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GERAL => Outros Temas => Artigos Espíritas => Tópico iniciado por: Ignarus em 08 de Outubro de 2010, 23:27

Título: Cristianismo e Espiritismo
Enviado por: Ignarus em 08 de Outubro de 2010, 23:27
Cristianismo e Espiritismo
J. Herculano Pires

A religião espiritual se define pela superação do social. Johann Heinrich Pestalozzi, mestre de Kardec, considerava a existência de três tipos de religião: a animal ou primitiva, a social ou positiva, e a espiritual ou moral. A esta última preferia chamar simplesmente moralidade, a fim de não confundi-la com as duas formas anteriores. Kardec recebeu dos Espíritos a confirmação dessa teoria pestalozziana. Todo O Livro dos Espíritos a confirma, ensinando uma religião pura, desprovida de exigências materiais para o culto, de investiduras sacerdotais, e consequentemente de organização social em forma de igreja. As comunicações particulares que Kardec recebia, como já vimos, e que figuraram posteriormente em Obras Póstumas, acentuavam a importância espiritual da nova doutrina, como restabelecimento do Cristianismo em espírito e verdade. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo o problema foi esclarecido em definitivo.

No item 673 de O Livro dos Espíritos, vemos como o problema da religião espiritual é colocado pelos Espíritos, de maneira incisiva, condenando o apego às exterioridades. É a seguinte a resposta dada a uma pergunta de Kardec: “Deus abençoa sempre os que praticam o bem. Amparar os pobres e os aflitos é o melhor meio de o homenagear. Já vos disse, por isso mesmo, que Deus desaprova as cerimônias que fazeis para as vossas preces, pois há muito dinheiro que poderia ser empregado mais utilmente do que o é. O homem que se prende à exterioridade e não ao coração, é um espírito de vista estreita: julgai se Deus deve se importar mais com a forma do que com o fundo.”

No capítulo nono das “Conclusões” de O Livro dos Espíritos é o próprio Kardec quem declara: “Jesus veio mostrar aos homens a rota do verdadeiro bem. Por que o enviara para relembrar a sua lei esquecida, Deus não enviaria hoje os Espíritos, para novamente a lembrarem, e de maneira mais precisa, agora que os homens a esquecem, para tudo sacrificarem ao orgulho e à cupidez? Quem ousaria pôr limites ao poder de Deus e determinar os seus caminhos? Quem dirá que os tempos preditos não são chegados, como o afirmam os Espíritos, e que não alcançamos aqueles em que as verdades mal compreendidas, ou falsamente interpretadas, devem ser ostensivamente reveladas ao gênero humano, para acelerar o seu adiantamento?”

No item 625 vemos a ligação direta que O Livro dos Espíritos estabelece entre Cristianismo e Espiritismo. Os Espíritos apontam Jesus como o modelo que o homem deve seguir na terra, e Kardec comenta, de maneira incisiva: “Jesus é para o homem o tipo da perfeição moral a que a humanidade pode pretender na terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo, e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão da sua lei, porque ele estava animado do espírito divino, e foi o ser mais puro que já apareceu sobre a terra.”

A seguir, no item 627, a ligação histórica e espiritual se completa pela voz dos Espíritos: “O ensino de Jesus era frequentemente alegórico, em forma de parábolas, porque ele falava de acordo com a época e os lugares. Faz-se hoje necessário que a verdade seja inteligível para todos. É preciso, pois, explicar e desenvolver essas leis, tão poucos são os que as compreendem, e menos ainda os que as praticam. Nossa missão é a de espertar os olhos e os ouvidos, para confundir os orgulhosos e desmascarar os hipócritas: os que afetam exteriormente a virtude e a religião, para ocultar as suas torpezas. O ensinamento dos Espíritos deve ser claro e sem equívocos, a fim de que ninguém possa pretextar ignorância, e cada um possa julgá-lo e apreciá-lo com sua própria razão. Estamos encarregados de preparar o Reino de Deus anunciado por Jesus, e por isso é necessário que ninguém possa interpretar a lei de Deus ao sabor das suas paixões, nem falsear o sentido de uma lei que é toda amor e caridade.”

O Espiritismo aparece, nesse trecho de O Livro dos Espíritos, como o continuador natural do Cristianismo, confirmando o que estudamos anteriormente a respeito. Sua missão é a de restabelecer o ensino do Cristo e efetivá-lo nos corações e nas consciências, já amadurecidas pela evolução, preparando assim o Reino de Deus, ou seja, levando o Cristianismo às suas últimas consequências. Assim, quando Kardec nos apresenta o Espiritismo como a religião em espírito e verdade, porque sendo o cumprimento da promessa do Consolador, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, nada mais faz do que confirmar o que já havia sido anunciado em O Livro dos Espíritos.

