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GERAL => Outros Temas => Artigos Espíritas => Tópico iniciado por: Marianna em 12 de Setembro de 2009, 04:21

Título: PROJETO SOCIAL DE JESUS I
Enviado por: Marianna em 12 de Setembro de 2009, 04:21



PROJETO SOCIAL DE JESUS I

O projeto social de Jesus
(Uma breve visão política sobre a "utopia" de Jesus)

1 " Apresentação:
Quanto abordamos a vida e a obra de Jesus de Nazaré, em geral somos levados a ter uma relação um tanto romântica com aqueles tempos. Uma visão nada compatível com a realidade histórica dos tumultuados tempos de Jesus. Tempos difíceis numa região permanentemente invadida e disputada por vários povos.

O presente artigo não pretende abordar temas obscuros ou polêmicos de Yoshua ben Yussuf (Jesus, filho de José), mas os aspectos políticos de sua atuação nas terras da Palestina dos Césares.

A partir de alguns trechos que consideramos particularmente significativos para nossos propósitos, tentaremos vislumbrar o projeto social de Jesus para a humanidade. Partindo de sua "utopia" pessoal: o "reino de Deus na Terra" e de versículos do Evangelho (literalmente Boa Nova ou Boa Notícia) de Mateus, que conviveu com ele já em idade madura, segundo os dados históricos disponíveis, procuraremos ressaltar o homem Jesus, as motivações e intenções que o levariam a ser julgado como criminoso político e crucificado.

"Jesus Nazareno, rei dos judeus". Estes dizeres colocados na tabuleta que encimava a cruz em fora pregado não deixam dúvidas quanto ao teor eminentemente político dado ao "caso" Jesus, e que motivaram suas ações, a perseguição que lhe foi movida pela cúpula judaica e pelos romanos, culminando com sua morte na cruz, conforme o costume daqueles tempos. O mesmo fizeram com Spártaco, o escravo rebelado, e com seus seguidores tempos antes.

Aspectos polêmicos da vida de Jesus, como sua idade real ao ser crucificado, o que fez e onde esteve entre os doze e trinta anos de idade, seu relacionamento com Maria de Mágdala, ou se tinha ascendentes celtas, não fazem parte da reflexão ora apresentada ao leitor ou leitora, bem como detalhes históricos, biográficos (sua família consagüinea), os relativos ao local de nascimento etc.

Jesus foi um ser excepcional, sem dúvidas. Sua presença, direta ou indireta, está em todas as culturas modernas. Gandhi o citou várias vezes durante sua luta pela libertação da Índia do jugo britânico.

A diferença entre os dois é que Jesus pretendia uma libertação plena, à semelhança de Buda e de Sócrates. Esses três tinham algo em comum: a emancipação total, sintetizada na frase de Jesus sobre o conhecimento da verdade e da verdade como instrumento de (auto)libertação.

Mais um esclarecimento:

Cada um dos quatro Evangelhos, o de Mateus, o de Marcos, o de Lucas e o de João, possui características próprias, com um ponto em comum: todos foram escritos muito tempo depois da morte de Jesus, de memória ou a partir de anotações esparsas anteriores. Pelo menos é que se apurou até o presente.

Vamos admitir que se as frases atribuídas a ele não forem literais, devem traduzir-lhe razoavelmente o pensamento e sua doutrina, e é sobre esses pensamentos que se apoiará nossa reflexão. O porquê de escolhermos o Evangelho de Mateus já foi esclarecido anteriormente.

O de Marcos é considerado o mais histórico de todos, o de Lucas foi escrito a partir de informações de terceiros, principalmente de Maria, mãe de Jesus, e o de João é visto como o mais esotérico ou filosófico de todos, com influência da escola de Alexandria segundo alguns estudos comparativos.

Enfim, os Evangelhos citados acima são, a rigor, atribuídos aos que os assinam. São os Evangelhos canônicos tradicionalmente aceitos, embora se saiba da existência de muitos outros tidos como apócrifos. A descoberta de manuscritos muito antigos na década de 1940, próximo ao Mar Morto, veio lançar mais alguma luz sobre esses tempos longínquos, mas nosso breve estudo prescinde deles.

2 " A origem da doutrina de Jesus:
Uma leitura atenta dos Evangelhos canônicos nos mostra que os ensinos e a própria conduta de Jesus possuem elementos da filosofia grega (ponto de contato com as idéias do filósofo Sócrates), mas também e principalmente com o budismo. Um filósofo moderno que se debruçou sobre a questão foi Arthur Schopenhauer (1788-1860), em seu ensaio "Da morte e sua relação com a indestrutibilidade do nosso ser-em-si" (A obra-prima de cada autor. Martin Claret Editora. São Paulo, 2002, p. 51), de onde transcrevemos o seguinte:

"A hipótese de que o homem é criado do nada conduz necessariamente à de que a morte é seu fim absoluto. Nesse ponto, por conseguinte, o Antigo Testamento é no todo conseqüente, pois a uma criação tirada do nada não admite nenhuma doutrina da imortalidade. O cristianismo do Novo Testamento possui uma tal doutrina porque é de espírito indiano, e portanto (isso é mais do que provável) é também de origem indiana, embora com a intermediação egípcia.

