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GERAL => Mensagens de Ânimo => Acção do Dia => Tópico iniciado por: dOM JORGE em 04 de Abril de 2012, 22:09

Título: O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano Pires
Enviado por: dOM JORGE em 04 de Abril de 2012, 22:09
                                                          VIVA JESUS!


          Boa-noite! queridos irmãos.

           
                 O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano

A proclamação do reino

“O que pensa que o Reino está longe terá que andar muito para encontrá-lo, mas o que sabe que o Reino já está aqui mesmo, ao nosso lado, já o traz dentro de si. Ai, porém, do que pensar que o Reino já está nele e deixar de buscá-lo!" -  Herculano Pires, (Ir. Saulo) no Aviso ao Leitor, que inicia o livro O REINO.

Sempre que releio alguma obra de Herculano Pires, fico pensando como faz falta o seu pensamento lúcido, poético, racional, filosófico, nos estudos das Casas Espíritas. Como seu estilo, embasado em sua veia literária, de uma beleza às vezes comovente e sempre elegante e profunda, ainda não foi superado por nenhum autor espírita!

Deteve-se, um grupo de estudos em que faço parte, na análise de seu livro O Reino em que ele assina Irmão Saulo, pseudônimo que utilizava em suas obras inspiradas. É um poema.

No entanto, quanta profundidade!

Os teólogos católicos, que criaram a Teologia da Libertação, lembram-nos de que a principal mensagem do Evangelho é a do REINO DE DEUS. Há no Evangelho mais de uma centena de passagens onde Jesus fala sobre o Reino. E apenas três ou quatro em que fala da Igreja, que para eles é a herdeira única do Cristo. O Livro dos Espíritos, mais de uma centena de anos antes dessa Teologia muito esclarecida, já nos dizia que esse é o objetivo do homem: Instaurar na Terra uma sociedade que seja a sonhada por Jesus em seu Evangelho, ou seja, O Reino de Deus. (Ver questão 1018 de O Livro dos Espíritos.) [1]

No capítulo A Proclamação do Reino, Pires cita Isaías, de cujas palavras Jesus se serve para anunciar, na modesta Sinagoga de Nazaré, que, na sua pessoa, aquelas palavras se cumpriam.

“O espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres. Enviou-me para proclamar a libertação dos cativos e a restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos e apregoar o Ano Aceitável ao Senhor." - Isaías, 6:1; 2 e Lc, 4:18.

 É comum ouvirmos e lermos sobre o Reino de Deus em nós, e poucos se detêm, como Herculano, na análise dessa Proclamação. Ninguém sabe o que era para o judeu o Ano Aceitável ao Senhor.

Herculano explica isso no capítulo A PROCLAMAÇÃO.

Depois de nos dizer que Jesus se apresentou como pregoeiro (o que vem fazer o pregão de uma notícia ao povo), portanto, aquele que anunciava a Boa Nova. Ele vinha estabelecer o Ano Aceitável ao Senhor, especialmente aos pobres, explicando que viera libertar os cativos e restaurar a vista aos cegos, libertar os oprimidos. Herculano nos explica o que vem a ser o Ano Aceitável ao Senhor que Jesus anuncia ter vindo estabelecer.

O povo judeu, a cada 50 anos, proclamava esse quinquagésimo ano como o Ano Aceitável ao Senhor. Nesse ano, eram redistribuídas as terras, todos os trabalhadores do campo recebiam um pedaço de terra para ganhar seu sustento, as dívidas eram perdoadas, os cativos libertos. Essa proclamação não tem nada de comparativa, como querem alguns “homens de Deus”. Ela é real, porque, se conseguirmos a sua proposição, se for estabelecido na Terra, e esse ano aceitável ao Senhor, não a cada cinqüenta anos, mas, como maneira de se viver no mundo, teremos o que prevê a questão 1018 de O Livro dos Espíritos - o Reinado do Bem sobre a Terra.

Quando Jesus se anuncia como aquele que vem proclamar o estabelecimento do Reino de Deus, na Terra, ele não diz que vem reinar, ou que haveria um Rei que seria ele. Coloca-se tão-somente como o pregoeiro, aquele que anuncia que um Reinado se estabelece. É o Reino de Deus, ou dos Céus.  Não é um reinado sobre os Espíritos, embora também o seja, mas ao dizer que esse Reino estabelecia para sempre o Ano Aceitável ao Senhor, sua fala denota os objetivos de mudança e renovação social que esse Reino dos Céus trará.

O Ano Aceitável ao Senhor era uma invenção do sacerdócio de Israel, com nítida ação social, evitando muitas revoltas contra a hipocrisia, a dominação cruel que era feita contra os povos hebreus. A cada cinquenta anos eram perdoadas as dívidas, redistribuídas as terras, libertados os cativos. O povo aprendia a esperar esse tempo e, paciente, não se revoltava. Ainda que a boca dos profetas denunciasse a injustiça e defendesse o povo de Israel contra seus próprios dirigentes, o povo tinha na existência do Ano Santo (ou aceitável) do Senhor, um motivo de esperança, para não se revoltar. Logo após a redistribuição e o perdão das dívidas, a pretensa igualdade era destruída rapidamente, pois o povo, sem tostão, sem quem os amparasse até que pudessem colher e vender, emprestava dinheiro dos mais abastados.  Continuava a depender do dinheiro dos mais ricos para plantar, colher e vender. Assim, logo se endividavam e eram obrigados a entregar novamente as terras. Bastava uma colheita ruim, um pai de família que falecesse, ou ficasse doente, para que as terras mudassem novamente de mãos e as dívidas se amontoassem reduzindo o povo à miséria. A lei era tão injusta que diante de um juiz, a que fosse arrastado um devedor, tudo deveria entregar, até mesmo o manto, ficando reduzido tão só à túnica que lhe cobria a nudez. 

 No entanto, o Jovem Carpinteiro vem apregoar que Jeová estabelecia com ele, seu apregoador, o Reino de Deus, onde todos seriam justiçados e para sempre. É de admirar que depois dessa proclamação, os estudiosos da Lei, os companheiros de Nazaré, ouvindo Joshua de Nazaré sobre Isaías, se revoltassem?  O Reino de Deus, esclarece nosso autor, não se fundamentava na injustiça, na ganância e no ódio, sob a maldição da violência.

É de se admirar que os galileus de Nazaré, saturados de rituais farisaicos, defendendo suas poucas ou maiores posses, ficassem revoltados? E mais ainda ficaram com as palavras seguintes de Jesus. O Evangelho nos conta que, revoltados, consideraram Jesus um feiticeiro, o agarraram e o arrastaram para fora. Tencionavam atirá-lo do lado esquerdo de Nazaré, onde perigosa escarpa de pedras e rochas pontiagudas, eriçados espinheiros levariam à morte quem de lá fosse lançado.

Herculano, com a característica beleza dos literatos, explica:

“Mas, quando tudo parecia perdido, os homens que o agarravam com mãos de ferro, viram que estavam enganados. Na verdade, haviam-se agarrado uns aos outros e, se não percebessem a tempo, se teriam arrojado pelo precipício abaixo. Pararam assustados à beira do abismo e suas pernas e seus braços tremiam de horror”.

Enquanto isso, o Jovem Carpinteiro, passando tranquilamente entre eles, descia a encosta em direção à cidade.

Assim, Jesus passou entre os homens e, até hoje, ao querer destruí-lo e ao Reino de Deus, apenas nos destruiremos a nós mesmos. O Reino foi instaurado e, se não conseguirmos ao longo dos séculos fazê-lo presente na sociedade dos homens, nos lançaremos no abismo.


 
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[1] Resposta à questão 1018.

O bem reinará sobre a Terra, quando, entre os Espíritos que vêm habitá-la, os bons vencerem os maus. (...) Mas os maus não a deixarão senão quando dela forem banidos o orgulho e o egoísmo.


              Maria Eny Rossetini Paiva




                                                                                           PAZ, MUITA PAZ!
Título: Re: O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano Pires
Enviado por: dOM JORGE em 30 de Abril de 2012, 12:41
                                                               VIVA JESUS!




             Bom-dia! queridos irmãos.


                     O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano

Os frutos da terra

“Deus quer que a riqueza se espalhe no Mundo. A riqueza é a herança de Deus e o apóstolo Paulo ensinou: ‘Somos herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo'. Ai daquele que pretender empobrecer os homens e empobrecer a Terra. Este pequeno mundo não foi lançado na rota dos mundos para se tornar miserável, um mendigo do Espaço. Seu destino é a grandeza Universal, a glória do Infinito, a riqueza inumerável do Céu.”...

