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GERAL => Outros Temas => Artigos Espíritas => Tópico iniciado por: Marianna em 12 de Setembro de 2009, 04:15

Título: PROJETO SOCIAL DE JESUS II
Enviado por: Marianna em 12 de Setembro de 2009, 04:15


PROJETO SOCIAL DE JESUS II

3.1 " João Batista e Jesus:
Não é possível analisar a "opção política" de Jesus sem citar, mesmo que de passagem, seu primo João Batista. Ambos tinham quase a mesma idade, mas João Batista iniciara suas pregações quando tinha 26 ou 27 anos. Eram discursos inflamados quanto à necessidade de desapego aos bens terrenos, aos poderes temporais e ao estímulo a uma conversão ou "renascimento" para uma nova vida, mais simples e solidária. Há quem afirme ter sido João Batista um membro da seita dos Essênios, de vida monástica e austera.

João Batista tinha bem claro para si seu papel de precursor. O papel de alguém que prepara o terreno, do ponto de vista cultural, para outro que lhe sucederia. Não há dúvida que Jesus seguiu as idéias de João Batista por algum tempo, desvinculando-se delas ou talvez superando-as e ampliando-as de acordo com seu projeto de renovação social, capaz de abarcar outras culturas, assimilando-as ou, o que era mais provável, sendo por elas assimilado.

João Batista e Jesus pregam simultaneamente por algum tempo. Talvez o primeiro servisse de cortina de fumaça para as pregações iniciais de Jesus, já que os temores de insurreição recaiam inicialmente sobre João e não sobre Jesus, cujo discurso era mais moderado.

Quando em 29 d.C. João Batista é preso e decapitado por Herodes Antipas, as preocupações das autoridades romanas e judaicas se dirigem para Jesus que, a esse tempo, já ganhava notoriedade em toda a região, atraindo adeptos de povos vizinhos, de diversas seitas, castas e camadas sociais.

Por falar ao ser humano, homem ou mulher, rico ou pobre, senhor ou escravo, qualquer que fosse a etnia ou nacionalidade, Jesus teve nesse aspecto de sua doutrina seu ponto mais forte: o ecumenismo, contrabalançado pelo risco potencial de encontrar resistências e adversários em qualquer lugar, particularmente entre os privilegiados ricos e os detentores do poder político e econômico.

3.2 " Mateus 5, 1-12; Síntese doutrinária: (O sermão do monte)
É a síntese da doutrina de Jesus. Nesses versículos temos todo o seu pensamento de forma um tanto poética, mas direcionada ao povo simples que o ouvia. Mesmo que haja problemas de tradução ou mesmo interpolações, vemo-lo dizer que são bem-aventurados os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacificadores, os que sofrem perseguição por causa da justiça, os que forem perseguidos por causa dele e termina dizendo que assim aconteceu com os profetas que viveram antes.

Essa proposta de conduta naturalmente exige mudanças radicais considerando o que é tido como válido nas culturas modernas. Já houve quem afirmasse que tais propostas enfraquecem a pessoa, tornando-a frágil, vulnerável e passiva num mundo violento. Numa primeira leitura é isso que se apresenta aos nossos olhos. Pode ser, entretanto, que com a adesão da maioria a um modelo de comportamento que possa primar pela alteridade e pelo respeito mútuo a vida social ganhe novos contornos.

De qualquer forma, são atitudes assumidas individualmente com o ônus que acarreta para seu seguidor. Baseia-se na premissa de uma vida após a morte ou em compensações, porque de outro modo não faria sentido deixar-se violentar de tal forma sem reagir. Talvez encontrem-se aqui, no sermão do monte, os principais elementos da desobediência civil proposta por Jesus, equivalente a "ahimsa", a doutrina da não violência, proposta e praticada por Mohandas Gandhi no século passado. Uma doutrina, na verdade, forte em seus aspectos de usar a fé como poderosa arma política mas sem o uso da força física.

3.3 " Mateus 5, 23-24; Reconciliação:
Nesses versículos está a proposição de reconciliação com os outros antes de se depositar uma oferta no altar. Bastante simples de se interpretar, pois se uma pessoa está ressentida ou odeia alguém, a rigor não faz sentido demonstrar apreço à divindade estando em litígio com outrem. Jesus sem dúvida privilegia o bom relacionamento humano em detrimento de manifestações exteriores de fé.