No capítulo sexto de O Evangelho Segundo o Espiritismo, comentando o advento do Consolador, Kardec assinala: “Assim, o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador Prometido: conhecimento das coisas, que faz o homem saber de onde vem, para onde vai e porque está na terra; reevocação dos verdadeiros princípios da lei de Deus; e consolação pela fé e pela esperança.” A análise desse pequeno trecho oferece-nos, ao mesmo tempo, a confirmação da ligação histórica entre o Cristianismo e o Espiritismo, e os traços característicos da religião em espírito e verdade.

O Consolador vem para esclarecer os homens, e assim consolá-los através do conhecimento. Religião sem dogmas, sem culto exterior, sem sacerdócio, sem apego material, sem intenção de domínio político e social, pode explicar livremente ao homem que ele é um espírito em evolução, responsável direto pelos seus atos, e portanto pelos seus fracassos ou as suas vitórias. Pode dizer-lhe que, tendo vindo do mundo espiritual, voltará a esse mundo após a vida terrena, tão naturalmente como as borboletas se livram dos casulos, e lá responderá pelos seus erros e os acertos, sem a mediação de sacramentos ou cerimônias materiais de espécie alguma. Sua permanência na terra pode também ser explicada sem alegoria, pela simples necessidade da evolução espiritual.

A reevocação dos verdadeiros princípios da lei de Deus equivale ao restabelecimento dos ensinos do Cristo. A palavra francesa do texto original é “rappel”, que tem sido traduzida por “lembrança”. A tradução mais fiel é a que oferece a ideia de restabelecimento, como o faz a palavra reevocação. Essa ideia está de acordo com o texto de Kardec e com a promessa do texto evangélico. Reevocar os verdadeiros princípios é relembrar, não apenas lembrar: “tudo aquilo que vos ensinei”, segundo a expressão do Evangelho de João. Relembrados os princípios esquecidos, deturpados pela ignorância e a vaidade humanas, a religião espiritual se restabelecerá em sua plenitude.

A consequência desse processo é naturalmente o restabelecimento da fé e da esperança. A fé, não mais dogmática, fruto de uma imposição autoritária, mas racional, e portanto consciente, como decisão livre do homem. E, por fim, a esperança na vida futura, que se apresenta como oportunidade renovada de reencetar o progresso espiritual. A “moralidade” de Pestalozzi se afirma, através das palavras do seu discípulo Rivail, no plano superior do ensino espiritual, como a forma mais pura de religião: aquela em que o homem age com plena consciência dos seus deveres, livre de ameaças e coações, ciente de que é ele mesmo o construtor do seu futuro.

O conceito de religião espiritual, atualmente, já não mais requer a diferenciação que Pestalozzi adotou. No tempo de Kardec ainda era necessário, principalmente numa obra de divulgação, como O Livro dos Espíritos, evitar a palavra “religião”. Hoje, a definição filosófica de religião superou as confusões anteriormente reinantes. O trabalho de Bergson sobre as fontes da moral e da religião colocou o problema em termos claros. A “religião estática” de Bergson e a religião social de Pestalozzi, como a “religião dinâmica” é a religião espiritual, ou moralidade.

A prova das razões por que Kardec evitou a palavra religião, para definir o Espiritismo, nos é dada pela sua própria confissão, no discurso que pronunciou na Sociedade Espírita de Paris, a primeiro de novembro de 1868: “Por que então declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Porque só temos uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da palavra culto: revela exclusivamente uma ideia de forma, e o Espiritismo não é isso. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público só veria nele uma nova edição, uma variante, se assim nos quisermos expressar, dos princípios absolutos em matéria de fé, uma classe sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; o público não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais sua opinião se tem levantado tantas vezes.”

Essas palavras de Kardec, ao mesmo tempo afirmam a natureza religiosa do Espiritismo, já implícita na própria Codificação, e negam a possibilidade de sua transformação em seita formalista. A religião-espírita reafirma, assim, pelas declarações do próprio Codificador, o seu sentido e a sua natureza espirituais, já evidentes no contexto doutrinário.