“O Mensageiro do Reino me disse um dia:

– Pensais que Deus é Deus de pobres e esfarrapados?... Os mundos mais próximos de Deus são de maravilhosa riqueza, transbordantes de cintilações. Não vistes a descrição da Jerusalém Celeste no Apocalipse? O Reino é rico, mas a riqueza do Reino é abundante e impessoal. O que faz a pobreza é a riqueza pessoal. Há um caruncho da alma: o egoísmo. Esse caruncho destrói a maior riqueza do Universo que é o Espírito, quando o homem se julga dono pessoal dos frutos da terra.” – Cap. III do livro O Reino – OS FRUTOS DA TERRA, de Herculano Pires. (Ver questão 711 de O Livro dos Espíritos.) [1]

Continuamos nosso estudo da obra O Reino, do eminente escritor, filósofo, jornalista e espírita José Herculano Pires.

Herculano aproveita a lição da árvore, que não guarda os frutos para si, mas os utiliza para semear e sobreviver, produz em abundância para pássaros e vermes, colabora com os ventos e perfuma a atmosfera. Maria de Nazaré exclama, segundo a tradição no Evangelho que Jesus, o Senhor, “depôs do trono os poderosos e elevou os humildes; encheu de bens os que tinham fome e despediu vazios os que eram ricos”. Indaga o escritor que estudamos: “Que são os bens senão os frutos da Terra? Maria previu em sua intuição de mãe, inspirada pelo Espírito, a redistribuição dos frutos da terra, para que o Amor e a Justiça do Reino triunfem entre os homens... Que direito tem um homem de cercar uma árvore ou muitas árvores, de torná-las suas escravas particulares, de arrebatar-lhes sistematicamente os frutos para transformá-los em riqueza pessoal? A riqueza dos frutos é para todos”.

Os que entesouram só para si, escreve o filósofo, se organizam em associação, trustes, monopólios. Pegam os frutos das árvores, os frutos da terra, os minérios, os frutos dos rios e mares, os peixes e mariscos, sugam os lençóis subterrâneos, e de tudo fazem moedas ingênuas, com as quais escravizam os outros, exploram povos, multidões, e ainda se acham benfeitores... Subvertem regimes, alteram governos, tripudiam sobre os povos. Mas, conforme ensina Jesus: um dia Deus lhes vem pedir a alma tola e apaga das gerações a memória mentirosa que quiseram formar. O homem do futuro, o habitante do Reino, entenderá que a sua alma, o seu Espírito, é a sua maior riqueza. Que é seu espírito que merece ser cultivado, educado, burilado. É seu espírito que ele deve enriquecer, sua alma precisa entender todas as coisas do mundo para usar seu trabalho e conhecimento em benefício de todos.

De novo, O Mensageiro do Reino, que está presente em cada capítulo, ensina: “Os frutos e as pedras da terra devem servir aos vossos corpos na medida do necessário, mas podeis convertê-los em estrelas e sóis pela magia do Espírito. Não existe mais bela alquimia. Sede os alquimistas da caridade!”.

Diversamente do que nossa mente viciada por séculos de tradição religiosa católica, evangélica, orientalista, ou islâmica, possa interpretar esse ensino angelical, também contido em O Livro dos Espíritos, ser alquimista da caridade não significa fazer caridade com o que for sobrando de nossa fortuna pessoal. O alquimista da caridade sabe que a função social de sua empresa está acima de seus interesses pessoais e procura, como mostramos no estudo anterior, dividir, com os que trabalham e o auxiliam a enriquecer, os frutos do trabalho, o possível do lucro. Não se julga melhor do que ninguém por ser mais capaz e melhor gerente, com maior visão ou maior capacidade de trabalho. Sabe que tudo é de Deus e que suas posses são apenas o momentâneo poder que lhe é dado para distribuir com todos os que também laboram transformando o mundo e a vida. Cap. XVI – O Evangelho segundo o Espiritismo, item 10. [2]

Assim, conforme ensina o Mensageiro do Reino, não entesouremos nada em prejuízo dos outros. Tudo o que possuirmos, só será legítima propriedade nossa se for adquirida sem prejuízo de outrem, ensinam os Mensageiros da Luz em suas Instruções em O Evangelho segundo o Espiritismo. [3]


 
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[1] Questão 711- O uso dos bens da terra é um direito para todos os homens? Resposta: Esse direito é a consequência da necessidade de viver. Deus não pode ter imposto um dever sem haver dados os meios de o satisfazer.

[2] Os bens da Terra pertencem a Deus, que os dispensa à sua vontade, e o homem deles não é senão o usufrutuário, o administrador mais ou menos íntegro e inteligente. Eles são tampouco propriedade individual do homem porque Deus, frequentemente, frustra todas as previsões e a fortuna escapa daquele que crê possuí-la pelos melhores títulos. Cap. XVI – início do item 10.

[3] ...e se há uma fortuna legítima, é esta, quando adquirida honestamente, porque uma propriedade só é legitimamente adquirida, quando, para a possuir, não se fez mal a ninguém. Será pedido conta de uma moeda adquirida em prejuízo de outrem.  Cap. XVI – item 10 §2°.


           
           Naria Eny Rossetini Paiva




                                                                                         PAZ, MUITA PAZ!




                                                                                               
                             



         
Título: Re: O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano Pires
Enviado por: dOM JORGE em 29 de Maio de 2012, 13:13
                                                                      VIVA JESUS!




          Bom-dia! queridos irmãos.


                  O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano

O EXEMPLO
 
Nesta série de estudos sobre o mestre em Filosofia, escritor, literato, jornalista e espírita, Herculano Pires, estamos examinando sua obra “O Reino”, em que nos esclarece a respeito do Reino de Deus que Jesus veio anunciar, vivenciar e exemplificar.

No Capítulo IV, O EXEMPLO, mestre Herculano ensina que O Reino não é privativo de ninguém e que, certa vez, para quebrar a dura cerviz dos fariseus, diante do centurião romano que lhe rogara a cura para seu servo, e a conseguira, Jesus declarou: “Em verdade vos afirmo que não achei tamanha fé em Israel, e que virão muitos do Oriente e do Ocidente para assentar-se à Mesa com Abraão, Isaac e Jacó, no Reino dos Céus”.

Herculano prossegue: “E acrescentou com a dureza de uma martelada na oficina de Nazaré: Mas os Filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores em que haverá choro e ranger de dentes!”.

Assim se chamavam os hipócritas de Israel: Filhos do Reino, porque se consideravam mais puros que todos os outros e escolhidos por Deus para julgarem os goyn, os estrangeiros impuros. O Jovem Carpinteiro os ameaçava com as trevas exteriores, com a cegueira da alma que sucede à cegueira da mente, produzida pelo orgulho. E tomava o centurião romano, odiado pelos Filhos do Reino, como exemplo de fé, como tomara o Bom Samaritano, em cuja presença os fariseus cuspiam e viravam o rosto com desprezo, como exemplo de amor.

Quantos ensinos esse simples trecho nos traz. Herculano sabe e o mostra à exaustão em outros interessantes livros sobre a época de Jesus, como Barrabás, Madalena e Lázaro, como sentiam os judeus, e com que orgulhosa pretensão se julgavam superiores. Não como adoradores do Verdadeiro e único Deus, mas com relação aos que eram o SEU POVO, OS QUE ELE ESCOLHERA PARA PROTEGER. Povo escolhido que, embora sob o tacão romano, receberia o Messias, que viria trazer-lhes de volta a liberdade e o domínio, dos tempos do Rei David e Salomão. Essa crença, fruto do orgulho da raça e do povo, tem sustentado o povo de Israel por milênios e ainda hoje mantém viva no seio das sinagogas a esperança da vinda de um Messias político ou apocalíptico, não importa, mas que lhes devolverá o domínio e implantará O Reino onde eles reinarão para sempre sobre todos os demais povos...

   Podemos repudiar essas ideias, mas seria interessante que, antes disso, analisássemos se não temos a mesma postura fruto do orgulho. Os que se julgam donos de uma verdade maior assumem, na maioria das vezes, a mesma postura. Podem não se achar escolhidos de Deus, por serem israelitas, podem não esperar “reinar com Deus” sobre os gentios, mas julgam-se melhores por possuírem mais conhecimento, ou a fé em Cristo, ou em uma Igreja cristã ou não cristã. Não ouvimos nossos irmãos se chamarem de “povo de Deus”? Não ouvimos no movimento espírita as pessoas dizerem que o conhecimento espírita é superior a todos os outros, que nada têm a aprender com outros estudiosos, teólogos, exegetas, estudiosos das Escrituras, ou mesmo da Ciência? Não encontramos a mesma doença do orgulho, quando nós mesmos sorrimos com superioridade diante da ignorância ou mesmo nos revoltamos com os avanços da Ciência, tão-somente porque contrariam “revelações” feitas por médiuns confiáveis?