3.4 " Mateus 6, 1-5; Prática não ostensiva da caridade:
Aqui temos uma clara orientação quanto à prática da caridade de forma intima e particular, sem "tocar trombeta" ou deixar que saiba "a tua mão esquerda o que faz a tua direita". Fazer o bem sem ostentação inibe a vaidade pessoal ou grupal. Mesmo a filantropia, anunciada pelos órgãos de comunicação, a bem da verdade contraria esse pressuposto, pois faz promoção pessoal ou de organizações, principalmente quando parte do Estado já que daí se procura retirar os dividendos políticos com o uso do dinheiro público.

3.5 " Mateus 6, 19-20; Desapego aos bens materiais:
Recomendação clara a uma vida simples, modesta e mais saudável. Não ajuntar tesouros que a traça e a ferrugem possam consumir é uma advertência quanto aos possíveis malefícios causados pelo mau uso da riqueza, principalmente quando esta deixa de ter finalidade social, reduzindo-se a atender interesses pessoais. Sobretudo, para quem deseja ocupar-se com as coisas do intelecto ou do espirito os cuidados que as riquezas exigem tomam precioso tempo.

3.6 " Mateus 7, 1-3; Não julgar:
Como ninguém sabe com exatidão o que leva alguém a tomar determinadas decisões ou a fazer determinadas coisas o mais prudente é não fazer juízo de valor. É comum dizer-se que cada acontecimento tem três versões: a minha, a sua e a verdadeira. Isso não quer dizer que não se possa ou não se deva avaliar ou analisar situações ou condutas. A advertência se refere à pessoa humana enquanto tal.

Se alguém ocupa um cargo ou exerce alguma função, naturalmente deve e será avaliada em seu desempenho, se não pelos seus superiores o será pela opinião pública. O julgamento puro e simples pressupõe que nossos conceitos são suficientes e os mais acertados, além de que nossa capacidade de discernimento estaria acima de todos os riscos de erro, o que não ocorre. Ninguém tem todos os detalhes de qualquer coisa para julgar, no sentido estrito da palavra.

3.7 " Mateus 9, 10-12; Ausência de preconceitos:
Jesus visitava e comia em casa de gente considerada ruim pela opinião pública da época, além de freqüentar locais considerados impróprios para uma pessoa de bem. Porém, era homem desprovido de pré-julgamentos, preconceitos ou discriminação, daí seu envolvimento com gente considerada vulgar. Com esse comportamento dava exemplo de que todos merecem atenção e mesmo uma "segunda chance" (oportunidades) para se redimirem de seus erros.

3.8 " Mateus 10, 34-35; Doutrina inovadora:
Nesses versículos Jesus alerta para os efeitos de sua doutrina. Diz ter vindo trazer a espada e não a paz. Naturalmente uma metáfora relacionada às divergências que passariam a acontecer no seio das próprias famílias e da comunidade, a partir de suas idéias e das adesões que surgiriam. Uma mudança tão radical de princípios, tanto hoje quanto naqueles tempos, acarreta resistências até mesmo da opinião pública. Sabendo disso alerta seus eventuais seguidores sobre o preço a pagar pela adesão à sua causa.

3.9 " Mateus 11, 12; Fé imposta pela violência:
Jesus menciona o uso da violência para controle das coisas sagradas e naturalmente as religiões que assumem papel meramente político ao lado dos poderosos. O "reino dos céus" é tomado pela força e objeto de violência, diz ele. A história confirma tal assertiva pelas inúmeras guerras e conflitos por motivação religiosa ao longo desses dois mil anos. Jesus reprova categoricamente aqueles que usam da força para impor qualquer tipo de fé religiosa ou o uso da religião como mecanismo de controle e manipulação social e não de educação da sociedade.

3.10 " Mateus 15, 17-20; O que procede do coração / conduta:
O que sai pela boca procede do coração, diz ele. A linguagem reflete os sentimentos e pensamentos das pessoas. Diz ainda que essas coisas, se ruins, contaminam o homem e por extensão a sociedade. Refere-se à mentira, à intriga, às mortes e todas as coisas negativas decorrentes do mau uso da palavra que espelha o que vai na alma de cada um.

