é sofrimento.

A meditação não é via para experiências únicas nem excepcionais. Essas experiências conduzem ao isolamento e aos processos auto-encarceradores da memória, e estão sujeitos ao tempo- o que constitui a negação da liberdade.

O vale mais parecia uma carpete de flores e os declives achavam-se repletos de uma abundância
multicolorida delas, tão abundantes quanto a vastidão da terra com todas as suas cidades, verdes prados, pastos, bosques e cidades. Lá estavam tão ricas e belas quanto o próprio vale; todavia, tanto a abundância da natureza como o homem estão destinados a morrer e a surgir de novo. A abundância da meditação não é reunida pelo pensamento nem pelo prazer que o pensamento gera mas acha-se para além da flor e da nuvem. A partir disso a abundância torna-se tão imensurável quanto a flor e a beleza. Contudo jamais se encontram neste lado da sua manifestação.

Sem amor não pode existir silêncio. Para o poderdes compreender, permanecei imóveis.

A mente meditativa é aquela que se encontra em silêncio. Não se trata do silêncio que a mente pode conceber, nem o silêncio de um entardecer calmo, mas o silêncio que sobrevém quando o pensamento, com todas as suas imagens palavras e percepções cessa completamente. Essa mente meditativa é a mente religiosa- a mente da religião que não é tocada pela Igreja, pelos templos nem pelos cantos. A mente religiosa é a explosão do amor; esse amor não comporta qualquer separação. Para essa mente, longe é perto. Não é “um” nem “muitos” mas sim esse estado de amor em que toda a divisão cessa. Da mesma forma que a beleza, não cabe na avaliação das palavras. Só a partir  deste silêncio è que a mente meditativa pode atuar.

Meditar é tornar-se vulnerável. Essa vulnerabilidade não tem passado nem futuro- ontem ou amanhã. Somente o que é novo pode ser vulnerável.

A meditação é uma das maiores artes na vida, talvez mesmo a maior, mas provavelmente não pode ser ensinada. Nisso reside toda a sua beleza. Não possui técnica alguma nem autoridade sequer. Quando nos observamos e por meio dessa observação aprendemos acerca de nós próprios- sobre o modo como caminhamos, comemos, aquilo que dizemos, toda a bisbilhotice, ódio, ciúme- se de tudo isso ficarmos cientes, sem escolha, tal processo fará parte da meditação. Assim, a meditação pode ocorrer quando nos sentamos no autocarro ou caminhamos pelos bosques, com sua luz e sombras, ou então quando escutamos o canto dos pássaros e olhamos para o rosto da nossa esposa ou filho.

É curioso como a meditação se torna de todo importante. O seu processo não conhece começo nem fim. Assemelha-se a uma gota de chuva, que conglomera todas as correntes de água, os vastos rios, as quedas de água e os oceanos. Essa gota de água alimenta a terra e o homem; sem isso a terra tornar-se-ia um deserto. Sem a meditação o coração torna-se um deserto, um terreno baldio.

Meditação é descobrir se o cérebro, com todas as suas atividades e experiências, pode ficar em absoluto silêncio. Não de modo forçado, porque no momento em que o forçarmos deverá passar a existir dualidade. A entidade que diz: "para poder fazer experiências espantosas tenho que observar a tranquilidade"; tal entidade jamais o conseguirá. Mas se começarmos a pesquisar, a observar e a escutar todos os movimentos do pensamento, com as suas condicionantes, as suas buscas, os seus medos, o seu prazer e observarmos o modo como o cérebro opera, perceberemos de que modo o cérebro se torna absolutamente silencioso. Esse silêncio não é um sono mas uma coisa tremendamente ativa e imóvel. É um enorme dínamo que trabalha na perfeição, dificilmente produzindo ruído. O ruído só existe quando há fricção.

Silêncio e imensidão andam juntos. A vastidão do silêncio é a imensidão da mente em que não existe um centro.

Meditação é trabalho árduo e exige a mais elevada forma de disciplina – e não conformação imitação ou obediência - a disciplina que sobrevém por meio da atenção constante, não só das coisas relativas a nós externamente como também interiormente. Assim, a meditação não é uma atividade de isolamento mas a ação da vida diária, uma ação que exige cooperação, sensibilidade e inteligência. Sem estabelecermos as fundações de uma vida correta, a meditação torna-se uma fuga e, portanto, não tem valor nenhum. Um viver correto não significa seguir a moral social, mas liberdade com relação à inveja, à cobiça e à busca de poder - tudo o que gera inimizade. A liberdade disso não sobrevém pela atividade da vontade mas pela atenção para com isso, por meio do auto-conhecimento. Sem conhecermos as atividades do eu, a meditação torna-se excitação sensual e, portanto, possui muito pouco significado."



Bom dia
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Filipa Matos em 10 de Dezembro de 2012, 19:45
Continuando...

"A procura de experiências transcendentais, mais amplas e mais profundas, é sempre um modo de escapar à realidade de "o que é", do que nós próprios somos - a nossa própria mente condicionada. Por que razão haverá uma mente inteligente e desperta, liberta, ter uma experiência qualquer? Luz é luz; ela não pede por mais.

Se vos preparardes deliberadamente para meditar isso deixará de ser meditação. Se fizerdes por ser bons, jamais a bondade poderá florescer. Se cultivardes a humildade, ela deixará de o ser. Meditação é a brisa que entra quando deixais a janela aberta; porém, se o fizerdes deliberadamente, e a convidardes a entrar, ela jamais surgirá.

Em meditação temos de descobrir se existe um fim para o conhecimento e também se existe liberdade do conhecido.

Coisa extraordinária é a meditação. Se existir algum tipo de compulsão ou esforço, afim de ajustar o pensamento, tratar-se-á de imitação, o que tornará tudo um fardo fastidioso. O silêncio que é desejo, deixa de ser esclarecedor. Quando se torna busca de visões e experiências, então conduz à ilusão e à auto-hipnose. Somente por meio do florescimento do pensamento e do seu consequente término, a meditação poderá ter significado. O pensamento só pode florescer em liberdade e não através dos padrões sempre crescentes do conhecimento. O conhecimento pode conferir novas experiências e uma enorme sensação, porém uma mente que procura experiência de qualquer tipo é imatura. Maturidade é ser livre de toda a experiência, e deixarmos de nos sujeitar à influência do ser e do não-ser. A maturidade da meditação consiste em libertar a mente de conhecimento, porque este molda e controla toda a experiência. A mente que é uma luz para si mesma não necessita passar por nenhuma experiência. Imaturidade é a ânsia por experiências mais elevadas e vastas, conquanto a meditação é o errar pelo mundo do conhecimento e ser livre dele para poder mergulhar no desconhecido.

Temos de descobrir por nós mesmos e não através de quem quer que seja. Tivemos a autoridade de mestres e salvadores mas, se realmente quiserdes descobrir o que é a meditação tereis de abandonar completamente toda a autoridade.

Não sei se alguma vez notastes que, quando prestais completa atenção, ocorre um estado de silêncio. Nessa atenção não existe fronteira nem centro algum, como aquele que se acha atento e consciente. Essa atenção, esse silêncio, é um estado de meditação.

Meditar é transcender o tempo, tempo esse que é a distância que o pensamento percorre na sua realização. Esse percurso está sempre confinado ao "velho" modo, sendo feito com uma vestimenta nova, com umas novas vistas, porém sendo sempre a mesma estrada que conduz a lado nenhum - exceptuando à dor e ao sofrimento. Somente quando a mente transcende o tempo é que a verdade deixa de ser uma abstração. Então a benção deixa de ser uma ideia derivada do prazer e torna-se uma realidade não verbal. O esvaziamento dos conteúdos temporais da mente constitui o silêncio da verdade, e percebê-lo é agir; desse modo não há divisão entre o ver e o fazer, pois nesse intervalo nasce todo o conflito, tristeza e confusão. Aquilo que não possui tempo é Eterno.

A meditação não é um meio para um fim, mas ambos: meio e fim.

A meditação, que é a destruição da segurança, possui uma enorme beleza - não a beleza das coisas reunidas pelo homem nem pela natureza mas a beleza do silêncio. Esse silêncio é o vazio a partir do qual todas as coisas ocorrem e em que passam a existir. Ele é incognoscível. Nem o intelecto nem a sensação podem abrir caminho para o atingir e todo o método para esse efeito é invenção do espirito de cobiça. Todos os caminhos e meios do "eu" calculista devem ser completamente destruídos; todo o avanço e recuo - cujos procedimentos pertencem ao tempo - devem terminar, sem conhecimento do amanhã.

Meditação é destruição - é um perigo para todos quantos desejem levar uma vida superficial, uma vida de imaginação e mito. A meditação da mente que se encontra completamente silenciosa constitui a benção que o homem sempre procurou. Nesse silêncio ocorre a verdadeira diferença.

A meditação não tem começo nem fim. Nela não existe realização nem insucesso, nem arrecadação nem renúncia. É um movimento sem finalidade além do espaço e do tempo. Experimentá-la equivale a negá-la, porque aquele que experimenta está ligado ao tempo e ao espaço, ligado à memória e ao reconhecimento. O terreno para a verdadeira meditação está nessa consciência passiva que é liberdade total da autoridade e da ambição, da inveja e do medo. A meditação não possui qualquer sentido- qualquer que seja o significado que se lhe dê- sem esta liberdade nem auto-conhecimento. Enquanto subsistir uma forma de escolha não poderá existir auto-conhecimento. A escolha implica conflito, conflito que impede a compreensão do "que é". Vaguear em torno de fantasias ou de credos românticos não é meditação. O cérebro deve despir-se de todo o mito, de toda a ilusão e segurança, e enfrentar a realidade da falsidade de tudo isso. Não existe distração; tudo é um movimento da meditação.

A flor está tanto na forma como no perfume, na cor e na beleza; num todo. Agora, despedaçai-a em pedaços, seja verbalmente ou por via de facto e ela deixará de ser uma flor mas somente a lembrança do que era- o que certamente não é a flor.

A meditação é a ausência da consciência resultante do tempo e do espaço. O pensamento, como cerne da consciência, não pode de forma nenhuma provocar este silêncio. O término desse intrincado e subtil mecanismo deve ser espontâneo, sem depender de nenhuma recompensa nem garantia. É o único modo de o cérebro permanecer sensível vital e sereno. Faz parte da meditação o cérebro compreender as suas atividades superficiais e ocultas; nisso consiste a base da meditação, sem o que ela se torna uma atividade vazia de significado, conducente à auto-ilusão e à auto- hipnose. O silêncio é essencial para que ocorra a explosão da criação.

A meditação floresce na bondade. Sem ser propriamente virtude- cujo lento cultivo exige tempo- nem ser expressão de respeitabilidade social e sem representar a chancela da autoridade, a beleza da meditação está no perfume do seu desabrochar. Como poderá haver alegria na meditação se ela provir do desejo e do sofrimento? Como poderá ela florir se a procurarmos através do controle, da repressão ou do sacrifício? Como poderá desabrochar das sombras do medo ou da ambição, do desejo de fama? Como poderá florescer à sombra da esperança ou do desespero? Tudo isso deve ser abandonado de modo espontâneo e natural, sem remorsos.

A meditação não se presta a erguer muros de defesa ou de resistência, para em seguida fenecerem; tampouco é ela talhada segundo um método ou sistema. Qualquer sistema padroniza o pensamento, mas todo o conformismo impede o florescer da meditação. Para que ela desabroche é preciso haver liberdade e findar daquilo que é. Sem liberdade não há auto-conhecimento, e sem auto-conhecimento a meditação não pode ocorrer. Por mais vasto que seja o alcance do pensamento em sua busca de conhecimento, ele continuará a ser estreito e medíocre. A meditação não reside no processo aquisitivo e expansivo do saber, mas viceja na liberdade total, e termina no desconhecido.

A meditação não tem assento no tempo. O tempo não pode produzir a mutação; pode produzir uma mudança, mas toda a mudança necessita, por sua vez, de nova mudança; do mesmo modo que toda a reforma. A meditação que brota do tempo é sempre factor de limitação, e nisso não pode haver liberdade nenhuma; mas sem liberdade sempre haverá necessidade de escolha e conflito.

Perceber é fazer. O intervalo existente entre o perceber e o fazer é perda de energia- de que necessitamos para perceber- que em si mesmo é fazer.

Ser mundano é evitar o mundo. Morrer significa amar. A beleza do amor não reside nas recordações do passado nem nas imagens do amanhã. O amor não tem passado nem futuro; aquilo que o tem é a memória. O pensamento é prazer, coisa que não é amor. O amor e a paixão residem bem para além do alcance da sociedade, que sois vós. Morram e estará presente."


Jiddu Krishnamurti
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 11 de Dezembro de 2012, 13:04
Continuando...

"A meditação é aquela luz da mente que clareia o caminho para a ação. Sem essa luz não pode haver amor.

A meditação é um movimento no e do desconhecido. Nós não estamos presentes mas somente o seu movimento. Somos demasiado insignificantes ou grandiosos, muito ou pouco significativos para o seu movimento. Ele não possui nada na retaguarda nem na sua frente. É essa energia que o pensamento, enquanto matéria, não pode tocar. O pensamento é perversão, pois é um produto do ontem; preso na labuta dos séculos é, consequentemente confuso e obscuro. Façam o que fizerem, o conhecido não poderá esticar o "braço" para tocar o desconhecido. E a meditação constitui um ato de morrer para o conhecido.

Meditar é perceber o que é, e transcendê-lo.

Olhem e escutem em silêncio. O silêncio não é o término do ruído; o clamor incessante da mente e do coração não sofre término no silêncio. Não se trata do produto ou resultado do desejo, nem pode ser congregado pela vontade. A consciência no seu todo é um movimento incansável e ruidoso estabelecido dentro das fronteiras da sua própria formação. Dentro destas, o silêncio e a quietude representam o término momentâneo da tagarelice, porém trata-se de uma qualidade de silêncio tocada pelo tempo. O tempo é memória, e nele o silêncio pode ser curto ou extenso porque ele pode medi-lo, dar-lhe espaço e continuidade; e nesse caso torna-se numa outra forma de entretenimento. Todavia isso não é silêncio. Tudo o que for congregado pela ação do pensamento ainda se encontra dentro da área do ruído, mas o pensamento não pode, de modo nenhum, tornar-se tranquilo. Ele pode construir um retracto do silêncio, e dar-lhe forma e adorá-lo, do mesmo modo que faz com tantas outras imagens da sua criação. Mas a forma desse silêncio é a sua própria negação; os seus símbolos representam a verdadeira negação da realidade. O pensamento deve permanecer imóvel para que o silêncio possa ocorrer. O silêncio é sempre novo mas o pensamento não é, e sendo "velho" provavelmente não poderá penetrar no silêncio que se renova constantemente. Se o pensamento tocar o novo, este tornar-se-á velho. Olhem e comuniquem neste silêncio. O verdadeiro anonimato é procedente desse silêncio; não existe outra forma de humildade. Os vaidosos serão sempre vaidosos ainda que enverguem os trajes da humildade, que os torna ásperos e frágeis.

Neste silêncio, a palavra amor adquire um significado completamente diferente. Este silêncio não está acolá mas onde o observador estiver ausente.

Somente a inocência pode ter ardência. O indivíduo inocente não sofre, pois não encerra sofrimento nenhum, muito embora possa ter vivenciado um milhar de experiências. Não são as experiências que corrompem a mente mas aquilo que deixam para trás, os resíduos e as cicatrizes e lembranças que se acumulam e amontoam e desse modo dão origem à mágoa. Esse sofrimento é tempo, e onde existir tempo não pode haver inocência. A paixão não nasce da infelicidade; esta consiste na experiência da vida diária, uma vida de agonia e de todo um molhe de prazeres, medo e incerteza. Não podemos escapar das experiências porém não é preciso que elas criem raízes no solo da mente; essas raízes fazem despertar problemas, conflitos e luta constante. Mas não há saída disso excepto pelo morrer a cada dia para todo o passado. Somente a mente que possui clareza de entendimento pode ser apaixonada. E sem paixão não podemos contemplar a brisa por entre a folhagem nem o resplendor do brilho da luz na água. Sem paixão não existe amor.

O amor só pode existir quando o pensamento permanece imóvel. Essa imobilidade não pode ser criada de modo nenhum pelo pensamento. O pensamento só pode juntar imagens, fórmulas e ideias, porém esta quietude não pode ser tocada pelo pensamento. Este é sempre velho ao passo que o amor não.

O organismo físico possui a sua própria inteligência, que é entorpecida pelos hábitos do prazer. Esses hábitos destroem a sensibilidade do organismo, o que por sua vez entorpece a sensibilidade da mente. Uma mente assim pode permanecer alerta numa determinada direção estreita e limitada e, ainda assim, ser insensível. A profundeza de uma mente assim encerrada dentro das ilusões e imagens, é mensurável. A sua própria superficialidade é o seu fulgor. Para meditarmos precisamos de ter o organismo leve e inteligente. A relação entre o organismo e a mente meditativa assenta num ajustamento constante, pela sensibilidade. Porque a meditação necessita de liberdade, e esta é a sua própria disciplina. Somente em liberdade pode haver atenção. Possuir consciência da desatenção é estar atento. A completa atenção é amor. Só ele pode perceber, e o perceber é fazer.

O desejo e o prazer culminam na dor. Mas o amor não contém dor. O pensamento que dá continuidade ao prazer, esse sim, contém a dor, e fortalece-a. O pensamento está permanentemente em busca do prazer, desse modo convidando o sofrimento. A virtude cultivada pelo pensamento é a natureza do prazer, em que residem o esforço e toda a aquisição. O desabrochar da bondade não se acha no terreno do pensamento mas sim na liberdade da dor. O término da dor é amor.

Aquilo que temos estado a fazer é parte da meditação. Tudo o que temos de fazer consiste em obter consciência do pensador e não tentar resolver a contradição, mas produzir integração entre o pensamento e o pensador. O pensador é a entidade psicológica que acumulou experiência na qualidade de conhecimento; ele é o centro, limitado pelo tempo, resultante da constante influência ambiental, e a partir desse centro ele olha, pensa e experimenta. Enquanto não entendermos a estrutura e anatomia desse centro sempre deverá existir conflito, mas uma mente em conflito não poderá entender a profundidade nem a beleza da meditação.

Na meditação não pode haver pensador, o que significa que o pensamento deve findar; esse pensamento que é impelido a seguir em frente, pelo desejo de adquirir um resultado. A meditação nada tem que ver com o alcance de um resultado, nem é questão de respirar de modo particular, nem olhar para o nariz, nem despertar poder para executar determinados truques nem qualquer tolice ou imaturidade dessas. A meditação não é uma coisa apartada da vida; quando conduzimos um carro ou nos sentamos no autocarro, quando conversamos sem nenhum assunto, ou quando caminhamos muito recatadamente pelo bosque ou observamos uma borboleta a ser levada pelo vento e prestamos atenção a tudo isso sem escolha, isso faz parte da meditação.

Sem meditação não existe autoconhecimento, e sem isso não há meditação; desse modo devemos começar por saber o que somos. Não podemos ir longe se não começarmos perto, sem compreendermos o processo diário do pensamento, do sentimento e da ação. Por outras palavras, o pensamento deve entender o seu funcionamento; devemos poder perceber como o pensamento funciona dentro do campo do conhecido. Não podemos pensar com respeito ao desconhecido. Aquilo que conhecemos não é real porque o objecto do conhecimento só existe no tempo. Ser-se livre da rede do pensamento é a preocupação mais importante e não o pensar acerca do desconhecido. A mente é o resultado do processo do pensamento, resultante do tempo, e o processo do pensamento deve findar. A mente não pode pensar naquilo que é eterno e sem tempo; portanto, a mente tem de ser livre do tempo, o processo temporal da mente deve ser dissolvido. Só quando a mente estiver liberta completamente do ontem, e deixa de usar o presente como meio para alcançar o futuro, será capaz de receber o eterno. Portanto, o nosso interesse na meditação reside no conhecimento de nós próprios, não só superficialmente como todo o conteúdo da consciência oculta igualmente, a consciência interior. Sem conhecimento de tudo isso e sem sermos livres do seu condicionamento provavelmente não podereis ultrapassar os limites da mente. É por isso que o processo do pensamento deve cessar, e para tal tem que haver auto-conhecimento. A meditação é o começo da sabedoria; a compreensão da nossa mente e coração."




Boa tarde.
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Conforti em 11 de Dezembro de 2012, 13:50
Oi, Felipa,

Seja bem-vinda, nova companheira de jornada; continue trazendo textos de Krishnamurti; são muito bons e esclarecedores. Como disse Jesus: "quem puder compreender, compreenda!" e o Zen: "se vc compreender, as coisas são como são; se vc não compreender, as coisas são como são!".
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Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 11 de Dezembro de 2012, 20:53
"Meditação é o desabrochar da compreensão; esta não se situa nos limites do tempo, porque o tempo jamais trará entendimento. A compreensão não é um processo gradual de reunir pouco a pouco, através da paciência e do cuidado. A compreensão é agora ou nunca; é um clarão destrutivo e não uma coisa insípida.

"A Verdade é uma terra sem caminho". O homem não chegará a ela através de organização alguma, de qualquer crença, de nenhum dogma, de nenhum sacerdote ou mesmo um ritual, e nem através do conhecimento filosófico ou da técnica psicológica. Ele tem que descobri-la através do espelho das relações, por meio de compreensão do conteúdo da sua própria mente, mediante a observação, e não pela análise ou dissecação introspectiva. O homem tem construído imagens em si próprio, como muros de segurança - imagens religiosas, políticas, pessoais. Estas se manifestam como símbolos, idéias, crenças. O peso dessas imagens domina o pensamento do homem, as suas relações e a sua vida diária. Tais imagens são as causas de nossos problemas, pois elas dividem os homens. A sua percepção da vida é formada pelos conceitos já estabelecidos em sua mente. O conteúdo de sua consciência é a sua consciência total. Este conteúdo é comum a toda humanidade. A individualidade é o nome, a forma e a cultura superficial que o homem adquire da tradição e do ambiente. A singularidade do homem não se acha na sua estrutura superficial, porém na completa libertação do conteúdo de sua consciência, comum a toda humanidade. Desse modo ele não é um indivíduo.

A liberdade não é uma reação, nem tampouco uma escolha. É pretensão do homem pensar ser livre porque pode escolher. Liberdade é observação pura, sem direção, sem medo de castigo ou recompensa. A liberdade não tem motivo: ela não se acha no fim da evolução do homem e sim, no primeiro passo de sua existência. Mediante a observação começamos a descobrir a falta de liberdade. A liberdade reside na percepção, sem escolha, de nossa existência, da nossa atividade cotidiana.

O pensamento é tempo. Ele nasce da experiência e do conhecimento, coisas inseparáveis do tempo e do passado. O tempo é o inimigo psicológico do homem. Nossa ação baseia-se no conhecimento, portanto, no tempo, e desse modo, o homem é um eterno escravo do passado. O pensamento é sempre limitado e, por conseguinte, vivemos em constantes conflito e numa luta sem fim. Não existe evolução psicológica.

Quando o homem se tornar consciente dos movimentos dos seus próprios pensamentos ele verá a divisão entre o pensador e o pensamento, entre o observador e a coisa observada, entre aquele que experimenta e a coisa experimentada. Ele descobrirá que esta divisão é uma ilusão. Só então haverá observação pura, significando isso percepção sem qualquer sombra do passado ou do tempo. Este vislumbre atemporal produz uma profunda e radical mutação em nossa mente.

A negação total é a essência do positivo. Quando há negação de todas aquelas coisas que o pensamento produz psicologicamente, só então existe o amor, que é compaixão e inteligência."



Krishnamurti



Boa noite
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 12 de Dezembro de 2012, 22:17


"A crença é tão desnecessária quanto o são os ideais. Ambos dissipam a energia necessária para o acompanhamento do desdobramento daquilo "que é". Tanto as crenças como os ideais são evasivos do facto, mas pelo escape não pode haver fim para o sofrimento. O fim do sofrimento está na compreensão do facto, momento a momento. Não existe sistema nem método que possibilite tal compreensão; somente através da consciência sem escolha de um facto, isso acontecerá. A meditação que segue um sistema consiste no evitar o facto do que sois. Mas é infinitamente mais importante compreender-vos a vós mesmos- sobre a constante mudança acerca de vós próprios- do que meditar a fim de encontrar Deus ou obter visões, sensações ou outras formas de entretenimento...

Na meditação não existe sequência, nem continuidade, porque isso implica tempo, espaço e ação dentro desse campo. A nossa mente está condicionada a aceitar o tempo e o espaço mas nesse movimento a ação produzirá sempre contradição e, portanto, conflito. Assim é a nossa vida! Mas poderá a ação alguma vez libertar-se do tempo, de modo que não resulte arrependimento nem antecipação (o movimento de busca para a frente ou para trás) da ação? Perceber é agir. Não se trata de primeiro perceber e depois agir, mas antes um perceber que em si mesmo é ação; não existe elemento nenhum de tempo nisso, de modo que a mente é sempre livre.

Esta manhã a qualidade da meditação era inexistente, esvaziamento total do tempo e do espaço. Isso era um facto e não uma ideia nem um paradoxo da especulação contraditória. Sentimos essa estranha vacuidade quando a raiz de todos os problemas se desvanece. Essa raiz é o pensamento, o pensamento que divide e sustenta. Na meditação a mente torna-se verdadeiramente vazia do passado, porém pode utilizar esse passado como pensamento. Isso ocorre o dia todo e durante a noite o sono consiste no esvaziamento do ontem, e portanto a mente raia aquilo que é intemporal.

Tratava-se na verdade de um rio maravilhoso de tão largo e profundo, rodeado de cidades nas suas margens, tão descuidado e livre sem jamais se abandonar! Vivia-se toda uma vida nas suas margens, com campos verdes, florestas, casas solitárias, morte e destruição; lá se situavam algumas pontes largas e compridas graciosas, bem empregues. Outros ribeiros e rios se lhe juntavam, porém tratava-se do rio principal entre os mais pequenos e os muito grandes. Caudaloso estava em perpétuo movimento de auto-purificação; era uma benção ver as suas águas douradas ao entardecer, por entre nuvens profusamente coloridas. O pequeno fiozinho de água, lá ao longe, por entre aquelas rochas gigantes que pareciam tão compenetradas em dar-lhe berço, constituía o começo da sua vida, enquanto que o seu término se situava para lá das suas margens, no mar. A meditação era aquele rio, só que não tinha começo nem fim; tivera início, e o seu término seria o próprio começo. Não existia causa e o seu movimento era a sua renovação. Era sempre nova e nunca juntava para quando fosse velha, nem jamais se via manchada, por não ter raízes no tempo. É bom meditar sem esforçar- sem esforço nenhum, aliás- começando como um pequeno fio e indo além do tempo e do espaço onde o pensamento e o sentimento não podem entrar e onde não há experiência.

A meditação não é nunca oração; a oração, a súplica, nasce da autopiedade. Oramos quando estamos em dificuldades ou quando existe sofrimento, porém, quando sentimos felicidade e alegria não há súplica. Essa auto-piedade tão intensamente embutida no homem, é a raiz da separatividade. Tudo quanto está separado, ou pensamos ser separado mesmo pela procura de identificação com algo que não o seja- trará somente mais divisão e dor. Dessa confusão fazemos brotar o nosso clamor para os céus, para o nosso marido ou para uma divindade da mente; esse choro pode encontrar uma resposta, porém essa resposta será um eco da auto-piedade, em meio a essa separatividade. O isolamento do pensamento sempre se situa dentro do campo do conhecido; a resposta á oração é a resposta do conhecido. A meditação está longe disso; no seu campo não pode o pensamento penetrar. Não existe separatividade e, como tal, identidade nenhuma. A meditação está na abertura; nela o secretismo não tem lugar. Tudo permanece exposto e claro. Então, surge a beleza do amor."


Krishnamurti



Boa noite.
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Taprobana em 12 de Dezembro de 2012, 23:06
Filipa Matos:
Não gosto do termo "meditar" para ilustrar este estado de "Ser" nem tampouco dos termos "contemplação", "concentração" ou afins... "Morte" é o termo que mais se apropria no encontrar aquilo que "É"... tudo o que não é Morte é Vida... e a Vida é a "Mente".
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 13 de Dezembro de 2012, 10:43
Oi, Felipa,

Seja bem-vinda, nova companheira de jornada; continue trazendo textos de Krishnamurti; são muito bons e esclarecedores. Como disse Jesus: "quem puder compreender, compreenda!" e o Zen: "se vc compreender, as coisas são como são; se vc não compreender, as coisas são como são!".
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É verdade, amigo Coronel: "Quem tiver ouvidos de ouvir que oiça", que compreenda tudo num instante. A verdade, o facto, sem fugas, sem medos, sem ilusões.

Filipa Matos:
Não gosto do termo "meditar" para ilustrar este estado de "Ser" nem tampouco dos termos "contemplação", "concentração" ou afins... "Morte" é o termo que mais se apropria no encontrar aquilo que "É"... tudo o que não é Morte é Vida... e a Vida é a "Mente".

Amigo Taprobana, onde há meditação não há aquele que escolhe. A meditação é a desidentificação com as sensações, com os desejos, com os pensamentos. A "Morte" é o fim daquele que escolhe, mas como aquele que escolhe é uma invenção do pensamento, é falso, é uma ilusão.

Oi gente!

Eu medito sentada numa almofada, mas sei que há vários métodos. De acordo com o que li, da amiga Filipa Matos, não é necessário sentar-se para meditar então?  ::)

Beijinhos de luz  :-*

A meditação é o estado do ser natural, amiga Luiza. A meditação é olhar para as coisas como se nunca tivessem sido vistas, com espanto, sem pensamentos...

Bom dia.

Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Taprobana em 13 de Dezembro de 2012, 22:47
Filipa... eu não falo da Morte no sentido filosófico... falo da Morte no sentido absoluto.
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 13 de Dezembro de 2012, 22:54


"É absolutamente necessário que tenhamos liberdade do "eu" para que a coisa real ocorra. Porém, o pensamento é demasiado astuto e extraordinariamente subtil nas suas atividades, e a menos que estejamos tremendamente despertos e destituídos de escolha em meio a todas essas subtilezas e astutas buscas, a meditação torna-se uma questão de aquisição de poderes além dos meramente físicos. Todo o sentido de importância da ação do eu deve inevitavelmente conduzir á confusão e á tristeza. Eis pelo que, antes de considerardes a meditação deveis começar com a compreensão de vós mesmos, a estrutura da natureza do pensamento. De outro modo perder-vos-eis e esbanjareis as vossas energias. Portanto, para ir longe deveis começar bem perto: o primeiro passo é também o último.

Meditação não é uma coisa diferente do viver do dia a dia; não se abandonem num canto do quarto a meditar por dez minutos, para depois do ato saírem a comportarem-se como carniceiros- tanto como uma metáfora quanto uma realidade. A meditação é uma das coisas mais sérias. Podeis fazê-la durante todo o dia no escritório, ou junto da família, quando dizeis a alguém "eu amo-te" ou quando vos interessais pelos vossos filhos. Mas depois educais os vossos filhos para se tornarem soldados e para matar, para se tornarem nacionalistas e para adorarem a bandeira, de modo a entrarem nesta armadilha do mundo moderno. Se observarem tudo isso, e tomarem consciência da vossa parte em tudo isso, isso fará tudo parte da meditação.
E, se meditardes assim encontrareis nisso uma extraordinária beleza; atuareis corretamente em todas as situações mas, se não agirdes corretamente num dado momento, isso não terá importância pois sempre podereis fazê-lo uma outra vez - mas não perdereis tempo com o remorso. A meditação é parte da vida e não uma coisa diferente dela.

Temos de alterar a estrutura da sociedade, sua injustiça e moral aterradoras, as divisões que criou entre o homem, as guerras, a total falta de afeto e amor que aniquila o mundo. Se a vossa meditação for somente uma questão pessoal, uma coisa de que desfrutais pessoalmente, nesse caso não se trata de meditação. A meditação implica uma mudança completamente radical da mente e do coração mas isso só é possível quando existe esse extraordinário sentido de silêncio interior; só isso produz a mente religiosa. Essa mente conhece o sagrado.

A beleza significa sensibilidade ter um organismo sensível, o que implica regime alimentar correto e modo correto de viver. Então a mente torna-se calma e inconsistente de  modo inevitável e natural. Não podeis torná-la tranquila pois sois vós que lançais a discórdia. Vós próprios sois perturbados, inquietados, confundidos- como podereis pois tranquilizar a mente? Porém, quando entendeis o significado do silêncio, quando entendeis a confusão, o sofrimento, e se este alguma vez poderá terminar, quando entendeis o prazer, dessa compreensão sobrevém uma mente extraordinariamente silenciosa; não tendes de a procurar. Tendes de começar pelo princípio, e o primeiro passo é também o último. Isso é meditação."


Krishnamurti



Boa noite.
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 13 de Dezembro de 2012, 23:08
Filipa... eu não falo da Morte no sentido filosófico... falo da Morte no sentido absoluto.

Taprobana

O que é a "Morte no sentido absoluto"? São as transformações dos organismos, nos ciclos incessantes que são a vida ?



Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 14 de Dezembro de 2012, 20:15
Texto de Jiddu Krishnamurti


"Eu penso, que um dos nossos maiores problemas na vida, deve ser certamente, saber que nossas mentes deterioram, declinam, assim que envelhecemos ou, deterioram mesmo quando somos bem jovens, sendo especialista em determinado campo, não estando totalmente conscientes de toda a nossa complexa área da vida. Deve ser um grande problema descobrir se é realmente possível parar com essa deterioração para que a mente seja sempre fresca, jovem,  clara, decidida. E, é realmente possível terminar com este declínio? Esta noite, se me permitem, eu gostaria de entrar nisso, porque para mim, meditação é libertar a mente do conhecido.

E a questão aqui surge: é realmente possível acabar com esse processo, dessa mente, desse cérebro, assim como da mente, a entidade total, completa? E também: é possível manter a psique, o corpo, extraordinariamente vivos, alertas, com energia, etc.? Assim, isso me parece ser uma grande questão e, portanto, um grande desafio para descobrir. Agora, a investigação disto, não apenas verbalmente, mas não verbalmente, a investigação, o exame disto, é meditação. Esta palavra, a própria palavra é tão mal empregada. Existem tantos métodos de meditação, se entendemos um, entenderemos todos os sistemas e formas de meditação. Mas, a questão central, que iremos conversar juntos nesta noite é essa: se a mente pode reaver, rejuvenescer a si própria, se ela pode se tornar fresca, jovem e sem medo. O fato é que existe deterioração e se a pessoa olha para ela, e traduz essa deterioração, ou tenta transcendê-la, ou ir além dela, em termos de inclinação pessoal, temporal, etc., isso se torna um negócio muito ordinário. Mas, se você observa, como você observaria uma árvore, um por do sol, a luz na água, os contornos de uma colina azul, apenas observar isso, apenas observar o processo do que realmente está acontecendo em cada um de nós, então, nós iremos juntos. E, se você não pode fazer isso, haverá acúmulo e não seremos capazes de andar pela estrada juntos, porque estamos interessados na totalidade do processo do viver e esse processo total do viver, como se observa, está sempre criando uma imagem sobre nós mesmos e sobre os outros, imagem através da experiência, através do conflito e, estamos conscientes que existe uma imagem em cada um de nós, sobre nós mesmos? E essa imagem começa a se formar, mais e mais forte, mais e mais cristalizada então, é o fim de tudo. Assim, a pessoa está consciente disso? E se a pessoa está consciente disso, quem é a entidade que está consciente da imagem? Você entende a questão? A imagem é diferente do criador da imagem? Ou, o criar a imagem e a imagem são a mesma coisa? Porque, a menos que se entenda esse fator muito claramente, o que iremos investigar não estará claro. Eu percebo que eu tenho uma imagem sobre mim mesmo, que eu sou isso ou aquilo, que eu sou um grande homem ou um homem insignificante. Meu nome é conhecido, desconhecido, você sabe, toda a estrutura verbal e não verbal sobre si mesmo, consciente ou escondida. E, eu percebo que a imagem existe. Se realmente eu fico atento, vigilante, sei que existe essa imagem se formando o tempo todo, e o observador que está atento a essa imagem sente-se diferente da imagem, isso é o que está acontecendo. Espero que estejamos esclarecendo tudo isso! E, o observador então começa a dizer para si mesmo que esta imagem é o fator que produz deterioração, portanto, preciso destruir esta imagem afim de atingir o resultado maior, tornar a mente jovem e fresca e tudo mais. E ele luta, explica, justifica, ou acrescenta, esforça-se para mudá-la para uma imagem melhor. É muito importante entender que o esforço, a luta, em diferentes formas, tanto fisicamente, como psicologicamente, como competição, como lição, agressão, violência, ou um dos sentimentos acumulados, etc., é um dos fatores da deterioração. Assim, quando a pessoa percebe que o observador é o criador da imagem, então todo o nosso processo de pensar passa por uma tremenda mudança. E essa imagem é o conhecido. Assim, enquanto o cérebro, enquanto a mente toda, na qual estão reunidos os cérebro e o corpo, a mente toda, funciona dentro do campo da imagem, que é o conhecido, no qual a pessoa pode estar consciente ou não, neste campo se encontra o fator de deterioração. Certo? Por favor, não aceite isso como uma idéia que você vai refletir quando você for para casa — você não irá refletir de qualquer jeito — mas aqui estamos fazendo isso, considerando a coisa juntos, portanto, você deve fazê-lo agora, não quando você vai para casa e diz: "Bem, eu tomei nota e entendi isso, eu refletirei sobre isso". Não tome nota porque isso não ajuda de forma alguma.

Assim, surge a questão: é possível esvaziar a mente do conhecido?  Você entende? Estou sendo claro? A pessoa deve ter perguntado esta questão vagamente ou com um propósito, o que ela sofre, tem ansiedades, se é possível ir além; ou a pessoa tem várias indicação sobre isso, agora estamos perguntando isso, estamos perguntado isso como uma questão que precisa ser respondida, como um desafio que precisa ser respondido. E este desafio não é um desafio externo, mas um desafio interno, psicologicamente. E vamos descobrir se é possível esvaziar a mente do conhecido; este esvaziar da mente é meditação. E devemos entrar nesta questão da meditação, quero dizer, explicar isso um pouco. Todo povo asiático, está condicionado por esta palavra. As ditas pessoas religiosas sérias estão condicionadas por esta palavra, porque através da meditação elas esperam encontrar algo além da mera existência diária. E, para encontra isso, eles tem vários sistemas, muito, muito sutis ou muito grosseiros como o "Zen" e também este chamado sistema meditativo, existe concentração, fixar a mente numa idéia, em um pensamento em si, etc., e também as várias formas de estimulação, forçar a si mesmo estimular o seu ego e isso é para expandir a consciência, mais e mais, através da vontade, do esforço, da concentração, através da determinação de forçar, forçar, forçar, e, ao estender dessa consciência espera-se chegar num estado diferente, ou a uma diluição diferente, ou atingir aquele ponto que a mente consciente não pode atingir. Ou a pessoa toma muitas, muitas drogas, incluindo a última, o LSD, etc., que dá — por um momento — uma tremenda estimulação a todo sistema e, neste estado, experimenta-se coisas extraordinárias, coisas extraordinárias através de estimulação, através de concentração, através de disciplina, através de passar fome, jejuar. Se a pessoa jejua por alguns dias ela tem obviamente coisas peculiares que lhe acontecem e a pessoa toma drogas e isso lhe dá num momento, torna o corpo extraordinariamente sensível, e você vê cores das mais extraordinárias que você nunca tinha visto antes. Você vê tudo tão claramente que não existe espaço entre você e essa coisa que você vê. Isso acontece em várias formas por todo o mundo. A repetição das palavras, como fazem os católicos, essas orações tolas que tornam a mente um pouco calma, quieta, obviamente é um truque. Se você fica repetindo, repetindo, repetindo, você se torna tão embotado que obviamente você vai dormir e você pensa que isso é uma mente muito quieta. Mas, isso não é meditação. Assim, a pessoa põe de lado tudo isso, — mesmo que estejamos comprometidos com isso —, podemos jogar pela janela tudo isso. E, enquanto você está escutando, espero que você vá jogar isso fora, porque vamos entrar em algo bem mais profundo que essas invenções. Podemos colocar isso tudo de lado, porque, quanto mais se pratica uma disciplina mais a mente se torna embotada, mecânica, e esse processo mecanizante, rotineiro, torna a mente de alguma forma quieta, mas não é a quietude de uma tremenda energia, entendimento. Então, podemos continuar a investigar se é realmente possível libertar a mente do conhecido, não apenas o conhecido de mil anos, mas também o de ontem, que é a memória, o que não significa que eu esqueço o caminho para casa onde moro, ou a tecnologia. Isso obviamente a pessoa deve ter, isso é essencial, se não nós não podemos viver. Estamos falando de coisas a um nível mais profundo, o nível profundo onde a imagem está sempre ativa. A imagem, que é o conhecido está funcionando o tempo todo e se essa imagem e o criador da imagem — que é o observador — se é possível esvaziar a mente disso e, o esvaziar do conhecido é meditação. Eu só posso entender você quando eu não tenho nenhuma imagem sobre você. Mas, se a nossa é uma relação amigável, ou marido e mulher, e tudo mais, tem uma imagem, e a imagem que eu tenho e que você tem sobre mim, estas imagens tem relacionamento e todo nosso relacionamento é baseado nisso. A pessoa vê muito claramente que somente quando a imagem não interfere, — imagem como conhecimento, pensamento, emoção, etc. — não interfere, é que eu posso olhar, ouvir, entender. Isso aconteceu com todos nós, quando de repente, você discute, argumenta, mostra, etc., de repente, sua mente se torna quieta e você vê, você diz: "Por Deus! Eu entendi!" Este entendimento é uma ação, não é uma idéia, certo?"


Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 14 de Dezembro de 2012, 21:26

Texto de Krishnamurti


Assim, existe entendimento, ação, só que ação num sentido diferente da ação que nós conhecemos, que é a ação da imagem, do conhecido. Estamos falando de um entendimento que é uma ação quando a mente está quieta completamente. Nela, o entendimento, como ação, acontece. Assim, existe entendimento e ação, apenas quando a mente está completamente quieta — e essa mente nova, quieta não é induzida por qualquer disciplina, por qualquer esforço — e a meditação então é, a que a pessoa pode fazer quando está sentada num ônibus ou andando pela rua, lavando louça, ou sabe Deus o que mais. E meditação não tem nada a ver com respiração e tudo isso. Não há nada misterioso sobre isso; o mistério da Vida está além de tudo isso, além da imagem, além do esforço, além da atividade centralizada, egocêntrica, subjetiva, auto-centrada. Existe um vasto campo de algo que nunca pode ser encontrado através do conhecido. E o esvaziar da mente só pode acontecer, não verbalmente, só quando não existe observador como o observado. Tudo isso exige uma tremenda atenção, percepção, uma percepção que não é concentração, apenas observar sem escolher, quero dizer, escolha acontece apenas quando existe confusão, não quando existe claridade. Assim, a percepção acontece apenas quando não existe escolha ou quando você está consciente de todas as escolhas conflitantes, desejos conflitantes, as tensões, apenas observar todo esse movimento de contradições e sabendo que o observador é o observado e, portanto, nesse processo, não existe escolha nenhuma, mas apenas observar o que é. E isso é inteiramente diferente de concentração. E essa observação traz uma qualidade de atenção na qual não existe nem o observador e nem o observado e este esvaziar da mente, com todas as experiências, que ela teve, é meditação. E só pode ser esvaziado todas as experiências quando cada experiência, a pessoa se torna consciente dela, vê todo conteúdo dela, sem escolha e, portanto, ela passa, portanto não existe marca dessa experiência, como uma ferida, como algo a recordar, para reconhecer e guardar. Assim, a meditação é um processo muito árduo, não é apenas, uma coisa a ser feita por velhas senhoras ou homens que não têm nada para fazer. Isso exige uma tremenda atenção o tempo todo. Então, você descobrirá, por você mesmo, — não, não é uma questão de experiência, não existe o contar — então, quando a mente está completamente quieta, sem qualquer forma de sugestão, como o hipnotismo, ou seguir um método, quando a mente está completamente quieta, então existe uma qualidade, uma dimensão diferente, que o pensamento não tem possibilidade de imaginar ou experimentar. Então a pessoa está além de toda busca, porque não existe procura — uma mente que está cheia de luz não procura — é só a mente, a mente embotada, confusa, que está sempre procurando, esperando encontrar. O que ela encontra é o resultado de sua própria confusão.

Veja por favor, se você entende uma questão, você entendeu todas as questões. E assim, o que é importante nisso tudo, não perguntar questões, ou respostas, ou as explicações, é que as explicações não têm valor algum. O que tem valor é como você pergunta a questão e o que você está esperando desta questão. Se você está atento ao que você está perguntando, você verá esta questão sem nenhuma dificuldade, portanto, não existe professor algum. Você mesmo é tudo — tanto o professor, o aluno — você sabe, tudo. Isso lhe dá uma liberdade tremenda para investigar.




Boa noite.
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Mirina em 14 de Dezembro de 2012, 23:11
Boa noite Filipa,

coincidentemente lendo o livro "Do Xamanismo a Ciência - Uma história da Meditação" de Willard Johnson, professor de estudos religiosos da Universidade Estadual de San Diego, Califórnia, extraio o seguinte trecho:(pág 14)

"A meditação é a técnica que produz deliberadamente formas de êxtase, estados experimentais de consciência que podem ser usados para aprendermos a respeito de nós mesmos e do mundo para desenvolver nosso potencial mental e ampliar as suas possibilidades."

Neste caso, considerando-se meditação como êxtase, podemos concluir cientificamente que neste estado de consciência recebemos uma descarga maior de serotonina no cérebro, e mantemos um metabolismo físico num nível muito baixo de batimentos cardíacos e frequência respiratória.   Tal estado é semelhante em situações de oração, no orgasmo, nas experiências de quase morte, entre outros.

Nesta obra o autor descreve as oito fases da "Doma do Boi" e avalia os escritos antigos de yogues e mestres zen budistas em confronto com descrições científicas destes estados de transe, inclusive em estudos psicológicos e neurológicos.  A obra foi escrita em 1982, e após este período a ciência já confirmou através de exames e análises muitas das hipóteses levantadas pelo autor.

Da mesma forma na página 189 o autor elucida uma certa confusão nas traduções dos antigos relatos sobre o anatman("não eu") conceituando o ego como o "eu ansioso" e à nossa percepção instrumental das coisas, diferente da individualidade total, adquirida pela consciência expandida que consegue entender o mundo sem a necessidade dos cinco sentidos, que durante o êxtase se encontram entorpecidos, como muito bem o taprobana citou, numa "morte" para o mundo e as sensações materiais advindas dele, interagindo inteiramente no campo espiritual, através do conhecimento de sua natureza interior.

Outro contraponto levantado pelo autor é o fato de que a meditação e o extase por si só não tem como proposta primordial nenhuma finalidade objetiva.  Trata-se apenas de um estado diferenciado de consciencia, sendo que o individuo que se propõem a entrar nestes estados meditativos é que deve ter claramente definidos qual a finalidade que procura, para que possa extrair daí o maior numero de benefícios.  Nesta linha de pensamento o simples ato de meditar não garante a iluminação do ponto de vista transcedente, mas a busca do individuo é que vai determinar o resultado final.   O bem estar, a diminuição da ansiedade, a sensação de felicidade advinda do extase se devem fisiologicamente a descarga de serotonina produzida no cérebro, resta-nos encontrarmos as aplicações práticas que podemos desenvolver nestes estados de transe meditativo.  Esta a proposta central de sua obra.

Abraços de luz,

Mirina

Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Taprobana em 15 de Dezembro de 2012, 00:44
Filipa... eu não falo da Morte no sentido filosófico... falo da Morte no sentido absoluto.

Taprobana

O que é a "Morte no sentido absoluto"? São as transformações dos organismos, nos ciclos incessantes que são a vida ?




Não Filipa... é a interropção do ciclo da vida... a morte é a ausencia de vida.
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Mirina em 15 de Dezembro de 2012, 00:58
Resumidamente,

a sequencia de oito imagens da "doma do boi"  tem uma significação bem interessante.
A grosso modo inicialmente o menino tem a intuição do boi, e o boi a intuição do menino.
O menino persegue o boi que foge da visão do menino.
O menino só vislumbra suas pegadas e o segue na ânsia de encontrá-lo e dominá-lo e conduzí-lo novamente à casa.

O autor (Willard Johnson) ressalta em dado momento de sua obra que "casa" em textos antigos assume a significação de consciência, natureza interior.

Nas figuras subsequentes, o menino alcança o boi, o subjuga, e, lentamente o domina, tornando-se um e outro atores de um mesmo movimento que termina quando ambos conseguem se distanciar de sua persona e tornam-se um só, unidos ao todo do universo.

Sob a interpretação do autor, o menino é a consciência espiritual, e o boi, a persona encarnada no envoltório físico.
Após a reencarnação o indivíduo aprende a se relacionar com o corpo fisico, condicionado pelo aprendizado adaptativo que recebe de seus pais.  Nesta evolução cria padrões comportamentais que se solidificam e são disparados durante toda a vida em situações de streess cujo gatilho são as sensações que recebemos de nossos cinco sentidos.
O amadurecimento ocorre, quando passamos a nos distanciar das sensações produzidas pelos nossos cinco sentidos físicos(visão, olfato, audição, tato e emoção) e deixamos que emoções e sensações de raiva, desejo, prazer, e todas as coisas boas e más passem como " torrentes".  Tal atitude não significa não senti-las, ao contrario, devemos senti-las, entende-las e libertá-las, sem nos apegar a estas sensações-emoções (não alimentar mágoas, ódios...)
Neste ponto é que conseguimos dominar o ego,  passamos a elaborar as situações do dia a dia sem o streess dos gatilhos pré-determinados socialmente, e, somente pela impressão recebida pelo espírito (estado de consciência ampliada),  nos desvencilhamos de expectativas e sofrimentos, apenas observamos como reagimos a elas, em nossa natureza intima e finalmente encontramos o caminho da transformação, liberto dos condicionamentos, das ansiedades e das frustrações.
Apenas experienciando cada minuto presente, e aprendendo a modificar nossas reações e emoções construindo um caminho mais sereno e sábio.

É neste ponto que unimos a natureza do menino à natureza do boi, ou seja, consciência espiritual e persona encarnada, portanto o objetivo final da meditação deve ser o domínio do ego pela consciência espiritual, e neste ponto a aplicação do conhecimento e sabedoria adquiridos nos estados meditativos, ao dia a dia.  Sem este movimento caminhamos para o vazio.

Ilustra o autor sua hipótese citando que Jesus Cristo, Buda, Maomé desenvolveram sua visão espiritual entre os trinta e quarenta anos, após a imersão no mundo das responsabilidades adultas.

Logo a meditação deve buscar um objetivo específico, não de abandono ou esquecimento, mas de dominação das paixões e desejos materiais. A doutrina Espirita também nos exorta ao domínio do corpo, sendo que do contrário, seremos como cavalos em disparada, sem direção.

Assim, a meditação não é um processo de melhoramento do mundo, mas intrinsecamente relacionado com a transformação íntima individual de todo ser humano.

Mirina
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Luiza Gabriella em 15 de Dezembro de 2012, 01:11
Oi gente!


O que é meditação? Meditação é o poder que nos torna capazes de resistir a tudo. A Natureza pode nos dizer: "Olhe, que coisa maravilhosa!" E eu não olho. Então, ela diz: "Que belo aroma! Sinta-o!" Eu digo ao meu nariz: "Não o cheire" e o nariz me obedece. "Olhos, não vejam!".

A Natureza faz uma coisa terrível - mata um de meus filhos e diz: "Agora, patife, sente-se e chore! Caia no buraco! Afunde!" Eu respondo: "Não farei isso." Eu me ergo. Devo libertar-me. Experimente fazer isso algumas vezes. Na meditação, por um momento, você pode modificar seu modo de ser. Agora, se você tem aquele poder dentro de si mesmo, não seria isto o céu, a liberdade? Este é o poder da meditação.

Como alcançá-lo? De doze maneiras diferentes. Cada temperamento tem sua própria maneira. Mas este é o princípio geral: domine sua mente. A mente é como um lago e cada pedra que nele cai provoca ondas. Essas ondas não permitem que nos vejamos como somos. A lua cheia se reflete sobre a água do lago, mas a superfície está tão agitada que não vemos claramente seu reflexo. Fique calmo. Não deixe sua natureza provocar as ondas.

Fique quieto e então, passado certo tempo, ela desistirá. E, então, saberemos o que realmente somos. Deus lá está presente, mas a mente é tão agitada, sempre a perseguir os sentidos... Você isola os sentidos e, mesmo assim, sua mente continua a girar, a rodar. Num dado momento sinto-me bem e resolvo meditar em Deus e então minha mente viaja para Londres, num minuto. E se consigo retirá-la de lá, ela voa para Nova York, para pensar nas coisas que fiz lá, no passado. Essas ondas devem ser detidas pelo poder da meditação.
(Vivekananda - Meditação e Métodos).

Beijinhos de Luz  :-*

Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Mirina em 15 de Dezembro de 2012, 01:59
Brilhante relato Luiza,

na meditação a ciência já provou, aumentamos as áreas ativas do cérebro, estimulamos o hemisfério direito, o da intuição.  Então, quando nos referimos ao silenciar da mente estamos contradizendo o que neurofisiologicamente ocorre?

O segredo é dominar o pensamento, aquietá-lo do turbilhão de sensações cotidianas e relacionadas ao mundo material, e remetê-los a Deus, ao universo.  Os xamãs utilizam seu "lugar de poder", imagens ou locais onde nos sentimos plenos, fomos invadidos pela luz divina.
Toda vez que nos sentirmos inquietos, raivosos, tristes, focarmos nossos pensamentos nesta imagem, e desta forma, nos distanciamos das sensações negativas, e nos inundamos de energia positiva. Minha experiencia pessoal atesta.

Em momentos de raiva tenho utilizado técnicas de respiração, e, logo nos primeiros movimentos posso sentir a dor que se desprende do meu peito pela energia negativa acumulada pela raiva, para logo depois sentir o relaxamento de toda minha musculatura, e o serenamento dos pensamentos.

Aqueles que se dedicam ao exercicio da meditação sabem que a respiração é movimento essencial para atingir estados de consciência ampliados, ritmo e sons também facilitam o alcance dos estados de extase.

Mirina
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Luiza Gabriella em 15 de Dezembro de 2012, 02:51
Oi Mirina!

Tudo isso que você falou é importante. Mas ainda assim há alguns cuidados a serem tomados.

Meditação não é algo a ser feito para melhorar a nossa vida no dia-a-dia. Se pensarmos assim, é como se estivéssemos nos valendo de alguma terapia alternativa (ou holítisca, virou moda agora, terapia holística) para nos beneficiar materialmente.

Claro, a meditação nos proporciona momentos de relaxamento e quietude, mas o seu principal objetivo é que não estejamos distraídos com as aparências da vida material. Ou nós servimos ao "sistema" - e aí somos escravos - ou então não o servimos e nos tornamos livres.

A meditação é que nos dá o poder de resistir a todas ameaças que advém quando finalmente resolvemos "afrontar", ou parar de seguir o "sistema" (= convenções e padrões sociais).

Bom, é isso. É o que eu penso pelo menos.

Beijinhos de luz,

Boa noite

Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Mirina em 15 de Dezembro de 2012, 03:05
Luiza,

a Doutrina Espirita nos alerta, que não há mérito algum em viver em estados de extase, ou mesmo recluso do mundo material.  A virtude está em compartilhar da viagem que é a vida, sabendo utilizar as ferramentas que nosso corpo e nossa mente possuem para alcançar a vitória em cada nova encarnação.

Trazer as técnicas de meditação para nossa vida cotidiana, e saber utilizá-las quando necessário  faz parte de nosso amadurecimento e transformação, e esta é a verdadeira finalidade de toda esta técnica milenar.  Nos tornamos mais serenos, mais sábios e mais solidários a medida que nos distanciamos de emoções puramente materiais e as transmutamos em energia de luz, por meio da ampliação da consciência de nossa verdadeira natureza e missão dentro do universo ao qual habitamos. 

Abraços de luz,
Mirina
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Luiza Gabriella em 15 de Dezembro de 2012, 05:07
Chuang Tzu, o grande mestre taoísta chinês, tinha o hábito de contar a seus alunos a seguinte parábola: suponhamos que um homem viaje num bote e, de repente, veja outro bote vindo em sua direção. Reagindo irritado e raivoso, ele grita e gesticula furioso para o timoneiro do outro bote, para que mude de curso. Mas, aproximando-se mais o outro bote, ele vê que não há ninguém nele. A raiva se dissipa e nesse momento ele mesmo se afasta do bote vazio.

O que acontecerá, perguntava Chuang Tzu, se nos aproximarmos dos outros a partir do vazio do coração, sem idéias preconcebidas? Nesse vazio sem predisposições, o conjunto de probabilidades de escolha é ampliada para a dimensão criativa. A onda quântica de nossa mente expande-se e está pronta para aceitar novas respostas: eu não sou tangido pelo desejo para o amor, pela necessidade de segurança, pela imagem, mas sou livre amar sem nenhuma razão. E é esse amor incondicional que vence nossa reatividade
.

Beijinhos a todos!

Luiza


Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Zé Ninguém em 15 de Dezembro de 2012, 09:59
Há um tempo atrás fiz u curso de meditação transcendental e ,entusiasmada pelo o que ouvi e vivi, escrevi um texto e postei em outro grupo de cunho espiritualista do qual participo.
Como o texto tem a ver com o tema proposto, compartilho:

" A Importância da Meditação"

A meditação é uma técnica que visa serenar os pensamentos, removendo nosso lixo mental para que possamos transcender entrando em contato com o Não Manifesto.

Ela diminui o stress e aumenta a concentração e a lucidez para enfrentar os desafios da vida possibilitando que façamos escolhas mais acertadas e torna nosso estado de espírito mais sereno.

Apesar da experiência meditativa ser muito prazerosa e gratificante não meditamos apenas pela experiência em si, ou melhor, não se medita apenas pela meditação mas pelos benefícios que a prática proporciona no transcorrer da nossa vida, do nosso dia-a-dia.Os benefícios da meditação se estendem além do momento meditativo se prolongando durante nossa rotina diária.

Com o tempo e  prática o mesmo estado de espírito sereno e tranquilo que predomina na meditação passa a nos acompanhar mesmo quando não estamos meditando, mas para se obter estes efeitos mais duradouros é necessário disciplina e constância pois os efeitos da meditação são cumulativos.

Algumas pessoas usam a meditação apenas em momentos específicos, diante de uma grande tensão para relaxar. Não está errado e também faz muito bem, mas os maiores benefícios da prática são obtidos com a constância e habitualidade.

Os grande Iogues meditam por horas,(alguns até mesmo por mais de 24 horas) há décadas para atingir o estado de iluminação.

Atualmente existem várias práticas meditativas adaptadas ao estilo de vida ocidental que não permite que a maior parte das pessoas passe horas de seu dia meditando em razão de sue papel na sociedade e seus afazeres diários.

Muitos mestres orientais trouxeram  para o ocidente parte do seu valioso legado espiritual, dentre eles se destacam Paramahansa Yogananda e Maharishi.

Yogananda revelou ao ocidente a técnica da Krya Yoga para saber mais sobre sua história de vida recomendo a leitura da maravilhosa obra " Autobiografia de um Iogue".

Este livro foi um divisor de águas na minha vida e para mim revela-se uma das maiores fontes de espiritualidade a que tive acesso.

Maharishi , outro grande mestre indiano,  também trouxe para o ocidente uma importante ferramenta de transformação pessoal: a meditação transcendental.

Em linhas gerais existem diversas técnicas de meditação: mentalizações de lugares,  músicas, mantras, palavras, concentração na respiração, etc. Cada um busca a técnica com que mais se afiniza.

Com o tempo o aprendiz vai se aprimorando e buscando novas técnicas, deste modo não existe técnica melhor ou pior, cada uma delas tem sua função  cumprir e está dentro do estágio evolutivo de cada ser.

Uma sociedade que tem a meditação como hábito é mais compassiva e pacífica, assim a meditação se revela como um importante recurso para a harmonia social.

Existem pesquisas que relacionam a prática meditativa á redução da criminalidade e do uso de drogas.

Aproveitemos então esta abençoada ferramenta de evolução espiritual para nos conhecermos melhor, nos aproximando dos aspectos divinos que dormitam em nossa individualidade de modo a buscarmos uma convivência mais pacífica e harmoniosa."

paz e luz

Como Meditar- Parte 1
Como Meditar (1/5) (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD9mZWF0dXJlPXBsYXllcl9lbWJlZGRlZCZhbXA7dj1Vb0lJWlN2SjBidyM=)

Como Meditar-Parte 2
Como Meditar (2/5) (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD9mZWF0dXJlPXBsYXllcl9lbWJlZGRlZCZhbXA7dj1kR2gyUlY1ZTJQRSM=)

Como Meditar-Parte3
Como Meditar (3/5) (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD9mZWF0dXJlPXBsYXllcl9lbWJlZGRlZCZhbXA7dj1Vdk9UOGRPY2JncyM=)

Como Meditar-Parte4
Como Meditar (4/5) (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD9mZWF0dXJlPXBsYXllcl9lbWJlZGRlZCZhbXA7dj0wOFZUYnhyMDlIUSM=)

Como Meditar-Parte5
Como Meditar (5/5) (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD9mZWF0dXJlPXBsYXllcl9lbWJlZGRlZCZhbXA7dj15a01ORld2RFo1ayM=)
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 15 de Dezembro de 2012, 20:02
O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

Fernando Pessoa


Boa noite a todos
.

Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 15 de Dezembro de 2012, 21:02
Quando se percebe a verdade integral de uma coisa; ao vermos a verdade de que o conflito só pode cessar quando não há divisão entre o observador e a coisa observada; quando se experimenta realmente este estado, sem nos socorrermos da memória nem dos dias passados, então está terminado o conflito. Então seguis fatos e não estais tolhido pela divisão que a mente faz entre o observador e o fato.

O fato é: sou estúpido, estou cansado, preso na monótona rotina da existência diária. Isto é um fato, mas não gosto dele; por isso, há divisão. Detesto o que estou fazendo, e põe-se, assim, em movimento o mecanismo do conflito, com todas as defesas e fugas e sofrimentos que ocasiona. Mas o fato é que minha vida é feia, superficial, vazia, cruel, escrava dos hábitos.

Ora, se a mente não criar esse senso de divisão e, por conseguinte, conflito, pode então seguir simplesmente o fato; seguir toda a rotina, todos os hábitos; seguir tudo, sem procurar alterar nada? Isto é percepção, no sentido em que estamos empregando a palavra. E vereis que o fato nunca é estático, nunca se acha imóvel. É uma coisa que se move, uma coisa viva; mas a mente preferiria torná-lo estático e daí é que vem o conflito. Eu vos amo, desejo apegar-me a vós, possuir-vos; mas vós sois uma coisa viva, que se modifica, com existência própria; por isso, existe conflito e todos os sofrimentos dele decorrentes. E pode a mente ver o fato e segui-lo? Isso, em verdade, significa uma mente muito ativa, muito viva, muito intensa, exteriormente, e ao mesmo tempo muito tranqüila interiormente. A mente que no interior não está de todo quieta não pode seguir um fato, pois este é muito rápido. Só a mente interiormente tranqüila é capaz desse “processo”, capaz de seguir continuamente cada fato que se apresenta, sem dizer que o fato devia ser “deste jeito” ou “daquele jeito”, sem criar separação, conflito, sofrimento: só essa mente pode cortar todas as raízes do sofrimento.

Podeis ver, então, se alcançastes este ponto — não no espaço e no tempo, mas na compreensão — que a mente entra num estado em que se vê completamente só.

Como sabeis, para a maioria de nós “estar só” é uma coisa terrível. Não me refiro aqui solidão, que é coisa diferente. Refiro-me ao “estar só”: estar só com alguém ou com o mundo: estar só com um fato. Só, no sentido de que a mente não está sujeita a influências, já não se acha presa ao passado, nem tem futuro, nem busca, nem teme: está só. O que é puro está só; a mente que está só conhece o amor, porque já não se enreda nos problemas do conflito, do sofrimento e do preenchimento. Só essa mente é uma mente nova, uma mente religiosa. E, talvez, só ela pode curar as feridas deste mundo caótico.



Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 16 de Dezembro de 2012, 00:38
1º diálogo em 11/06/1983 entre Krishnamurti & David Bohm (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PUs2a2R3SkRwRk5rIw==)

O que é importante na meditação é a qualidade da mente e do coração. Não é o que você consegue, ou o que você diz que alcança, mas sim a qualidade de uma mente que é inocente e vulnerável. Através da negação existe o estado positivo. Apenas para se recolher, ou para viver interiormente, a experiência, nega a pureza da meditação. A meditação não é um meio para um fim. É tanto o meio e como o fim. A mente nunca pode ser inocente através da experiência. É a negação da experiência que causa esse estado positivo da inocência que não pode ser cultivado pelo pensamento. O pensamento nunca é inocente. Meditação é o fim do pensamento, não pelo meditador, porque o meditador é a meditação. Se não há nenhuma meditação, então você é como um homem cego em um mundo de grande beleza, luz e cor. Passeie pela praia e deixe essa qualidade meditativa vir sobre você. Se isso acontecer, não persiga isso. O que você perseguir será a memória do que foi – e o que foi é a morte do que é. E quando você passear entre as colinas deixe tudo falar da beleza e da dor da vida, de modo que você desperte para seu próprio sofrimento, e o fim dele. Meditação é a raiz, a planta, a flor e o fruto. Estas são apenas palavras que dividem a fruta, a flor, a planta e a raiz. Nesta separação não existe nenhum benefício: virtude é a percepção total.
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 16 de Dezembro de 2012, 17:02
O tempo e o sofrimento

O homem vive do tempo. A invenção do futuro se tornou seu favorito jogo de fuga. Pensamos que as mudanças em nós mesmos só podem ser efetuadas no tempo, que a ordem só pode ser estabelecida em nós mesmos pouco a pouco, aumentada dia por dia. Mas, o tempo não traz a ordem nem a paz e, portanto, temos de deixar de pensar em termos de gradualidade. Isso significa que não há um amanhã em que viveremos em paz. Temos de alcançar a ordem imediatamente.

Quando se apresenta um perigo real, o tempo desaparece, não é verdade? A ação é imediata. Mas, nós não percebemos o perigo existente em muitos dos nossos problemas e, por conseguinte, inventamos o tempo como um meio de superá-los. O tempo é um embusteiro, porquanto nada faz para ajudar-nos a promover uma mudança em nós mesmos. O tempo é um movimento que o homem dividiu em passado, presente e futuro. E, enquanto fizer essa divisão, o homem viverá sempre em conflito.

O aprender depende do tempo? Após tantos milhares de anos, ainda não aprendemos que existe uma maneira de vida melhor do que odiarmos e matarmos uns aos outros. Muito importa compreender o problema do tempo, se desejamos uma solução para esta vida que cada um de nós contribuiu para tornar tão monstruosa e sem significação como é.

A primeira coisa, pois, que se deve compreender é que só podemos olhar o tempo com aquele vigor e aquela inocência da mente, que já estivemos considerando. Vemo-nos confusos a respeito de nossos numerosos problemas, e perdidos no meio desta confusão. Ora, quando uma pessoa se perde numa floresta, qual a primeira coisa que faz? Pára e olha em torno de si. Mas nós, quanto mais nos vemos confusos e perdidos na vida, tanto mais corremos em todos os sentidos, buscando, indagando, rogando. A primeira coisa que deveis fazer, se me permitis sugeri-lo, é fazer alto, interiormente. E, quando parais, interiormente, psicologicamente, vossa mente se torna muito tranqüila e clara. Podeis então considerar verdadeiramente a questão do tempo.

Os problemas só existem no tempo, isto é, quando nos encontramos com um fato de maneira incompleta. Esse encontro incompleto com o fato cria o problema. Quando enfrentamos um desafio parcial, fragmentariamente, ou dele tentamos fugir — isto é, quando o enfrentamos com atenção incompleta — criamos um problema. E o problema continua existente enquanto continuarmos a dar-lhe incompleta atenção, enquanto esperarmos resolvê-lo um dia destes.

Sabeis o que é o tempo? — Não o tempo medido pelo relógio, o tempo cronológico, porém o tempo psicológico? É o intervalo entre a idéia e a ação. Uma idéia visa, naturalmente, à autoproteção: a idéia de estar em segurança. A ação é sempre imediata; não é do passado nem do futuro; o agir deve estar sempre no presente; mas a ação é tão perigosa, tão incerta, que preferimos ajustar-nos a uma idéia que nos promete uma certa segurança.

Olhai isso em vós mesmo. Tendes uma idéia do que é certo ou errado, ou um conceito ideológico relativo a vós mesmo e à sociedade, e de acordo com essa idéia ides agir. A ação, por conseguinte, ajusta-se àquela idéia, aproxima-se da idéia, e por essa razão existe sempre conflito. Há a idéia, o intervalo, e a ação. Nesse intervalo encontra-se todo o campo do tempo. Esse intervalo é, essencialmente, pensamento. Quando pensais que amanhã sereis feliz, tendes então uma imagem de vós mesmo a alcançar um certo resultado no tempo. O pensamento, pela observação, pelo desejo, e pela continuidade desse desejo, sustentada por mais pensamento, diz: "Amanhã serei feliz; amanhã terei sucesso; amanhã o mundo será um belo lugar." Dessa maneira, o pensamento cria esse intervalo que é o tempo.

Agora, perguntamos: Pode-se deter o tempo? Podemos viver tão completamente que não haja um amanhã para o pensamento pensar nele? Pois o tempo é sofrimento. Isto é, ontem ou há um milhar de "ontens", amastes ou tínheis um companheiro que se foi, e essa memória perdura e ficais pensando naquele prazer ou naquela dor; estais a olhar para trás e a desejar, a esperar, a lamentar, e, assim, o pensamento, ruminando continuamente aquilo, gera essa coisa que se chama sofrimento e dá continuidade ao tempo.

Enquanto existir esse intervalo de tempo, gerado pelo pensamento, tem de haver sofrimento, tem de haver a continuidade do medo. Assim, perguntamos a nós mesmos: Pode esse intervalo terminar? Se disserdes: "Terminará ele algum dia?", isso então já é uma idéia, uma coisa que desejais conseguir e, por conseguinte, tendes um intervalo e de novo vos vedes na armadilha.


Boa tarde a todos.

Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 17 de Dezembro de 2012, 00:41
Pensamos que o viver está sempre no presente e que o morrer é algo que nos aguarda num tempo distante. Mas nunca indagamos se essa batalha da vida diária é de fato viver. Queremos saber a verdade a respeito da reencarnação, desejamos provas da sobrevivência da alma, prestamos ouvidos às asserções dos clarividentes e às conclusões das pesquisas psíquicas, porém nunca perguntamos, nunca perguntamos como viver — viver com deleite, com encantamento, com a beleza, todos os dias. Aceitamos a vida tal qual é, com toda a sua agonia e desespero, com ela nos acostumamos, e pensamos na morte como uma coisa que devemos diligentemente evitar. Mas, a morte se assemelha extraordinariamente à vida, quando sabemos viver. Não podeis viver sem morrer. Isso não é um paradoxo intelectual. Para se viver completamente, totalmente, de modo que cada dia seja uma nova beleza, tem-se de morrer para todas as coisas de ontem, pois, de contrário, viveremos mecanicamente, e uma mente mecânica jamais saberá o que é o amor ou o que é a liberdade.

Em geral tememos a morte, porque não sabemos o que significa viver. Não sabemos viver, e por isso não sabemos morrer. Enquanto tivermos medo da vida, teremos medo da morte. O homem que não teme a vida não teme a insegurança, porque compreende que, interiormente, psicologicamente, não existe segurança nenhuma. Quando não há segurança, há um movimento infinito, e então a vida e a morte são uma só coisa. O homem que vive sem conflito, que vive com a beleza e o amor, não teme a morte, porque amar é morrer.

Se morreis para tudo o que conheceis, inclusive vossa família, vossa memória, tudo o que sentistes, a morte é então uma purificação, um processo de rejuvenescimento; traz então a morte a inocência, e só os inocentes são apaixonados, e não aqueles que creem e que desejam descobrir o que acontece após a morte.

Para descobrirdes o que realmente acontece quando se morre, tendes de morrer. Isso não é pilhéria. Tendes de morrer, não fisicamente, mas psicologicamente, interiormente, morrer para as coisas que vos são caras e para as coisas que vos amarguram. Se morrestes para cada um dos vossos prazeres, tanto os insignificantes como os mais importantes, sem nenhuma compulsão ou discussão, então sabereis o que significa morrer. Morrer é ter uma mente completamente vazia de si mesma, vazia de seus diários anseios, prazeres e agonias. A morte é uma renovação, uma mutação, em que o pensamento não funciona, porque o pensamento é coisa velha. Quando há a morte, há uma coisa totalmente nova. Estar livre do conhecimento é morrer; e, então, estais vivendo!


Boa noite a todos.
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 17 de Dezembro de 2012, 12:02
A Busca do homem

Através das idades veio o homem buscando uma certa coisa além de si próprio, além do bem-estar material — uma coisa que se pode chamar verdade, Deus ou realidade, um estado atemporal — algo que não possa ser perturbado pelas circunstâncias, pelo pensamento ou pela corrupção humana.

O homem sempre indagou: Qual a finalidade de tudo isto? Tem a vida alguma significação? Vendo a enorme confusão reinante na vida, as brutalidades, as revoltas, as guerras, as intermináveis divisões dá religião, da ideologia, da nacionalidade, pergunta o homem, com um profundo sentimento de frustração, o que se deve fazer, o que é isso que se chama viver e se alguma coisa existe além de seus limites.

E, não podendo encontrar essa coisa sem nome e de mil nomes que sempre buscou, o homem cultivou a fé — fé num salvador ou num ideal, a fé que invariavelmente gera a violência.

Nesta batalha constante que chamamos "viver", procuramos estabelecer um código de conduta, conforme a sociedade em que somos criados, quer seja uma sociedade comunista, quer uma pretensa sociedade livre; aceitamos um padrão de comportamento como parte de nossa tradição hinduísta, muçulmana, cristã ou outra. Esperamos que alguém nos diga o que é conduta justa ou injusta, pensamento correto ou incorreto e, pela observância desse padrão, nossa conduta e nosso pensar se tornam mecânicos, nossas reações, automáticas. Pode-se observar isso muito facilmente em nós mesmos.

Durante séculos fomos amparados por nossos instrutores, nossas autoridades, nossos livros, nossos santos. Pedimos: "Dizei-me tudo; mostrai-me o que existe além dos montes, das montanhas e da Terra" — e satisfazemo-nos com suas descrições, quer dizer, vivemos de palavras, e nossas vidas são superficiais e vazias. Não somos originais. Temos vivido das coisas que nos tem dito, ou guiados por nossas inclinações, nossas tendências, ou impelidos a aceitar pelas circunstâncias e o ambiente. Somos o resultado de toda espécie de influências e em nós nada existe de novo, nada descoberto por nós mesmos, nada original, inédito, claro.

Consoante a história teológica garantem-nos os guias religiosos que, se observarmos determinados rituais, recitarmos certas preces e versos sagrados, obedecermos a alguns padrões, refrearmos nossos desejos, controlarmos nossos pensamentos, sublimarmos nossas paixões, se nos abstivermos dos prazeres sexuais, então, após torturar suficientemente o corpo e o espírito, encontraremos uma certa coisa além desta vida desprezível. É isso o que tem feito, no decurso das idades, milhões de indivíduos ditos religiosos, quer pelo isolamento, nos desertos, nas montanhas, numa caverna, quer peregrinando de aldeia em aldeia a esmolar, quer em grupos, ingressando em mosteiros e forçando a mente a ajustar-se a padrões estabelecidos. Mas, a mente que foi torturada, subjugada, a mente que deseja fugir a toda agitação, que renunciou ao mundo exterior e se tornou embotada pela disciplina e o ajustamento — essa mente, por mais longamente que busque, o que achar será em conformidade com sua própria deformação.

Assim, para descobrir se de fato existe ou não alguma coisa além desta existência ansiosa, culpada, temerosa, competidora, parece-me necessário tomarmos um caminho completamente diferente. O caminho tradicional parte da periferia para dentro, para, através do tempo, da prática e da renúncia, atingir gradualmente aquela flor interior, aquela íntima beleza e amor — enfim, tudo fazer para nos tornarmos estreitos, vulgares e falsos; retirar as camadas uma a uma; precisar do tempo: amanhã ou na próxima vida chegaremos — e quando, afinal, atingimos o centro, não encontramos nada, porque nossa mente se tornou incapaz, embotada, insensível.

Após observar esse processo, perguntamos a nós mesmos se não haverá outro caminho totalmente diferente, isto é, se não teremos possibilidade de "explodir" do centro.

O mundo aceita e segue o caminho tradicional. A causa primária da desordem em nós existente é estarmos buscando a realidade prometida por outrem; mecanicamente seguimos todo aquele que nos garante uma vida espiritual confortável. É um fato verdadeiramente singular esse, que, embora em maioria sejamos contrários à tirania política e à ditadura, interiormente aceitamos a autoridade, a tirania de outrem, permitindo-lhe deformar a nossa mente e a nossa vida. Assim, se de todo rejeitarmos, não intelectual, porém realmente, a autoridade dita espiritual, as cerimônias, rituais e dogmas, isso significará que estamos sozinhos, em conflito com a sociedade; deixaremos de ser entes humanos respeitáveis. Ora, um ente humano respeitável nenhuma possibilidade tem de aproximar-se daquela infinita, imensurável realidade.

Começais agora por rejeitar uma coisa que é totalmente falsa — o caminho tradicional — mas, se o rejeitardes como reação, tereis criado outro padrão no qual vos vereis aprisionado como numa armadilha; se intelectualmente dizeis a vós mesmo que essa rejeição é uma idéia importante, e nada fazeis, não ireis mais longe. Se entretanto a rejeitardes por terdes compreendido quanto é estúpida "e imatura, se a rejeitais com alta inteligência, porque sois livre e sem medo, criareis muita perturbação dentro e ao redor de vós, mas vos livrareis da armadilha da respeitabilidade. Vereis então que cessou o vosso buscar. Esta é a primeira coisa que temos de aprender: não buscar. Quando buscais, agis, com efeito, como se estivésseis apenas a olhar vitrinas.


Bom dia.
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Amós Ribeiro em 17 de Dezembro de 2012, 14:42
Bom dia para todos,  meu nome é Amos Ribeiro e é uma prazer estar com vocês nesse site.

Muitos falam contra a procura das  experiencias misticas na meditação, o problema não é procurar, elas podem acontecer independente da vontade do praticante, em estado de meditação profunda podemos ter contanto com outros planos ou sentir sensações diferentes, e a meditação será sempre o que é, uma dadiva divina, um presente transcendental.     
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 18 de Dezembro de 2012, 10:57
Quando o pensamento cessa

É estranha a importância que damos à palavra impressa, aos chamados livros sagrados. Os estudiosos, como os leigos, são aparelhos que reproduzem sons gravados; eles continuam repetindo as gravações por mais que elas possam ser alteradas com freqüência. Estão interessados em conhecimento e não na experiênciação. Ele é um impedimento à experienciação. Mas é um abrigo seguro, a preservação de uns poucos; e como os ignorantes ficam impressionados com o conhecimento, o conhecedor é respeitado e reverenciado. O conhecimento é um vício, como a bebida alcoólica; ele não traz entendimento. O conhecimento pode ser ensinado, mas não a sabedoria; deve haver libertação do conhecimento para a chegada da sabedoria. O conhecimento não é moeda de compra da sabedoria; mas o homem que entrou no refúgio do conhecimento não se arrisca a sair, pois a palavra alimenta seu pensamento e ele fica gratificado com o pensar, que é um impedimento para o experienciar; e não há sabedoria sem experienciar. O conhecimento, a idéia e a crença atrapalham a sabedoria.

Uma mente ocupada não é livre, espontânea, e somente na espontaneidade pode haver descoberta. Uma mente ocupada está fechada em si mesma; é inacessível, não vulnerável, e nisso está sua segurança. O pensamento, por sua própria estrutura, é isolador; ele não pode se tornar vulnerável. O pensamento não pode ser espontâneo, ele jamais pode ser livre. O pensamento é a continuação do passado e aquilo que continua não pode ser livre. Só existe liberdade naquilo que tem fim.

A mente ocupada cria aquilo com que ela está trabalhando – pode fabricar o carro de bois ou o avião a jato. Nós podemos pensar que somos estúpidos, e somos estúpidos. Podemos pensar que somos Deus, e somos nossa própria concepção: “Eu sou Esse”.

“Mas certamente, é melhor estar ocupado com as coisas de Deus do que com as coisas do mundo, não é?”
O que pensamos, somos; mas é o entendimento do processo do pensamento que importa, não o que pensamos. Se pensamos sobre Deus ou sobre a bebida, não importa; cada um tem seu efeito particular; mas em ambos os casos o pensamento está ocupado com sua própria projeção. Idéias, ideais, metas e assim por diante são, todas, projeções ou extensões do pensamento. Estar ocupado com as próprias projeções, em qualquer nível, é cultuar o Eu. O Eu, com um “E” maiúsculo, é ainda a projeção do pensamento. Seja o que for que ocupe o pensamento, é o que é; e o que é, nada mais é do que pensamento. Assim, é importante entender o processo do pensamento.

O pensamento é a reação ao desafio, não e? Sem desafio não há pensamento. O processo de desafio e reação é experiência; e experiência verbalizada é pensamento. A experiência não é somente do passado, mas também do passado em combinação com o presente; é o consciente, assim como o oculto. Esse resíduo de experiência é memória, influencia; e reação da memória, do passado, é o pensamento.

“Mas isso é tudo que existe no pensamento? Não existe maior profundidade no pensamento do que a mera reação da memória?”
O pensamento pode se colocar em diferentes níveis, e o faz, o estúpido e o profundo, o nobre e o desprezível; mas ainda é pensamento, não é? O Deus do pensamento ainda é da mente, da palavra. O pensamento de Deus não é Deus, é meramente a reação da memória. A memória é duradoura, e portanto pode parecer profunda; mas por sua própria estrutura ela nunca poderá ser profunda. A memória pode estar oculta, fora da visão imediata, mas isso não a torna profunda. O pensamento nunca pode ser profundo ou nada além do que o Eu é. O pensamento pode atribuir-se maior valor, mas continua a ser pensamento. Quando a mente está ocupada com sua própria projeção, não foi além do pensamento, somente assumiu um novo papel, uma nova pose; sob o disfarce, ainda é pensamento.

“Mas como pode alguém ir além do pensamento?”
Esse não é o ponto, é? Alguém não pode ir além do pensamento, pois o “alguém”, o criador do esforço, é resultado do pensamento. Na descoberta do processo do pensamento, que é autoconhecimento, a verdade do que é acaba com o processo do pensamento. A verdade do que é não pode ser encontrada em qualquer livro, antigo ou moderno. O que é encontrado é a palavra, mas não a verdade?”

“Então, como o individuo encontra a verdade?”
O individuo não a encontra. O esforço de encontrar a verdade produz um fim projetado; e esse fim não é a verdade. O resultado não é a verdade; o resultado é a continuação do pensamento, estendido ou projetado. Somente quando o pensamento termina existe a verdade. Não há o fim do pensamento pela compulsão, pela disciplina, por qualquer forma de resistência. Ouvir a historia do que é produz sua própria libertação. É a verdade que liberta, não o esforço para ser livre.


Bom dia a todos.

Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: hcancela em 18 de Dezembro de 2012, 16:47
Olá amigos(as)

Como o tema é sobre Krisnamurti que para mim foi um homem sábio naquilo que dizia, aqui fica um video sobre o tema em refleção e creio que há outro.

Jiddu Krishnamurti: Meditation (Part 1) (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PVdzcVdrSjhmTldFIw==)

Saudações fraternas
Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Luiza Gabriella em 19 de Dezembro de 2012, 04:44
Medite em Silêncio

É impossível encontrar Deus fora de nós mesmos. Nossas próprias almas contribuem para toda divindade que existe fora de nós. Nós somos o maior dos templos. A objetivação é somente uma pálida imitação do que podemos ver dentro de nós mesmos.