Fico admirada, muitas vezes, que eminentes oradores e líderes da evangelização infantil continuem ensinando a parábola do Bom Samaritano, como se nela Jesus apenas nos ensinasse a sermos caridosos para com os necessitados e exprobasse a hipocrisia dos religiosos que não socorreram o samaritano assaltado e caído.

A parábola é muito mais do que isso: nela Jesus ensina a nos livrarmos do preconceito. O judeu, quando via um samaritano, cuspia e dizia “Racca”. Dessa expressão de desprezo vem a expressão brasileira “raque tchu” e a cuspida com que as crianças se enfrentavam em pequenas querelas na infância e que em alguns municípios brasileiros ainda é usada. Os judeus, que se achavam superiores aos galileus, e desprezavam com nojo manifesto os samaritanos, foram, nessa parábola, reduzidos à sua verdadeira dimensão. 

Se toda a Lei e os Profetas se resumem na máxima “ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, quem assim procede não ama a ninguém. O orgulho o domina. É essa a principal lição da Parábola do Samaritano, não divulgada pelos diferentes credos religiosos, porque, à semelhança do farisaísmo, cada grupo se julga melhor do que o outro. Embora não o demonstremos de modo tão evidente, cuspindo diante de outro cidadão que por algum motivo julgamos inferior a nós, sentimos por ele o mesmo sentimento de superioridade que caracteriza o orgulho. E a diferença entre Judeus e Samaritanos se assentava, ao menos exteriormente, no fato de que os Samaritanos não iam ao Templo de Jerusalém, mas adoravam a Deus no monte. Ou, em palavras modernas, não concordavam em engordar com seus sacrifícios e oferendas de dinheiro e animais as famílias dos fariseus e sacerdotes, que faziam pior do que os dominadores romanos que viviam dos impostos recolhidos dos povos que oprimiam.

Os fariseus e sacerdotes viviam enganando seu próprio povo. A título de salvação e purificação, obrigavam-no a pagar caro seus rituais, e comprar animais sagrados para a oferenda, com o dinheiro do templo, que deviam trocar pelo dinheiro dos romanos, às mesas dos cambistas. Só com tal dinheiro do Templo podiam comprar os animais sagrados para o sacrifício. Por isso, as mesas dos cambistas que Jesus derruba, e daí, o estabelecimento de uma nova forma de adoração sem sacrifícios sangrentos, por Jesus. Na verdade, os animais sacrificados ficavam em parte para os sacerdotes e fariseus, que assim locupletavam suas mesas à custa da miséria e do sacrifício de seu próprio povo.

Esse é um dos motivos porque Jesus os tratava com tanta dureza e dizia que eram malditos.

Veja em A Gênese o item “maldição aos fariseus”, que Kardec coloca sem comentários. Claro que Jesus não amaldiçoava, nem bendizia, apenas colocava quem era maldito e quem era bem-aventurado, diante da lei de Deus. Não podemos à moda de feiticeiros medievais ou atuais lançar bênçãos e maldições. Cada um de nós está sujeito a recolher bênçãos e maldições por sua conduta na Vida regida pela Lei Natural.

A tradução adocicada feita pela Igreja e pelos tradutores evangélicos, substituindo a palavra malditos por “ai de vós”, tem mantido gerações na ignorância do significado do Reino de Deus na Terra, e de como nossa conduta diante das Leis Universais nos torna felizes (bem-aventurados) ou infelizes (mal-aventurados ou malditos).

O Capítulo IV traz preciosos ensinos de Herculano, e nos fala da pequena comunidade messiânica que vivia segundo os preceitos do Reino, ao lado de Jesus. Fato ignorado pelos que nos ensinam sobre a vida de JESUS. Mas disso trataremos no próximo estudo...


           Maria Eny Rossetini Paiva






                                                                                              PAZ, MUITA PAZ!
Título: Re: O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano Pires
Enviado por: dOM JORGE em 16 de Junho de 2012, 04:57
                                                                      VIVA JESUS!



           Bom-dia! queridos irmãos.



                    O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano

A tentativa

No livro O Reino, objeto de nosso estudo, o escritor, filósofo, mestre e jornalista, Herculano Pires, fala-nos do Reino sem Rei, o Reino dos Céus.

“O meu Reino ainda não é deste mundo. No meu Reino, os que mandam são os que servem. Os grandes são os que se humilham, pois os que se exaltam são humilhados. Meu Reino é um Reino de Servidores.”

O Exemplo do Reino era tão estranho como um pesadelo. O Mundo o via, mas não entendia. João, o Evangelista, escreveria mais tarde: “A luz resplandeceu nas trevas, mas as trevas não a compreenderam”. Apesar disso, o Exemplo ali estava. Era possível viver no Reino em plena treva do Mundo. Multidões aflitas se aproximavam do Reino...

E os Grandes da Terra, ao ouvirem essas notícias, davam de ombro e riam com desprezo. Mas, quando viam a realidade dos fatos, tremiam de indignação e pavor.  Então era possível que aquele Mestre sonâmbulo roubasse aos homens o gosto do poder, a volúpia do dinheiro, o prazer dos sentidos, esse divino dom que Jeová concedia aos judeus e os Deuses concediam aos goyns? Não! O Exemplo do Reino era um mau exemplo. (Final do Cap. IV de O Reino.)

No capítulo V, Herculano trata da Tentativa dos discípulos de viverem O Reino na comunidade evangélica de Jerusalém, logo depois que a violência dos religiosos e dos romanos submetera Jesus à crucificação, matando-o, pelo suplício reservado aos que atentavam contra o poder de César.

A cruz não era para ladrões e outros delitos. Era o suplício público, para aterrorizar os rebeldes, reservado aos que tentavam revoluções, aos zelotes que faziam terrorismo político. Por isso, a ideia antiga, mas retomada modernamente, de que Barrabás, Dimas e Cleófas não eram ladrões, mas faziam parte da tentativa de expulsão dos romanos por um grupo de galileus.  O Evangelho de Lucas nos fala da invasão do Templo de Jerusalém, reprimida por Pilatos, que ocorreu exatamente quando Jesus veio para Jerusalém. Pelo mesmo motivo, os espíritas adotaram pela revelação de alguns médiuns confiáveis a tese antiga de que Judas não era um traidor, mas fazia parte do movimento de retomada do poder, por Israel, e pretendia que Jesus fosse o Rei desse Reino de Javé restaurado.

A decepção da morte na cruz do Mestre libertara os discípulos da pretensão de que Jesus iria restaurar, de imediato, o poder de Israel e expulsar os goyns, impuros. No entanto, a visão do Senhor, a sua aparição entre eles, em espírito, e o fenômeno do Pentecostes, em que as línguas de fogo os iniciam na divulgação do Reino, restauram-lhes a força e isso os faz retomar a vivência evangélica que haviam experimentado em companhia de Jesus. Mesmo porque Jesus em Espírito ficara com eles 40 dias, segundo o Evangelho, “falando-lhes do Reino”.

O poder judeu e o de Roma lançaram sobre Jesus a ignomínia da cruz, mas o Exemplo do Reino, daquele que o Mestre já vivia com os discípulos, em sua pequena comunidade dos doze, que são chamados apóstolos, e mais os discípulos, incentiva Pedro, e especialmente Tiago, o irmão do Senhor, a fundar a comunidade de Jerusalém. O Evangelho relata que se agregaram aos apóstolos três mil pessoas. Conforme o ensino de Jesus na ceia Pascal, que ao dividir o pão e o vinho lhes pedira: “Fazei isso em memória de mim”, dividiam o pão e oravam em comum. Herculano ensina: “Para esses Filhos do Reino, o pão era um só e todos participavam dele. Ninguém guardava o seu pãozinho particular, para secar e mirrar no embornal escondido. Todos davam o que tinham para poderem receber da abundância geral. E se alguém dava mais, para retirar menos, era com alegria que o fazia, pois, é alegre para os Filhos do Reino poderem dar da sua mesma abundância”.

É bem verdade que, da mesma forma que a comunidade de Jesus formada por ele e pelos apóstolos e discípulos, a pequena comunidade de Jerusalém, onde viviam o ideal de fraternidade, desapareceu. Os primeiros cristãos, nos séculos iniciais, não foram mais viver em comunidade, Muitos séculos ainda deviam passar até que a sociedade buscasse seu aperfeiçoamento, e essa semente do Reino pudesse frutificar começando a produzir amor e justiça para todos.

Essa semente da comunidade apostólica voltou ao seio da Terra e dela só restaram nos tempos futuros as ordens religiosas católicas regulares (leia congregações com regras, irmandades, onde tudo se possui em comum). Mas vieram tisnadas por uma visão orientalista de segregação sexual, celibato obrigatório que pretende a superação total dos instintos, além de regras rígidas e hierarquia dominadora.

