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GERAL => Outros Temas => Artigos Espíritas => Tópico iniciado por: António Manuel Bento em 10 de Setembro de 2011, 18:18

Título: As parábolas e os ensinamentos de Jesus - I
Enviado por: António Manuel Bento em 10 de Setembro de 2011, 18:18
A palavra parábola vem do grego parabolê e trata-se de um género literário que consiste em estabelecer a comparação entre elementos tirados da vida quotidiana e vários aspectos de uma doutrina.
A parábola distingue-se da alegoria pelo facto desta possuir em cada ponto da narrativa o seu correspondente doutrinário, enquanto que naquela a noção de conjunto reveste maior importância do que o pormenor.
Trata-se, portanto, de uma narrativa que tem por objectivo transmitir verdades indispensáveis à compreensão de um determinado ponto de vista doutrinário.
Esta forma de expor tem sido entendida como uma técnica literária, cuja finalidade é apresentar um raciocínio e uma conclusão, por detrás de uma breve narrativa, vindo a facilitar a sua memorização e a permitir que o ensinamento de fundo, possa surgir gradualmente ao auditório, até à sua plena compreensão.
Era também uma forma de deixar oculto um ensinamento àqueles cujo entendimento ainda não lho permitia entender.
Uma parte importante dos ensinamentos de Jesus, foi constituída por parábolas. Durante o seu ministério Jesus utilizou as parábolas para esclarecer melhor os seus ensinamentos mediante comparações do que pretendia transmitir, com as ocorrências da vida quotidiana. Utilizava assim, os interesses terrenos para explicar o que era de natureza espiritual.
Porém, o género literário parabólico, é anterior a Jesus, pelo que não lhe podemos atribuir a autoria.
Já no Antigo Testamento existiam parábolas, sendo consensual entre os teólogos enumerar onze escritos canónicos com a forma de parábola. Estas tinham a sua origem nas histórias hebraicas. Os hebreus eram grandes contadores de histórias, pelo que são da sua autoria extraordinárias parábolas, principalmente as que são contadas nos escritos rabínicos. A parábola tem por isso na sua estrutura, a marca inconfundível da oralidade.
No entanto, as de Jesus diferem substancialmente das outras parábolas bíblicas. Embora na sua estrutura, Jesus tenha utilizado metáforas correntes, na sua maioria procedentes do Antigo Testamento, e que estavam na boca do povo, elas eram exímias em criatividade e objectividade, o que tem levado alguns teólogos a considerarem que não se confundem com as alegorias.
As parábolas de Jesus não admitem qualquer paralelismo com as da literatura do judaísmo antigo, com os escritos dos Essênios ou até mesmo com os de Paulo. Possuem uma diferença fundamental que é a de forçarem o auditório a tomar uma posição sobre o tema da narrativa e a reflectirem sobre sua conclusão. O seu poder é intemporal e despertam o mesmo interesse em todas as gerações, permitindo que os homens possam ampliar, em cada época, o sentido dos ensinamentos que transmitem. A sua correcta interpretação, possibilita a sua aplicação universal em todos os tempos, quando adaptada às situações análogas.
 É de facto, o escopo da parábola que interessa ao Homem, ou seja a mensagem espiritual que encerra, pois tal como noutros textos bíblicos, seguramente a narrativa das parábolas contadas por Jesus, não é aquela que chegou ao nosso conhecimento, quer no que respeita à sua estrutura, quer no que concerne à linguagem utilizada.
Qual a razão de se duvidar da autenticidade dos textos?
Em primeiro lugar porque as metáforas utilizadas eram as dos escritos judaicos. Porém, as parábolas foram escritas em grego e Jesus falava aramaico. Como traduzir significa sempre interpretar, este simples facto pressupõe uma interpretação de quem as escreveu. Por outro lado, constata-se também que os textos terão vindo a ser adaptados ao auditório ao longo dos tempos. Essa falta de autenticidade, no entanto, não colocou em causa o sentido teleológico das parábolas enquanto veículo por excelência dos ensinamentos do Mestre Jesus.
António Bento

Bibliografia:
Bíblia Sagrada, Soc. Bíblica de Portugal, Lisboa, 1997, Trad. João Ferreira de Almeida
COMTE, F., Dicionário Temático Larousse, Civilização Cristã, Circulo de Leitores, Lisboa, 1998
KARDEC, A., O Evangelho Segundo o Espiritismo, CEPC, Lisboa, 1987, 4ª ed.
MIRANDA, H. C., O Evangelho Gnóstico de Tomé, Ed. Lachâtre, S.P., 2007, 4ª ed.
SCHUTEL, C., Parábolas e Ensinos de Jesus, S.P.,1979,11ª ed.