A concentração dos poderes da mente é o nosso único instrumento para nos ajudar a encontrar Deus. Se você conhecer uma alma (a sua própria), você conhecerá todas as almas, passadas, presentes, e as que virão. A mente concentrada é uma lâmpada que ilumina cada canto da alma.

A Verdade não pode ser parcial; existe para o bem de todos. Finalmente, em perfeito repouso e paz, medite sobre Ela, concentre sua mente Nela, torne-se uno com Ela. Então, nenhuma palavra será necessária; o silêncio trará a Verdade. Não gaste a sua energia tagarelando, mas medite em silêncio; e não deixe o burburinho do mundo exterior perturbá-lo. Quando sua mente alcança o estado mais elevado, você fica inconsciente disso. Acumule energia em silêncio e torne-se um dínamo de espiritualidade.

Título: Re: A Arte da Meditação - Krishnamurti
Enviado por: Filipa Matos em 19 de Dezembro de 2012, 23:46
A maioria de nós tem tido profundas “experiências” – ou que outro nome lhes queirais dar – temos tido inspirações portadoras de êxtase sublime, de visões grandiosas, de intenso amor. Essas “experiências” nos invadem com a sua luz e alento; mas não perduram: passam, deixando o seu perfume.

Acontece com a maioria de nós que a mente-coração não é capaz de permanecer aberta para tal êxtase. A “inspiração” é acidental, não provocada, grande demais para a nossa mente-coração. A inspiração é maior do que aquele que a experimenta, e por isso procura ele abaixá-la ao seu próprio nível, à órbita de sua compreensão. Sua mente não está tranqüila; está ativa, rumorosa, reordenando; tem de ocupar-se de alguma maneira com aquela inspiração; tem de organizá-la, divulgá-la, comunicar a outros a sua beleza. Reduz, por essa maneira, a mente o inexpressível a um padrão de autoridade ou regra de conduta; interpreta e traduz a “experiência”, envolvendo-a, assim, na sua própria trivialidade. Por não saber cantar, a mente-coração persegue o cantor.

O intérprete, o tradutor da inspiração, deve ser tão profundo e vasto quanto ela, se a deseja compreender; não o sendo, deve desistir de interpretá-la, e para desistir ele precisa de estar maduro, de ser judicioso, na sua compreensão. Podeis te uma “experiência” significativa, mas como a compreendeis, como a interpretais, depende de vós, o seu intérprete; se vossa mente-coração é limitada, acanhada, traduzis a experiência, então, conforme esse condicionamento. O condicionamento é que deve ser compreendido e desfeito, para que possais apreender o pleno significado da “experiência”.

A madureza da mente-coração advém quando ela se liberta de suas próprias limitações e não quando se apega à lembrança de uma “experiência” espiritual. Se se apega à memória, então ela habita com a morte e não com a vida. Uma experiência profunda pode abrir a porta para a compreensão, para o autoconhecimento e o reto pensar, mas, para muitas pessoas ela se torna apenas um estímulo agitante, uma lembrança, perdendo logo o seu significado vital, e impedindo a continuação da “experiência”.

Interpretamos toda inspiração em termos de nosso próprio condicionamento. Quanto mais profunda é a inspiração, tanto mais vigilantes devemos estar para a não interpretarmos erroneamente. São raras as inspirações profundas e espirituais, e quando as temos, nós as rebaixamos ao nível rasteiro de nossa própria mente-coração. Se sois cristão, ou hinduísta, ou incrédulo, traduzis a inspiração de maneira correspondente, abaixando-a ao nível de vosso condicionamento. Se vossa mente-coração é dada ao nacionalismo e à cupidez, à paixão e à malevolência, será, nesse caso, a inspiração utilizada para fomentar a matança de vossos semelhantes; vós a tomais então por guia para bombardeardes vosso irmão; adorar será então destruir ou torturar os que não são vossos compatriotas ou correligionários.

É essencial que estejais cônscios de vosso condicionamento, em vez de procurardes “ocupar-vos” de uma experiência passada; mas a mente-coração apega-se a tais experiências, ficando assim incapacitada para compreender o presente vivo.


Boa noite a todos.

Esclarecimento: todas estas mensagens são de Krishnamurti, como mostra o próprio titulo do tópico. As que não pertencerem a Krishnamurti serão identificadas.
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Filipa Matos em 20 de Dezembro de 2012, 02:34
Não sei se alguma vez meditastes; se alguma vez estivestes sós convosco mesmos, distantes de tudo e de toda a gente, de todo o pensamento e ocupação - se alguma vez estivestes assim completamente sós, e não isolados nem retirados num qualquer sonho ou visão fantasiosa, unicamente distanciados de modo que em vós nada reste de reconhecível nem nada que toqueis pelo pensamento nem pelo sentimento. Tão distantes que nessa solitude plena o próprio silêncio se torne a única flor, a única luz e aquela qualidade intemporal que não pode ser mensurável pelo pensamento. Somente numa meditação assim toma o amor existência. Não vos incomodeis em expressá-lo; ele expressar-se-á a si mesmo. Não o utilizeis nem tenteis pô-lo em acção; ele actuará, e quando agir, essa acção não conterá remorso nem pesar, contradição nem tristeza, sofrimento. Assim, meditai sós; perdei-vos sem tentar relembrar onde estivestes. Se tentardes relembrá-lo então tratar-se-á de uma coisa morta. E se vos agarrardes à lembrança disso então nunca mais ficareis a sós de novo. Assim, meditai nessa solitude sem fim, na beleza desse amor, nessa inocência do novo - e então surgirá uma benção imperecível.

O livro: http://pt.scribd.com/doc/51473099/A-arte-da-meditacao - Krishnamurti

Boa noite a todos
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Amós Ribeiro em 20 de Dezembro de 2012, 21:26
Olá pessoal.

Ao praticar meditação sinto sensação de estalo em varias parte do corpo, principalmente na cabeça e no coração, ultimamente estou sentido dor e sensação  de descarga na parte do coração.

Gostaria de saber se alguém já teve experiencia semelhantes e qual a opinião de determinadas experiencias.

Vejo a meditação como um ótimo exercício de cura, alto superação e iluminação. 
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 10 de Outubro de 2015, 23:13
Meditação...

"Coisa extraordinária é a meditação. Se existir algum tipo de compulsão ou esforço, afim de ajustar o pensamento, tratar-se-á de imitação, o que tornará tudo um fardo fastidioso. O silêncio que é desejo, deixa de ser esclarecedor. Quando se torna busca de visões e experiências, então conduz à ilusão e à auto-hipnose. Somente por meio do florescimento do pensamento e do seu consequente término, a meditação poderá ter significado. O pensamento só pode florescer em liberdade e não através dos padrões sempre crescentes do conhecimento. O conhecimento pode conferir novas experiências e uma enorme sensação, porém uma mente que procura experiência de qualquer tipo é imatura. Maturidade é ser livre de toda a experiência, e deixarmos de nos sujeitar à influência do ser e do não-ser. A maturidade da meditação consiste em libertar a mente de conhecimento, porque este molda e controla toda a experiência. A mente que é uma luz para si mesma não necessita passar por nenhuma experiência. Imaturidade é a ânsia por experiências mais elevadas e vastas, conquanto a meditação é o errar pelo mundo do conhecimento e ser livre dele para poder mergulhar no desconhecido.

Temos de descobrir por nós mesmos e não através de quem quer que seja. Tivemos a autoridade de mestres e salvadores mas, se realmente quiserdes descobrir o que é a meditação tereis de abandonar completamente toda a autoridade.

Não sei se alguma vez notastes que, quando prestais completa atenção, ocorre um estado de silêncio. Nessa atenção não existe fronteira nem centro algum, como aquele que se acha atento e consciente. Essa atenção, esse silêncio, é um estado de meditação.

Meditar é transcender o tempo, tempo esse que é a distância que o pensamento percorre na sua realização. Esse percurso está sempre confinado ao "velho" modo, sendo feito com uma vestimenta nova, com umas novas vistas, porém sendo sempre a mesma estrada que conduz a lado nenhum - exceptuando à dor e ao sofrimento. Somente quando a mente transcende o tempo é que a verdade deixa de ser uma abstração. Então a benção deixa de ser uma ideia derivada do prazer e torna-se uma realidade não verbal. O esvaziamento dos conteúdos temporais da mente constitui o silêncio da verdade, e percebê-lo é agir; desse modo não há divisão entre o ver e o fazer, pois nesse intervalo nasce todo o conflito, tristeza e confusão. Aquilo que não possui tempo é Eterno."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 10 de Outubro de 2015, 23:40
Meditação...

"Estávamos ali sentados naquela praia a olhar os pássaros e o céu e a escutar o som distante dos carros que passavam. Estava uma manhã magnífica. Saímos com a baixa-mar e voltamos com o fluxo da maré; saímos longe para novamente voltarmos - esse eterno movimento para dentro e para fora... Podia-se vislumbrar o horizonte lá longe, onde o céu parece unir-se às águas. Era uma baía enorme de águas azuis e brancas, com casas muito pequenas ao redor e cadeias e mais cadeias de montes por detrás. Observávamos sem reacção nenhuma, sem identidade nenhuma, e observávamos de modo infatigável, na verdade não nos encontrávamos despertos mas de consciência ausente, num estado de semi-presença. Não éramos nós que ali nos encontrávamos mas tão só a observação que decorria. Observávamos os pensamentos que se erguiam e se desvaneciam, um atrás do outro, processo em que o próprio pensamento tomava consciência de si mesmo. Não existe nenhum pensador a observar o pensamento. Ali sentados naquela praia a observar as pessoas que passavam - dois ou três casais e uma mulher solitária - parecia que a natureza e tudo o mais ao redor, desde o profundo mar azul até às elevadas cadeias rochosas estavam em observação. Encontrávamo-nos a observar e não na expectativa da ocorrência de alguma coisa, tão só num acto de observação interminável. Essa observação acarretava aprendizagem - não a acumulação de conhecimentos que se efectua com o aprender que é quase inteiramente mecânico, mas uma observação minuciosa e profunda que possuía ligeireza e ternura. Desse jeito não resultava observador nenhum. Quando o pensador está presente trata-se unicamente de uma ação do passado a observar mas tal não corresponde a um observar, e sim a um relembrar, uma coisa sem vida. A observação contudo é uma coisa tremendamente viva que torna cada momento puro ócio. Aqueles caranguejos pequenos e gaivotas e restantes aves que voavam ao redor estavam todos a observar, à espera de presas, peixe, ou algo que possam comer; também eles estavam a observar. Mas passasse alguém por vós e interrogar-se-ia do que pudessem estar a observar. Não estávamos a observar nada, contudo, nesse nada existia Tudo."

http://pt.slideshare.net/rafaelblemes/a-arte-da-meditao-krishnamurti
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 11 de Outubro de 2015, 23:34
Meditação

"Meditação é ver o constante tocando o movimento da vida sempre mudando. O homem que progrediu de ser pecador para ser santo, progrediu de uma ilusão para outra. Todo este movimento é uma ilusão. Quando a mente vê esta ilusão, não está mais criando nenhuma ilusão, não está mais medindo. Portanto o pensamento chegou ao fim em relação ao se tornar melhor. Disto vem um estado de liberação – e isto é sagrado. Isto sozinho pode, talvez, receber o constante."

Pode a mente estar consciente desse vazio sem nomeá-lo?

"Penso que a maioria de nós fica consciente, talvez só raramente já que a maioria de nós está terrivelmente ocupada e ativa, mas penso que estamos conscientes, algumas vezes, que a mente está vazia. E, estando conscientes, temos medo desse vazio. Nós nunca investigamos nesse estado de vazio, nunca entramos nele profundamente; temos medo e, então, nos desviamos dele. Nós lhe demos um nome, dizemos que é “vazio”, é “terrível”, é “doloroso”; e esse próprio nomear já criou uma reação na mente, um medo, um escape, uma fuga. Ora, pode a mente parar de fugir, e não dar nome, não dar a isto a significação de uma palavra como vazio a respeito da qual temos memórias de prazer e dor? Podemos olhar para isto, pode a mente estar consciente desse vazio sem nomeá-lo, sem fugir dele, sem julgá-lo, mas simplesmente ficar com ele? Porque, então, isso é a mente. Então, não existe um observador olhando para isto; não há censor para condenar; existe apenas aquele estado de vazio com o qual todos nós estamos bem familiarizados mas que todos nós evitamos, tentando preenchê-lo com atividades, com adoração, preces, conhecimento, com toda forma de ilusão e excitação. Mas quando toda excitação, ilusão, medo, fugas param, e você não está mais lhe dando um nome e, por isso, o condenando, o observador é diferente da coisa que é observada? Certamente, lhe dando um nome, condenando, a mente criou um censor, um observador, fora dela mesma. Mas quando a mente não confere um termo, um nome, condena, julga, então não existe observador, apenas o estado dessa coisa que chamamos de vazio."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 12 de Outubro de 2015, 00:10
Meditação...

"A meditação não se presta a erguer muros de defesa ou de resistência, para em seguida fenecerem; tampouco é ela talhada segundo um método ou sistema. Qualquer sistema padroniza o pensamento, mas todo o conformismo impede o florescer da meditação. Para que ela desabroche é preciso haver liberdade e findar daquilo que é. Sem liberdade não há auto-conhecimento, e sem auto-conhecimento a meditação não pode ocorrer. Por mais vasto que seja o alcance do pensamento em sua busca de conhecimento, ele continuará a ser estreito e medíocre. A meditação não reside no processo aquisitivo e expansivo do saber, mas viceja na liberdade total, e termina no desconhecido.

A meditação não tem assento no tempo. O tempo não pode produzir a mutação; pode produzir uma mudança, mas toda a mudança necessita, por sua vez, de nova mudança; do mesmo modo que toda a reforma. A meditação que brota do tempo é sempre factor de limitação, e nisso não pode haver liberdade nenhuma; mas sem liberdade sempre haverá necessidade de escolha e conflito.

Perceber é fazer. O intervalo existente entre o perceber e o fazer é perda de energia- de que necessitamos para perceber- que em si mesmo é fazer.

Ser mundano é evitar o mundo. Morrer significa amar. A beleza do amor não reside nas recordações do passado nem nas imagens do amanhã. O amor não tem passado nem futuro; aquilo que o tem é a memória. O pensamento é prazer, coisa que não é amor. O amor e a paixão residem bem para além do alcance da sociedade, que sois vós. Morram e estará presente."

(Krishnamurti)

www.youtube.com/watch?v=Egsl2zBaD4w (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PUVnc2wyekJhRDR3Iw==)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 16 de Outubro de 2015, 18:24
Meditação...

"A meditação é realmente muito simples, mas nós complicámo-la. Tecemos uma rede de ideias em torno dela, sobre o que é ou deixa de ser. Mas não é nenhuma dessas coisas. Porque é tão simples ela escapa-nos. As nossas mentes são muito complicadas e acham-se gastas pelo tempo. Mas essa mente determina actividade do coração e aí a dificuldade começa. A meditação sobrevem naturalmente e com extraordinária facilidade quando caminhamos pela areia ou olhamos pela janela e distinguimos aquelas colinas queimadas maravilhosas, queimadas pelo sol do Verão passado. Porque somos seres tão torturados, com lágrimas nos olhos e riso forçado nos lábios? Se pudésseis percorrer sozinhos essas colinas e bosques, iríeis pelas vastas praias de areias alvas e, nessa solidão saberíeis o que é a meditação. O êxtase da solidão sobrevem quando deixais de vos sentir assustados por estar sós, sem pertencer mais ao mundo nem apegado a nada. Então, como aquela alvorada que estava esta manhã, isso sobrevem silenciosamente e estabelece um caminho dourado na própria quietude que existia no início, que existe agora, e que sempre estará aí."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: lconforjr em 31 de Outubro de 2015, 21:31
      A tentativa de meditar é apenas isto: "sentar e esquecer"; esquecer mesmo de vc, do que vc está fazendo e de tudo mais. A finalidade das tentativas é nada mais que, destruir o domínio do ego sobre nós, pois o ego é o único obstáculo entre nós e a compreensão do Todo! E isso é a chamada "iluminação"!
................
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 08 de Novembro de 2015, 14:19
Meditação

"Não sei se alguma vez notastes que, quando prestais completa atenção, ocorre um estado de silêncio. Nessa atenção não existe fronteira nem centro algum, como aquele que se acha atento e consciente. Essa atenção, esse silêncio, é um estado de meditação.

Meditar é transcender o tempo, tempo esse que é a distância que o pensamento percorre na sua realização. Esse percurso está sempre confinado ao "velho" modo, sendo feito com uma vestimenta nova, com umas novas vistas, porém sendo sempre a mesma estrada que conduz a lado nenhum - exceptuando à dor e ao sofrimento. Somente quando a mente transcende o tempo é que a verdade deixa de ser uma abstração. Então a benção deixa de ser uma ideia derivada do prazer e torna-se uma realidade não verbal. O esvaziamento dos conteúdos temporais da mente constitui o silêncio da verdade, e percebê-lo é agir; desse modo não há divisão entre o ver e o fazer, pois nesse intervalo nasce todo o conflito, tristeza e confusão. Aquilo que não possui tempo é Eterno.

Aquele silêncio, que não é o silêncio do fim do barulho, é só um modesto começo. Ê como passar por um túnel estreito para se chegar a um oceano imenso, vasto, extenso - a um estado imensurável, atemporal. Mas isso não se pode compreender verbalmente, a menos que se tenha compreendido toda a estrutura da consciência e o significado do prazer, do sofrimento e do desespero, e as próprias células cerebrais se tenham tornado quietas. Então, talvez alcanceis aquele mistério que ninguém pode revelar-vos e nada pode destruir. Uma mente viva é uma mente quieta, uma mente viva é uma mente que não tem centro algum e, por conseguinte, não tem espaço nem tempo. Essa mente é ilimitada, e esta é a única verdade, a única realidade."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Amós Ribeiro em 08 de Novembro de 2015, 15:21
Bom dia a todos,

Muitos se acham os doutores da meditação. Cheios de idéias complexa em relação a mesma.
Certa vez foram perguntar ao Buda em relação da iluminação que ele tinha adquirido no processo meditativo, e ele respondeu: "Tenha você mesmo sua próprio experiência".

Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o.


Somente quem busca de coração sabe compreendê-la, aquele que se baseia  em terceiros não é um meditador, e nunca vai alcançar a iluminação.

Abraços

Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: lconforjr em 08 de Novembro de 2015, 17:34
Re: A Arte da Meditação

      Ref resp #42 em: 08 11 15, às 15:21, de Amós

      Conf: Bom dia, Amós, muito bom o texto que vc postou (#42). Me permita repeti-lo, colocando em negrito o que, no meu entendimento, precisa ser destacado:

      Texto: Muitos se acham os doutores da meditação. Cheios de “ideias complexas” em relação a mesma.

      Conf: nada de ideias complexas, pois o exercício da tentativa para se meditar é muito simples: “apenas sentar-se e esquecer”.

      Texto: Certa vez foram perguntar ao Buda em relação à iluminação que ele tinha adquirido no processo meditativo, e ele respondeu: " Venha e tenha você mesmo sua própria experiência".

     Conf: acrescento: pois existem métodos para facilitar a conquista do estado meditativo, que é o que traz a experiência!

      Texto: Não acredite em algo “simplesmente porque ouviu”. Não acredite em algo simplesmente “porque todos falam a respeito”. Não acredite em algo simplesmente “porque está escrito em seus livros religiosos”. Não acredite em algo só “porque seus professores e mestres dizem que é verdade”. Não acredite em tradições só “porque foram passadas de geração em geração’’.

      Conf: é evidente que alguma coisa que foi considerada pelo povo, pelas religiões, filosofias ou pela ciência, por muito tempo, sejam séculos ou milênios, como sendo verdade, não se transforma, devido a esse tempo, em verdade.
     
      Texto: Mas depois de “muita” análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o.

      "Aquele que se baseia em terceiros não é um meditador, e <nunca> vai alcançar a iluminação".

      Abraços
...........

Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Amós Ribeiro em 10 de Novembro de 2015, 18:11

Abraços fraterno Conforjr!
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 14 de Novembro de 2015, 19:50
A meditação é o fim do sofrimento

"A meditação é o fim do sofrimento, o fim do pensamento que cria medo e sofrimento – o medo e o sofrimento na vida diária, quando você é casado, quando você vai ao trabalho. Nos negócios você deve usar seu conhecimento tecnológico, mas quando esse conhecimento tecnológico é usado para propósitos psicológicos – para tornar-se mais poderoso, ocupar uma posição que lhe dá prestígio, honra, fama – ele origina somente antagonismo, ódio; uma mente assim possivelmente jamais entende o que é a verdade. A meditação é a compreensão do modo de vida, é o entendimento do que é o sofrimento e o medo – e ir além deles.

Para eliminar todo o conflito

Parte da meditação é para eliminar completamente todo conflito, internamente e então externamente. Para eliminar o conflito tem-se que compreender este princípio básico: o observador não é diferente do observado, psicologicamente. Quando há raiva, não há nenhum “eu”, mas um segundo depois o pensamento cria o “eu” e diz: “eu tenho raiva” e introduz a ideia de que não devo ser raivoso. Então existe a raiva e o “eu” que não deve ser raivoso; a divisão traz conflito. Quando não existe divisão entre o observador e o observado, e, portanto somente a coisa que é, a qual é a raiva, então o que acontece? A raiva continua? Ou há um fim total da raiva?"

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
...

J.Krishnamurti - 7º - O que é a Morte? A Morte tem algum significado? - "A Transformação do Homem"
www.youtube.com/watch?v=XlERv82N2Vw&list=PL7D427E49067E05D7&index=9&feature=iv&src_vid=Mb4s7D7EkQk&annotation_id=annotation_2083662385 (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PVhsRVJ2ODJOMlZ3JmFtcDtsaXN0PVBMN0Q0MjdFNDkwNjdFMDVENyZhbXA7aW5kZXg9OSZhbXA7ZmVhdHVyZT1pdiZhbXA7c3JjX3ZpZD1NYjRzN0Q3RWtRayZhbXA7YW5ub3RhdGlvbl9pZD1hbm5vdGF0aW9uXzIwODM2NjIzODUj)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 14 de Novembro de 2015, 20:02
Meditação e controle

"Na meditação clássica, comum, os gurus que a propagam preocupam-se com o controlador e o controlado. Eles dizem para vocês controlarem os seus pensamentos porque desse modo vocês terminarão o pensamento, ou terão somente um pensamento, mas nós estamos investigando quem é o controlador. Vocês poderão dizer “É o eu superior”, “É o espectador”, “É algo que não se pensa”, mas o controlador faz parte do pensamento. Obviamente. Portanto, o controlador é o controlado. O pensamento dividiu-se como o controlador e aquilo que ele vai controlar, mas é ainda a atividade do pensamento… Assim, quando se compreende que todo o movimento do controlador é o controlado, então não há controle. É perigoso dizer isso a pessoas que não o compreenderam. Não estamos defendendo que não haja nenhum controle. Estamos dizendo que quando há a observação de que o controlador é o controlado, que o pensador é o pensamento, e se você permanecer com essa verdade completa, com essa realidade, sem mais nenhuma interferência do pensamento, então você tem um tipo de energia totalmente diferente."

(Krishnamurti)
J.Krishnamurti - 1º - Estamos conscientes de que estamos fragmentados? - "A Transformação do Homem"
www.youtube.com/watch?v=lt5CUpGKOlI&list=PL7D427E49067E05D7&index=3&feature=iv&src_vid=YrkMkn8k-yY&annotation_id=annotation_143448417#t=1h30s (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PWx0NUNVcEdLT2xJJmFtcDtsaXN0PVBMN0Q0MjdFNDkwNjdFMDVENyZhbXA7aW5kZXg9MyZhbXA7ZmVhdHVyZT1pdiZhbXA7c3JjX3ZpZD1ZcmtNa244ay15WSZhbXA7YW5ub3RhdGlvbl9pZD1hbm5vdGF0aW9uXzE0MzQ0ODQxNyN0PTFoMzBz)
Diálogos realizados entre David Bohm (Físico), David Shainberg (Psiquiatra), e J.Krishamurti
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 15 de Novembro de 2015, 20:16
Percebimento

"Interrogante: Eu desejava saber o que entendeis por percebimento, porquanto dizeis com freqüência que percebimento é, em verdade, o que estais ensinando. Tenho tentado compreendê-lo, ouvindo vossas palestras e lendo vossos livros, mas parece que não posso ir muito longe. Sei que não é um exercício e compreendo a razão por que tão decididamente repudiais toda espécie de exercício, adestramento, sistema, disciplina ou rotina. Percebo a importância disso, pois, de contrário, o percebimento se torna uma coisa mecânica e o resultado final é a mente tomar-se embotada, entorpecida. Se é possível, eu gostaria de investigar esta questão até o fim, junto convosco. Que é "percebimento"? Aparentemente, atribuís a essa palavra um significado especial, profundo, e, no entanto, a mim se me afigura estarmos sempre cônscios do que se passa. Sei quando me irrito; bem sei quando me entristeço; e sei também quando sou feliz.

Krishnamurti: Estamos realmente cônscios da cólera, da tristeza, da felicidade? Ou delas só nos tornamos cônscios depois de passadas? Comecemos como se nada soubéssemos do assunto - da estaca zero. Não façamos asserções de espécie alguma, dogmáticas ou sutis, mas tratemos de explorar esta questão, pois, se realmente a penetrarmos, esse exame poderá revelar-nos um estado extraordinário que a mente provavelmente jamais atingiu, uma dimensão ainda não alcançada pelo percebimento superficial. Partamos, pois, desse percebimento superficial e daí penetremos até o fim.

Nós vemos com os olhos, percebemos com os sentidos as coisas que nos cercam - a cor da flor, o colibri que sobre ela adeja, a luz deste Sol californiano, os sons inúmeros e de diferentes qualidades e graus de sutileza, as alturas e as profundezas, a sombra da árvore e a própria árvore. De modo idêntico percebemos o nosso corpo - o instrumento dessas diferentes espécies de percepção superficial, sensória. Se tais percepções permanecessem no nível superficial, não haveria confusão nenhuma. Aquela flor, aquele amor-perfeito, aquela rosa, estão ali, diante de nós, pura e simplesmente. Não há preferência, comparação, gostar e não gostar: só aquela coisa à nossa frente, sem nenhuma complicação psicológica. É perfeitamente clara essa percepção sensória, superficial? Ela pode estender-se às estrelas, às profundezas dos oceanos, e ao extremo limite da observação científica, com o auxílio dos instrumentos da moderna tecnologia.

Interrogante: Sim, creio que estou compreendendo.

Krishnamurti: Vedes, pois, que a rosa, e o universo e seus habitantes, e vossa própria esposa, se a tendes, e as estrelas, os mares, as montanhas, os micróbios, os átomos, os nêutrons, esta sala, aquela porta, existem realmente. Agora, o segundo passo: o que pensais ou sentis a respeito dessas coisas é vossa reação psicológica a elas. A essa reação chamamos "pensamento" ou "emoção". Conseqüentemente, o percebimento superficial é uma coisa muito simples: ali está aquela porta. Mas a descrição da porta não é a porta, e quando emocionalmente vos deixais enredar na descrição, não vedes a porta. Essa descrição pode ser uma palavra, ou um tratado científico, ou uma forte reação emocional; nada disso constitui a própria porta. É muito importante compreender isso desde o começo. Se não o compreendermos, tornar-nos-emos cada vez mais confusos. A descrição.nunca é a coisa descrita. Embora neste momento estejamos fazendo uma descrição - não podemos evitá-lo - a coisa que estamos descrevendo não é a descrição que dela estamos fazendo. Peço-vos, pois, ter isto em mente, em toda a duração desta palestra. A palavra nunca é o real, mas facilmente nos deixamos arrebatar ao alcançarmos o segundo grau do percebimento, aquele em que o percebimento se torna pessoal e, por influência da palavra, nos tornamos emocionais.

Temos, pois, o percebimento superficial da árvore, do pássaro, da porta, e temos a reação a esse percebimento, ou seja o pensamento, o sentimento, a emoção. Pois bem; ao nos tornarmos cônscios dessa reação, podemos chamá-la um segundo grau de profundidade do percebimento. Há o percebimento da rosa, e o percebimento da reação à rosa. Muitas vezes, não temos percebimento dessa reação à rosa. Na realidade é o mesmo percebimento que vê a rosa e vê a reação. Trata-se de um só movimento, e é errôneo falar de percebimento externo e percebimento interno. Quando há a percepção visual da árvore, sem nenhuma complicação psicológica, não há divisão nessa relação. Mas, quando há uma reação psicológica à árvore, esta é uma reação condicionada, a reação das lembranças e experiências passadas, sendo essa reação uma divisão na relação. É ela a origem disso que chamamos "eu", em relação com o "não eu". É dessa maneira que vos pondes em relação com o mundo. É assim que se cria o indivíduo e a coletividade. O mundo é percebido, não como é em si, porém em suas diferentes relações com o "ego" nascido da memória. Essa divisão é a vida e o florescimento disso que chamamos "nosso ser psicológico", e dela procedem todas as contradições e divisões. Estais percebendo isso com toda a clareza? No percebimento da árvore, não há avaliação de espécie alguma. Mas, quando há uma reação à árvore, quando a árvore é julgada com agrado ou desagrado, ocorre, então, nesse percebimento, a divisão em "eu" e "não eu" - sendo o "eu" diferente da coisa observada. Esse "eu" é a reação, nas relações, das lembranças e experiências do passado. Ora, pode haver um percebimento, uma observação da árvore, sem nenhuma espécie de julgamento, e pode haver uma observação da "resposta", das reações, inteiramente isenta de julgamento? Desse modo, erradicamos o princípio da divisão, o princípio do "eu" e "não eu", tanto quando olhamos a árvore, como quando olhamos a nós mesmos.

Interrogante: Estou tentando seguir-vos. Vejamos se compreendi bem. Há o percebimento da árvore; este eu compreendo. Há a reação psicológica à árvore; também esta compreendo. A reação psicológica se constitui das lembranças e experiências passadas; é de agrado e de desagrado; é a divisão em "a árvore" e "eu". Sim, penso que tudo isso compreendo.

Krishnamurti: Está tão claro como a própria árvore, ou é simplesmente a clareza da descrição? Lembrai-vos de que, como já dissemos, a coisa descrita não é a descrição. Que compreendestes, a coisa ou sua descrição?

Interrogante:Acho que compreendi a coisa.

Krishnamurti: Por conseguinte, no ver esse fato não existe "eu", que é a descrição. No ver qualquer fato, não existe "eu". Ou há "eu", ou há "ver": não pode haver os dois ao mesmo tempo. "Eu" é "não ver". O "eu" não pode ver, não pode estar cônscio."

(Krishnamurti)

www.slideshare.net/Divinespiritvisions/a-luz-que-no-se-apaga?qid=e05ebbac-a5ff-4c44-8b6d-dca0facecf2d&v=default&b=&from_search=7 (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy5zbGlkZXNoYXJlLm5ldC9EaXZpbmVzcGlyaXR2aXNpb25zL2EtbHV6LXF1ZS1uby1zZS1hcGFnYT9xaWQ9ZTA1ZWJiYWMtYTVmZi00YzQ0LThiNmQtZGNhMGZhY2VjZjJkJmFtcDt2PWRlZmF1bHQmYW1wO2I9JmFtcDtmcm9tX3NlYXJjaD03)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 17 de Novembro de 2015, 01:07
Meditação

"A meditação, que é a destruição da segurança, possui uma enorme beleza - não a beleza das coisas reunidas pelo homem nem pela natureza mas a beleza do silêncio. Esse silêncio é o vazio a partir do qual todas as coisas ocorrem e em que passam a existir. Ele é incognoscível. Nem o intelecto nem a sensação podem abrir caminho para o atingir e todo o método para esse efeito é invenção do espirito de cobiça. Todos os caminhos e meios do "eu" calculista devem ser completamente destruídos; todo o avanço e recuo - cujos procedimentos pertencem ao tempo - devem terminar, sem conhecimento do amanhã. Meditação é destruição - é um perigo para todos quantos desejem levar uma vida superficial, uma vida de imaginação e mito."

(krishnamurti)

http://pt.slideshare.net/rafaelblemes/a-arte-da-meditao-krishnamurti

...
Na solidão você pode estar completamente seguro
www.youtube.com/watch?v=kild85pkhA0 (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PWtpbGQ4NXBraEEwIw==)
Diàlogos realiazados entre David Bohm (Físico), David Shainberg (Psiquiatra), e J.Krishamurti
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 21 de Novembro de 2015, 17:44
A mente especulativa não alcança Aquilo que é Real‏

"Embaixo e ao longe se avistava o vale, cheio das atividades próprias dos vales em geral. O sol se punha naquele momento atrás das montanhas longínquas, e as sombras eram escuras e longas. Era uma tarde serena e uma brisa soprava do mar. As laranjeiras, alinhadas em renques sucessivos, pareciam quase negras e sobre a longa estrada reta que percorria o vale, viam-se ocasionais lampejos, quando a luz do sol poente se refletia nos carros que passavam. Era uma tarde de paz e encantamento.

A mente parecia abarcar a amplidão do espaço e a distância infinita; ou melhor, a mente parecia expandir-se infinitamente e, acompanhando a mente, mas fora dela, algo existia que continha todas as coisas. A mente lutava, na penumbra do subconsciente, procurando reconhecer e lembrar aquilo que não fazia parte dela própria, detendo a sua habitual atividade; mas não podia apreender o que era estranho à sua própria natureza; e logo todas as coisas, inclusive a mente, estavam engolfadas naquela imensidão. Caiu a noite, e o longínquo latir dos cães não perturbava de maneira nenhuma aquela existência que escapava a toda percepção. Ela não pode ser pensada e “experimentada” pela mente.

Mas que foi, então, que percebeu e se tornou cônscio de uma coisa tão diferente das “projeções” da mente? Quem é que a experimenta? Não foi, por certo, a mente constituída das lembranças, reações e impulsos de cada dia. Existe outra mente, ou há uma parte da mente que permanece adormecida e só pode ser despertada por Aquilo que existe acima e além da mente? Se assim é, existe então, sempre, dentro da mente aquela coisa que transcende todo o pensamento e o tempo. Todavia, não pode ser assim, pois isso é apenas pensamento especulativo e, portanto outra das muitas invenções da mente.

Uma vez que aquela imensidão não nasce do processo do pensamento, que é então que se torna cônscio dela? A mente, como “experimentador”, se torna cônscia dela, ou é aquela imensidão que está cônscia de si mesma, porque não existe mais “experimentador”? Não havia “experimentador”, na hora em que aquilo aconteceu, ao descermos a montanha e, todavia, o percebimento da mente era de todo diferente, tanto em qualidade como em intensidade, daquela coisa imensurável. A mente não estava funcionando; achava-se vigilante e passiva e, embora cônscia da brisa a brincar com as folhas, não havia movimento de espécie alguma, nela própria. Não havia “observador”, medindo ou avaliando a coisa observada. Só aquilo existia e era aquilo que estava cônscio de si mesmo e sua imensurabilidade. Aquilo não tinha começo, nem nome.

A mente está cônscia de não poder captar, pela experiência e pela palavra, aquilo que permanece sempre, atemporal e imensurável."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 21 de Novembro de 2015, 21:20
Compreender o real requer conscientização

"O que é, é o que você é, não o que você gostaria de ser; não é o ideal, pois o ideal é fictício, mas é o que você realmente está fazendo, pensando e sentindo de momento a momento. O que é, é o real, e compreender o real requer conscientização, uma mente muito alerta, viva. Mas se nós começamos condenando o que é, se começamos a culpá-lo ou resistir a ele, então não vamos compreender seu movimento. Se eu quiser compreender alguém, não posso condená-lo – devo observá-lo, estudá-lo. Devo amar a própria coisa que estou estudando. Se você quiser compreender uma criança, deve amá-la e não condená-la. Você deve brincar com ela, ver seus movimentos, suas idiossincrasias, seus modos de comportamento; mas se você meramente condena, resiste ou a culpa, não haverá compreensão da criança. Do mesmo modo, para compreender o que é, a pessoa deve observar o que pensa, sente e faz de momento a momento. Isso é o real. Qualquer outra ação, qualquer ideal ou ação ideológica, não é o real – é, meramente, um anseio, um desejo fictício de ser alguma coisa que não existe. Assim, compreender o que é requer um estado de mente em que não há identificação ou condenação, o que significa uma mente que está alerta e, contudo, passiva."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 22 de Novembro de 2015, 14:07
Para descobrir o que está além do tempo, o pensamento deve chegar ao fim

"É a mente, é o pensamento, que cria tempo. Pensamento é tempo, e o que quer que o pensamento projete deve estar no tempo; portanto, o pensamento não pode ir além dele mesmo. Para descobrir o que está além do tempo, o pensamento deve chegar ao fim – e essa é a coisa mais difícil, pois o fim do pensamento não chega pela disciplina, pelo controle, pela negação ou supressão. O pensamento só acaba quando compreendemos todo o processo do pensar e, para compreender o pensar, deve haver autoconhecimento. Pensamento é o ego, pensamento é a palavra que se identifica como “eu”, e em qualquer nível, elevado ou baixo, que o ego esteja colocado, é ainda dentro do campo do pensamento. E o ego é muito complexo; ele não está no nível da pessoa, mas é formado de muitos pensamentos, muitas entidades, cada uma em oposição à outra. Tem que haver uma constante consciência de todas elas, uma consciência em que não há escolha, nem condenação ou comparação, ou seja, deve haver a capacidade de ver as coisas como elas são sem distorcê-las ou traduzi-las. No momento em que julgamos ou traduzimos o que é visto, distorcemos aquilo de acordo com nosso conteúdo. Ser é estar em relação, e é apenas no centro da relação que podemos, espontaneamente, descobrir a nós mesmos como somos. É esta própria descoberta de nós mesmos como somos, sem nenhum sentido de condenação ou justificação, que produz uma transformação fundamental no que somos – e esse é o início da sabedoria."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 22 de Novembro de 2015, 15:16
O maior problema do homem

"Importa compreender o que é cooperação e saber quando se deve e quando não se deve cooperar. Para se compreender o estado da mente que se recusa a cooperar, cumpre aprender, também, o que significa cooperar; ambas as coisas são importantes. Por certo, em regra cooperamos quando há interesse egoísta, quando vemos lucro, prazer ou vantagem em cooperar. Então, em geral, cooperamos de corpo e alma. Se estamos presos a um certo compromisso, a uma certa coisa em que cremos, então, com essa "autoridade", esse ideal, cooperamos. Mas, também, parece-me da maior importância aprendermos quando não se deve cooperar. Em regra, se estamos dispostos a cooperar, mostramo-nos desinclinados a compreender o que significa "não cooperar". As duas coisas são, em verdade, inseparáveis. Importa compreender que, se cooperamos em torno de uma idéia, em torno de uma pessoa, se tomamos posição em relação a uma coisa e em torno dela cooperamos, essa cooperação cessa infalivelmente: ao acabar-se o interesse em tal idéia, em tal autoridade, dela nos desprendemos e tratamos de cooperar com outra idéia ou outra autoridade. Sem dúvida, toda cooperação dessa espécie se baseia no egoísmo. E quando essa cooperação, em que há interesse egoísta, já não produz lucro, nem vantagem, nem prazer, deixamos então de cooperar.

Compreender quando não se deve cooperar é tão importante como compreender quando se deve cooperar. A cooperação, com efeito, deve provir de uma dimensão totalmente diferente. Sobre este assunto falaremos mais adiante.

Em nossa última reunião perguntamos: Qual é a questão essencial, o problema essencial da vida humana? Não sei se considerastes este ponto, se nele refletistes. Mas, que pensais vós ser realmente o problema central da vida humana, como está sendo vivida neste mundo, com suas agitações, seu caos, suas agonias e confusão, com os entes humanos a tentarem dominar uns aos outros, etc.? Eu gostaria de saber qual é, para vós, o problema central ou "desafio" único, ao verdes o que se está passando no mundo - conflitos de toda espécie, conflito estudantil, conflito político, divisão entre os homens, diferenças ideológicas, por amor das quais estamos dispostos a matar-nos mutuamente, diferenças religiosas, a engendrarem a intolerância, brutalidade sob várias formas, etc. Vendo tudo isso acontecer diante de vossos olhos - vendo-o realmente, e não teoricamente - qual é o problema central?

Este que vos fala vai dizer-vos qual é o problema central; tende a bondade de ouvir sem concordar, nem discordar.  Examinai, olhai, vede se o que ele diz é verdadeiro ou falso. Para descobrir o verdadeiro, cada um tem de olhar objetivamente, criticamente, e também intimamente. Olhar com aquele interesse pessoal que tendes ao atravessardes uma crise em vossa vida, quando todo o vosso ser está sendo desafiado. O problema central é a completa e absoluta libertação do homem primeiro psicológica ou interiormente e, em seguida, exteriormente. Não há realmente separação entre o "interior" e o “exterior”; mas, para efeito da clareza, devemos primeiramente compreender a libertação interior. Cumpre-nos descobrir se há possibilidade de vivermos neste mundo em liberdade psicológica, sem nos retirarmos "neuroticamente" para um mosteiro ou isolar-nos numa torre criada por nossa imaginação.

Em nossa vida, neste mundo, é este o único "desafio": a libertação. Se, interiormente, não há liberdade, logo começa o caos, começam as oposições e indecisões, a falta de clareza, a falta de profundo discernimento - e, obviamente, tudo isso se manifesta no exterior.  Pode-se viver em liberdade neste mundo - sem pertencer a nenhum partido político, nem comunista nem capitalista, sem pertencer a nenhuma religião, sem aceitar nenhuma autoridade externa? Decerto, é necessário observar as leis do país (manter-se à direita ou à esquerda da estrada quando se está conduzindo um carro), mas a decisão de obedecer, de acatar as prescrições, parte da liberdade interior; a aceitação da exigência exterior, da lei exterior, emana da liberdade interna. - É este, e nenhum outro, o problema central.