Até mesmo a ideia do dízimo, que era obrigatório aos cristãos no início do Cristianismo, visando socorrer os irmãos em dificuldades e amparar órfãos e viúvas, foi adulterada e serve ainda hoje para enriquecer Igrejas e dar-lhes o poder do dinheiro.

Infelizmente as Igrejas perdidas em seus dogmas e rituais relegaram a ideia da vivência do Reino ao esquecimento. Claro que as estruturas sociais não tinham, como não têm, nenhum interesse em que essa experiência fosse divulgada. Crianças são evangelizadas sem saber dessa tentativa. Gerações, inclusive de espíritas, vivem e morrem, sem nem suspeitar que a implantação de um Reino de Amor e Justiça foi retomada claramente pelos Espíritos Superiores que nos trouxeram O Livro dos Espíritos. Os Espíritos consoladores estabelecem que O Reino, nascendo em nós, deve ser implantado aqui na Terra, pela nossa ação, na luta pela Justiça e Amor.

As sementes do Reino ficaram durante milênios enterradas. Através dos séculos, elas tentaram germinar, entre os homens que se diziam espiritualizados. Mas cresceram essas poucas sementes desenterradas, portando genes estranhos, implantados nelas pelos poderosos, especialmente a partir de Constantino. Cresceram como sementes transgênicas, carregando um sentido espiritual que é a morte do ser humano para a vida natural. A vida natural compreende a utilização equilibrada dos instintos que Deus nos permitiu adquirir em séculos de evolução, como facilitadores de nosso aperfeiçoamento. Adulterados os genes do espiritual, estabeleceu-se o cilício, o jejum, a castidade, se possível a virgindade, a obediência, a pobreza, como o ideal dos representantes da espiritualidade superior. O horror aos instintos, à ideia de culpa e pecado, à obrigação de superar o instinto, ao invés de utilizá-lo como ensina a questão n° 75 de O Livro dos Espíritos. O medo dos castigos terríveis que aguardam o “pecador” toma conta da literatura religiosa, inclusive atualmente da espírita, para manter o homem escravizado aos poderes da religião, de seus representantes, seus santos, médiuns ou “homens de Deus”.

As instituições religiosas, baseadas na culpa e no medo e não na Justiça e no Amor, enriquecem e fazem conúbios imorais com o poder constituído que lhes enche os cofres, para que divulguem a mentira e o que lhes convém. Fariseus modernos, a ressumar hipocrisia!


          Maria Eny Rossetini Paiva





                                                                                               PAZ, MUITA PAZ!
Título: Re: O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano Pires
Enviado por: dOM JORGE em 29 de Junho de 2012, 22:48
                                                                      VIVA JESUS!




           Boa-noite! queridos irmãos.



                  O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano

Os atalhos

O Capítulo VI do livro O Reino reserva-nos uma surpresa! Só mesmo uma mente privilegiada, uma cultura incomum como a do professor Herculano poderia entender os grandes desvios, os atalhos, ásperos, estreitos, pelos quais os homens fascinados pelo sonho do Reino tentam implantá-lo sobre a Terra.

Herculano termina o Capítulo V com a indagação: “Quem pode tirar do Espírito dos homens a eterna miragem do Reino?”.

Começa seu estudo falando das heresias, contra as quais a Igreja lutou séculos. Muitas delas isolavam seus profitentes na zona rural, longe dos soldados repressores. Herculano assim as descreve: “Seitas de aldeões simplórios em delírio místico visualizando em sonho as torres e mirantes do Reino. Grupos fanáticos de visionários ilustrados que se consideravam profetas, missionários, e arrastavam multidões sedentas de uma verdade mal entrevista”.

Assim ele define as heresias: “Seitas ao mesmo tempo humildes e arrogantes, de camponeses ansiosos por amor e justiça, tentando estabelecer na Terra o Amor e a Justiça do Reino”. Uma definição que nos faz lembrar Antonio Conselheiro no Nordeste e o movimento do Contestado no Sul. O anseio por Justiça e Amor movimentou sempre os corações e muitas vezes se autodestruiu, porque não soube alterar o modelo de poder, querendo estabelecer outros reis e dominadores, para na verdade, apenas e tão somente mudar os arreios, ao invés de eliminá-los na condução da sociedade.
Ainda ressoam, sem eco, as palavras de Jesus: “Aquele que quiser ser o primeiro, que seja servo dos demais”, ou seja, poder é serviço para os outros e não domínio sobre o outro.

Herculano reconhece também que “ao lado das heresias surgiram também as ideologias desesperadas, contraditoriamente alimentadas de esperanças. Mártires do Reino arderam em fogueiras assassinas, morreram em torturas piedosas, foram degolados e torturados”...

Surpreende Herculano, então, falando-nos que assassinos que a História nos mostra como destruidores da civilização romana também ouviram o chamado do Reino. Quiseram pela violência e morte implantar um novo Reino. Assim, coloca que Átila visualizou o Reino ainda que a distância e as hordas de bárbaros derrubaram impérios. Então pergunta: “Quem poderia segurar os homens alucinados pelo anseio de Amor e Justiça?”.

Cita então os mouros na Espanha, com seu alfanje devorando as cidades cristãs, em nome da república islâmica, trazendo para a ignorância dos monges, que destruíram em nome da fé toda a cultura grega romana, os escritos dos filósofos antigos, que sua cultura considerada “infiel e bárbara” pelos cristãos (a pretensão e o orgulho dos israelenses e romanos de novo, repetido na História), e que eles, mulçumanos, preservaram, ensinando aos povos analfabetos e ignorantes a matemática, a álgebra e os números arábicos. “Ah, como o fascínio do reino perdurou nos corações perjuros, torturando-os através dos séculos!” – exclama o professor Herculano.

Apenas os que se detiverem a ler com atenção esse capítulo VI de O Reino poderão entender a beleza com que Herculano coloca como um dos precursores do Reino: Jean Jacques Rousseau, o maldito, o incoerente revolucionário que coloca seus quatro filhos na

“roda dos indigentes” em Paris e, com sua pena, estabelece os fundamentos das modernas sociedades, escrevendo O contrato social. Mostra o homem novo, fundamento da educação natural moderna em O Emílio, e apresenta “o novo amor que cimenta a família nova, formada pelo sentimento puro, livre das impurezas e do jugo doloroso das ambições” em Heloísa.

Uma conduta pessoal lamentável que o transforma em réprobo social, mas essas obras produziram “a Revolução Francesa, a Queda da Bastilha, a derrubada dos privilégios da Nobreza”. Com ele surge o primeiro esboço da Religião Racional, da Nova Educação, e a proclamação do Reino na fórmula revolucionária: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

É preciso conhecer Filosofia, ter uma cultura universalista para superar os preconceitos, como Herculano, que continua nesse capítulo a enumerar os atalhos pelos quais os homens tentam atingir o Reino do Amor e da Justiça.

Fala-nos de Karl Marx e de sua luta que lhe devorou a saúde, dos dezesseis volumes alentados de “O Capital”, onde disseca com análise rigorosa o corpo de uma sociedade injusta. A imagem com que ele encerra a visão de Marx, o “profeta extemporâneo, que salta da Bíblia e tenta esmagá-la com os pés”, sem conseguir, porque estava velho demais, é algo inesquecível.

Então, inesperadamente, novamente o autor nos surpreende e nos fala de Mussolini “um Rei transformado em títere. Os direitos humanos violados. A mentira do corporativismo escravizando as massas. O servilismo, a arrogância, a brutalidade, o ódio erigido em valores novos”. 

A seguir nos fala de Hitler. E completa: “Tanta impiedade, tanta loucura no desvario do Reino”.

De uma forma suave e branda como uma brisa matinal, Herculano nos faz ver que mudavam-se as estrutura, mudavam-se os donos do poder, mas faltava a mudança que o Jovem Carpinteiro havia começado. Jesus ensinara que o Reino não começa por sinais exteriores, mas está dentro de nós. Mas os homens continuaram a buscar poder, dinheiro, grandeza, sonhando como os discípulos e os revolucionários do tempo de Jesus na Glória de Israel e em seu domínio sobre todos os povos. Os atalhos só nos trouxeram sofrimentos!

Ele termina o capítulo citando Gandhi: o meio é caminho do fim. Ninguém pode atingir Paris, se tomar o caminho para Roma, da mesma forma, esses confusos atalhos nos enleiam em uma prisão. Mas, ao mesmo tempo, caminhamos para a libertação. É isso que ele nos explica no próximo capítulo seguinte: A CONFLUÊNCIA.