Do livro: “O Espírito e o Tempo”
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Título: Re: Cristianismo e Espiritismo
Enviado por: filhodobino em 08 de Outubro de 2010, 23:44
Irmão Ignarus,
 Esse pensamento que expões, encontra semelhança com o abaixo, ou pensas que são diferentes?
Prezaria conhecer sua opinião.

a)    Paulo

Já com PAULO é assim. Começa rejeitando a "sabedoria deste mundo" para de novo aceitá-la, chegando mesmo a apelar pára o seu testemunho em apoio do seu próprio sentir. 1 Cor. 1, 19 escreve: "Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e reprovarei a prudência dos prudentes. Onde está o sábio? onde o doutor da lei’í onde o esquadrinhador deste século? Porventura não tem Deus convencido de estultícia a sabedoria deste mundo?… Porque tanto os judeus pedem milagres, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos o Cristo crucificado, que é um escândalo de fato para os judeus e uma estultícia para os gentios, Mas para os que têm sido chamados, assim judeus como gregos, pregamos a Cristo, virtude de Deus e sabedoria de Deus". E em Bom. 1, 19: "Porque o que se pode conhecer de Deus lhes é manifesto a eles (aos pagãos) porque Deus lho manifestou. Porque as cousas dele invisíveis se vêem depois, da criação do mundo, consideradas pelas obras que foram feitas." Com isto de novo se concedem à razão natural os seus direitos. E no seu discurso no Areópago chega Paulo a citar filósofos gregos para provar sua tese cristã (At. 17, 28).
http://www.consciencia.org/filosofia_medieval2_cristianismo_nascente.shtml
Saúde e Paz!
Título: Re: Cristianismo e Espiritismo
Enviado por: Ignarus em 09 de Outubro de 2010, 00:45
Olá filhodo bino, não vejo correlação, mas isso depende muito de quem interpreta os textos bíblicos. Com relação ao Texto por nós postado é evidente a argumentação lógica com bases históricas e a interpretação, de um homem que é considerado o "Kardec Brasileiro", dos textos da DE.

Cada um interprete como quiser, conscientes de que todos podem estar errados.

Abçs
Título: Re: Cristianismo e Espiritismo
Enviado por: Michel Michels em 11 de Outubro de 2010, 17:38
=) muito interessante o texto, estava refletino Ignarus, sobre o comentário do triplice aspecto da Doutrina feito pelo moura e por outro irmão, que não seria o religioso e sim o moral uma das partes, e após o que o senhor escreveu posteriormente, e fazendo um link com este texto, hoje fica dificil colocarmos o que está incluído no outro se a religião faz parte da moral, ou se a moral que engloba a religião. Ignoro o que é maior ou menor, porque envolve algo em nosso intímo, mas a Doutrina deixa muito claro, que está para nós como um convite ao movimento de modificações intímas de cada um, para si e também para seu próximo, e isto acredito que deve ser enfatizado, uma mudança progressiva, lenta mais muita necessária a nossa melhora coletiva, iniciando consigo mesmo, a aos poucos envolvendo nossa família amigos, centro Espírita.
Sigamos trabalhando.

=)
Título: Re: Cristianismo e Espiritismo
Enviado por: Silvio Matos em 11 de Outubro de 2010, 22:05
=) muito interessante o texto, estava refletino Ignarus, sobre o comentário do triplice aspecto da Doutrina feito pelo moura e por outro irmão, que não seria o religioso e sim o moral uma das partes, e após o que o senhor escreveu posteriormente, e fazendo um link com este texto, hoje fica dificil colocarmos o que está incluído no outro se a religião faz parte da moral, ou se a moral que engloba a religião. Ignoro o que é maior ou menor, porque envolve algo em nosso intímo, mas a Doutrina deixa muito claro, que está para nós como um convite ao movimento de modificações intímas de cada um, para si e também para seu próximo, e isto acredito que deve ser enfatizado, uma mudança progressiva, lenta mais muita necessária a nossa melhora coletiva, iniciando consigo mesmo, a aos poucos envolvendo nossa família amigos, centro Espírita.
Sigamos trabalhando.

=)

Amigo Michel,....

Bem observado.
Entendo que moral é moral e religião é religião ;D, simplório né? Rsrs!
DEUS e JESUS não fundaram religião. Moral é Lei,....para todos em todos os tempos, um ateu pode ter mais Moral do que muitos religiosos.
E essa mudança progressiva muito bem colocada por você, independe da religião. Ainda mais que gritar aos ventos que tenho uma religião não me torna melhor que ninguém, mas sim, a MORAL, desenvolvida e aplicada no dia a dia. Por isso o ESPIRITISMO está muito mais para desenvolver a MORALIDADE de cada ser do que sua RELIGIOSIDADE. Claro que respeito a opinião do Mestre Herculano e de tantos outros eminentes espíritas. O ESE só trata dos Aspectos Morais ensinados por Jesus e não dos aspectos do cotidiano de sua vida, talvez aí a grande confusão com religião, Jesus é Jesus, não era Cristão, mas sim,....JUDEU. Cristianismo é um movimento que teve inicio pós seu desencarne.