Nós, entes humanos, não somos livres, levamos uma pesada carga de condicionamento, imposta pela cultura em que vivemos, pelo ambiente social, pela religião, etc. Assim, visto que estamos condicionados, somos agressivos. Os sociólogos, os antropólogos e os economistas explicam essa agressividade. Há duas teorias: ou herdamos essa agressividade do animal, ou a sociedade, que cada ente humano construiu, impele-nos, força-nos a ser agressivos. Mas, o fato é mais relevante do que a teoria: não importa se a agressividade vem do animal ou da sociedade: nós somos agressivos, somos brutais, incapazes de olhar e examinar imparcialmente as sugestões, idéias ou pensamentos de outrem. Porque está assim condicionada, a vida se torna fragmentária. Nossa vida - o viver de cada dia, nossos diários pensamentos e aspirações, o desejo de aperfeiçoamento pessoal (uma coisa horrível) - é fragmentária. Esse condicionamento faz de cada um de nós um ente humano egocêntrico, que luta no interesse de seu "eu", sua família, sua nação, sua crença. Surgem assim as diferenças ideológicas - vós sois cristão, outro é muçulmano ou hinduísta. Podeis tolerar-vos reciprocamente, mas, basicamente, interiormente, há uma profunda divisão, há desprezo, sentimento de superioridade, etc. Por conseguinte, esse condicionamento não só nos faz egocêntricos, mas também, nesse próprio egocentrismo, há um processo de isolamento, de separação, de divisão, que torna absolutamente impossível a cooperação.

Perguntamos: É possível sermos livres? Podemos nós, na situação em que nos encontramos, condicionados, moldados por tantas influências, pela propaganda, pelos livros que lemos, pelo cinema, o rádio, as revistas - tudo isso a martelar-nos e a moldar-nos a mente - podemos nós viver, neste mundo, completamente livres, não só conscientemente, mas nas raízes mesmas de nosso ser? É este - assim me parece o desafio, o problema único. Porque, se não somos livres, não há amor: há ciúme, ansiedade, medo, domínio, cultivo do prazer - sexual ou outro. Se não somos livres, não podemos ver claramente e não há sensibilidade à beleza. Isto não são simples argumentos em prol da "teoria" de que o homem deve ser livre; uma tal teoria se torna, por sua vez, uma ideologia, e esta, a seu turno, separa as pessoas. Assim, se, para vós, é este o problema central, o desafio máximo da vida, não há então nenhuma questão de serdes felizes ou infelizes (isso se torna uma coisa secundária), de poderdes ou não conviver em paz com outros, ou de serem vossas crenças e opiniões mais importantes que as de outrem. Tudo isso são problemas secundários, que serão resolvidos se o problema central for plena e profundamente compreendido e solucionado. Se, observando os fatos reais que vos cercam e os fatos reais existentes dentro de vós mesmos, sentis realmente que é este o desafio único da vida; se percebeis que a dependência das idéias, opiniões e juízos de outrem, a veneração da opinião pública, dos heróis, dos exemplos, geram a fragmentação e a desordem; se vedes claramente todo o mapa da existência humana, com suas nacionalidades e guerras, a separação entre seus deuses, sacerdotes e ideologias, o conflito, a angústia, o sofrimento; se vós mesmos vedes tudo isso, não como coisa ensinada por outrem, nem como idéia ou aspiração - surge então um estado de completa liberdade interior, não há medo da morte, e vós e o orador estais em comunhão, em comunicação um com o outro.

Mas se, para vós, não é este o principal interesse, o principal desafio e perguntais se é possível a um ente humano achar Deus, a Verdade, o Amor, etc. - então não sois livre e, nesse estado, como podeis achar alguma coisa? Como podeis explorar, viajar, com toda essa carga, todo esse medo que acumulastes através de sucessivas gerações? É este o único problema: É possível aos entes humanos serem realmente livres? "

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 23 de Novembro de 2015, 18:03
Se você puder compreender isto realmente, então a semente da revolução radical já foi plantada

"A mudança acontece quando não existe medo, quando não existe nem experimentador nem experiência; só então acontece a revolução que está além do tempo. Mas isso não pode acontecer enquanto estou tentando mudar o “eu”, enquanto estou tentando mudar o que é em outra coisa. Eu sou o resultado de todas as compulsões, persuasões sociais e espirituais, e de todo o condicionamento baseado na ambição – meu pensamento se baseia nisso. Para me libertar desse condicionamento, dessa ambição, eu digo a mim mesmo: “Eu não devo ser ambicioso; devo praticar a não-ambição”. Mas tal ação está, ainda, dentro do campo do tempo, é ainda a atividade da mente. Apenas veja isso. Não diga: “Como vou chegar nesse estado onde sou não-ambicioso?” Isso não é importante. Não é importante ser não-ambicioso; o importante é compreender que a mente que está tentando sair de um estado para outro está ainda funcionando dentro do campo do tempo, e, portanto, não há revolução, não há mudança. Se você quiser, realmente, compreender isto, então a semente dessa revolução radical já foi plantada e isso vai operar: você não tem nada a fazer."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 28 de Novembro de 2015, 18:27
Nosso conflito está na relação, e a compreensão desta relação é o único problema real que cada um tem...

"O autoconhecimento não é uma coisa para ser comprada em livros, nem é o resultado de uma longa e dolorosa prática e disciplina, mas é conscientização, de momento a momento, de cada pensamento e sentimento quando ele surge na relação. A relação não está num nível abstrato, ideológico, mas na realidade, a relação com a propriedade, com pessoas e com ideias. Relação implica existência e, como nada pode viver em isolamento, ser é estar em relação. Nosso conflito é na relação, em todos os níveis de nossa existência, e a compreensão desta relação, completa e amplamente, é o único problema real que cada pessoa tem. Este problema não pode ser adiado nem evitado. Evitá-lo só cria mais conflito e miséria; fugir dele só provoca negligência, que é explorada pelos astutos e ambiciosos.

Quando consideramos relação a partir de um ponto fixo, deve haver conflito...

Para compreender o conflito, devemos compreender a relação, e a compreensão da relação não depende da memória, do hábito, do que foi ou do que deveria ser. Ela depende da conscientização sem escolha de momento a momento, e se entrarmos nisso profundamente, veremos que nessa conscientização não existe, absolutamente, processo acumulativo. No momento em que existe acúmulo, existe um ponto de onde examinar, e esse ponto é condicionado; e por isto, quando consideramos a relação de um ponto fixo, deve haver dor, deve haver conflito.

Quando eu posso olhar para você e você pode olhar para mim sem a imagem da memória, então existe relação...

Interrogante: Que relação tem o observador, meu observador, com outros observadores, com outras pessoas?

Krishnamurti: O que queremos dizer com a palavra “relação”? Já estivemos relacionados com alguém, ou a relação é entre duas imagens que criamos um do outro? Eu tenho uma imagem de você, e você tem uma imagem de mim. Tenho uma imagem de você como minha esposa ou marido, ou o que seja, e você tem uma imagem de mim também. A relação é entre estas duas imagens e nada mais. Ter relação com o outro só é possível quando não existe imagem. Quando posso olhar para você e você pode olhar para mim sem a imagem da memória, de insultos e todo o resto, então há uma relação, mas a própria natureza do observador é a imagem, não é? Minha imagem observa sua imagem, se for possível observá-la, e isto é chamado relação, mas é entre duas imagens, uma relação que não existe porque ambas são imagens. Estar em relação significa estar em contato. O contato deve ser uma coisa direta, não entre duas imagens. Isto requer muita atenção, uma conscientização, olhar o outro sem a imagem que tenho sobre a pessoa, a imagem sendo minhas memórias daquela pessoa, como ela me insultou, como me agradou, me deu prazer, isto ou aquilo. Só quando não existem imagens entre os dois, existe relação.

O autoconhecimento não é um resultado...

Compreender todo o processo de si mesmo requer constante vigilância, consciência, na ação da relação. Deve haver um olhar constante de cada incidente, sem escolha, sem condenação ou aceitação, com certo sentido de impassibilidade, de modo que a verdade de todo incidente é revelada. Mas este autoconhecimento não é um resultado, um fim. Não há fim para o autoconhecimento; ele é um constante processo de compreensão, que surge apenas quando a pessoa começa, objetivamente e vai mais e mais fundo por todo o problema do viver diário, que é o “você” e o “eu” em relação."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 29 de Novembro de 2015, 17:47
Apenas olhe sem pensamento

"Será que você já caminhou ao longo de uma rua cheia, ou uma estrada solitária, e simplesmente olhou para as coisas sem pensamento? Existe um estado de observação sem a interferência do pensamento. Embora você esteja consciente de tudo a sua volta, e reconheça a pessoa, a montanha, a árvore, ou o carro chegando, a mente não está funcionando no padrão usual do pensamento. Não sei se isto já aconteceu a você. Tente isto alguma vez quando estiver dirigindo ou caminhando. Apenas olhe sem pensamento; observe sem a reação que gera pensamento. Embora você reconheça cor e forma, embora veja o riacho, o carro, a cabra, o ônibus, não há reação, mas simplesmente observação negativa; e esse próprio estado chamado observação negativa é ação. Tal mente pode utilizar o conhecimento para executar o que ela tem que fazer, mas está livre do pensamento no sentido de que não está funcionando em termos de reação. Com tal mente, uma mente que está atenta sem reação, você pode ir ao escritório, e todo o resto.

A mente religiosa é a explosão do amor

Uma mente meditativa é silenciosa. Não é o silêncio que o pensamento pode conceber; não é o silêncio de uma tarde calma; é o silêncio de quando o pensamento, com todas as suas imagens, suas palavras e percepções, cessou inteiramente. Esta mente meditativa é a mente religiosa, a religião que não é tocada pela igreja, os templos, ou por cânticos.
A mente religiosa é a explosão do amor. É este amor que não conhece separação. Para ele, longe é perto. Não é o um ou os muitos, mas antes aquele estado de amor em que toda divisão cessa. Como a beleza, não está na medida das palavras. Só deste silêncio a mente meditativa atua.

Isto não tem técnica e, por isso, nem autoridade

A meditação é uma das grandes artes da vida, talvez a maior, e não se pode aprendê-la de ninguém. Essa é sua beleza. Ela não tem técnica e, por isso, nem autoridade. Quando você aprende sobre você mesmo, olha a si mesmo, olha o modo como anda, como come, o que diz, a fofoca, o ódio, o ciúme, se você está consciente de tudo isso em você mesmo, sem qualquer escolha, isso é parte da meditação. Então a meditação pode acontecer quando você está sentado num ônibus ou caminhando por um bosque cheio de luz e sombras, ou ouvindo o canto de pássaros ou olhando o rosto de sua esposa ou filho.

Só quando existe atrito, existe ruído

Meditação é descobrir se o cérebro, com todas as suas atividades, todas as suas experiências, pode ficar absolutamente quieto. Não forçado, pois no momento em que você força, há dualidade. A entidade que diz: “Eu gostaria de ter experiências maravilhosas, por isso devo forçar meu cérebro a ficar quieto”, nunca conseguirá fazê-lo. Mas se você começa a investigar, observar, ouvir todos os movimentos do pensamento, seu condicionamento, suas buscas, seus medos, seus prazeres, olhar como o cérebro funciona, então verá que o cérebro se torna extraordinariamente quieto; essa quietude não é sono, mas é tremendamente ativa e, portanto, quieta. Uma grande máquina que está trabalhando perfeitamente dificilmente produz um som; só quando existe atrito, existe ruído."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 29 de Novembro de 2015, 19:58
Meditação

"A percepção sem palavra, ou seja, sem pensamento, é um dos fenômenos mais estranhos. Então a percepção é muito mais acurada, não só com o cérebro, mas com todos os sentidos. Tal percepção não é a percepção fragmentada do intelecto nem a questão das emoções. Ela pode ser chamada de percepção total, e é parte da meditação. Percepção sem aquele que percebe na meditação é comungar com o elevado e a profundeza do imenso. Esta percepção é inteiramente diferente de ver um objeto sem um observador, pois na percepção da meditação não existe objeto e, assim, nem experiência. A meditação pode acontecer quando os olhos estão abertos e a pessoa está rodeada por objetos de toda espécie, mas, então, estes objetos não têm absolutamente importância. A pessoa os vê, mas não há processo de reconhecimento, o que significa que não há experiência. Que significado tem tal meditação? Não há significado; não há utilidade. Mas nessa meditação existe um movimento de grande êxtase, que não é para ser confundido com prazer. É o êxtase que dá ao olho, ao cérebro e ao coração a qualidade da inocência. Sem ver a vida como uma coisa totalmente nova, ela é uma rotina, aborrecida, e uma coisa sem sentido. Assim, a meditação é da maior importância. Ela abre a porta para o incalculável, o incomensurável."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 06 de Dezembro de 2015, 12:29
Eu começo com coisas simples

"Vendo o mundo, vendo a humanidade, o “eu”, e a necessidade de uma revolução total, radical, como é possível ocasioná-la? Ela só pode ser ocasionada quando o observador já não faz um esforço para mudar, porque ele próprio faz parte daquilo que tenta mudar. Portanto, cessa totalmente toda a ação por parte do observador, e nesta inação total existe uma ação muito diferente. Não há nada de misterioso ou místico acerca de tudo isto. É um simples fato. Eu não começo pelo limite extremo do problema, que é a cessação do observador; começo com coisas simples. Consigo olhar para uma flor na beira da estrada ou no meu quarto sem que surjam todos os pensamentos, o pensamento que diz: “É uma rosa; gosto do cheiro dela, do perfume”, e assim por diante? Consigo simplesmente observar sem o observador? Se você não tiver feito isso, faça-o, ao nível mais baixo, mais simples. Não é realmente o nível mais baixo; se souber fazer isso, você terá feito tudo."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 06 de Dezembro de 2015, 20:19
Como a pessoa percebe a totalidade de alguma coisa?

"Como a pessoa percebe a totalidade de alguma coisa? A totalidade do medo, não um pedaço do medo sob diferentes formas ou o medo do inconsciente e o consciente – no consciente e no inconsciente – mas a totalidade do medo? Você compreende? Como a pessoa percebe a totalidade do medo? Como percebo a totalidade do eu – o 'eu' construído pelo pensamento, isolado pelo pensamento, fragmentado pelo pensamento que em si mesmo é fragmentado? Então ele cria o 'eu' e pensa que o 'eu' é independente do pensamento. O 'eu' pensa que é independente do pensamento mas ele criou o 'eu' – o 'eu' com todas as suas angústias, medos, vaidades, agonias, prazeres, dor, esperanças – tudo isso. Esse 'eu' foi criado pelo pensamento. E esse 'eu' se torna independente do pensamento, pensa que tem sua própria vida - como o microfone que é criado pelo pensamento, e contudo é independente do pensamento. A montanha não é criada pelo pensamento e contudo é independente. O 'eu' é criado pelo pensamento e o 'eu' diz: "Eu sou independente do pensamento". Agora ver a totalidade – compreende? Está claro agora? Então o que é o medo totalmente – não as várias formas de medo, não as várias folhas desta árvore do medo mas a completa árvore do medo? Certo? Como a pessoa vê a totalidade do medo? Para ver alguma coisa totalmente ou ouvir alguma coisa completamente deve haver liberdade, não deve? Liberdade do preconceito, liberdade de sua conclusão, liberdade da sua busca de ser livre do medo, liberdade da racionalização do medo. Por favor, acompanhem tudo isto. Liberdade do desejo de controlá-lo – pode a mente se libertar de tudo isso? De outro modo ela não pode ver o todo. Eu tenho medo. Tenho medo por causa do amanhã, perder o emprego, medo de não ter sucesso, medo de perder minha posição, medo de ser desafiado e não ser capaz de responder, medo de perder a capacidade – todos os medos que a pessoa tem. Pode você olhar para ele – por favor ouçam – sem nenhum movimento de pensamento que é tempo, que causa medo? Vocês compreenderam alguma coisa?"

(Krishnamurti)

www.youtube.com/watch?v=-WMmpMK1Rag (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PS1XTW1wTUsxUmFnIw==)
J.Krishnamurti - Não agir é a ação mais positiva
Participantes do Diálogo:
- David Bohm (Fisíco Teórico)
- John Hidley (Pscicólogo)
- Rupert Sheldrake (Biólogo)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 08 de Dezembro de 2015, 16:03
Estar cônscio de todo o movimento do pensamento...

"Exercícios de ioga são excelentes; o orador os faz todos os dias, durante uma hora ou mais; mas eles são meramente exercícios físicos, para manter o corpo saudável, e assim por diante. Mas através deles você nunca pode chegar à outra coisa – nunca! Porque se você dá a eles toda importância, não está dando importância à compreensão de si mesmo que é estar vigilante, estar cônscio, dar atenção ao que você está fazendo, cada dia de sua vida; que é dar atenção a como você fala, e o que diz, ao que pensa, como se comporta, se é apegado, se tem medo, se está em busca de prazer e assim por diante. Estar cônscio de todo o movimento do pensamento; pois se você está e se é realmente sério a respeito disso, então terá estabelecido relação correta, obviamente. A relação se torna extraordinariamente importante quando todas as coisas estão caóticas – quando o mundo está em pedaços, como está. Mas quando há o estabelecimento de relação total, relação completa, não entre você e mim, mas relação humana com o mundo inteiro, então você tem a base. Daí você pode continuar no comportamento – como você se comporta. Se seu comportamento se baseia no prazer e no prêmio, não é comportamento. É meramente a busca de prazer de onde surge o medo. Relacionamento, comportamento e ordem são absolutamente essenciais se você quer entrar na questão da meditação. Se você não estabeleceu esta fundação, então faça o que fizer – fique de cabeça para baixo, respire durante os próximos dez mil anos e repita palavras e palavras – não haverá meditação.

Como é simples ser inocente!

Como é simples ser inocente! Sem inocência é impossível ser feliz. O prazer das sensações não é a felicidade da inocência. Inocência é liberdade do fardo da experiência. É a lembrança da experiência que corrompe, e não a experiência em si. Conhecimento, o fardo do passado, é corrupção. O poder de acumular, o esforço de tornar-se destrói a inocência; e sem inocência, como pode haver sabedoria? Os simplesmente curiosos não podem nunca conhecer a sabedoria; encontrarão, mas o que encontrarão não será verdade. Os desconfiados nunca conhecerão a felicidade, pois a desconfiança é a angústia de seu próprio ser, e o medo gera corrupção. O destemor não é coragem mas liberdade do acúmulo."

(Krishnamurti)

https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 08 de Dezembro de 2015, 17:49
Condicionamento

"Interrogante: Muito falais sobre condicionamento e dizeis que devemos libertar-nos dessa servidão, para não ficarmos aprisionados para sempre. Uma tal asserção é verdadeiramente escandalosa e inadmissível! Em geral, estamos condicionados muito profundamente e, ao ouvirmos uma declaração dessa espécie, erguemos as mãos para o alto e fugimos de tamanha extravagância! Mas, eu vos levo a sério, porque, afinal de contas, tendes dedicado vossa vida a esse trabalho, não como entretenimento, porém com profunda seriedade. Por essa razão, desejo conversar convosco, para ver até que ponto o ente humano pode descondicionar a si próprio. Isso é realmente possível e, se é, que significa? Tenho alguma possibilidade, eu, que vivo num mundo de hábitos, tradições, aceitação, de teorias ortodoxas sobre tantos assuntos - tenho alguma possibilidade de sacudir de mim esse condicionamento tão profundamente enraizado em mim? Que entendeis, exatamente, por "condicionamento", e que entendeis por "libertação do condicionamento"?

Krishnamurti: Consideremos antes a primeira pergunta. Nós estamos condicionados - fisicamente, nervosamente, mentalmente - pelo clima em que vivemos, pelos alimentos que tomamos, pela cultura em que vivemos, pela totalidade de nosso ambiente social, religioso e econômico, por nossa experiência, pela educação e por pressões e influências domésticas. São esses os fatores que nos condicionam. Nossas reações, conscientes e inconscientes, aos desafios de nosso ambiente - intelectuais, emocionais, externos e internos - representam a ação do condicionamento. A linguagem é condicionamento; todo pensamento é ação, reação do condicionamento.

Vendo-nos condicionados, inventamos um agente divino que, como piamente acreditamos, irá libertar-nos desse estado mecânico. Cremos na sua existência, fora ou dentro de nós - como atman, alma, o Reino dos Céus interior, e sabe Deus o que mais! A essas crenças nos apegamos com todas as forças, sem ver que elas próprias fazem parte do fator condicionante que supostamente irão destruir ou substituir. Assim, sentindo-nos incapazes de nos descondicionarmos, neste mundo, e sem vermos sequer que o problema é o condicionamento, pensamos que a liberdade se encontra no céu, em Moksha, no Nirvana. No mito cristão do pecado original e na doutrina oriental de Samsara, nota-se que o fator condicionante foi sentido, ainda que um tanto vagamente. Se tivesse sido visto claramente, tais doutrinas e mitos naturalmente não teriam surgido. Atualmente os psicólogos estão também lutando para resolver este problema - e condicionando-nos mais ainda. Assim, os especialistas religiosos nos condicionaram, a ordem social nos condicionou, a família - que dela faz parte - nos condicionou. Tudo isso é o passado, que constitui todas as camadas claras e ocultas da mente. En passant (1), é interessante notar que o chamado indivíduo não existe realmente, porquanto sua mente se abebera no reservatório comum de condicionamento, que ela partilha com todas as demais; por conseguinte, é falsa a divisão entre indivíduo e comunidade; há só condicionamento. Esse condicionamento está em ação em todas as relações - com coisas, pessoas e idéias.

Interrogante: Que me cabe então fazer para me livrar dele? Viver nesse estado mecânico não é viver realmente, e, todavia, toda ação, toda vontade, todo julgamento é condicionado; assim, nada posso fazer em relação ao condicionamento, nada que não esteja condicionado! Estou de pés e mãos amarrados.

Krishnamurti: O verdadeiro fator de condicionamento, no passado, no presente e no futuro, é o "eu", que pensa em função do tempo; o "eu" que se esforça, em sua necessidade de libertar-se; assim, a raiz de todo condicionamento é o pensamento, o "eu". O "eu" é a essência mesma do passado, o "eu" é tempo, o "eu" é sofrimento; o "eu" se esforça por libertar-se de si próprio, esforça-se e luta para alcançar, rejeitar, "vir a ser". Essa luta por "vir a ser" é tempo, e nela há confusão e avidez de mais e de melhor. Busca o "eu" a segurança e, não a encontrando, transfere para o Céu o objeto de sua busca; esse mesmo "eu" que, na esperança de perder sua identidade, se identifica com algo maior do que ele - a nação, o ideal ou um Deus - esse mesmo "eu" é o fator de condicionamento.

Interrogante: Tomastes-me tudo. Que sou eu sem este "eu"?

Krishnamurti: Se não há "eu", estais descondicionado, quer dizer, sois "nada".

Interrogante: Pode o "eu" terminar sem esforço do próprio "eu"?

Krishnamurti: O esforço por tornar-se alguma coisa é a reação, a ação do condicionamento.

Interrogante: Como pode deter-se a ação do "eu"?

Krishnamurti: Só poderá deter-se se o virdes em atividade. Se o virdes em ação, ou seja no estado de relação, esse ver será o fim do "eu". Esse ver, não só é uma ação não condicionada, mas também atua no condicionamento.

Interrogante: Quereis dizer que o cérebro, que é o resultado de uma imensa evolução, com seu infinito condicionamento, pode libertar-se?

Krishnamurti: O cérebro é resultado do tempo; ele está condicionado para proteger-se fisicamente, mas quando tenta proteger-se psicologicamente, começa então o "eu", e surgem as aflições. Esse esforço para proteger-se psicologicamente é a confirmação do "eu". Tecnologicamente, o cérebro pode aprender, adquirir conhecimentos, mas, quando, psicologicamente, ele adquire saber, esse saber se impõe, nas relações, como "eu", com suas experiências, sua vontade, sua violência. É esse "eu" que introduz, nas relações, a divisão, o conflito e o sofrimento."

A Luz que não se apaga - (Krishnamurti)
http://www.slideshare.net/Divinespiritvisions/a-luz-que-no-se-apaga
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 13 de Dezembro de 2015, 16:09
Compreendendo a mente

"Não estamos interessados no que você deveria ou não deveria fazer; esse não é o problema. Estamos interessados na compreensão da mente; e na compreensão não há condenação, nem exigência de um padrão de ação. Você está simplesmente observando; e a observação é negada quando você de preocupa com um padrão de ação, ou simplesmente explica a inevitabilidade de uma vida de escravidão. O que importa é observar sua própria mente sem julgamento – apenas olhar para ela, vê-la, ficar cônscio do fato que sua mente é uma escrava, e não mais; porque essa própria percepção libera energia, e é esta energia que vai destruir a escravidão da mente. Mas se você simplesmente pergunta, “Como vou me libertar de minha escravidão à rotina, do meu medo e tédio na existência diária?”, nunca vai liberar esta energia. Estamos interessados apenas em perceber o que é; e é a percepção do que é que vai liberar o fogo criativo. Você não pode perceber se não faz a pergunta correta e uma pergunta correta não tem resposta, porque ela não precisa de resposta. São as perguntas erradas que invariavelmente têm respostas. O impulso por trás da pergunta correta, sua própria urgência, traz a percepção. A mente perceptiva está viva, em movimento, cheia de energia, e só tal mente pode compreender o que a verdade é. Mas a maioria de nós, quando nos encontramos face a face com um problema deste tipo, invariavelmente buscamos uma resposta, uma solução, o “o que fazer” é muito fácil, leva a mais infortúnio, mais miséria. Esse é o caminho dos políticos. Esse é o caminho das religiões organizadas, que oferecem uma resposta, uma explicação; e tendo encontrado, a chamada mente religiosa fica satisfeita. Mas nós não somos políticos nem somos escravos de religiões organizadas. Estamos agora examinando os caminhos de nossas próprias mentes, e para isso não deve haver medo. Para descobrir sobre si mesmo, o que a pessoa pensa, o que a pessoa é, as extraordinárias profundezas e movimentos da mente – apenas para estar cônscio de tudo isso é preciso certa liberdade. E para sondar dentro de si mesmo também é preciso espantosa energia, porque a pessoa tem que viajar uma distância imensurável. A maioria de nós é fascinada pela ideia de ir à lua ou a Vênus; mas essas distâncias são muito menores do que a distância para dentro de nós mesmos.

Consciência

Poderia, por favor, explicar o que você quer dizer com consciência?

Krishnamurti: Apenas simples consciência! Consciência de seus julgamentos, seus preconceitos, seus gostos e desgostos. Quando você vê alguma coisa, esse ver é o resultado de sua comparação, condenação, julgamento, avaliação, não é? Quando lê alguma coisa você está julgando, está criticando, condenando ou aprovando. Estar consciente é ver, no exato momento, a totalidade deste processo de julgar, avaliar, as conclusões, o conformismo, as aceitações, as negações. Agora, pode a pessoa estar consciente sem tudo isso? Presentemente tudo que conhecemos é um processo de avaliação, e essa avaliação é o resultado de nosso condicionamento, de nosso substrato, de nossas influências religiosas, morais, educacionais. Essa chamada consciência é resultado de nossa memória – memória como o “eu”, o holandês, o hindu, o budista, o católico, ou o que seja. É o “eu” – minhas memórias, minha família, minha propriedade, minhas qualidades – que está olhando, julgando, avaliando. Com isso estamos bastante familiarizados, se estamos de fato alertas. Agora, pode haver consciência sem tudo isso, sem o ego? É possível apenas olhar sem condenação, apenas observar o movimento da mente, da própria mente da pessoa, sem julgar, sem avaliar, sem dizer “Isto é bom” ou “Isto é mau”? A consciência que vem do ego, que é a consciência da avaliação e do julgamento, sempre cria dualidade, o conflito dos opostos – aquilo que é e aquilo que devia ser. Nessa consciência existe julgamento, existe medo, existe avaliação, condenação, identificação. Essa é a consciência do ego, do “eu” com todas as suas tradições, memórias e todo o resto. Tal consciência sempre cria conflito entre o observador e o observado, entre o que eu sou e o que eu devia ser. Agora, é possível estar cônscio sem este processo de condenação, julgamento, avaliação? É possível olhar para mim mesmo, quaisquer que sejam meus pensamentos, e não condenar, não julgar, não avaliar? Não sei se você alguma vez já tentou isto. É bastante trabalhoso – porque todo nosso treinamento desde a infância nos leva a condenar e aprovar. E no processo de condenação e aprovação há frustração, há medo, há dor corrosiva, angústia, que é o próprio processo do “eu”, do ego."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 13 de Dezembro de 2015, 18:34
O eu não pode se tornar um eu melhor

"Como estávamos dizendo, não existe evolução psicológica. A psique não pode se tornar ou crescer para ser o que ela não é. Conceito e arrogância não podem crescer para se tornarem mais e melhores conceitos, nem pode o egoísmo, que é o quinhão comum de todos os seres humanos, se tornar mais e mais egoísta, mais e mais de sua própria natureza. É bastante assustador compreender que a própria palavra “esperança” contém a totalidade do mundo do futuro. Este movimento de “o que é” para “o que deveria ser” é uma ilusão, é realmente, se podemos usar a palavra, uma mentira. Nós aceitamos o que o homem repetiu através dos tempos como realidade, mas quando começamos a questionar, duvidar, podemos ver muito claramente, se queremos ver e não esconder atrás de alguma imagem ou alguma estrutura verbal fantasiosa, a natureza e a estrutura da psique, o ego, o “eu”. O “eu” não pode se tornar um eu melhor. Ele tentará, ele pensa que pode, mas o “eu” permanece sob formas sutis. O ego se esconde sob vários trajes, sob muitas estruturas; ele varia de tempos em tempos, mas existe sempre este ego, esta atividade egocêntrica, separativa, que imagina que um dia vai se tornar uma coisa que ela não é.

Vida

Vida não é simplesmente o “eu” em ação, mas a vida do animal, a vida da natureza, a criança esmolando na rua. Quantas vezes nós olhamos para uma árvore? Você alguma vez olha para uma árvore ou uma flor? E quando o faz, há um sentido de reverência – não para a flor que vai murchar, mas para a beleza da flor, para essa estranha coisa que é a vida? Isto significa, realmente, o completo sentido de ser humilde sem nenhum sentido de esmolar. Assim sua mente em si mesma está imóvel; então você não tem que ver alguém que está imóvel. E nessa imobilidade, não existe você e eu, existe apenas a imobilidade. E é nessa imobilidade que você vai descobrir que existe respeito, não em alguma coisa, mas em si mesmo."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 13 de Dezembro de 2015, 19:47
A verdade deve ser descoberta

"Não há caminho para a verdade. A verdade deve ser descoberta, mas não existe fórmula para sua descoberta. O que é formulado não é verdadeiro. Você deve pôr-se a caminho do mar desconhecido, e o mar desconhecido é você mesmo. Você deve pôr-se a caminho para descobrir a si mesmo, mas não de acordo com um plano ou padrão, porque então não há descoberta. A descoberta traz alegria – não a alegria relembrada, comparativa, mas a alegria que é sempre nova. O autoconhecimento é o início da sabedoria em cuja tranquilidade e silêncio está o imensurável.

Sem autoconhecimento não há inteligência

Ignorância não é a falta de conhecimento, mas de autoconhecimento; sem autoconhecimento não há inteligência. O autoconhecimento não é cumulativo como o conhecimento; aprender é de momento a momento. Não é um processo aditivo; no processo de acumular, adicionar, forma-se um centro de conhecimento, de experiência. Neste processo, positivo ou negativo, não existe compreensão, porque enquanto há uma intenção de acumular ou resistir, o movimento de pensamento e sentimento não é compreendido, não há autoconhecimento. Sem autoconhecimento não existe inteligência. Autoconhecimento é presente ativo, não um julgamento; todo autojulgamento implica uma acumulação, avaliação de um centro de experiência e conhecimento. É este passado que impede a compreensão do presente ativo. Na busca do autoconhecimento há inteligência.

Continuidade

Aquilo que tem continuidade nunca pode ser diferente daquilo que é, com certas modificações; mas estas modificações não lhe conferem novidade. Pode assumir uma aparência diferente, uma cor diferente; mas é ainda a ideia, a memória, a palavra. Este centro de continuidade não é uma essência espiritual, pois está ainda dentro do campo do pensamento, da memória e, portanto, do tempo. Isto só pode experimentar sua própria projeção, e através de sua experiência autoprojetada dá a si mesmo mais continuidade. Assim, enquanto isto existir, não pode experimentar além de si mesmo. Isto deve morrer; deve deixar de conferir continuidade a si mesmo através da ideia, da memória, da palavra. Continuidade é decadência, e só existe vida na morte. Existe renovação apenas com a cessação do centro; então renascer não é continuidade; então a morte é como a vida, uma renovação de momento a momento. Esta renovação é criação."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 14 de Dezembro de 2015, 23:54
Ambição é corrupção

"Enquanto houver o desejo de ganhar, obter, se tornar, em qualquer nível, inevitavelmente haverá angústia, sofrimento, medo. A ambição de ser rico, de ser isto ou aquilo, se afasta apenas quando vemos a podridão, a natureza corruptora da ambição em si. No momento em que vemos que o desejo de poder sob qualquer forma – o poder de um primeiro ministro, de um juiz, um sacerdote, um guru – é fundamentalmente pernicioso, nós não mais vamos ter o desejo de ser poderosos. Mas nós não vemos que a ambição é corrupta, que o desejo de poder é pernicioso; ao contrário, dizemos que devemos usar o poder para o bem, o que é tudo tolice. Um meio errado nunca pode ser usado para um fim correto. Se o meio é pernicioso, o fim será também pernicioso. O bem não é o oposto do mal; ele só se manifesta quando aquilo que é mal cessa completamente. Assim, se não compreendemos toda a significação do desejo, com seus resultados, seus subprodutos, simplesmente tentar se livrar do desejo não tem significado.

O pensador não está separado do pensamento

É possível não dar nome a um sentimento? Porque ao chamar um sentimento particular de “raiva”, “medo”, “ciúme”, nós lhe damos força, não damos? Nós o fixamos. O próprio nomear é um processo de confirmar esse sentimento, dar força e, portanto, anexá-lo na memória. Observe e você verá. É possível ficar livre fundamentalmente apenas quando o processo de nomear é compreendido – nomear sendo designar, simbolizar, que é a ação da memória; porque memória é o “você”. Sem sua memória, sem suas experiências, o “você” não existe; e a mente se prende àquelas experiências como essenciais para estar segura. Assim, cultivamos a memória, que é experiência, conhecimento, e através desse processo esperamos controlar as reações e sentimentos que chamamos de distorções. Para ficarmos livres de alguma qualidade particular, devemos compreender todo o processo de pensador e do pensamento, devemos ver a verdade que o pensador não é separado do pensamento, mas que eles são um único processo unitário. Se você realmente percebe isso, verá que extraordinária revolução acontece em sua vida. Por revolução não quero dizer revolução econômica, que não é de fato revolução, mas simplesmente a continuidade modificada do que é. Mas quando o pensador percebe que ele não é diferente do pensamento, então você verá que radicalmente, profundamente, há uma extraordinária transformação, e não a versão daquele fato para se ajustar ao pensador."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 15 de Dezembro de 2015, 00:08
A flor não é nenhuma destas coisas

"Há uma flor na beira do caminho, uma coisa clara e brilhante aberta para os céus; o sol, as chuvas, a escuridão da noite, os ventos e trovões e o solo tomaram parte na criação daquela flor. Mas a flor não é nenhuma destas coisas. Ela é a essência de todas as flores. A liberdade da autoridade, da inveja, medo da solidão não vai trazer aquela unicidade, com sua extraordinária austeridade. Isto chega quando o cérebro não está procurando; chega quando suas costas estão viradas para ele. Então nada pode ser acrescentado a isto ou tirado disto. Então, isto tem sua vida própria, um movimento que é a essência de toda vida, sem tempo e espaço."

(Krishnamurti)

www.youtube.com/watch?v=mB9Prb8EYhU (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PW1COVByYjhFWWhVIw==)
J.Krishnamurti - Díálogo com Budistas 1 - "Estamos todos presos na idéia de progresso"
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 15 de Dezembro de 2015, 00:22
A mente meditativa

"Se você diz: “Hoje vou começar a controlar meus pensamentos, sentar calmamente na posição de meditação, respirar regularmente” – então você está preso nos truques com os quais a pessoa se ilude. Meditação não é uma questão de ficar absorto em alguma ideia grandiosa ou imagem: isso apenas aquieta a pessoa por um momento, como uma criança fica absorta com um brinquedo por um tempo. Mas logo que o brinquedo perde o interesse, a inquietude e a travessura começam novamente. Meditação não é a busca de um caminho invisível que leva a uma benção imaginária. A mente meditativa está vendo, observando, ouvindo sem a palavra, sem comentário, sem opinião – atenta ao movimento da vida em todas as suas relações ao longo do dia. E à noite, quando todo o organismo está em repouso, a mente meditativa não tem sonhos porque esteve desperta o dia todo. Só o indolente tem sonhos; apenas o semi-adormecido precisa da intimação de seus próprios estados. Mas quando a mente observa, ouve os movimentos da vida, o exterior e o interior, para tal mente chega o silêncio que não é criado pelo pensamento."

(Krishnamurti)

www.youtube.com/watch?v=Egsl2zBaD4w (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PUVnc2wyekJhRDR3Iw==)
J Krishnamurti - O começo da meditação (legendado)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 15 de Dezembro de 2015, 21:59
Meditação

"A percepção sem palavra, ou seja, sem pensamento, é um dos fenômenos mais estranhos. Então a percepção é muito mais acurada, não só com o cérebro, mas com todos os sentidos. Tal percepção não é a percepção fragmentada do intelecto nem a questão das emoções. Ela pode ser chamada de percepção total, e é parte da meditação. Percepção sem aquele que percebe na meditação é comungar com o elevado e a profundeza do imenso. Esta percepção é inteiramente diferente de ver um objeto sem um observador, pois na percepção da meditação não existe objeto e, assim, nem experiência. A meditação pode acontecer quando os olhos estão abertos e a pessoa está rodeada por objetos de toda espécie, mas, então, estes objetos não têm absolutamente importância. A pessoa os vê, mas não há processo de reconhecimento, o que significa que não há experiência. Que significado tem tal meditação? Não há significado; não há utilidade. Mas nessa meditação existe um movimento de grande êxtase, que não é para ser confundido com prazer. É o êxtase que dá ao olho, ao cérebro e ao coração a qualidade da inocência. Sem ver a vida como uma coisa totalmente nova, ela é uma rotina, aborrecida, e uma coisa sem sentido. Assim, a meditação é da maior importância. Ela abre a porta para o incalculável, o incomensurável."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 16 de Dezembro de 2015, 20:10
Quem vê o medo?

"“Tenho medo”. Está separado do medo, como que “do lado de fora” ; e, então, consciente ou inconscientemente, procura atuar sobre ele. Mas, o observador difere da coisa observada? Se fosse diferente, não poderia reconhecê-la. O observador conhece, reconhece o sentimento de vazio, de solidão e, porque o reconhece, dele faz parte. O observador que reconhece o medo, já sabe o que é o medo; do contrário, não poderia reconhecê-lo.
Que pode então fazer o observador, que observa, que é o vazio, que é a solidão? Por favor, não respondais intelectualmente. Até agora, o observador tratou de fazer alguma coisa em relação ao sentimento porém, subitamente, percebeu que essa solidão é ele próprio. Que pode fazer? Evidentemente, nada pode fazer. Há então inação total, porquanto o observador nada pode fazer; e, como resultado dessa total inação, a coisa que era (existia) já não é. Essa é a ação mais positiva. Antes, a ação positiva consistia em fugir ao que é. “O que é” é o observador, aquele que vê. O observador nada pode fazer em relação a ele, porque “o que é” é ele próprio."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 19 de Dezembro de 2015, 01:48
Meditação

"Pobreza é estar completamente livre da sociedade, mesmo possuindo algumas roupas e tomando menos refeições - meu Deus! Que importa isso? Mas, infelizmente, na maioria das pessoas existe esse impulso para o exibicionismo.
A pobreza se torna uma coisa maravilhosa e bela, quando a mente está livre da sociedade. Temos de ser pobres interiormente, porque então não há mais buscar, nem indagar, nem desejar, nem - nada! Só essa pobreza interior pode ver a verdade existente numa vida completamente sem conflito. Tal vida é uma bênção não encontrável em nenhuma igreja ou templo."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 20 de Dezembro de 2015, 13:30
Meditação

"Pergunta: A reencarnação explica muito do que de outra forma está cheio de mistério e de confusão na vida. Mostra, entre outras coisas, que as relações pessoais grandemente estimadas de uma qualquer encarnação não continuam necessariamente na seguinte. Assim, estranhos são por sua vez relações nossas e vice-versa; isto revela a afinidade da alma humana, um facto que, se devidamente compreendido, deveria ser vantajoso para a verdadeira fraternidade. Por isso, se a reencarnação é uma lei natural e o senhor sabe que assim é; ou, igualmente, se sabe que não existe tal lei, porque não dizê-lo? Porque é que prefere sempre deixar, nas suas respostas, este assunto tão importante e interessante rodeado com o halo de mistério?

Krishnamurti: Não acho que seja importante; não acho que resolva nada fundamentalmente. Não acho que os faça compreender essa unidade fundamental, viva, única, que não é a unidade da uniformidade. Vocês dizem, “Eu casei com alguém na vida passada, e estou casado com uma pessoa diferente nesta vida; não ocasiona isto um sentimento de fraternidade, ou de afecto, ou de unidade?” Que maneira extraordinária de pensar! Preferem a fraternidade de um mistério à fraternidade da realidade. Seriam afectuosos devido ao relacionamento, não porque o afecto é natural, espontâneo, puro. Querem acreditar porque a crença os conforta. Eis porque há tantas diferenças de classes, guerras, e a utilização constante dessa palavra absurda “tolerância”. Se não tivessem nenhuma divisão de crenças, nenhum conjunto de ideais, se fossem realmente seres humanos completos, então haveria verdadeira fraternidade, verdadeiro afecto, não esta coisa artificial a que chamam fraternidade.

Tratei da questão da reencarnação tantas vezes que agora falarei dela apenas brevemente. Podem não considerar de nenhum modo o que digo; ou podem examiná-lo, conforme quiserem. Receio que o não considerem – embora isso não importe – porque estão comprometidos com determinadas ideias, com determinadas organizações, limitados pela autoridade, pelas tradições.