É aqui que o Reino deve ser implantado. No entanto, isso requer, além da compreensão de seus fundamentos, a vivência pessoal deles, porque O Reino de Deus está dentro de nós. Apenas os que vivem essa realidade podem entender que lutar pela implantação do Reino de Deus não é esperar indefinidamente por sua implantação, em uma matemática absurda e infantil: “O mundo será regenerado, dizem, quando todas as pessoas entenderem a mensagem de Jesus e a praticarem. Será a reforma íntima de cada um que nos levará à mudança social que, então, será possível de modo brando e pacífico. Será a soma da reforma íntima de cada um que levará o mundo a se tornar um mundo de regeneração”.

Dizer isso é desconhecer a obra da Codificação e os mais comezinhos princípios de sociologia.  Imaginemos que no Brasil, que carrega a vergonha histórica de ser o último país do mundo a abolir a escravidão dos negros, as Igrejas e as Escolas principiassem em 1888, exatamente no dia 13 de maio, uma campanha para libertar os escravos, mostrando como é desumano escravizar alguém, como isso leva à indignidade do escravizador e do escravizado, e outras questões para reformar pela educação e sem a utilização das leis punitivas, que estabelecem sanções a quem não as cumprir.  Por acaso alguém pode ser tão ingênuo de imaginar que os escravocratas, as senhoras que utilizavam os escravos iriam se sensibilizar? Todas as Igrejas, que utilizavam e utilizam a Bíblia para justificar a escravidão, iriam modificar seu discurso e libertar os cativos que mantinham?  Na verdade, se a comunidade internacional não interferisse, respeitando nossa liberdade, seríamos hoje o único país do mundo a manter os negros cativos.

Alguém poderá argumentar que a liberdade dos negros os empurrou para as favelas, que ninguém se preocupou em educá-los para fazer deles cidadãos brasileiros com as mesmas possibilidades dos brancos... Com certeza, isso é verdade, mas também nos mostra que, cedo ou tarde, esses excluídos acordam, e se as leis os favorecem, e já existem, EXIGEM que lhes sejam dados os direitos usurpados, por organizações injustas e cruéis. É o que se passa hoje no Brasil, quando o racismo, se comprovado, pode custar ao infrator até três anos de cadeia.


           Maria Eny Rossetini Paiva






                                                                                     PAZ, MUITA PAZ!
Título: Re: O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano Pires
Enviado por: dOM JORGE em 13 de Julho de 2012, 23:21
                                                                      VIVA JESUS!




           Boa-noite! queridos irmãos.



                 O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano

A confluência


No livro O REINO, no Capítulo VI, o mestre em filosofia nos leva a analisar todos os movimentos políticos e revolucionários, como atalhos, ásperos e violentos, em que desde Átila, até Hitler, o homem tenta implantar um novo Reino sobre a Terra.  Mostra-nos, o fascínio pela mudança e maior liberdade movido pelo desejo de Justiça e Igualdade, que faz os homens tentarem construir pela violência um Reino, diferente, sem desigualdades e injustiças para os excluídos. Ficamos mesmo decepcionados observando quanto o homem se engana quando quer tomar o poder para “REINAR” sobre os demais, e como ação violenta para implantar um novo reinado fascina as massas humanas.

Quando nos cansamos, saímos para o Capítulo VII - A CONFLUÊNCIA. Então entendemos melhor os caminhos de Deus, para o Reino dos Céus sobre a Terra.

Ouçamos Herculano: “Os atalhos do Reino parecem-nos contraditórios entre si e contrários aos caminhos do Reino. Mas a verdade é que todas essas estranhas manifestações do anseio do Reino no coração humano se entrosam num grande sistema”.

O Livro dos Espíritos nos ensina na questão 780 que o desenvolvimento moral é precedido pelo intelectual. Diversamente do que ensina a maioria dos líderes e mesmo alguns Espíritos, não é o desenvolvimento moral que antecede o intelectual. O homem precisa entender, ser educado, para poder alterar seus preconceitos e encontrar a ética da verdade e do amor. A compreensão conduz ao amor, não o amor piegas, que os sacerdotes de diferentes credos nos impuseram. O amor esclarecido, filho da compreensão, do estudo, da ação planejada e consciente. Quando os Espíritos ensinam que é preciso que o mal se torne muito evidente para que aprendamos a reagir contra ele, estão falando do movimento dialético do Universo. O mal obriga-nos a pensar e agir para o bem.[1]

Vejamos hoje a luta pela ética do desenvolvimento sustentável. Movimentam-se organizações e pessoas, artistas criam filmes que ganham o “Oscar”, como ET e Avatar.  Crianças foram educadas vendo desenhos, como Pocahontas, Mogli, todos com visão da integração entre os seres da Natureza, graças às mudanças que o gênio de Steve Jobs imprimiu aos estúdios Disney. Multidões exigem maior ética para o desenvolvimento. No entanto, foi preciso que a ganância e o desrespeito aos limites da natureza nos ameaçassem com a morte do Planeta. Assim mesmo, as consciências empedernidas no egoísmo e no orgulho negam as conclusões dos cientistas, burlam as leis de proteção ambiental e continuam a poluir a atmosfera, sob alegações mentirosas de quem só enxerga o próprio interesse e poder. Produzem e distribuem jogos incitadores de violência e pagam educadores mentirosos e venais para informarem os pais que isso não causa nenhum mal ao caráter das crianças.

Por isso Herculano ensina com beleza magistral: “No final, todas essas correntes fluem para um delta comum. E há um momento de confluência em que as dissensões se apagam, as contradições se fundem numa síntese superior. É no tempo que se realiza a fusão. Por mais absurda que essa tese possa parecer, a verdade é que os processos gerais da Natureza a comprovam”...

“É o princípio da reencarnação a chave do Reino. A grande maioria das criaturas humanas estaria impedida de entrar no reino, se Deus não lhes concedesse a oportunidade de reinício. Então, o Reino não seria para todos, mas de alguns”. (...) “O Reino não está reservado a estes nem àqueles, mas abre sua pequena porta aos homens de todas as raças, de todas as nacionalidades, de todos os quadrantes de Terra.”

“E é graças a isso que os atalhos e os caminhos do Reino se encontram na confluência. Heresias e ideologias desempenham o seu papel, no grande esquema do Reino. (...) Fanáticos religiosos e fanáticos políticos não perdem o seu tempo: são aprendizes de primeiro grau, exercitando-se para as virtudes do Reino, adestrando-se para amá-lo.”

Após fazer-nos amar os que não entendem o mundo e o Reino como nós, Herculano afirma que não devemos esperar sentados que ele venha. Todos nós temos a obrigação moral de trabalhar pela Justiça e pelo Amor.

Muitas vezes alguns companheiros de Doutrina, que não conseguem entender isso, perguntam-me: adianta lutarmos por leis e posições que o povo não vai aceitar, nem tem compreensão para respeitar?

Sempre procuro responder assim: É aqui que o Reino deve ser implantado. No entanto, isso requer, além da compreensão de seus fundamentos, a vivência pessoal deles, porque O Reino de Deus está dentro de nós. Apenas os que vivem essa realidade podem entender que lutar pela implantação do Reino de Deus não é esperar indefinidamente por sua implantação, em uma matemática absurda e infantil. Essas consciências ingênuas, embora às vezes amorosas, com um amor que ignora, dizem: “O mundo será regenerado quando todas as pessoas entenderem a mensagem de Jesus e a praticarem. Será a reforma íntima de cada um que nos levará à mudança social que então será possível de modo brando e pacífico. Será a soma da reforma íntima de cada um que levará o mundo a se tornar um mundo de regeneração”.

Dizer isso é desconhecer a obra da Codificação e os mais comezinhos princípios de sociologia. Não é a soma dos indivíduos que produz qualquer melhoria social.  O processo de melhoria depende de que homens conscientes e amorosos movimentem forças para que leis mais justas sejam aprovadas. Uma vez conseguido isso, é preciso educar os corações e mentes para respeitarem a lei, por adesão e compreensão dos seus objetivos. Vejamos a lei muito recente que obriga todas as séries comuns do ensino e toda escola a receber no máximo dez por cento, em cada sala, de crianças portadoras de deficiência. De início os pais dessas crianças enfrentaram o preconceito, o despreparo dos demais pais, que não queriam que seus filhos se misturassem com os “anormais”. Em sua luta, pais e educadores esclarecidos foram mostrando em cursos, utilizando vídeos, vivências e outros recursos, a importância da inclusão de todos. Em empresas, obrigadas por lei a contratá-los, eles, os portadores de deficiência, passaram a trabalhar com muito empenho, onde produziam tanto ou mais do que os “normais”. Desse modo, hoje, uma parte bem maior de professores, pais, empresários, compreende o alcance e a justiça dessa lei.