Somente para o povo judeu, no qual aquela sabedoria indiana tinha de ser enxertada na terra prometida, uma tal doutrina se adapta tanto como aquela teoria da liberdade da vontade à sua criação, ou como humano capiti cervicem pictor equinam Jungere si velit " (1)

É sempre mau se não se pode ser completamente original e não se pode talhar na madeira maciça. O bramanismo e o budismo, ao contrário, muito conseqüentes com eles mesmos, admitem ao lado da continuação da existência após a morte uma existência antes do nascimento, da qual a vida presente se destina a expiar as faltas."

Todo este ensaio de Schopenhauer é muito interessante, mas o trecho acima já é suficiente para nossos propósitos.

É perfeitamente admissível que a doutrina elaborada por Jesus tenha suas origens na Índia, particularmente no budismo, com a intermediação egípcia e também grega. De fato, se nos colocarmos na Palestina dos tempos apostólicos, veremos uma região governada pelos romanos, onde os "nativos" falam aramáico, a língua latina é de uso dos dominadores, o grego é a língua culta e o pensamento egípcio permeia todas aquelas três culturas: romana, judaica e grega.

- Se o pintor quisesse colocar uma cabeça humana / em um pescoço de cavalo. (N. do T.)

É nesse contexto sociocultural que Jesus tentará implantar sua doutrina, pelos caminhos oferecidos pela liderança carismática e da Desobediência civil (2), ao contrário de outros líderes de seu tempo e das expectativas da própria população judaica que aguardava um novo líder guerreiro, como os reis Saul ou Davi.

Porém, o discurso de Jesus não está nos moldes do rebelde Barrabás (Yoshua bar Abba), que roubava para comprar armas e deliberando promover uma insurreição popular contra os romanos, idéias que também visitaram a mente de um dos seguidores de Jesus: Judas Iscariotes.

Cabe aqui outro paralelo doutrinário entre a resistência pacífica de Jesus e as idéias de Buda. Para este a compaixão era fundamental. Não apenas compaixão para com os outros seres humanos, mas para com todos os seres da criação.

Jesus adota a palavra caridade como pedra angular de sua doutrina, porém com os mesmos propósitos, indo além com sua máxima de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a si mesmo (Mateus 22, 37-40).

Compaixão e caridade convergem para um mesmo sair de si. É a implantação da solidariedade, da compreensão e do altruísmo como modo de vida; um novo ethos é proposto para indivíduos e comunidades.

Desobediência civil: "A Desobediência civil é uma forma particular de desobediência, na medida em que é executada com o fim imediato de mostrar publicamente a injustiça da lei e com o fim mediato de induzir o legislador a mudá-la.

Como tal é acompanhada por parte de quem a cumpre de justificativas com a pretensão de que seja considerada não apenas como lícita mas como obrigatória e seja tolerada pelas autoridades públicas diferentemente de quaisquer outras transgressões.

Enquanto a desobediência comum é um ato que desintegra o ordenamento e deve ser impedida ou eliminada a fim de que o ordenamento seja reintegrado em seu estado original, a Desobediência civil é um ato que tem em mira, em última instância, mudar o ordenamento, sendo, no final das contas, mais um ato inovador do que destruidor." (Norberto BOBBIO. Dicionário de Política. EDUNB. p. 335)

3 " Versículos representativos retirados do Evangelho atribuído a Mateus, apóstolo de Jesus.
Primeiramente cabe-nos esclarecer que usaremos a tradução mais comum e conhecida, efetuada por João Ferreira de Almeida. Assim, o leitor ou leitora interessado(a) poderá consultar os capítulos e, se sentir-se estimulado, aprofundar suas próprias reflexões.

Nota biográfica de Jesus de Nazaré: Nascido em Belém, na Judéia, possivelmente em 753 da fundação de Roma (6 a.C.), quando seus pais, Maria e José, estavam de passagem por Jerusalém devido ao recenseamento obrigatório. Cresceu em Nazaré, na Galiléia, região onde fez pregações da sua Boa Nova. Morreu crucificado próximo a Jerusalém, após um processo que lhe foi movido por autoridades judaicas que o acusaram de traidor da fé. Para os romanos os riscos do discurso de Jesus eram de natureza política, daí seu julgamento e condenação como subversivo, presume-se que quando Jesus tivesse 33 anos de idade.