Para mim, o ego, essa consciência limitada, é o resultado do conflito. Inerentemente não tem valor; é uma ilusão. Nasce através da falta de compreensão que por sua vez cria conflito, e deste conflito cresce a auto-consciência ou a consciência limitada. Não podem aperfeiçoar essa auto-consciência através do tempo; o tempo não liberta a mente dessa consciência, Por favor não se enganem; o tempo não os libertará desta auto-consciência, porque o tempo é apenas a protelação da compreensão. Quanto mais protelarem uma acção, menos a compreenderão. Só estão conscientes quando há conflito; e no êxtase, na verdadeira percepção, há acção espontânea em que não há conflito. Não estão então conscientes de vocês próprios como uma entidade, como o “eu”. Contudo desejam proteger essa acumulação de ignorância a que chamam o “eu”, essa acumulação da qual brota a ideia de mais e mais, esse centro de desenvolvimento que não é a vida, que é apenas uma ilusão. Portanto enquanto contam com o tempo para originar perfeição, a auto-consciência apenas cresce. O tempo nunca os libertará dessa auto-consciência, dessa consciência limitada. O que libertará a mente é a plenitude de compreensão na acção; isto é, quando a vossa mente e coração estiverem a actuar harmoniosamente, quando já não forem preconceituosos, acorrentados a uma crença, limitados por um dogma, pelo medo, pelos falsos valores, então haverá liberdade. E essa liberdade é o êxtase da percepção.

Sabem, seria realmente de grande interesse se um de vocês que acredita tão fundamentalmente na reencarnação discutisse o assunto comigo. Discuti-o com muitas pessoas, mas tudo o que elas são capazes de dizer é, “Nós acreditamos na reencarnação, ela explica tantas coisas”; e isso resolve a questão. Não se pode discutir com pessoas que estão convencidas das suas crenças, que têm a certeza do seu conhecimento. Quando um homem diz que sabe, o assunto terminou; e vocês adoram o homem que diz, “Eu sei”, porque a sua declaração positiva, a sua certeza, lhes dá conforto, refúgio.

Se acreditam na reencarnação ou não parece-me um assunto muito trivial; essa crença é como um brinquedo, é agradável; não resolve coisa nenhuma, porque é apenas uma protelação. É apenas uma explicação, e as explicações são como a poeira para o homem que está à procura. Mas infelizmente estão sufocados com a poeira, têm explicações para tudo. Para cada sofrimento têm uma explicação lógica, conveniente. Se um homem é cego, tornam compreensível o seu duro fado nesta vida pela reencarnação. As desigualdades na vida explicam-nas satisfatoriamente pela reencarnação, pela ideia de evolução. Portanto, com as explicações, vocês resolveram as muitas questões respeitantes ao homem, e deixaram de viver. A plenitude da vida impede todas as explicações. Para o homem que está realmente a sofrer, as explicações são o mesmo que pó e cinzas. Mas para o homem que procura conforto, as explicações são necessárias e excelentes. Não existe tal coisa como o conforto. Existe só compreensão, e a compreensão não está limitada por crenças ou por certezas.

Vocês dizem, “Eu sei que a reencarnação é verdade.” Bem, e depois? A reencarnação, isto é, o processo de acumulação, de crescimento, de obtenção, é apenas o fardo do esforço, a continuação do esforço; e eu afirmo que há uma maneira de viver espontaneamente, sem esta luta constante, e essa é pela compreensão, que não é o resultado da acumulação do desenvolvimento. Esta compreensão, esta percepção, vem àquele que não está limitado pelo medo, pela auto-consciência."

A Arte de Escutar - (Krishnamurti)
http://www.jiddu-krishnamurti.net/pt/krishnamurti-a-arte-de-escutar/1934-01-03-krishnamurti-a-arte-de-escutar
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 21 de Dezembro de 2015, 17:39
Meditação

“A revolução só é possível agora, não no futuro; a regeneração é hoje, não amanhã. Se você quiser experimentar o que eu estou dizendo, encontrará regeneração imediata, uma novidade, uma qualidade de frescor; porque a mente está sempre tranquila quando está interessada, quando deseja ou quando tem a intenção de entender. A dificuldade com a maioria de nós é que não temos a intenção de entender, porque temos medo que, se entendermos, isso pode trazer uma ação revolucionária na nossa vida, e então resistimos. É o mecanismo de defesa que está em ação quando nós usamos o tempo ou um ideal como meio de transformação gradual.

Assim a regeneração só é possível no presente, não no futuro, não amanhã. Um homem que se apoia no tempo como meio pelo qual pode conquistar felicidade ou realizar a verdade ou Deus está simplesmente decepcionando a si mesmo; está vivendo na ignorância e portanto em conflito. Um homem que vê que o tempo não é o caminho para fora da dificuldade e que portanto está livre do falso, tal homem naturalmente tem a intenção de entender; portanto sua mente está quieta espontaneamente, sem compulsões, sem prática. Quando a mente está parada, tranquila, sem procurar qualquer resposta ou qualquer solução, nem resistindo ou evitando – é somente então que pode haver regeneração, porque então a mente é capaz de perceber o que é verdade; e é a verdade que liberta, não seu esforço de ser livre."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 21 de Dezembro de 2015, 20:30
A ilusão de ser diferente

"Um ser humano é, psicologicamente, a humanidade inteira. Ele não só a representa: ele é a totalidade da espécie humana. Ele é essencialmente toda a psique da humanidade. Contra essa realidade, várias culturas impuseram a ilusão de que cada ser humano é diferente. Nessa ilusão a humanidade tem sido presa durante séculos, e essa ilusão acabou se tornando uma realidade. Se a pessoa observar de perto toda a estrutura psicológica de si mesma, descobrirá que, quando uma pessoa sofre, toda a humanidade sofre em graus variados. Se você é solitário, a humanidade inteira conhecerá essa solidão. A agonia, o ciúme, a inveja e o medo são conhecidos de todos. Portanto, psicologicamente, interiormente, uma pessoa é como a outra. Pode haver diferenças em termos físicos e biológicos; uma pessoa é alta, baixa, etc., mas, basicamente, uma pessoa é o representante de toda a humanidade. Assim, psicologicamente você é o mundo; você é responsável por toda a humanidade, e não por si mesmo como ser humano à parte, o que é uma ilusão psicológica... Se compreende todo o significado do fato de que uma pessoa é psicologicamente o mundo, então a responsabilidade se torna amor irresistível.

A mente – a consciência como a conhecemos - pode estar livre do seu conteúdo?

É muito importante entender isto, não como esvaziar a consciência de seu conteúdo, mas se dar conta dele primeiro. Perceber, estar ciente implica observar o mundo como ele é, conhecer o mundo, as árvores, a natureza, a beleza e a feiúra, perceber o seu vizinho, o que ele ou ela está usando, e também perceber o que você é, interiormente. E se você ficar assim perceptivo, você verá que há uma grande quantidade de reações nesta percepção, gostar e desgostar, punição e recompensa. Você pode estar consciente sem nenhuma escolha – uma percepção sem escolha -, apenas perceber sem escolher, sem preconceito? Perceber totalmente a sua consciência, o que significa também: o pensamento pode, o seu pensar, tornar-se consciente de si mesmo?

O cérebro é como um computador. Está registrando, registrando as suas experiências, suas esperanças, seus desejos, suas ambições, está registrando cada impressão, e dessa impressão, desse registro, nasce o pensamento. Agora, estamos perguntando, pode haver uma percepção do pensamento nascendo, surgindo, como você pode perceber a sua raiva surgindo? Você pode percebê-la, não pode? Do mesmo jeito que você pode perceber a raiva “subindo”, você pode perceber o pensamento começando?

O que significa estar consciente da coisa florescendo, crescendo.

Da mesma forma, há uma percepção da sua consciência, da totalidade dela? Isto é parte da meditação. Isto é a essência da meditação – estar consciente, sem qualquer escolha, do mundo fora de você e do imenso conflito do mundo dentro de você."

 (Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 24 de Dezembro de 2015, 20:42
O apego invariavelmente produz medo

"A pessoa pode depender da crença, ou de uma experiência, ou de uma conclusão apegada a um preconceito particular; quão profundamente este apego vai? Não sei se você já observou isto em si mesmo. Estivemos olhando isto o dia todo, para descobrir se existe alguma forma de apego vindo aqui regularmente, vivendo num chalé particular, indo de um país para outro, falando para pessoas, sendo visto, criticado, exposto. Se a pessoa olhou ao longo do dia, descobre naturalmente quão profundamente está apegada a alguma coisa ou a alguém, ou não realmente. Se existe qualquer forma de apego – não importa qual seja – a um livro, a uma dieta particular, a um padrão particular de pensamento, a uma responsabilidade social – tal apego invariavelmente produz medo. E uma mente que está amedrontada, embora ela possa não saber que é porque está apegada, obviamente não é livre e deve, portanto, viver em constante estado de conflito. A pessoa pode ter um dom particular, como um músico, que é tremendamente apegado a seu instrumento ou ao cultivo de sua voz. E quando o instrumento ou a voz falha, ele fica completamente perdido, seus dias acabaram. Ele pode pôr no seguro suas mãos ou seu violino, ou pode se tornar maestro, mas ele sabe pelo apego que a inevitável escuridão do medo está esperando. Pergunto se cada um de nós – se somos realmente sérios – examinou esta questão, porque liberdade significa liberdade de todo o apego e, portanto, de toda dependência. Uma mente que está apegada não é objetiva, clara, não pode pensar sensatamente e observar diretamente.

O que é morte?

O que é morte? Certamente, é a completa cessação de tudo que você conheceu. Se não é a cessação de tudo que você conheceu, não é morte. Se você já conhece a morte, então não há nada para temer. Mas você conhece a morte? Isto é, pode você enquanto está vivendo dar um fim a esta eterna luta para encontrar no impermanente alguma coisa que continuará? Pode você conhecer o desconhecido, esse estado que chamamos morte, enquanto vive? Pode você deixar de lado todas as descrições do que acontece depois da morte que você leu em livros, ou que seu desejo inconsciente por conforto dita, e prova ou experimenta esse estado, que deve ser extraordinário, agora? Se esse estado pode ser experimentado agora, então viver e morrer são o mesmo."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 25 de Dezembro de 2015, 21:27
Que coisa estranha é a solidão

"Que coisa estranha é a solidão, e como é assustadora! Nós nunca nos permitimos ficar perto dela; e se por acaso o fazemos, rapidamente fugimos. Faremos qualquer coisa para fugir da solidão, para encobri-la. Nossa preocupação consciente e inconsciente parece ser evitá-la ou superá-la. Evitar e superar a solidão são igualmente fúteis; embora suprimida ou negligenciada, a dor, o problema, está ainda ali. Você pode se perder numa multidão, e estar completamente sozinho; pode estar intensamente ativo, mas a solidão silenciosamente se insinua sobre você; baixe o livro, e lá está ela. Diversões e bebidas não podem sufocar a solidão; você pode temporariamente esquivar-se dela, mas quando o riso e os efeitos do álcool acabam, o medo da solidão volta. Você pode ser ambicioso e bem sucedido, pode ter grande poder sobre os outros, pode ser rico de conhecimento, você pode adorar e esquecer de si mesmo no palavrório dos rituais; mas faça o que fizer, a dor da solidão continua. Você pode existir apenas para seu filho, para o Mestre, para a expressão de seu talento; mas como a escuridão, a solidão cobre você. Você pode amar ou odiar, escapar dela de acordo com seu temperamento e demandas psicológicas; mas a solidão está lá, esperando e observando, afastando-se apenas para aproximar-se novamente.

Entrando em contato com a morte

Se você é realmente sério para descobrir as implicações da morte, então tem que entrar em contato com esse fato da morte, de fato entrar em contato com ele – não teoricamente, não como alguma coisa que você vai ter que encarar, mas antes ficando diretamente em contato com ela, morrer. Morrer – quero dizer com essa palavra, chegar ao fim de todas as coisas que você conheceu psicologicamente, suas experiências, seus prazeres, morrer – todo dia. De outro modo, você nunca saberá o que a morte é; pois é apenas no morrer que existe alguma coisa nova, não na continuação do antigo. A maioria de nós está muito oprimida pelo conhecido, pelo ontem, pelas memórias, pelo “eu”, o “ego”, que não é nada mais que um feixe de memórias acumuladas ontem, não tendo existência real em si mesma. Morrer para essas memórias; de fato morrer para um prazer sem nenhum argumento. Se você sabe o que é morrer para um prazer, para alguma coisa que lhe deu grande prazer – sem argumento, sem adiamento, sem nenhum sentido de ressentimento, amargura – é isso que vai acontecer quando você morrer. E morrer todo dia, para tudo que você acumulou psicologicamente, é estar totalmente renascido. Se você não morre desse jeito, então terá o problema contínuo desta memória que você acumulou com o “eu” e a atividade autocentrada que nos permitimos – o pensamento de “minha casa”, “minha família”, “meu livro”, “minha fama”, “minha solidão” – você sabe, essa pequena entidade que se movimenta incessantemente dentro de si mesma, com seu próprio padrão limitado de existência. Isso continuará? – compreende? – esse é o problema que temos. Ou a pessoa sabe como morrer todo dia, e morrendo de fato, a mente fica fresca, instantânea, zelosa, tremendamente viva, ou, há este feixe de memórias, de atividade autocentrada, com todos os seus pensamentos, busca de realização, querendo ser alguma coisa, imitando, copiando. Toda essa rede de pensamento – isso continuará? – é isso que queremos que continue. Dizemos, pelo menos, se eu não tiver me realizado nesta vida, talvez na próxima me realize.

Morrer é saber o que o amor é

Discutimos a “necessidade” outro dia. Nós precisamos de certos confortos físicos, alimento e abrigo; mas fazer demandas psicológicas na vida significa que você está implorando, que você tem medo. Ficar sozinho requer uma intensa energia. Compreender isto não é uma questão de pensar a respeito. Só existe compreensão quando não há escolha, nem julgamento, mas apenas observação. Morrer todo dia significa não trazer de ontem todas as suas ambições, queixas, suas memórias de realização, suas aversões, seu ódio. Muitos de nós definham, mas isso não é morrer. Morrer é saber o que o amor é. O amor não tem continuidade nem amanhã. O quadro de uma pessoa na parede, a imagem em sua mente – isso não é amor, é simplesmente memória. Como o amor é o desconhecido, também a morte é o desconhecido. E para entrar no desconhecido, que é a morte e o amor, a pessoa deve primeiro morrer para o conhecido. Só então a mente está fresca, jovem, inocente; e nisso não há morte."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 26 de Dezembro de 2015, 18:56
Meditação

"Pergunta: Acredita na reencarnação? É um facto? Pode dar-nos provas da sua experiência pessoal?

Krishnamurti: A ideia da reencarnação é tão velha como as colinas; é a ideia de que o homem, através de muitos renascimentos, passando através de inúmeras experiências, chegará finalmente à perfeição, à verdade, a Deus. Ora bem, o que é que renasce, o que é que continua? Para mim, essa coisa que se supõe continuar nada mais é que uma série de camadas de memória, de determinadas qualidades, de determinadas acções incompletas que foram condicionadas, impedidas pelo medo nascido da auto-protecção. Ora essa consciência incompleta é o que nós chamamos o ego, o “eu”. Conforme expliquei no início da minha breve conversa introdutória, a individualidade é a acumulação dos resultados de várias acções que foram impedidas, entravadas por determinados valores herdados e adquiridos, pelas limitações. Espero não estar a tornar isto muito complicado e filosófico. Tentarei torná-lo simples.

Quando falam do “eu”, querem dizer com isso um nome, uma forma, determinadas ideias, certos preconceitos, determinadas distinções de classe, qualidades, preconceitos religiosos, etc., que foram desenvolvidos através do desejo de auto-protecção, de segurança, de conforto. Portanto, para mim, o “eu”, baseado numa ilusão, não tem realidade. Por isso a questão não é saber se existe a reencarnação, se há uma possibilidade de um crescimento futuro, mas se a mente e o coração se podem libertar desta limitação do “eu”, do “meu”.

Perguntam-me se eu acredito ou não na reencarnação porque esperam que através da minha certeza possam adiar a compreensão e a acção no presente, e que eventualmente chegarão a realizar o êxtase da vida ou a imortalidade. Querem saber se, sendo forçados a viver num meio condicionado com oportunidades limitadas, chegarão alguma vez através da infelicidade e do conflito a compreender esse êxtase da vida, a imortalidade. Como se está a fazer tarde tenho que expor o assunto brevemente, e espero que reflictam sobre ele.

Ora eu digo que a imortalidade existe, para mim é uma experiência pessoal; mas ela só pode ser compreendida quando a mente não estiver a contar com um futuro no qual viva com mais perfeição, mais completamente, mais ricamente. A imortalidade é o presente infinito. Para compreender o presente com o seu significado pleno, rico, a mente tem que estar livre do hábito da aquisição auto-protectora; quando estiver totalmente despida, só então há imortalidade.

Há, pois, um percebimento imediato da totalidade da consciência

Não sei se já notastes que no momento em que se vê algo sem o pensamento, não há observador: não há observação. Quando olhais para uma nuvem, sem vossas lembranças acumuladas relativas às nuvens, estais apenas observando. Da mesma maneira temos de observar o inconsciente; e quando observais assim, negativamente, existe inconsciente? Não apagastes completamente o inconsciente com todo o seu conteúdo? Há, pois, um percebimento imediato da totalidade da consciência. Mas não podereis ver a totalidade da consciência enquanto estiverdes observando através de vosso condicionamento, através da experiência acumulada no passado. Ao chegardes a esse ponto — e deveis chegar —, tereis lançado as bases da meditação; porque tereis então eliminado completamente o sofrimento. Isso não significa que não haverá mais compaixão. Mas tereis eliminado o sofrimento, que embota e insensibiliza a mente; sofrimento que significa compaixão de si mesmo, preocupação consigo mesmo, que nenhuma relação tem com a verdadeira compaixão."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
http://www.jiddu-krishnamurti.net/pt/krishnamurti-o-que-e-a-accao-correcta/1935-04-17-krishnamurti-o-que-e-a-accao-correcta
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 26 de Dezembro de 2015, 20:37
Apego

"Nós somos as coisas que possuímos, somos aquilo a que estamos apegados. Não há nobreza no apego. O apego ao conhecimento não é diferente de nenhum outro vício gratificante. O apego é interesse por si mesmo, seja no nível mais baixo ou no mais elevado. Apego é iludir-se a si mesmo, é uma fuga do vazio do ego. As coisas às quais nos apegamos – propriedade, pessoas, ideias – se tornam importantíssimas, pois sem as muitas coisas que preenchem seu vazio, o ego não existe. O medo de não ser causa a possessão; e o medo gera ilusão, a escravidão às conclusões. As conclusões, materiais ou ideológicas, impedem a fruição da inteligência, a liberdade onde a realidade pode surgir e sem esta liberdade, esperteza é considerada como inteligência. Os caminhos da esperteza são sempre complexos e destrutivos. É essa esperteza autoprotetora que causa o apego; e, quando o apego causa dor, é esta mesma esperteza que busca o desapego e encontra prazer no orgulho e na vaidade da renúncia. A compreensão dos caminhos da esperteza, dos caminhos do ego, é o começo da inteligência.

Negar toda moralidade é ser moral

Negar toda moralidade é ser moral, pois a moralidade aceita é a moralidade da respeitabilidade, e receio que todos nós ansiamos por ser respeitáveis – que é sermos reconhecidos como bons cidadãos numa sociedade podre. A respeitabilidade é muito útil e assegura a você um bom emprego e um salário regular. A moralidade aceita da ganância, inveja e ódio é o caminho do instituído. Quando você nega totalmente tudo isto, não com seus lábios, mas com seu coração, então você é realmente moral. Pois esta moralidade brota do amor e não de algum motivo de lucro, de aquisição, de lugar na hierarquia. Não pode haver este amor se você pertence a uma sociedade na qual você quer ter fama, reconhecimento, uma posição. Desde que não existe amor nisto, sua moralidade é imoralidade. Quando você nega tudo isso do fundo de seu coração, então existe uma virtude que está rodeada de amor."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 27 de Dezembro de 2015, 22:20
Meditação

"Não sei se alguma vez observastes um pássaro a voar, uma folha a cair, o sol ou a lua reflectidos na água. Se já o fizestes, se vistes a beleza disso, tereis percebido que nesse momento o tempo não existe. E essa beleza está ali, infinitamente - pura, incorruptível, intemporal. Identicamente, a mente religiosa é isso. E só essa mente pode receber o Imenso, o Inominável."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 28 de Dezembro de 2015, 20:38
Quando você vê uma coisa bela, há imediata alegria

"Quando você vê uma coisa bela, há imediata alegria; você vê um pôr-do-sol e há imediatamente uma reação de alegria. Essa alegria, alguns momentos depois, se torna memória. Essa memória da alegria é uma coisa viva? A memória do pôr-do-sol é uma coisa viva? Não, é uma coisa morta. Assim, com essa morte impressa de um pôr de sol, através disso, você quer encontrar alegria. A memória não tem alegria; é apenas a recordação de alguma coisa que criou a alegria. A memória em si não tem alegria. Existe alegria, a imediata reação à beleza de uma árvore; e, então, a memória chega e destrói essa alegria. Assim, se há constante percepção da beleza sem o acúmulo de memória, então existe a possibilidade de eterna alegria. Mas não é tão fácil libertar-se da memória. No momento em que você vê alguma coisa muito agradável, imediatamente a transforma em uma coisa que você pode segurar. Você vê uma coisa bela, uma bela criança, uma bela árvore e quando a vê há prazer imediato; aí você quer mais daquilo. O mais daquilo é a reação da memória. Assim, quando quer mais, você já iniciou o processo de desintegração. Nisso não existe alegria. A memória não pode produzir alegria duradoura. Existe alegria duradoura apenas quando há constante resposta à beleza, à feiura, a todas as coisas – o que significa, grande sensibilidade interna e externa, ou seja, ter amor verdadeiro.

Não existe amor em seus corações

A maioria das pessoas é infeliz; e elas são infelizes porque não existe amor em seus corações. O amor nascerá em seu coração quando não houver barreira entre você e o outro, quando você encontrar e observar as pessoas sem julgá-las, quando você simplesmente vir o barco no rio e apreciar a beleza dele. Não deixe seus preconceitos sombrearem sua observação das coisas como elas são; apenas observe, e você descobrirá que a partir desta simples observação, a partir desta consciência das árvores, dos pássaros, das pessoas caminhando, trabalhando, sorrindo, alguma coisa acontece dentro de você. Sem esta coisa extraordinária acontecer a você, sem o nascer do amor em seu coração, a vida tem muito pequeno significado; e é por isso que é tão importante que o educador possa ser educado para ajudar você a compreender o significado de todas estas coisas."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 10 de Janeiro de 2016, 02:00
Meditação

"É preciso, portanto, descobrir o que vem a ser aprender. Em primeiro lugar, quero aprender se é possível me libertar do pensamento — e não como utilizar o pensamento. Essa é a próxima pergunta. Mas poderá a mente chegar a ser livre do pensamento? E o que significa essa liberdade? Só conhecemos a liberdade de alguma coisa — estar livre do medo, disto ou daquilo, da ansiedade, de uma dúzia de coisas. E existirá uma liberdade que não seja de alguma coisa, mas a liberdade em si mesma? Mas, ao fazer esta pergunta, não dependerá a resposta do pensamento? Ou será a liberdade a não-existência do pensamento? E aprender significa percepção instantânea e, portanto, não requer tempo. Não sei se vocês percebem isso. Por favor, isso é de uma importância fascinante!"

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 11 de Janeiro de 2016, 22:51
Meditação

"A liberdade não é uma reacção; a liberdade não é escolha. Liberdade é observação pura, sem direção, sem medo de punição e recompensa. A liberdade é sem motivo; liberdade não está no fim da evolução do homem, mas encontra-se no primeiro passo da sua existência. Pela observação, a pessoa começa a descobrir a falta de liberdade. A liberdade é encontrada no estar atento, sem escolha, à nossa existência e atividades diárias."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 12 de Janeiro de 2016, 22:51
Meditação

"O próprio fato de estarmos cônscios do que “é”, representa a Verdade. É a Verdade que liberta, e não a nossa luta por sermos livres. Assim, pois, não está longe de nós, a Realidade, mas nós a distanciamos, porque nos servimos dela como de um meio para a nossa própria continuidade. A Realidade está, presente aqui, neste momento, imediatamente ao nosso alcance. O eterno, o atemporal existe agora, e não pode o agora ser compreendido por aquele que está preso na rede do tempo."

(Krishnamurti)

Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 16 de Janeiro de 2016, 18:00
Meditação

"Será que a mente é capaz de ver a sua própria limitação? E poderá a própria percepção dessa limitação trazer consigo o findar dessa limitação? Será a mente capaz, não de perguntar como esvaziar a mente, mas de ver totalmente o conteúdo que constitui a consciência e de perceber, de escutar, todo o movimento dessa consciência, de tal modo que a própria percep­ção dele é o findar desse movimento? Vejo alguma coisa que é falsa; a própria percepção da falsidade é já o verdadeiro. A pró­pria percepção de que estou a dizer uma mentira é a verdade."

(Krishnamurti)

Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 16 de Janeiro de 2016, 19:59
Religião não é crença

"Religião é, certamente, a descoberta da realidade. Religião não é crença. Religião não é a busca da verdade. A busca da verdade é meramente o preenchimento da crença. Religião é a compreensão do pensador, pois o que o pensador é, ele cria. Sem compreender o processo do pensador e o pensamento, meramente ficar preso num dogma não é certamente a descoberta da beleza da vida, da existência, da verdade."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 17 de Janeiro de 2016, 00:20
Meditação

"Pergunta: Como é que podemos ajudar melhor a humanidade a compreender e a viver os seus ensinamentos?

Krishnamurti: É muito simples: vivendo-os vocês mesmos. O que é que estou a ensinar? Não lhes estou a dar um novo sistema, ou um novo conjunto de crenças; mas digo, prestem atenção à causa que gerou esta exploração, a falta de amor, o medo, as guerras contínuas, o ódio, as diferenças de classes, a divisão do homem contra o homem. A causa é, fundamentalmente, o desejo da parte de cada um de nós de se proteger através da aquisitividade, através do poder. Todos desejamos ajudar o mundo, mas nunca começamos por nós próprios. Queremos reformar o mundo, mas a mudança fundamental tem que ter lugar primeiro dentro de nós próprios. Portanto, comecem a libertar a mente e o coração deste sentido de possessividade. Isto exige, não mera renúncia, mas discernimento, inteligência."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 23 de Janeiro de 2016, 14:22
Meditação

"Portanto, para descobrir qual é a cura para o sofrimento, não procurem um remédio; mas tentem antes descobrir qual é a causa do sofrimento. Pode-se tratar superficialmente, sintomaticamente, mas dessa maneira não descobrirão a causa real, básica, fundamental; e só podem descobrir a causa do sofrimento se não estiverem a criar uma barreira pela ânsia imediata de se libertarem dessa dor. Por exemplo, se perderem alguém a quem amam muito, há sofrimento intenso. Então é-lhes oferecido um remédio – de que esse alguém vive no lado de lá, a ideia da reencarnação, etc. Vocês aceitam esse remédio para o vosso sofrimento, mas essa mágoa permanece. Essa solidão, esse vazio continua lá, só que o encobriram com uma explicação, um remédio, uma droga superficial. Ao passo que, se estivessem realmente a tentar descobrir qual é a causa desse sofrimento, então examinariam, tentariam descobrir o significado total do remédio que lhes foi oferecido, seja a ideia de que esse alguém vive no lado de lá, ou a crença na reencarnação. Nesse estado de espírito, quando há sofrimento, há agudeza de pensamento, há um intenso questionamento; e este intenso questionamento é o que realmente causa sofrimento. Não é? Se vivessem com a vossa mulher, com o vosso irmão, ou com alguém, e esse irmão, ou mulher, ou amigo tivesse morrido, então estariam cara a cara com a vossa própria solidão, o que cria na vossa mente a atitude de questionamento – a plena consciência dessa solidão. Esse momento de consciência intensa, de consciência plena, é o momento de descobrir qual é a causa do sofrimento.

Ora, para mim, para descobrir a causa do sofrimento, tem que haver esse estado intenso de mente e coração que está à procura, que está a tentar descobrir. Nesse estado, verão que a mente e o coração se tornaram escravos do meio. A mente, na grande maioria das pessoas, nada mais é que o meio. A mente e o coração são o meio, dependendo do seu estado; e enquanto a mente for escrava do meio, tem que haver sofrimento, tem que haver conflito contínuo do indivíduo contra a sociedade; e o indivíduo só se libertará do meio quando, questionando o meio, conquistar a limitação que lhe foi colocada pelo meio. Isto é, só quando compreendem o verdadeiro significado de cada meio, o verdadeiro valor do meio que foi colocado em vosso redor pela sociedade, pelas religiões, é que penetram através da limitação imposta, e em consequência nasce a verdadeira inteligência.

Afinal, é-se infeliz porque não há inteligência, que é compreensão. Quando compreendem uma coisa deixam de estar em conflito, deixam de estar limitados por aquilo que lhes foi imposto pela autoridade, pela tradição, por preconceitos profundamente enraizados. Portanto a inteligência é necessária para se ser extremamente feliz e para despertar essa inteligência a mente tem que estar livre do meio. As inumeráveis encrustações criadas pelas religiões e pela sociedade, através dos tempos, tornaram-se o nosso meio. Só se podem libertar do meio, que os indivíduos criaram, quando compreenderem os seus padrões, os seus valores, os seus preconceitos, as suas autoridades. E então começam a descobrir qual é a causa fundamental do sofrimento, que é a falta de verdadeira inteligência, e essa inteligência não se descobre por nenhum processo milagroso mas sim estando continuamente conscientes, e portanto questionando continuamente, tentando descobrir o falso e o verdadeiro no meio colocado em nosso redor."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 23 de Janeiro de 2016, 17:03
Meditação

"Para a compreensão de si mesmo, tem de haver observação, e essa observação só pode acontecer no agora. E não deve ser o passado a observar o agora. Isto é, quando observo o agora a partir das minhas conclusões passadas, dos meus preconceitos, esperanças, medos, etc., isso é uma observação do presente a partir do passado. Penso que estou a observar agora, mas a observação do agora só pode ter lugar quando não há um <<observador>> - condicionado pelo passado. Esse <<observador>> é o passado. A observação do agora é extremamente importante. O movimento do passado a encontrar-se com o presente tem de acabar aí; isso é que é o agora. Mas se deixamos que isso continue, então o <<agora>> toma- se o <<futuro>>, ou o <<passado>>, mas nunca o agora actual. A observação só pode ter lugar no próprio acto de a realizar: quando estamos irritados, quando sentimos avidez, temos de observar isso tal como é. O que significa não o condenar, não o julgar, mas observá-lo e deixá-lo florescer e murchar, desaparecer. (...) Estar atento a si mesmo, sem nenhuma escolha, e ver o que está realmente a acontecer no agora é deixar florescer todo o movimento do <<eu>>. E o que está a acontecer sofre uma transformação radical, se não houver nenhuma influência do passado, se não houver nenhum <<observador>>, que é esse passado, com todo o seu condicionamento (conclusões, preconceitos, etc.); ao fazermos isso, é óbvio que a autoridade não tem nenhum lugar. Não há nenhum intermediário entre a nossa observação e a verdade. Ao fazermos isso tomamo-nos uma luz para nós mesmos. Então, não pedimos a alguém que nos diga como proceder. No próprio observar, há a acção, há a mudança. Experimentai-o!"

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 23 de Janeiro de 2016, 19:40
Aquele que está só é inocente

"Um dos fatores do sofrimento é o extraordinário isolamento do homem. Você pode ter companheiros, pode ter deuses, pode ter muito conhecimento, você pode ser extraordinariamente ativo socialmente, fazer fofocas intermináveis sobre política – e muitos políticos fazem fofoca de qualquer jeito – e este isolamento permanece. Assim, o homem procura descobrir significado na vida e inventa um significado, um propósito. Mas o isolamento ainda permanece. Então, pode você olhar para ele sem comparação, apenas vê-lo como ele é, sem tentar correr dele, sem tentar encobri-lo, ou fugir dele? Então você verá que o isolamento se torna algo inteiramente diferente. Nós não estamos sós. Somos o resultado de milhares de influências, milhares de condicionamentos, heranças psicológicas, propaganda, cultura. Não estamos sós e, por isso, somos seres humanos de segunda mão. Quando se está só, totalmente só, não pertencendo a nenhuma família, embora você possa ter uma, nem pertencendo a qualquer nação, qualquer cultura, a qualquer compromisso particular, existe o sentimento de ser um estranho, estranho a toda forma de pensamento, ação, família, nação. E apenas aquele que está completamente só é inocente. É esta inocência que liberta a mente do sofrimento."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 26 de Janeiro de 2016, 01:56
Meditação

"“O que o senhor entende por medo? Eu sei que tenho medo da morte. Não sinto que eu seja o medo, mas tenho medo de algo. Eu tenho medo e sou separado desse medo. O medo é uma sensação distinta do ‘Eu’, que o observa e analisa. Eu sou o observador, e o medo é o observado. Como podem o observador e o observado ser um só?”

Você afirma que é o observador e que o medo é o observado. Mas será que é assim? Por acaso você é uma entidade separada das suas qualidades? Você não se identifica com as suas qualidades? Será que você não é os seus pensamentos, as suas emoções, e assim por diante? Você não é separado de suas qualidades, de seus pensamentos. Você é os seus pensamentos. O pensamento cria o “eu”, esta entidade supostamente separada; sem o pensamento, o pensador não existe. Notando a impermanência de si mesmo, o pensamento cria o pensador como o permanente, o duradouro; e o pensador então toma-se o ex­perimentador, o analisador, o observador separado do transitivo. To­dos nós ansiamos por alguma forma de permanência, e ao notar a impermanência à nossa volta, o pensamento cria o pensador, que su­postamente é permanente. O pensador então principia a desenvolver outras e mais elevadas formas de permanência: a alma, o atmã, o eu superior, e assim por diante. O pensamento é a base de toda essa estrutura. Mas essa é uma outra questão. Estamos lidando com o medo. O que é o medo? Vejamos o que é.

Você afirma que tem medo da morte. Uma vez que você não pode experimentá-la, você tem medo dela. A morte é o desconhecido, e você tem medo do desconhecido. Não é assim? Agora, pergunto, pode você ter medo de algo que não conhece? Se algo lhe é desco­nhecido, como isso pode meter-lhe medo? Na verdade, você não tem medo do desconhecido, da morte, e sim da perda do conhecido, pois isso pode lhe provocar sofrimento, ou privá-lo do seu prazer, da sua satisfação. É o conhecido que provoca o medo, não o desco­nhecido."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 27 de Janeiro de 2016, 00:26
Atenção

"No momento em que perguntais “Como pode a atenção continuar?”, dais entrada ao tempo e, por conseguinte, à desatenção."

"Prestai atenção a isto, por favor: Pode essa atenção existir sempre, perdurar? Isso implica o tempo, não é verdade? Fazeis uma pergunta errônea ao indagardes: “Pode essa atenção perdurar, posso mantê-la a todas as horas, qual o sistema, o método de sustentar a atenção?” No momento em que perguntais “Como pode a atenção continuar?”, dais entrada ao tempo e, por conseguinte, à desatenção. Quando estais plenamente atento, não há tempo; e quando, estando atento, percebeis e agis, está acabada a atenção. Não dizeis “Quero levá-la comigo”. Compreendeis, estais seguindo o que estou dizendo? No momento da atenção, vós vistes e agistes — percepção-ação — mas, o pensamento entra em cena e diz: “Que coisa extraordinária! Eu queria que essa atenção existisse sempre, pois vejo que ela é um meio de agir sem conflito.” Por conseguinte, o pensamento deseja cultivar a atenção. Qualquer forma de cultivo requer tempo. Mas, não se pode cultivar a atenção por meio do tempo. Assim: percepção, ação, e o fim da percepção; esquecei-a, para começardes de novo, cada vez, com a mente e as células cerebrais novas, sem a carga da percepção de ontem. Entendestes? A mente é, então, sempre nova, juvenil, “inocente”. A mente inocente é aquela que não pode ser ferida. Uma mente sem marcas de ferimentos recebidos — eis a verdadeira inocência; temos cicatrizes no cérebro e, com elas, queremos descobrir um estado mental sem ferimento algum. A mente inocente não pode ferir-se, porque nunca transporta um ferimento de dia para dia. Não há, pois, nem perdão, nem lembrança."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 01 de Fevereiro de 2016, 18:12
Meditação

"Se vejo uma coisa muito claramente, assim como vejo uma coisa em extremo perigosa, como um precipício ou um animal feroz — que acontece? Por um momento, todo movimento se detém; não há pensamento. Da mesma maneira, se percebo realmente o que o pensamento faz, o pensamento termina. Tudo o que o pensamento faz cria aflição, sofrimento, conflito, e, ao perceber-se isso, o pensamento termina por si próprio, e está quebrado o círculo vicioso; o pensamento, isto é, o tempo terminou."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 05 de Fevereiro de 2016, 22:13
Meditação

"Se não tendes amor — não em pequenas gotas, mas em abundância; se não estais transbordando de amor, o mundo irá ao desastre. Intelectualmente, sabeis que a unidade humana é a coisa essencial e que o amor constitui o único caminho para ela, mas quem pode ensinar-vos a amar? Poderá uma autoridade, um método, um sistema ensinar-vos
a amar? Se alguém vo-lo ensina, isso não é amor. Podeis dizer: “Eu me exercitarei para o amor. Sentar-me-ei todos os dias para refletir sobre ele. Exercitar-me-ei para ser bondoso, delicado e me forçarei a ser atencioso com os outros”? Achais que podeis disciplinar-vos para amar, que podeis exercer a vontade para amar? Quando exerceis a vontade e a disciplina para amar, o amor vos foge pela janela."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 05 de Fevereiro de 2016, 22:28
www.youtube.com/watch?v=d7Dej9vVL8k (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PWQ3RGVqOXZWTDhrIw==)
J.Krishnamurti - A Verdadeira Revolução - Meditação - 4°
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 10 de Fevereiro de 2016, 21:56
O silêncio da inteligência

"Então na meditação não há controlador, não há atividade da vontade, que é o desejo. Então o cérebro, todo o movimento do cérebro sem contar com a sua própria atividade, que tem o seu próprio ritmo, fica completamente quieto, silencioso. Não é o silêncio cultivado pelo pensamento. É o silêncio da inteligência, silêncio da inteligência suprema. Nesse silêncio aquilo que não tem nome vem, o inominável é. O que é sagrado, imóvel, não tocado pelo pensamento, pelo empenho, pelo esforço. É a via da inteligência que é a via da compaixão. Então o que é sagrado é eterno. Isso é meditação. Uma vida assim é uma vida religiosa. Nisso há grande beleza."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 10 de Fevereiro de 2016, 22:09
A mente em estado de criação

"Meditação é o esvaziamento da mente de todas as coisas que a mente acumulou. Se você fizer isso – talvez não faça, mas não importa, apenas ouça – descobrirá que existe um extraordinário espaço na mente, e esse espaço é liberdade. Então você deve demandar liberdade desde o início, e não apenas esperar tê-la no final. Você deve buscar o significado de liberdade em seu trabalho, em suas relações, em tudo que você faz. Então você descobrirá que meditação é criação.

Criação é uma palavra que todos usamos muito fluentemente, muito facilmente. Um pintor põe algumas cores numa tela e fica tremendamente excitado com isto. É sua realização, o meio pelo qual ele se expressa; é a mercadoria dele com a qual ganha dinheiro ou reputação e ele chama isso “criação”! Todo escritor “cria” e existem escolas de escrita “criativa”, mas nada disso tem a ver com criação. É tudo a resposta condicionada da mente que vive numa sociedade particular.

A criação de que falo é uma coisa inteiramente diferente. É uma mente que está no estado de criação. Ela pode ou não expressar esse estado. A expressão tem muito pouco valor. Esse estado de criação não tem causa e, portanto, a mente nesse estado está a cada momento morrendo e vivendo e amando e existindo. A totalidade disto é meditação."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 10 de Fevereiro de 2016, 22:17
Viva com “o que é”

"É possível viver uma vida sem nenhum padrão, nenhum objetivo, nenhuma ideia de futuro, uma vida sem conflito? Só é possível quando se vive completamente com “o que é”. Com “o que é” significa com aquilo que realmente está acontecendo. Viva com isso; não tente mudá-lo, não tente superá-lo, não tente controlá-lo, não tente fugir disso, apenas olhe para isso, viva com isso. Se você é invejoso, ávido, ciumento, ou tem problemas, sexo, medo, qualquer que seja, viva com eles sem nenhum movimento de pensamento que deseje afastar-se deles. Isso significa o quê? Significa que não se está desperdiçando sua energia em controle, em supressão, em conflito, em resistência, em fuga. Toda essa energia estava sendo desperdiçada; agora ela foi concentrada. Porque se viu o absurdo disso, a falsidade disso, a irrealidade disso, tem-se agora a energia para viver com “o que é”."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 15 de Fevereiro de 2016, 20:56
Meditação

"Ao mesmo tempo que olhais o observador, que sois vós mesmo, vedes que ele é constituído de memórias, experiências, acidentes, influências, tradições e infinitas variedades de sofrimento, sendo tudo isso o passado. Assim, o observador é tanto o passado como o presente, e o amanhã o aguarda e faz também parte dele. Ele está meio vivo, meio morto, e com essa morte e vida é que observa. Nesse estado mental, situado no campo do tempo, vós (o observador) olhais o medo, o ciúme, a guerra, a família (a entidade feia e fechada chamada a família), e procurais resolver o problema da coisa observada, a qual é o desafio, o novo; estais sempre a traduzir o novo nos termos do velho e, por conseguinte, vos vedes num conflito perpétuo.