Imaginemos que no Brasil, que carrega a vergonha histórica de ser o último país do mundo a abolir a escravidão dos negros, as Igrejas, as Escolas principiassem em 1888, exatamente no dia 13 de maio, uma campanha para libertar os escravos, mostrando como é desumano escravizar alguém, como isso leva a indignidade do escravizador e do escravizado, e outras questões para transformar, tão-somente pela persuasão e pela educação, sem a utilização das leis punitivas, que estabelecem sanções aos infratores. Por acaso alguém pode ser tão ingênuo de imaginar que os escravocratas, as senhoras que utilizavam os escravos, iriam se sensibilizar? Todas as Igrejas, que utilizavam e utilizam a Bíblia para justificar a escravidão, iriam modificar seu discurso e libertar os cativos que mantinham?  Na verdade, se a comunidade internacional não interferisse, os ingleses, interessados em criar assalariados para seus produtos não pressionassem, e respeitassem o desenvolvimento moral da maioria dos cidadãos brasileiros, seríamos hoje o único país do mundo a manter os negros cativos.

Alguém poderá argumentar que a liberdade dos negros os empurrou para as favelas, que ninguém se preocupou em educá-los para fazer deles cidadãos brasileiros com as mesmas possibilidades dos brancos... Com certeza, isso é verdade, mas também nos mostra que, cedo ou tarde, esses excluídos acordam e, se as leis os favorecem, e já existem, exigem que lhes sejam dados os direitos usurpados por organizações injustas e cruéis. Com sua militância aperfeiçoaram as leis e trabalham pelo esclarecimento da população. É o que se passa hoje no Brasil, quando o racismo, se comprovado, pode custar ao infrator até três anos de cadeia, onde o negro aparece nas novelas, nas propagandas, em posições que nos levam a admirar sua luta.


 
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[1] Questão 916 de O Livro dos Espíritos: O egoísmo, longe de diminuir, aumenta com a civilização, que parece entretê-lo: como a causa poderia destruir o efeito? 

“Quanto maior o mal, mais ele se torna hediondo. Era preciso que o egoísmo fizesse muito mal para fazer compreender a necessidade de extirpá-lo.”

Na resposta à questão 784 lê-se: É preciso o excesso do mal para fazer compreender a necessidade do bem e das reformas, e também, na resposta à questão 785, encontramos claramente formulada essa dialética do progresso social: “É assim que tudo..., no mundo moral como no mundo físico, e que do mal mesmo pode surgir o bem”.


         Maria Eny Rossetini Paiva






                                                                                        PAZ, MUITA PAZ!
Título: Re: O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano Pires
Enviado por: dOM JORGE em 29 de Julho de 2012, 18:57
                                                                      VIVA JESUS!



            Boa-tarde! queridos irmãos.



                   O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano

A Tese do Reino


No empenho de retomar o importante pensamento do filósofo, literato, escritor, jornalista, professor universitário, espírita militante e esclarecido, estamos comentando de forma pessoal, sua obra O REINO, onde Herculano Pires explicita o que vem a ser a tese do Reino, que é a ideia central do pensamento de Jesus.

No capítulo final do livro, mestre Herculano desenvolve a TESE DO REINO – Cap. VIII. O início já vale um livro de história do Cristianismo.

“A tese do Reino tem permanecido oculta nos Evangelhos.”

Conforme já dissemos no primeiro artigo sobre o poema de amor e justiça que é esse livro de Herculano, os Evangelhos contêm mais de uma centena de referências ao Reino de Deus, ou Reino dos Céus. Esse Reino que devia ser implantado sobre a Terra, conforme Jesus previu e João sonhou no Apocalipse, foi aos poucos sendo adiado para depois do “final dos tempos”, quando Jesus voltasse para julgar-nos a todos e separar os bodes das ovelhas. Até mesmo no Espiritismo em que a alusão do Reino é tão clara, em que os Espíritos angelicais preveem que Novas eras no evoluir da história e novas gerações, em ciclos de progresso, aproximarão a Terra cada vez mais do Reino de Deus, a ideia do Reino de Deus está quase abandonada.

Herculano nos diz o por quê. “Porque os homens insistem na tentativa de servir a dois senhores. Mas o anseio do Reino os arrasta cada vez mais à descoberta de sua tese.”

Na época em que esse livro foi impresso e escrito, (1 a 15 de março de 1967), nosso literato reconhece que, naqueles dias, todas as religiões redescobrem O Reino. Mesmo o Catolicismo com a Teologia da Libertação, que dialeticamente se oporia à Teologia da Salvação (que reduz Jesus a um cordeiro imolado para nos salvar da queda a que nos condenou Deus, pelo pecado de desobediência de Adão e Eva), reergue “o estandarte do Reino, com novo entusiasmo”.

Nosso autor declara que esse estandarte divide suas igrejas e lembra Mateus X; 34-36, onde o Jovem Carpinteiro adverte que não veio trazer a paz, mas a espada. Lembra Jesus, que previu que seu Evangelho separaria pais, filhos, mães, sogras: “E os inimigos do homem serão os seus próprios domésticos”. Isso porque Jesus sabia que as exigências do Reino fariam os tradicionais, que se apegam às vantagens passageiras do mundo, lutarem contra os que quereriam ser homens de verdade, novos homens. A guerra e a espada resultam não da violência, mas do clima de luta que os filhos do Reino iriam enfrentar e até hoje enfrentam para alijar do mundo a injustiça e a iniquidade, a mentira e o engodo dos que nos dominam, dos religiosos e dos diferentes narcisismos pessoais e familiares. 

O sentimento de amor só floresce realmente em um clima de justiça. Por isso, a Lei Moral mais importante [1] de O livro dos Espíritos, a Lei de Justiça, Amor e Caridade, começa com a Justiça. Em nossa ignorância e em nosso apego ao tradicional e ao religiosismo piegas, que nos embala desde nossa colonização religiosa portuguesa jesuítica, esquecemos a Justiça. Nossas instituições levam em geral o nome de Centro Espírita Amor e Caridade. Retiramos a Justiça sem a qual o Amor e a Caridade são incompletos, porque ambos se embasam na Justiça. Podemos acaso amar sem fazer justiça aos necessitados? Sem lhes atender, não apenas as necessidades de sobrevivência, mas as de uma boa educação, cultura, equilíbrio interior, liberdade? [2] As lutas que enfrentam os que entendem a mensagem e a tese do Reino de Deus é a luta da incompreensão daqueles cujo egoísmo sufoca a justiça.

Tenho ouvido da boca de muitos, não poucos, confrades espíritas, que a campanha da fome zero do Brasil cria pessoas vadias, que não querem mais trabalhar, vagabundos que nem se incomodam mais em ir buscar a “sopa dos pobres”, porque igrejas, em convênio com instituições do governo, recebem as verbas governamentais para servir almoço e janta, feitos por cozinheiros, nutricionistas, em cozinhas construídas como cozinhas industriais, planejadas e fiscalizadas. Fico pensando, às vezes sem poder expressar, se estas pessoas já passaram fome quando crianças, já tiveram pais alcoolistas que, doentes e dependentes, apenas se preocupavam com o vício, enquanto o lume estava sem panelas e os pratos vazios.

Em Nosso Lar, instituição espiritual, todos têm direito ao mínimo necessário para viver, ainda que não se preocupem em retribuir à sociedade que os mantém com um mínimo de horas de trabalho. Conforme conta André Luiz, querem só os benefícios e não se preocupam em produzir. Mesmo privando-as de receber o que pretendem, são acolhidas, alimentadas e aguarda-se que se engajem no trabalho produtivo com o tempo e a persuasão dos Espíritos dirigentes da comunidade espiritual.

Outros confrades se revoltam com a bolsa família, que é uma forma de distribuir renda e consome apenas um por cento de nosso orçamento federal, alegando que cria uma geração de mulheres vagabundas que vivem explorando os filhos. Esquecem-se de que esta bolsa tem uma série de exigências para ser recebida, mantida, e é controlada por assistentes sociais. As crianças devem estar o tempo todo na Escola, ser atendidas pelos postos de saúde e outras contrapartes das mães que recebem esse auxílio. [3]

Quando a Justiça apenas esboça de maneira ainda muito imperfeita o mínimo para que todos possam sobreviver sem fome e tentar aprender pelo menos a ler, eis que nossos próprios companheiros se revoltam.