3.11 " Mateus 19, 24; O apego à riqueza:
É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no "reino de Deus". Alusão clara às preocupações daqueles que possuem riquezas materiais e que ocupam-se primeiramente com elas. Além disso, as riquezas abrem possibilidades inúmeras para seus possuidores. Podem fazer o bem em larga extensão, tanto quanto podem produzir estragos imensos para si e para a sociedade em função do poder que o dinheiro dá àquele que o possui. Daí que a possibilidade de um rico preocupar-se com as coisas espirituais é pequena dado o seu envolvimento com as questões terrenas e os prazeres e facilidades que a riqueza proporciona. Não poder servir a dois senhores, a Deus e a Mamom, (dedicar-se simultaneamente às coisas da vida material e às coisas do espírito) é outro alerta sobre os riscos inerentes ao apego ao dinheiro.

3.12 " Mateus 21, 11-13; Simonia:
A entrada de Jesus no templo, expulsando de lá os mercadores, é atitude enérgica ao extremo e muito significativa no contexto de sua doutrina. Simonia é o comércio das coisas sagradas ou espirituais. O que faria Jesus em nossos dias, quando o mercado de produtos esotéricos cresce e torna-se um setor da economia dos mais promissores? A própria fé tornou-se mercadoria oferecida nos balcões de todo tipo de seita. Vivemos um verdadeiro fast food da fé, com um cardápio bastante variado. Há evidente contradição entre o ensino de Jesus e a prática de muitos de seus pretensos seguidores.

3.13 " Mateus 22, 16-22; Vida material e vida espiritual:
O ardil armado contra Jesus ao lhe perguntarem sobre se deviam ou não pagar o tributo a César foi habilmente contornado quando ele lhes pediu uma moeda e perguntou a seus interlocutores de quem era a efígie. Como era de César, respondeu simplesmente que se desse a César (ao mundo material) o que é de César e a Deus (à vida espiritual) o que é de Deus. Separou assim os interesses e contingências próprios a uma e a outra esfera de vida, considerando que cada pessoa pode escolher dar maior relevância a uma do que à outra.

3.14 " Mateus 23, 32-36; Ação enérgica diante dos costumes:
Nesses versículos Jesus reprova a forma como os judeus receberam aqueles que o antecederam nos ensinamentos relativos às coisas espirituais. Os profetas ou foram desprezados ou foram mortos, sem que houvesse mudanças significativas nos costumes. Afirma que o "sangue dos justos" recairia sobre eles, numa alusão às conseqüências do desprezo pelos ensinos anteriormente transmitidos. De igual maneira, a humanidade atual sofre os efeitos do desprezo pelos alertas relativos ao nosso meio ambiente, aos valores subvertidos, à permissividade e pelos ensinos que regularmente aparecem pela palavra de pensadores, religiosos e cientistas.

3.15 " Mateus 26, 6-7; Respeito pelas mulheres:
Nesse trecho do Evangelho de Mateus, quando uma mulher traz um óleo precioso e lhe derrama nos cabelos, Jesus demonstra mais uma vez a atenção e respeito que dedica à mulher, numa sociedade machista e patriarcal. Nos quatro Evangelhos, em diversos momentos, vemos Jesus tratar as mulheres da mesma maneira atenciosa, demonstrando que, ao contrário dos costumes vigentes, dava às mulheres o direito de partilhar de sua presença em condições de igualdade com os homens, o que não deixava de causar estranheza a alguns de seus seguidores, particularmente a Pedro. Com isso, Jesus estabelecia um novo modo de relação entre homens e mulheres, estabelecendo a igualdade de direitos pelo exemplo que dava nessas ocasiões.

3.16 " Mateus 27, 11-12; Julgamento político:
Quando Pilatos interrogou Jesus, perguntando-lhe se ele era o rei dos judeus, este lhe respondeu; "Tu o dizes". Ele não era e não se considerava um rei terreno, mas um mestre ou tutor espiritual. Porém, certamente não seria fácil, já esgotado pelos interrogatórios e previamente condenado pelas autoridades judaicas, tentar uma pregação no sentido de explicar seus intentos e motivações naquele momento. Escolheu o silêncio sabendo das conseqüências dele. É possível que Pilatos tenha interpretado seu silêncio como uma resposta negativa e deve tê-lo qualificado como apenas mais um daqueles profetas que vez por outra apareciam e eram estimulados à liderança guerreira, segundo as expectativas do povo judeu. Como Jesus não correspondera ao que o povo desejava, apesar de sua evidente liderança, o ressentimento popular foi estimulado pelo Sinédrio que temia muito mais suas denúncias do mau uso da Lei de Moisés.