O percebimento de tudo isso, que é a verdadeira meditação, revela haver uma imagem central, formada por todas as outras imagens, e essa imagem central - o observador - é o censor, o experimentador, o avaliador, o juiz que deseja conquistar ou subjugar as outras imagens ou destruí-las de todo. As outras imagens resultam dos juízos, opiniões e conclusões do observador, e o observador é o resultado de todas as outras imagens - portanto, o observador é a coisa observada."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 15 de Fevereiro de 2016, 21:08
Meditação

"Qualquer movimento por parte do observador, se ele não percebeu que o observador é a coisa observada, só cria outra série de imagens e, mais uma vez, nelas se vê enredado. Mas, que sucede, quando o observador percebe que o observador é a coisa observada? Andai devagar, bem devagar, pois estamos examinando uma coisa muito complexa. Que sucede? O observador não age, absolutamente. O observador sempre disse: "Tenho de fazer algo em relação a essas imagens; devo recalcá-las ou dar-lhes uma forma diferente"; está sempre ativo em relação à coisa observada, agindo e reagindo, apaixonada ou indiferentemente, e essa ação de gostar e não gostar, por parte do observador, é chamada ação positiva - "Gosto desta coisa, portanto, devo conservá-la; não gosto daquela, portanto, tenho de livrar-me dela". Mas, quando o observador percebe que a coisa em relação à qual está agindo é ele próprio, não há então conflito entre ele e a imagem. Ele é ela. Não está separado dela. Quando separado, ele fazia ou tentava fazer alguma coisa em relação a ela; mas, ao perceber que ele próprio é aquilo, não há mais gostar nem não gostar, e o conflito cessa.
Pois, que pode ele fazer? Se uma coisa é você, que podeis fazer? Não podeis revoltar-vos contra ela, ou fugir dela, ou, mesmo, aceitá-la. Ela existe. Assim, toda ação resultante da reação, de gostar e não gostar, cessa.

Descobrireis, então, que há um percebimento que se torna extremamente vivo. Não está sujeito a nenhum fator central ou a alguma imagem, e dessa intensidade de percebimento provém uma diferente qualidade de atenção e a mente, por conseguinte (pois a mente é esse percebimento), se torna sobremodo sensível e altamente inteligente."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 20 de Fevereiro de 2016, 12:28
Perceção

"O que é verdadeiro jamais cria conflito; mas, quando a mente está escolhendo entre o verdadeiro e o falso, essa própria escolha produz conflito. Em geral, fomos educados para pensar corretamente e nos abstermos de certas coisas tidas por falsas e, por isso, a nossa mente está sempre a buscar uma coisa e a evitar outra; e esse processo de pensar é, em si, um conflito, não achais? O “correto’' pode ser o que diz o sacerdote, o que dizem os vossos vizinhos, os nossos líderes políticos, e, assim, cria-se o padrão a que temos de subordinar-nos; e a mente que se subordina a um padrão nunca pode achar-se em estado de revolta, jamais descobrindo, por conseguinte, aquilo que é eternamente criador.

Nessas condições, pode-se descobrir a todas as horas o que é verdadeiro? Ora, não há possibilidade de descobrimento, enquanto houver o conflito da escolha. Para descobrir, a mente tem de estar básicamente tranquila, sem medo de errar. Entretanto, nós queremos bom êxito, não é verdade? Educam-nos, desde crianças, para ambicionar o bom êxito, e todo livro, toda revista nos dá exemplos disto: o menino pobre que chega a Presidente, etc. Buscando a própria segurança no bom êxito, é a mente obrigada a observar o que é correto, e começa assim a batalha entre o que é correto e o que é errado, começa o eterno conflito da dualidade. Nesse conflito nunca se pode descobrir o que é verdadeiro. O verdadeiro é o que é e a libertação que resulta da compreensão do que é.

Tende a bondade de ouvir corretamente o que estou dizendo e de refletir a seu respeito; e se compreenderdes o que está realmente acontecendo, momento por momento, vereis como vos libertareis do conflito do justo e do injusto. Não pode manifestar-se essa compreensão, se estais a julgar ou a condenar o que é, ou a compará-lo com a passada experiência; e quando não há compreensão do que é, não há libertação. Para compreender o que é, deve a mente estar livre de toda condenação e julgamento; mas isso requer paciência infinita e pode produzir-vos uma extraordinária revolução na vida, coisa de que a mente tem medo. Por essa razão, nunca examinais o que é e vos limitais a dar opiniões a seu respeito. Enquanto a mente estiver toda ocupada com a escolha entre o que é correto e o que é errado, permanecerá imatura; e este é um dos nossos obstáculos, não achais? Nossas mentes são imaturas; ensinaram-nos o que é correto e o que é errado e, consequentemente, a isso queremos ajustar-nos. O ajustamento á a própria natureza da mente imatura, ao passo que a compreensão do que é constitui o fator revolucionário, na criação."

(Krishnamurti)
http://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 20 de Fevereiro de 2016, 20:35
Perceção

"Por favor, compreendei bem este ponto. Para se descobrir o que é verdadeiro, o que é real, não se precisa de nenhuma indicação. Quando vos guiam para descobrir, isso não é descobrimento: apenas vedes o que alguém vos mostrou. Se descobris sozinho, porém, a experiência é então de todo diferente; é uma experiência original, aliviada do passado, do tempo, da memória, inteiramente livre da tradição, do dogma, da crença. E esse descobrimento, que é criador, é totalmente novo; mas, para chegar a esse descobrimento, deve a mente ser capaz de penetrar e ultrapassar todas as camadas superficiais. Podemos fazê-lo ? Visto serem todos os nossos problemas — políticos, sociais, econômicos, pessoais — essencialmente problemas religiosos; Visto serem reflexos do problema interior, do problema moral, — a menos que resolvamos este problema central, todos os demais se multiplicarão. Esse problema não pode ser resolvido pelo expediente de seguirmos alguém, pela leitura de um livro, pela prática de uma técnica. No descobrimento da realidade, são inteiramente inúteis todos os métodos, uma vez, que tendes de descobrir por vós mesmos. O descobrimento implica completa independência, e a mente não pode ser independente se está vivendo de explicações, de palavras, praticando algum método ou dependendo da tradução do problema feito por outro.

A mente em tempo algum se libertará do temor enquanto estiver fazendo esforço para dele fugir. Pode, apenas, estar cônscia do seu medo e manter-se completamente passiva, sem nenhuma escolha. Vê-la-eis tornar-se extraordinariamente tranquila, e como nessa tranquilidade pode resolver-se o problema do temor. Nessa tranquilidade mental, a autoridade se desvaneceu de todo. Que necessidade tendes de autoridade, quando
estais vendo, momento por momento, o que é verdadeiro?

A verdade não depende de avaliação ou julgamento e, quando percebe isso de maneira completa, a mente é então, ao mesmo tempo, experimentador e coisa experimentada; e, em consequência, está apta a transcender a si mesma."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 20 de Fevereiro de 2016, 21:27
J.Krishnamurti - 'No presente está a totalidade do tempo' - Washington, 1985 - 1° Parte

www.youtube.com/watch?v=rsL7TXvXy60 (http://www.forumespirita.net/fe/go.php?url=aHR0cDovL3d3dy55b3V0dWJlLmNvbS93YXRjaD92PXJzTDdUWHZYeTYwIw==)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 21 de Fevereiro de 2016, 14:00
Meditação

"Interrogante: Por que é tão impotente a Verdade?

Krishnamurti: Porque a Verdade é sem ação. A Verdade é frágil. Não é utilitária, não pode ser organizada. É como o vento: não podeis pegá-la, não podeis prendê-la na mão e dizer “Peguei-a!” Por conseguinte, ela é extremamente vulnerável, tão impotente como a folha de capim, à beira da estrada— podeis pisá-la, matá-la. Entretanto, queremos utilizá-la para a construção de uma melhor estrutura social. Mas sinto dizer-vos que não podeis utilizá-la, não, senhores; ela é como o amor, sem potência. Está ao alcance de vossa mão; podeis levá-la ou deixá-la ficar.

Assim, senhores, o problema não é que ando falando há quarenta anos. O problema é este: Como pode um ente humano que há quarenta anos ouve essas coisas com o coração e os olhos secos, que tudo isso vê e nada faz, cujo coração está fragmentado, cuja mente está cheia de palavras e teorias e “de si mesma” — como pode esse ente humano fazer renascer em seu coração o amor? Eis a verdadeira questão."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 25 de Fevereiro de 2016, 19:29
Meditação

"Para mim existe uma vida eterna, uma vida de eterno devir; está sempre a devir, não sempre a crescer, porque aquilo que cresce é transitório. Agora, para compreender a imortalidade que eu digo que existe, a mente tem de estar livre desta ideia de continuidade e não-continuidade. Quando uma pessoa pergunta “A imortalidade existe?” ela quer saber se ela, como indivíduo, continuará, ou se ela, como indivíduo, será destruída. Isto é, pensa somente em termos de opostos, em termos de dualidade; ou existe ou não existe. Se tentarem compreender a minha resposta do ponto de vista da dualidade, então falharão completamente. Eu afirmo que a imortalidade existe. Mas para compreender essa imortalidade, que é o êxtase da vida, a mente e o coração têm que estar livres de identificação com o conflito do qual surge a consciência do “eu”, e livres também da ideia de aniquilação da consciência do ego.

Deixem-me colocar a questão de uma maneira diferente. Vocês só conhecem opostos – coragem e medo, posse e não-posse, desapego e apego. Toda a vossa vida está dividida em opostos – virtude e não-virtude, certo e errado – porque nunca enfrentam a vida completamente mas sempre com esta reacção, com este pano de fundo da divisão. Criaram este pano de fundo; estropiaram a vossa mente com estas ideias, e depois perguntam: “A imortalidade existe?” Eu afirmo que existe, mas para o compreenderem, a mente tem que estar livre desta divisão. Isto é, se tiverem medo, não procurem coragem, mas deixem que a mente se liberte do medo; vejam a inutilidade daquilo a que chamam coragem; compreendam que é apenas uma fuga do medo, e que o medo existirá enquanto houver a ideia de ganho e de perda. Em vez de tentarem alcançar o oposto, em vez de lutarem para desenvolver a qualidade oposta, deixem que a mente e o coração se libertem daquilo em que estão aprisionados. Não tentem desenvolver o seu oposto. Então saberão por si mesmos, sem que ninguém vo-lo diga ou vos conduza, o que é a imortalidade; a imortalidade que não é nem o “eu” nem o “tu”, mas que é a vida."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 27 de Fevereiro de 2016, 21:03
O que é reencarnação?

"Vamos descobrir o que você quer dizer com reencarnação – a verdade disto, não o que você quer acreditar, não o que alguém disse, ou o que seu mestre disse. Certamente, é a verdade que liberta, não sua própria conclusão, sua própria opinião. Quando você diz, “Eu renascerei”, deve saber o que é o “eu”. O “eu” é uma entidade espiritual, o “eu” é uma coisa contínua, o “eu” é uma coisa independente da memória, experiência, conhecimento? Ou o “eu” é uma entidade espiritual ou é meramente um processo de pensamento. Ou é uma coisa fora do tempo, que chamamos espiritual, não mensurável em termos de tempo, ou está dentro do campo do tempo, do campo da memória, pensamento. Ele não pode ser nada mais. Vamos descobrir se o “eu” existe fora da medida do tempo. Espero que esteja acompanhando tudo isto. Vamos descobrir se o “eu” é em essência alguma coisa espiritual. Ora, por “espiritual” queremos dizer - não é? – uma coisa incapaz de ser condicionada, uma coisa que não é projeção da mente humana, uma coisa que não está dentro do campo do pensamento, uma coisa que não morre. Quando falamos de uma entidade espiritual, queremos dizer com isso uma coisa que não está no campo da mente, obviamente. Agora, é o “eu” tal entidade espiritual? Se ele é uma entidade espiritual, deve estar fora de todo o tempo; assim não pode ser renascido ou continuado. Isso que tem continuidade não pode se renovar. Enquanto o pensamento continuar através da memória, através da experiência, ele não pode se renovar, portanto, isso que continua não pode conhecer o real.

A reencarnação é essencialmente egocêntrica

Você quer que eu lhe assegure que você viverá uma outra vida, mas nisso não há felicidade ou sabedoria. A busca da imortalidade através da reencarnação é essencialmente egocêntrica e, portanto, não é verdadeira. Sua busca por imortalidade é só outra forma de desejo de continuidade das reações autodefensivas contra a vida e a inteligência. Tal anseio leva apenas à ilusão. Assim o que importa não é se existe reencarnação, mas levar a cabo a realização completa no presente. E você só pode fazer isso quando sua mente e coração não estiverem mais se protegendo contra a vida. A mente é ardilosa e sutil em sua autodefesa, e tem que discernir por si mesma a natureza ilusória da autoproteção. Isto significa que você deve pensar e agir completamente de novo. Você tem que se libertar da rede dos falsos valores que o ambiente lhe impõe. Tem que haver completo despojamento. Aí existe imortalidade, realidade."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 28 de Fevereiro de 2016, 14:35
Perceção

"Na compreensão do que é revelam-se-nos os movimentos do “eu”, do “ego” ; e isso, certamente, é o começo do autoconhecimento, não só no nível verbal, mas também naqueles níveis em que o “eu” se acha profundamente oculto e de onde sai espontaneamente, nas ocasiões em que relaxamos a vigilância.

Quando estamos cônscios de nós mesmos, não é, todo o movimento do viver, uma forma de revelar o “eu”, o “ego”? O “eu” é um processo muito complexo, que só pode ser revelado na vida de relação, em nossas atividades diárias, na maneira como falamos, como julgamos, calculamos, como condenamos a outros e a nós mesmos. Tudo isso revela o estado condicionado do nosso próprio pensar; e não é importante estar-se cônscio de todo esse processo? Só pela percepção do que é verdadeiro, momento por momento, se dá o descobrimento do atemporal, do eterno.

Sem autoconhecimento não pode existir o eterno. Quando não conhecemos a nós mesmos, o eterno se transforma em simples palavra, um simbolo, uma especulação, um dogma, uma crença, uma ilusão em que a mente pode refugiar-se. Se começamos, porém, a compreender o “eu” em todas as suas atividades, dia por dia, então, nessa própria compreensão, apresenta-se, sem nenhum esforço de nossa parte, o inefável, o atemporal. Mas o atemporal não é uma recompensa ao autoconhecimento. O que é eterno não pode ser procurado; a mente não pode adquiri-lo. Ele se apresenta quando a mente está tranquila; e a mente só pode estar tranquila quando é simples, quando já não está armazenando, condenando, julgando, pesando. Apenas a mente simples pode compreender o Real, e não a mente repleta de palavras, de conhecimentos, de ilustração. A mente que analisa, que calcula, não é uma mente simples."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 28 de Fevereiro de 2016, 14:53
Perceção

"O problema, por consequência, não é de como libertar a mente do temor, ou de como tê-la tranquila, para dissolver o temor, mas: se o medo pode ser compreendido. Embora eu tenha medo de várias coisas -— de meu patrão, de minha esposa ou marido, da morte, de perder o meu depósito no banco, da opinião dos meus vizinhos, da frustração, de perder minha importância pessoal — esse medo, em si, é o resultado de um processo total, não é? Isto é, o “eu”, o “ego”, em sua atividade, “projeta” o medo. A substância é o pensamento concernente ao “eu”, e sua sombra é o medo; e, evidentemente, não adianta batalhar contra a sombra, a reação. O “eu” está-se protegendo, ansiando, esperando, desejando, lutando; e constantemente compara, pesa, julga; aspira ao poder, à posição, ao prestígio, aspira a ser respeitado; e pode esse “eu”, fonte do temor, deixar de existir, não para todo o sempre, mas momento por momento? Quando se apresenta o sentimento de temor, pode a mente ficar cônscia dele, examiná-lo sem condenação, julgamento, escolha? Porque, no momento em que começamos a julgar, a avaliar, é uma parte do “eu” que está dirigindo, e, portanto, condicionando o nosso pensamento, não é exato?

Posso, pois, estar cônscio da minha avidez, da minha inveja, momento por momento? Estes sentimentos são expressões do “eu”, do “ego”, não é verdade? O “ego” é sempre o “ego”, em qualquer nível que o coloquemos. Seja “superior”, seja “inferior”, o “eu” está sempre compreendido na esfera do pensamento. E posso eu estar cônscio desses sentimentos, ao surgirem, momento por momento? Posso descobrir sozinho as atividades do meu “ego”, quando, por exemplo, converso à mesa, quando jogo, quando escuto, quando me acho num grupo de pessoas? Posso estar cônscio dos ressentimentos acumulados, do desejo de causar impressão, de ser alguém? Posso descobrir que sou ávido e estar dônscio da minha condenação da avidez? A própria palavra “avidez” é uma condenação, não achais? Estar cônscio da avidez é também estar cônscio do desejo de ficar livre dela, e é perceber porque desejamos ser livres dela — é perceber todo o processo. Isso não é um modo de agir muito complicado; sua significação pode ser apreendida imediatamente. Começamos, pois, a compreender, momento por momento, o crescimento constante do “eu”, com sua presunção, suas “autoprojeções” — sendo tudo isso, basicamente, fundamentalmente, a causa do temor. Mas se não se pode empreender nenhuma ação para nos libertarmos da causa, o que nos cabe fazer, então, é só estar cônscios dela. Quando desejamos estar livres do “ego”, esse próprio desejo faz também parte do “ego”; tendes, pois, uma batalha constante no “ego”, em torno de duas coisas desejáveis, entre a parte que deseja e a parte que não deseja. Quando nos tornamos cônscios do que se passa no nível consciente, começamos também a descobrir a inveja, as lutas, os desejos, os impulsos, as ansiedades existentes nos níveis mais profundos da consciência. Quando a mente está muito interessada em descobrir o processo total de si mesma, então cada incidente, cada reação transforma-se num meio de descobrimento, de autoconhecimento. Isso requer paciente vigilância, a qual não pode ser exercida por uma mente que está sempre lutando, sempre a aprender “como” ser vigilante. Vereis, assim, que as horas de sono são tão importantes como as horas de vigília, pois a vida é então um processo total. Enquanto não conhecerdes a vós mesmo, o temor continuará a existir, e todas as ilusões criadas pelo “eu” prosperarão. O autoconhecimento, pois, não é um processo que se aprende em leituras, ou a respeito do qual se pode especular: ele tem de ser descoberto por cada um de nós, momento por momento, o que faz com que a mente se torne sobremaneira vigilante. Nessa vigilância há uma certa aquiescência, um percebimento passivo em que não existe desejo de ser ou de não ser, e em que se encontra um maravilhoso sentimento de liberdade. Pode ele durar só um minuto, um segundo, apenas, mas tanto basta. Essa liberdade não é produto da memória; é uma coisa viva. Entretanto, a mente, depois de prová-la, a reduz a uma lembrança, e deseja então mais. O estar cônscio desse processo total só é possível pelo autoconhecimento, e o autoconhecimento nasce momento por momento, enquanto observamos nosso falar, nossos gestos, a maneira como falamos, e os motivos ocultos que nos são subitamente revelados. Só então podemos ficar livres do temor. Enquanto existe temor, não há amor. O temor enche-nos de sombras o ser, e esse temor não pode ser lavado por nenhuma reza, ideal, ou atividade. A causa do temor é o “eu”, o “eu” que é tão complexo nos seus desejos, necessidades, ocupações. A mente tem de compreender todo aquele processo; e essa compreensão só pode vir quando há vigilância sem escolha."

(Krishnamurti)

Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 28 de Fevereiro de 2016, 15:02
Perceção

"Por que será que guardamos lisonja e insulto, mágoa e afeição? Sem esse acúmulo de experiências e suas reações, não somos nada; nada somos se não tivermos nome, apego, crença. É o medo de não ser nada que nos compele a acumular; e é esse mesmo medo, consciente ou inconsciente, que, a despeito das nossas atividades acumulativas, engendra a nossa desintegração e destruição. Se pudermos perceber a verdade desse medo, então ela será a verdade que nos liberta do medo, e não a nossa determinação resoluta de ser livres.

Você nada é. Você pode ter seu nome e título, sua propriedade e conta bancária, pode ter poder e ser famoso; mas, a despeito de todas essas salvaguardas, você não é nada. Você pode estar totalmente inconsciente desse vazio, desse nada, ou pode simplesmente não querer saber disso; mas isso está aí, faça você o que fizer para evitá-lo. Você pode tentar fugir disso com astúcia, por meio de violência pessoal ou coletiva, por meio de adoração individual ou coletiva, por meio de conhecimento e diversão; mas, esteja você dormindo ou acordado, o vazio está sempre aí.

O “eu” se esconde de muitos modos, debaixo de cada pedra. O “eu” pode se esconder na compaixão, indo à Índia e cuidando de gente pobre, porque o “eu” está apegado a alguma ideia, alguma fé, conclusão, crença, que me torna misericordioso porque amo Jesus ou Krishna, e vou para o céu. O “eu” tem muitas máscaras: a máscara da meditação, a máscara de alcançar o nível mais alto, de ser iluminado, de “eu sei o que estou dizendo”. Toda essa preocupação com a humanidade é outra máscara. Portanto, é preciso ter um cérebro extraordinário, sutil, rápido, para ver onde ele está escondido. Isso exige muita atenção, vigilância, vigilância, vigilância."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 03 de Março de 2016, 19:06
Meditação

"É preciso, portanto, descobrir o que vem a ser aprender. Em primeiro lugar, quero aprender se é possível me libertar do pensamento — e não como utilizar o pensamento. Essa é a próxima pergunta. Mas poderá a mente chegar a ser livre do pensamento? E o que significa essa liberdade? Só conhecemos a liberdade de alguma coisa — estar livre do medo, disto ou daquilo, da ansiedade, de uma dúzia de coisas. E existirá uma liberdade que não seja de alguma coisa, mas a liberdade em si mesma? Mas, ao fazer esta pergunta, não dependerá a resposta do pensamento? Ou será a liberdade a não-existência do pensamento? E aprender significa percepção instantânea e, portanto, não requer tempo. Não sei se vocês percebem isso. Por favor, isso é de uma importância fascinante!

A liberdade não é uma reacção; a liberdade não é escolha. Liberdade é observação pura, sem direção, sem medo de punição e recompensa. A liberdade é sem motivo; liberdade não está no fim da evolução do homem, mas encontra-se no primeiro passo da sua existência. Pela observação, a pessoa começa a descobrir a falta de liberdade. A liberdade é encontrada no estar atento, sem escolha, à nossa existência e atividades diárias.

O próprio fato de estarmos cônscios do que “é”, representa a Verdade. É a Verdade que liberta, e não a nossa luta por sermos livres. Assim, pois, não está longe de nós, a Realidade, mas nós a distanciamos, porque nos servimos dela como de um meio para a nossa própria continuidade. A Realidade está, presente aqui, neste momento, imediatamente ao nosso alcance. O eterno, o atemporal existe agora, e não pode o agora ser compreendido por aquele que está preso na rede do tempo.

Será que a mente é capaz de ver a sua própria limitação? E poderá a própria percepção dessa limitação trazer consigo o findar dessa limitação? Será a mente capaz, não de perguntar como esvaziar a mente, mas de ver totalmente o conteúdo que constitui a consciência e de perceber, de escutar, todo o movimento dessa consciência, de tal modo que a própria percep­ção dele é o findar desse movimento? Vejo alguma coisa que é falsa; a própria percepção da falsidade é já o verdadeiro. A pró­pria percepção de que estou a dizer uma mentira é a verdade.

Religião é, certamente, a descoberta da realidade. Religião não é crença. Religião não é a busca da verdade. A busca da verdade é meramente o preenchimento da crença. Religião é a compreensão do pensador, pois o que o pensador é, ele cria. Sem compreender o processo do pensador e o pensamento, meramente ficar preso num dogma não é certamente a descoberta da beleza da vida, da existência, da verdade."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 06 de Março de 2016, 19:43
Meditação

"Para a mente que diz: «Não sei» - o que é verdade, o que é sério - o que há então? Quando dizemos «Não sei», o conteúdo não tem qualquer importância, porque, então, a mente é uma mente fresca, nova. A mente nova é que diz «Não sei». Portanto, quando o dizemos, não apenas verbalmente, por entretenimento, mas com profundidade, com sentido, com seriedade, esse estado da mente que não conhece está esvaziado da sua consciência, do seu conteúdo. O conhecimento é que é o conteúdo. Compreendem? Quando a mente não pode dizer que conhece, é sempre nova, cheia de vida, actuante; portanto, não está presa, não está ancorada. Só quando está ancorada é que acumula opiniões, conclusões, criando assim, separação."

Krishnamurti
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 20 de Março de 2016, 00:21
O Livro da Vida - Krishnamurti

"A história da humanidade está em você: a vasta experiência, os medos profundamente arraigados, as ansiedades, a dor, o prazer e todas as crenças que o homem acumulou através dos milênios. Você é esse livro. Ele não foi publicado por nenhum editor; não está à venda. Inútil ir a algum analista, porque o livro dele é o mesmo que o seu. Sem ler esse livro cuidadosa, paciente, hesitantemente, você nunca será capaz de transformar a sociedade em que vivemos, a sociedade que é corrupta, imoral. Existe muita pobreza, injustiça, e assim por diante. Qualquer pessoa séria estaria preocupada com o estado das coisas no mundo atual, com todo o caos a corrupção, guerra – o maior de todos os crimes é a guerra. Para produzir uma mudança radical em nossa sociedade e em sua estrutura, a pessoa tem que ser capaz de ler esse livro que é ela própria; e a sociedade em que vivemos foi criada por nós, cada um de nós, por nossos pais, avós e assim por diante. Todos os seres humanos criaram essa sociedade e, enquanto a sociedade não for transformada, haverá mais corrupção, mais guerra e destruição da mente humana. Assim, para ler esse livro que é a própria pessoa, é preciso aprender a arte de escutar o que o livro está dizendo. Escutar implica não interpretar. Apenas observar, como você observa uma nuvem. Não se pode fazer nada a respeito da nuvem ou das folhas da palmeira balançando ao vento, ou em relação à beleza do pôr-do-sol; não se pode alterá-los. Da mesma forma, é preciso aprender a arte de escutar o que o livro está dizendo. O livro é você; ele revelará tudo.
 
Há outra arte, a da observação, a arte de ver. Quando você lê o livro que é você mesmo, não existem você e o livro. Não existe o leitor e o livro separado. O livro é você."

(Krishnamurti)
Ler mais: https://www.facebook.com/notes/aten%C3%A7%C3%A3o/o-livro-da-vida-krishnamurti/909234685787395
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 02 de Abril de 2016, 18:11
Colocar o Alicerce de Modo Instantâneo

"Uma menle tranquila não procura qualquer tipo de experiência. E se ela não estiver à procura e consequentemente estiver completamente tranquila, sem nenhum movimento do passado e portanto liberta do conhecido, então vocês descobrirão, se tiverem chegado lá, que se dá um movimento do desconhecido que não é reconhecido, que não é traduzível, que não pode ser colocado em palavras — então vocês descobrirão que se dá um movimento que é do imenso. Esse movimento é do intemporal, porque nele não existe tempo, nem tão-pouco espaço, nem nada a ser experimentado, nada a ser obtido, alcançado. Uma tal mente sabe o que é a criação — não a criação do pintor, do poeta, do verbalizador; mas essa criação que não tem qualquer motivo, que não tem qualquer expressão. Essa criação é amor e morte. Tudo isto, do princípio ao fim, é a forma da meditação. Um homem que queira meditar tem de se compreender a si mesmo. Sem se conhecerem a vós mesmos, vocês não podem ir longe. Por muito que possam tentar ir longe, só podem chegar tão longe quanto a vossa própria projecção vos permitir; e a vossa própria projecção está muito perto, está muito próxima, e não vos conduz a lado nenhum. A meditação é esse processo de colocar o alicerce de modo instantâneo, imediato e fazer surgir — naturalmente, sem qualquer esforço — esse estado de tranquilidade. E só então pode haver uma mente que está para além do tempo, para além da experiência, e para além do conhecer."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 02 de Abril de 2016, 18:34
A Forma de Meditação

"Será a verdade algo conclusivo, absoluto, fixo? Nós gostaríamos que ela fosse absoluta porque então poderíamos abrigarmos nela. Gostaríamos que ela fosse permanente porque então poderíamos agarrar-nos a ela, descobrir a felicidade nela. Mas será a verdade absoluta, contínua, algo que deve ser experimentado uma e outra vez? A repetição da experiência é o mero cultivo da memória, não é verdade? Em momentos de tranquilidade, posso experimentar uma certa verdade, mas se me agarrar a essa experiência através da memória e a tornar absoluta, fixa — será isso a verdade? Será a verdade a continuação, o cultivo da memória? Ou só poderá a verdade ser encontrada quando a mente está completamente tranquila? Quando a mente não está enredada nas memórias, quando não está a cultivar a memória como o centro do reconhecimento, mas está atenta a tudo o que estou a dizer, a tudo o que estou a fazer nos meus relacionamentos, nas minhas actividades, vendo a verdade de tudo tal como é de momento a momento — certamente essa é a forma de meditação, não é verdade? Só existe compreensão quando a mente está tranquila, e a mente não pode estar tranquila enquanto for ignorante em relação ao que ela mesma é. Essa ignorância não pode ser dispersada por nenhuma forma de disciplina, por nenhuma autoridade, antiga ou moderna. A crença apenas cria resistência, isolamento, e onde há isolamento, não há nenhuma possibilidade de tranquilidade. A tranquilidade só surge quando eu compreendo todo o processo de mim mesmo — as várias entidades em conflito umas com as outras que compõem o «eu». Como essa é uma tarefa árdua, nós voltamo-nos para os outros para aprendermos diversos truques a que chamamos meditação. A meditação é o princípio do autoconhecimento, e sem a meditação não pode haver autoconhecimento."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 03 de Abril de 2016, 12:04
Meditação

"Quando o pensamento descobre por si mesmo a sua limitação, e vê que essa limitação está a criar destruição no mundo, então essa mesma observação leva-o a parar, para descobrir algo novo. E então há espaço e há silêncio.

A meditação é assim compreender o que significa medir, comparar, psicologicamente e é, portanto, o findar desse medir: é o findar do desejo de «vir a ser». E é também perceber que o pensamento é sempre limitado: pode pensar no ilimitado, mas esse «ilimitado» é ainda nascido do limitado.

Quando o pensamento fica suspenso, o cérebro, que está constantemente a tagarelar e em desordem, toma-se subitamente silencioso - sem nenhuma compulsão, sem nenhuma disciplina - porque vê o facto, a verdade da sua própria limitação. E do ver o facto, a verdade, que estão para além do tempo, nasce o silêncio.

O pensamento para. E então sente-se no cérebro silêncio completo. O pensamento, com todo o seu movimento, cessa. Cessa, mas pode ser trazido à atividade quando ele é necessário no mundo físico. Agora, está quieto, silencioso. E onde há silêncio tem de haver espaço, um espaço imenso, porque não há «eu». O «eu» cria o seu próprio e limitado espaço. Mas quando não há «eu», quer dizer, quando não há nenhuma atividade do pensamento, há então profundo silêncio no cérebro, porque está agora liberto de todo o seu condicionamento.

E é apenas onde existe espaço e silêncio que pode haver algo novo, que é intocado pelo tempo/pensamento. Pode ser isso - talvez - o que há de mais sagrado. Ele é talvez aquilo a que não se pode dar nome... É talvez o Inominável. E quando isso está, há inteligência, compaixão, ou seja, amor por todos os seres. E a vida assim não é fragmentada. É um processo unitário, total, cheio de movimento e de vida.

E a morte é tão importante como a vida, como o viver. Ambos andam juntos. Viver significa morrer. Pôr fim a toda a aflição da vida, ao sofrimento, à ansiedade, é morrer. E como se fossem dois rios correndo juntos, com um tremendo volume de água... E tudo isto, desde o princípio da nossa conversa até agora, faz parte da meditação. Estivemos a examinar a natureza humana, e vemos que ninguém pode produzir nela uma mutação radical exceto nós mesmos."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/notes/655098114534388/Medita%C3%A7%C3%A3o%20/1165669956810532/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 05 de Abril de 2016, 18:56
Meditação

"Vamos investigar, passo a passo, o que é a meditação. Por favor, não estejam até ao fim na esperança de ficarem com uma descrição completa de como meditar. O que estamos a fazer neste momento faz parte da meditação. Então, o que temos de fazer é estar atentos ao pensador, e não tentarmos resolver a contradição e fazer surgir a integração do pensamento e do pensador. O pensador é a entidade psicológica que acumulou experiência sob a forma de conhecimento (o eu, o ego): é o centro ligado ao tempo que é o resultado da influência do meio eternamente em mudança, e a partir deste centro ele olha, escuta, experimenta. Enquanto não compreendermos a estrutura e a anatomia deste centro, haverá sempre conflito, e uma mente que está em conflito não pode compreender a profundidade e a beleza da meditação.

Na meditação não pode haver nenhum pensador, o que significa que o pensamento tem de chegar ao fim — o pensamento que é impulsionado pelo desejo de alcançar um resultado. A meditação não tem nada que ver com a obtenção de um resultado. Não se trata de respirar de uma determinada forma, ou de olhar para o nariz, ou de fazer despertar o poder de efetuar determinados truques, nem de nada do resto de todo esse disparate infantil... A meditação não é algo separado da vida. Quando vocês estão a conduzir um automóvel ou sentados num autocarro, quando vocês estão a conversar sem um propósito definido, quando passeiam sozinhos num bosque ou observam uma borboleta a ser levada pela brisa — prestar uma atenção sem escolha a tudo isto é parte da meditação.

(...)

Quando o pensamento descobre por si mesmo a sua limitação, e vê que essa limitação está a criar destruição no mundo, então essa mesma observação leva-o a parar, para descobrir algo novo. E então há espaço e há silêncio.

A meditação é assim compreender o que significa medir, comparar, psicologicamente e é, portanto, o findar desse medir: é o findar do desejo de «vir a ser». E é também perceber que o pensamento é sempre limitado: pode pensar no ilimitado, mas esse «ilimitado» é ainda nascido do limitado.

Quando o pensamento fica suspenso, o cérebro, que está constantemente a tagarelar e em desordem, toma-se subitamente silencioso - sem nenhuma compulsão, sem nenhuma disciplina - porque vê o facto, a verdade da sua própria limitação. E do ver o facto, a verdade, que estão para além do tempo, nasce o silêncio.

O pensamento para. E então sente-se no cérebro silêncio completo. O pensamento, com todo o seu movimento, cessa. Cessa, mas pode ser trazido à atividade quando ele é necessário no mundo físico. Agora, está quieto, silencioso. E onde há silêncio tem de haver espaço, um espaço imenso, porque não há «eu». O «eu» cria o seu próprio e limitado espaço. Mas quando não há «eu», quer dizer, quando não há nenhuma atividade do pensamento, há então profundo silêncio no cérebro, porque está agora liberto de todo o seu condicionamento.

E é apenas onde existe espaço e silêncio que pode haver algo novo, que é intocado pelo tempo/pensamento. Pode ser isso - talvez - o que há de mais sagrado. Ele é talvez aquilo a que não se pode dar nome... É talvez o Inominável. E quando isso está, há inteligência, compaixão, ou seja, amor por todos os seres. E a vida assim não é fragmentada. É um processo unitário, total, cheio de movimento e de vida.

E a morte é tão importante como a vida, como o viver. Ambos andam juntos. Viver significa morrer. Pôr fim a toda a aflição da vida, ao sofrimento, à ansiedade, é morrer. E como se fossem dois rios correndo juntos, com um tremendo volume de água... E tudo isto, desde o princípio da nossa conversa até agora, faz parte da meditação. Estivemos a examinar a natureza humana, e vemos que ninguém pode produzir nela uma mutação radical exceto nós mesmos."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 05 de Abril de 2016, 19:06
Meditação

"Todos os sistemas de meditação, praticando um método dia após dia, afirmam que o pensamento tem de ser controlado, porque o pensamento é o fator de perturbação para uma mente tranquila. Ora, quando examinamos isso, perguntamos: quem é o «controlador»? Considera-se importante controlar o pensamento e diz-se: «Vou tentar controlá-lo», mas ele escapa-se constantemente. Passam-se quarenta anos a controlar e ele escapa-se a todo o momento...

Assim, temos de perguntar, quem é o «controlador». E por que é que é tão importante fazer tão grandes esforços para controlar? Isso significa conflito entre o pensamento que se escapa e outro pensamento que diz: «Tenho de o controlar». É uma batalha constante, uma luta, um verdadeiro conflito. Temos pois de perguntar quem é o «controlador». O «controlador» não será outro pensamento? Assim, um pensamento que assume o domínio, diz: «Tenho de controlar o outro pensamento.» Um fragmento tenta controlar outro fragmento.

O que é importante é descobrir que só existe pensar, e não o pensador e o pensamento e, assim, o «pensador» a controlar o pensamento. Há apenas pensar. Portanto, o que nos interessa não é como controlar o pensamento, mas todo o processo de pensar. Por que deverá ele parar? Se só existe pensar, por que deverá ele parar? Pensar é um movimento, não é verdade? Pensar é um movimento no tempo, de «aqui» para «ali». Poderá esse tempo cessar? É esta a questão, e não como parar o pensar. Na meditação, os gurus dão ênfase ao controle, mas onde há controle do pensamento tem de haver esforço, tem de haver conflito, e repressão. E onde há repressão, há todas as espécies de comportamento neurótico.

(...)

Assim, o pensamento divide-se a si próprio em «controlador» e «controlado». Mas só existe pensar; não existe nem controlador nem controlado, mas apenas o ato de pensar.

Pensar é um movimento no tempo como medida (entre o que é e o «que deveria ser»). Será que isso pode cessar naturalmente, facilmente sem nenhum controle? Quando faço um esforço para o fazer cessar, esse esforço vem do pensamento, que continua a atuar. Estou a enganar-me a mim mesmo, dizendo que o «pensador» é diferente do pensamento. Assim, só existe pensar. O «pensador» é o pensamento. Não há pensador se não há pensamento. Será que este pensar, que é um processo, um movimento, no tempo, pode suspender-se? Isto é, pode o tempo psicológico ter uma paragem?
 
Esse tempo é o passado. Psicologicamente, o futuro não existe. Esse futuro é apenas o passado encontrando-se como presente, modificando-o, mas continuando o seu movimento. O tempo psicológico é pois um movimento da mente a partir do passado, modificado, mas continuando ainda. Esse processo, que é todo o movimento do conhecido, isto é, do nosso passado psicológico, deve parar. A não ser que estejamos libertos desse processo, não é possível a observação do novo. Esse movimento deve parar, mas não é possível pará-lo pela vontade - o que significa controlar. Não é possível, também, pará-lo pelo desejo - que faz parte da sensação, do pensamento, da imagem. Assim, como é que este movimento cessa naturalmente, de modo fácil e agradável, sem darmos por isso?
 
Já alguma vez abandonastes instantaneamente, no momento - alguma coisa que vos dá muito prazer? Já o fizestes? Podeis faze- lo com sofrimento e desgosto, não estou a falar disso (porque, nesse caso, quereis esquecê-lo), mas de alguma coisa que vos dá imenso prazer. Desistir dela instantaneamente, sem nenhum esforço. Já o fizestes? O passado está sempre a condicionar-nos. Vivemos no passado - «alguém me magoou», «alguém me disse» - a nossa vida é «vivida» no passado. O incidente de agora é transformado em memória, e a memória torna-se o passado. Assim, vivemos no passado. Será que esse movimento do passado pode parar?

O passado é um movimento - modificado através do presente - para o «futuro». É esse o movimento do tempo psicológico. O passado avança sempre ao encontro do presente e continua o seu movimento. O agora é não-movimento, porque não há conhecimento anterior do que é o agora - só se conhece o movimento. E o agora é imóvel. O agora é o passado a encontrar o presente e a acabar aí. Assim, o movimento do passado encontra o agora, que é imóvel, e para. Portanto, o pensamento, que é o movimento do passado, encontra completamente o presente, e termina aí. É preciso refletir e meditar sobre isto."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 09 de Abril de 2016, 17:27
A REVOLUÇÃO PSICOLÓGICA

“Será que podemos pôr de lado todas as ideias, conceitos e teorias e descobrir por nós mesmos se há algo sagrado - não a palavra, porque a palavra não é a coisa a que se refere, a descrição não é aquilo que é descrito - para ver se há uma Realidade, não um produto da imaginação, não algo ilusório, não um mito, mas uma Realidade indestrutível, uma Verdade para além do tempo?
 
Para descobrirmos isso, para o encontrarmos, temos de pôr completamente de lado toda a autoridade, especialmente a «espiritual», porque a autoridade implica conformismo, obediência, aceitação de um certo padrão. A mente precisa de ser capaz de manter-se por si própria, de ser uma luz para si mesma. Seguir alguém, pertencer a um grupo e praticar métodos de meditação estabelecidos por uma autoridade ou pela tradição, é totalmente irrelevante para aquele que investiga a questão de saber se existe algo eterno, intemporal, algo que o pensamento não pode medir, e que atua na nossa vida diária. Se isso não fizer parte do nosso viver quotidiano, então a meditação é uma evasão e é absolutamente inútil.

Tudo isto implica que precisamos de manter-nos sós. Há uma grande diferença entre isolamento e manter-se só, entre isolar-se e ser capaz de manter-se por si mesmo com grande lucidez, sem qualquer confusão, e não contaminado.

Estamos interessados na totalidade da vida, não apenas numa parte dela, dando atenção a tudo o que fazemos, ao que pensamos, ao que sentimos, a como procedemos. Estamos em relação com a totalidade da vida, portanto, não podemos tomar apenas um fragmento dela que é o pensamento, e através dele procurar resolver todos os nossos problemas. O pensamento pode atribuir a si próprio autoridade para juntar todos os outros fragmentos, mas é o pensamento que cria fragmentação.
 
Estamos condicionados para pensar em termos de progresso, de um aperfeiçoamento gradual. As pessoas acreditam na «evolução psicológica», mas será que o «eu» consegue realizar, psicologicamente, alguma outra coisa que não seja senão uma projeção do pensamento?
 
Para descobrir se há algo que não seja projetado pelo pensamento, que não seja uma ilusão, um mito, temos de investigar se o pensamento pode ser controlado, se pode ser reprimido, para que a mente esteja completamente serena.
 