Por isso Herculano diz que os cristãos-sociais, os que não pensam apenas no Juízo Final, os que não aguardam tão-somente que Espíritos superiores auxiliem as mudanças, são “atacados pelos materialistas e pelos seus próprios companheiros de fé”. Não apenas entre os espíritas. Leonardo Boff, o Espírito de escol, que honra o Catolicismo com seu pensamento, sentou-se na cadeira de Galileu, interrogado pelo cardeal responsável pela defesa da Doutrina da Igreja (o chefe do que é modernamente a Inquisição) e foi obrigado a se reduzir ao silêncio, proibido de escrever e, depois, suspenso das ordens clericais. Afastado pela mãe Igreja, que o formou, hoje tem um trabalho magnífico de educação de carentes, é ativista de movimentos diversos, escreve, se casou e ainda impressiona os Congressos sociais aos quais comparece, já na terceira idade, com sua cultura e suas teses.

A ação dos cristãos-sociais, às vezes extrapola, explica Herculano, pretendendo envolver suas Igrejas na política mundana. Querem criar partidos cristãos, partidos espíritas, transformando a religião em instrumento de luta ideológica. Herculano nos adverte: “Mas a tese do Reino não é essa”. Jesus, em João XVIII: 36, já esclarece isso.

 
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1. Ver questão 648 de O Livro dos Espíritos sobre a divisão da lei Natural. Os Espíritos se referem à Lei de Justiça, amor e caridade dizendo: “A última lei é a mais importante: é por ela que o homem pode avançar mais na vida espiritual, porque ela resume todas as outras”.

2. Questão 889: Não há homens reduzidos à mendicância por suas faltas? “Sem dúvida, mas se uma boa educação moral os houvesse ensinado a praticar a lei de Deus, eles não cairiam nos excessos que causam sua perda: é disso, sobretudo, que depende o melhoramento do vosso globo.” (negritamos)

3 Veja a questão 874 de O Livro dos Espíritos que nos explica bem isso.


       Maria Eny Rossetini Paiva





                                                                                     PAZ, MUITA PAZ!
Título: Re: O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano Pires
Enviado por: dOM JORGE em 14 de Agosto de 2012, 14:52
                                                                     VIVA JESUS!





          Bom-dia! queridos irmãos.



                   O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano

As teses do Reino


O livro O Reino, objeto de nosso estudo, em seu Cap. VIII, fala-nos com clareza quais as TESES DO REINO, ou seja, como os espíritas devem entender o caminho que nos compete para “secundar o movimento de regeneração social”.[1] É uma visão muito clara que, infelizmente, fica muito oculta dos frequentadores e estudiosos de nossas casas espíritas:

1ª tese – É preciso acender a luz nas almas, para obtermos um mundo de luz. No entanto, Herculano esclarece, como jornalista e intelectual, que conhece perfeitamente como funcionam as coisas do mundo, “se o mundo é o reflexo do homem, esse reflexo também condiciona o homem. Não basta pois a catequese.[2] Melhorar apenas o homem numa estrutura imoral, equivaleria a melhorar a estrutura com um homem imoral”.

2ª tese – Assim, a segunda tese do Reino é a modificação do meio.  Ao mesmo tempo em que acendemos a luz nos Espíritos, é preciso também modificar o meio social que, através dos costumes, da cultura, da ação dos pais e da família, nos faz “beber com leite materno” o veneno do egoísmo e do orgulho. [3] Herculano lembra Ingenieros, “é difícil alguém andar em pé em um meio em que todos rastejam”. Temos que lutar para conseguir melhores condições sociais, educacionais, enfim, tudo o que nos leve a impedir com nossa ação decidida a prática da violência contra o ser humano.

3ª tese – A terceira tese do Reino é a da escolaridade. Todos nós estamos na Escola da vida. Mas, segundo Herculano, a maioria está ainda nas classes primárias. Por isso, ainda que desposem teses absurdas alienantes ou vazias de espiritualidade, é preciso que, com paciência, aqueles que dispõem de maiores recursos didáticos se empenhem em auxiliar uma política de esclarecimento para todos, e é possível, às vezes, com simplicidade, mudar os padrões internos de egoísmo e intolerância.

Lembrei-me de que, no Estado de São Paulo, não se comemoram mais nas Escolas Públicas o dia das mães, nem o dos pais. Existe a Festa da Família. Isso significa um avanço pedagógico, porque assim respeitaremos as crianças e jovens, cujas mães os abandonaram, cujos pais os maltratam e os ensinaremos a homenagear aqueles que fazem o papel de sua família. Mais de 40% das famílias brasileiras têm à sua frente apenas mulheres e, um número bem menor, apenas homens. Algumas famílias são organizadas por avós, outras são famílias com casais que vivem um casamento homoafetivo. Quem são os pais ou as mães nessas famílias? Qual o motivo pelo qual insistimos em impor nossos padrões familiares, às vezes antiquados e injustos, a toda a sociedade brasileira? Por qual motivo desconhecemos o sofrimento que impomos com tal prática a crianças cujos pais nem comparecem e nem se importam com elas, nessas festas? Não seria o tempo de pensarmos nessa realidade e assumirmos esta postura em nossas casas espíritas?

Nessas pequenas, como nas grandes coisas, estamos desenvolvendo as Teses do Reino de Deus. Justiça e Amor.

Na tese da escolaridade vale o aproveitamento, não apenas a presença.

4ª tese – A quarta tese do Reino é a da obrigatoriedade. As leis divinas são obedecidas pelos corpos celestes e os Espíritos, além dessa lei, têm que obedecer as leis morais. Ouçamos Herculano: “Graças a essa obrigatoriedade, quando o Mundo se aproxima do Reino, forçado pelas leis naturais da alma e do corpo, do espírito e da matéria, os retardatários são empurrados por essa força ainda pouco explicada a que chamamos História”.

O genial compositor Geraldo Vandré, a quem a tortura dos anos de repressão no Brasil tirou a lucidez, e que vive hoje uma vida que a imprensa respeita e não divulga, ganhou vários festivais, e em sua música famosa “Disparada” incentiva de modo disfarçado o engajamento na luta política. Diz o refrão da belíssima composição: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Se Vandré acreditasse na quarta tese do Reino saberia que não podemos fazer a hora, se as condições históricas não nos favorecem. Querendo a liberdade de Israel, tanto se empenharam os revolucionários judeus, tentando ingenuamente “fazer a hora”, que acabaram colocando o poderoso exército romano contra seu povo, provocando a destruição total do Templo, e a dispersão dos judeus, pelo mundo. Quem sabe, percebe a hora e ajuda a acontecer. Gandhi percebeu que a hora da libertação da Índia havia chegado, mas para poder agir sem violência contava com uma imprensa internacional livre, com o interesse de alguns países em que caísse a dominação inglesa, pois assim teriam também acesso ao mercado indiano e com sua experiência na África do Sul, onde já conhecia os métodos da não violência. No entanto, teve que enfrentar alguns problemas como a criação do Paquistão, exigida pelos ingleses, para conseguir seus fins e que ele com razão não queria. Afinal, não eram todos indianos, com diferentes religiões? Como Jesus, porém, ainda que amado e reverenciado, por hinduístas e mulçumanos, foi assassinado pelos poderosos que se sentiam, com razão, ameaçados por suas teses de Justiça, Igualdade e Amor.

No entanto, as forças do progresso empurram os homens ainda que não queiram. Em A Gênese, isso é explicado com detalhes no Capítulo XVIII, totalmente esquecido pelos estudos e Cursos de Espiritismo. [4]

Herculano esclarece com maestria. É preciso que o cristão não se extravie pelos atalhos da ideologia e da política. Ele possui o Manifesto do Reino e a Ideologia do Evangelho. Não pode, pois, acreditar que alguém chegue ao Reino estabelecendo uma ditadura, montando um reinozinho que na verdade não traz nova estrutura ao poder, apenas muda os poderosos, mas mantém os arreios e as esporas.

Um cristão pensa sempre nas forças espirituais. Transformar o mundo pela transformação do homem e transformar o homem pela transformação do mundo: eis a dialética do Reino. Uma dialética difícil, mas a única possível em um problema tão complicado.

No final do Capítulo que encerra o livro, o autor explica que o livro era uma tese que escreveu em 1946, e que apenas alterou a forma de apresentação em 1967. Com humildade, diz ter-se embasado em um autor evangélico metodista, Stanley Jones, no seu livro Cristo e o Comunismo, em um autor católico, Jacques Maritain (conhecido pensador católico) e em Cairbar Schutel, em Interpretação Sintética do Apocalipse. Cita Cosme Marinho na Argentina, para concluir que não competem ao Espiritismo nem ao Evangelho as implicações temporais da política. “O Reino de Deus esclarece, está dentro de nós, na aspiração divina da Justiça e do amor que é o próprio reflexo de Deus na consciência humana. E estando em nós está acima de nós, como um arquétipo divino das almas, arrebatando-as para uma vida superior, elevando-as para Deus.”


 
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[1] A Gênese – Cap. XVIII- Sinais dos tempos item 25.