Não parece haver dúvidas quanto ao caráter político que o processo contra Jesus tomou, pouco a pouco. Para Jesus, depois de preso, a situação era irreversível. Não poderia contar com a complacência do Sinédrio e os romanos precisavam do apoio das autoridades judaicas naquela região permanentemente tumultuada e politicamente explosiva. Condenar e executar Jesus como um subversivo foi a saída mais simples. Ele era inocente e sua condenação foi fruto de um casuísmo.

3.17 " Mateus 27, 37; O rei dos judeus:
Segundo o versículo 37, a inscrição na tabuleta colocada na cruz de Jesus dizia: "Este é Jesus, o rei dos judeus". Foi colocada a mando de Pilatos, contrariando interesses do Sinédrio que não queria dar o qualificativo de rei a Jesus, já que tal condição os colocava em situação difícil diante do povo. Porém, aqui também aparece a possibilidade de Pilatos ter aproveitado a situação para reafirmar sua posição de comando na Palestina. Ao manter a condenação e a inscrição na tabuleta, passava a imagem de quem tinha debelado uma perigosa insurreição popular ainda em gestação e que teve seu líder apanhado antes que agisse. Como será que a notícia da execução do "rei dos judeus" deve ter repercutido em Roma, capital do império?

Uma observação: Quando Pilatos lava as mãos simbolicamente, dizendo não ser responsável pelo "sangue desse justo", não se exime da responsabilidade da condenação já que ele era o mandatário maior na Palestina e poderia ter tomado outras medidas que não culminassem com a morte de Jesus. Porém, não querendo indispor-se contra o Sinédrio, já que precisava dele para governar, tomou tal atitude compatível com os costumes políticos daqueles tempos.

4 " Conclusão " A "plataforma política" de Jesus:
Diante desta breve reflexão seria admissível um Jesus que se apresentasse, hoje, com uma plataforma política? Certamente, não. Jesus de Nazaré tinha um projeto social amplo e suficiente para atender a todas as pessoas. Contempla o indivíduo, considerando-o como sujeito, e ao mesmo tempo a coletividade, estabelecidas as regras mínimas de convivência, baseadas na caridade, no sentido mais amplo que a palavra possa ter.

Caridade que não se restringe a dar coisas. Caridade como compartilhamento de sentimentos e de espaços físicos ou simbólicos, de um exercício de boa convivência, de respeito a si mesmo e ao próximo visto como igual, seres oriundos de uma mesma fonte à qual ele nomeou simplesmente Pai.

Jesus, filho de José, carpinteiro, e de Maria, "do lar", ele próprio um carpinteiro, demonstrou ser uma pessoa generosa ao extremo, pacifista e pacificador, porém enérgico quando necessário e consciente de seus propósitos. Foi um militante social e não um fundador de religiões, por isso não pode ser responsabilizado pelo que fazem usando seu nome ou ensinos.

A doutrina social de Jesus é, em sua essência, bastante simples, pois parte de princípios e valores que podem ser considerados universais, que visam o bem-viver, daí que é assimilável pelos mais simples do povo, desde que não manipulem ou façam adaptações de seus ensinamentos como tem acontecido ao longo dos séculos. Suas parábolas ainda são atuais e instrutivas.

Ele dirigia-se eminentemente à maioria pobre de recursos materiais e de esclarecimentos, mas não foi exclusivo em sua fala, tanto que teve adeptos mesmo entre os conquistadores romanos de seu tempo.

(Este texto é de livre circulação desde que mantida sua integridade. Seu propósito é unicamente estimular reflexões mais maduras sobre esse personagem bastante conhecido pelo nome, porém ainda desconhecido quanto aos seus propósitos inovadores e renovadores. (o autor)

Paulo R. Santos (MG)
Palestrante Espírita.
ADE/CE - Trabalhando por um Mundo Melhor