Controle implica a existência de controlador e controlado, não é assim? Mas quem é o controlador? Não é ele também criado pelo pensamento, não é ele uma parte do pensamento que assume a autoridade como «controlador»? Se vemos a verdade disto, então o «controlador» é o controlado, o experienciador é o experienciado, o pensador é o pensamento. Não são entidades separadas. Se compreendemos isso, então não há qualquer necessidade de controlar. Se não há «controlador» porque o «controlador» é o controlado, então o que acontece? Quando há uma divisão entre o «controlador» e o controlado, há conflito, há um desperdício da energia. Mas quando vemos que o «controlador» é o controlado não há dissipação de energia. Há então a acumulação de toda essa energia que é dissipada na repressão, na resistência produzida pela divisão em «controlador» e controlado. Quando não há divisão, tcm-se toda a energia necessária para ultrapassar aquilo que se pensava que precisava de ser controlado.

É preciso compreender claramente que na meditação não há que controlar nem disciplinar o pensamento, porque aquele que «disciplina», que controla o pensamento é um fragmento do próprio pensamento. Se vemos a verdade disso, então temos toda a energia que é dissipada através da comparação, do controle, da repressão, para podermos então ultrapassar a agitação causada pelo pensamento."

Ler mais: https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/

(Krishnamurti) 
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 09 de Abril de 2016, 22:02
Meditação

"Também temos de fazer a seguinte pergunta: Há alguma coisa sagrada na vida? Haverá algo que nunca seja tocado pelo pensamento? Tudo aquilo a que chamamos sagrado foi posto nas igrejas como símbolos - a Virgem Maria, Cristo na cruz. Na índia têm as suas imagens particulares, assim como nos países budistas, e elas tornaram-se sagradas: o nome, a escultura, a imagem, o símbolo. Mas haverá alguma coisa sagrada na vida? Sagrado é aquilo que não morre, que não tem tempo, que é eterno, que não tem princípio nem fim. Não se pode encontrá-lo - ele poderá chegar se tivermos rejeitado todas as coisas que o pensamento tornou sagradas. Quando as igrejas com as suas imagens, a sua música e as suas crenças, os seus rituais e dogmas forem todos compreendidos e completamente rejeitados, quando não houver sacerdotes, gurus, seguidores, então nessa extraordinária qualidade de silêncio poderá surgir algo intocado pelo pensamento, porque esse silêncio não é criado por ele. Cada um de nós tem de penetrar na verdadeira natureza do silêncio. Há silêncio entre dois ruídos. Há silêncio entre dois pensamentos. Há silêncio entre duas notas de música. Há silêncio depois de um barulho. Há silêncio quando o pensamento diz: «Tenho de me silenciar», criando silêncio artificial, pensando que é silêncio verdadeiro. Há silêncio quando nos sentamos serenamente e forçamos a mente a estar silenciosa. Todos esses silêncios são artificiais; não são verdadeiros, profundos, não cultivados, não premeditados. Psicologicamente, o silêncio só pode acontecer quando não há qualquer registo. Então, a mente, o próprio cérebro, está numa ausência absoluta de movimento. Nessa grande profundidade de silêncio que não é induzido, cultivado, nem praticado, talvez chegue esse extraordinário sentido de algo imensurável, que não tem nome.

Todo o processo, do princípio ao fim desta conversa, faz parte da meditação."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 10 de Abril de 2016, 14:25
A Perceção Imediata

"Para mim existe apenas perceção — que significa ver algo como falso ou verdadeiro de forma imediata. Esta perceção imediata do que é falso e do que é verdadeiro é o fator essencial — não o intelecto, com o seu raciocínio baseado na sua esperteza, nos seus conhecimentos, nos seus compromissos. Já vos deve ter acontecido algumas vezes verem a verdade de algo de forma imediata — tal como a verdade de que não podem pertencer ao que quer que seja. Isso é a perceção: ver a verdade de uma coisa de forma imediata, sem análise, sem raciocínio, sem nenhuma daquelas coisas que o intelecto cria com o intuito de adiar a perceção. É algo inteiramente diferente da intuição, que é uma palavra que nós usamos com loquacidade e de modo fácil...

Para mim, existe somente esta perceção direta — não o raciocínio, não o cálculo, não a análise. Vocês têm de ter a capacidade de analisar; têm de ter uma mente boa e esperta para poderem raciocinar; mas uma mente que está limitada ao raciocínio e à análise é incapaz de perceber o que é a verdade...

Se vocês entrarem em comunhão com vós mesmos, saberão por que pertencem, por que se comprometeram; e se forem mais fundo, verão a servidão, a redução da liberdade, a falta de dignidade humana que esse compromisso requer. Quando vocês percebem tudo isto de forma instantânea, ficam livres; não é necessário fazerem um esforço para serem livres. É por essa razão que a perceção é essencial."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 10 de Abril de 2016, 15:00
Pensar sem o Pensador

"O macaco que está na árvore sente fome, e então surge a necessidade de procurar um fruto ou uma noz. Primeiro vem a ação, e depois a ideia de que teria sido melhor se a tivessem armazenado. Noutras palavras, o que surge primeiro: a ação ou o agente? Haverá um agente se não houver uma ação? Compreendem? É isto que estamos sempre a perguntar a nós próprios: quem é aquele que vê? Quem é o observador? Estará o pensador separado dos seus pensamentos, o observador separado do observado, o experimentador separado da experiência, o agente separado da ação?... Mas se vocês examinarem verdadeiramente o processo, com muito cuidado, de perto e com inteligência, verão que a ação surge sempre em primeiro lugar, e que a ação com um fim em vista cria o agente. Estão a seguir-me? Se a ação tiver um fim em vista, a obtenção desse fim faz surgir o agente. Se pensarem com muita clareza e sem preconceito, sem se conformarem, sem estarem a tentar convencer alguém, sem um fim em vista, nesse mesmo pensar não existe pensador — existe apenas o pensar. É somente quando vocês têm uma finalidade no vosso pensar que vocês se tornam importantes, e não o pensamento. Talvez alguns de vocês já tenham observado isto. E, de facto, algo que é importante descobrir, porque a partir disso nós saberemos como agir. Se o pensador surge primeiro, então ele é mais importante que o pensamento, e todas as filosofias, costumes e atividades da nossa civilização se baseiam nesta suposição, mas se o pensamento surgir primeiro, então ele é mais importante que o pensador.

O Pensador É o Pensamento

Será que é necessário compreender o pensador, o agente, o executor, se o seu pensamento, o seu feito, a sua ação não podem ser separados dele? O pensador é o pensamento, o agente é o feito, o executor é a ação. O pensador revela-se no seu pensamento. O pensador, através das suas ações, cria o seu próprio sofrimento, a sua ignorância, a sua luta. O pintor pinta este quadro de felicidade passageira, de tristeza, de confusão. Por que produz ele este quadro doloroso? Por certo é este o problema que tem de ser estudado, compreendido e dissolvido. Por que pensa o pensador os seus pensamentos, a partir dos quais fluem todas as suas ações? É este o muro de pedra contra o qual vocês têm estado a bater com a vossa cabeça, não é verdade'? Se o pensador se conseguir transcender a si mesmo, então cessarão todos os conflitos: e, para se transcender, ele tem de se conhecer a si mesmo. O que é conhecido e compreendido, o que é realizado e completado não se repete. É a repetição que dá continuidade ao pensador."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 24 de Abril de 2016, 14:21
Liberdade

"Liberdade significa não condenar nada do que vedes em vós mesmo. Em geral o condenamos, ou o explicamos, justificamos. Nunca olhamos sem justificação ou condenação. Por conseguinte, a primeira coisa que cumpre fazer — e esta é talvez a última coisa — é observar sem nenhuma espécie de condenação. Isso vai ser muito difícil, porque é nossa cultura, nossa tradição, comparar, justificar ou condenar o que somos. Dizemos “isto é certo e isso é errado; isto é verdadeiro e isto é falso, isto é belo, etc.”, e isso nos impede de observar o que realmente somos.

Escutai: O que vós sois é uma coisa viva, e quando condenais o que vedes em vós mesmos, o estais condenando com uma memória morta, que é o passado. Há, por conseguinte, uma contradição entre o viver e o passado. Para se compreender o viver, o passado deve desaparecer; então, pode-se olhar. É isso o que estais fazendo agora, enquanto falamos; não ireis refletir em casa sobre o assunto, porque no momento em que começardes a fazê-lo estareis liquidado. Não estamos aqui para fazer terapia em grupo e tampouco confissões em público; isso seria infantil. O que vamos fazer é uma exploração de nós mesmos, como cientistas, sem dependermos de pessoa alguma. Se dependeis, seja de vosso analista ou vosso sacerdote, seja de vossa memória ou experiência, estais perdido, porque tudo isso é o passado. E se estais olhando o presente com os olhos do passado, jamais descobrireis o que é a coisa viva."

Fragmentação e Unidade

"Um dos mais importantes problemas ainda por resolver é o de estabelecer uma unidade completa, algo que esteja além do fragmentário e egocêntrico interesse no “eu”, em qualquer nível que seja — social, econômico ou religioso. O “eu” e o “não eu”, o “nós” e “eles” são os fatores da divisão.

Há possibilidade de alguma vez ultrapassar-se a atividade do interesse egocêntrico? Se uma coisa é “possível”, temos grande abundância de energia; o que desperdiça energia é o sentimento de não ser ela possível e, em consequência, ficarmos vogando ao sabor da corrente — como acontece com a maioria de nós — e caindo de armadilha em armadilha. Como é possível ultrapassar a atividade do interesse egocêntrico — reconhecendo-se que há no ente humano uma grande porção da agressividade e da violência do animal, uma grande porção de sua atividade irracional e daninha; e reconhecendo o quanto o ente humano está emaranhado em crenças, dogmas e teorias “separatistas” e que, quando se revolta contra um dado sistema ou ordem estabelecida, vai cair noutro?

Assim, vendo-se a situação humana tal como é, que cumpre fazer? Essa, a meu ver, é a pergunta que todo ente humano sensível, alertado e cônscio de tudo o que está sucedendo em redor de si, não pode deixar de fazer. Não se trata de uma questão intelectual ou hipotética, mas de uma questão proveniente da realidade do viver. Nem de algo que só se apresenta por uns poucos e raros momentos, mas, sim, de uma coisa que persiste em todo o correr do dia e da noite, através dos anos, e assim continuará até que estejamos vivendo uma vida completamente harmoniosa, sem conflito dentro de nós mesmos nem com o mundo."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 24 de Abril de 2016, 16:05
Da Perceção Vem a Energia

"A questão é certamente libertar a mente de forma total para que ela se encontre num estado de atenção que não tem limites, que não tem fronteiras. E como pode a mente descobrir esse estado? Como pode ela chegar a essa liberdade?

Espero que estejam a colocar esta questão a vós mesmos com toda a seriedade, porque eu não a estou a colocar a vós. Não estou a tentar influenciar-vos; estou tão-somente a salientar a importância de nos colocarmos a nós mesmos esta questão. O facto de outra pessoa colocar a questão por palavras não tem qualquer significado se vocês não a colocarem a vós mesmos com insistência, com urgência. A margem de liberdade está a tornar-se mais estreita a cada dia, como devem saber se forem minimamente observadores.

Os políticos, os líderes, os padres, os jornais e os livros que vocês leem, o conhecimento que adquirem, as crenças a que se agarram — tudo isto está a tornar a margem de liberdade cada vez mais estreita. Se vocês estiverem atentos a este processo que está a ter lugar, se perceberem verdadeiramente a estreiteza da mentalidade, a crescente servidão da mente, então descobrirão que da perceção vem a energia; e é esta energia que nasce da perceção que irá dissolver a mente mesquinha, a mente que vai ao templo, a mente que é receosa. Portanto, a perceção é a via da verdade.

Meditação

Não há dúvida de que a liberdade tem de começar no indivíduo que é um processo total, sem antagonismo com a mesma. O indivíduo é um processo total do mundo e, se ele se isola no nacionalismo ou na retidão, então ele causa desgraça e miséria. Se o indivíduo, contudo, que é um processo total que não se opõe à massa, mas que resulta dela, do conjunto — se o indivíduo se transforma, se ele transforma sua vida, então, para ele, há liberdade. E, como ele é o produto de um processo total, ao libertar-se do nacionalismo, da ambição, da exploração, ele age diretamente sobre o todo. A regeneração do indivíduo não se acha no futuro, mas no agora e, se adiarem a regeneração para amanhã, estarão atraindo a confusão, estarão presos na onda das trevas. A regeneração é agora, e não amanhã, pois a compreensão só se dá no presente. Não compreendem agora porque não põem todo seu coração e mente, toda sua atenção naquilo que desejam compreender. Se puserem o coração e a mente para compreender, compreenderão."

(Krishnamurti)

https://www.facebook.com/notes/655098114534388/Liberdade/1175481119162749/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 01 de Maio de 2016, 21:50
Realidade

"Há uma Realidade que ao encontrar-se com a mente, a transforma. Não é preciso fazer nada. Ela opera, funciona, tem a sua existência própria; mas a mente tem de senti-la, conhece-la, e não deve especular nem ter ideias de espécie alguma a seu respeito. A mente que a busca nunca a encontrará: mas aquele estado existe incontestavelmente. Dizendo-o não estou especulando, nem descrevendo uma experiência de ontem. Esse estado existe; e, se o alcançardes, vereis que tudo é possível, porque nele há criação que é amor, que é compaixão, mas ele não se alcança por nenhum meio, nenhum livro, nenhum guru ou organização. Compreendei que não podeis alcança-lo por meio nenhum, não há meditação que possa conduzir a ele. Ao compreenderdes que não há sanções, nem padrão de comportamento, nem guru nem livro, nem organizações, nem autoridade que possa levar-nos aquele estado, já o tendes alcançado. Vereis que a mente é apenas um instrumento daquela criação que, operando através da mente, produzirá um mundo totalmente diferente - não o mundo planejado pelos políticos ou pelo reformador social, porque aquela criação "é sua própria realidade, na própria eternidade.

Perceção

Ora, desejamos achar a verdade por meio do intelecto, por meio da imitação — o que é idolatria, quer os ídolos sejam feitos pela mão, quer pela mente. Só quando, pela compreensão, abandonais completamente a estrutura total do "eu", só então vem aquilo que é eterno, atemporal, imensurável; não podeis ir a ele; ele vem a vós."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 21 de Maio de 2016, 14:19
Meditação

"Agora a memória não é senão o impedimento a essa inteligência; a memória é independente dessa inteligência; a memória é a perpetuação dessa consciência do “eu” que é o resultado do meio, desse meio cujo significado completo a mente não viu. Portanto a memória estupidifica, frustra a inteligência que está sempre a devir, a inteligência sempre em movimento, intemporal. Mente é inteligência, mas a memória impôs-se à mente. Isto é, a memória sendo essa consciência do “eu”, identifica-se com a mente, e a consciência do “eu” aparece como se estivesse entre a inteligência e a mente, assim dividindo-a, estupidificando-a, frustrando-a, pervertendo-a. Portanto a memória, identificando-se com a mente, tenta tornar-se inteligente, o que para mim está errado – se é que posso usar aqui a palavra “errado” – porque a mente em si é inteligência, e é a memória que perverte a mente nublando assim a inteligência. E por isso a mente parece sempre procurar essa inteligência intemporal, que é a própria mente."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 21 de Maio de 2016, 21:03
É a Verdade que liberta, e não a nossa luta por sermos livres.

"O próprio fato de estarmos cônscios do que “é”, representa a Verdade. É a Verdade que liberta, e não a nossa luta por sermos livres. Assim, pois, não está longe de nós, a Realidade, mas nós a distanciamos, porque nos servimos dela como de um meio para a nossa própria continuidade. A Realidade está, presente aqui, neste momento, imediatamente ao nosso alcance. O eterno, o atemporal existe agora, e não pode o agora ser compreendido por aquele que está preso na rede do tempo.

Será que a mente é capaz de ver a sua própria limitação? E poderá a própria percepção dessa limitação trazer consigo o findar dessa limitação? Será a mente capaz, não de perguntar como esvaziar a mente, mas de ver totalmente o conteúdo que constitui a consciência e de perceber, de escutar, todo o movimento dessa consciência, de tal modo que a própria percep­ção dele é o findar desse movimento? Vejo alguma coisa que é falsa; a própria percepção da falsidade é já o verdadeiro. A pró­pria percepção de que estou a dizer uma mentira é a verdade.

Religião é, certamente, a descoberta da realidade. Religião não é crença. Religião não é a busca da verdade. A busca da verdade é meramente o preenchimento da crença. Religião é a compreensão do pensador, pois o que o pensador é, ele cria. Sem compreender o processo do pensador e o pensamento, meramente ficar preso num dogma não é certamente a descoberta da beleza da vida, da existência, da verdade."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 21 de Maio de 2016, 21:07
Meditação

"Krishnamurti: O verdadeiro fator de condicionamento, no passado, no presente e no futuro, é o "eu", que pensa em função do tempo; o "eu" que se esforça, em sua necessidade de libertar-se; assim, a raiz de todo condicionamento é o pensamento, o "eu". O "eu" é a essência mesma do passado, o "eu" é tempo, o "eu" é sofrimento; o "eu" se esforça por libertar-se de si próprio, esforça-se e luta para alcançar, rejeitar, "vir a ser". Essa luta por "vir a ser" é tempo, e nela há confusão e avidez de mais e de melhor. Busca o "eu" a segurança e, não a encontrando, transfere para o Céu o objeto de sua busca; esse mesmo "eu" que, na esperança de perder sua identidade, se identifica com algo maior do que ele - a nação, o ideal ou um Deus - esse mesmo "eu" é o fator de condicionamento.

Interrogante: Tomastes-me tudo. Que sou eu sem este "eu"?

Krishnamurti: Se não há "eu", estais descondicionado, quer dizer, sois "nada".

Interrogante: Pode o "eu" terminar sem esforço do próprio "eu"?

Krishnamurti: O esforço por tornar-se alguma coisa é a reação, a ação do condicionamento.

Interrogante: Como pode deter-se a ação do "eu"?

Krishnamurti: Só poderá deter-se se o virdes em atividade. Se o virdes em ação, ou seja no estado de relação, esse ver será o fim do "eu". Esse ver, não só é uma ação não condicionada, mas também atua no condicionamento.

Interrogante: Quereis dizer que o cérebro, que é o resultado de uma imensa evolução, com seu infinito condicionamento, pode libertar-se?

Krishnamurti: O cérebro é resultado do tempo; ele está condicionado para proteger-se fisicamente, mas quando tenta proteger-se psicologicamente, começa então o "eu", e surgem as aflições. Esse esforço para proteger-se psicologicamente é a confirmação do "eu". Tecnologicamente, o cérebro pode aprender, adquirir conhecimentos, mas, quando, psicologicamente, ele adquire saber, esse saber se impõe, nas relações, como "eu", com suas experiências, sua vontade, sua violência. É esse "eu" que introduz, nas relações, a divisão, o conflito e o sofrimento."

A Luz que não se apaga:
https://krishnamurtibox.files.wordpress.com/2015/09/a-luz-que-nc3a3o-se-apaga-krishnamurti1.pdf
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 21 de Maio de 2016, 21:15
Perceção

"Para mim, a verdade, essa integridade de que falo, acha-se em todas as coisas. Portanto, a ideia de que necessitais progredir em direção à realidade, é uma ideia falsa. Não se pode progredir na direção de uma coisa que sempre está presente. Não se trata de avançar para o exterior ou de voltar-se para o interior, mas sim de se libertar dessa consciência que se percebe a si mesma como separada. Quando houverdes realizado tal integridade, vereis que tal realidade não tem ela futuro nem passado; e todos os problemas relacionados com tais coisas desaparecem inteiramente. Uma vez que o homem realize isso, vem-lhe a tranquilidade, não a da estagnação, porém a da criação, a do ser eterno. Para mim a realização desta verdade é a finalidade do homem.

Algumas pessoas vão à Índia, mas não sei por que fazem isso: a verdade não está lá; o que está lá é a fantasia, e a verdade não é uma fantasia. A verdade está onde você está. Não em algum país estrangeiro, mas onde você está. A verdade é o que você está fazendo, como está se comportando. Está aí, não nas cabeças raspadas e naquelas bobagens que os homens têm feito.

Os que desejam deveras descobrir a Verdade relativa aos seus problemas, devem, naturalmente, pôr à margem tudo quanto é autoridade. Isto é dificílimo, porque quase todos nós estamos cheios de temor. Precisamos de alguém para nos escorar, para nos dar coragem; precisamos do "irmão mais forte" - aquele que mora na Rússia, ou na Inglaterra, ou na América, ou do outro lado do Himalaya, ou "ali na esquina". Todos precisamos de alguém para ajudar-nos. Enquanto estivermos encostados em alguém, nunca chegaremos a compreender o "processo" do nosso pensar; negaremos, assim, a nós mesmos, o descobrimento da Verdade."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 22 de Maio de 2016, 23:14
Meditação

"Necessitais de tempo, de muitos dias, de muitos meses, no Oriente se diz “de muitas vidas” — para atingir o inatingivel. É certo isso? Quereis dizer que desejais viver com vossas aflições e sofrimentos, dia por dia, para gradualmente vos libertardes de tudo... dentro de uns dez anos? Direis a mesma coisa se tiverdes uma violenta dor de dentes — “livrarme-ei dela gradualmente?”. Ou, pode o sofrimento terminar instantaneamente, não no tempo, não na duração? E que é isso que dura? Se dizeis: “Ora, daqui a dez anos, ou mesmo amanhã, serei feliz, serei diferente do que hoje sou” — que sois hoje? Um feixe de idéias, memórias, palavras, experiências; resultado de propaganda, de influências sociais, de condições económicas, do clima, dos trajos, da alimentação.
Sois o resultado de tudo isso, um feixe de memórias. É isso que quereis perpetuar para, afinal, vos transformardes num belo deus, ou numa borboleta...
Parece-me que, por esse caminho, nunca se chega ao fim do sofrimento. A evolução não tornou o homem, em nada, mais brilhante, inteligente, livre.

Interrogante: Tomastes-me tudo. Que sou eu sem este "eu"?
Krishnamurti: Se não há "eu", estais descondicionado, quer dizer, sois "nada"."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/notes/655098114534388/Pergunta:%20Que%20entendeis%20por%20amor?%20%2F1198679330176261%2F

Pergunta: Que entendeis por amor?

Krishnamurti: Aqui também, vamos descobrir pela compreensão o que o amor não é; porque, uma vez que o amor é o desconhecido, só nos podemos aproximar dele se abandonarmos o conhecido. Por certo, o desconhecido não pode ser descoberto por uma mente cheia do conhecido. Nessas condições, o que vamos fazer é descobrir os valores do conhecido, examinar o conhecido; e depois de o considerarmos com simplicidade, sem condenação, a mente estará livre do conhecido, e saberemos então o que é o amor. Assim, devemos considerar o amor negativamente, não positivamente.

Que é pois o amor, para a maioria de nós? Quando dizemos que amamos alguém, que queremos dizer? Queremos dizer que possuímos essa pessoa. Dessa posse nasce o ciúme, porque, se eu perco a pessoa que amo, que acontece? Fico vazio, perdido. Por conseguinte, legalizo a posse. Retenho a posse no meu poder. Do reter, do possuir a pessoa, resultam ciúmes, temores e a infinidade de conflitos inerentes à posse. Positivamente, essa posse não é amor, é? Não me deis assentimento com a cabeça; porque se concordais comigo estais de acordo apenas no nível verbal e tal maneira de concordar não tem significação alguma. Só podereis concordar, quando não possuirdes a vossa propriedade, a vossa esposa, as vossas ideias.

O amor, é evidente, não é sentimento. Ser sentimental, ser emotivo, não significa ter amor, porque o sentimentalismo e a emoção são meras sensações. O indivíduo religioso que chora por causa de Jesus ou de Krishna, por causa do seu guru ou outro qualquer, é apenas sentimental, emotivo. Está entregue à sensação, que é um processo de pensamento, e o pensamento não é amor. O pensamento é resultado da sensação. Por isso mesmo a pessoa sentimental, emotiva, não pode em absoluto conhecer o amor. Com efeito, não somos emotivos e sentimentais? O sentimentalismo, a emotividade, são puras formas de auto-expansão. Estar cheio de emoção não significa ter amor, porque uma pessoa sentimental pode tornar-se cruel quando os seus sentimentos não são correspondidos, quando não consegue dar expansão aos seus sentimentos. A pessoa emotiva pode ser incitada ao ódio, à guerra, à carnificina. E o homem, sentimental, lacrimoso por sua religião, esse homem, positivamente, não tem amor. É óbvio que não há amor quando não existe o verdadeiro respeito, quando não respeitais o vosso semelhante, seja vosso servo ou vosso amigo. Já notastes que não sois respeitosos, bondosos, generosos para com vossos servos, para com as pessoas que – como se costuma dizer – estão “abaixo” de vós? No entanto, tendes respeito aos que estão acima; ao vosso patrão, ao milionário, ao homem que possui um palacete e um título, ao homem que pode dar-vos um emprego melhor, àquele de quem podeis ganhar alguma coisa. Mas tratais a pontapés os que vos estão subordinados, tendes uma linguagem especial para eles. Logo, onde não há respeito, não há amor; onde não há compaixão, piedade, perdão, não há amor. E como quase todos nós nos achamos nesse estado, não temos amor. Não somos nem respeitosos, nem compassivos. Temos a paixão pela posse, abundamos em sentimentos e emoções, que podem ser voltados tanto para um como para o outro lado: para o assassínio, a carnificina, ou para a unificação em prol de alguma intenção estulta e ignorante. Como, em tais condições pode haver amor? Só podereis amar quando essas coisas todas houverem cessado, acabado, quando não mais possuirdes, não mais fordes sentimentais em vossa devoção a um objeto. Essa devoção é uma suplica, é buscar alguma coisa, de maneira diferente. O homem que reza não sabe o que é amor. Visto que tendes a paixão da posse, visto que buscais um fim ou resultado; com a vossa devoção, com as vossas preces – o que vos faz sentimentais – naturalmente não há amor; e, evidentemente, não existe amor quando não existe respeito. Podeis dizer que tendes respeito, mas o vosso respeito é para o superior, é apenas o respeito proveniente do desejo de alguma coisa, ou o respeito do temor. Se realmente sentísseis respeito, seríeis respeitosos tanto para com os ínfimos dos vossos semelhantes como para os que estão mais “alto”, como se costuma dizer; e visto que não tendes este respeito, não há amor em vós, Quão poucos de nós somos generosos, indulgentes, compassivos! Só somos generosos, quando compensa, só somos compassivos, quando podemos ver alguma retribuição. Assim, quando desaparecerem essas coisas, quando elas não mais vos ocuparem a mente, e quando as coisas da mente não mais encherem os vossos corações, tereis então o amor; e só o amor é capaz de transformar a loucura e a insânia que dominam o mundo de hoje – não os sistemas, nem as teorias, da esquerda ou da direita. Só amais deveras quando não possuis, quando não sois invejosos, nem áridos, quando sois respeitosos, quando tendes piedade e compaixão, quando tendes consideração para com vossa esposa, vossos filhos, vosso vizinho, vossos desditosos servos, que não têm um dia de folga, que se tornaram vossos escravos. Quando fordes respeitosos para com todos e não apenas para com os vossos gurus,  para com o homem que vos é superior conhecereis o amor. Só esse amor pode transformar o mundo, só ele pode encher o mundo de compaixão e da beleza. Ma se encheis os vossos corações com as coisas feitas pela mente ou pela mão, não há amor; e viveis numa batalha constante uns com os outros. Mas se perceberdes, se estiverdes cônscios dessas coisas todas, sem entrardes em conflito com elas, haverá então uma liberdade, e nessa liberdade se encontra o amor que não é teórico. Podeis sentir o amor com todas as suas benções, seu perfume, sua delicadeza, mas só se “vós” deixardes de existir, só se “vós” deixardes de querer alcançar ou de querer tornar-vos alguma coisa. Só esse amor pode transformar o mundo."

(Krishnamurti)
https://krishnamurtibox.files.wordpress.com/...
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 26 de Maio de 2016, 19:32
Meditação

"A renovação e a continuidade são contraditórias. Na continuidade, não há renascimento, não há renovação, nem criação, mas só no findar. Quando um problema termina, um novo problema pode manifestar-se; mas no intervalo entre dois problemas, há sempre renovação. E por conseguinte, não há temor da morte.

Expressando-o diferentemente: a morte é o estado de não continuidade, que é o estado de renascimento. A morte é o desconhecido, porque é um findar, no qual há renovação. Mas uma mente que é contínua não pode conhecer o desconhecido; só pode conhecer o conhecido, porque só pode agir e mover-se no conhecido, que é o contínuo. Por conseguinte, o conhecido, o contínuo, está sempre cheio de temor do desconhecido, da morte, na qual, tão só, temos a renovação. No findar há renovação, e não na continuidade. Por essa razão, o desconhecido nunca pode ser conhecido por intermédio do contínuo. Por conseguinte, a morte permanece um mistério, porque nós sempre procuramos conhecê-la através do conhecido, através do contínuo. Se puderdes pôr fim a essa continuidade, dia a dia, momento por momento, vereis que há renovação; há a morte, na qual há renovação. A morte, por conseguinte, não é temível; porque no findar há renascimento, e na continuidade há decomposição, desintegração. Pensai nisso a fundo, Senhores, e percebereis a sua beleza, a sua verdade. Não é teoria, é um facto. O que tem fim tem renascimento; o que é contínuo nunca conhecerá a renovação. A morte é o desconhecido, e o que é contínuo é o conhecido. O contínuo nunca pode conhecer o desconhecido e por isso teme o desconhecido, perturba-se diante dele. A imortalidade não é o “eu” continuado. O “eu” pertence ao tempo, é resultado do tempo. O que é imortal está fora do tempo. Por conseguinte, não há relação entre o “eu” e o atemporal. Gostamos de pensar assim, mas este é outro logro que a mente nos prega. O que é imortal não pode ser encaixado no mortal, não pode ser colhido na rede do tempo. Só quando o “eu”, que é continuidade, que é tempo, chega ao fim, alcançamos aquele estado que é imperecível, imortal."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 26 de Maio de 2016, 21:33
Meditação

"O próprio fato de estarmos cônscios do que “é”, representa a Verdade. É a Verdade que liberta, e não a nossa luta por sermos livres. Assim, pois, não está longe de nós, a Realidade, mas nós a distanciamos, porque nos servimos dela como de um meio para a nossa própria continuidade. A Realidade está, presente aqui, neste momento, imediatamente ao nosso alcance. O eterno, o atemporal existe agora, e não pode o agora ser compreendido por aquele que está preso na rede do tempo.

...

Todo pensamento e sentimento deve florescer para que se complete o ciclo da vida e da morte; é preciso que tudo em nós floresça: a ambição, a avidez, o ódio, o regozijo, a paixão, para que de seu findar surja a redenção. Somente em liberdade pode alguma coisa vicejar, jamais na repressão, no controle e na disciplina, base de toda corrupção e perversão. O florescimento e a liberdade constituem a essência da bondade e da virtude. Não é fácil, por exemplo, deixar florescer a inveja; em geral, a condenamos ou a exaltamos, mas nunca a deixamos crescer livremente. E a liberdade é fundamental para que o facto da inveja se revele em toda a sua plenitude, expondo as sutis variações de sua forma, de sua intensidade e de quanto a caracterize. Em clima de repressão, a inveja dificilmente virá à luz. Mas, ao se expor dá-se a sua natural extinção; e ao desaparecer a inveja nós nos defrontamos com o facto do vazio, da solidão e do medo. À medida que cada um desses factos floresce em liberdade, cessa o conflito entre o observador e a coisa observada; ao desaparecer o censor, resta unicamente o ato de observar e ver. A liberdade nasce da ação total, jamais da repetição, da repressão, ou da sujeição a um dado padrão de pensamento. E só existe a perfeição da completa integridade no florescer e no morrer; se uma coisa não terminar, nunca poderá florescer. Aquilo que tem continuidade é o pensamento através do tempo. Ao florescer, o pensamento deixa de existir, pois é somente na morte que surge o novo. Para que o novo surja é preciso que cesse todo conhecido. O novo não nasce do pensamento, do que é velho; ele deve morrer para que desponte o novo. Tudo o que floresce deve necessariamente findar.

Tememos o total aniquilamento do conhecido, que é a base do ego, do “eu”, do “meu”; damos preferência ao conhecido com toda a sua confusão, conflito e miséria; com a liberdade das coisas conhecidas, corremos o risco de perder aquilo que denominamos amor, relações, felicidade e tudo o mais. A questão explosiva, fundamental, de nos libertarmos do conhecido, o que não é mera reação, põe fim ao sofrimento e o amor transcende, então, o pensamento e o sentimento."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 28 de Maio de 2016, 15:55
Meditação

A violência de corpo inteiro

"Há tantos tipos de violência. Vamos examinar cada tipo de violência ou vamos considerar toda a estrutura da violência? Podemos olhar para todo o espectro da violência, e não para uma parte dela?... A fonte da violência é o “eu”, o “ego”, que se expressa de muitos modos – em divisão, em tentar tornar-se alguém – o que se divide em “eu” e “não eu”, como inconsciente e consciente; o “eu” que se identifica ou não com a família, que se identifica ou não com a comunidade, e assim por diante. É como uma pedra lançada em um lago: as ondas espalham-se cada vez mais, estando no centro o “eu”. Enquanto o “eu” sobreviver sob qualquer forma, muito sutil ou grosseira, haverá necessariamente violência.

As profundezas da violência

Violência não é só matar outra pessoa. É violência usarmos palavras ferinas, fazermos um gesto para afastar uma pessoa, obedecermos por medo. Portanto, violência não é somente matança organizada em nome de Deus, em nome da sociedade ou do país. Violência é coisa muito mais sutil, mais profunda, e estamos investigando-a em toda a sua profundidade. Quando você se denomina indiano, muçulmano, cristão, europeu, ou qualquer outra coisa, está sendo violento. Sabe por que isso é violência? É porque você está se destacando do resto da humanidade. Quando você se separa por crença, por nacionalidade, por tradição, isso produz violência. Portanto, um homem que busque compreender a violência, não pertence a nenhum país, a nenhuma religião, a nenhum partido ou sistema político; ele está interessado na compreensão total da humanidade."

(Krishnamurti)

https://www.facebook.com/notes/655098114534388/A%20ESTRUTURA%20DA%20MENTE/1201967119847482/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 28 de Maio de 2016, 16:31
Meditação

"A compreensão de vós mesmo não depende de ninguém; ela se apresentará se estiverdes muito vigilante, atento, encontrando-vos com o que é em cada momento que passa e abstendo-vos de julgá-lo. O autoconhecimento proporciona uma confiança em que o “eu” não se torna importante. Não é a confiança do “eu” que acumulou considerável experiência, ou do “eu” que possui um grande depósito no banco, ou do “eu” que tem um vasto cabedal de conhecimentos. Nisso não existe confiança e, sim, só e sempre, temor. Entretanto, quando a mente começa a tornar-se cônscia de si mesma e das suas reações, quando percebe todas as suas atividades, momento por momento, sem incli­nação para a comparação ou o julgamento, então, desse conhecimento, resulta uma confiança inteiramente livre do “eu”. Essa mente não busca a admiração nem evita a crítica; já lhe não importa nem uma nem outra coisa, pois a cada momento encontra libertação na com­preensão do que é.

Perceção

A percepção sem palavra, ou seja, sem pensamento, é um dos fenómenos mais estranhos. Então a percepção é muito mais acurada, não só com o cérebro, mas com todos os sentidos. Tal percepção não é a percepção fragmentada do intelecto nem a questão das emoções. Ela pode ser chamada de percepção total, e é parte da meditação. Percepção sem aquele que percebe na meditação é comungar com o elevado e a profundeza do imenso. Esta percepção é inteiramente diferente de ver um objeto sem um observador, pois na percepção da meditação não existe objeto e, assim, nem experiência. A meditação pode acontecer quando os olhos estão abertos e a pessoa está rodeada por objetos de toda espécie, mas, então, estes objetos não têm absolutamente importância. A pessoa os vê, mas não há processo de reconhecimento, o que significa que não há experiência. Que significado tem tal meditação? Não há significado; não há utilidade. Mas nessa meditação existe um movimento de grande êxtase, que não é para ser confundido com prazer. É o êxtase que dá ao olho, ao cérebro e ao coração a qualidade da inocência. Sem ver a vida como uma coisa totalmente nova, ela é uma rotina, aborrecida, e uma coisa sem sentido. Assim, a meditação é da maior importância. Ela abre a porta para o incalculável, o incomensurável."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 16 de Junho de 2016, 17:00
Meditação

"Coisa extraordinária é a mente, que contém o cérebro, o pensamento, o sentimento e o variado mundo de emoções e fantasia. Não é este conteúdo que forma a mente total, pois, em verdade, ela transcende o que contém. No entanto, o conteúdo não tem existência própria, porquanto ele existe em função mesmo da mente. O intelecto, o pensamento, o sentimento e a consciência nascem do vazio da mente. A árvore não é a palavra que a designa, não é as folhas, os galhos ou as suas raízes; é o conjunto desses elementos que forma a árvore, e esta, por sua vez, nada tem a ver com suas partes componentes. O conteúdo mental é um atributo da mente, que em si é o vazio, mas não é a própria mente. O tempo e o espaço vicejam nesse vazio. A vida e seus inumeráveis problemas formam o conteúdo do cérebro. Limitado por natureza, o cérebro é incapaz de apreender a vastidão da mente, porque o todo não é a soma das partes. No entanto, contrariamente a este princípio, o cérebro busca formar o todo através da união das partes que se contradizem.

A atividade da memória, a ação baseada no conhecimento, o conflito dos desejos opostos, a busca de liberdade estão dentro dos limites do cérebro. Por mais que ele aprimore, amplie ou acumule seus desejos, a dor jamais cederá. Enquanto o pensamento for mera reação da memória e da experiência não haverá fim para o sofrimento. Existe um “pensar” oriundo do completo vazio da mente; por ser destituído de centro, este vazio é a ação do infinito. Daí surge a verdadeira criação, diferente da criação humana. O amor e a morte são esse vazio criador."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 16 de Junho de 2016, 21:48
Perceção

"O momento decisivo está na nossa consciência. A nossa consciência é um caso muito complicado. Já se escreveram muitos volumes a seu respeito, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Não estamos cônscios da nossa própria consciência; para examinar essa consciência em toda a sua complexidade, temos que ser livres para olhar, para estarmos cônscios do seu movimento sem nenhuma escolha. Não é que o conferencista esteja dirigindo vocês para olharem ou ouvirem todo o movimento interior da consciência de um determinado modo. A consciência é comum a toda a humanidade. No mundo, todo homem sofre; tanto interna quanto externamente há ansiedade, incerteza, todo o desespero da solidão; há insegurança, ciúme, ganância, inveja e sofrimento. A consciência humana é um todo; não é a sua ou a minha consciência. Isto é lógico, sensato, racional: para onde quer que vocês vão, em qualquer clima que vivam, sejam opulentos ou degradantemente pobres, quer acreditem em um deus ou em alguma outra entidade, a crença e a fé são comuns a toda a humanidade - as imagens e os símbolos podem ser totalmente diferentes em vários lugares, mas eles provêm de algo comum a toda a humanidade. Esta não é apenas uma afirmação verbal. Se vocês a tomarem como uma afirmação verbal, como uma ideia, um conceito, então vocês não verão a sua profunda significação. A significação é a de que a sua consciência é a consciência de toda a humanidade, porque vocês sofrem, são ansiosos, solitários, inseguros, confusos, exatamente como os outros, embora eles vivam a dez mil milhas de distância. A perceção disso, o sentimento — o sentimento no mais íntimo —, é totalmente diferente da mera aceitação verbal. Quando vocês compreendem que são o resto da humanidade, isso traz uma tremenda energia; vocês atravessaram a estreita trilha da individualidade, o estreito círculo do eu e você, do nós e eles. Estamos examinando juntos esta consciência bastante complexa do homem, não do homem europeu, do homem asiático ou do homem do Oriente Médio, mas este movimento extraordinário no tempo, que tem se perpetuado na consciência por milhões de anos."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 30 de Julho de 2016, 00:45
Liberdade

“Liberdade significa não condenar nada do que vedes em vós mesmo. Em geral o condenamos, ou o explicamos, justificamos. Nunca olhamos sem justificação ou condenação. Por conseguinte, a primeira coisa que cumpre fazer — e esta é talvez a última coisa — é observar sem nenhuma espécie de condenação. Isso vai ser muito difícil, porque é nossa cultura, nossa tradição, comparar, justificar ou condenar o que somos. Dizemos “isto é certo e isso é errado; isto é verdadeiro e isto é falso, isto é belo,, etc.”, e isso nos impede de observar o que realmente somos.

Escutai: O que vós sois é uma coisa viva, e quando condenais o que vedes em vós mesmos, o estais condenando com uma memória morta, que é o passado. Há, por conseguinte, uma contradição entre o viver e o passado. Para se compreender o viver, o passado deve desaparecer; então, pode-se olhar. É isso o que estais fazendo agora, enquanto falamos; não ireis refletir em casa sobre o assunto, porque no momento em que começardes a fazê-lo estareis liquidado. Não estamos aqui para fazer terapia em grupo e tampouco confissões em público; isso seria infantil. O que vamos fazer é uma exploração de nós mesmos, como cientistas, sem dependermos de pessoa alguma. Se dependeis, seja de vosso analista ou vosso sacerdote, seja de vossa memória ou experiência, estais perdido, porque tudo isso é o passado. E se estais olhando o presente com os olhos do passado, jamais descobrireis o que é a coisa viva."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 30 de Julho de 2016, 22:05
Perceção

“A revolução só é possível agora, não no futuro; a regeneração é hoje, não amanhã. Se você quiser experimentar o que eu estou dizendo, encontrará regeneração imediata, uma novidade, uma qualidade de frescor; porque a mente está sempre tranquila quando está interessada, quando deseja ou quando tem a intenção de entender. A dificuldade com a maioria de nós é que não temos a intenção de entender, porque temos medo que, se entendermos, isso pode trazer uma ação revolucionária na nossa vida, e então resistimos. É o mecanismo de defesa que está em ação quando nós usamos o tempo ou um ideal como meio de transformação gradual.