[2] Veja o comentário de Kardec à questão 917 de O livro dos Espíritos.

[3] Observe nesse mesmo comentário que Kardec diz que se observarmos tanto os filhos dos ricos, como os dos pobres, veremos que desde o nascimento são muitas as influências perniciosas que agem sobre eles pela fraqueza, incúria e ignorância dos que os dirigem. Os estudos modernos nos falam, com Michel Foucault, das estruturas de poder que repetem no micro poder (em pequenos grupos, famílias, nas relações de pais ou mães com filhos), as estruturas corrompidas e autoritárias do macro poder (dos governos, das empresas, da economia, enfim).

[4]  Ver, especialmente a partir do item 20 do Cap. XVIII de A Gênese, sobre os tempos “chegados”.


                 Maria Eny Rossetini Paiva






                                                                                 PAZ, MUITA PAZ!
Título: Re: O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano Pires
Enviado por: dOM JORGE em 03 de Setembro de 2012, 11:01
                                                                     VIVA JESUS!




             Bom-dia! queridos irmãos.



                      O reino de Deus, na visão do filósofo Herculano

O Decálogo

O Capítulo VIII do Livro O Reino é denso e profundo. Comentá-lo, transpondo suas conclusões para o século XXI, exigiria muito mais do que esse simples artigo. No entanto, vamos nos ater apenas aos itens fundamentais, sem esquecer que é preciso retomar o estudo de Herculano Pires, em nosso movimento espírita. É ele o único autor que tem o conhecimento histórico, filosófico e a vivência especial dos homens que faziam jornalismo nos meados do século XX, época de grandes mudanças culturais e liberdade. Por isso seu pensamento é fundamental para a compreensão da Doutrina Espírita.

Ouçamos Herculano:

Kardec, em A Gênese, afirma que as religiões sempre serviram “como instrumento de dominação, em virtude da maneira por que apresentam os problemas da sobrevivência espiritual do Homem. Essa é uma das razões por que ele sempre se negou a considerar o Espiritismo simplesmente como religião, pois Espiritismo não se confunde com esses “instrumentos de dominação”. (pág. 148, 149 da obra em estudo.)[1]

“Ao recusar a violência como forma de renovação social, o Espiritismo não o faz por temor das consequências no Outro Mundo, mas por compreender que as consequências funestas se verificam neste Mundo e de maneira imediata. A educação pela violência foi substituída em toda parte pela educação persuasiva.”... “O ser humano é uma consciência que repele as ofensas à sua dignidade. A Criminologia moderna e contemporânea condena as penas máximas e os métodos de violência. As leis arbitrárias e os regimes de força levam à fraude, ao crime e à revolta. Só no plano do desenvolvimento social dos povos devemos então aceitar a violência como um meio para chegar à Justiça e ao Amor?”

Allan Kardec comentando a questão 783 esclarece a necessidade das revoluções sociais: “As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram pouco a pouco nas ideias, germinam ao longo dos séculos e depois explodem subitamente fazendo ruir o edifício carcomido do passado que não mais corresponde às necessidades novas e às novas aspirações”. Esse momento de explosão pode se transformar em luta, em guerra civil. Pois não estamos em nossos dias vendo os países árabes lutando contra a Injustiça e o Desamor, exigindo mudanças e denunciando privilégios à custa de muitas vidas jovens que, no desespero dos protestos pacíficos inúteis, estão dispostos a tudo? A Síria ainda perde hoje milhares de vidas jovens, por insistir na liberdade, na justiça e no bem-estar de seu povo. Talvez estejam achando que é chegada a hora, ainda inexperientes de que o momento pode não ter ainda chegado, como chegou para outros países. Sem apoio de potências estrangeiras, que os veem perecer sem interferir, para não perder suas vantagens econômicas, a carnificina persistirá. Seus próprios irmãos em fé parecem ter-se esquecido deles. Ao longo da História, porém, as Revoluções sociais se processarão cada vez menos por esses meios violentos, as leis se abrandarão e teremos mais equilíbrio e harmonia. As disputas, as lutas ferrenhas, alimentando ódio e paixões não mudarão estruturas sociais. Mesmo revoluções de povos, conduzidas com brandura e amor, como a do povo hindu, com Gandhi, foram incapazes de em curto prazo fazer com que a Índia deixasse de alimentar o espírito de exclusão, de desamor, de desigualdade das castas sociais. Ainda hoje funcionam as castas na Índia, de modo repugnante e revoltante, mantendo os homens escravos de outros homens e com os ritos das castas bramânicas auxiliando a exclusão e a mentira, mesmo com a Constituição na Índia estabelecendo a igualdade. No entanto, fica mais fácil para o processo se as leis estabelecidas pelos que “estão à frente”, no sentido moral, já existirem. O povo aprenderá a exigir o cumprimento delas de modo adequado ao longo do processo.

O processo evolutivo exige que ao lado das leis justas sejamos capazes de vivê-las em nós e trabalhar, para esclarecer e mudar as mentes mantidas na ignorância dos adoentadas pelo orgulho, ganância, desonestidade. No dizer dos Espíritos Superiores, no mundo o mal avança porque os bons são tímidos, e esclarecem: “Os maus são intrigantes e audaciosos, mas os bons são tímidos (no sentido de medrosos, covardes). Quando estes o quiserem, preponderarão. (questão 932)”.

Que a nossa vida seja toda dedicada a viver diariamente o Reino dentro de nós e lutar para impedir que a maldade triunfe fora de nós, com todo o nosso esforço. Os espíritas deveriam ter por lema nunca deixar a maldade avançar, se tiverem meios para impedir esse avanço nas pequenas, como nas grandes coisas, utilizando formas de ação honestas e sem maldade.  O mensageiro angelical e metafórico que inspira as partes principais do livro O Reino dá ao autor, no final, um Decálogo para que ele o transmitisse “a todos os que quiserem entrar para as fileiras dos Trabalhadores do Reino”:

“1) Ao acordar pense no Reino, antes de pensar nas coisas terrenas. E ore. Peça ao Jovem Carpinteiro que lhe dê forças para não se deixar fascinar pelos pequenos reinos dos homens e para amar a todos;

2) Antes de iniciar o seu dia lembre-se e grave na sua mente que tudo o que você fizer deve ser feito a favor do Reino, mesmo no seu trabalho e nas suas mínimas obrigações rotineiras;

3) Afaste do seu coração qualquer ressentimento contra quem quer que seja. Comece o dia com um sentimento de gratidão a Deus pela bênção da vida e pela bênção maior da compreensão do Reino;

4) Faça ou renove o seu voto de humildade, prometendo a você mesmo não ceder ao orgulho, à vaidade, à cólera, à arrogância, à ambição, à prepotência, à violência, pois todas essas coisas conduzem aos reinos dos homens, desviando-nos do Reino de Deus;

5) Prometa manter-se calmo e buscar a serenidade em todas as circunstâncias;

6) Tenha confiança na verdade. Só assim você não perderá a razão quando o injuriarem, caluniarem, disserem mentiras a seu respeito, pois compreenderá que só a verdade prevalece e que ela não necessita da força, da astúcia ou de qualquer manobra para se impor;

7) Busque a pureza; todas as coisas são puras quando as encaramos com amor, compreensão e pureza. Não há atos impuros para o homem que mantém o seu coração puro. É a nossa malícia que faz impuras as coisas de Deus. Evite sempre os excessos que são provenientes do egoísmo, fonte da impureza;

8) Não se esqueça de que o pior dos homens é seu semelhante, seu irmão. Trate a todos com amor e justiça. Mas cuidado na justiça, que nosso egoísmo facilmente transforma em injustiça. E seja abundante no amor, em que somos sempre tão pobres e avaros;

9) Não roube; não aprove o roubo; não elogie o roubo; não queira possuir mais do que o necessário; porque para isso é preciso tirar dos outros e aumentar a miséria do Mundo, em prejuízo da Riqueza do Reino; afaste-se da corrupção do século e dê o exemplo do Amor e Justiça do Reino;

10) Não se apresse nem se iluda, pois o Reino não vem por sinais exteriores; precisamos construí-lo paciente e corajosamente no coração dos homens, pelo nosso exemplo. Amor, Desapego e Pureza são os instrumentos de construção do Reino de Deus na Terra.   Aprenda a trabalhar com esses instrumentos e você ajudará a construir o Reino”.

Adverte Herculano que esse Decálogo tem segredos que só a prática revelará. Praticando-o iremos percebendo que nossa visão vai se ampliar e que nossa compreensão se esclarecerá. Que tal começar agora?
 
[1] A Gênese, Cap. I, item 8.


            Maria Eny Rossetini Paiva







                                                                                       PAZ, MUITA PAZ!