Grande abraço.
Título: Re: Cristianismo e Espiritismo
Enviado por: Ignarus em 11 de Outubro de 2010, 22:57
Amigos, entendamos que a religiosidade dentro da DE, estaria vinculada à FÉ, mas sem os paramentos materialistas das religiões comuns. Entendendo-se o espiritismo, não podemos traçar uma paralelo com as religiões até então. Compreendamos que é um conceito diferenciado, pois que, "alinhava" a ciência, a filosofia e religião num só contexto.

Com relação a Moral, praticamente todos as religiões estabeleceram os padrões de conduta a serem seguidos, notadamente, aqueles derivadas do Cristianismo. Mas nunca explicaram, como a DE os por quês, da necessidade destas e sempre procuram impor à força aos seus adeptos através de dogmas e atavismos, diferentemente da DE.

Ora, se a DE tem como base de fortalecimento da Fé  racional e inabalável e mostra a realidade da existência de Deus dirigindo todo o Universo e a verdade do mundo espiritual, por que não pode ser considerada uma Religião, não em termo literal conforme os dicionários ou históricos, mas como forma de manifestação de fé que promove a renovação do EU para a prática dos ensinamentos de Jesus com relação ao Amor?

Abçs
Título: Re: Cristianismo e Espiritismo
Enviado por: Silvio Matos em 12 de Outubro de 2010, 02:28
Amigos, entendamos que a religiosidade dentro da DE, estaria vinculada à FÉ, mas sem os paramentos materialistas das religiões comuns. Entendendo-se o espiritismo, não podemos traçar uma paralelo com as religiões até então. Compreendamos que é um conceito diferenciado, pois que, "alinhava" a ciência, a filosofia e religião num só contexto.

Com relação a Moral, praticamente todos as religiões estabeleceram os padrões de conduta a serem seguidos, notadamente, aqueles derivadas do Cristianismo. Mas nunca explicaram, como a DE os por quês, da necessidade destas e sempre procuram impor à força aos seus adeptos através de dogmas e atavismos, diferentemente da DE.

Ora, se a DE tem como base de fortalecimento da Fé  racional e inabalável e mostra a realidade da existência de Deus dirigindo todo o Universo e a verdade do mundo espiritual, por que não pode ser considerada uma Religião, não em termo literal conforme os dicionários ou históricos, mas como forma de manifestação de fé que promove a renovação do EU para a prática dos ensinamentos de Jesus com relação ao Amor?

Abçs

Mano Ignarus,...

Entendo que o espiritismo, será melhor aceito e compreendido em todas religiões, seitas, filosofias, se for apresentado como Ciência, Filosofia com consequências Morais.


Fonte: Wikipédia
É possível nutrir um sentimento de fé em relação a um pessoa, um objeto inanimado, uma ideologia, um pensamento filosófico, um sistema qualquer, um conjunto de regras, um paradigma popular social e historicamente instituido, uma base de propostas ou dogmas de uma determinada religião.
Fé (do Latim fides, fidelidade e do Grego pistia[1] ) é a firme convicção de algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nesta idéia ou fonte de transmissão.

O Mestre Kardec em diálogo com o padre, também deixou claro a preocupação com os irmãos de outras correntes de fé.

Mais bem observado depois que se vulgarizou, o Espiritismo vem derramar luz sobre grande número de questões, até hoje insolúveis ou mal compreendidas. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não de uma religião (*); e a prova disso é que ele conta entre os seus
aderentes homens de todas as crenças, que por esse fato não renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos que não
deixam de praticar todos os deveres do seu culto, quando a Igreja os não repele; protestantes de todas as seitas, israelitas,
muçulmanos e mesmo budistas e bramanistas. Ele repousa, por conseguinte, em princípios independentes das questões dogmáticas. Suas conseqüências morais
são todas no sentido do Cristianismo, porque de todas as doutrinas é esta a mais esclarecida e pura; razão pela qual, de todas as seitas religiosas do mundo, os cristãos são os mais aptos para compreendê-lo em sua verdadeira essência. Podemos exprobrá-lo por isso? Cada um pode formar de suas opiniões uma religião e interpretar à vontade as religiões conhecidas; mas daí a constituir nova Igreja, a distância é grande.

Grande abraço.