Assim a regeneração só é possível no presente, não no futuro, não amanhã. Um homem que se apoia no tempo como meio pelo qual pode conquistar felicidade ou realizar a verdade ou Deus está simplesmente decepcionando a si mesmo; está vivendo na ignorância e portanto em conflito. Um homem que vê que o tempo não é o caminho para fora da dificuldade e que portanto está livre do falso, tal homem naturalmente tem a intenção de entender; portanto sua mente está quieta espontaneamente, sem compulsões, sem prática. Quando a mente está parada, tranquila, sem procurar qualquer resposta ou qualquer solução, nem resistindo ou evitando – é somente então que pode haver regeneração, porque então a mente é capaz de perceber o que é verdade; e é a verdade que liberta, não seu esforço de ser livre."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/notes/655098114534388/Liberdade/1175481119162749/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 30 de Julho de 2016, 22:20
A perceção da verdade é imediata

"O estado verbal foi cuidadosamente construído ao longo dos séculos, na relação entre o indivíduo e a sociedade; portanto a palavra, o estado verbal é tanto um estado social como um estado individual. Para comunicarmos tal como estamos a fazer, eu necessito de memória, de palavras, tenho de saber falar inglês, e vocês têm também de saber inglês; é algo que foi sendo adquirido século após século. A palavra está não só a ser desenvolvida nos relacionamentos sociais, mas também como uma reação nesse relacionamento social para com o indivíduo; a palavra é necessária. A questão é: levou tanto tempo a construir-se o simbó­lico, o estado verbal, será que ele pode ser banido de forma imediata?

Será que com o tempo nos iremos ver livres do aprisionamento verbal da mente, o qual levou séculos a construir? Ou será que ele deve ruir de forma imediata? Agora, vocês poderão dizer: «Tem de levar tempo, não consigo fazê-lo no imediato.» Isto significa que precisam de muitos dias, significa uma continuidade relativamente ao que tem acontecido, apesar de ser modificado ao longo do processo, até que alcancem um estado em que já não há mais caminho a percorrer. São capazes de o fazer? Porque temos medo, somos preguiçosos, indolentes, dizemos: «Para quê incomodarmo-nos com tudo isto? É demasiado difícil»; ou «Não sei o que fazer» — portanto adiam, adiam, adiam. Mas vocês têm de ver a verdade da continuação e da modificação da palavra. A perceção da verdade sobre algo é imediata — não vem com o tempo. Poderá a mente ter essa perceção instantaneamente, no próprio ato de se questionar? Poderá a mente ver a barreira da palavra, compreender a importância da palavra num instante e ficar naquele estado em que já não se encontra aprisionada pelo tempo? Já devem ter experimentado isto; só que, para a maioria de nós, trata-se de algo que acontece muito raramente."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 30 de Julho de 2016, 22:29
Verdade Subtil

"Vocês têm o instante da compreensão, essa extraordinária rapidez de perceção profunda e instantânea, quando a mente se encontra muito tranquila, quando o pensamento está ausente, quando a mente não está sobrecarregada com o seu próprio ruído. Portanto, a compreensão seja do que for — um quadro de pintura moderna, uma criança, a vossa mulher, o vosso vizinho ou a compreensão da verdade, que está presente em todas as coisas — só pode surgir quando a mente está muito tranquila. Mas essa tranquilidade não pode ser cultivada, porque se vocês cultivarem uma mente tranquila, ela não será uma mente tranquila, será uma mente morta.

Quanto mais estiverem interessados em algo, maior será a vossa intenção de compreenderem, e mais simples, clara e livre se encontrará a mente. Nessa altura cessa a verbalização. Afinal, o pensamento é palavra, e é a palavra que interfere. É o véu das palavras, que é a memória que intervém entre o desafio e a resposta, É a palavra que está a responder ao desafio, aquilo a que chamamos inteleção. Assim, a mente que está a tagarelar, a verbalizar, não pode compreender a verdade — a verdade é relação, não uma verdade abstrata. Não existe nenhuma verdade abstrata. Mas a verdade é muito subtil. É o subtil que é difícil de seguir. Não é o abstrato. Vem de uma forma tão rápida, tão misteriosa, que não pode ser percebida pela mente. Tal como um ladrão na noite, vem misteriosamente, não quando estamos preparados para a receber. A vossa receção é apenas um convite à ambição. Portanto, uma mente que fica enredada na rede das palavras não pode compreender a verdade."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 31 de Julho de 2016, 17:20
Vocês são o desconhecido

"Vocês só se podem conhecer a vós mesmos quando baixam a vossa guarda, quando não estão a calcular, a proteger, constantemente atentos a uma oportunidade de conduzir, de transformar, de subjugar, de controlar; quando vocês se veem a vós mesmos de forma inesperada, ou seja, quando a mente não tem preconceções em relação a si própria, quando a mente está aberta, quando não se esteve a preparar para encontrar o desconhecido.

Se a vossa mente estiver preparada, certamente não poderão conhecer o desconhecido, porque vocês são o desconhecido. Se disserem a vós mesmos: «Sou Deus» ou «Não sou mais que uma massa de influências sociais ou um feixe de qualidades» — se vocês tiverem qualquer preconceção sobre vós mesmos, não poderão compreender o desconhecido, aquilo que é espontâneo.

Portanto, a espontaneidade só pode surgir quando o intelecto baixa a sua guarda, quando não se está a proteger, quando deixa de temer pela sua segurança; e isto só pode acontecer a partir de dentro. Isto é, o espontâneo tem de ser o que é novo, desconhecido, incalculável, criativo, aquilo que tem de ser expresso, amado, onde a vontade enquanto processo do intelecto, a controlar, a conduzir, não toma parte. Observem os vossos próprios estados emocionais e verão que os momentos de grande alegria, de grande êxtase, não são premeditados; eles acontecem, misteriosa, secreta e inesperadamente."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 31 de Julho de 2016, 21:28
Só existe vós

"Como vedes, não podeis depender de ninguém. Não há guia, não há instrutor, não há autoridade. Só existe vós, vossas relações com outros e com o mundo, e nada mais. Quando se percebe esse facto, ou ele produz um grande desespero, causador de pessimismo e amargura; ou, enfrentando o facto de que vós e ninguém mais sois o responsável pelo mundo e por vós mesmo, pelo que pensais, pelo que sentis, pela maneira como agis, desaparece de todo a auto compaixão. Normalmente, gostamos de culpar os outros, o que é uma forma de auto compaixão.

Poderemos, então, vós e eu, promover em nós mesmos — sem dependermos de nenhuma influência exterior, de nenhuma persuasão, sem nenhum medo de punição — poderemos promover em nossa própria essência uma revolução total, uma mutação psicológica, para que não sejamos mais brutais, violentos, competidores, ansiosos, medrosos, ávidos, invejosos — enfim, todas as manifestações de nossa natureza que formaram a sociedade corrompida em que vivemos nossa vida de cada dia?

Importa compreender desde já que não estou formulando nenhuma filosofia ou estrutura de ideias ou conceitos teológicos. Todas as ideologias se me afiguram totalmente absurdas. O importante não é uma filosofia da vida, porém que observemos o que realmente está ocorrendo em nossa vida diária, interior e exteriormente. Se observardes muito atentamente o que se está passando, se o examinardes, vereis que tudo se baseia num conceito intelectual. Mas o intelecto não constitui o campo total da existência; ele é um fragmento, e todo fragmento, por mais engenhosamente ajustado, por mais antigo e tradicional que seja, continua a ser uma parte insignificante da existência, e nós temos de interessar-nos pela totalidade da vida. Quando consideramos o que está ocorrendo no mundo, começamos a compreender que não há processo exterior nem processo interior; há só um processo unitário, um movimento integral, total, sendo que o movimento interior se expressa exteriormente, e o movimento exterior, por sua vez, reage ao interior. Ser capaz de olhar esse facto — eis o que é necessário, só isso; porque, se sabemos olhar, tudo se torna claríssimo. O ato de olhar não requer nenhuma filosofia, nenhum instrutor. Ninguém precisa ensinar-vos como olhar. Olhais, simplesmente.

Assim, vendo todo esse quadro, vendo-o não verbalmente porém realmente, podeis transformar-vos, natural e espontaneamente? Esse é que é o verdadeiro problema. Será possível promover uma revolução completa na psique?"

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 31 de Julho de 2016, 21:30
Só existe vós (2)

"O homem que diz: "Desejo mudar, dizei-me como consegui-lo" — parece muito atento, muito sério, mas não o é. Deseja uma autoridade que ele espera estabelecerá a ordem nele próprio. Mas, pode algum dia a autoridade promover a ordem interior? A ordem imposta de fora gera sempre, necessariamente, a desordem. Podeis perceber essa verdade intelectualmente, mas sereis capaz de aplicá-la de maneira que vossa mente não mais projete qualquer autoridade — a autoridade de um livro, de um instrutor, da esposa ou do marido, dos pais, de um amigo, ou da sociedade? Como sempre funcionamos segundo o padrão de uma fórmula, essa fórmula torna-se em ideologia e autoridade; mas, assim que perceberdes realmente que - a pergunta "como mudar?" cria uma nova autoridade, tereis acabado com a autoridade para sempre.

Repitamo-lo claramente: Vejo que tenho de mudar completamente, desde as raízes de meu ser; não posso mais depender de nenhuma tradição, porque foi a tradição que criou essa colossal indolência, aceitação e obediência; não posso contar com outrem para me ajudar a mudar, com nenhum instrutor, nenhum deus, nenhuma crença, nenhum sistema, nenhuma pressão ou influência externa. Que sucede então?

Em primeiro lugar, podeis rejeitar toda autoridade? Se podeis, isso significa que já não tendes medo. E então que acontece? Quando rejeitais algo falso que trazeis convosco há gerações, quando largais uma carga de qualquer espécie, que acontece? Aumentais vossa energia, não? Ficais com mais capacidade, mais ímpeto, maior intensidade e vitalidade. Se não sentis isso, nesse caso não largastes a carga, não vos livrastes do peso morto da autoridade.

Mas, uma vez vos tenhais livrado dessa carga e tenhais aquela energia em que não há medo de espécie alguma — medo de errar, de agir incorretamente — essa própria energia não é então mutação? Necessitamos de grande abundância de energia, e a dissipamos com o medo; mas, quando existe a energia que vem depois de nos livrarmos de todas as formas do medo, essa própria energia produz a revolução interior, radical. Nada tendes que fazer nesse sentido.

Ficais então a sós com vós mesmo, e esse é o estado real que convém ao homem que considera a sério estas coisas. E como já não contais com a ajuda de nenhuma pessoa ou coisa, estais livre para fazer descobertas. Quando há liberdade, há energia; quando há liberdade, ela não pode fazer nada errado. A liberdade difere inteiramente da revolta. Não há agir correta ou incorretamente, quando há liberdade. Sois livre e, desse centro, agis. Por conseguinte, não há medo, e a mente sem medo é capaz de infinito amor. E o amor pode fazer o que quer."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 15 de Agosto de 2016, 21:06
Meditação

"Todo o nosso desenvolvimento tecnológico se baseia no medir; se não medíssemos, não poderia haver avanço tecnológico. O conhecimento acumulado é movimento no tempo: Eu sei, eu virei a saber. Tudo isso é medida, e esse medir desloca-se para o interior do campo psicológico. Se nos observarmos bem, veremos facilmente como isso funciona. Psicologicamente, estamos sempre a comparar. Seremos capazes de terminar essa comparação - o que significa também parar o tempo? Medir significa comparar-me com alguém, querendo ser como ele, ou não querendo ser como ele. O processo positivo e negativo da comparação faz parte do medir.

Será possível viver cada dia sem qualquer espécie de comparação? Exteriormente, temos de comparar dois materiais, entre a cor de um tecido e a cor de outro tecido. Mas, psicologicamente, interiormente, será que podemos libertar-nos totalmente da comparação, isto é, libertar-nos da medida? Medida é um movimento do pensamento. Assim, poderá o pensamento parar?

O pensamento nasce do que é conhecido. Conhecimento adquirido é o conhecido, e o conhecido é o passado. Pode esse pensamento parar? Seremos capazes de nos libertarmos do conhecido? Funcionamos sempre a partir do conhecido, e tornamo-nos extraordinariamente hábeis e imitadores, e sempre comparando. Estamos constantemente a tentar ser alguma coisa. Portanto, poderá o pensamento ficar em suspenso?"

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 10 de Setembro de 2016, 20:05
Perceção

"O cérebro é sempre condicionado pela nossa experiência, pelas nossas respostas sensoriais — como argumentar, como negar e tudo o mais.

Apenas para os que são livres existe a bem-aventurança, e a liberdade vem com a verdade de “o que é”."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 10 de Setembro de 2016, 20:07
Perceção

"Eu olho para aquele pedaço de pano e digo que é vermelho, porque fui condicionado a chamá-lo de vermelho. Se o senhor tivesse sido condicionado a chamá-lo de roxo, assim o faria. O cérebro é sempre condicionado pela nossa experiência, pelas nossas respostas sensoriais — como argumentar, como negar e tudo o mais.

Se eu for católico, todo o meu comportamento em relação à religião é Jesus, a Virgem Maria e assim por diante." :v

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 10 de Setembro de 2016, 20:29

Meditação

"Krishnamurti: O verdadeiro fator de condicionamento, no passado, no presente e no futuro, é o "eu", que pensa em função do tempo; o "eu" que se esforça, em sua necessidade de libertar-se; assim, a raiz de todo condicionamento é o pensamento, o "eu". O "eu" é a essência mesma do passado, o "eu" é tempo, o "eu" é sofrimento; o "eu" se esforça por libertar-se de si próprio, esforça-se e luta para alcançar, rejeitar, "vir a ser". Essa luta por "vir a ser" é tempo, e nela há confusão e avidez de mais e de melhor. Busca o "eu" a segurança e, não a encontrando, transfere para o Céu o objeto de sua busca; esse mesmo "eu" que, na esperança de perder sua identidade, se identifica com algo maior do que ele - a nação, o ideal ou um Deus - esse mesmo "eu" é o fator de condicionamento.

Interrogante: Tomastes-me tudo. Que sou eu sem este "eu"?

Krishnamurti: Se não há "eu", estais descondicionado, quer dizer, sois "nada"." 

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 11 de Setembro de 2016, 13:12
Meditação

"A desordem, a confusão e o sofrimento em que se encontram os seres humanos situam-se na área da consciência velha, e sem a mudarmos profundamente, toda a atividade humana - política, económica ou religiosa - apenas levará à destruição de cada um de nós e da própria Terra. Isto é evidente para todas as pessoas de bom senso.

Temos de ser uma luz para nós mesmos; e esta luz é a lei. Não há outra lei moral. Todas as outras são feitas pelo pensamento, e por isso são fragmentárias e cheias de contradições. Ser uma luz para nós mesmos significa que não seguimos a luz de outrem, por muito razoável, lógica, tradicional e convincente que pareça. Não podemos ser uma luz para nós mesmos se estivermos sob a influência das pesadas sombras da autoridade, do dogma, de uma conclusão. A verdadeira moralidade não é criada pelo pensamento; não é resultado da pressão do meio em que se vive, não vem do ontem, da tradição. Nasce do amor. E o amor não é desejo e prazer. A satisfação sensorial ou sexual não é amor."

(Krishnamurti)

Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 11 de Setembro de 2016, 13:19
Meditação

"Ser livre é ser uma luz para si mesmo; não é, portanto, uma abstração, algo elaborado pelo pensamento. A verdadeira liberdade psicológica consiste em estarmos libertos da dependência, do apego, da ânsia de experiências «espirituais».

Estar liberto da estrutura condicionante do pensamento é ser uma luz para si próprio. Toda a ação acontece então nesta luz e assim nunca é contraditória. A contradição só existe quando a ação está separada dessa luz, quando o ator está separado da ação e projeta um ideal. O ideal - que se sobrepõe à realidade presente é uma atividade estéril do pensamento, e não pode coexistir com esta luz, um exclui o outro. Quando o «observador» (o «eu» com os seus preconceitos, conclusões, etc.), está presente, esta luz não está. A estrutura do «observador» é construída pelo pensamento, que nunca é livre, que nunca é novo (porque nasce da memória, da experiência, do conhecimento acumulado).

Para que esta luz exista, não há «como», não há sistema algum. Só há o ver, que é a ação necessária. Temos de ver, mas não através dos olhos de outro. Esta luz, esta lei, não é «nossa» nem é de outro. É apenas luz. E ela é amor."

(Krishnamurti)

Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 11 de Setembro de 2016, 15:50
Meditação

"A meditação correta é absolutamente necessária, para que a mente seja jovem, fresca, inocente. Inocente, no sentido de não ser capaz de ferir ou de sentir-se ferida.

Tudo isto está implicado na meditação, que não está divorciada do nosso viver quotidiano, e é indispensável para a compreensão desse viver. Dar completa atenção ao que estamos a fazer - ao modo como falamos com alguém, ao modo como andamos, como pensamos, e também àquilo que pensamos - dar atenção a tudo isso, faz parte da meditação.

A meditação não é uma fuga à realidade. Não é uma coisa misteriosa. Da meditação nasce uma vida que é sagrada. E que leva, portanto, a tratar todos os seres como sendo sagrados."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 11 de Setembro de 2016, 20:46
Meditação

A bem-aventurança

"O que entendemos por identidade? É estar identificado com um nome, com o património, com uma pessoa, com ideias; é estar ligado a alguma coisa, ser reconhecido como isto ou aquilo, ser rotulado como pertencendo a um determinado grupo ou país e assim por diante. Você está com medo de perder o seu rótulo, é isso?

“Sim, de outro modo, o que sou eu? Sim, é exatamente isso.”

Dessa forma, você é suas posses. Seu nome e reputação, seu carro e outros bens, a moça com quem se casará, as ambições que você tem - você é estas coisas. Estas coisas, juntamente, com certas características e valores, vão constituir o que você chama de “eu”; você é a soma de tudo isto e tem medo de perdê-lo.

Então seja o que você é. Quando se percebe a falsidade do ideal, ele se desprende de você. Você é “o que é”. A partir daí prossiga para compreender “o que é” - mas não em direção a um fim em particular, pois o fim, a meta está sempre distante de “o que é”. “O que é” é você mesmo, não em alguma época específica ou num determinado estado de ânimo, mas você mesmo tal como é de instante a instante. Não condene a si mesmo nem se conforme com o que vê, mas esteja atento sem interpretar o movimento de “o que é”. Isto será muito árduo, mas há deleite nesse agir. Apenas para os que são livres existe a bem-aventurança, e a liberdade vem com a verdade de “o que é”."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 18 de Setembro de 2016, 18:12
Perceção

“Para mim, a verdade, essa integridade de que falo, acha-se em todas as coisas. Portanto, a ideia de que necessitais progredir em direção à realidade, é uma ideia falsa. Não se pode progredir na direção de uma coisa que sempre está presente. Não se trata de avançar para o exterior ou de voltar-se para o interior, mas sim de se libertar dessa consciência que se percebe a si mesma como separada. Quando houverdes realizado tal integridade, vereis que tal realidade não tem ela futuro nem passado; e todos os problemas relacionados com tais coisas desaparecem inteiramente. Uma vez que o homem realize isso, vem-lhe a tranquilidade, não a da estagnação, porém a da criação, a do ser eterno. Para mim a realização desta verdade é a finalidade do homem."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 03 de Outubro de 2016, 21:25
Meditação

"Há uma Realidade que ao encontrar-se com a mente, a transforma. Não é preciso fazer nada. Ela opera, funciona, tem a sua existência própria; mas a mente tem de senti-la, conhece-la, e não deve especular nem ter ideias de espécie alguma a seu respeito. A mente que a busca nunca a encontrará: mas aquele estado existe incontestavelmente.

(...)

Ao compreenderdes que não há sanções, nem padrão de comportamento, nem guru nem livro, nem organizações, nem autoridade que possa levar-vos àquele estado, já o tendes alcançado. Vereis que a mente é apenas um instrumento daquela criação que, operando através da mente, produzirá um mundo totalmente diferente - não o mundo planejado pelos políticos ou pelo reformador social, porque aquela criação "é sua própria realidade, na própria eternidade."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 04 de Outubro de 2016, 17:10
Meditação

"O mundo é percebido, não como é em si, porém em suas diferentes relações com o "ego" nascido da memória. Essa divisão é a vida e o florescimento disso que chamamos "nosso ser psicológico", e dela procedem todas as contradições e divisões.

Estais percebendo isso com toda clareza?

No percebimento das árvores não há avaliação de espécie alguma.
Mas, quando há uma reação à árvore, quando a árvore é julgada com agrado ou desagrado, ocorre, então nesse percebimento, a divisão em "eu" e "não eu" - sendo o eu diferente da coisa observada. Esse "eu" é a reação, nas relações, das lembranças e experiências do passado.

Ora, pode haver um percebimento, uma observação da árvore, sem nenhuma espécie de julgamento, e pode haver uma observação da "resposta" das reações, inteiramente isenta de julgamento? Desse modo erradicamos o princípio da divisão, o princípio do "eu" e "não eu", tanto quando observamos a árvore, como quando olhamos a nós mesmos."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 05 de Outubro de 2016, 16:47
Perceção

"Os políticos, os líderes, os padres, os jornais e os livros que vocês leem, o conhecimento que adquirem, as crenças a que se agarram — tudo isto está a tornar a margem de liberdade cada vez mais estreita. Se vocês estiverem atentos a este processo que está a ter lugar, se perceberem verdadeiramente a estreiteza da mentalidade, a crescente servidão da mente, então descobrirão que da perceção vem a energia; e é esta energia que nasce da perceção que irá dissolver a mente mesquinha, a mente que vai ao templo, a mente que é receosa. Portanto, a perceção é a via da verdade."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 06 de Outubro de 2016, 08:17
Meditação

"A meditação é o fim do sofrimento, o fim do pensamento que cria medo e sofrimento – o medo e o sofrimento na vida diária, quando você é casado, quando você vai ao trabalho. Nos negócios você deve usar seu conhecimento tecnológico, mas quando esse conhecimento tecnológico é usado para propósitos psicológicos – para tornar-se mais poderoso, ocupar uma posição que lhe dá prestígio, honra, fama – ele origina somente antagonismo, ódio; uma mente assim possivelmente jamais entende o que é a verdade. A meditação é a compreensão do modo de vida, é o entendimento do que é o sofrimento e o medo – e ir além deles."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 06 de Outubro de 2016, 21:58
Meditação e controle

"Na meditação clássica, comum, os gurus que a propagam preocupam-se com o controlador e o controlado. Eles dizem para vocês controlarem os seus pensamentos porque desse modo vocês terminarão o pensamento, ou terão somente um pensamento, mas nós estamos investigando quem é o controlador. Vocês poderão dizer “É o eu superior”, “É o espetador”, “É algo que não se pensa”, mas o controlador faz parte do pensamento. Obviamente. Portanto, o controlador é o controlado. O pensamento dividiu-se como o controlador e aquilo que ele vai controlar, mas é ainda a atividade do pensamento… Assim, quando se compreende que todo o movimento do controlador é o controlado, então não há controle. É perigoso dizer isso a pessoas que não o compreenderam. Não estamos defendendo que não haja nenhum controle. Estamos dizendo que quando há a observação de que o controlador é o controlado, que o pensador é o pensamento, e se você permanecer com essa verdade completa, com essa realidade, sem mais nenhuma interferência do pensamento, então você tem um tipo de energia totalmente diferente."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 09 de Outubro de 2016, 20:58
Perceção

"É bastante assustador compreender que a própria palavra “esperança” contém a totalidade do mundo do futuro. Este movimento de “o que é” para “o que deveria ser” é uma ilusão, é realmente, se podemos usar a palavra, uma mentira.

---

O passado é um movimento - modificado através do presente - para o «futuro». É esse o movimento do tempo psicológico. O passado avança sempre ao encontro do presente e continua o seu movimento. O agora é não-movimento, porque não há conhecimento anterior do que é o agora - só se conhece o movimento. E o agora é imóvel. O agora é o passado a encontrar o presente e a acabar aí. Assim, o movimento do passado encontra o agora, que é imóvel, e para. Portanto, o pensamento, que é o movimento do passado, encontra completamente o presente, e termina aí. É preciso refletir e meditar sobre isto."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 12 de Outubro de 2016, 21:39
Meditação

"Para compreender o processo da individualidade necessitais de grande inteligência e não da intervenção do intelecto; para despertar essa inteligência deve haver o profundo incitamento de saber, não de especular.

Conservai em mente, por favor, que aquilo que para mim é uma certeza, um facto, deve ser para vós uma teoria, e a mera repetição das minhas palavras não constitui vosso conhecimento e atualidade; só pode ser uma hipótese, e nada mais. Só por meio da experimentação e da ação podereis discernir por vós mesmos sua realidade. Então ela não pertencerá a pessoa alguma, nem será vossa nem minha.

Ora, toda a vida é energia; ela é condicionante e condicionada, e esta energia, em seu desenvolvimento auto-atuante, cria seu próprio material, o corpo com suas céiulas e sensações, a perceção, discernimento e consciência. Tanto a energia como as formas da energia estão sempre entremescladas, e isto faz com que a consciência pareça tanto conceituosa como atual. A consciência individual é o resultado da ignorância, da tendência, da carência, do anseio. Esta ignorância não tem começo e está combinada com a energia, a qual em seu desenvolvimento auto-ativo é única; e é isto que dá unicidade à individualidade.

A ignorância não tem começo mas pode-se-lhe pôr termo. A própria compreensão de que a ignorância se sustenta a si própria, acaba com esse processo. Isto é, vós mesmos observaes como, por meio de vossas próprias atividades, estais sustentando a ignorância; como, por meio do anseio, que gera o medo, a ignorância é mantida; e como isto dá continuidade ao processo do “eu”, à consciência. Esta ignorância, este processo do “ eu”, mantém-se a si pró­prio pelas suas próprias atividades volitivas nascidas da carência, do anseio. Com a cessação da auto-nutrição o processo do “eu” chega a seu termo. Perguntar-me-eis: Posso realmente viver sem carência? Na vida da maioria das pessoas, a carência, o anseio desempenham um papel formidável; toda a sua existência é um vigoroso processo de carência e, portanto, não podem elas imaginar a vida, sua riqueza e beleza, suas relações e conduta, sem carência. Quando começardes a discernir, por meio da experiência, como a ação nascida da carência cria sua própria limitação, então haverá mutação de vontade. Até então há apenas mudança na vontade. É a atividade auto-mantenedora da ignorância que dá continuidade à consciência, reformando-se constantemente a si própria. A mudança fundamentai de vontade é inteligência."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 14 de Outubro de 2016, 18:31
Meditação

"E, por fim, pergunta-se: Pode um ente humano — vós, eu, ou outro — encontrar aquela vida que não conhece a morte? — uma vida realmente atemporal — quer dizer, uma vida na qual o pensamento, o criador do tempo psicológico e do medo, já não existe? O pensamento tem sua importância própria, mas, psicologicamente, nenhuma importância tem. O pensamento é uma fonte de malefícios, o pensamento está sempre a buscar o prazer, e o amor não é prazer. O amor é uma bênção, uma coisa totalmente diferente. E, se tudo isso for claramente percebido, e viverdes daquela “maneira” — não verbalmente, não num mundo de incompreensão, pois tudo se tornou perfeitamente claro e simples — tereis então a possibilidade de ingressar numa vida sem começo nem fim — uma vida independente do tempo."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 15 de Outubro de 2016, 21:50
Meditação

"Afinal, o atemporal, a eternidade inefável é isto: quando a própria mente é o desconhecido. Por ora, a mente é o conhecido, resultado do tempo, de ontem, do saber, de experiências e crenças acumuladas, e, nesse estado, a mente jamais chegará a conhecer o desconhecido."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 16 de Outubro de 2016, 17:13
Meditação

"A meditação é a purificação da mente de todas as suas acumulações; é expurgá-la da capacidade de adquirir, de identificar, de vir a ser; expurgá-la da expansão do “eu”, do preenchimento do “eu”. A meditação é o libertar a mente da memória, do tempo. O pensamento é produto do passado, no passado tem ele as suas raízes. O pensamento é a continuidade dessa atividade acumuladora que é o “vir a ser”, e nenhum resultado é capaz de compreender ou sentir aquilo que não tem causa. O que se pode formular não é o Real, e a palavra não é a “experiência”. A memória, a criadora do tempo, é um obstáculo entre nós e o Atemporal."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 16 de Outubro de 2016, 22:17
Meditação

"A vontade é inteligência a serviço da expansão do “ego”, e a atividade da vontade para ser ou não ser, para adquirir ou renunciar, é sempre atividade do “ego”. Estar cônscio do processo do ansiar, com a sua memória acumuladora, é estar em contacto com a Verdade, a única que liberta.

A vigilância leva-nos à meditação; na meditação dá-se a união com o Ser, com o Eterno. O “vir a ser” nunca poderá transformar-se no Ser. “Vir a ser” é expansão do “ego”, é reclusão, e é necessário que se detenha essa atividade; veremos, então, manifestar-se o Ser.

No silêncio, na tranquilidade suprema, detida a incansável atividade da memória, está o Imensurável, o Eterno."

(Krishnamurti)

Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 18 de Outubro de 2016, 21:16
Imortalidade

"A esperança e a crença na imortalidade não nos fazem conhecer a imortalidade. É preciso que cesse a esperança e a crença para que haja a imortalidade. Vós, o crente, o fator do desejo, deveis deixar de existir, para serdes imortal. Vossa crença e esperança fortalecem o “eu”, e por isso conheceis apenas nascimento e morte."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 20 de Outubro de 2016, 20:39
Liberdade

"Temos dito que não poderá haver relações adequadas entre nós se não compreendermos as nossas mútuas intenções. A vida de expansão pessoal é de luta e sofrimento, e não é a vida da Realidade. O êxtase da Realidade encontra-se pela inteligência desperta e no mais alto grau de intensidade. Inteligência não significa cultivo da memória ou da razão, mas, sim, uma perceção da qual é banida a identificação e a escolha.

Difícil é extrair todo o conteúdo de um pensamento, porquanto requer paciência e ampla vigilância. Temos sido educados numa maneira de vida propícia ao desenvolvimento do “ego”, pelo desejo de realizações, pela identificação, pela religião organizada. Essa maneira de pensar e agir tem-nos levado a catástrofes pavorosas e indizíveis misérias."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 21 de Outubro de 2016, 17:57
Meditação

"Não vos percais no conflito e no sofrimento dos opostos. Não compareis nem luteis para vos tornardes o oposto do que sois. Estai atentos, integralmente, imparcialmente, para o que “é” —vosso hábito, vosso temor, vossa tendência — e nessa chama singela da perceção se transformará aquilo que “é”. Esta transformação não está dentro do padrão da dualidade; ela é fundamental, criadora, com o alento da Realidade. Nessa chama da perceção, todos os problemas são definitivamente resolvidos. Sem essa transformação, é a vida luta e sofrimento, não havendo alegria nem paz."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 30 de Outubro de 2016, 15:08
Consciência

"Para mim, o ego, essa consciência limitada, é o resultado do conflito. Inerentemente não tem valor; é uma ilusão. Nasce através da falta de compreensão que por sua vez cria conflito, e deste conflito cresce a auto-consciência ou a consciência limitada. Não podem aperfeiçoar essa auto-consciência através do tempo; o tempo não liberta a mente dessa consciência. Por favor não se enganem; o tempo não os libertará desta auto-consciência, porque o tempo é apenas a protelação da compreensão. Quanto mais protelarem uma ação, menos a compreenderão. Só estão conscientes quando há conflito; e no êxtase, na verdadeira perceção, há ação espontânea em que não há conflito. Não estão então conscientes de vocês próprios como uma entidade, como o “eu”.

Contudo desejam proteger essa acumulação de ignorância a que chamam o “eu”, essa acumulação da qual brota a ideia de mais e mais, esse centro de desenvolvimento que não é a vida, que é apenas uma ilusão. Portanto enquanto contam com o tempo para originar perfeição, a auto-consciência apenas cresce. O tempo nunca os libertará dessa auto-consciência, dessa consciência limitada. O que libertará a mente é a plenitude de compreensão na ação; isto é, quando a vossa mente e coração estiverem a atuar harmoniosamente, quando já não forem preconceituosos, acorrentados a uma crença, limitados por um dogma, pelo medo, pelos falsos valores, então haverá liberdade. E essa liberdade é o êxtase da perceção."

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 27 de Novembro de 2016, 19:02
O medo nos faz obedecer

"Por que nós fazemos tudo isto: obedecer, seguir, copiar? Porque temos medo internamente de estarmos incertos. Queremos estar certos, queremos estar certos financeiramente, queremos estar certos moralmente, queremos ser aprovados, queremos estar numa posição segura, queremos nunca ser confrontados com problemas, dor, sofrimento, queremos estar cercados.

Então o medo, consciente ou inconscientemente, nos faz obedecer ao Mestre, ao líder, ao sacerdote, ao governo. O medo também nos controla para não fazermos alguma coisa que possa ser prejudicial aos outros, porque seremos punidos. Assim, por trás de todas estas ações, ambições, buscas, espreita este desejo de certeza, esse desejo de estar seguro.

Então, sem resolver o medo, sem ficar livre do medo, meramente obedecer ou ser obedecido tem pouco significado; o que tem significado é compreender este medo dia a dia e como o medo se mostra de diferentes formas. Só quando há liberdade do medo pode haver essa qualidade interior de compreensão, essa solidão em que não existe acúmulo de conhecimento ou de experiência, e é apenas isso que nos dá a extraordinária clareza na busca do real.”

(Krishnamurti)

https://www.facebook.com/groups/UmSemSegundo/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 24 de Dezembro de 2016, 19:05
Meditação

"K: A liberdade não é uma reação.

DB: A necessidade de liberdade não é uma reação. Algumas pessoas diriam que por termos estado na prisão reagimos dessa maneira.

K: Então, onde estamos? Veja bem, isso significa que devemos estar livres da reação, livres da limitação do pensamento, livres de todo o movimento do tempo. Sabemos que deve haver completa liberdade com relação a isso tudo, antes que possamos efetivamente compreender a mente vazia, e a ordem do universo, que é nesse caso a ordem da mente. Estamos pedindo muito. Estamos dispostos a ir tão longe?

DB: Bem, você sabe que a não-liberdade tem seus atrativos.

K: Naturalmente, mas não estou interessado nesses atrativos.

DB: Mas você perguntou se estamos dispostos a ir tão longe. Portanto, isso parece sugerir que pode haver algo atraente nessa limitação.

K: Sim. Encontrei a segurança, a tranquilidade e o prazer na não-liberdade. Percebo que no prazer ou na dor não há liberdade. A mente afirma, não como uma reação, que devemos ficar livres disso tudo. Chegar a esse ponto e largar tudo sem conflito, requer sua própria disciplina, sua própria visão intuitiva. É por isso que perguntei àqueles que realizaram alguma investigação sobre tudo isso: "Podemos ir tão longe assim? Ou as reações do corpo — as responsabilidades com relação à vida diária, com relação à esposa, aos filhos, e tudo o mais — impedem essa sensação de completa liberdade? Os monges, os santos, e os sannyasis disseram: Tendes de abandonar o mundo."

DB: Já discutimos isso.

K: Sim. Essa é outra forma de idiotice, embora lamente colocá-la assim. Já eliminamos tudo isso, de modo que me recuso a discuti-lo novamente. Pergunto então: o universo e a mente que se esvaziou disso tudo são uma coisa só?

DB: São uma coisa só?

K: Não são separados, são um só.

DB: Está dizendo, então, que o universo material é como se fosse o corpo da mente absoluta.

K: Sim, isso mesmo. "

(Krishnamurti)
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Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 31 de Dezembro de 2016, 23:08
Meditação

"A maturidade da meditação consiste em libertar a mente do conhecimento, porque este molda e controla toda a experiência. A mente que é uma luz para si mesma não necessita passar por nenhuma experiência. Imaturidade é a ânsia por experiências mais elevadas e vastas, conquanto a meditação é o errar pelo mundo do conhecimento e ser livre dele para poder mergulhar no desconhecido."

(Krishnamurti)
https://www.facebook.com/groups/KrishnamurtiBrasil/
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 23 de Outubro de 2017, 18:18
Meditação

"Questionador: A morte é um facto que está bem à frente de todos, e no entanto seu mistério jamais é resolvido. Precisa ser sempre assim?

Krishnamurti: Por que existe o medo da morte? Quando nos aferramos à continuidade surge o medo da morte. A ação incompleta traz consigo o medo da morte. Existirá o medo de morte enquanto existir o desejo de continuidade em caráter, continuidade em ação, em capacidade, no nome, e assim por diante. Enquanto houver ação que busca resultado, deverá haver o pensador que busca a continuidade. O medo torna-se realidade quando esta continuidade é ameaçada pela morte. Assim, há o medo da morte enquanto houver o desejo de continuidade.

Aquilo que permanece se desintegra. Qualquer forma de continuidade, por mais nobre que seja, é um processo de desintegração. Na continuidade não há jamais renovação, e apenas pela renovação pode-se ficar livre do medo da morte. Se enxergamos a verdade disso, então veremos a verdade no falso. Assim nos libertaríamos do falso e não haveria mais o medo da morte. Desta forma, o viver — o experimentar — , está no presente e não como um meio de continuidade.

Será possível viver momento a momento em renovação? Existe a renovação ao se finalizar, e não na continuidade. No intervalo entre o finalizar e o iniciar de um outro problema, existe a renovação.

A morte, o estado de não-continuidade, o estado de renascimento, é o desconhecido. A morte é o desconhecido. A mente, que é o resultado da continuidade, não pode conhecer o desconhecido. Ela só pode conhecer o conhecido. Ela só pode agir e ter sua existência no conhecido, que é contínuo. Assim, o conhecido teme o desconhecido. O conhecido não pode nunca conhecer o desconhecido, e assim a morte permanece um mistério. Se houver um final a cada novo momento, a cada novo dia, neste finalizar o desconhecido adquire existência.

A imortalidade não é a continuação do “eu”. O eu e o meu advêm do tempo, de uma ação que visa a determinado fim. Não há, portanto, qualquer relacionamento entre o eu e o meu, e aquilo que é imortal, eterno. Gostaríamos de pensar que há uma relação, mas isto é uma ilusão. Aquilo que é imortal não pode ser encapsulado naquilo que é mortal. Aquilo que é imensurável não pode ser preso na rede do tempo.

Existe o medo da morte onde há a busca pela satisfação. A satisfação não tem fim. O desejo está constantemente procurando e mudando o objeto da satisfação, e por isso está preso na rede do tempo."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 23 de Outubro de 2017, 18:22
Meditação

"Que é a morte? Pode-se “experimentar” a morte enquanto estamos vivos? Vós e eu podemos “experimentar” o que é a morte, não no momento em que, por doença ou acidente, se dá a completa cessação do pensar, mas enquanto estamos vivos, cheios de vigor, perfeitamente lúcidos e conscientes? Vós e eu podemos descobrir o que significa morrer, “entrar na mansão da morte”, enquanto estamos aqui sentados a examinar este problema.

Que significa isto — morrer? Significa, evidentemente, morrer para todas as coisas que acumulamos, todas as experiências, todas as lembranças, todos os laços que nos prendem. Morrer é deixar de ser “eu”, “ego”, não é verdade? É não ter mais ideia de continuidade do “eu”, com todas as suas lembranças, suas mágoas, seus sentimentos vingativos, seu desejo de preenchimento, de “vir a ser”. E é possível experimentar-se um tal momento de não-existência do “eu”. Nesse momento, com toda a certeza, conheceremos o que a morte é. A mente é “o conhecido”, resultado do conhecido, sendo “o conhecido” todas as experiências de incontáveis dias passados, e é só quando a mente se liberta do conhecido e, portanto, se torna parte do Desconhecido, é só então que não há mais medo à morte. Não há mais a morte. A mente já não busca a imortalidade pessoal. Há então o “estado do desconhecido”, que tem sua existência própria."

(Krishnamurti)
Título: Re: A Arte da Meditação
Enviado por: Olé em 23 de Outubro de 2017, 18:28
Meditação

"Questionador: O senhor disse que a morte, o amor e o nascimento são, em essência, uma única coisa. Como pode afirmar que não há distinção entre o choque e o sofrimento da morte e a bem-aventurança do amor?

Krishnamurti: Sabe o que você quer dizer com morte? A perda de um corpo, a perda da memória, e você pensa, tem esperança e acredita que haja uma oportunidade posterior. Algo que se foi daqui — eis o que você chama de morte. Mas para mim a morte surge através da continuidade da memória, e a memória não é senão o resultado de anseios, de se apegar, de desejar. Assim, para uma pessoa livre desses anseios não existe a morte, nem princípio ou fim, nem o caminho do amor, nem o caminho da mente, do sofrimento. Rogo que percebam o que pretendo explicar: na busca de um oposto nós criamos uma resistência. Se estou com medo, busco a coragem, e no entanto o medo ainda me acompanha pois estou simplesmente passando de um estado para o outro. Mas se eu me livro do medo, não conheço medo nem coragem; e afirmo que a maneira de fazer isso é através da perceção, de ser observador, de não tentar buscar coragem e sim se libertar do motivo que está agindo. Ou seja, se você está com medo, não crie um motivo para a coragem, porém trate de se libertar do medo. Isso é ação sem motivo. Vocês verão, se realmente compreenderam isso, que o tempo, que a morte como o futuro, cessaram. A morte é apenas o sentimento de uma imensa solidão e, assim, ao sermos tomados pela solidão, corremos para o outro, queremos nos unir ou tentar descobrir o que existe do outro lado — que para mim consiste na busca de opostos — , e desta forma eles fazem com que a solidão se perpetue. Ao passo que, enfrentando a solidão, regozijando-se plenamente com ela, sabendo pela perceção, você destrói esta solidão do presente. Portanto, não existe morte.

Tudo se desgasta. As coisas são corpos, qualidades, resistências, obstáculos; todas elas se desgastam, precisam se desgastar, mas o homem que tanto em pensamento como em emoções é livre destas resistências e obstáculos, esse homem conhecerá a imortalidade, e não a continuação da própria limitação, da própria personalidade ou individualidade, o que não é senão uma série de camadas de anseios, apegos, desejos. Você pode discordar, mas se tiver se libertado do pensamento, se tiver penetrado através dessa autoconsciência, desse estado de alerta, através dessa chama intensa, então constata a imortalidade, que é a perfeita harmonia, que não é o “caminho do amor” ou o “caminho da dor”, mas é aquele caminho onde cessou toda e qualquer distinção."

(Krishnamurti)